Farmácia de Serviço 49
Assim se faz a história
Primeira nota de leitura de “Tribunais Políticos” coordenado por F Rosas (Irene Pimentel, João Madeira, Luis Farinha e Maria Inácia Rezzola). Temas e Debates, aprox. € 20
Pode ser que este livro venha a ser reavaliado mas, até ao momento, lidas que estão as partes mais substanciais parece-me poder afirmar que se trata de algo muito atabalhoado.
Já nem me refiro ao pobre aspecto gráfico mas apenas ao facto de os “casos exemplares” serem escassos, de a análise jurídica ser frágil, de o enquadramento histórico ser precário.
A capa ostenta em destaque um círculo que declara pomposamente que aqui se contem a lista completa de réus políticos. Tentei comprovar essa afirmação mas, a menos que esteja a tresler, verifiquei a falta de vários réus julgados e condenados.
Devo dizer que essa alegada lista se divide em dois extensos quadros que ocupam 397 páginas (em 693). O primeiro quadro contém a lista dos presos processados pelo Tribunal Militar Especial e organiza-se por anos e, dentro destes, por ordem alfabética. Não se contesta o método que por isso mesmo deveria ser seguido quanto à lista dos réus julgados em Tribunais Plenários (1945-1974). Todavia nada disso acontece. Durante 26 páginas há ordem alfabética de réus mas não de anos de prisão, de processo ou de libertação. A partir da página 585 e até á página 663 é ao calhas! Não se consegue perceber a que vem uma lista que saltita de, p.ex., JJ Gaia preso em 1947 (sem data de julgamento nem de libertação) para M.S. Gonçalves, preso em 1959 e julgado em 1960; a este segurese J. Inácio preso em 1965 e julgado no ano seguinte e Carlos A O M B preso em 1971 julgado e libertado no mesmo ano.
Há réus de que apenas consta o nome (por exemplo Jorge Delgado de Oliveira, citado no livro de João Madeira e, se bem me lembro, também em Irene Pimentel. Foi preso, julgado, condenado, cumpriu pena. Nada disso transparece. Percebem? Eu também não. Estas cento e tal páginas estão assim como se alguém à pressa tivesse lançado nomes sem curar de os juntar logicamente por ordem alfabética, por processo, por ano de prisão enfim por qualquer coisa nem que fosse a cor dos olhos. Tentei, por amostragem, relacionar um determinado número de nomes de réus presos, processados e condenados ou libertados com esta extensa lista. Escolhi dois ou três anos, de 65 a 68 e réus relacionados com a mouvance m-l. Não encontrei nenhum. Voltei a verificar mas, a menos que me tenha cegado não vi rastos da Diana, do Fronhe, do João M de Almeida, do Sérgio, do Monteiro Matias, do Saul,, do Octávio Correia Ribeiro ou do Vítor Catanho. Honradamente admito que por lá andem perdidos mas (e esta é uma primeira leitura) não os lobriguei. Confesso que me surpreendi. Conheço de leitura quer o coordenador quer os autores. Já aqui referi com louvor Irene Pimentel, João Madeira e Maria Inácia Rezzola. Aproveito para citar Luís Farinha, autor de um estimável livro sobre “O Reviralho”, estampa editora. De todos estes, como do coordenador Fernando Rosas, li e possuo vários livros, e sempre que sei de um livro novo de qualquer deles vou por ele, sinal que os aprecio.
Mas isto, este tijolo apressado, parco em análise parece-me um serviço feito a correr descoordenado e, finalmente, medíocre.
E é pena. As vítimas e a verdade histórica mereciam mais.
*o nome da crónica é inspirado num título de Eduardo Guerra Carneiro, um poeta de mérito que não resistiu à vidinha videirinha.