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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

a mediocridade no poder

d'oliveira, 30.05.06
Faço hoje uma pausa num descosido diário político publicado segundo a oportunidade ainda que normalmente os textos tenham todos uma idade avançada.
E faço-o porque, os tempos que correm, exigem uma análise serena mas sem contemplações.
Aliás boa parte do queria dizer foi já dito por alguns dos principais expoentes do PSD, em vésperas de congresso. Se os leitores se recordam, algumas das figuras mais importantes e históricas do principal partido da oposição revêem-se encantadas nas medidas do governo Sócrates.
E o caso não é para menos. Sócrates está a governar tão à direita quanto lhe é possível. Que o Partido Socialista profundo não perceba isto é absolutamente irrelevante. Os actuais dirigentes do partido vão calando as vozes discordantes mediante uma atempada distribuição de benesses à custa do erário público. Nunca como agora se verificou uma aplicação tão extensiva do “spoil system” americano. A direcção do P.S. ocupou o aparelho de Estado e tem vindo a colocar todos os seus apoiantes neste, levando tal ocupação às últimas consequências. Hoje em dia, pode dizer-se sem receio que na Administração Pública central e nos postos desconcentrados desta até os lugares de simples chefe de secção são ocupados por membros do partido, simpatizantes ou por alguém de que é preciso calar a voz. Convém, todavia, fazer notar que esta ocupação se tem feito com cautelas especiais e sem ferir demasiadamente a clientela do outro grande partido, o PSD. Os militantes deste partido estavam também colocados em sectores chave da administração pública. O actual partido do governo optou, neste caso, por apenas “incomodar” os dirigentes de lugares estratégicos deixando o resto à freguesia social democrata pelo menos num primeiro momento. Sairão mais tarde logo que as leis orgânicas dos ministérios estiverem aprovadas. Aliás estas criaturas vão ser (já são) de grande utilidade para a prossecução das medidas actuais. O P.S. não quer assumir sozinho o ónus da política de direita que vem desenvolvendo e, sobretudo, que vai desenvolver.
Tudo isto passa por laminar, os corpos da administração publica, um por um, apelando a medidas de um populismo ultramontano que até ao momento tem anestesiado a opinião pública.
Foi assim com a magistratura judicial, a quem um ministro medíocre que já dera provas da sua insuportável incompetência num dos últimos governos socialistas tem feito engolir todos os sapos possíveis a propósito das férias judicias. O ministro bem sabe que o remendo a que recorreu vai ter consequências imprevisíveis mas desastrosas na tramitação dos processos. Sabe também que a medida de redução das férias judiciais não trará qualquer benefício aos cidadãos e tornará a vida dos advogados bem mais difícil. E que quando se fizerem as contas o mais provável será a verificação de atrasos acumulados na primeira instância. Mas isso de pouco o importa tanto mais que enquanto se discutem as férias judiciais, o ministério vai fazendo sair legislação avulsa de medíocre qualidade que passa incólume sem critica visível. E quando esta porventura se manifestar, já há uma pronta resposta: são os magistrados quem está a entorpecer as reformas urgentes e inadiáveis, cegos pelos privilégios que correm o risco de perder.
O sistema nacional de saúde começa a ser séria e perigosamente atacado não porque se fecham quatro ou dez maternidades, ou se permite a liberalização das farmácias. O grave é a reestruturação dos hospitais, o desastroso naufrágio dos centros de saúde onde não há médicos de família para uma enorme percentagem de pessoas, embora os cidadãos sejam obrigados a inscrever-se nos centros.
A classe dos professores começou já a ser atacada sempre em nome de princípios virtuosos, quais sejam a protecção dos alunos durante os tempos lectivos, mediante a mesquinha e estúpida regra das aulas de substituição que no dizer unânime de professores e alunos é apenas para inglês ver. Mas o público aplaude o ataque à preguiça dos professores.
Agora agitam a hipótese de pôr as associações de pais a classificar os professores. Se a moda pega, os presos condenados ainda classificarão os guardas prisionais... E os doentes (mesmo os mortos) os médicos assistentes. Sorte terão os médicos legistas dado que uma boa parte dos seus clientes já estão do outro lado e ainda se não descobriu uma mesa pé de galo convincente para inquirir as alminhas a caminho do purgatório.
O actual governo consegue mesmo pôr os portugueses a discutir as excelências do novo aeroporto da Ota, ou o comboio de alta velocidade. Relembre-se que esta alta velocidade é suposta ocorrer entre Lisboa e Porto ou seja num percurso de 300 quilómetros com duas paragens pelo meio. Não deverei andar longe da verdade se futurar que este investimento brutal que vai onerar as novas gerações, não retirará sequer meia hora ao tempo do actual percurso.
O que se afigura mais interessante nesta estratégia do salame que tanto resultado teve na ocupação soviética dos países de leste, ou seja a técnica de passo a passo ir ocupando sem especial alarido os postos do poder e ao mesmo tempo ir reduzindo de mil e uma maneiras a oposição ao silêncio, ao medo e depois à sua destruição pura e simples.
E parece ser essa, de facto a estratégia do actual governo: vão por enquanto lançando pequenas bombas à espera de reacção. Do andar da discussão tirarão as necessárias consequências quanto à rapidez da sua actuação.
Em bom português isto vai ser assim: a cada medida proposta corresponderá uma reacção que com o passar do tempo se atenuará pelo aparecimento de novas propostas igualmente susceptíveis de causar espanto e indignação. O governo Sócrates inaugurou um novo método de auscultação democrática da população e tomada de medidas políticas pelo cansaço dos eleitores.
Suponho que estarão convencidos que se cortarem os pés à direita pelo artificio de serem eles mesmos a tomar as medidas que a oposição poderia ser tentada a propor. Conviria lembrar a estes desastrados aprendizes de feiticeiro a derrota de Schröder na Alemanha e o destino igualmente previsível de Blair. As políticas de direita só são bem executadas pela direita. A verdadeira, a boa, e nunca por uma compósita equipa de mediocridades colhidas aqui e ali nas fileiras do P.S. Que ainda por cima parece sofrer, a par de incontinência verbal e propositiva, de incompetência generalizada.


