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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

19
Mar08

Estes dias que passam 99

d'oliveira

Trágico Aniversário

Foi há cinco anos que um George Bush ignorante e vaidoso resolveu começar a cruzada libertadora do Iraque. Tudo lhe parecia fácil. Uns tiros, a esmagadora superioridade tecnológica do armamento americano, as “armas de destruição maciça” de que ainda estamos à espera, a democracia, o leite e o mel para a Mesopotâmia.
E hoje?
Hoje não há senão uma miragem de país, não se descortina a democracia, os fanatismos religiosos e étnicos atingiram um grau impressionante, vinte por cento da população está refugiada nos países limítrofes (vinte por cento serão por más contas quase quatro milhões de pessoas) os civis mortos depois da queda de Saddam variam entre oitenta e cem mil, os americanos já perderam quatro mil soldados, a que se deve juntar um número várias vezes superior de feridos, algumas cidades estão em escombros e é duvidoso que a entidade política Iraque dure depois da saída das tropas ocupantes. A latere, estão quase a desaparecer os cristãos caldeus (uma das mais antigas comunidades cristãs do mundo, o laicismo indiscutível dos anos BAAS desapareceu e a charia instala-se com o sinistro rigor dos chiitas e a cegueira dos grupos sunitas mais fanatizados.
Ontem Aznar, hoje Bush (espera-se a palavra evangélica de Blair e dispensa-se a de Durão Barroso) dizem o mesmo: valeu a pena. Saddam caiu. A este preço teme-se que até ao fim dos julgamentos (se assim se pode chamar às fantochadas a que temos assistido) que cada um dos seus cúmplices custe mais umas centenas de vidas indefesas.
Bush acha que valeu a pena. Abu Grahib ou Guantanamo dão-lhe uma sinistra razão. No país que inventou a Declaração de Direitos, uma das mais luminosas páginas da história da civilização, isto soa a escárnio e ofende tudo (e é tanto) o que de bom vem dos Estados Unidos: o trompete de Armstrong, a caneta de Mark Twain, o cinema de Ford ou de Allen, a lâmpada de Edison ou o para-raios de Franklin. E a imensa generosidade americana, e os meus amigos de Berlim, de Lisboa, de Estrasburgo e de inumeráveis conversas sobre tudo e nada, o Big John, os Zingareli, o Bob, a Claire e tantos outros espalhados por esse vasto continente.
Em Veneza, no Palácio Ducal, há uma sala com os retratos de todos doges que governaram a Sereníssima. Todos, não. Um retrato está desde sempre tapado de negro para que o futuro não contemple o rosto de um doge indigno. Às vezes penso que o retrato deste Bush não deveria passar para o futuro: apenas pelo crime de ter declarado uma guerra por desejo de passar por estadista, por incompetência, por ignorância, por desprezo pelos seus concidadãos jovens e militares e pelos árabes daquele perdido país. Daquele país perdido...
19
Mar08

Boicote docente

José Carlos Pereira
A notícia que hoje vem a lume no “JN” (ver aqui e aqui) é reveladora do pensamento autista de muitos professores, que gostariam que o país inteiro não tivesse outra opinião que não fosse a defesa dos seus direitos e dos seus interesses corporativos.

Descontentes com um texto de opinião que Emídio Rangel escreveu no “Correio da Manhã”, que eu não li pelo simples facto de que não tenho por hábito ler aquele matutino e também porque não fiz o mínimo esforço para ir agora à procura das diatribes requentadas de Rangel, há professores que animam um apelo ao boicote à compra do “CM”. Bonito princípio o que esses professores defendem. Se ensinam estes valores aos seus alunos, estamos entendidos…

Perante a situação criada, é evidente que os sindicatos não puderam fazer outra coisa que não fosse demarcarem-se desse apelo ao boicote. E terão toda a legitimidade para avançar para os tribunais contra Rangel, se entenderem que têm razões para tal. É assim que se faz num estado de direito. Agora mover perseguições a jornais por não gostar do que escrevem alguns cronistas, essa não lembraria ao mais pintado. A união (ainda) faz a força?
18
Mar08

