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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

14
Jan11

Au Bonheur des Dames 262

d'oliveira

 

 

Quem te manda a ti, sapateiro?....

(“...the music of years gone by.” Stardust)

 

Corre neste abençoado torrãozinho de açúcar uma série de expressões que raras vezes representam qualquer espécie de bom senso. Entre elas, aquela que assevera que um sapateiro não deve (ou não sabe) tocar rabecão.

Traduzido em miúdos, isto significará que os paisanos como eu não deveriam opinar sobre nada ou quase. Ou ainda menos, vá lá saber-se... então sobre política e economia, a coisa ultrapassa todos os limites. O “saudoso” doutor Salazar sentenciava do alto do seu esfíngico altar que se todos soubessem quanto custa mandar prefeririam mil vezes obedecer. E com isso e uns meigos “safanões dados a tempo” consumiu meio século de poder.

Meio século, uma vida. Agora, que sobre o seu desaparecimento passa quase o mesmo tempo, começa a perceber-se quanto ele influenciou os costumes políticos e quão pouco nos libertámos do seu fantasma. Apetece dizer, como no imortal texto, que  um fantasma Portugal mas talvez não valha a pena gastar cera com tão ruim defunto.

Mas que o fantasma de Santa Comba ainda mexe não há dúvida. Basta atentar no discurso que o doutor Cavaco Silva resolveu oferecer aos cidadãos, melhor dizendo aos súbditos.

O estimável cavalheiro, ora investido das vestes alvas de candidato a Presidente da República, parece ter-se esquecido de que foi Primeiro Ministro durante sete longos anos. E que, antes disso, enquanto estrela ascendente do PPD, praticou um par de tropelias contra um governo onde amigos seus participavam. Os anos, terá pensado, fazem esquecer essas pouco heróicas aventuras, como terão feito esborratar-se nas pregas de uma memória débil a sua saída do Governo, a sua fuga a responsabilidades que desabaram por inteiro no pobre dr. Fernando Nogueira sobre quem recaiu desamparadamente a tarefa de enfrentar um P.S. renascido e pagar as favas de uma governação esgotada e sem imaginação.

Depois, Cavaco, fez uma peregrinação pelo deserto, terá comprado bem e vendido melhor umas participações financeiras (sinal da sua genialidade ou apenas do seu sentido de oportunidade), e na sombra foi tecendo a rede do seu regresso à política activa. Com ele, e voltando a um outro texto imortal, a história também se repetia, mas da segunda vez não seria a comédia a substituir o drama mas tão só uma farsa que em Portugal, país revisteiro, cai sempre bem. Derrotado violentamente por Sampaio, refez, durante os quatro anos do segundo mandato deste, uma espécie de virgindade política que foi paga pela desmemória de muitos e pelos votos de outros tantos. E pela acção subversora de alguém que, como Cavaco (e Salazar, já agora...) também gosta demasiado das luzes da ribalta.

Durante os quatro anos que ora findam o doutor Cavaco viu passar à frente dos seus olhos carros e carretas se é que me faço perceber. Viu o desgoverno crescer. Viu uma sua fiel colaboradora denunciar erros clamorosos e, eventualmente, esperar dele um gesto que nunca veio. Pior, quando decidiu intervir, em off, aliás, fê-lo como uma história de polícias e ladrões, as badaladas escutas a Belém, que deram ao P.S. e ao Governo um vigoroso empurrão de apoio, de tão inermes e tolas que eram. Manuela Ferreira Leite foi tenazmente combatida pela gentinha do costume e saiu pela porta pequena. Como se Cavaco, de facto, quisesse, como o outro e já falado cavalheiro das botas, livrar-se de uma pessoa incómoda. Calçou-lhe um patim, diz-se na gíria politiqueira. De facto, com o triste Passos Coelho (tirado não sei de que cartola, nem para quê) não terá que se preocupar muito, mesmo se ele ganhar alguma eleição. Cavaco preparou o segundo mandato com a gélida determinação e com a impetuosa ambição que só os acólitos mais chegados fingem desconhecer. Não que queira ficar na História. Não quer e duvida-se que possa. Perdeu um tempo, quiçá dois, e a Presidência da República não é lugar que possa permitir grandes extravagâncias.

A pequena burguesia triunfante tem destas miragens: vê brilhar qualquer coisa ao longe e no escuro e não distingue (como em Dante) um pirilampo de um archote. No caso em apreço, toma por ouro o que não passa de purpurina (stardust).

E se falo nisto é porque, e mais uma vez, é o resultado de anos de paciente construção política que vem desde antes de nós e que, para mal dos nossos pecados, continua viçoso no jardim à beira mar plantado.

Dir-se-á que este facto não exime responsabilidades (e muitas) da esquerda entendendo como tal (e por uma vez sem exemplo) a multidão que se acotovela desde o descaracterizado P.S. até ao Bloco e arredores. Contentaram-se com o que havia, fizeram seus muitos dos valores anteriores, permitiram a chatinagem e o desbragamento e agora que se cocem.

Não é por acaso que, nos jornais de referência, apareça triunfante e desbragada uma opinião de “direita” que vai de Helena Matos a Pedro Lomba com passagem por Rui Ramos et alia, que explora com alguma inteligência os pecados e desvarios dos adversários. Claro que, enquanto o fazem, silenciam criteriosamente as pequenas vitórias e as virtudes destes últimos. Lê-los é como se nada tivesse ocorrido: nada. “Du passé faisons table rase...

E têm da política uma visão útil: apoiam indirectamente Cavaco mesmo se, como me parece, não sejam paroquianos da mesma missa. A ideia é simples: está-se num momento único. Graças a uma política incontinente e estulta, o partido socialista corre o risco sério de ser varrido do poder. Com Cavaco a Presidente, a barrela poderia ser total e duradoura. A Direita, muito melhor do que a Esquerda, sabe perfeitamente elidir as suas diferenças, as suas contradições, mesmo as mais violentas, na ara do poder possível. Já o fez uma vez (ver supra) e poderá querer reeditar essa aventura mesmo que, obviamente em moldes menos autoritários. A  Europa, de Sarkozy a Merkel, de Berlusconi a Orban, espera-a de braços abertos.

 

* a gravura não pretende despertar seja o que for. Relembra apenas que há um discurso apartidário que se reconduz nos fins, que não nos métodos, a outros antigos e igualmente anti-políticos.

 

**Boa notícia: o ditador de Tunes, o novo bey, foi à vida. Viva!

 

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