Coisas do diabo

Incursões, 29.05.06
Entrámos no gabinete, os colegas e eu, Bom dia, Srª Drª Juíz e ela olhou-me e disse-me Nós já nos conhecemos de algum lado, não conhecemos?, e eu olhei-a, aquela cara é inesquecível, Claro, tenho a certeza que sim, mas não sei de onde!, e a Mma, sobrolho franzido, Pois, de um tribunal qualquer, mas acho que não só daí. E eu, já de sorriso rasgado, que ela é bonita, não resisto à blague, Talvez, Mma, talvez me conheça do cinema!, e acrescentei logo que também devia ser do cinema que eu a conhecia, e ela achou piada, porque teve piada.

Fizemos o julgamento. Foi há quanto tempo? Dois anos? Nunca mais a vi, falámos uma vez ao telefone depois disso, coisa um tanto atarantada, quase profissional (que pessoal não foi), soube entretanto que mudou de sítio, sei por onde anda e soube, até à consternação, que tinha mudado de vida, ou, melhor, de estado civil ou coisa que se pareça, razão pela qual nunca fui ao sítio por onde anda.

Chegado à consternação, entrei no exercício sempre difícil de começar a esquecer. Deletei o número do telemóvel, não fosse o diabo tecê-las, que o diabo é tendeiro e nestas coisas somos parecidos - o diabo e eu, entenda-se -, mas o diabo não tem emenda e pregou-me uma partida e hoje vi-a, à hora de jantar, no sítio do costume, mas, diabo!, que me deu para me sentar numa mesa diferente e virado para o plasma? Olhei uma vez. Olhei outra. Era mesmo ela, Boa noite, Srª Drª, Olá, Sr. Dr.. Ali, mesmo ao lado. O tipo em frente. Dela. Fixei os olhos no jornal, não consegui ler uma palavra, não me apetecia comer, um nó na garganta, e ela falava (pouco) com o tipo. E levantaram-se, Prazer em vê-lo!, e eu de voz sumida, Prazer em vê-la!, incapaz de mais, incapaz de lhe dizer o que me ocorreu, que o prazer seria muito maior se ela estivesse ali sozinha e que quem ia ao cinema com ela era eu.

