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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

EDP quer liderar salvação da Qimonda de Vila do Conde

O meu olhar, 05.06.09

                                                                                                                                                                              

Segundo o Diário Económico “Um grupo de empresas nacionais, que a EDP pretende liderar e que reúne também a Efacec, DST, BES e BCP, quer comprar a Qimonda Solar, uma parte do actual negócio da multinacional. O objectivo é salvar o maior número de empregos”.
 
A concretizar-se será uma excelente notícia. É fundamental que este processo tenha sucesso quer pelos trabalhadores daquela empresa quer pela economia do nosso país.

 

 

Au bonheur des Dames 189

d'oliveira, 04.06.09

Gloriosos naufrágios 2

 

Acomodados solidamente ao balcão do bar, eu de cervejinha na unha e o Carlinhos Fonfon sopesando um whisky (um “fundinho” pedia ele, só um “fundinho”. Quem o ouvisse pensaria que aquilo era dieta ou promessa à Srª de Fátima, mas não o Fonfon pedia fundinhos mas bebia-os em dose industrial que ele era rapaz de muito sustento e ainda mais sede) filosofando mansamente que a noite não dá para esforços intelectuais intensos. Resumindo, falávamos de mulheres.

Depois de termos passado em revista uma multidão delas (incluindo-se neste grupo, umas pobres raparigas com fumos de progressistas que usavam roupas indianas e a quem o Carlinhos apelidava de “mal lavadinhas”) chegámos a uma vizinha minha, notoriamente mal casada com um tótó que passava a vida a ouvir jazz europeu, nomeadamente Jan Garbarek e Miroslav Vitous. O Carlos conhecia-a bem, arrisco mesmo que esse conhecimento fora ao extremo bíblico se é que me faço entender… Eu admirava-lhe a pujança fisíca, que aquilo era um pedaço de mau caminho, bem lançada com curvas no sítio certo, alta e com uma cara notável. Não era bonita ou pelo menos não era uma beleza mas aquela cara ressumava personalidade, convicção, serenidade. Enfim… estava que fervia.

Durante meia cerveja, talvez mesmo uma, expliquei ao Fonfon o que lhe poderia fazer caso ela estivesse pelos ajustes. O Carlos ia metendo mais uns fundinhos, murmurava coisas ininteligíveis  mormente Han e Hum, ouvia-me atento e de quando em quando alçava o periscópio para ver como o movimento.

Dias depois, uma semana, duas talvez, batem-me à porta e para meu espanto era a vizinha. Valha a verdade que nós conhecíamo-nos e eu até já estivera na casa dela um par de vezes. Todavia, e se não me falha a memória, era a primeira vez que ela punha o pé no meu território. Estava só, segundo me disse, a noite era uma criança, o marido estaria fora, a televisão era uma chatice e resolvera vir bater um papo com este vosso criado, se é que eu tinha pachorra para aturar… jurei-lhe que era mais que bem vinda, propuz-lhe uma bebida, fui por uma cervejola para mim e instalei-a num sofá em forma de L com tamanho suficiente para um casal se espojar a todo o comprimento em qualquer dos seus lados. No capitulo luzes, estava tudo mais que bem porquanto eu usava uma iluminação discreta e indirecta mesmo quando estava sozinho (homem prevenido vale por dois). A jovem instalou-se com uma displicência que achei de bom agoiro, e lá foi debitando um par de vulgaridades que me pareciam ser adequadas à circunstãncia. A pretexto de mudar um disco (ou uma cassete, já não recordo) achei melhor ir sentar-me bastante mais perto da criatura.

Para minha decepção (e embaraço) ela afastou-se um bom palmo num gesto que presumi como de recusa inequívoca a uma abordagem mais consentânea com a música ardilosamente escolhida, a iluminação ténue e a minha notória predisposição lasciva.

