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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

24
Mar07

estes dias que passam 51

d'oliveira



Eu estava lá!

Passam hoje quarenta e cinco anos. Quarenta e cinco anos, já! Nem acredito mas tenho de me render à evidência: há quarenta e cinco anos este que estas escreve metia-se, muito cedo e sorrateiro, com mais umas dúzias de colegas e amigos, num comboio em direcção a Lisboa. Já perto, alguém sugeriu que nos apeássemos e tomássemos um desses comboios de cercanias que paravam em sítios inverosimeis. E graças a esse pequeno expediente chegámos sãos e salvos à estação de Entrecampos onde rapidamente saímos e em grupo cerrado, “capas negras, rosas negras”, chegámos à Cidade Universitária.
Quem nos viu chegar –e seríamos poucos mais de cem, se tantos éramos... – passou a palavra: “São os de Coimbra que vêm!” e entrámos num espaço cheio de raparigas e rapazes da nossa idade entre aplausos entusiásticos, abraços, gritos, muito vivório a que correspondíamos com o velho e coimbrão “efe-erre-á”.
Em poucos minutos já dispersos soubemos que a polícia estava por perto, que já houvera uns tantos ou quantos choques entre ela e a malta estudantil e que começavam a surgir notícias de que vários autocarros vindos de Coimbra, estavam a ter dificuldades para chegar a Lisboa. De facto, patrulhas mistas da GNR e da PIDE já teriam mandado retroceder alguns desses autocarros. E à Estação de Santa Apolónia acabava de chegar um outro contingente policial que, supunha-se, iria parar os colegas do Porto e de Coimbra que viriam em comboios depois do nosso.
A quarenta e cinco anos de distância compreender-se-á que as memorias exactas desse Dia do Estudante, se confundam um pouco. Recordo-me todavia que, aqui e ali, na zona da Cidade Universitária se realizavam pequenos comícios ao mesmo tempo que nos contavam o que até ao momento se passara e que, como de costume, se reduzia a cargas da polícia, pancadaria e fugas precipitadas para todo o lado. Porém, o que era novo e diferente, é que cessadas as cargas voltavam a juntar-se os perseguidos e reocupavam os lugares de onde tinham sido anteriormente expulsos. Uma segunda lembrança vivíssima é da presença de inúmeras raparigas que não desarmavam, não fugiam antes nos encorajavam com a sua enorme serenidade.
A história do dia do estudante é por demais conhecida e já hoje o Público a recordou: a ocupação policial da zona universitária, a mediação do reitor da Universidade de Lisboa, Professor Doutor Marcello Caetano. A breve acalmia nas hostilidades. O convite a todos os estudantes presentes para se dirigirem a um “restaurante Castanheira” (que nunca conheci e onde nunca cheguei...) para jantar dado que a cantina fora encerrada pela polícia. A carga policial em pleno Campo Grande quando, sem aviso, a polícia de choque interveio contra as centenas ou milhares (que sei eu) de estudantes que pacificamente se dirigiam para o restaurante. As correrias sem fim a que isto deu lugar. A especial ferocidade dos polícias em relação às capas e batinas que denunciavam não só o estudante a espancar mas, mais ainda, o estudante vicioso e coimbrão que conseguira passar as apertadas barreiras estabelecidas à volta de Lisboa.
A enorme solidariedade dos nossos colegas lisboetas que nos deram casa e cama e comida... E por vezes nos emprestavam roupa para passarmos mais despercebidos. O milagre de nos encontrarmos em pequenos grupos noite fora em sítios para a maioria de nós desconhecidos. Pela minha parte alguém me levou ao CUJ (clube universitário de jazz) e depois por aí fora até às tantas da manhã, numa ânsia de falar, de contar, de prometer solidariedade e de preparar o dia seguinte, enfim as horas seguintes, numa tentativa de vencer a polícia voltando a reunirmo-nos. Se a memória não me falha, no dia seguinte pela manhã encontramo-nos uns tantos ou quantos na sede da pró-associação de Medicina, em pleno Hospital de Santa Maria. E, se continuo a recordar-me bem, também esse local foi invadido pela polícia comandada por um certo capitão Maltês que, espantosamente, garantiu aos de capa e batina saída segura sem bastonadas. Saímos sim, mas todos, de Coimbra e Lisboa mais alguns do Porto que terão conseguido passar a malha policial sem serem mandados para trás.