Missanga a pataco 45

d'oliveira













Tirar o gajo da fotografia

Não me apetecia falar do dr. Augusto Santos Silva, palavra que não. A personagem é baça, envelhecida e, custa dizê-lo, muito aparelhística no pior sentido da palavra.
Mas a verdade é que o dr. Santos Silva, por boas ou más razões, más sobretudo, e cada vez mais frequentes, salta do apagado lugar por onde a prudência lhe aconselhava andar, para as manchetes dos jornais. É o faz-tudo do governo, o rapaz dos foguetes, o que contrata os bombos e os gaiteiros, o que traz as palavras de ordem lá de cima.
Desta feita parece que, de cabecinha perdida, por via de uns dichotes que lhe largaram em Trás-os-Montes entendeu produzir teoria sobre a história política recente. A da liberdade e a da anti-liberdade. Vai daí, inspirado possivelmente nos seus antigos professores do tempo da outra senhora, resolveu dizer quem foi quem no combate ao fascismo. Os doutores Soares e Zenha passaram no apertado crivo do senhor ministro que, todavia, não perdoou a Álvaro Cunhal.
Pessoalmente não gosto de Álvaro Cunhal. Como não gosto de Amália Rodrigues, Paula Rego, ou Agustina. Porém, se me perguntarem, sempre direi que como cantora, pintora ou romancista estas senhoras pedem meças aos melhores. Eu não gosto, mas elas são nas suas respectivas artes do melhor que se encontrou. Como dizia, não vou à missa do dr. Cunhal. No entanto, terei de confessar que durante quarenta anos ele foi o mais esforçado, o mais organizado, o mais eficaz inimigo do regime do Estado Novo. Foi também um dos mais martirizados, com um impressionante número de anos de prisão, alguns deles em completo e duríssimo isolamento. Foi, igualmente, um modelo de resistência aos polícias, aos interrogatórios, à violência.
Para quem frequenta a história do marxismo-leninismo contemporâneo, da Internacional e da Esquerda, Cunhal é, queira-se ou não, um reconhecido estratega, um teórico de alguma envergadura, bem superior aos seus amigos soviéticos ou a quase todos os secretários gerais de PC europeus e latino americanos. (Não falo dos outros por mero desconhecimento...)
Depois do 25 de Abril o dr Cunhal tentou (e falhou..., felizmente) conquistar o poder através da sua bem montada máquina partidária. Foi o dr Soares quem o derrotou. Com ajudas de muita e boa gente. Muitas! E de má gente. Bastantes.
Todavia, convirá dizer que, se em determinados momentos dos anos agitados do PREC, as coisas não se complicaram isso se deve (e muito, quase tudo) ao dr. Cunhal, homem avesso a aventureirismos, como é sabido. E mesmo o 25 de Novembro só não deu a sangueira que poderia ter dado porque o dr. Cunhal estava no seu posto, com a sua autoridade imensa, a refrear entusiasmos e delírios.
Tirá-lo da fotografia da luta pela liberdade, lembra uma velha táctica estalinista: sempre que se queria dar cabo de mais um opositor político, não só se lhe instaurava o respectivo processo inquisitorial mas também se retocavam as fotografias onde ele aparecesse. Assim se juntava o útil ao agradável: eliminava-se fisicamente um opositor que era competentemente fusilado, depois do opróbio de um julgamento miserável e infamante, mas também se fazia desaparecer para o futuro qualquer traço da criatura. Nem pegadas, nem fotografias. À morte civil seguia-se a histórica.
O dr. Santos Silva terá na sua mocidade (se é que o termo se aplica a tão extraordinária criatura) sido vagamente trotskista. Deveria saber que as fotografias do seu guru político-espiritual, enquanto líder revolucionário foram todas retocadas de modo a que para o futuro (que durou pouco mas mais do que durará o do dr. Santos Silva) não restasse dele senão um vazio gritante na película. Aprendeu mal a lição, pelos vistos. É o que acontece a quem pensa como ele.

