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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Ó patêgo, olhá bola

J.M. Coutinho Ribeiro, 01.09.07



Sobre os aviões que, nos últimos dias, como melgas, me tolheram, que eles andaram mesmo por cima de mim, num barulho ensurdecedor e, pior do que isso, sobre o trânsito que os aviões trouxeram para as minhas bandas, tolhendo as saídas, carros em sítios inesperados, filas duplas, dificuldade em chegar a qualquer lado. Leio, por aqui, atitudes diferentes sobre o tema, desde a atitude sobranceira de JCP - patêgos, os que ficaram a olhar para o ar - até ao cepticismo de MCR - que não crê nos números de assistentes - e a benevolência de O meu olhar que foi ver e gostou, e faz bem, que os gostos não se discutem e este nem sequer é dos piores.
Patêgos, porquê, rapaz, os que andaram por aí a olhar o céu? Eu que não sou dado a estas coisas de aviões - nem mesmo dos voos comerciais - acho perfeitamente legítimo que haja quem goste de provas desta natureza. É tão legítimo entrar numa fila para ir ver os aviões no ar, em situação seguramente arrojadas, como ficar na fila horas seguidas para ir ver a bola ao Dragão, coisa que, como é sabida, fazes frequentemente, e nem por isso te queixas. Como também é legítimo eu ir à Serra da Estrela, comer pó, andar quilómetros na serra, enfileirar durante horas à saída, para ir ver os heróis da bicicleta, ou, mais arrojado ainda, ir até Espanha ver a Vuelta, como já fui e tenciono voltar.
Não eram 600 mil, MCR? Talvez fossem, mesmo que se faça esquadria e contabilidade na base do 1,1 m2 por pessoa. Não sei se eram tantos, mas que eram muito, lá isso eram. Eram cachos de pessoas em todos os espaços livres por onde houvesse uma nesga de olhar para o rio, fosse de um ou de outro lado. Não se me afigura difícil que tenha havido uma dúzia de estádios do Dragão ao longo das margens do Douro, patêgos a olhar o avião como se estivessem a olhar a bola.
O evento vale o encargo dos 200 mil euros do Porto e outros tantos de Gaia? Não sei. Provavelmente, sim. Provavelmente, os responsáveis pelas duas cidades fizeram contas aos gastos e ao retorno, que é para isso que nós os elegemos e também não temos o direito de achar que eles são completamente desajeitados nestas coisas de contas e de retornos. Era tanta gente! E o que vale a promoção das duas cidades nas tv's?
Confesso que não sou fã do desporto em causa. Vi-o, esta tarde, de forma caricata. Deitado no sofã, via os aviões a fazerem a sua aproximação aos obstáculos e, no momento seguinte, virava os olhos para a tv para ver como eles passavam nos obstáculos. Uma vez ou outra, ia à varanda ver a romaria instalada nas imediações. Foi uma imagem a três dimensões. Claro que não gostei de sair de casa e ver que os meus vizinhos tinham decidido ter muitas visitas no dia de hoje e que o condomínio estava assaltado por tantos carros como nunca vi. Encolhi os ombros. Que chatice! Insuportável? Não. Nem isso nem o barulho destes dias. Fui calmamente a pé até ao centro comercial, esperei que o trânsito amainasse e a multidão dispersasse e, depois, fui onde tinha que ir de carro. Afinal, nem sequer tinha pressa. E temos que ser uns para os outros, claro, tudo sem esquecer que espero ver, brevemente, que a pista de aterragem que foi construída no Parque da Cidade seja removida.
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(Não saí, obviamente, de casa antes de ver que a Vanessa Fernandes conquistou a medalha de ouro de triatlo. Ó patêgo...)

Espectáculo e emoção!

O meu olhar, 01.09.07

Carta a MCR e a JCP

Caros amigos, vim aqui ao Incursões para dar conta do meu entusiasmo por ter assistido a um espectáculo profissional, pleno de emoção e alegria e, qual não é o meu espanto, fico a saber duas coisas que desconhecia em absoluto:

1º - Sou patega e passei a tarde a olhar para o balão;
2º - As pessoas que estavam quase encostadas a mim e que se amontoavam para ver as corridas não sabiam que deveriam respeitar uma medida espanhola de 1,1m2 por espectador.