Depois... regressamos a Coimbra, sem mais problemas, mas decididos a fazer pagar caro as bastonadas e as mentiras que rapidamente o poder pôs a circular desqualificando as Associações de Estudantes e reduzindo a batalha campal a uma suave admoestação policial a meia dúzia de estúrdios mal intencionados.
A greve foi proclamada em Coimbra e Lisboa e há que dizê-lo foi fortemente seguida mesmo se, em Coimbra, as franjas mais conservadoras argumentassem que a questão era meramente lisboeta e que “a Academia não fora ofendida nem atacada”. Pela primeira vez, provavelmente, o princípio puro e simples da solidariedade venceu (e convenceu...) o argumento especioso e isolacionista proclamado pela direita coimbrã. Acho que, tantos anos passados, podemos, os de Coimbra, dizer que honrámos os nosso compromissos. Claro que a crise estudantil de 62 foi mais sentida e vivida em Lisboa, tanto mais que, só tardiamente a polícia começou a reprimir as movimentações coimbrãs. Mas os números de estudantes posteriormente presos, processados e expulsos da universidade provam que Coimbra esteve sempre envolvida e solidária. De resto também ali a Associação foi encerrada, a Queima das Fitas foi suspensa e não chegou a realizar-se para já não falar nos jogos de futebol que envolviam a Associação Académica em que se registaram violentas manifestações.
Velhos amigos meus, entrevistados, dizem em substância que 62 foi para eles um ano decisivo e de viragem. Também para mim e para muitos, uma multidão, que em Coimbra estudavam. E curiosamente, sete anos depois, em 69, sob condicionalismos diferentes é verdade, foi ainda a recordação de 62 um dos motores da greve. Com uma diferença: em 69, foi Coimbra em peso que se levantou. E tão forte e unida se mostrou a massa estudantil que essa greve total conseguiu o impossível: a demissão do reitor e do ministro, a nomeação de um reitor da confiança dos estudantes, o levantamento dos castigos aplicados aos dirigentes estudantis, a criação de épocas especiais de exame e, surpresa das surpresas, o regresso a Coimbra de todos os estudantes incorporados por castigo na tropa.
Agora, hoje, umas centenas de “sexagenários” vão juntar-se e celebrar esse já longínquo combate. Por várias razões (ou por uma só: esquecimento e desatenção!) não estarei lá fisicamente. Gostava porém de dizer que é como se estivesse. Há coisas que não esquecem. E 62, esses dias febris de Março, Abril e Maio, como os dos anos que se seguiram, podem confundir-se na memória, podem trazer lembranças penosas de prisão e de medo, de conspiração e de fúria, de desânimo (que também houve), de vinho e rosas, mas têm o cheiro fortíssimo da solidariedade e da vida que mereceu ser vivida.
Vai esta em memória do Vítor Wengorovius, do Jorge Aguiar e dos dois Abílios (um de Lisboa e outro de Coimbra) e do Francisco Cordeiro (Porto). E de tantos outros que não se nomeiam mas de quem seguramente daqui a pouco em Lisboa haverá quem se lembre. Com uma lágrima e um sorriso.
Isto não é o dia de S. Crispim de Henrique V e de Shakespeare, mas também nós poderemos dizer como os sobreviventes vitoriosos de Azincourt: “Amanhã é o dia do Estudante”. E cada um “beberá à lembrança do nosso pequeno exército, do nosso bando de irmãos” porque aquela “jornada enobrece(rá) a sua condição”.
E dirá, comigo, “eu estava lá”. E comigo estavam também alguns felizmente vivos, frequentadores deste blog, João Vasconcelos Costa, Rui Namorado e António Lopes Dias. Um abraço, malta!

