Au bonheur des dames 336
Sic transit Gloria
Uma senhora deputada do P.S. foi apanhada pela polícia a conduzir com 2,41 gramas de álcool por litro. A coisa ocorreu a altas horas e será um dos máximos históricos registados no “torrãozinho de açúcar”. A representante do povo e desta desgraçada “cidade invicta” tinha ainda por cima participado em acções sobre segurança rodoviária! Convenhamos que é um “must”. Como deputada e digna representante dos que a elegeram era também membro da comissão Nacional do P.S. (o que nem é importante, convenhamos) e, pasme-se!, faz parte da Comissão para a Ética, Cidadania e Comunicação entre outras funções no parlamento.
Dá para dizer que a senhora deputada “ia como um carro” o que seria de somenos se ela própria não fosse de facto num carro. Na cidade, em plena noite, onde circulam pessoas sobretudo à sexta feira, dia (ou noite) em que os bares (uma infinidade!) se enchem de criaturas para as quais provavelmente não há crise.
Ou que terão nervos de aço. A senhora que ia “como o aço”, pitoresca expressão muito em uso na minha descuidosa mocidade, teria festejado com amigos os seus recentes trinta e sete aninhos. Isto porque, como se sabe, nesse dia a senhora não fez mas perfez, trinta e sete pouco robustas primaveras. Fortemente robustas porque aguentar cerca de 2,5 gramas sem cair redonda para o lado é obra. Como é obra conseguir meter-se no carro e circular por aí (por ali, aliás...) sem se estampar contra o primeiro candeeiro. A menos que a solícita polícia a tenha colhido perto do local onde os festejos tenham ocorrido.
Ora aqui temos uma émula da Maria Parda enaltecida por Mestre Gil vai para quinhentos anos. Com uma diferença: aquela Maria vinha das classes baixas, não presumia de dama e era claramente uma criatura que se locomovia a pé. E só bebia vinho e, porventura, aguardente. Não ameaçava a segurança dos transeuntes a menos que aos tropeções rua fora lhes desse algum encontrão.
Todavia, deste “fait divers”, conviria tirar algumas conclusões.
Em primeiro lugar, convenhamos, que beber o suficiente para revelar 2,4 gr no balão é, permitam-me a metáfora, carregar no acelerador. Forte e feio!
Eu nada tenho contra os bêbados se bem que deteste frequenta-los e não lhes ature as bojardas e o mau hálito. E o vociferar imbecil. A violência e a incapacidade de assumir responsabilidades. Mas, nesses casos, suponho que podemos julgar que são vítimas de doença (e tive amigos que morreram alcoólicos!), O que é insuportável é os bêbados sociais, os que acham “porreiro” mostrar que aguentam os copos, os que fiados na sua capacidade de beber sem consequências arriscam a a vida deles e, mais grave, infinitamente mais grave, as dos outros.
Não gostaria de me armar em moralista (eu mesmo já fui apanhado em excesso de velocidade e de nada servirá dizer que isso ocorreu numa auto-estrada deserta, com um carro extremamente seguro e atestado apenas de um copo de leite, outro de sumo de laranja e um café.) mas esta historieta tem alguns contornos que nos deveriam fazer pensar.
Descontemos a borracheira que se não era de caixão à cova pouco faltaria. Então a criatura bebeu-lhe forte e feio e (a menos que a celebração tenha sido a sós) ninguém se lembrou de a não deixar ir naquele estado? Chiça, que com amigos destes mais vale fazer anos a 29 de Fevereiro. Ou a 30 para ainda ser menos vezes!
O segundo ponto prende-se com as funções da criatura. Que diabo, mesmo que ser deputado nos tempos que correm seja coisa de duvidosa relevância, é o que temos. E neste caso, a pobre senhora até pertence à Comissão de Ética! E de Cidadania! Eu sei que se dizia que beber é dar de comer a um milhão de portugueses. Nem tanto, nem tanto, claro mas enfim. Todavia, algo me diz que não seria vinho o que a senhora ingeriu. Ponhamos um par de espirituosos, a rematar um jantar festivo mais regado. Copiosamente regado se atentarmos no facto da criatura ter sido felizmente apanhada cerca das três da manhã!
A segunda questão que eventualmente me preocuparia se eu ainda esperasse algo da deputadagem que por aí circula é esta: a senhora achou que não valia a pena desculpar-se perante os que a elegeram. Pelos vistos, já passada a bebedeira (mas acaso em ressaca) limitou-se a dizer, e cito: “agradeço o seu contacto mas não vou fazer nenhum comentário”.
Notem a arrogância! E a incapacidade de perceber! Notem, igualmente, a toleima de um qualquer porta voz do grupo parlamentar a que a senhora pertence que entendeu não dever fazer comentários. Também ele. Estes pobres diabos ainda não perceberam – e duvida-se que alguma vez se lhes ilumine a cabecinha – que mesmo sem condenar, sem fazer julgamento público sempre poderiam dizer um par de generalidades sobre o facto de conduzir em estado de notória ebriedade, sobre o crime de o fazer (e é crime conduzir a partir de 1, 2 gramas, exactamente metade do que se verifcava no caso em apreço) , sobre o desgosto que se sente por isso, sobre, por exemplo, a posição do Partido quanto ao facto de, em casos destes, não parecer justificável invocar o estatuto de deputado.
E, já agora, sempre é possível perguntarmo-nos se a criatura tem condições para continuar sentadinha naquele areópago que, mesmo medíocre, é o que há de mais parecido com uma assembleia legislativa, ou seja com um poder fundamental. Pelo que sei. esta é a primeira vez que o nome da deputada aparece nos meios de comunicação. Da sua pretérita actividade, nada ou pouco como será o caso de ter dito qualquer coisa sobre segurança rodoviária. forte coisa há de ter sido dado o que agora sabemos.
Resta-nos esperar para saber se desta aventura, felizmente sem vítimas (exceptuando o bom nome da cidadã mas isso é com ela), haverá ou não consequências. Se julgam a criatura, por exemplo. E se, julgando-a, os senhores juízes a tratam como qualquer outro cidadão. Mesmo se esta cidadã, pela cultura, pela educação e pelas responsabilidades políticas, não mereça a mesma desculpa de um pobre borracho ignorante e a braços com uma vida seguramente menos confortável. Mas isso é um outro falar.
* na gravura: uma versão de "Maria Parda"