E desatou numa conversa descosida sobre o facto de ter uma dupla personalidade, ela era ela e mais uma outra ou outras, tudo a coabitar dentro daquele corpinho que Deus lhe dera e o diabo aperfeiçoara, enfim uma série de dislates que tornaram aquela noite esperançosa e mágica num suplício. Eu maldizia a minha sorte, a cerveja parecia medonha, os minutos horas e já não via uma mas dez megeras a beber-me o melhor Porto lá de casa.

Ao fim de um século, ou isso me pareceu, a prima dona da personalidade múltipla, largou o cálice, bocejou, olhou para o relógio e despediu-se. Acompanhei-a, reconhecido, á porta e aproveitei para também sair. A casa por um momento precisava de ficar abandonada e a mim faltava-me uma cerveja no bar da esquina.

Dias depois, encontrei o Fonfon, apetrechado com o respectivo “fundinho” de Martin’s 12 years num copo imenso. Ainda não tinha conseguido pedir a minha dose e já ele me apostrofava: “Então a ***foi lá a tua casa toda oferecida e tu nicles”.

Já disse que ainda não tinha a minha caneca de cerveja na mão. E ainda bem, pois que se a tivesse ela ter-me-ia caído cheia e intocada, um desperdício. Expliquei ao Carlinhos a história, contei-lhe com pontos e vírgulas as personalidades que me enchiam a sala e sobretudo o sofá, a minha avançada e o recuo da donzela, a dor de cabeça (sem contar com a de virilha) que aquilo me causara.

Num gesto largo e moscovita, o Fonfon rebateu-me o discurso. A criatura era mesmo assim, aquilo das personalidades era mero jogo, eu deveria ter picado estilo Spitfire sobre a multidão feminina que se agitava naquele corpo e logo veria que á primeira rajada todos esses fantasmas nos deixariam a sós e bem.

***, ao que parece humilhada, nunca mais apareceu. Soube que se divorciou. Anos depois morria, não sei de de doença má ou meramente sufocada por outras dezenas de mulheres que lutavam á compita para sair daquele corpo que Deus e o diabo tinham moldado para meu desespero, falhanço e vergonha.

 

Esta história, a segunda de uma longuísima série que se chama “gloriosos naufrágios” sai a pedido do Albino M. Que em comentário a ao meu último post me recomenda que largue o bastonário e lhe fale das raparigas do nosso tempo. E tem razão, antes elas, mesmo velhas como nós, do que essa triste criatura que me tira do sério. Como elas mas por óbvios e opostos motivos. 

O banco de todos os fundos

O meu olhar, 03.06.09

                                                         

 

O caso BPN ainda consegue surpreender. Agora é o desaparecimento de peças de arte no valor de 2,5 mil milhões de euros que pertenciam ao património do banco e cujo destino, se não tivessem “desaparecido”, seria a venda para encaixe de capital. Segundo notícia da Agência Financeira este facto faz parte do relatório e contas de 2008 deste banco.
 

Esse é o facto. A pergunta: o que vai ser feito para apuramento de responsabilidades e encontrar o que foi roubado? 

 

As peças de arte devem estar em algum lado. Presume-se. Entre os objectos que foram roubados estão 80 quadros de Miró, o que deve ocupar um espaço físico assinalável. Aguardemos.
 
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A Justiça sem Provedor

JSC, 02.06.09

Nascimento Rodrigues não esperou pela audiência com o Presidente da República para anunciar que se vai demitir do cargo de Provedor de Justiça. Amanhã, pelas 16 horas, Jaime Gama receberá a carta de renúncia. As televisões farão o resto.

 

No Incursões já se escreveu bastante sobre o folhetim da substituição do Provedor. É mais um caso lamentável, em que todos são culpados, todos, excepto o ainda Provedor.

 

 A justiça transformou-se num somatório de casos mediáticos. O mais recente é o da pequena Alexandra. O Conselho Superior da Magistratura vai analisar o acórdão e as declarações do Juiz, podendo acabar por aplicar uma sanção.

 

 Perante tudo isto vale-nos a “serenidade” do Ministro da Justiça, que revela não ter “nenhuma expectativa ou ansiedade” quanto a essa matéria. É isso mesmo. As expectativas são muito baixas ou quase nulas. E quando assim é também de nada serve ficar-se ansioso.