roubei ao João Tunes e ao seu excelente blog Agua Lisa 6 esta reprodução do emblema do dia do Estudante de 62. Pecado confessado está meio perdoado. E o JT é penso desta geração.
Osmeus leitores perdoarão o tom de "velho combatente" mas que querem? eu não resisto a certas evocações e certas efemérides: é o meu passado e mais do que isso, retrata a minha "construção" como homem e como cidadão.

23
Mar07

...

Sílvia
antes de ser

o poema é as notas que saltam do clarinete,
e batem nos meus ouvidos,
sem fazer perguntas
ou me permitir articular palavra.

é o prazer da melodia,
lugar onde me é dado fruir.
o poema é antes de o ser.

ali as palavras voam abaixo dos sentidos,
e o gozo da música
é o que me eleva.

o poema é o que nunca poderei dizer,
a experiência aguda da percepção,
a me encher o corpo do sentimento das coisas.

até derramar-se na insuficiência
das palavras e crescer nelas,
o poema é uma ave a voar.

silvia chueire

22
Mar07

missanga a pataco 6

d'oliveira



Freiheit, liberté, libertad

O caso passa-se na Alemanha, ao que parece em Frankfurt. Uma sofrida esposa farta de apanhar do marido pede o divórcio e, de caminho, um divórcio rápido dado não estar com vontade de continuar a apanhar durante muito mais tempo. A requerente era de origem magrebina ainda que de nacionalidade alemã. O marido provinha da mesma região e, provavelmente, também já estaria nacionalizado alemão.
Uma senhora juíza do Tribunal de Família, alemã puríssima, mas muito multicultural, entendeu negar provimento ao pedido da esposa sovada baseando-se no facto do casal ter origem magrebina e portanto, entendia a exª e meritíssima juíza, lhes poder ser aplicado o direito muçulmano. E chamou em defesa da sua posição o versículo 34 da surata 4 do Corão que aconselha o marido a aplicar uns correctivos na esposa indócil.
Diga-se, em abono da verdade, que a coisa suscitou reparos e que a senhora juíza já não julga casos destes.
Eu não sei o que mais admirar: se o versículo caceteiro se a atitude da juíza. De todo o modo já ganhei o dia. A 17ª “Chambre correctionelle” de Paris mandou em paz o director da publicação “Charlie Hebdo”, leitura muito cá de casa, e que republicara, no meio da cobardia geral e multicultural, os desenhos dinamarqueses que tanto brado deram. E tantas virtuosos protestos ocasionaram. Desta vez a liberdade de expressão ganhou.
As leitoras que me aturam não se riam tão depressa: duas costaleras de Granada já não poderão carregar a imagem da padroeira porque a actual direcção da confraria a que pertencem desde há seis anos entendeu que “a presença de mulheres num espaço tão apertado poderia dar origem a roços pecaminosos ou pelo menos equívocos.” O Imã, digo o bispo, de Granada aprovou a resolução da direcção da confraria.
Integristas de todo o mundo uni-vos e o mundo será vosso e mcr será banido. Bem feito!

desenho de Siné no livro "Les Chats"


22
Mar07

Diário Político 44

Incursões
À boleia de O’Neil no "país pátria de exílio"

1 Se o engenheiro sempre não era engenheiro
e a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;

2 o retrato do entediante partido é aquele: um cavalheiro, ao que sei, de “cor” insulta desbragadamente uma camarada e desculpa-se lapidarmente: não insultei e muito menos agredi. Só me atacam porque são racistas. Como diz o poeta:
"um imenso tempo perdido."

3 O sr. engenheiro Belmiro de Azevedo passa “à peluda”. Durante dois dias o infatigável “Público” questiona-se sobre o destino da sonae. Que há candidatos fortes, assevera. No dia da verdade, sai a surpreendente notícia: Azevedo sucede a Azevedo, no meio do geral aplauso dos “públicos” candidatos. E o “Público” realça, na última página que a promoção se deve aos altos méritos do promovido. Provavelmente será assim. Mas alguém com juízo esperava outra solução?
Leitor que me pede a história
que já traz engatilhada,...

4 Discute-se gravemente se o sr. Robert Mugabe deve ou não ser convidado a vir a Lisboa para a 2ª cimeira Europa-África. Um cavalheiro chamado Luís Amado, supostamente Ministro de um governo socialista, de esquerda, portanto, ao que consta, acha que a situação interna no Zimbabué não deve inviabilizar a reunião. Por outras palavras: está firme na intenção de convidar esse bandoleiro de médio curso que aterroriza um pais indefeso, prende e espanca os opositores, quando estes não desaparecem pura e simplesmente. O Zimbabué parecia rico e próspero. Agora parece pobre e arruinado. Não se trata de fazer a apologia do antigo regime doutro perigoso indivíduo chamado Smith (Ian Smith, não esqueçam este nome) mas apenas de verificar que a África teve dias maus e vai ter dias piores. Para quem gastou alguma mocidade a apoiar os condenados da terra isto é difícil de engolir. Ainda que se não caia no disparate do Beco da Mal-Amada:
se acha que a vida não é boa
utilize gás da Companhia
o combustível de Lisboa.”