"Não se descredibilize o sistema judicial”

simassantos, 29.05.06

O Conselheiro Simas Santos alerta que em Portugal “os juizes vivem na clandestinidade”

“O Governo não pode ser um elemento de descredibilização do sistema judicial”, afirmou o conselheiro Simas Santos, anteontem à noite, numa tertúlia promovida no Café Majestic, no Porto, pelo Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP).
O juiz do Supremo Tribunal de Justiça fez aquele desabafo traduzindo o desagrado dos magistrados judiciais e do Ministério Público, perante a ideia lançada pelo Governo de que são “calaceiros” e “só se preocupam com as férias”. “Nos Estados Unidos os juízes são respeitados e dizem a lei, mas aqui os juízes vivem na clandestinidade”.
Preocupado com o facto de o poder executivo propor alterações atrás de alterações “sem discutir o modelo”, Simas Santos acentuou: “Se é o modelo que está mal, então mude-se o modelo, mas não se descredibilize o sistema judicial”.
O conselheiro realçou que a morosidade não é um fenómeno que afecte todos os graus de jurisdição, lembrando que nas relações e no STJ as decisões dos recursos são expeditas. Mas também admitiu a necessidade de os juízes do tribunal dos tribunais redigirem as suas decisões com clareza, para evitarem juízos injustos quanto ao sentido dos acórdãos.
Simas Santos desmentiu com a sua experiência pessoal uma crítica feita pelo presidente do conselho distrital do Porto da Ordem dos Advogados (OA), que preconizou o fim das audiências nos tribunais superiores. “Quando lá vou, alego e passadas duas/três horas, o acórdão é depositado na secretaria”, assegurou Silva Leal. “Já elaborei cerca 600 acórdãos e leio-os na semana seguinte à audiência”, garantiu Simas Santos.
Num aspecto conselheiro e Santos dirigente da OA estiveram em consonância. Silva Leal revelou às dezenas de participantes na tertúlia “Tenho ouvido desembargadores pugnar pelo de fim dos recursos da matéria de facto, o que considero um retrocesso e que, a consumar-se, violaria os direitos de defesa dos cidadãos”. Simas Santos acabaria por subscrever estas preocupações acentuando que “as Relações estão a ter muita dificuldade para apreciar a matéria de facto. Há uma rebeldia”, frisou.
(...)
ANTÓNIO ARNALDO MESQUITA, Público, 28MAI2006

