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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

missanga a pataco 27

d'oliveira, 24.09.07
Adventure in Portugal the beautiful


Farto, fartíssimo das inépcias, da grosseria, do gigantismo e do preço do mau serviço que me prestam, resolvi mudar de banco. Fui obviamente recebido com folares e cavalhadas pelo gerente da agência do novo banco que agora abriu aqui. Pudera! Ao que sei já uma data de vizinhos puseram pés ao caminho com a mesma finalidade. Para a “Obra” já dei tempo demasiado.
Ora nisto de emigrar de um banco para o outro, nem tudo são rosas, sobretudo se as pessoas tiverem contas mensais de serviços vários domiciliadas.
Comigo então é um rosário delas: a água, a luz, o telefone, a tvcabo, o seguro automóvel, o gás, a via verde e sei lá mais o quê.
Munido dos diferentes papeis que as empresas mandam para avisar o incauto que tem de pagar, lá fui ao novo banco, entreguei o maço e, ala que se faz tarde, um café para me retemperar do esforço.
Quando hoje lá voltei para continuar o calvário da abertura (hoje era para receber um cartão de crédito provisório e me associar ao sistema internet do banco para futuramente gerir a débil conta que abri) informaram-me pesarosamente que a maior parte das facturas ou não traz o número de identificação do credor ou não traz o numero da autorização de débito em conta. Ou as duas coisas. O sr doutor vai ter de lhes telefonar que aqui por nós o processo arrisca-se a demorar o dobro do tempo. Sim, senhor, pois claro, vou já tratar disso, que a minha ojeriza ( o burro do computador também não conhece esta palavra!) ao banco anterior mantém-se viva e intacta, se é que não aumentou.
Em casa resolvi começar pela mimosa EDP que tem um número de atendimento até às 20 horas. Às 17, uma voz feminina e seca como o deserto da Trafaria, indicou-me que não havia nada a fazer. “Não é possível estabelecer a ligação”, dizia a invisível criatura.
Bom, vamos tentar a internet em www.edp.pt. Sai-me uma coisa toda em ingliche! Devem pensar que eu vivo no East End, no Surrey ou qualquer antiga colónia de Sua Majestade. Tentei depois encontrar uma coisa que servisse os pobres consumidores mas as opções mais evidentes dividiam-se entre investors e journalists.
Com alguma batota, lá consegui mandar uma mensagem a pedir os dados em falta. A resposta, pronta e em duplicado e sempre em ingliche (técnico?) dizia-me o costume: que a minha mensagem will receive full attention. E minha opinion is great importance for EDP group.
É por estas e por outras que uma pessoa de bem e de idade, de seu natural calma e optimista, tem, de quando em quando, a vontade imensa de ir por uma lata de petróleo e uma mão cheia de pregos , fabricar uma bomba artesanal e, zás!, pô-la no primeiro balcão da edp que lhe ficar em caminho. Por muito menos a Al Qaeda mata americanos ou gente que se lhes assemelhe.
E não há quem puxe a delicada e felpuda orelhinha do big chairman da electricity of Portugal on the rocks?

From oporto to universe,
mcr sincerely
Ora porra!

Estes dias que passam 77

d'oliveira, 23.09.07

Marcel Marceau

Só quem o viu! E quando digo viu, falo disso mesmo. Ver. Ver um homem num palco nu, sem uma palavra, ele e o seu gesto. Ah, anos 50, gloriosos anos para o teatro que viram autonomizar-se uma arte maior, o mimo. E durante muitos anos, mimo e Marcel Marceau quiseram dizer a mesma coisa. O milagre do teatro, desta vez sem um dos seus elementos maiores, a palavra. Mas a mesma intensa comoção, a beleza calorosa do gesto, o amor por uma história bem contada.
Aos noventa e quatro anos Marcel Marceau navega pelos espaços siderais, os anjos que se acautelem pois este viajeiro nunca precisou de asas para se erguer no palco.

Uma senhora, uma grande senhora, já aqui o disse, e repito, deu mais uma lição às tristes criaturas que nos governam: Ângela Merkel, uma conservadora, recebeu o Dalai Lama na Chancelaria. Só numa republica semi-bananneira como esta em que nos estamos a transformar é que o diktat chinês (se é que o houve, pois dizem-me que a não recepção ao Dalai-Lama foi toda saída da cabecinha dos nossos governantes) teve força suficiente para fingir que o Dalai-Lam é mais um emigrante clandestino .