5 O re-falado envelope nove continua na berlinda: ler os jornais é, além de penoso, agoniante. Ninguém acredita que houvesse alguém que não soubesse do conteúdo das cassetes. A culpa ia direita para um par de advogados manhosos e tudo morria enfim feliz, no terceiro e último acto. Mas isto não é um drama teatral, sequer uma comédia de boulevard. Apenas uma funçanata desempenhada por amadores que decoraram mal os papeis e de tão surdos nem sequer ouviram bem o “ponto”.
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim

6 Finale sem brio:
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
..........
se fosses só o sal, o sol, o sul
....
Portugal questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós.


Agradeço a boleia de mcr que me tem valido enquanto não dou com a solução de um problema que me não permite entrar no blog.
As citações são de poemas de Alexandre O Neil, respectivamente “Se”, “ Uma Lisboaremanchada”, “Inventário”, “Saber viver” e “Portugal”, publicados nos livros “No Reino da Dinamarca”, “Abandono Vigiado”, “Poemas com endereço” e “Feira Cabisbaixa”. Actualmente, os livros de O’Neil estão todos contidos em “Poesias completas” (Assírio & Alvim).
Este texto celebra propositada e tardiamente o dia da poesia. O título evoca também um outro grande poeta: Daniel Filipe.


d'Oliveira


21
Mar07

o leitor (im)penitente 13

d'oliveira


Pela poesia é que vamos.
Há muitos, tantos anos, em tempos mais penosos e mais exaltantes,
um amigo meu,
numa noite inesquecível de Inverno,
na figueira-sobre-o-mar,
recitou-nos numa rajada
um poema enorme
tumultuoso,
torrencial, de um autor
que todos nós, ouvintes,
desconhecíamos.
Era o ano de 1962
eramos novos,
e a noite, o mar e algumas eventuais cervejas bebidas
tornaram único esse dia,
o dia em que conheci Herberto Helder, para mim o maior poeta português vivo e, seguramente o maior da segunda metade do século XX.
Vinte anos depois tive a honra e o prazer de o conhecer pessoalmente numa livraria do largo da Misericórdia em Lisboa.
E ele era igual à sua poesia por muito estranho que isto possa parecer.



o amor em visita


dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. com ela
encantarei a noite.
dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. seus ombros beijarei.

…..

dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
com uma flecha em meu flanco, cantarei.

…………………..
dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
à tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- então cantarei a exaltante alegria da morte.

…………………………..
toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
e eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
inteira, tua vida o deseja. para mim se erguem
teus olhos de longe. tu própria me duras em minha velada beleza.

. ……………………..

murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
onde está o mar? aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
em cada espasmo eu morrerei contigo.

e peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
……………………………………………………….
ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

e à alegria diurna descerro as mãos. perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

herberto helder

nota: verificarão os mais atentos que se trata apenas de extractos do poema "o amor em visita". quem o quiser na sua integralidade fará o favor de mo pedir que o enviarei por mail.
Na gravura: Matisse, claro.
Em memória de António Carlos Manso Pinheiro "anunciador de grandes poetas"


21
Mar07

Porque

O meu olhar
Neste dia mundial da poesia deixo aqui um poema, de que gosto especialmente, de uma grande senhora da poesia portuguesa

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Andresen

20
Mar07

As casas de brincar

José Carlos Pereira
Vive-se um período alegremente triste na direita portuguesa. O PSD, ou o PPD/PSD, e o CDS, ou o CDS-PP, passam por momentos de tensão que, em diferentes circunstâncias, nos mereceriam uma boa gargalhada. Como disse “Zezinha” Nogueira Pinto, viraram autênticas casas de brinquedos!

No PSD, o inefável Santana Lopes ameaça regressar para se vingar da desfeita da derrota - sim, porque ele não é homem para aceitar derrotas. Marques Mendes não consegue descolar e a sua aparente seriedade não chega para satisfazer as hostes. Menezes percorre o país para manter viva a sua presença junto das bases e continua a achar-se capaz de governar o país (safa!). Manuela Ferreira Leite e os barrosistas espreitam de esguelha, porque as elites ex-ministeriais não se querem misturar com os putativos líderes da plebe. A coisa promete no circo laranja.

Mais à direita, assiste-se porventura ao fim do CDS, ou CDS-PP conforme os tempos e as vontades. O espectáculo dado pelos dirigentes centristas no último fim-de-semana é, quanto a mim, suficiente para arrasar a eventual confiança que ainda se podia depositar naqueles senhores, sobretudo na “gangada” ao serviço de Portas. Parece que Ribeiro e Castro lidera um partido que já não se revê nos princípios e valores do velho CDS. Ah…e não resisto a lembrar a boutade de José Miguel Júdice quando disse recentemente que quem se veste como Portas jamais poderá liderar a direita. Sim, mas qual direita? A trambiqueira/marialva ou a tradicional/conservadora?

