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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

au bonheur des Dames 345

d'oliveira, 08.11.13

 

Carta a um “leitor atento” e, sobretudo, generoso

 

 

 

Eu deveria responder-lhe em comentário no texto que V., generosamente gabou. Todavia, quando o ia  fazer, lembrei-me que talvez a resposta desse matéria para um post, na medida em que esta minha já longa colaboração no blog tem na base uma historia, enfim uma historieta que, eventualmente o divertirá a Si e a um par de outros leitores.

 

Comecemos, como diria um saudoso professor de Direito, pelo princípio.

 

Este que traça estas mal alinhavadas linhas foi, é e será (se a Parca o permitir) um  leitor. Um leitor compulsivo, se quisermos, mas um leitor. Nunca lhe passou pela cabeça desatar a escrever algo mais do comunicados académicos, quando era mester e as lutas universitárias dos anos sessenta o exigiam. Ou pequenos artigos, fundamentalmente notas de leitura numa excelente revista que ainda circula mesmo se muito diferente, e se chamava “Vértice”.

 

Fora disso, logo que se apanhou com o canudo na mão, apenas literatura jurídica como competia a um jovem advogado que tentava ganhar para o pãozinho e a manteiga.

 

Todavia os tempos ásperos (principio dos anos 70) pediam mais e lá me atrevi a colaborar num jornalzinho simpático em papel  cor de rosa  que se publicava na Madeira. O jornal era ousado politicamente falando e as prosas que lá meti, idem, aspas, aspas. A Censura cevava-se na minha escrita à grande e à francesa. Por cada texto que viu a dúbia luz do dia, dez houve que de tão retalhados pelos censores só serviam para abortos.

 

Entretanto, e nesses mesmos obscuros anos, vários, muitos aliás, amigos emigraram. Fugiam à tropa, às prisões politicas, ao rançoso viver que nos estava destinado, ou por mera aventura. E eu, daqui, lá lhes ia narrando o país, a nossa vida, as minhas indignações e o que mais viesse à rede.

 

Descobri que essa tarefa de alimentar com notícias vários destinatários ávidos mesmo se escritas por este sensaborão, não era pêra doce. Inventei, então uma espécie de circular dactilografada que enviava a todos juntando em ps alguma nota mais pessoal. Para estar de acordo com o ar do tempo chamávamos (eu e os correspondentes) a tais escritos “dazibaos” que eram na época muito vulgares na china alucinada pelos guardas vermelhos. Ou seja textos manuscritos que se afixavam nas paredes mais em evidência contendo má propaganda, pior ideologia e dramáticas acusações contra tudo e contra quase todos.

 

E foi assim que comecei a minha atribulada carreira de cronista.

 

Os emigrados regressaram mas outros partiram. Doutoramentos feitos lá fora, os primeiros cargos em instituições internacionais, amigos que, perante o desinteresse de outros, se confortavam com as minhas noticias. O meu talento era apenas o facto de ser o único a escrever. Não é exactamente exaltante mas é a verdade.

 

Apesar da minha notória desorganização, do meu inveterado jeito para perder coisas, e até de um incêndio, rapidamente me vi atulhado de papeis que só um esforço de imaginação poderá inserir na definição de “crónicas”. Todavia, lá pelos fins dos anos oitenta, à falta de melhor ideia, entendi oferecer, a pretexto de Natal, a duas ou três dúzias de amigos e familiares, um pequeno apanhado destes textos.

 

Por coincidência, o filho de um dos “beneficiados” pelo meu despudor escritural, era sócio de uma editora. E propôs-se editar-me.  Não resisti. Porém, esse projecto soçobrou quando a editora (que até tinha algum nome e algumas edições interessantes (muito Popper, entre outros) faliu. Outro editor apareceu,  perante o meu redobrado espanto. Dessa feita não houve falência mas apenas uma zanga tremenda entre os associados e, no auge de uma discussão, o que me tinha “contratado” saiu muito digno, batendo a porta e com o meu projecto debaixo do braço. Eu, disto, só tive notícia meses depois. E resignei-me a ser, como um velho colega de Coimbra, um eventual autor “póstumo”. 

 

Estava porém escrito que a minha navegação pelo proceloso mar da literatura ainda não terminara.

 

Um jornalista e responsável por um “jornal de referencia (esse mesmo em que estará a pensar) telefonou-me a convidar-me para escrever nesse jornal uma crónica semanal. Permitia-me 4000 caracteres (termo que eu, então info-excluído) desconhecia e pagava-me um soma acima dos meus mais desvairados sonhos. Verdade se diga que, até à data eu funcionara de borla mesmo quando, por duas vezes colaborara (ia-me esquecendo) com uma dúzia de textos para “O Jornal”, primeiro e o “Expresso” depois. Eram coisas, produzidas em suplementos simpáticos, organizados por uma amiga minha, jornalista e antiga colega.