Plus ultra

Incursões, 29.05.06


“O direito mais importante a salvaguardar é o direito à pensão”
José Sócrates, Primeiro-ministro.
“Todos os parceiros mostraram firme vontade de contribuir para um trabalho sério de concertação que garanta a sustentabilidade futura da Segurança Social”
Vieira da Silva, Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social.
No suplemento de “Economia” do “DN” de 24 de Maio, afirma-se que a “ Segurança Social cobrou 152,5 milhões de euros em dívidas de contribuintes no primeiro trimestre, mais 362% do que o total recuperado em igual período do ano anterior. Os resultados trimestrais do plano de combate à fraude e evasão contributiva - que já atingiram 44% da meta fixada para o total do ano - levam o Ministro do Trabalho e Solidariedade a admitir que a Segurança Social registe um saldo positivo este ano, mesmo sem o contributo das reformas que estão em fase de discussão e cuja entrada em vigor só está prevista para 2007”.
Já aqui realcei o apreço que tenho por Vieira da Silva, de longe o melhor Ministro deste Governo.
Estive, numa espécie de “think tank”, reflectindo e debatendo acerca da Segurança Social, tema que interessa a todos nós. Sem acréscimo de meios, tem sido possível, através de eficazes e moralizadoras acções de fiscalização, recuperar importantes verbas devidas aos Cofres da Segurança Social. Já afirmei, por outro lado, que se houvesse maior solidariedade e coesão sociais, se todos contribuíssem para o “bolo comum”, tendo em vista assegurar um futuro digno para todos, e pautassem a sua conduta por padrões éticos, talvez nunca se tivesse chegado tão perto do autêntico precipício que é a eventual falência da Segurança Social!
Os políticos, milagres não fazem. Se não há uma economia em expansão, que absorva mão-de-obra, a fim de que esta possa, por sua vez, ser um contribuinte para o sistema de Segurança Social; se a nossa demografia está quase no ponto zero, não existindo uma substituição de gerações, como poderá então o Estado garantir, amanhã, o nosso dia-a-dia de aposentados/reformados?
Neste particular, lembro aqui os emigrantes (por vezes tão vilipendiados) e que são bem vindos, pois eles já estão a contribuir para a sustentabilidade do sistema. O Primeiro-ministro, José Sócrates, deseja concluir o processo legislativo para a reforma da Segurança Social ainda este ano, para que possa entrar em vigor em 2007. Considera que as medidas propostas pelo Executivo visam “dar confiança, credibilidade e segurança ao sistema público e universal de Segurança Social, pelo menos até 2050”.
O Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social, Vieira da Silva, encontra-se igualmente empenhado em garantir a sustentabilidade futura da Segurança Social.
Esperemos que as medidas apresentadas pelo Governo dêem credibilidade ao sistema de Segurança Social.

Aperto libro

Incursões, 29.05.06

" O bem-estar material não está intimamente ligado, nem é fatalmente proporcional ao grau de instrução do povo"
António Sérgio

Ser Professor é ofício que exige muito amor e verdadeira paixão. Creio que são atributos que hoje faltam no desempenho de várias áreas profissionais. Mas, para continuar a falar dos Professores, com “P” grande, estes estão num completo descrédito.

Não são respeitados pelos alunos e pelos respectivos pais (ambos padecem, em geral, de uma grande falta de cultura e completa ausência de valores!) e não são valorizados socialmente.

Lembro-me bem da minha “Primária”, da qual guardo boas recordações de uma Professora bondosa, meiga, e más recordações de uma outra que mais me parecia uma “bruxa”. Paz à sua Alma! Mas todos nós guardávamos respeito por quem nos ministrava os conhecimentos os quais, se o programa ainda se mantivesse nos nossos dias, diriam que o mesmo constituiria uma violência, pois as criancinhas não poderiam assimilar tudo aquilo: a aritmética, a gramática, a geografia, as linhas de caminho de ferro…

Os Professores marcam-nos muito. Aqueles que nos entusiasmaram, que nos fizeram sonhar e amar determinada área do saber, deles absorvemos tudo avidamente.

E que dizer das gratas recordações que esses nos deixam para toda a vida? Gostaria de aqui lembrar a minha Profª de Desenho do (antigo) Liceu, da qual esqueci o nome mas não o seu doce perfil, arrojado para a época, “tailleurs” brancos, com saias curtinhas, logo acima do joelho, e a sua emocionante entrada no pátio, de Mercedes também branco (lembram-se daquele modelo de táxi Mercedes que andou muitos anos na praça nos anos 50 e 60?) e o seu cabelo ao vento desenhando os contornos da nossa inocente paixão…

Eram tempos em que a Poesia habitava o nosso quotidiano de miúdos. Creio que hoje tudo é mais despido de beleza e de sonho. Mais cinzento, de pedra, assombrado.

Hoje faz-me muita “impressão” reflectir acerca da deterioração do ensino.