A propósito: corre com alguma insistência que o dr. Santos Silva terá sido do MES (Movimento de Esquerda Socialista). Até o dr Meneses o veio dizer numa das suas arrebatadas diatribes onde crucificava SS como trotskista e ex-MES. Não o recordo nas nossas magras fileiras. Perguntei a um bom par de antigos camaradas que também o não recordam. Militante não foi, simpatizante, nunca o vimos. Provavelmente era um clandestino... Ou então... como está na moda e fica bem ter sido do MES o dr Santos Silva (ou alguém por ele) resolveu modificar a fotografia, retocando-a e pondo-o também no pequeno grupo de esquerdistas ingénuos que acabámos (quase todos, quase todos...) por ser. Por favor, senhor Ministro, saia da nossa pequena fotografia.

* as fotografias (celebérrimas!) de Lenin com (antes) e sem (depois) Trotsky. Ou de como Stalin era um pequeno génio da 8ª arte.
17
Mar08

Credores do Estado "Listados" e... "Não Listados"

JSC
O Estado é mau pagador. Pior, o Estado exige que os cidadãos e as empresas lhe paguem no prazo que estipula, mas ele não paga a tempo e horas e quando paga, o valor que paga já não vale o valor dos bens e serviços que lhe foi prestado pelos seus fornecedores.

Este comportamento, de mau pagador, que o Estado assume, tem um efeito perverso no funcionamento de toda a economia. Pior, este mau comportamento tem contribuído para a asfixia financeira de muitas empresas.

Este é um problema antigo, que tem transitado de governo para governo, de ministro das finanças para Ministro das Finanças, sem que algum o tenha assumido e procurado uma solução, de modo a transformar o Estado numa pessoa de bem. As causas também são conhecidas. O Estado gasta mais do que tem a receber, logo está sempre em dívida, porque se não factura também não pode pagar. Ou seja, o Estado não gasta segundo as suas disponibilidades…

O lançamento do Programa Pagar a Tempo e Horas induzia que, pela mão do actual Ministro das Finanças, o Estado ia, finalmente, criar os mecanismos para cumprir, atempadamente, as suas obrigações. Entretanto, o Decreto-Lei de Execução Orçamental para 2008, definiu o modelo de financiamento do Programa (art.º 31º).

Tudo parecia bem encaminhado… só que o Governo pretende agora publicar a lista dos credores da administração central (sem Regiões e Autarquias), desde que estes apresentem o pedido para tornar público o valor da dívida do Estado para com eles. Ou seja, se a Administração Central dever 500 mil € à firma X, esta pode apresentar um requerimento a pedir que essa dívida passe a constar da lista de credores do Estado.

Será que isto faz algum sentido? Qual o efeito prático dessa lista, feita a pedido? Será que o Estado vai passar a pagar, prioritariamente, aos credores que constem da lista? Mas se o Estado pretende publicitar as suas dívidas, porque não o faz por sua iniciativa? Não sabe ele a quem e quanto deve? Mais, quem garante que não haverá consequências para as empresas que ousarem requerer que o Estado anuncie, publicamente, a divida que ele próprio lhes deve?

A mim, parece-me claro que a anunciada Lista de Credores da Administração Central, pela forma como vai ser elaborada, só pode servir para mascarar o valor real da dívida do Estado aos seus fornecedores, iludindo as boas intenções que se conseguiam vislumbrar no Programa Pagar a Tempo e Horas.

Nota final, a haver lista que a mesma, pelo menos, indique o nome da pessoa que adjudicou ou contratou em representação do Estado, para que o Estado, neste caso, passe a ter algum rosto…
17
Mar08

Art. 30º do C. Penal

ex Kamikaze
"O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) deu razão ao Ministério Público e, em dois processos distintos, no espaço de uma semana, recusou manter a condenação de dois arguidos acusados de crimes sexuais na forma continuada, como permite o novo Código Penal devido à alteração do artigo 30.º. Os conselheiros entenderam que ambos os condenados cometeram dois crimes, e não um na forma continuada, pelo que elevaram as respectivas penas. (...)
Apesar de nos dois casos os arguidos serem acusados de crimes sexuais sobre a mesma vítima, situação que, pelo novo Código Penal, configura uma excepção à proibição da aplicação da figura do crime continuado nos crimes contra as pessoas, o STJ acolheu os argumentos do Ministério Público e revogou decisões da primeira instância.