19
Mar07

missanga a pataco 5

d'oliveira
Há males que vêm por bem!
Tenho o deplorável hábito de ler a jornalada de fim de semana numa esplanada frente ao mar. Basta um pingo de sol e aí estou eu, debaixo de um guarda sol a apurar o Público, o Expresso, o El País, o Le Monde e os suplementos literários dos dois últimos a que junto o do ABC. Isto dá-me para encher as manhãs de sábado e domingo.
No Porto, por uma questão de fidelidade, frequento a esplanada do Ferreira que foi praticamente a primeira que apareceu. Para os fins em vista serve perfeitamente. Além do mais, vejo alguns amigos igualmente fieis que não se deixaram seduzir pela concorrência mesmo se mais elegante ou mais design.
Em Lisboa ou, melhor, Oeiras onde vivem o meu irmão e a minha mãe, ainda não tinha poiso mas descobri a marina e respectivas esplanadas. Com a vantagem de poder ir a pé. E assim mato dois coelhos de uma só cajadada. Ando alguns quilómetros, o que só me faz bem, para abater a barriga que tem diminuído notavelmente e bebo o meu café num sítio aprazível.
Mas esta escolha permitiu-me um par de constatações de que imediatamente dou conta. Por um lado é de aplaudir a ideia do passeio marítimo feito pela Câmara de Oeiras. O Porto e o dr. Rio poderiam aprender umas coisas ainda que eu duvide que o segundo sequer consiga perceber.
A segunda é que o país engordou. Engordou bem mais do que eu, diga-se de passagem. Durante as duas horas em que por ali estive vi passar seguramente duas toneladas de enxúndia, de carne supérflua e pouco saudável. Com este excesso de adiposidades alimentava-se um par de campos de refugiados do Darfur. Claro que não se podia dizer a origem da carne, mas a cavalo dado não se olha o dente. E a carne humana não deve ser pior do que muitas outras de que se fabricam esses duvidosos hambúrguers que por aí se vendem.
A terceira e última observação é esta: fiquei com a impressão de que boa parte dos passeantes que tentavam perder uns quilos depressa os recuperariam ao almoço dominical. Então com um par de quilómetros em cima aquilo deve ser um fartar vilanagem. Isto de andar a suar à beira mar dá de certeza uma traça do catorze.
É que a corpulência dos passeantes faz desconfiar das boas intenções que presidiram à jornada matutina. Tenho o pressentimento que o consumo de feijoadas, cozidos à portuguesa e outros pratos ligeiros do mesmo teor aumenta exponencialmente entre os peripatéticos atletas do passeio do dr Isaltino de Morais.
Moral: os autarcas que queiram ter munícipes saudáveis devem abster-se de construir estes agradáveis passeios à beira água. Eis como o há pouco acusado dr. Rui Rio fica absolvido pela sua não construção. Está a proteger a nossa saúde. Sem passeio marítimo não há passeantes. Sem passeio estes dormem até tarde. E é sabido que quem se levanta tarde come menos ao almoço.
E ao jantar?, pergunta uma azougada leitora. Bem o jantar é outra conversa. Fica para a próxima.
Domingo, Oeiras, passeio do Isaltino, a preparar-me par almoço frugal.

na gravura: Fernando Botero, "Sonhando"

os maldizentes ficam avisados que já perdi doze quilos, já só faltam 5 ou 6. A ver vamos...