Tive professores fantásticos, embora "duros" (tive um Coronel em matemática, um Major dos “Comandos” em Físico-Química”) e tive as tais doces Professoras, românticas como à época era natural (creio bem…) que faziam vibrar os alunos com a sua beleza e com a paixão que sabiam empregar nas matérias que leccionavam: nunca sonhei tanto como nessa época…li tudo acerca da nossa literatura; mergulhava nesse mundo mágico e poético de Júlio Dinis, nas teias tenebrosas de Aquilino e de Camilo…era já a nossa língua portuguesa que eu amava...

Hoje verifico que existem “resumos” das obras maiores da nossa literatura, para serem adoptados nessas escolas de nome horroroso C+S, pois os actuais pedagogos devem considerar que é uma violência obrigar as crianças e os adolescentes a debruçarem-se sobre as mesmas em versão integral. Na verdade, elas não têm tempo: há que dedicar os tempos livres a fazer “downloads” da última música (?) que saiu, House, Acid House, Techno, Tribal, eu sei lá que mais, nomes que eu nem sei o que querem dizer, confesso… e depois vão “curtir” a noite numas caves obscuras, vão para as "acid parties" liquidar os últimos neurónios que têm…ora o que fará esta geração amanhã? Será que nos vai governar?

Eu lembro-me que os programas (do Liceu que é o que conheço por dentro) eram muito estruturados.

Tínhamos, a seguir à 4ª classe (uma senhora 4ª classe que hoje diriam retrógrada mas, pois, pois, pois sim, mas, apesar de tudo, saíamos de lá a saber tanta coisa!) o 1º e o 2º ano do Ciclo; exame para podermos entrar na fase seguinte: o 3º, 4º e 5º ano do Liceu: exame! E só depois, quem quisesse, o 6º e 7º ano e…exame! A Faculdade aí estava à porta! Mas tínhamos por detrás uma “bagagem” impressionante.

Hoje dizem que é a tal violência… Pois….é que os tempos não eram para brincadeiras. Ou se estudava, ou entrava-se na vida, a sério!

A sociedade, lembro-me, era cinzenta. Mas não havia a actual desorganização no sistema de ensino. Senhores: Organizem-se de uma vez por todas! Trinta anos a ensaiar experiências pedagógicas…Já é tempo!

Revejo, com saudade, uma fotografia que aqui tenho em casa, eu muito miúdo, aí uns cinco anos, na época do Natal, ora…anos 50, por aí, com meus pais, nos Restauradores, junto ao Hotel Avenida Palace, a rua muito limpa, a calçada linda, as pessoas todas aprumadas…nessa época, as profissões que hoje estão em crise (será uma crise meramente “virtual”?) eram sumamente apreciadas. E faço esta afirmação sem qualquer prévia elaboração de juízos de valor relativos ao então regime vigente.

Ora, num regime livre, mais perfeito, o esquema de ensino não é capaz de preparar para as várias áreas da vida?

Lembro-me que o Curso Comercial, quem o terminasse, tinha emprego garantido num escritório, a trabalhar em áreas como a contabilidade.

O Ensino Industrial preparava verdadeiros operários, que se especializariam nas várias vertentes da área: mecânicos, metalúrgicos, electricistas, por aí fora…

Acabou-se com esta diferenciação/especialização e os jovens deixaram de ter referências para a vida profissional.

Desembocou tudo em cursos que não têm saída, pois hoje em Portugal o que faz falta são Médicos, Enfermeiros, Engenheiros, Arquitectos (e então Arquitectos-Paisagistas nem me falem!!!), Químicos, enfim…

E agora?

Eu só posso dar a minha perspectiva de antigo aluno. Não havia desemprego de Professores, estes eram uma referência no nosso país: eram sumamente respeitados! As Escolas funcionavam a tempo e horas, sem dramas de horários, de currículos!

Pelo menos, pessoalmente, nunca dei conta de que a Escola funcionasse mal e nós, alunos, todos tínhamos interesse nas matérias.

Se funcionava, porque é que não se mantiveram os aspectos positivos?

A conclusão que retiro é a seguinte: o Homem tem de aprender, não a destruir, mas sim a construir, melhorando sempre!