(...) os críticos [da nova redacção do art. 30], que não tiveram dúvidas em afirmar que “beneficia aquele que violar repetidamente a mesma vítima”, exigiram explicações. Rui Pereira explicou, então, que se opôs à alteração que prevaleceu, e também o ministro da Justiça, Alberto Costa, rejeitou responsabilidades, dizendo que a proposta saiu da Unidade de Missão.

O gabinete de Rui Pereira, que coordenou a reforma penal antes de entrar para o Governo, garantiu ao CM que as actas da extinta Unidade de Missão estarão revistas até ao fim do mês para serem publicadas. Isso ajudará a desvendar a paternidade de normas polémicas, como o crime continuado e a proibição da publicação de escutas."

no Correio da Manhã de hoje


Sobre o "jogo do empurra" em que se tornou a paternidade do art. 30º do CP e a publicação das actas da Unidade de Missão:
http://incursoes.blogspot.com/2008/02/o-jogo-do-empurra-art-30-do-cp-cont.html
15
Mar08

...

ex Kamikaze

Por Teresa Ribeiro
no Corta-fitas

Fiquei muito satisfeita com
esta nova proposta de lei do PS que proibe os piercings na língua. De facto, se as pessoas são inconscientes e decidem fazer mal a elas próprias, a atitude responsável de qualquer governo que esteja verdadeiramente empenhado em contribuir para o bem estar da população é proibir esses comportamentos desviantes.
Na minha opinião esta proposta só peca por defeito. Para arrumar de vez com os maus hábitos dos portugueses eu propunha que se fosse até ao fim e interditasse também:

1 – O acesso às praias entre as 11h e as 16h
2 – A venda de chupa-chupas, gomas e rebuçados às crianças
3 – O consumo de álcool
4 – O consumo de fast-food
5 – O consumo de tabaco
Também veria com bons olhos a proibição de noitadas e da venda de sapatos com o salto demasiado alto a senhoras com excesso de peso.


Governo simplifica a língua,
por Ferreira Fernandes, no «DN» de 15 Mar 08

NUM PAÍS em que "a minha pátria é a língua portuguesa" era inevitável o sobressalto patriota. Aconteceu ontem: fica proibido pôr um piercing na pátria.
Comprova-se a vontade em simplificar a língua: depois do acordo ortográfico, tira-se o piercing. A pátria ficou mais coesa: havia portugueses com piercing na língua e portugueses sem piercing na língua - ficou um país de língua única (tirando o mirandês).
Quando a lei sair no Boletim, a língua oficial é sem piercing.
Tudo porque, parece, um piercing pode matar. Por isso o Governo decidiu perder o latim com o assunto: não quer uma língua morta. Legislou-se, pois, para que haja tento com a língua.
Mas se passa a ser proibido, passa a poder ser controlado. Como? Vejo o polícia: "Importa-se de nos mostrar a língua?"
É o tipo de caça à multa sem escapatória. Se um cidadão tem piercing, e mostra, multa-se por infringir a nova lei. Se não tem, multa-se por causa da lei antiga: mostrar a língua à autoridade é desrespeito.


O gosto do ayatolla Sampaio
por Coutinho Ribeiro, no Anónimo

A ideia foi de Renato Sampaio que - pode haver quem não saiba - é deputado e líder do PS do Porto e sintetiza-se assim (segundo o JN): os socialistas querem proibir os menores de 18 anos de fazer tatuagens, colocar piercings e aplicar maquilhagem definitiva. Mas atenção: o projecto-lei propõe-se proibir, para todas as idades, piercings na língua, na boca e noutros locais considerados de maior risco. O que diz Sampaio? Que é tudo por uma questão de saúde, mas também por «uma questão de gosto». Sampaio reconhece que distingue mal brincos de piercings e, por isso, entende que os piercings podem ser usados, desde que nas orelhas, onde são tradicionalmente usados os brincos.

