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Incursões

Instância de Retemperação.

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28
Nov12

au Bonheur des Dames 337

d'oliveira

Carta ao condutor desconhecido

 

 

 

Caro Senhor

 

Não querendo ser apodado de misógino, apresso-me a justificar a escolha de sexo do destinatário. Como adiante se compreenderá, não creio que uma mulher, mesmo com a carta recém tirada, seria capaz de me dar um toque no carro e se pôr a mexer sem dizer água vai. As mulheres, e sobretudo as mulheres portuguesas, são automobilistas conscientes e responsáveis. Só um homem, mesmo português (ou por isso mesmo) é que, depois de ter dado uma porrada na viatura inocente estacionada ao lado, se punha a andar pensando encantado que a culpa era do parolo que tinha ousado pôr o carro ao lado do dele.

 

Portanto, e voltando à vaca fria, no caso à viatura ligeirtamente abalroada, volto a escrever: Caro Senhor

 

No caso em apreço este “caro senhor” deve ser lido cum grano salis. Eu queria dizer “ó meu grande fdp”, ó biltre ensimesmado”, “ó sacana do catorze”... etc, etc...

 

Todavia, num blog sério e responsável, lido pelas melhores elites do país , ou pelo menos, por um par de criaturas sem mais que fazer, há normas de cortesia a respeitar e esta do “senhor” antecedido por excelentíssimo, ilustríssimo ou simplesmente caro, é de uso.

 

Ora então vejamos: segunda feira passada, a pedido (ou exigência) da minha cara metade, deslocámo-nos ao “Corte Inglês” para comprar duas ou três coisas no supermercado. Acabaram por ser trinta ou quarenta mas isso é o que sucede a quem vai acompanhado da mulher amantíssima em vez de ir sozinho (como de resto é costume) fazer as compras da semana, ou simplesmente do dia.

 

Estacionei a minha viatura (termo que me foi recordado, hoje mesmo, por um agente da GNR que me mandou parar para me autuar por excesso de velocidade) dentro das linhas convencionais que determinam o lugar de cada viatura (cfr, fraze anterior). Procurei um local retirado das zonas de mais circulação já por (afinal desnecessária) precaução.

 

E fui percorrer a minha via crucis no supermercado.

 

Quando regressei ao local onde deixara indefesa e frágil a minha “viatura” eis que descobri um pequena raspadela no canto traseiro esquerdo. Nada de muito grave mas também naada que com uma esfregadela de desperdício pudesse desaparecer.

 

Caro e desconhecido cavalheiro que num repente de mau génio e pior condução roçou o meu carro e desandou como se nada tivesse acontecido: não o censuro (ou não o censuro demasiadamente) pelo facto de se ter posto ao fresco depois de arranhar o meu pobre veículo. V. lá terá pensado que também levava uma mossa idêntica pelo que, em democracia, nesta democracia, o sacrifício deve dividir-se por todos.

 

E, provavelmente não quis deixar um pequeno recado no meu para-brisas por razões todas elas ponderosas: não trazia caneta, ou trazendo-a faltava papel, ou tendo ambos não sabe escrever, ou não me queria surpreender usando um método civilizado de se mostrar responsável e educado.

 

E fez bem. Eu tenho desde há muito uma ideia pouco optimista sobre os meus compatriotas e se alguma coisa me espantaria seria aparecer-me V. com ar de Egas Moniz, de corda ao pescoço, a desculpar-se pela sua imperícia e a propor pagar o estrago mesmo se ligeiro num carro que, passe a imodéstia, parecia novo em folha.

 

Depois, eu no que toca a raspadelas no carro, sou muito cioso. Quem estraga o veículo, a viatura ou seja lá o que for, sou eu. Eu e mais ninguém. Tenho-me na conta de condutor distraído e relapso pelo que uma raspadela, uma amolgadela, enfim, um qualquer aleijão no carro devem-se a mim e só a mim. E levo esta mania a extremos estranhíssimos. Se porventura acerto na viatura de outrem, deixo um papelinho no carro a vangloriar-me da minha façanha e a pedir que me contactem para pagar a conta da oficina e assim ficar com um documento provando que aumentei em mais uma unidade o meu palmarés de choques, próprios ou alheios.

 

V. ao não dar notícia da sua identidade, deixando uma raspadela orfã de pai e mãe, priva-me de averbar  no meu currículo este incidente. Em boa verdade, o pudor, o pundonor, o orgulho não me permitem avocar este vago risco. Imagine o que posso dizer ao garagista amigo (e grato) que me trata do Jetta: “ó senhor fulano, bateram-me e deram às de vila Diogo!”

 

V acreditava? Eu também não. “Olha para o entrevadinho. Guia pior que uma toupeira asmática e agora arma ao pingarelho! Pensa que é um Ascari e afinal nem de triciclo devia andar. A quem é que o gajo pagou para arranjar a carta?”

 

Não creio que V frequente blogs, ou pelo menos este. No entanto, há milagres e, com a mesma fé que me fez, in illo tempore, acreditar no senhor engenheiro Sócrates, e agora no senhor doutor Passos Coelho, atiro esta mensagem para o éter, esperando que, como o apregoado fim do deficit lá mais para o Verão, ela encontre destinatário capaz, menos ingénuo do que eu, ou seja, o encontre a Si. Prometo que não lhe peço dinheiro nem que me repare a “viatura”. Ao fim e ao cabo só queria ver a cara de um bardamerdas incapaz. Será pedir muito?

 

De V.ª Exª, muito cordialmente

 

mcr

 

 

 

 

 

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