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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

As presidenciais

José Carlos Pereira, 02.12.05
Vai pobre a pré-campanha para as eleições presidenciais. Muita saída à rua, muitos abraços, muita entrevista, mas poucas ideias e pouca clarificação sobre o exercício da função. Já aqui referi qual é o meu campo e quais têm sido as minhas opções, mas confesso que nunca vivi umas eleições presidenciais com tanto distanciamento.
Cavaco é…Cavaco. Representa aquilo que não é (magnífica a crónica de Joaquim Fidalgo no “Público” de terça-feira!) e faz campanha como se estivesse a concorrer para primeiro-ministro. Impante, não sei se ele perdoaria ao país uma nova derrota!
Jerónimo e Louçã representam o lado folclórico da política, numa corrida em que não têm quaisquer hipóteses de vitória, sendo que a sua única preocupação é segurar o eleitorado dos respectivos partidos.
Alegre tem-me desiludido bastante. Juntou à sua veia aristocrática e à sua altivez (afirmam os que com ele trabalham…) uma enorme insensatez. Não acerta o seu discurso, a mágoa tolhe a lucidez de análise e o episódio da (não) votação do Orçamento de Estado é revelador da teia de incoerências em que está enredado.
Mário Soares tem feito o seu percurso, vai à luta, não teme os confrontos e normalmente solta-se nas entrevistas. Aqui e ali excede-se, mas tem qualidades notáveis que não se apagam com o passar dos anos. Não sou um apaixonado pela sua candidatura, o que até me levou a declinar um convite para assumir um lugar na estrutura de campanha, porque entendo que, depois de dizer o que disse e nesta fase da sua vida, Soares devia dar um outro testemunho e um outro exemplo, evidenciando desapego pelo poder e promovendo a renovação da classe política. Ainda assim, creio que Soares acabará por recolher a maioria dos votos da esquerda, o que pode ou não ser suficiente para provocar uma segunda volta e, aí, derrotar Cavaco e os partidos que o apoiam.

A justiça, finalmente

Incursões, 01.12.05
O já tristemente processo de Outreau acabou. Absolvição geral. O Procureur Géneral de Paris e o Avocat Géneral deram-se mesmo ao trabalho de vir ao Tribunal explicar o inexplicável, o que jamais deveria ter sucedido... mas sucedeu.
Foi a acusação pública que, num gesto que só a honra e a torna exemplar, quem pediu a absolvição dos últimos sete acusados. Deveríamos dizer das últimas sete vítimas dum "mil folhas feito de inúmeros pequenos erros", que qual bola de neve se transformaram num tsunami de lama e ignomínia que atingiu e destruiu uma dezena de famílias, uma comunidade, e abalou a honra perdida da instituição juiz de instrução.
As consequências deste temível erro judiciário já se começam a ver. Processos de inquérito especiais. Propostas de lei: doravante não será um mas DOIS juízes de instrução a afectar a casos mais dificeis e desde logo a pedofilia. Mais e mais importante: a prisão preventiva vai ser mais controlada, desde logo haverá periodicamente uma avaliação por comissão das razões de manutenção desta excepcional medida.
Quem estas escreve não está a mandar recados a ninguém. Quando mando recados ponho o nome nos bois. Estou apenas a noticiar um caso exemplar onde algumas questões têm sido analisadas por jornalistas sérios, por operadores de justiça calmos e sensatos e por cidadãos preocupados com o ataque da bem pensância e do oportunismo politicamente correcto.
Já há alguns anos um processo espectacular tinha posto em causa os julgamentos apressados e as diligencias demasiado rápidas de polícias e juízes de instrução. A vitima foi um ex ministro de direita, catolicão e defensor de causas reaccionaríssimas, Dominique Baudis. Andou dois anos atolado na merda até se "descobrir" que talvez valesse a pena ir verificar os videos de vigilância da Assembleia Nacional... que provaram irremediavelmente que o celerado Baudis estava lá como sempre clamara e não em Amiens ou num sítio parecido...
Imaginem agora que o acusado é um zé ninguém sem meios, sem influência, sem fama. Imaginem só! E imaginem uma cela de prisão (mesmo preventiva...) e os dias e os meses a escoarem-se lentos, lentamente, E os interrogatórios... "veja lá..."
"é melhor para si" etc... etc..
O que um cidadão, como o abaixo assinado pede é tão só mais diligência e menos preconceitos, mais civilização e menos moral de trazer por casa, mais cuidado e menos Zorros. Os Zorros são bons só no cinema e mesmo assim...

O Presidente da República

simassantos, 01.12.05
Só Presidente da República pode, e deve, tomar uma iniciativa que permita sair do desastroso impasse a que a Justiça chegou.

Não chega ainda a ser uma efeméride. Já foi, porém, há quase dois anos que se realizou o Congresso da Justiça, patrocinado pelo Presidente da República, com a participação de todos os operadores judiciários. Desejei, então, que não fosse «o Congresso da oportunidade perdida». Foi. Se não nas conclusões, apesar de tudo com bom «material» de reflexão e trabalho, pelo menos na falta de consequências. Agora, após mais congressos, incluindo os recentes de advogados e juízes, a situação, que era muito grave, continua igual ou... pior! E não se adivinham melhorias Há algumas intenções e (pequenas) mudanças positivas, mas no essencial tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Com a agravante de se estar a chegar, com culpas repartidas, a uma espécie de situação de não retorno, na impossibilidade de diálogo entre magistrados e Governo. Com Jorge Sampaio a fazer discursos certeiros sobre a Justiça, há dez anos dez, sem nenhum efeito prático! Assim, só o Presidente pode, e deve, tomar uma iniciativa que permita sair do desastroso impasse a que se chegou! Ou só ele pode tentar...
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José Carlos de Vasconcelos
VISÃO 1DEZ2005

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