Este cuidado de Renato Sampaio, meu colega de debates, enternece-me. Fico a pensar que se o líder socialista do Porto se tivesse lembrado mais cedo desta ideia, ter-me-ia poupado dois desgostos que a minha filha me deu, quando, um após o outro, colocou dois piercings. Eu não tive hipóteses de impedir. Mas o que não consegui eu, vai conseguir o ayatolla Sampaio, um homem que saiu da sombra para afinar o «gosto» dos portugueses.

Venha daí a burka!

12
Mar08

Por onde Começar a Mudança?

JSC
Pelos Pais!

Em comentário a
este post MCR diz que “O problema da educação está nisto: as famílias demitiram-se de educar, os pais não querem que lhes molestem as criancinhas, as autoridades querem apresentar bons resultados para as estatísticas europeias como se o passar à borla resolve o crescente analfabetismo das novas camadas etárias.”

As consequências do problema enunciado são do conhecimento geral. As causas é que não têm sido assumidas.

O Jornal Público do último dia do ano findo sintetizava, em frases curtas, um conjunto de ideias sobre Portugal. Algumas boas. Muitas a mostrarem “o nosso lado pior”. De entre estas houve uma que me chocou de verdade: “Os jovens Portugueses são os mais alcoolizados da Europa”. Recordo-me que logo a seguir a esta divisa aparecia uma outra a declarar que “Somos os mais pobres da Europa ocidental”.

Então, lembrei-me de ter lido, em tempos, que os jovens portugueses são dos que têm uma mesada mais alta na Europa Comunitária. Contradições? Talvez não. Os pais, mesmo pobres, querem dar do melhor aos filhos.

Acho que tudo isto bate certo e valida o Estudo que a OCDE divulgou no mesmo mês de Dezembro, concluindo que os alunos portugueses de 15 anos estão abaixo da média, entre 57 países, a Ciências, Matemática e Leitura.

O que é que teria de acontecer para que este estado de coisas se alterasse?

Tenho para mim que a causa está, em larga medida, no grande espaço de liberdade que hoje (nos últimos 15-20 anos) os pais dão aos filhos. Liberdade, no pior sentido, que se confunde com falta de regras e mesmo com cobertura à libertinagem.

A mudança deveria começar por alterar estes comportamentos, por fazer com que os filhos adquirissem o sentido do valor do trabalho. Apenas os premiarem em função dos resultados. Por controlarem os seus gastos e os seus percursos. Pô-los a exercer trabalhos domésticos, a apoiarem a família nas suas actividades profissionais, mesmo em tempo de férias escolares. Cortarem as saídas nocturnas, por sistema. Exigirem o cumprimento de regras e disciplina em casa. Transmitir a noção do trabalho e do valor das ideias.

O laxismo, a disponibilidade de dinheiro sem esforço para o obter, o elevado poder de mobilidade que os jovens desfrutam constituem factores que retiram qualquer importância ao trabalho e ao estudo. Tudo lhes vai ter às mãos a custo zero.

Quando os pais forem capazes de agir mais responsavelmente, então, passarão a ter autoridade moral para exigir que a Escola, as autoridades cumpram com a parte restante. Enfim, contribuirão, decisivamente, para por termo aos indicadores miseráveis que, ano após ano, colocam os nossos jovens na cauda da aprendizagem e no topo da degradação social.

O resultado da mudança de atitude dos pais será uma juventude mais responsável, mais sadia e um país com melhores perspectivas de futuro.

