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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

O MEU TESTEMUNHOno dia mundial dos professores

ex Kamikaze, 05.10.05
texto enviado para publicação hoje no Incursões, pela nossa estimada colaboradora Amélia

O meu nome é Amélia Pais e fui professora durante 36 anos e meio. Vou falar-vos - liricamente dirão alguns - do ofício que escolhi desde criança.
Eu não sei bem o porquê da escolha - suponho que a influência, primeiro, de uma velha tia que me ajudou a criar (a importância das tias, não é Alçada Baptista?) que, era eu pequenina, brincava comigo, contando-me «histórias», não só de fadas ou de bruxas, mas, e talvez sobretudo, de como se faz o pão, de como crescem as plantas ou se faz a dança dos planetas em torno do Rei Sol - ou de como, em tempos passados, Moisés conduzira o seu povo de regresso ao lar, ou ainda de como Viriato, quase meu conterrâneo, enfrentara os Romanos... Me ensinava, também, os jogos possíveis com os números - ou então com as letras que, juntas, formavam palavras e frases com que os livros se nos abriam para a fantasia.
À distância, vejo agora essa minha tia, que era professora aposentada, como alguém que tornava o aprender algo que dava alegria e vontade de saber mais - e creio que com ela aprendi o gosto de proporcionar a outros essa troca de experiências, de saberes e, talvez, principalmente de afectos, que é o acto de ensinar.
Mais tarde, um outro professor, este de Português, o Dr.Luís Simões Gomes (pai), ensinou-me, com a descoberta dos textos, o sabor e a cor da liberdade - e nesta segunda aprendizagem importante na minha formação, a vontade reforçada de, como ele, ajudar os outros a crescer livres e dignos, como seres que pensam e se pensam.
Assim me fiz oficial do mesmo ofício, de, como dizia, de há mais de 36 anos para cá. Não lamento a escolha feita - é ofício que exige muito amor, muita abertura ao outro, muita vontade de partilhar, muito entusiasmo (à letra «deus em nós»). Mas que ofício melhor para crescermos e nos enriquecermos durante uma vida inteira?
Sim, eu também sei que economicamente não compensa lá muito (mas, como dizia outro Professor, Agostinho da Silva, faço o que me dá gosto e ainda por cima me pagam para fazer o que gosto...); sei também que muitas vezes - demasiadas vezes até - vêm desencantos, incompreensões, frustrações - porque o quotidiano fica por vezes bem aquém do sonho. Mas que melhor do que ver brilhar os olhos de um aluno quando, connosco, descobre um universo novo? Ou quando encontramos antigos alunos (por vezes pais de actuais alunos, como me vai acontecendo cada vez mais) - que nos recordam como alguém que os marcou positivamente e os ajudou a entrara melhor na vida? (Bem certo é que só recordamos os professores que nos marcaram positivamente ou negativamente, não aqueles que se ficaram por um certo cinzentismo...) Ou antigos alunos que nos associam à descoberta da beleza de um ou mais versos d' Os Lusíadas ou da «Tabacaria» de Álvaro de Campos? Que satisfação maior do que esta de ver-se reconhecido e de nos sentirmos assim ligados à descoberta da beleza e da vida?
E depois é bem verdade que bom professor não envelhece nunca... e não morre - porque fica a sua imagem bem viva na memória e no coração daqueles com quem e para quem viveu...

Amélia Pais
(Leiria, reelaborado em Outubro de 2005)

***

Pelo sonho é que vamos (?)

ex Kamikaze, 05.10.05

5 de Outubro - Dia Mundial dos Professores

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excerto do Diário de Sebastião da Gama

«Cada vez me apetece menos classificar os rapazes, dar-lhes notas, pelo que eles "sabiam". Eu não quero (ou dispenso) que eles metam coisas na cabeça; não é para isso que eu dou aulas. O saber - diz o povo - não ocupa lugar; pois muito bem: que eles saibam, mas que o saber não ocupe lugar, porque o que vale, o que importa (e para isso pode o saber contribuir e só contribuir) é que eles se desenvolvam, que eles cresçam, que eles saibam "resolver", que eles possam "perceber". »

excertos deste texto de Ademar Rodrigues dos Santos

«No ano em que se comemora o primeiro centenário da morte do grande filósofo alemão [Nietszche], seria prudente e útil que revisitássemos tudo aquilo que ele luminosamente escreveu sobre a educação e o ensino e que aprendêssemos com ele, pelo menos, uma coisa: não foram as ciências da educação (por mais ocultas ou estúpidas que pareçam), nem as pedagogias humanizadoras do século XX que fizeram da escola contemporânea de massas, dita democrática, a fraude que ela é...