Aliás parece que a triste vergonha vai continuar: desta vez receberão com folares e cavalhadas o tirano do Zimbabué, um empedernido criminoso que governa a chicote um pais desfeito em vias de rapidamente se tornar o exemplo absoluto da pobreza provocada. Ao que parece, Gordon Brown, primeiro ministro britânico não virá justamente porque não quer encontrar-se com a detestável criatura. E resta saber se outros políticos europeus não lhe seguirão o exemplo. É que, convém dizê-lo, Mugabe tem desde há muito a entrada proibida na União Europeia. A cimeira perde assim tudo ou quase, porquanto perderá grande parte da sua reduzida relevância sem a Grã Bretanha. O desejo de protagonismo do governo português leva a estes extremos de ridículo.

Pouco a pouco, por todo o pais vão-se erguendo vozes sobre a vergonhosa omissão dos jogos de uma equipa nacional na televisão pública. Por uma vez sem exemplo uma equipa de gente vulgar ou quase tem mostrado que Portugal pode ser mais do que fado, Fátima e futebol. De todos os lados, e nos mais prestigiados meios de informação tem podido ler-se homenagens a gente nossa, em três jogos dois jogadores portugueses foram considerados os homens do jogo, e uma equipa vencida mas não batida, a portuguesa tem saído dos estádios sobre o aplauso unânime do público.
Pois bem, a gentinha da televisão e quem nela manda continua mouca como um portão de quinta. E defendem-se com a sport tv, como se não tivesse sido possível um acordo amigável com este grupo privado.
Não há quem faça uma placagem a estes fulanos e os mande para fora do campo por uns tempos?
Este apontamento pertence à série “ o rugby que você não vê”.