 

Estes dias que passam 166

d'oliveira, 02.06.09

Ouvi com estas com que vou morrer

 

Numa discussão na sempre extraordinária RTP 1 um (aliás) douto advogado expõs a seguinte tese: ao Bastonário compete denunciar situações de prevaricação. Mas, acrescentava, já não compete identificar os prevaricadores que para isso existem autoridades policiais, presume-se.

A tese, vinda sobretudo de um advogado em pleno exercício dos seus direitos e deveres, roça o transcendente para usar uma expressão que me ponha a salvo sei lá de quê.

Veja-se a pérola: a denúncia em abstracto é válida mesmo que isso (e também foi peremptóriamente afirmado) atinja um inteiro grupo social, uma classe, uma corporação, um mester. Aliás, o sempre douto causídico afirmava que, por exemplo, dizer que os guarda-fiscais são corruptos era uma bagatela. Claro, enunciava pudicamente, nem todos o serão, mas eles – os guardas -  bem conhecem no seu meio os corruptos e por isso a frase está bem usada.  Isto fpo dito com exemplar clareza ainda que em alta berrata por alguém a quem num momento poderemos ter de solicitar que nos defenda a fazenda, a honra ou a vida…, enfim a liberdade.

E pelos vistos é uma nova e surpreendente competencia do Bastonário da Ordem dos Advogados.

Ou por palavras mais meditadas: compete ao representante dos advogados a delação em abstracto, a acusação sem obrigatoriedade de provas, sem o “ónus da prova” de factos, de acções e situações que depois, sabe-se lá quando e com que meios, alguém irá verificar.

Nos regimes nazi e soviético não se fazia melhor. Aliás não se fazia assim tão ás claras. Lá, como os leitores recordarão, havia, a pesar de tudo uma denúncia específica, uma acusação em concreto com alvos bem (mal) definidos fossem eles comunistas, judeus, ciganos, inimigos do povo, kulaks, contra-revolucionários, direitistas enfim uma multidão.

Cá, se a tese vinga basta dizer: os advogados são um bando, uma vara, uma récua, um rebanho de criminosos, de ladrões, de vampiros que sugam o parco dinheiro dos cidadãos que inocentemente a eles recorrem. Todos? Talvez não mas isso competirá a quem tiver de investigar…

Veja-se que esta exaltada doutrina foi antecedida de uma aliás normal constatação. Hoje existem mais ou menos quarenta mil advogados, dos quais dez mil estarão com o mandato suspenso como é aliás o caso de quem estas linhas escreve. Isto significa, sempre na teses do autor que cito, que a advocacia actual é diferente da de há dez, quinze, vinte anos em que a plétora causídica ainda não se manifestava tão exuberantemente.

Eu diria mais, secundando esse entusástico colega: a advocacia de hoje é diferente da de há qurenta, cinquenta, cem anos. O que não significa que essa diferença quantitativa (e o quantitativo não se transforma sem mais em qualitativo, pese embora alguma teses duvidosamente marxista) justifique que agora esteja na ordem do dia o disparar em todas as direcções e quem vier atrás que feche a porta.

Justamente porque a advocacia atravessa uma trágica e súbita crise de crescimento que deveria ser prontamente estancada através de um draconiano numerus clausus nas faculdades de Direito (como ocorre com Medicina, Arquitectura, Economia etc…etc…) conviria ser-se cada vez mais exigente quanto ao que se diz, como se diz, a quem se diz.