Um dos mais celebrados e comentados pedagogos portugueses do século XX foi Sebastião da Gama. A propósito do seu "Diário", escreveu Jacinto do Prado Coelho: "Sem sensibilidade e sem idealismo de poeta não vale a pena ser professor." Sebastião da Gama, apesar de ter vivido tão poucos anos, percebeu em pouco tempo o que tantos ignoram toda a vida: que a escola, ou está ao serviço do desenvolvimento pessoal e social de cada aluno em concreto, ou não passará jamais de uma máquina estúpida para a produção em série de pinóquios replicantes.»

Quase de volta

Incursões, 05.10.05
Hum! Isto tem andado um bocadinho parado. É uma fase. Passa, como todas as fases. E, desta vez, nem sequer posso queixar-me dos outros, porque sou um dos principais refractários. Mas por pouco tempo.

A minha empreitada por terras do marco2005 está quase concluída. Eleições à porta, mais uns dias para analisar os resultados e para escrever coisas que não achei oportuno escrever antes das eleições, e a loja fecha. Ou trespasso. É que o jornaleco acabou por superar as melhores expectativas e pode ser que haja alguém que queira ficar com ele. Logo se vê.

Aviso já que, logo a seguir, volto para aqui com a regularidade a que já tinha habituado os meus amigos. Só que desta vez a companhia será diferente. A insónia vai-se afastando aos poucos tão cansada de mim como eu dela e voltarei com a úlcera. Sim, a úlcera. A que propósito é que este carteiro sem regras não haveria de conquistar uma úlcera?

Aviso, também, que não ando muito vocacionado para falar de coisas sérias, assim género greve dos magistrados e coisas afins. Ficarei, muito modestamente, pelos meus postais de viagens pelos tribunais (quando estejam abertos) e outras coisas avulsas, nem sempre muito interessantes, mas que me fazem bem, mais não seja agora que tenho de tratar da úlcera.

E com esta me vou, com os respeitosos cumprimentos deste que tem saudades.

Diário político 2

Incursões, 03.10.05
As resistíveis ascensões dos lusos Arturinhos
para A.M.M.

Pede-me uma amiga que comente e em letra redonda, as últimas escandaleiras político financeiras que têm abalado o país.

Difícil tarefa é essa para quem vive na província, longe da Lisboa buliçosa onde tudo se sabe e se diz, a meia boca, nos cafés, nas repartições e nos botequins. Os provincianos - e o Porto é a mais provincial e provinciana das cidades portuguesas - sabem dos sucessos aquilo que jornais e TV lhes dizem ou querem dizer. Temos acesso a uma verdade em segunda mão, belo título de um livro de Joyce Cary aparecido nos escaparates vai para mais de vinte anos, num tempo tão longínquo que hoje se torna difícil fazer crónica desses dias tumultuosos (Pierre van Passen, haverá quem se lembre?)

E é mister recorrer à história adiada desses anos de chumbo, para tentar perceber o que se passa hoje em dia. É que, ó amabilíssima, os heróis-vilões da funçanata actualmente em cena no metafórico terreiro do paço fizeram-se homenzinhos e mulherezinhas nesse mimoso mundo de sombras chinesas e nevoeiros sebastiânicos que correspondeu ao fim de reinado do Dr. Salazar e ao episódio marcelista.

Eram os anos da peste mas também das patacas geradas pela guerra colonial e pelos primeiros vagidos de uma bolsa animada por aprendizes de feiticeiro cuja ascensão e queda não ensinaram nada aos vindouros. Barões de indústria e milionários estrangeiros acotovelavam-se em festas sumptuosas para gáudio e mortificação do basbaque lusitano que se vingava indo acampar para o Algarve recém descoberto pelo turismo de massas internacional que trouxe, de supetão, aos indígenas, o biquíni, o hot-dog e valentes doses de gonorreia.

Por outras palavras a áurea mediocritas do estado Novo desaparecia entre o fim pouco heróico da mocidade portuguesa e o início da voga dos cursillos de cristandade, contraponto sacrista e rançoso da ofensiva do opus dei que inquinava a sociedade espanhola e paria tecnocratas a la Ruiz Mateos com o mesmo despacho com que criava uma oposição interna ao franquismo.