Nota: quero aqui agradecer aos Drs. Coutinho Ribeiro e Marcelo Ribeiro, a evocação da referida classe profissional que marcou a minha geração, e a ajudou a descobrir horizontes insuspeitados. E que hoje, à semelhança de outras classes, está mergulhada numa vil e apagada tristeza. Sem qualquer prestígio.

Onde estás ?

Sílvia, 28.05.06

Onde estás, meu olhos,
minhas mãos cuidando
carinhosamente do percurso?

Onde estás, minha segunda pele,
meu sangue a arder,
meu coração buliçoso ?

Onde estás, noite minha,
minha noite profunda
e perdida de mim;
meu dia de canções,
meu mundo nítido de nexos?

Onde estás, meu corpo desejante,
meus seios teus,
minhas coxas tocadas,
meu sexo, finalidade de tudo?

Onde estás minha vida,
meu universo suspenso,
meu gozo, meu sentimento,
trêmulo, de mundo?

Onde estarás?


Silvia Chueire

Noite de naftalina

Incursões, 28.05.06
Ontem, foi dia de naftalina, como não se cansava de dizer a Ludovina, 6o maduros (uns mais do que outros, que também lá estavam os jovens Olga e JCP, ele pendurado no charuto), sentados à volta da mesa para mais um jantar dos antigos alunos da Secundária do Marco.

Tive de fazer esticar o dia para chegar quase a tempo. O treino de futebol do meu filho acabou às 18.30 H, tivemos de correr logo a seguir para o Marco, ainda fui levá-lo a casa dos meus pais, ajudei-o a tomar banho, dexei-o lá, e segui para o restaurante. A tempo, muito a tempo.

Lançaram-se as bases para a criação de uma Associação que tente dar algum sentido às coisas, que não se resuma a ser uma organização de comezainas, e eu, acicado, lá comecei a lançar provocações várias, para gozo dos presentes. Conclusão imediata: «Estás igual ao que sempre foste!».

Obrigado, malta. Gostei de saber que estou igual. Significa que já não vou mudar.

Só tive pena de não poder seguir com eles para a discoteca. Mas tinha que ir buscar o meu filho e regressar ao Porto. Fica para a próxima.