 

Quando, me recompus do choque causado pela promessa de pagamento, resolvi saber o que era aquilo dos caracteres. A minha secretária, explicou-me a coisa e, fiado em sapatos de defunto, marchei para uma loja e adquiri o primeiro MacIntosh da minha vida. Ninguém me pergunte porque é que escolhi “apple”. A coisa foi apenas porque essa simpática secretária e toda a gente naquela instituição usavam a marca da maçã.

 

Nos meus mal avisados cálculos, o computador pagar-se-ia com a primeira meia dúzia de crónicas, fiado que eu estava nas boas contas do referido jornal. E comecei a reduzir a minha gatafunhada para os limites impostos. O meu correspondente e convidante no jornal lá ia telefonando exortando-me a produzir uma sólida reserva de textos para nunca falhar a futura e semanal colaboração. “É que, aconselhava-me, a malta nunca sabe quando nos dá um fanico na imaginação!”

 

E eu, pimba, mais uma revoada de crónicas aptas a publicar. Passaram-se três meses nesta jigajoga produtora e esperançosa. Todavia, chegou o dia, fatal entre todos, em que o meu correspondente, envergonhado e cabisbaixo, me informou que o “jornal de referencia” entrara em período de vacas magras pelo que a minha (e outras duas) colaboração teria de esperar por melhores dias. E o meu sonho de me imortalizar jornalisticamente afocinhou por  terra nesses negregados anos 90 do século passado.

 

Um amigo, o mesmo que me trouxe para este blog, entusiasmou um incauto editor das bandas de Viana do Castelo e, sem eu saber bem como, produziu-me um inteiro livro que lá se vendeu razoavelmente, deus seja louvado. E durante uns tempos, colaborei numa revista (Mealibra) também obra do mesmo esforçado editor desaparecido vai para um ano, graças à sua pertinaz paixão pelo tabaco.

 

Entretanto, o referido amigo já referido não descansou até me enfiar neste blog. Que isto, este local etéreo aonde subi, era o sítio ideal para eu escrever as minhas bizarrias, que era tudo malta porreira, tão porreira que até me davam guarida num sólido e sério blog todo ou quase colaborado por juristas.

 

Eu, que há muito tempo, uma eternidade, fugi do Direito e dos seus imponderáveis caminhos, entrei aqui, escrevendo sobre o que me apetecia, quanto me apetecia, quando me dava na gana, sem programa nem imposições de qualquer espécie. Tenho a vaga ideia que ando nisto há oito ou nove anos, descansadamente, à mercê do que me vai passando pela cabeça e à boleia dos desvarios do mundo.

 

Não sendo já um info-excluído, sou ainda um iletrado nestas coisas ligadas à net. Desconheço se sou muito (ou pouco lido) e, valha a verdade, pouco me incomoda essa bem aventurada ignorância. Vou tratando este infinito espaço à minha disposição como se páginas de um diário fosse. Dou conta das minhas perplexidades, da minha crescente desilusão, da surpresa que me assalta a cada declaração dos políticos mais em evidência, das alucinações que dão a certos literatos (mormente críticos) da nossa praça, enfim, estou atento ao “grande teatro do mundo” tentando olhá-lo sem demasiada severidade mas também sem especial complacência.

 

E, antes que acabe, esta explicação pro domo mea, quero dizer-lhe que, por orgulho absurdo, por preguiça natural, ou por outra qualquer razão que me escapa, nunca me propus a jornais ou outros meios de comunicação. Nem a editores, sobretudo aos amigos. Eu faço a minha parte, com alguma, escassa, publicidade. Eles que façam a deles, se quiserem, se souberem ou se puderem. E vendo, como vejo, nos múltiplos alfarrabistas que frequento com regularidade, os livros que ali esperam por um leitor, não me sinto particularmente frustrado por não me reconhecerem o eventual talento. Ainda há poucos dias, vi – e comprei – com irrefreável gozo os oito volumes das “Mémoires” de Saint Simon (o duque, cronista do “grand siécle”) na edição Pleiade em estado impecável e a um preço irresistível de barato. Se nem Saint Simon escapa e esse purgatório, quem sou eu para me queixar de impublicação?

 

E muito , muito obrigado, pelo seu generoso e amável comentário. Soube bem, muito bem, mesmo.

 

Um abraço

 

 

 

 

 

 

 

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