Com mais sorte que habilidade o regime tinha, graças à guerra nas colónias, à crise endémica na universidade e à emigração em massa, encurralado a esquerda no no man's land dos exílios interior e exterior, guardando para si e seus apaniguados o acesso às profissões lucrativas, aos postos rendosos e às prebendas políticas.

Foi neste cenário frouxo e pouco exaltante que se educou toda uma geração que hoje chegou aos degraus do poder ou à mesa do orçamento. Descomprometidos com o bunker salazarista, alheios à fermentação revolucionária, os seus mais conhecidos elementos passaram, insípidos, inodoros e incolores pelos sucessos da época; a sua política era o estudo (primeiro) e o trabalho (depois). Opiniões só desportivas! Indignação só quanto à duvidosa qualidade das sandes da feira popular. Insensivelmente, porém, passavam do brandy nacional com água do castelo (vulgo whisky saloio) ao Vat 69 só com duas pedrinhas de gelo...

Se o 25 de Abril não os exaltou, o 28 de Setembro e o 11 de Março provocaram-lhes, primeiro, um frémito e uma torrencial diarreia, depois. Lá para o fim do Verão quente, adivinhados os vencedores, já se atreviam a sair à rua de emblema do PPD à lapela. A vaga restauracionista trouxe-os na babugem, até às margens do ministério, das EPs, da banca e do parlamento.

Não eram os mais brilhantes, muito menos os mais aguerridos, sequer os mais competentes. Mas tinham fome e sede não de justiça mas de poder, de carreira rápida, de casa própria, de carteira de acções, de padrinhos e de lugar cativo nas páginas a cores da crónica social. À falta de aristocratas para frequentar, amancebaram-se com o novo riquismo trepa-trepa, com as madamas da cultura prêt-a-porter e com os porteiros dos bares da moda. Com o crescer da maré laranja saíram definitivamente do paúl onde tinham nascido e, como jacintos de água, infestaram veias e artérias do corpo político-social-económico do estado.

Mas foi com o post-dezanove de Julho que, em cohortes cerradas esta turba-multa esganiçada e impaciente se mostrou em toda a sua temível glória. "Caramba - terão regougado - vou fartar o bandulho!". Só que, ao contrário do imprudente Teodorico, não gastaram toda a mesada da Titi com as mundanas que lhe saltaram ao caminho e muito menos enviaram à velha papa-missas a lingerie das peripatéticas. Apossaram-se desses pequenos mimos de rendas e laçarotes, adaptaram-nos ao corpo desabituado com a ânsia e a ganância do náufrago!

Como o tempo de espera os tornara sôfregos e a amplitude da vitória impudentes, caíram sobre o país indefeso como uma praga de gafanhotos num vale tudo a que nem escapou o tirar olhos. Foi com as duas manápulas porque não tinham quatro! Pareciam escavadoras caterpillar apanhando indiferentemente mealheiros em forma de porquinho ou cofres-fortes de banco suíço. Um só grito: "A eles"! Uma só fé: "Toda a ganhunça é legítima"! Uma só esperança: encher a algibeira e o bornal antes que alguém grite aqui-del-rei! Uma só caridade: atirar à marabunta paisana e à peonagem da mesma cor o osso mal esburgado!

O jardim à beira mar plantado está transformado num zoo de oitenta mil quilómetros quadrados. Relembrando o meu velho amigo Joaquim Namorado que dividia a pátria anémica em três estados (Beócia, Capadócia e Parvónia) eis a minha contribuição para o novo esquema de regionalização: Traulitânia, Reserva de Perdigotos, Arganázia e Pinhal da Azambuja e proponho para pais fundadores os senhores José do Telhado e João Brandão.

Os casos que ora servem de pasto aos jornalistas não são, perdoe-me o Dr. Pulido Valente, casos políticos mas, e apenas, de polícia. É urgente mandar à residência destes cavalheiros de indústria (que nem sequer ostentam a equívoca elegância de Felix Kruhl ...) um cabo de esquadra munido de um par de algemas. E depressa! Antes que o país desamarre de terras de Espanha e singre mar fora, até ás praias da Sicília e junte, num medonho regabofe, as sanguessugas nacionais à mafia de Palermo e à camorra napolitana.

E é tudo. Tudo não, porque o que mais me aferroa é verificar que esta súcia, além de me ir ao bolso, me toma por parvo e se ri de mim.