Estes dias que passam 26

d'oliveira, 28.05.06
Em nome dos meus companheiros antigos do bibe e do pião*

No tempo em que a escola era risonha e franca, tempo claramente conotado com as mais sinistras práticas, como adiante se verá, no tempo, convém dizê-lo, em os professores (e sobretudo os primários porque estavam por todo o lado, eram os mais numerosos e acabavam por ser para a grande maioria os únicos conhecidos) eram respeitados, meu pai, médico e vagamente João Semana (não tanto porque quisesse mas sobretudo porque naquele pobre meio piscatória não se podia fazer outra prática da medicina), agarrou-me pela mão um dia e disse-me - Hoje começa a escola. Vou ensinar-te o caminho. E lá fui, sete anitos, a alombar com uma mochila carregada de livro, caderno, lousa, lápis, caneta de aparo, enfim “os necessários”. Calcorreámos toda a rua Henrique Tenreiro, depois a inteira rua de Buarcos, passámos o Poço da Vila, o largo dos pescadores, o largo grande e finalmente depois de um larguinho mais pequeno e ao cimo duma ladeirinha, aí estava a escola do senhor professor Mourinha. O meu pai entregou-me aos cuidados de um homem ainda novo e disse-lhe “Se for preciso, dê-lhe umas palmadas! Depois deu-me um beijo e perguntou-me: – Sabes ir para casa?Sei. – Então está tudo bem. - E foi tomar a camioneta para a Figueira.
No primeiro dia de escola, aprendi a dizer três bons palavrões, a jogar ao “parado” e a usar as minhas bonitas botas de atanado para andar à pancada com uns tipos descalços, de roupinha remendada e provavelmente dados uma precoce luta de classes. Ai o gajo é rico? Toma que já comes.
O gajo rico(?), eu, também achava uma injustiça apanhar duas lamparinas só por ser o filho do senhor doutor. Pimba, arreava também, e usava as belas botas para canelões de grande qualidade.
Nesse mesmo dia fiquei amigo de alguns dos meus contendores, a saber o Ganhitas, o João São Marcos Amaro, conhecido por “Mantana”, o Joaquim José Romão e o Aranha Eires. Com eles, e durante quatro anos, partilhei tudo, mas eram eles quem mais dava porque, nas suas casas modestas, a palavra supérfluo era como visita de Páscoa: uma vez ao ano e por pouco tempo.
O professor Mourinho deu-nos, durante os dois anos que foi nosso professor, bastas lamparinas e, quando a coisa era pior, umas reguadas.
A terceira e quarta classes foram passadas noutra escola, também primária e também oficial, mas que ficava um pouco mais acima. Aí era o professor Cachulo quem mandava. O professor Cachulo também não era para graças: ali a miudagem tinha que aprender a ler escrever contar, fazer redacções, saber a história de Portugal, a geografia, os rios todos, as serras todas, as estações e apeadeiros do caminho de ferro (linhas do Norte, da Beira Alta, de Sueste, do Oeste, ramal daqui e dali, linha do Douro etc... tudo! Que eu saiba não me fez mal algum decorar aquilo tudo e se hoje ainda consigo perceber as canalhices de sucessivos governos é porque sei que terras que tinham caminho de ferro e já não têm isso significa mais dinheiro em estradas, gasolina automóvel etc...
De vez em quando o meu pai perguntava aos professores se ia tudo bem. Eles diziam que sim e o meu pai agradecia cortêsmente e avisava-me para continuar no bom caminho. O professor calava as minhas travessuras porque já me tinha ferrado as xulipas da ordem e o meu pai fingia que acreditava.
Depois foi o que se viu: os meninos vão para a escola no popó do papá ou da mamã, o professor não lhes sacode o pó dos fundilhos e as criaturas chegam ao fim da primária tão burramente virgens de conhecimentos como entraram. No secundário repete-se a receita e depois é o que se vê: nem estudantes nem cidadãos.
Agora uma senhora ministra entende que os professores, classe maldita e incompetente, devem ser avaliados pelos pais. Pelos pais que, ao que consta, depositam os filhos na escola o maior número de horas possível para as criancinhas não ficarem sozinhas em casa. Por pais que não querem, não sabem ou não podem acompanhar os estudos dos filhos. Por pais que acham que a escola tem de dar aos seus abencerragens a educação que a família não dá. Por pais que subitamente descobrem que entre a escola e a casa, há drogas à venda, há bandos a formar-se, há crianças a perder-se.
Mas se algum professor manda dizer que o menino não aprende, que é mandrião, que tem más notas, que vai chumbar, aí muda tudo de figura. É o professor que é incompetente, a escola que não cumpre o seu dever, os direitos da criança que não são respeitados. E subitamente junta-se meia dúzia de pais vociferantes e energúmenos, que ameaçam professores, fazem exposições ao Ministro e chamam jornais e televisão.
Claro que há professores que são um atraso de vida, uns miseráveis que não sabem ensinar, nem souberam aprender, que estão no ensino por todas as más razões e por uma ainda pior: o Estado contratou-os sem cuidar de ver, de verificar, de examinar as suas competência e conhecimentos. Também nunca os inspeccionou devidamente nem sequer entendeu discutir com os sindicatos as coisas que de facto interessam. Ou que apenas os obrigou a fazer umas coisas prodigiosas como aulas de substituição ou deixar passar criancinhas que não sabem nada. Destas responsabilidades do Estado ninguém cuida ou muito poucos. Da verdadeira qualidade dos professores idem.
E por isso agora vem a peregrina ideia de pôr os pais a avaliar os professores. Ora na maior parte das vezes, o que os pais querem é sossego. E que os filhos passem. E que não aborreçam demasiadamente os anjinhos do lar. E que não mandem fazer muitos trabalhos de casa. E que os conservem lá na escola, longe do vício enquanto a família, cá fora, labuta para pagar o carro, as prestações da casa, as férias em Espanha ou no Algarve.
E não vale dizer que há pais, médicos, engenheiros ou advogados. Eles, quando se juntam, são pais. Só pais de crianças inocentes, inteligentes que o professor persegue. Porque as “tomou de ponta”; porque é um reaccionário; porque é um perigoso esquerdista. Porque...é, ou parece ser, um pedófilo. Porque sim e porque não.
As associações de pais, pelo que se vê nos meios de comunicação social, vociferam muito, propõem pouco e valem menos. Mesmo quando (felizmente) há excepções. Entregar a estes órgãos voláteis e incontroláveis, o direito de inspecção e de voto sobre os professores é abrir a porta aos piores abusos e ao mais requentado populismo. Talvez seja também, como dizem os sindicatos, “comprar uma guerra terrível”. Não sei. Sei sim que nessa guerra não haverá vencedores.
Mas já há vencidos: os meninos. E é neles que uma vaga memória das pobres e honradas escolas primárias de Buarcos, dos professores Mourinha e Cachulo, dos meus amigos, hoje pais e avós de meninos que irão bem melhor do que eles à escola, que vejo pintar-se um terror enorme e cidadão. Acudam que estão a matar a escola! A nossa escola!