Brincadeira à parte, eu gostava de vos dizer várias coisas:

A multidão era imensa. As pessoas ocupavam todos os postos possíveis mesmo os mais incríveis. Quando ouvi que estavam lá 600 000 pessoas não acreditei. Eram certamente mais. Disseram-me que a organização utilizava uma medida, que deve ser do tipo da espanhola, mas seguramente diferente. Todavia, para mim essa medida está certamente errada porque estava lá mais gente. Seguramente. Eu estive lá na sexta-feira, nas provas de qualificação, e a organização falou em 250 000 pessoas nesse dia. Ora, assim sendo, hoje esteve, por baixo, três vezes mais.

Mas o número de pessoas não é o mais importante. O importante foi o profissionalismo de 13 dos melhores pilotos de avião do mundo, o seu esforço, a sua habilidade. O importante foi uma organização impecável e o civismo da multidão. O importante foi a festa, a alegria das pessoas, a emoção, os aplausos, os risos. O importante foi ver pais e filhos, juntos, sentados no chão, em cima de um muro, em volta de um “farnel” (os mais felizardos). O importante foram as conversas entre emoções e os sorrisos e conversas entre desconhecidos. O importante foi a projecção do nome Porto e Gaia para um público alargado. O importante foi a vinda de muitos turistas estrangeiros e portugueses que vieram ao Porto e que lotaram completamente os hotéis.
Eu gostei. Muito. Estou certa que ninguém, dos estiveram lá, deu por mal empregue o tempo, a deslocação, o calor. Valeu a pena. Felizmente, para o ano há mais!...

missanga a pataco 25

d'oliveira, 01.09.07
Carta a JCP

Meu caro JCP
Estou a vê-lo aí diante de uma almoçarada digna de Eça de Queiroz, homem de sólido apetite, há que dizê-lo, a rir-se da multidão que desde a manhã, de lancheira em punho, acampou nas margens do Douro para ver as avionetas. Quando chegar a hora de dar ao dente, os pasteis de bacalhau estão secos, as sandes mortiças o briol quente.
Permita-me que me junte a si, só em palavras infelizmente, que eu bem daria ao dente em sua companhia, para juntar dois pontos: ao que sei as papalvas câmaras municipais do Porto e Gaia, deram 200 mil euros cada. A do Porto computa noutro tanto o que gastou em infra-estruturas efémeras. Ora aqui está uma ajuizada gestão dos dinheiros públicos!
Em segundo lugar, uma pequena reflexão sobre o número de espectadores. O jornal de hoje, dizia que ontem se tinham aglomerado duzentas mil almas, enchendo por completo as margens do rio. Há pouco a tv, sempre ela, pela boca de um rapaz que não deve saber contar até 100, já avançava com 600.000 pessoas. A minha questão é apenas esta. Conhecendo as ruas da marginal de ambos os lados, somando-lhe as ladeiras, os telhados, o cabedelo, os pátios de algumas residências ricas, o janelame alugado as esplanadas e tudo o mais, onde é que conseguem meter tanto povo. O jornal El Pais sempre que há manifestações em Espanha apresenta os percursos usados e os acessos e calcula os manifestantes a um por cada 1,1m2 se não estou em erro. Onde é que há 600.000 metro quadrados nas duas margens mesmo dando de barato que o público se espraia para jusante da ponte da Arrábida e para montante da ponte D Maria?
E finalmente: será que amanhã o jornal, para não ficar atrás da tv, não falará em 800.000 espectadores

Na gravura: portuenses indómitos metidos numa lata para provar que é possível haver mais de 200.000 espectadores beste grandioso "evento" desportivo!

missanga a pataco 24

d'oliveira, 01.09.07


Tão amigos que eles são...