PS em 1995 : avisam-se os estimados leitores que esta zagunchada corre mundo desde há vários anos, presumindo o autor que terá sido perpetrada pouco depois da zanga entre os drs Cavaco e Freitas do Amaral por via das despesas deste último enquanto candidato do PPD à presidência da república. O autor não se arma em profeta mas também não é, nem foi, vítima de miopia (física ou política!).

PPS (em 1998) : a riqueza súbita e a vontade dela não são consubstanciais ao exercício do poder mas há quem o pense e o pratique. Aqui fica o registo para que não seja o A. tomado por parvo ou, pior, por ceguinho.

Nota em 2005. Sai finalmente a público tal e qual se escreveu em 1992 ou 1993, sem sequer mudar a dedicatória como eventualmente se deveria. Quem achar que Brecht é aqui chamado, acertou.
d'Oliveira

A reforma do CEJ

ex Kamikaze, 03.10.05
A parede de silêncio que actualmente se vive em torno do CEJ é muito interessante e significativa.

Interessante
porque depois do alarido inicial em torno da nomeação (legal) de um não magistrado para director daquela instituição, com demissões e tudo, seria de esperar um escrutínio atento em relação ao trabalho desenvolvido pela actual direcção.
Nada disso, meteu-se a viola no saco e foi-se cantar para outra freguesia… a comunidade, em geral, sobre o tema, ou percebe pouco ou faz de conta ou continua cantando e rindo…
Significativa pelo adormecimento que as questões da formação provocam e pelo alheamento (não formal mas real) que os mais altos responsáveis da justiça lhe votam.
Entretanto fez-se propalar que a instituição tinha sido reformada.
Sobre tal tema duas ou três breves notas.
Vejamos em que consiste a dita reforma (tudo proveniente do site do CEJ) e as suas óbvias limitações:

Aumento da carga horária dos auditores de justiça, passando a ter aulas de manhã e de tarde, com vista à introdução de mais disciplinas, a saber, expressão e voz, uma língua estrangeira obrigatória, ética e deontologia, direitos fundamentais e um tal de projecto.
Vamos por partes.
. O aumento da carga horária, já de si, seria mais do que errado.
Na verdade, se algo sempre fez a unanimidade de auditores e docentes foi a comprovação que os primeiros não tinham muitas vezes tempo para preparar adequadamente as sessões e as exercitações propostas. Ora, com sessões a acabar às 17 horas ninguém percebe sequer como se preparam para as sessões para o dia seguinte…
O aumento da carga horária representa também uma mais valia formativa muito questionável.
.Vinte cinco horas de uma disciplina de expressão e voz: a ideia de formar Pavarottis não é desagradável mas, digo eu, com umas três horas do tema despachava-se o assunto.
. Línguas estrangeiras obrigatórias: ninguém tem dúvidas da sua importância, mas a supressão de lacunas escolares em grupos com níveis muito diferenciados, às cinco da tarde, depois de n horas de matérias técnicas, parece não ser uma boa opção e incentivo ao aperfeiçoamento das línguas estrangeiras…
. Ética e deontologia: esta disciplina, podendo potenciar perigosas visões de unicidade vivencial da magistratura, devia estar imediatamente associada ao rigoroso controle social do currículo específico dos seus ministradores, assim como da mensagem interna veiculada, através da publicação imediata dos seus textos originais sobre a matéria. A este respeito, nada…
. Direitos fundamentais: numa tardia reacção às vozes da praça pública, que gosta de confundir a nuvem com Juno, foi também introduzida esta disciplina. Para além do seu óbvio carácter transversal é curioso notar como a sua introdução representa, para além do mais, a confissão que o CEJ faz sobre a sua própria selecção: se esta disciplina é necessária a sua selecção foi necessariamente mal feita.
. Projecto: como ninguém sabe o que se projecta, é difícil fazer uma apreciação mas, pela sua colocação às sextas à tarde, calculo que se projecte um bom e merecido fim de semana…

Em suma: um conhecido crítico do CEJ costumava dizer que os auditores formavam-se lá a saber muito de direito e pouco da Vida, agora vão saber muito sabe-se lá do quê e nada da Vida…
No meio disto tudo, podemos considerar que a nomeação de uma não magistrada para Directora do CEJ teve uma grande vantagem: sentir na pele os inconvenientes dessa solução e tentar impedir, a todo o custo, que seja repetida na nomeação do futuro Procurador-Geral da República.
Apesar de tudo, ter andado pelos tribunais, ter despachado uns processos, ter uma boa carreira de magistrado, pode não ser decisivo, mas pode ajudar muito…