Conviria parar para pensar se a profissão no seu conjunto ainda pode reger-se por normas que foram pensadas para épocas em que os licenciados em Direito tinham ilimitados postos de trabalho a prencher. Além dos clássicos destinos jurídicos, advocacia, magistratura, notariado e conservatórias, estavam-lhes reservadas outras carreiras, desde a diplomacia até à função pública onde normalmente preenchiam todos os cargos dirigentes De facto até há cinquenta anos mais ou menos não havia chefia de secção na função pública que não fosse preenchida por um licenciado, mormente em direito. Nos tribunais quase todos os lugares de alguma responsabilidade eram atribuídos a licenciados em direito e por aí fora. Actualmente, como é sabido, na FP já não rege o princípio mesmo que se recomecem a repensar os cargos de chefia, nos tribunais idem, e na diplomacia já se admitem licenciados noutras áreas. Ou seja, diminuiu a oferta de carreiras e aumentou exponencialmente o número de licenciados. Até porque a Faculdade mais fácil de fundar, e mais barata, é a de Direito. Digamos que estão abertos todos os caminhos para se assistir a uma crescente proletarização de muitos membros da profissão. E já está a ocorrer. Há seguramente milhares de jovens advogados que não conseguem montar escritório, que quase não tem clientes, que vivem de oficiosas ou que exercem a meio tempo. Isto para não falar no caso de muitos outros que obtém emprego nas sociedades de advogados já constituídas com remunerações francamente baixas e sujeitando-se a horários de trabalho escandalosos. Digamos que, regra geral, fazem biscates e pouco mais. De resto, nisto não estão melhor do que outros profissionais licenciados. Entra-se num banco e somos atendidos por um caixa que é economista, nas farmácias a pessoa que nos vende uma caixa de pensos rápidos, um shampoo ou um tubo de aspirina, tanto dá, é muitas vezes licenciada em farmácia. O titulo universitário já não é um passaporte para a felicidade e para o prestígio.

Tudo isto implica um forte sentimento de angústia e algum desnorte nos licenciados em Direito e nos advogados, isto é nos licenciados que depois das provas universitárias, fizeram um estágio longo e não pago, assistiram a aulas obrigatórias na Ordem, prestaram outras provas até conseguirem obter a respectiva cédula profissional. De facto o curso de Direito quase que duplicou em tempo para estes jovens profissionais que se vêm perdidos num mundo hostil sem balisas nem fronteiras definidas. Parece que terá sido aquí que o actual Bastonário obteve o essencial dos seus votos, ao que me dizem. Aquí e no grupo dos advogados que ainda exercem como independentes. Ou seja numa classe que ainda o não é por óbvia atomização dos seus  putativos elementos e num estracto que a médio prazo tem os seus dias contados. É bem provavel que daqui a trinta, quarenta anos, o advogado isolado seja uma relíquia, uma excepção. Se existir…

Tudo isto, porém, não justifica que se distorçam cruamente regras que moldaram e fundamentam os chamados direitos liberdades e garantias que são o “território de caça” dos advogados. Por exemplo esta que manda imperativamente que ao acusador se exija prova do que afirma. E muito menos que o acusador dotado de tão extraordinária como arrepiante função social deva ser Bastonário da Ordem dos Advogados. Nem nos tempos do Inquisidor Geral!…

 

 

“Injustiça animal”

JSC, 01.06.09

 

«Pires de Lima tinha já suscitado o aplauso dos cerca de 400 militantes presentes, com um forte ataque à justiça portuguesa, afirmando-se "revoltado e indignado" com a "injustiça animal" que determinou a entrega da Alexandra, a menina russa de seis anos, à mãe.

"Eu bem sei que não é suposto os políticos meterem a sua colher naquilo que é dito o espaço próprio da justiça, mas eu não sou político e quero confessar que me sinto revoltado, indignado com a forma como as crianças são tratadas por algumas decisões judiciais neste país", disse.

"Posso ser politicamente incorrecto, mas sinto-me indignado por ver uma criança de seis anos ser retirada como se fosse um animal à sua família e não haver quem responda politicamente por esta injustiça animal", acrescentou .»

 

Injustiça animal o que é? Uma não justiça? A falência do sistema de justiça? Ou será algo ainda pior? Pires de Lima não é uma personalidade qualquer e não deve ter proferido aquelas declarações no calor comicieiro, logo as mesmas declarações deveriam merecer profunda reflexão e reacção dos “aplicadores” da justiça. Para já domina o silêncio, ao estilo do “quem cala, consente”.

 

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