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Incursões

Instância de Retemperação.

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24
Jun11

Au Bonheur des Dames 281

d'oliveira

 Os amigos do povo

 

 

 

Eu tenho um belo grupo de amigos, desses que deram provas (e que provas!) de honra, lealdade, liberdade, sacrifício. É a sina de ser velho ou, pelo menos, antigo, pois parece que a palavra velho agora é um palavrão. Velho, cego, preto, coxo e outras são insultos na nov-língua do politiquês correcto e pronto a usar e deitar fora.

 

Todavia, eu insisto no velho porque seguramente não sou novo, não vou para novo e não quereria ser novo, hoje.

 

Este grupo de amigos (ou grupos pois são vários e os seus elementos desconhecem-se, pelo menos pessoalmente) anda tristonho. Não pelos achaques da idade, pois todos juram ou presumem de uma saúde de ferro, de um vigor incomum, de uma vontade de viver inabalável. Mas pela política.

 

Gente que bebeu a esquerda mais depressa do que a ciência infusa que as faculdades davam em dose indigesta e cavalar no dealbar dos anos sessenta anda assarapantada e desnorteada.

 

Então como é que nos caiu em cima este cataclismo? Que mal fizemos a Deus, ao Progresso, à causa da Humanidade, aos “amanhãs que cantam” ou à razão da História?

 

 Um cristão (é um modo de dizer, mesmo se, na época, a rapaziada solta da família que chegava à universidade ainda vinha carregada de religião) chegava à Porta Férrea e, zás!, aparecia-lhe a política de roldão. Os tempos eram duros, a Universidade agitava-se, Salazar via a Índia fugir-lhe, como lhe fugiam os presos de Peniche e de Caxias, havia raparigas que iam aos cafés, os primeiros turistas entravam pelas praias dentro com notícias da liberdade e pouca roupa.

 

Esta geração de que falo, e onde se recrutam muitos, uma grande maioria, dos meus amigos, mergulhou nessa arriscada e prazenteira vida da recusa aos valores vigentes. Pagaram caro a audácia mas, quase todos, tiveram tempo de assistir à queda do Estado Novo.

 

Viveram os anos setenta e oitenta com paixão e desprendimento material. Queriam ajudar a mudar o país. Depois, descobriram à sua custa que o país mudava pouco, era lerdo e que a espuma revolucionária que adornou ruas, praças, organizações e paredes, disfarçava um velho conservadorismo e uma desconfiança atávica pela liberdade.

 

E que as classes recém chegadas à democracia tratavam por vezes primeiro dos seus interesses imediatos e só depois da comunidade.

 

De tropeção em tropeção, aqui chegámos. Ao pavor de “um governo, uma maioria e um presidente” conotados com a Direita.

 

Eu, mais cândido ou menos inocente, entrado nestas lides mais pela literatura do que pela situação material, desde sempre pouco dado a entusiasmos, achei que, mesmo não gostando, não tinha outro remédio senão aguentar com esta impingem maçadora que me caiu em cima. Provavelmente, valeram-me os tempos (não excessivos mas reais) que penei em celas pouco confortáveis a expensas do Estado do dr. Salazar. Quando se está só e não temos mais do que fazer do que pensar, habituamo-nos a encarar a vida e as suas vicissitudes menos interessantes com algum sangue frio e muita paciência. E uma esperança sólida em melhores dias. E uma pertinaz ideia de que temos de continuar devagar mas com firmeza o velho caminho, reparando as asneiras, pensando as coisas, deitando fora os narizes de cera, os ouropeis e as fantasias, analisando a realidade e os novos tempos, adequando a estratégia e melhorando a táctica que se mostrou frágil ou errada. 

 

“O pau vai e vem” foi a minha divisa nas cadeias para onde me mandaram. Não me surpreendeu, pois, o facto de, tendo já vivido sob maiorias onde Presidente, Parlamento e Governo eram de Esquerda, ser natural que a roda desandasse, sobretudo tendo em linha de conta o desvario destes últimos anos.

 

Os meus amigos sabem isso, compreendem isso, mas não aceitam. Não aceitam de modo algum. E vai daí, deixam cair uma que outra pérola que só o mau perder explica, mesmo que não justifique.

 

Eu bem me esforço por lhes dizer que houve uma eleição, democrática, séria, precedida de um bom mês de avisos, profecias cavernosas, discussões em tudo o que é sítio. Que foi o povo quem escolheu. Que houve uma esmagadora maioria a favor dos partidos que assinaram o memorando da troika. Respondem-me com as abstenções! Como se o facto de uma expressiva quantidade de criaturas se estar total e irremediavelmente nas tintas, retirasse um milímetro de legitimidade ao resultado dos votos de todos os que (e os únicos) se consideram cidadãos!

 

Há mesmo (não entre nós, quand même!) quem diga que foram os “ricos” que votaram! Caramba, tanto rico!

 

Ou que os votantes são uns palermas e votaram o que os bancos lhes mandaram!

 

Hoje, um dizia-me que esta maioria é a mesma dos que gostam de futebol, de fado e de Fátima. E de telenovelas, de iscas de fígado e francezinhas à moda do Porto, retorqui.

 

Claro que o Povo, essa entidade mítica de que todos se servem desservindo-o as mais das vezes, vota mal. Não pensa! Não vê que, tendo a faca e o queijo na mão, corta a mão!

 

O melhor é mandar este Povo ingrato para as Berlengas e importar um melhor, inteiramente novo, nosso, bem pensante e bem votante.

 

Ou acabar com esta chatice da democracia. Para votos mal pensados mais vale haver direito de voto só para intelectuais. Ou ricos. Ou gordos. Ou altos, loiros e de olhos azuis, arianos, numa palavra.

 

O voto representa uma vontade obscena de mandar, de mudar as regras, os hábitos ou as atitudes.

 

Se as pessoas soubessem quanto custa mandar, de certeza que prefeririam obedecer sempre (Salazar).

 

Então, malta?

 

 

 

  

 

 

 

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