Casamayor

au Bonheur des Dames nº 10

d'oliveira, 01.10.05
Kudya Kumanya
(revisões da história? carta ad usum Delphini et Josephus)

Isto deveria, em boa verdade, ser um comentário mas pareceu-me que o tema merecia um texto autónomo que responda aos comentários que um novo comentador, Delfim Lourenço Mendes e o meu querido e velhíssimo leitor favorito José têm trocado comigo a propósito do texto sobre o Doutor Antunes Varela.
Remeto os leitores para esse texto e respectivos comentários e, dando de barato que tiveram paciência para nos lerem, venho agora aflorar duas questões que se prendem com
1 a permanente queixa de que os valores estão em crise
2 a presença portuguesa em África (mormente em Moçambique) e a sua bondade face ao que hoje por lá se vê e ocorre ou ocorreu.
(A latere as bondades do Estado Novo e a honradez dos políticos e demais servidores públicos)

Ora então comecemos pela primeira, que é, sem sombra de dúvidas uma vexata quaestio (José dixit): Desde o antiquíssimo “O tempora o mores”, com plácida regularidade, um par de criaturas qual vozes clamando no deserto, avisam os contemporâneos que a seguirem o caminho que seguem se perderão na mais negra das desgraças. Nem a Bíblia escapou a essa cruel ameaça: os costumes destruíram Sodoma e Gomorra, salvando apenas Lot e as filhas que enfim, quanto a costumes, foi o que se sabe; o rei Baltasar viu escrito nas paredes do palácio, onde regiamente se emborrachava entre mulheres e áulicos, as palavras tremendas “mane, tekel, farés” (contado pesado e dividido) aviso definitivo que já lhe estava passado o bilhete de ida para o inferno.
Fortalecidos com estes exemplos multiplicaram-se os censores e as Cassandras. De comum apenas têm isto: os tempos novos estão mergulhados na devassidão e na ignomínia, antigamente é que a honradez era virtude. Claro que isto aflora em diferentes versões, qualidades e circunstancias mas, contado, pesado e dividido, cai tudo no mesmo prato: les temps como dizia Leo Ferré, sont difficiles.
Serão? Claro que são. Mas não porque dantes era tudo bom, era a idade de ouro e as virtudes cívicas e morais fossem respeitadas. Porque não eram. O que se passa é que a história é tão só a nata, o que fluctuat nec mergitur, e isso significa que se dá conta da raridade da exemplaridade e pouco do dia a dia. É por isso que os romanos são sempre austeros e virtuosos (pesem embora os Neros e os Calígulas), os gregos sempre cultos, os trovadores da Provença sempre galantes etc., etc.
Revertendo para o nosso “Estado Novo” (1926-1974) teríamos que os próceres do regime, eram gente culta, séria, honrada, modesta e sei lá o que mais, em contraposição com a funesta paisagem político-partidária de hoje. Ora bem:
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, caros amigos: as elites do Estado Novo eram fraquinhas. E eram-no porque viviam à sombra de um dirigente autoritário que não lhes dava grandes possibilidades de voar com asas próprias. Não deixa de ser sintomático que durante quase cinquenta anos o regime não produzisse, entre os seus fieis, uma escritor, um artista, um autor que fizesse sombra aos da Oposição. E mesmo entre os intelectuais de outros meios, tirante o Direito, aquilo foi o deserto quer na História, na Critica Literária ou nas Ciências Puras e Aplicadas. A Oposição politica portuguesa ganhou as suas esporas justamente nesse terreno. Convenhamos que Marcelo, Salazar e mais dois ou três eram modestos e morreram pobres. Que Franco Nogueira até era amigo de alguns pintores comunistas. E basta. Leiam-se os jornais ideológicos do regime: A Voz, A manhã e similares. Leiam-se as escassas tentativas de revistas de cultura (por todas "Tempo Presente" que não passou do nº 20) É o deserto ou nem isso... Façamos uma peregrinação pelo Século ou pelo Diário de Notícias: cinzento escuro, escuríssimo. E porquê? Porque ainda nos anos trinta o regime autoritário (não estou a dizer fascista, reparem) cortou cerce as veleidades da sua direita mais radical, Rolão Preto e companhia; aquietou (manietou) Marcello e Nogueira; pôs ponto final aos atrevimentos do António Ferro. E por aí fora. O Estado Novo foi um pântano da inteligência, pobre e remendado.