Diário Político 65

mcr, 23.09.07

Longa deriva para o centro

Eu sou um antigo e orgulhoso leitor de Salgari (Emílio) e de Verne (Júlio). Isto assim dito não tem qualquer importância nem significado especial excepto se vocês aí desse lado do ecrã me aceitarem como pessoa de certa imaginação. Imaginação temperada por mil aventuras de que os dois autores, por cá tão estupidamente esquecidos (porque nem se imagina o número de sites a eles dedicados por essa internet fora) foram, aceitarão inexcedíveis por muito Harry Potter que por aí ande a mostrar habilidades. Verne e Salgari nunca recorreram a artes mágicas para fazer os seus heróis vencerem as adversidades. Pelo contrario puseram em cena gente normal mas teimosa, destemida mas prudente que com paciência, bom senso e alguma ciência enfrentavam e venciam os desafios com que se deparavam.
Como já disse estes autores caíram numa certa obscuridade neste risonho país, ainda que eu saiba, por experiência própria, quão disputadas são as suas obras no chamado mercado alfarrabista. Sinal que os verno-salgarianos andam por aí como o nunca assaz lamentado dr. Santana Lopes, o inventor da política bola de sabão.
Mas a que vem tudo isto, esta divagação por autores que os nossos políticos lamentavelmente ignoram, como aliás suponho que ignorarão Marx ou Tocqueville, Bobbio ou Montesquieu ou, mais nacionalmente, o falecido Dr. Oliveira Salazar, pessoa detestável mas que deixou algumas pistas interessantes sobre o anestesiamento dos cidadãos e o valor da propaganda na imagem dos regimes?
Ora tudo isto vem dessa frase de somenos pronunciada pelo senhor Primeiro Ministro sobre o que é a essência do P.S. (ou pelo menos do PS que ele governa com mão de ferro e luva de veludo), S.ª Ex.ª deixou cair sem escândalo dos seus correligionários, ou se o houve não teve pública manifestação, que o partido era de centro-esquerda.
Convenhamos: ninguém se admirou muito, se é que, sequer, em algum cérebro mais confuso, algum laivo de surpresa perpassou. A acção governamental tem-se pautado por um principio simples e prático do ponto de vista de ocupação do espaço do poder: o governo tem feito o que a direita tentou mas não soube fazer. Ou receou fazer temendo que a confundissem com o finado (?) Estado Novo. Ou seja, o PS governa à direita retirando o tapete ao pobre dr. Marques Mendes que a nada é poupado. Roubam-lhe o parco programa, ocupam-lhe o território e deixam-no mu e inerme à mercê do dr Meneses, o tal que se celebrizou por ser contra os elitistas, sulistas e não sei que mais. Com essa frase de que chorosamente se arrependeu, mal sabia o dr. Meneses que ela o projectaria para a luz forte dos holofotes da opinião pública que viu nele, ligeiramente remodelado, um daqueles brigadeiros que Eça descrevia numa polémica com Pinheiro Chagas. A partir desse momento o dr. Meneses deixou de precisar de ideias, de que de resto não há sinal no que vai debitando. Ficou com uma fama de político que é contra os políticos e com isso, apenas com isso, ameaça o dr. Mendes. E corre o risco de ganhar. Teríamos assim na direita, no centro direita, se faz favor, uma anti-Sócrates à medida, com a mesma falta de ideias mas aureolado com o prestígio que, desde sempre, Portugal tributa a este género de criaturas que põem na ordem os senhores, os elitistas, os licenciados das grandes universidades, os “bem educados”, os “bem nascidos”, enfim os oriundos do “establishment”.
Porque é isso, no fundo, o que Sócrates anuncia com o tal “centro-esquerda” a que vota o PS, partido que ainda há bem pouco tinha no Estatutos umas referências (inócuas e para inglês ver) ao marxismo e à luta de classes. Sócrates veio dizer, preto no branco, o que, desde há muito (desde a sua eleição pelo menos, dentro do PS), era mais que visível. O PS é um partido de centro-esquerda, ou seja uma espécie de ala esquerda do centrão cinzento que boa parte dos seus actuais militantes quer. A bem dizer estes esforçados cavalheiros que enchem por estas alturas as secções e federações do PS sempre entenderam que boa parte das palavras de ordem antigas eram meras balivérnias que podendo servir para ganhar eleições não serviam de modo algum como bússola para a acção política. Direi mesmo mais, fosse Sócrates o primeiro ministro em vez de Barroso e também ele teria ficado na fotografia dos Açores com o casal Bush-Blair e o menino das alianças Aznar.
Temos pois a confirmação oficial da deriva do partido do dr. Sócrates. Oficial repito porque oficiosamente a coisa vinha de bem mais longe, por muita margem esquerda e outras ilusões que iam vegetando dentro do partido. A linha maioritária, e aqui a palavra maioritário deverá significar uma fortíssima percentagem que não dará à esquerda sequer os 16% que a candidatura Alegre obteve na ultima pugna intra-partidária, há muito que vinha defendendo o recentramento do partido ainda que isso torne inútil o qualificativo “socialista” como de há muito se mostrou inútil o “social democrata” do PPD ou o CDS do PP.
A nau Portugal vai vogando para o no man’s land da desideologia em nome do pragmatismo, da realpolitik e do combate aos abusos e desvios revolucionários. Mesmo se esses abusos já só forem uma mera lembrança, mastigada por vinte anos de normalização, por mais um par de anos de união europeia. E pela desqualificação acentuada das organizações putativamente á esquerda do partido socialista. Também delas só resta uma vaga recordação. O partido comunista enquistou-se numa tristonha e defensiva hagiologia de Álvaro Cunhal, o último bolchevique, e o chamado bloco de esquerda, tem tão pouco de bloco como de esquerda: basta ver a ânsia com que se coligou em Lisboa e a pobreza das propostas que apresenta. É folclórico, provavelmente anti milho transgénico e socialmente fracturante mesmo que isso diga pouco ou nada aos “trabalhadores” portugueses. É mesmo, a nível de direcção política visível, outro símbolo de uma certa elite que desde sempre se associou à detenção do poder.
Neste teatro de sombras que é a política nacional, a frase de Sócrates tem pelo menos um mérito: indica um caminho. Não o caminho futuro mas o caminho já feito. Daqui para a frente tudo é possível, por exemplo vir a ser o partido centro-central.
E não se preocupem os que pensam o mundo como algo em que há horror ao vazio. Em Portugal é perfeitamente possível haver centro, direita e até extrema direita sem necessidade de esquerda. Nalguma coisa havíamos de ser originais.

