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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Diário Político 186

mcr, 11.11.12

 

 

  Política (?) epistolar

 

Um grupo de cidadãos entendeu vir a público para dizer à senhora Merkel que ela não é bem-vinda.

Parece que os referidos cidadãos acham que a senhora em questão manda e desmanda no actual Governo português.

Desconheço em que é que se baseiam para dizer tal coisa mas não consigo entender por que razão  é que tiram aos ingleses (e desde o célebre tratado de Metween…) e a mais um par de povos europeus a mesma qualidade de mandadores e fazedores de Portugal. 

 O PCP, e até o BE, têm nesse domínio uma larga tradição: Portugal é uma espécie de pau mandado dos monopólios internacionais. Nisto seguiam uma velha cartilha, altamente revolucionária e incansavelmente usada pelo Komintern, primeiro, e pelo Kominform. depois. Digamos que fazia parte da famosa "langue de bois" comunista esta acusação, repetida até ao estertor da queda da URSS e conservada por alguns incorrigíveis nostálgicos. Suponho, até, que, no seu foro íntimo ou numa trivial roda de amigos, isso ainda seja uma expressão favorita do senhor Jerónimo de Sousa.

Esta velha acusação tinha uma vantagem: dava para todos os tempos, países e circunstâncias. No caso dos desavindos cidadãos agora alvoroçados pela presença da teutónica, a coisa é mais pobre. Suponhamos que a Frau Merkel sai do poder. E que um Herr Qualquer Coisa, eventualmente membro do SPD, ganha as eleições na Alemanha e continua a defender a mesmíssima política merkeliana, mesmo se, como convém, algumas palavras mudem. Ou ainda, o que também não é improvável, que em breve a Alemanha passe a ser dirigida por uma "grande coligação". Algum dos respeitáveis cavalheiros e senhoras subscritores julga, numa alucinação piedosa e patriótica, que a política alemã, quanto ao deficit e à renegociação dos tratados da União, vai mudar?

Não sei se alguma das cândidas e patrióticas almas, ora inimigas da vinda de Merkel, sabe alemão. E se, na improvável hipótese de saberem um pouco mais do que o "der, die, das", se dão à culposa tarefa de lerem a imprensa alemã. Ou, vá lá, de ouvirem os noticiários televisivos alemães. E se, tendo efectuado estas aberrantes tarefas filo-tudescas, perceberam que na Alemanha há um generalizado consenso (comum a um grande grupo de países do Norte) sobre o tema escaldante de emprestarem dinheiro, perdoarem dívidas, ao Sul, nos exactos termos em que algumas vozes desse mesmo Sul exigem.

A senhora Merkel, conservadora nada e criada no "frio" universo da DDR sob os auspícios de uma coisa chamada (ó sombria metáfora!) Partido Socialista Unificado (SED), vem cá.

Não sabemos, ninguém sabe, ao que consta, qual o exacto termo das conversas que virá ter com o Governo português.  Não serão demasiadas dado que só por cá permanecerá seis horas, incluindo nisso uma qualquer convenção, almocinho, intervalo para xixi e tempo para deslocações. Para os voluntariosos manifestantes, a senhora vem conhecer de perto o "Protectorado" e com a companhia de um cento de empresários germânicos (a nova Waffen SS ?) tenciona comprar a preço de saldo o património português entretanto privatizado.

Eu, que não conheço a "gnadige Frau" de parte alguma, que não morro de amores por tudescas fortes e com péssimo gosto para se vestir, prefiro prudentemente aguardar para me poder pronunciar. E, entretanto, lembrar que, até ao momento, são uns cavalheiros chineses, uma senhora angolana (sob vários pseudónimos…) um par de brasileiros e algum colombiano (ou venezuelano) que vieram até cá às compras. De alemão, no jardim lusitano, só me lembro da Auto-Europa cujos operários todos os dias rezam para cá se conserve.

Verifico, sempre pelos jornais, que os subscritores entenderam escrever a Merkel porque o Governo "deixou de obedecer às leis deste país e à Constituição da República".Pelos vistos sem uma queixa ao Tribunal Constitucional, devidamente fundamentada já agora (são as criaturas que falam em leis e constituição, isto é remetem para a esfera do jurídico o que, a meu apoucado ver deveria ser político).  

Mesmo dando a este argumento a parca valia que ele teria, sempre me interrogo se, ao escrever a Merkel, os afadigados subscritores não estarão já a reconhecer à Alemanha (de facto que não de jure) um poder que nenhuma convenção internacional, nenhum Parlamento (sequer o alemão), nenhum Tribunal –e sobretudo  o poderoso Tribunal Constitucional  alemão, para já não falar do nosso – um poder que ainda não tem e que, perdoem a minha dúvida, desconfio que a Alemanha não quer. Há colónias melhores e menos endividadas para preencher alguma ideia de “Lebensraum” que o alegado novo “Reich” poderia ter. Em termos de mero “Anschluß” teríamos ainda o problema de não haver fronteiras comuns, coisa não despicienda mesmo para os subscritores que, parece, estão ainda algures na década de trinta do século passado.

Repegando, todavia, nas compras recentes de empresas portuguesas, não me recordo de ver a veneranda assinatura dos subscritores nos contratos com as Repúblicas Populares da China ou de Angola. Será que, nesses casos, estamos perante benfeitores anti-capitalistas e anti-colonialistas aos quais ligar os destinos das nossas antigas empresas longe de ser uma vergonha é antes um acto de internacionalismo proletário e patriótico mesmo que eu não veja o o senhor Ingmar Bergman, perdão, António Pedro Vasconcelos de túnica à Mao e livro vermelho não mão enfebrecida?

Os escreventes cidadãos relembram profética e ameaçadoramente a Merkel que no próximo dia 14 a Europa e mundo irão ver de que farinha são feitos (eles, claro e os cidadãos portugueses em geral). E reafirmam a sua solidariedade com os povos arruinados pela Alemanha incluindo nessa lista  o “sofredor povo alemão”. (!!!)

Isto seria enternecedor se não dosse pungentemente ridículo.  Se a carta subscrita em Novembro de 2012 tivesse seguido o seu destino em 2002, 1992 ou até antes, ainda perceberia. Mas ninguém viu estes patriotas criticar a adesão à União europeia, ninguém os ouviu puxar as orelhas aos governos anteriores nisto incluindo o último de Cavaco ou o de Guterres. Nessa altura, provavelmente achavam que tudo corria bem, no melhor dos mundos possíveis como afirmava o professor Pangloss ao seu cândido discípulo.

As coisas correm, infelizmente mal, pessimamente. Graças ao Governo absurdo mas legitimado nas urnas, à Oposição grotesca (igualmente legitimada) a uma inteligentsia sem pudor e sem propostas nem ideias, eis que Portugal está tão mal ou quase, como no tempo em que Voltaire escreveu “Candide ou l’optimisme”. Só que dessa feita tínhamos sido vítimas de um horroroso terramoto e, para sorte nossa, quem mandava era o marques de Pombal que, hoje em dia, é apenas uma estátua.

Ora aqui está uma coisa  que, tenho uma fundada suspeita, nenhum dos subscritores da carta a Merkel espera. Vá lá que, ao menos nisso, são lúcidos.

E a carta? Simplesmente ridícula. E inútil. E contraproducente. Mas isso é com eles. 

 

 

 d'Oliveira fecit 11.11.2012