Passemos ao piedoso retrato de Moçambique dado por Delfim Mendes. Ó caríssimo então V. acha que um par de aeroportos, uma refinaria, jardins, casas de “sonho” e mais um par de coisas mostram um país? Tudo o que V. diz é verdade e até peca por escasso. Claro que as cidades eram lindas! Claro que a ilha de Moçambique estava bem tratada. Claro que Lourenço Marques era belíssima. Ainda hoje, o Expresso traz um retrato do Pancho Miranda Guedes, amigo da minha família e notável arquitecto de Lourenço Marques. Mas tudo isso não consegue esconder a sordidez da cidade do caniço, nem os restantes 99% do território... Compare Moçambique com as antigas Rodésias ou o Tanganika ou a África Sul. Aí veria V. a quanta distância se estava.
Aliás a guerra foi um chicote fortíssimo para o desenvolvimento de Angola e de Moçambique: mais estradas, mais aeroportos, construção acelerada para os milhares de recém chegados militares (Nampula duplicou de população e de construções. Pudera! Era o quartel-general! ) A vida lá, graças aos ordenados maiores, graças ao preço ínfimo do trabalho (nós “” tínhamos três criados: manias de modéstia do meu pai, médico naqueles cafundós que achava que para lavar as mãos não precisava de ajudante...) era óptima para quem lá ia no espaço duma comissão militar. Com sorte nem saía da cidade para o mato. Faça esta experiencia meu caro: pergunte se aprenderam cinquenta palavras de macua (norte) ou de ronga (LM). Só cinquenta... Ou estoutra: o que é que distingue um tschona dum maconde para ser fácil...
A grande tragédia portuguesa, nossa, foi esta: não quisemos, não pudemos e não soubemos desenvolver as colónias, criar elites locais, conter a boçalidade de boa parte dos nossos emigrantes e muito menos controlar a economia colonial. É por isso que os caminhos de ferro da Beira eram “Beira Railways” e o principal produtor agrícola da região a “Sena Sugar Estates”.
Neste género de discussões, a vontade é sempre a mesma: que pena V. não poder ver, com os seus próprios olhos, isto que lhe descrevo. Mas não pode: tem 49 anos! Teria 18 quando aquilo foi por água abaixo. Mas console-se: não tem esta imensa saudade, dos pôr do sol frente à Inhaca ( o sol punha-se do lado da terra, claro) dos camarões grelhados, do cheiro da terra depois da chuva, do som das marimbas, das flores, das praias coralinas do norte, da Ilha, barco de pedra naufragado, testemunho dos nossos maiores, seus e meus, caríssimo, Seus e meus..., dos palácios em ruína entre coqueiros na baía do Mossuril. Saudades, permita-me dos meus “criados”, do mainato, do “senhor Tesoura” cozinheiro de mão cheia que desobecia às ordens de minha mãe e só fazia a comida que os “minino gosta”, do Mário, o nosso “moleque” bêbado inveterado que fumava maconha e dizia que era nosso irmão. E era, Delfim, e era...
A guerra civil destruiu tudo isto. As guerras civis são terríveis e por isso Moçambique está como está. O PIB vai andar pelas ruas da amargura mais vinte ou trinta anos. A doença, a miséria e o desespero hão-de pedir meças à corrupção, ao banditismo e á canalhice dos cavalheiros de Maputo. E se é verdade que dessa guerra não nos cabem responsabilidades também não deixa de ser certo que elas tiveram muito a ver com a geo-estratégia das grandes potencias mundiais (Inglaterra, URSS e Estados Unidos) e da potencia regional, a África do Sul. Mas isso são outras histórias.

Feito a 1 de Outubro pelo nº 31 da turma C (3º ano) do liceu Salazar em Lourenço Marques, ou pelo nº 11 do 5º ano do Colégio Liceu Vasco da Gama em Nampula.
No exílio: no Porto.
E em memória do Mussa, do Ali, do Ibrahim modestos empregados de mesa da Pousada Moura. Que os espíritos dos antepassados e a vontade de Allah lhes protejam os filhos, netos e bisnetos se os há, se a guerra os poupou.
E kanimambo a José e a Delfim no pressuposto de que me espicaçaram afirmando como quem pergunta:
Kudya Kumanya.( ou seja: perguntar é saber, provérbio maconde)

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