Suponha o leitor que um partido político italiano, ponhamos a finada Democracia Cristã, para não ir mais longe, convidava para sua tradicional festa (se porventura a tinham) alguns distintos membros da família Gambino, de Nova Iorque, esforçados sopranos avant la lettre, sob o pretexto deles serem italianos e católicos. E sicilianos, ainda por cima. Deixariam estes duvidosos cavalheiros de ser, como eram e eventualmente ainda são, mafiosos a tempo inteiro, com as mãos tratadas pela manucure, tintas de sangue?
Acha o leitor ( a pergunta não se faz às leitoras porque conto com a adesão delas para o que se segue) que, por muito descarados que sejam (ou eram) os próceres da DC, se atreveriam a tanto?
Mudemos de cenário: a Colômbia, é assolada há umas dezenas de anos por uma violência inútil, trágica e sangrenta: contas bem feitas dão por centenas de milhares os mortos. Mortos sem causa, quase todos, gente simples apanhada no meio dos tiros de uns e de outros. Entre os matadores (nunca esquecendo uns gorilas de direita tão maus como os outros) ergue-se infame e solitária uma organzação que qualificaria de esgoto moral da esquerda se de esquerda ela ainda tivesse sequer uma casca inútil e sebenta. Refiro, como de certo adivinharam, às FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) que actualmente exercem de gangsters na floresta e de guarda costas dos produtores-exportadores de droga. Nos intervalos raptam gente que libertam a troco de vultuosos resgates. De longe em longe, raptam soldados, polícias, dirigentes indígenas ou mesmo políticos. Em nome de um qualquer antigo e esquecido ideal guerrilheiro há muito tempo abandonado.
São os representantes desta quadrilha que agora chegam a Portugal a convite desse novo “Cavaleiro da Imaculada” que dá por “Avante”. Este “avante” (pobre e dessorada tradução de um antigo “Vperiod”, jornal russo do tempo dos afonsinos, é agora, um obscuro semanário, propriedade do PCP, cuja leitura, tirante alguma ocasional gargalhada que provoque, é menos interessante que uma dose de óleo de rícino. E com efeitos menos salutares. Tirante a sua proclamada vocação de órgão de imprensa é também o organizador duma festa onde os restos do partido comunista se retemperam, todos os Setembros: muita música, muita discursata e a ideia de que ainda são muitos. Não são. E não merecem. Sobretudo quando convidam a bandidagem internacional. Com um pouco de sorte, e mais barato, poderiam convidar os pequenos gangs que assolam a noite portuense e matam de longe em longe um proprietário de discoteca ou um segurança sem licença camarária. Com outra vantagem: estes também são de origem proletária. Lumpen mas proletária.
Alguém me dirá: então o tal SEF deixa entrar estes pistoleiros? Deixa, claro que deixa. À uma, não são pretos nem pobres. Depois, vêm a convite de um partido irmão.
Para o ano talvez apareçam umas tríades... da República Popular da China, pois claro, farol exaltante do proletariado mundial e garantia segura de que “o oriente é vermelho”.

Algumas “víboras lúbricas”, agentes do imperialismo capitalista e da reacção pequeno burguesa, etc..etc... dizem mais do mesmo. Consultar: www.meubloconotas.blogspot.com/2007/09/bastam-algumas-linhas.html

na gravura: o falecido e molto onoratto Carlo Gambino, capo dei capi, numa fotografia de 1970

Ó patego, olhó avião!

José Carlos Pereira, 01.09.07
Estou aqui descansado, na terra que me viu nascer, e vejo e ouço no canal público de televisão comentadores e relatadores excitados com a reportagem em directo de uma corrida de aviões que decorre no Douro, defronte das ribeiras do Porto e de Gaia. Gritam por nomes de pilotos de que nunca ouviram falar, como se estivessem num relato a clamar por Quaresma ou Ronaldo, e contam cronometragens e acrobacias de que pouco percebem. Até Júlio Isidro por ali anda!

Estou por aqui porque fugi do Porto e da invasão “tuga”. Já me chegara ouvir o zumbido dos aviões, durante o horário de trabalho, nos últimos dias. Mas aquilo vai animado. É uma tal concentração popular, que só terá comparação com Fátima, nos seus melhores dias. São credos diferentes, mas igualmente empolgantes. Ah…e Rio e Menezes, cada qual de seu lado do rio, estão excitadíssimos.

Uma pergunta ingénua: depois dos calhambeques e das avionetas, o que se seguirá para “colocar o Porto no centro dos grandes acontecimentos”? Haja dó por estes nossos governantes locais, para quem este é o paradigma dos grandes eventos que reforçam a atractividade das cidades e regiões.

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