Portanto, a pergunta “Por onde começar?”. Só tem uma resposta: “Pelos pais.”
12
Mar08

Missanga a pataco 44

d'oliveira

A Coragem e a Dignidade

Sou pouco de bispos. Muito pouco mesmo. Digamos nada e estamos quites. Todavia fui amigo de um bispo, o único que conheci, D. Domingos de Pinho Brandão, e que nos (ao Rui Feijó e a mim, na Delegação Regional da antiga Secretaria de Estado da Cultura) visitava.
Era uma pessoa encantadora e um homem de sólida cultura. Um príncipe da Igreja se isso se pode aplicar aos bispos. E bonda.
E bonda, não! A partir de hoje tenho outro grande bispo na mira: D Michele Pennisi, bispo de Piazza Marina, na Sicília. A história é curta como provavelmente poderá ser a sua vida futura: recusou celebrar as exéquias de um famoso chefe mafioso abatido pela polícia. A Igreja, disse, não está aqui para fazer de bandidos mártires.
As ameaças já chovem mas a população apoia-o. Recusou escolta e continua a governar tranquilamente a sua diocese.
A sua bênção D. Michele!
12
Mar08

AU Bonheur des Dames 117

d'oliveira

Fado corrido
à sombra do
Empire State Building


Eu gosto da América, palavra que gosto. Gosto dos western, do jazz, dos musicais de Times Square, da Declaração de Direitos, de Benjamin Franklin, de Nova Iorque, ai, Jesus, Nova Iorque... Gosto de Poe, de Emily Dikinson, de Faulkner e de Hemingway, de John Ford, de Dashiel Hammet e de Raymond Chandler, enfim gosto de quase tudo excepto do senhor Bush, da KKK, da American Riffle Association e dos mac’donald. Tenho um belo grupo de amigos americanos, alguns dos quais, são exactamente o que se espera deles. Como o Zingarelli. Ah o Zingarelli, de N.I. melhor dizendo de Brooklyn, este Z. era um rapaz que foi meu colega no Goethe Institut em Berlin. Vale a pena conhecê-lo.
Z., quando chegou a altura de escolher uma profissão, foi honradamente a um desses institutos de orientação profissional. Não confiava demasiadamente em si, coisa que, com dezassete anos é compreensível, sobretudo se se nasceu em Brooklyn e se tem manias culturais. O instituto ponderou tudo o que Z disse, escreveu, desenhou em múltiplos testes e entrevistas e ditou uma sentença sóbria e assaz conveniente para quem vive daquele lado do East River: Z., ítalo descendente tinha forte queda para electricista. Algumas manias ligadas à leitura, à especulação teórica e ao ensimesmamento eram meras brotoejas juvenis.
Z., paciente e disciplinado, tirou o respectivo curso de electricista, montou oficina, ou empregou-se numa, disso já não me lembro e, durante seis ou sete anos, compôs fusíveis, montou appliques, cabos, rebobinou peças, enfim o trivial. Entretanto casou-se com uma bonita rapariga, professora de literatura.
Ia Z no sexto ou sétimo ano desta pacata e maçadora existência, quando, recebe uma carta urgente do Instituto de Orientação Profissional a que tinha recorrido. Em poucas palavras mas com um gordo cheque, o instituto lamentava informar que houvera uma troca de fichas e que Z., doravante Zingarelli, afinal tinha era vocação para filosofia e respectivas adjacências. Os fartos dólares que acompanhavam a carta eram uma tentativa de evitar maiores chatices e escândalo.
Zingarelli acolheu a carta e a massa com estóica paciência. Com a mulher fez planos e descobriu que aquele dinheirinho caído do céu de Manhattan dava mesmo para ir passar uns anos à Alemanha, frequentar uma universidade respeitável e teutónica, o mais filosofante possível.
E assim foi: chegaram a um Berlin dividido pelo execrável muro nos idos de 70 e matricularam-se no “Goethe Institut” para aprenderem alemão, depressa e bem. Aí nos encontrámos, partilhámos a sua história e largas cervejas aqui e ali.
Não era obviamente do Z que eu vinha falar mas deu jeito metê-lo ao barulho porque agora trata-se de arriar noutro tipo de “américas”. Falo claro, do actual (se é que ainda não se demitiu) governador de Nova Iorque, um impoluto cruzado que de há anos a esta parte fustigava com inclemência, o vício citadino e estadual. O homem apresentava-se como um poço de virtudes, mais branco que o OMO, um azorrague de infiéis e de lascivos. Tinha esposa amantíssima e três filhas exemplares.
