Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

21
Fev13

Estes dias que passam 291

d'oliveira

 

A falar é que a gente se entende...

 

A gravura que orna este folhetim é a da célebre "boca da verdade" existente numa igreja romana.  Convirá, porém, ter presente que esta boca também poderá ser a da "cloaca maxima" ou mesmo uma simples tampa de esgoto. 

Isto vem a propósito do meu texto de ontem, texto que volto a reivindicar, obviamente. Quando digo que é preciso acossar a gentuça que anda por aí a fingir que obra por nosso bem, refiro-me em primeira mão aos mais responsáveis, ou seja ao ajuntamento disléxico a que chamam piedosamente Governo.

Mas não fiquemos por aí. 

No parlamento (e fora dele) por terras da província e até em Paris anda muita criatura com responsabilidades idênticas ou mais graves. Os portugueses no seu conjunto viabilizaram governos incapazes, desleixados e incompetentes. E essa responsabilidade cabe a todos nós. A mim e a vocês, leitores, amigos e companheiros. 

E viabilizaram essa aventura incerta e prometida a um naufrágio inevitável porque é sempre mais simpático ir atrás da miragem e fazer dos nossos desejos realidade. 

aqui mesmo, denunciei, em seu devido tempo, uma benesse retributiva que mais não era do que um truque eleitoral. E quão isolado me senti. Não que alguém me tenha saído ao caminho, nada disso. foi o silêncio, o espesso silêncio, o assobiar para o lado que me responderam. 

Eppure..., e porém, como se previa naquele tempo, como se verifica hoje, foram desvarios desses que nos conduziram a este atoleiro. 

Assiste-se, sem surpresa mas com indignação, ao branqueamento do passado recente, como se a troika fosse um meteorito imprevisível aterrado cerca da Torre de Belém.

Assiste-se, com igual indignação, aos gargarejos de partidos que agora falam de quão mau foi o acordo mas que, na altura própria, nem se dignaram dizer isso mesmo aos cavalheiros que a Europa e o mundo nos enviaram. 

Viu-se, durante semanas, uma irresponsável multidão de políticos pedirem um Monti, como se não soubessem que os salvadores da pátria - a existirem - podem começar mansamente e terminar a governar sozinhos e durante dezenas de anos. 

E não nos enganemos. A História do nosso século XX mostrou como uma República desgovernada segregava, ela mesma, a sua queda, os agentes dela e encenava a sua morte. foram rerpublicanos, foram políticos eminentes ex-governantes da República e não monárquicos ou "talassas" os fautores do 28 de Maio. Até maçons havia nesse grupo. E pouco importa se alguns deles (e por todos Cunha Leal entre os civis ou Cabeçadas o militar) depois entenderam passar-se com armas e bagagens para o "reviralho". como pouco importa se, dentre o quadrado dos fieis salazaristas saíram mais tarde, alguns dos principais e mais activos oponentes do regime.

A primeira questão que se põe é simples: queremos viver em democracia ou estamos prontos a entregar o nosso destino nas mãos de um patriarca "benigno", distante, frugal que usará a sua autoridade indiscutida para nos guiar para a terra do leite e do mel?

A segunda questão será esta: queremos viver livremente, mesmo sabendo que o caminho para a prosperidade não é aquele que trilhámos até agora mas algo de muito mais áspero ou estamos disposto a apostar nessa fantasia de vitória em vitória até à derrota final?

Por outras palavras, e esta tem alvo claro: queremos ser europeus e ocidentais ou estamos dispostos a ouvir um par de sereias, bem velhas por acaso, que nos prometem tudo para acabarmos numa Albânia, mais pobre e traduzida em calão? Ou será que os arautos dos amanhãs que cantam têm outro roteiro que não nos revelam nem nós conseguimos adivinhar? 

Sou claramente, como pede o líder parlamentar do PSD, a favor do diálogo político e reconheço a todos o direito na exprimir a sua opinião. Todavia, o diálogo e o direito a ser ouvido com respeito e atenção, exige, da parte dos governantes, respeito pelos governados. As pessoas não são números, não são fungíveis, não são só massa inerme e inerte, têm o direito a ser esclarecidas sobretudo quando lhes pedem mais e mais sacrifícios.

E não basta vir dizer que se herdou uma situação horrenda. Isso já nós sabemos, tanto assim que, de um acto eleitoral para outro se modificou radicalmente a maioria governativa. A herança tem dois anos, Sócrates é apenas uma memória obscena mas ninguém da outra banda (do outro bando) arriscou ir até ao fundo da questão. Quando é que isto começou a desandar? Foi só Sócrates? Foi também o fugaz (e fugitivo) Durão (que até falou no país de tanga, coisa aliás verdadeira que uma esquerda imbecil entendeu criticar num riso tolo e alvar)? E Guterres? Acaso não perdeu a cabeça e resolveu, para se afirmar, gastar mais do que devia e a prudência aconselhava? E certas liberalidades da fase final do cavaquismo quando já era evidente o cansaço dos eleitores e a ameaça de uma nova etapa política?

Portanto, o debate. Civilizado e com regras. Reconhecendo ao adversário os mesmos direitos e os mesmos deveres. Não basta como Luís Montenegro afirma, bradar que é o Governo que está a ser impedido de usar a sua liberdade. Está, obviamente, a ser enxovalhado porque por fas e por nefas permitiu que as coisas chegassem a este ponto. Cidadãos a quem é negada a informação comportam-se de maneira não informada. Sobretudo se, e isso pode ocorrer, alguém lhes disser para o fazer. Houve da parte de Montenegro um angelismo que a Oposição mesmo não respondendo aproveitou. O diálogo na Assembleia da República foi de surdos. Mas não de mudos, diga-se, que a asneira foi muita e  peregrina.  

E finalmente: Relvas, esse eterno politiqueiro, teve bem o que merecia. Do mesmo modo que ele troçou do Ensino universitário aproveitando a frouxidão da Lei, o desvario de um Reitor e a falta de ética de uma instituição universitária para se alcandorar ao risível posto de licenciado numa coisa sem importância e sem mérito, eis que estudantes que estudam, que se indignam, que temem pelo seu futuro enquanto escolares e enquanto futuros licenciados sem emprego nem futuro, lhe vêm dizer que a realidade, a áspera realidade toca a todos, a vítimas e a vitimadores, a sujeitos passivos e a quem detém o fugaz poder que não sabe e não merece exercer.

(obviamente não comento o episódio de um auto proclamado clube dos pensadores, raio de designação tão ufana quanto vazia e tola, onde meia dúzia de criaturas cantaram a destempo a Grândola e um energúmeno mandava em gritaria calar uma criatura. Aos berros não se pensa antes se dispensa o pensador... E Relvas, sempre ele a fazer o seu papel, se tanto se pode 

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.