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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

Estes dias que passam 229

d'oliveira, 19.01.12

 

 

O ovo da serpente 

 

Os leitores terão reparado que, de há bastante tempo a esta parte, me esforço por tentar definir fragilidades do poder político em Portugal. Esta crise não nasceu por obra e graça do divino Espírito Santo, não castigo de Deus e, muito menos, produto de uma cavilosa conspiração estrangeira contra o jardim à beira mar plantado.

 

Esta crise é nossa, muito nossa, foi cá encomendada, vimo-la vir, vimo-la crescer e só depois de estar yudo de pantanas é que, de calças na mão, fomos ter com os usurários da troika para que eles nos garantissem o pão nosso de cada dia.

 

Em tempos de crise, todos ralham e ninguém tem razão, ou, pelo menos, é isso que se diz. Será, mas sobretudo em tempos de crise, crescem a raiva, a indignação, a revolta e algumas outras e piores mazelas.

 

Hoje o “Público” traz a notícia das conclusões de um estudo sobre a qualidade da democracia. Abstendo-me de considerar o texto da jornalista S José Almeida, apenas me reporto aos dados mais relevantes que são juntos em gráfico. Assim:

 

Apenas 56% dos portugueses inquiridos entendem ser a democracia a forma ideal de Governo. 15% assume a preferência por um governo autoritário e há ainda, para além do vultuoso lote dos que não sabem, uns inacreditáveis 10% que acham que lhes é indiferenta a forma de governo. Ou seja, e em primeira e precipitada conclusão: o bloco anti-democrático tem potencialmente 25% de vozes.

 

Num segundo momento aparecem as conclusões sobre o maior defeito da democracia em Portugal. Convenhamos entre a falta de confiança nos políticos, a acusação de falta de eficácia dos mesmos se reúne uma multidão de 30%.  E se repararmos que a corrupção (e não é a Zé mas a outra, a boa, a que dá lucro e poder) vem em 4º lugar com 10% obteremos um resultado perigoso e impensável.

 

Num terceiro quadro verifica-se que os sindicatos e os partidos políticos são em conjunto considerados pelos inquiridos como instituições  que dão voz às preocupações dos portugueses. Ambos somados constituem apenas 20% ou seja estão abaixo da figura presidente da República que soma sozinha, vá-se lá saber como, 22%. Quanto aos autarcas a sua boa fama apenas colhe o apoio de 7%. É obra

 

Ha mais quadros e, seguramente, que quando se conhecer o estudo na íntegra, poder-se-á pensar melhor neste fenómeno.

 

Eu apenas refiro estes três items porquanto da sua conjunção, cruzamento ou o que quiserem, sai um retrato cruel e sinistro do país que temos e do povo que, neste momento, eventualmente, somos.

 

Digo eventualmente  porque neste género de coisas há sempre que jogar pelo seguro. Afinal os inquiridos, mesmo que escolhidos criteriosamente (coisa que dou por adquirida dado o perfil dos autores do estudo) apenas são cerca de 1.200.

 

Todavia, as amostragens têm algum rigor e devem ser, com todos os cuidados, olhadas com atenção. Algo está mal, por cá. Ou, melhor dizendo, algo preocupava os portugueses em Julho do ano passado, altura do inquérito. De então para cá, aposto que as coisas pioraram e que a percepção dos cidadãos é ainda mais angustiante.

 

Num país medianamente civilizado, a Bechuanalândia, por exemplo, isto seria um escândalo, haveria protestos, o poder tremeria e a pressão popular teria já obrigado o poder a propor reformas de fundo. E essas iriam certamente desde a reformulação das leis eleitorais até à implosão do sistema municipal, esse mesmo qque alguns cavalheiros entendem perfeito, e que se traduz nessa risível mediocridade que é a de apenas 7% dos cidadãos considerarem os seus representantes autárquicos como sólidos defensores dos seus direitos. Sete por cento!

 

Ainda ontem num comentário a um outro texto eu fazia alusão à caricata situação do governo pluripartidário nas câmaras municipais. Aos truques e baldrocas que genera, à falta de funcionamento democrático dentro da vereação, à clara desqualificação dos vereadores da oposição, ou, pior, a paz podre que muitas vezes atinge a vereação confundindo políticas diferentes numa espécie de consenso que só aproveita à maioria. E, de passagem, relembro, que agora anda toda a gente muito preocupada com o magno problema de saber se um presidente de câmara que já cumpriu todos os mandados admitidos se pode candidatar a uma câmara vizinha. Atentos os interesses em jogo, é evidente que não pode mas como se sabe, não vai ser essa a conclusão dos cavalheiros que têm o poder de clarificar a situação. Assim e por mero exercício poderemos ter o senhor Presidente da Câmara do Porto a concorrer a Gaia enquanto o dr. Meneses, o ferrabraz dos sulistas e elitistas a avançar para a cidade pretensamente invicta. O jogo até pode ser a três ou quatro metendo outros autarcas em fim de mandato e pondo-os a todos a jogar aos quatro cantinhos.

 

Sobre o tenebroso quadro do defeito maior da democracia, relembro outra vez que a regra de pôr os deputados a serem eleitos em cabazes os torna ainda mais distantes dos eleitores. Estes não sabem a quem acudir para se defenderem. Em Portugal, ao contrario do que se passa em países bárbaros como a Inglaterra, os Estados Unidos ou a França, não se vêm deputados a receber as pessoas que os elegeram e que eventualmente lhes poderiam pedir responsabilidades. Eu prefiro um deputado a que chame meu, mesmo se a criatura com o tempo se torne eterna a ver sentados no parlamento as caras lúgrubes de um punhado de anónimos escolhidos pelo aparelho e votados em grupo muitas vezes escorados em uma ou duas figuras que as pessoas consideram. Nem os deputados se consideram representantes dos eleitores nem estes se vêm de facto representados por alguém a quem conhecem e podem a todo o momento interpelar.

 

Quando os cidadãos lançam o labéu de incompetência e corruptibilidade sobre um inteiro grupo, por impossibilidade de destrinçar o trigo do joio, é tempo de tomar decisões. De andar para trás de refazer o caminho, numa palavra de reformar a bem para prevenir o mal.

 

Este país, vosso e meu, está doente. A coisa não vai com pachos de mostarda nem com caldos de galinha. A menos que, ande por aí alguém à espera que a árvore caia. De podre. Como a Monarquia em 1910, a 1ª República em 26 e o Estado Novo em 1974.

 

Não foi a força das armas que deu estes resultados. Foi a falta de defensores do regime que era atacado. E isso começa quando as maiorias democráticas começam a esboroar-se.

 

56% ? Arre, diabos!  

 

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