E tinha, algures, um tapete para onde varria pequenos pecadilhos que isto de ser um modelo de virtudes da manhã à noite cansa. Ou seja, o admirável paladino da moral pública, frequentava, via internet e similares um bordel de alto standing, enfim uma casa de putas de luxo, e preços a condizer.
O esquema ao que parece era simples, contratava-se a “pequena” e para evitar algum paparazzo mais expedito, pernoitava-se em Washington, capital do mundo e dos encontros lascivos. Parece que isso, a mudança de Estado, acrescenta ao forte crime da lascívia outro ainda pior cuja exacta definição desconheço. Às tantas é como o rapto, um crime federal. “Man Act” chama-se a lei violada que prevê castigo pesado para o transporte de uma pessoa entre dois estados com o fim de a prostituir.
Esta história parece tirada a papel químico de uma outra em que um senador, arauto da virilidade, da heterossexualidade e dos bons costumes foi apanhado num urinol a deitar o olho desejoso e a mãozinha pecadora aos “genitalia” de um agente da polícia! Horrível!
Voltando ao cruzado Eliot Spitzer parece que pagou a uma certa Kristen 4.300 dólares, quase 3.000 euros, por uma prestação sexual heterodoxa. Que quererá isto dizer desconheço mas que não é barato, não é!
Temos aqui uma das contradições americanas. Podem publicar-se revistas tão explícitas como a “Hustler” (ao pé da qual a “Playboy” é uma piedosa publicação). Podem ter bordeis cotados em bolsa no Nevada. Podem ter a mais florescente industria de cinema hot do mundo mas ali mesmo ao lado, enfim, perto, uma escapadinha fora de casa é cara e dá cadeia. No mesmo país onde qualquer um(a) pode ter um arsenal em casa ( e quando digo arsenal significo mesmo um canhão, uma metralhadora pesada ou qualquer outra arma parecida) o pagar um serviço de natureza sexual, algo bem dentro das melhores normas da “free enterprise”, cai sob a alçada da lei, da condenação pública e arruína uma reputação. Também é verdade que se a dita reputação se fez em nome do combate ao vício não podemos deixar de ver nisto uma deliciosa ironia que, convenhamos, faz sorrir ou mesmo rir a bandeiras despregadas qualquer um.
E, entre nós, europeus, velhos e decadentes? Pois por cá as coisas correm noutra direcção pesem embora alguns esforços do politicamente correcto que, como se espera, vêm no sexo não a origem da vida (Courbet) mas a da desordem. Não há muito, uma primeira ministra francesa (Édith Cresson) acusava os ingleses de mariconsos, coisa que apesar de tudo me parece um pouco excessiva. Não menos verdade é que a França considera como herói, o seu presidente da república Félix Faure, morto aos 41 anos no cumprimento do seu dever. De facto a honorável criatura encontrou-se nesse dia com uma jovem de 30 anos, Marguerite Steinheil, apelidada a partir desse fatídico dia “la pompe funébre” (os leitores mais dentro das francesises apreciarão a finura do “sobriquet”.)
Em Portugal não temos momentos destes. Pelo menos oficialmente. Em matéria de presidentes da república, ressalvando um autor de romances tenuemente licenciosos, Teixeira Gomes, algarvio morto no exílio, desconhecem-se aventuras heróicas entre lençóis de todos os restantes. E no que respeita a presidentes do conselho a coisa foi mesmo aflitiva. E nem falo do Dr Salazar, incorrigível misógino digam o que disserem alguns saudosos que queriam dar dele uma imagem menos austera. Com uma excepção que não citarei, os nossos primeiros ministros são uma espécie de baldes de água fria. Gelada!
E convenhamos que dava jeito, um político dado à coisa. Se festiva, evidentemente. E podia ser mesmo com uma meretriz. De rua ou de hotel de luxo que as há e cada vez mais, basta ler os anúncios dos jornais ou folhear a internet.
É por isso, e só por isso, que o escriba, não querendo abusar da política doméstica se viu forçado a viajar até ao outro lado do mar, terra de vícios privados e públicas virtudes ou vice-versa.

a fotografia foi pilhada em www.fotolog.com Porreirinho!