Vai esta para o Eires, o Ganhitas, o Joaquim João e o “Mantana” onde quer que estejam.

o título é uma citação de um grande poeta, grande cidadão e que me honrou com a sua amizade: Manuel da Fonseca

Só boas ideias

Incursões, 28.05.06

Há já uns anitos, estava a minha filha a frequentar talvez o 2º ou 3ª ano do ensino básico num conhecido colégio do Porto. Numa noite qualquer, vi-a com dificuldades para resolver um qualquer problema dos trabalhos de casa e decidi ajudar. Já não me recordo o que era. Só que eu também não consegui resolver e fiquei com dúvidas que alguém conseguisse. Para sossegar a criança e para tentar chamar a atenção da professora, decidi incluir no caderno uma nota que dizia: «Srª Professora: com o devido respeito de quem não percebe nada de ensino, creio que este exercício não tem solução. Com os melhores cumprimentos».

Dias depois, a professora interpelou a mãe da minha filha para lhe dizer: «Não gostei nada que o seu marido me tenha mandado um recado a dizer que eu não percebo nada de ensino!». A mãe ficou, obviamente, perplexa. Porque tinha lido o bilhete sabia que eu não tinha dito o que a professora percebeu. E explicou-lhe o sentido. E a professora percebeu.


Tenho dúvidas que um professor que não percebeu o sentido de uma tão clara mensagem, possa ter muito que ensinar. Mas, ainda assim, para mim os professores têm (quase)sempre razão. Daí que quando vou àquelas intermináveis reuniões de pais, fique calado, a tentar aprender alguma coisa, enquanto outro pais fazem longas dissertações de ciência sobre a teoria geral do ensino e outras coisas mais básicas, mas sempre intermináveis. Numa quase disputa para quererem demonstrar que eu sei mais do que tu sobre este assunto.


Tudo isto vem a propósito da anunciada medida governamental que pretende colocar os pais e encarregados de educação a fazer avaliações dos professores. Com o devido respeito de quem não percebe nada de ensino, parece-me uma ideia estapafúrdia. Duvido que a generalidade dos pais tenha, a não ser em casos extremos - que os responsáveis escolares serão os primeiros a levar em linha de conta - capacidade ou distanciamento para a tarefa.


Aceitar a ideia como boa, será o mesmo que defender que, no fim de cada julgamento, se dê aos sujeitos processuais um formulário onde, através de cruzinhas, se pronunciem sobre o desempenho dos advogados e dos magistrados. Ou será que esta era uma boa ideia?