PS: no “Manifesto” diz-se de entrada que um fantasma aterroriza a Europa: o fantasma do comunismo. Ora aqui está uma coisa em que Marx e Engels tiveram razão: o comunismo (que não era o que depois Lenin e os seus amigos dele fizeram, convém dizer), e com ele o socialismo e a esquerda começam cada vez mais a ser meros ectoplasmas. Pelo menos em Portugal, país de que Marx, pelo que me lembro, não fala. Mal ele sabia que, exactamente cento e sessenta anos depois do Manifesto, este, pelo menos nesta parte, seria tão profético...em Portugal.

d'Oliveira
(que jura a pés juntos não ser proletário nem nada que se pareça nem membro de qualquer associação política, religiosa ou social. E que ao nome de Marx também responde Groucho. Mas nem sempre.

...

Sílvia, 22.09.07
Desistir


Tudo era um silêncio absoluto.
O mundo formado de pedras,
água, luz. Imóvel.
Tudo era um inverno de silêncios,
de modo que o mistério
desvelava e ocultava sua face
sem que compreendêssemos.
Vivíamos da memória das coisas.

Hoje ao descortinar a noite,
a meia lua nítida,
os ruídos da cidade nos entraram
pelos olhos e ouvidos.
A canção nos tocou,
o poema subiu-nos à garganta.

Sair da tangência dos dias,
e vislumbrar vida.
A quem será dado o privilégio
em meio ao tempo,
às nostalgias, à memória,
de perceber a humaníssima possibilidade
de retorno ao amor?
A quem, se desistimos dele?


Silvia Chueire

Seguros de Vida, Crédito e Fraude

mochoatento, 21.09.07
A falta de ética profissional e do sentido de responsabilidade social é elevada nestes tempos de voluntarismo, neoliberalismo bacoco e de promoção da imbecilidade.

Todos os adultos responsáveis procuravam deixar os seus filhos em melhor posição do que a que haviam herdado. A preocupação com a nossa prole é uma questão civilizacional (não digo biológica, porque o homem vai perdendo o contacto com a Natureza e procura fazer de conta que os mecanismos biológicos não se lhe aplicam). Todos amamos os nossos filhos e queremos de certeza que eles tenham melhor vida que a nossa. Por isso, num tempo de crédito fácil, a aquisição de habitação foi acompanhada de seguro de vida. Quem subscrevia a apólice acreditava (é mesmo acto de Fé) que, quando morresse, o seguro pagava o crédito e assim não deixava encargos aos seus filhos.

Os seguros eram contratados nas seguradoras no mesmo grupo do Banco e assim os seus accionistas (as únicas pessoas que constituem uma grande preocupação social, como se o capitalismo popular e as Bolsas não contribuíssem para a desgraça do mundo e a depauperização, beneficiando especuladores e nababos que nada fizeram na vida) recebem de todo o lado.

O problema é que agora começaram a morrer as pessoas que fizeram aqueles seguros. As seguradoras não pagam os capitais seguros aos Bancos. Pedem mil e um documentos, informações inúteis, a pretexto das coberturas e das cláusulas da apólice. E se for necessária autópsia, então é para esquecer. Demoram mais de 2 anos os resultados dos exames. Entretanto, o Banco vai cobrando as prestações (enquanto a família puder pagar). Se acabar o dinheiro, não há problema para o Banco que pede execução, penhora e requer a adjudicação do imóvel por 70% do valor. Tudo em nome do Direito ! Esta vigarice fas com que o Banco fique com o bem e ainda credor do remanescente, por um crédito que devia ter sido pago pela seguradora do Banco. Claro que há um dia em que a seguradora resolve declarar que afinal estão reunidos todos os elementos para proceder ao pagamento do capital seguro. Mas, nessa altura, apenas paga o capital seguro á data da morte e os herdeiros, não podendo pagar ao Banco os juros que lhe sejam exigidos, ficam sem nada !...

Isto é uma fraude.

Uma vergonha!...

S/ TÍTULO

JSC, 20.09.07
A reunião marcada para as 10H00 de ontem, da Comissão de Orçamento e Finanças da Assembleia da República, não se realizou, por falta de quórum, apesar do Presidente da Comissão ter aguardado os 30 minutos da praxe. Como a Comissão é constituída por 27 deputados, tal significa que 14 ou mais deputados faltaram à reunião, tornando ainda improdutiva a deslocação dos que compareceram.