18
Mar07

Estes dias que passam 50

d'oliveira

Até os melhores falham ou
para a próxima corre melhor ou
mcr ri-se que nem um cabinda
Uma vez não são vezes mas desta confesso que quase acreditei que uma andorinha pode fazer a primavera. Como alguma leitora mais atenta recordará, vim até Lisboa com vários objectivos, ver a família, assistir à festa de lançamento da Sudoeste, editora do meu quase irmão João Rodrigues e estar com a Kami e o JAB por ocasião de mais uma apresentação do “13º passageiro”. Desta vez a coisa era em Sintra, sob a dupla égide de Eça no hotel Lawrence e do rei D Fernando, o 2º, o alemão, quase a única criatura digna da 4ª dinastia.
Para quem não teve o prazer e o privilégio de assistir a uma actuação em duo da Kami e do JAB nestas coisas de livros sempre se dirá que eles agora, se divertem em fazer uma primeira parte em power point fartamente interessante ao que pude entrever e sobretudo adivinhar. Parece mesmo que já estão tão calhados, tão entrosados, que se podem dar ao luxo de evitar o aborrecimento de testar com demasiada antecedência o seu pirotécnico espectáculo.
Isto é: podiam ou podem desde que isso não ocorra em Sintra e sob o atento e espantado olhar de mcr o analfabeto usuário de mac Intosh...
De facto, e para abreviar, lá nos encontramos à hora aprazada e depois dos cumprimentos da praxe rumámos à sala do acto apresentador. Aí a Kami sacou do seu computador, um maquinismo ibm se bem recordo e verificou contristada que se esquecera do cabo para ligar à corrente. Um espectador vindo do norte, apontava, in immo pectore, esta falha e ria-se escarninho mas só para dentro, para não desanimar a bonita artista. Todavia, alguém, mais previdente, um nativo local, desencantou um cabo e a coisa recompôs-se. Tratava-se em seguida de ligar o computador a um retroprojector coisa que pareceu correr sem dificuldade. Pareceu..., pareceu aliás por pouco tempo porque o dito retroprojector não reconhecia o computador maravilhoso, o pc portátil que não cai na asneira de ser mac! Aquilo era uma desbunda de dar ao botão, ligar, desligar e nada! No ecrã apareciam umas letrinhas a dizer que para lá do retroprojector aborígene tudo era “silêncio, escuridão e nada mais”. Um fantasma rondava por Sintra a bela como outrora outro andou há pouco mais de um século a assustar a Europa. Infelizmente este mais recente não teve nenhum Karl para o explicar mas apenas o modesto escriba que estas vai alinhando.
E se mudássemos de computador?, sugeriu alguém. É isso concordaram várias vozes perante a ignorância espantada do cronista. E veio outro computador. Com uma pen transferiu-se o artístico trabalho da engenheira Kami para o novo maquinismo que, como de costume, não pertencia à minoritária família mac. Copiou-se a apresentação, testou-se no novo computador, desta vez local, nativo, como o retroprojector, convencida toda a gente que entre sintrenses as coisas correriam melhor. Não correram.
No ecrã fatal (também de Sintra há que informar) “nem uma agulha bulia na quieta melancolia” da imensidão branca e vazia.
Bom, vai mesmo sem apresentação, decidiu JAB que olhava alarmado para o inexorável relógio e para um público impaciente. E foi. E foi bem porque o JAB tem várias qualidades que fazem o cronista ficar verde (o que em Sintra é aliás conveniente e muito cor local) de inveja: tem humor, tem segurança, tem verve para já não falar noutras qualidades que o distinguem. Mais uma vez o escutei com sincero prazer e o mesmo terá sucedido com a restante plateia. En fim, como quase toda, porque atrás de mim pareceu-me sentir uma má onda de profunda irritação. A autora, uma bonita senhora cujo nome misericordiosamente ocultarei, parecia querer gritar: porque é que não uso um Macintosh, porque é que não dou ouvidos ao mcr sempre tão prestável e bom conselheiro?
O resto do encontro decorreu muito bem e só pecou por curto. Curto mas provando que não havia arcas encoiradas. Jantei em óptima companhia e de borla! quem pode querer mais?
na gravura: uma modesta fotografia de um modesto mac book pro, objecto em voga entre índios, silvícolas e outros bárbaros pouco dados à informática. "Try a mac, K!, try a mac..."

nota: caro Nicodemos senti a sua falta, vamos lá a ver se para a próxima tenho o prazer da sua companhia.

17
Mar07

O Parto Difícil da Lei da IVG

O meu olhar
Segundo o “Público” de hoje, o Presidente da AR “prende” a lei da interrupção voluntária da gravidez no Parlamento, dando cumprimento a uma norma regimental que, segundo o mesmo diário, raramente é observada.

Da notícia resulta claro que o objectivo é evitar que um eventual pedido de apreciação da lei pelo TC seja efectuado pelos actuais juízes, que já se pronunciaram, favoravelmente, quanto à questão colocada a referendo.

Ou seja, o tempo ganho com retenção da lei no Parlamento mais o tempo que o PR tem para a enviar para o TC faz com que esse eventual pedido seja observado pelo novo TC, o que pode dar alguma esperança aos que perderam no referendo.

Perante os factos, tudo leva a crer que estamos perante uma tentativa de aplicação do princípio: “Deus escreve direito por linhas tortas”