Do sítio da Assembleia da República não consigo saber qual a agenda da falhada reunião, o que seria interessante para ver quais os assuntos que foram adiados…

Outra curiosidade com que fico é a de saber como é que os deputados faltosos justificarão (se é que a tal estão obrigados) as respectivas faltas.

Tempos conturbados

mochoatento, 20.09.07
Há épocas da vida em que sentimos que tudo corre mal. As nossas certezas vacilam! As nossas convicções deixam de parecer coerentes com a realidade que vivemos! E, no entanto, não conseguimos deixar de ser o que somos, de agir como consideramos correcto, esperando que a turbulência passe. E há-de passar ...

Há dias, faltei a uma almoçarada porque tinha julgamento num daqueles processos que já nos custa ver, tal o tempo decorrido, tais as vicissitudes porque passou. Mas dever é para cumprir. Só que, na hora designada, com o Juiz na sala, verifica-se que a Colega não apareceu, nem disse nada. Faltavam também as testemunhas que ela havia arrolado. Mandei SMS. Recebi resposta que estava noutro tribunal. O Senhor Juiz, nos termos da lei, dado não ter recebido qualquer comunicação da mandatária, queria iniciar o julgamento. Senti-me desconfortável e solicitei o adiamento, que me foi deferido com o elogio pelo comportamento deontológico. Não percebi sequer o elogio, pois pensava que todos assim procediam. Mas, segundo me foi dito, parece que a prática já não é esta! Triste profissão a minha!

Sábado passado, durante hora e meia, estive a falar a dirigentes dos Escuteiros sobre a responsabilidade civil e criminal. A incredulidade dos ouvintes foi patente. De facto, não se admite que pessoas que dão a sua vida, esforçada e gratuitamente, ao serviço dos outros possam ser responsabilizadas pessoalmente, nos termos em que os tribunais vêm interpretando a causalidade adequada em caso de acidente, onde se inventam mil e uma acções exigíveis para evitar o dano. Não há protecção para quem trabalha em favor dos outros. Nenhuma seguradora aceita cobertura adequada, muito menos para quem trabalha com menores de 14 anos. O Estado devia promover um Seguro Social do Voluntário que lhe permitisse trabalhar com um mínimo de protecção contra os riscos inerentes à acção educativa. É claro que a sociedade privilegia o ócio e a estupidez das novas gerações, em nome de uma falsa noção de proteccionismo, que muitas vezes roça a paranóia do risco. A vida comporta riscos e as crianças e jovens precisam de aprender a enfrentá-los, promovendo a solidariedade, a partilha, a participação, o empenho pessoal e comunitário, o desenvolvimento integrado e equilibrado da habilidade manual, da criatividade, da inteligência, da vontade e do sentido de dever e da responsabilidade.Mas nesta sociedade mesquinha, obtusa, confusa e emocional, os verdadeiros problemas não se colocam, não se discutem, não se resolvem.

O sistema legal português é disfuncional e constitui na actualidade um elemento de grave perturbação da organização e coesão social. Por isso, ninguém entende as leis que saem (a não ser os altos especialistas que as elaboram), nem os critérios de aplicação, nem as decisões judiciais. Quando assim acontece, a culpa de certeza que não é do Povo! Ou será?!

Para a semana, devo estar mais bem disposto, espero eu ...

REFORMA DO CPP & COMUNICAÇÃO SOCIAL

JSC, 19.09.07
O que a comunicação social tem noticiado sobre o momento conturbado que se vive na Justiça não é lá muito tranquilizador para o cidadão comum. Claro que a comunicação social, nomeadamente a imprensa, escolhe para títulos os aspectos mais negativos, sensacionalistas ou dolorosos, acreditando que essa opção funcione para promover o jornal e incrementar as vendas.
Creio que esta estratégia já não deveria espantar ninguém e muito menos originar grande reflexão ou recriminação, a não ser que esses títulos assentassem em mentiras ou em leituras erróneas ou deturpassem claramente declarações proferidas por agentes judiciários, por políticos ou por personalidades com intervenção pública sobre as matérias da justiça.

Ora, em meu entender, o que alguns operadores judiciais têm declarado, acerca dos problemas desencadeados pela entrada em vigor do Código do Processo Penal, validam os títulos que a comunicação social tem espelhado.

Ainda há dias o JN titulava: “Crimes Económicos em alto risco de arquivamento” e em caixa titulava: “Assassino de criança de cinco anos foi posto em liberdade”. Na mesma página o JN apresentava declarações de personalidades intervenientes no processo judiciário que confirmam que 70 a 80% dos processos de crimes económicos, corrupção e de outros crimes complexos poderão vir a ser arquivados na sequência da entrada em vigor do novo CPP, conforme se induz das declarações do Presidente da ASFIC, transcritas na notícia. O Procurador-Geral da República também aparece a chamar à atenção para o
perigo de bloqueio à investigação criminal com os novos prazos do CPP.

Por sua vez, Maria José Morgado fala do “risco de colapso” dos serviços de investigação criminal. A Procuradora geral Adjunta, Cândida Oliveira, diz que “ a investigação da criminalidade económico-financeira e do terrorismo está em causa” e diz ainda que os prazos fixados para a investigação da criminalidade económica é “uma norma com uma interpretação muito ambígua” (DE, 19/9).

Perante as leituras que o novo CPP desencadeou dentro do sistema judicial será que a comunicação social não está a ser fiel transmissora do sentir do povo judiciário? Por outro lado, não há razões para que os utentes da justiça se interrogarem acerca do estado de sonolência que terá atacado o edifício judicial ou das razões para esperar pela entrada em vigor no novo CPP para se gerar toda esta controvérsia?

Não restam dúvidas que os títulos, muito de negro carregado, incutem um sentimento de insegurança na população. Contudo, parece-me que tal não resulta da interpretação abusiva da comunicação social, pelo contrário, tem por base a leitura que os diferentes agentes judiciais transmitem, para a comunicação social, do novo CPP?

É altamente provável que as críticas contundentes formuladas pelos diferentes operadores façam o seu caminho e a comunicação social ao dar-lhes eco gerará a ambiência social para os políticos inflectirem algumas coisas, retalharem outras, alterarem (descaracterizando eventualmente) o novo CPP.

Como alguém, ironicamente, dizia há dias num debate sobre a educação, em Portugal as reformas nunca começam pelo sítio certo nem no tempo certo. A reforma do CPP é mais um exemplo!

Au Bonheur des Dames 85

d'oliveira, 19.09.07

Outra carta para uma amiga em parte incerta


Não se espante, querida amiga, do tom dorido desta carta que, agarrada a um laivo informe de esperança, envio para o éter, acreditando que, pelos misteriosos e ínvios caminhos da internet, a alcance.
Vai pois insegura porque isto do éter, da internet e de mais um par de coisas do mesmo teor, assenta em tantas improbabilidades quantas a da teoria da evolução do senhor Darwin.
E se, nos Estados Unidos, farol da civilização técnica, boa parte da população descrê absoluta e firmemente do homo sapiens, mais ainda do sapiens sapiens sem falar nessa abominação que foi, ou é, a tal Lucy (in the sky with diamonds?), Lucy essa, convém dizê-lo que não é mais que uma mão mal cheia de ossos de uma criatura baixinha e francamente simiesca, porque havemos de acreditar nestas coisas que agora o senhor Steve Jobs e o senhor Bill Gates nos querem vender como a última e definitiva maravilha da comunicação ?
Todavia, façamos um esforço e acreditemos que estas mal traçadas regras, que vou deitando a um ecrã azul do MacBook Pro (sim um Macintosh, dessa negregada apple que agora se enche à custa da musica alheia e do ipod), viajarão por céus nunca dantes navegados e, ventura indizível, a encontrarão, porventura em Calecut, jantando em casa do Samorim e discutindo bagatelas filosóficas do Kamasutra ou do Maharabharata (mas poderia igualmente tratar-se do Mahabhasya do grande Patanjali ou, até, audácia das audácias, do Manavadharmasastra esse grandioso texto jurídico em dez livros e 2685 estrofes, só na Índia prodigiosa é que se escreveria um livro de Direito em verso, mas enfim...). Seria sinal de que os portugueses de antanho estariam finalmente perdoados da manhosa descoberta do Gama, das bombardas de Diu, das inumeráveis mortes causadas por D Francisco de Almeida para vingar o filho Raul, mimoso adolescente, que o turco infiel, ou o indígena igualmente infiel, trucidou não recordo já em que circunstâncias.
Mas eu perco-me, como de costume, terei de o confessar, eu perco-me subitamente desviado pela epopeia de descoberta, enfim, da viagem que levou do torrão lusitano gente para as Índias, para as Ilhas das especiarias, para a Abissínia do Prestes João ou para o Tibete desse actual réprobo que se intitula Dalai Lama e que a reacção internacional coroou com o Nobel da Paz. Nem consigo entender como é que o deixaram pôr o pé, enfim a sandália, no território nacional. Bem avisado andou o Governo da Nação que o ignorou olimpicamente enquanto ele, sorrateiro destilava a habitual peçonha contra os actuais mandarins que governam o Celeste Império com quem Portugal mantém uma aliança tão antiga e profícua, uma aliança que em breve se traduzirá na inauguração de uma asseada chinatown que uma senhora doutora Nogueira Pinto, recentemente eleita vereadora de Lisboa (ai não foi eleita? Pois merecia! Mas elegem-na agora, nem que seja por postura municipal, que grosso favor fez ela à actual vereação fazendo cair a anterior, acho muito bem que lhe dêem o vice-reino da baixa pombalina já que provavelmente não lhe poderão conceder o grande colar da Ordem da Liberdade por espúrias razões ligadas ao devotado amor que a senhora nutre pelo falecido dr. Salazar, aquele que disse: em política o que parece é!).
Mas não querem lá ver que me perdi outra vez: ai do triste que navega na sua bateirinha pelo mar proceloso da internet à mercê de ventos alísios mas inconstantes, em demanda de Frau Kamikaze, a desaparecida em parte incerta, de que não há novas nem mandados há um largo tempo.
Que foi? Que não foi? A que se deve esta prolongada ausência deste palco que foi sempre seu, dos aplausos prolongados do respeitável público rendido às artes, às malasartes, duma Kamikaze cujo nome prometia e cuja acção cumpria sobradamente as promessas?
Terei eu, teremos nós todos, incursionistas, cometido, por pensamentos palavras ou obras, algum pecado capital entre os capitais, algum crime inqualificável, alguma afronta imperdoável, algum desleixo insólito e grave cujo castigo, o primeiro de uma longa lista, seja este desdém, tenaz e pungente, que sobre nós, sobre os nossos amigos, companheiros e compadres, sobre a inteira rede bloguista se abateu como um vento malsão, um maremoto daninho, um eclipse dessa inteira galáxia chamada K.?
Mas o que fizemos, ó mais ilustre das ex-juristas, ó provedora deste vosso aflito filho de Eva desterrado neste vale de lágrimas e que andava a tentar pedir-vos o favor de o ensinar a pôr um link, maldita palavra (maldita corvina diria, se arrotasse, o que não faço por educação antiga e respeito novo mas sincero por vós, ó maga, feiticeira, bruxa, endireita, se mais não puder ser, aí do bairro da Estrela ou do luminoso Allgarve onde volta e meia estadeais nesse centro cultural prestes a abrir) mas única, pelo menos não sei outra, aliás sei: links, ah palavra prenhe de esperança noutros tempos, links bin Ich, poderia dizer este ex-quase berliner que nunca, niemals, jemals, esqueci essa cidade marcada com uma cicatriz que era um muro, der Mauer, a prova provada que a memória antiga dos arames farpados, não espera senão uma oportunidade para reemergir das trevas onde a pensávamos para sempre remetida.
E lá me perdi de novo. Está a ver Kami, o que dá abandonar-nos aqui, nesta terra que, sem V., é terra de ninguém, como o romeiro do Frei Luís, também ele regressado de nenhures?
Dê-nos uma notícia, uma só, uma carta trazida em bico de rola, por um pelicano, pelo pássaro rok, esse mesmo, o desaparecido, pode até ser um bilhete postal, mas ilustrado por favor!, enfim qualquer coisa que nos acalme os humores, que nos arrefeça as saudades, que nos tranquilize os receios e que nos prove que se mantém viva e pronta a reentrar no seu avião e picar feroz e implacável sobre este nosso galeão das índias que pode estar cheio de pimenta e ouro e incenso e mirra mas que se perde seguramente nalgum malfadado sertão africano só povoado por cafres malignos à falta de timoneira.
Vosso, como sempre,
Mcr, grumete

na gravura: avião japonês da 2ª Guerra Mundial