Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 173

d'oliveira, 24.07.09

Uma leitora manda-me um mail a dizer que eu devo ser um estoico. Um estoico! Confesso que me babei. Todavia, estoico, não. Apenas averbei com o quantum satis de calma triste e resignada o desastre de automóvel que sofri. Que é que havia de fazer? Se um grito, umas lágrimas, meia dúzia de palavrões ou alguma oração servissem bem que lhes teria dado uso. Mas a realidade é o que é, e eu, que não sou (bem que gostava...) um estoico mas apenas alguém a quem a idade alguma coisa conseguiu ensinar, à má sorte tenho de opor um vago sorriso.

Vago sorriso, repito. E amarelo. Raios parta o diabo, a chuva, o óleo na rua, enfim tudo o que me fez frente. À falta de outra coisa, e como um exorcismo, escrevi o texto. Para acalmar.

Acho que há nisto, neste recurso á palavra, muito do primitivo que em nós dorme. E o estoicismo é justamente  a negação desse pensamento antiquíssimo. Ou a sua superação. O estoico não precisa de recorrer à palavra. Ou precisará?

E o estoicismo é só isso, essa indiferença soberana aos acasos da vida, á má fortuna, esse desprezo pelos pequenos prazeres, eventualmente fúteis? Pensando bem, gosto de pequenos prazeres, de uma manhã fresca e luminosa na esplanada, de uma conversa de bica aberta com amigos, de um peixe grelhado na tasquinha do costume, de um vinho branco e alegre a acompanhar. E de um livro, deitado no sofá com a doidivanas da gata Ingrid Bergman a espreitar por trás do meu ombro. Saberá ler? Às vezes desconfio que sabe. É que quando o livro não é o que esperava e eu começo a sentir nascer um bocejo, a Ingrid mia, desconsolada, salta por cima da minha cabeça, aterra no livro e, zás!, vai à vida. Ou melhor, vai comer mais um bocado de ração e tentar convencer alguém a abrir uma torneira. A Ingrid gosta de água corrente. Por vezes quando a vejo imóvel com os olhos semi-cerrados pergunto-se me será estoica. Mas uma simples bola de papel mal amassado e atirada para o chão transforma aquela gata numa caçadora alegre e enérgica. Não, estoica não é.

-E hedonista?, retorque a visada.

Responda quem souber.

 *Ingrid Bergman em plena sessão de criação filosófica

Diário Político 118

mcr, 24.07.09

 

il cavaliere ed io

Adoro a Itália. Toda, Sicilia (onde ainda não fui…) incluída. A comida, ah a comida!…, as igrejas, os palazzi, a pintura, as mulheres (desculpem leitoras mas as mulheres italianas fascinam-me desde a minha extrema meninice, desde um filme visto no saudoso Peninsular, era eu tamanino, chamado “Não há paz entre as oliveiras” do grande Giuseppe de Santis. Com a Lucia Bosé…..).

É por isso que hoje me lembrei do senhor Berlusconi. E dei por mim a fazer comparações.

Ele gosta de mulheres. Eu também. Ele gosta muito. Também eu. Ele é rico. Eu também não. Ele da-se ao luxo de dormir com prostitutas. Eu também não. Ele gosta de carninha fresca. Eu também mas não exagero nem, ofereço jóias. Aliás nem sequer tive oportunidade, nem das joias nem das jovens. Devem estar todas numa bicha diante da casa de Berlusconi.

Ele é primeiro ministro. Eu, só o nome já me horroriza. Ele tem processos pendentes, dependentes independentes mas todos suspensos. Porque quando um processo aparece, ele dá ordens ao grupo parlamentar para aviar mais uma lei a tornar inoperante a acusação. Eu, nem isso.

E perante isto que fazem os meus amados italianos/as? Pois assobiam para o lado. A mulher de Berlusconi resolveu divorciar-se mas não creio que isso diminua a afluência de ninfetas, de prostitutas com queda para o negócio imobiliário, de cavalheiros a aplaudir a virildade do cavaliere. E de senhoras a aplaudir igualmente. As mammas italianas criam os filhos justamente para eles tratarem as filhas delas como objectos. Sexuais de preferência…  E a actual cultura de direita que levou o cavaliere, em triunfo, ao poder reforça esta ideia da impunidade do primeiro primeiro-ministro que chega ao ministério com um programa minimalista: evitar processos judiciais, manter privilégios antigos, juntar-lhes os que decorrem do poder, que ás vezes a imensa fortuna não convence todas as mulheres com que queremos dormir.

Corre, insistentemente, entre nós, a ideia de que Berlusconi é uma excepção. Desagradável, grosseira, aberrante, mas uma excepção. Não o é. Berlusconi é apenas um aviso do futuro quanto à nossa (in)capacidade de julgar os dirigentes financeiros e políticos que nos pedem apoio ou votos. A falta generalizada de convicções fortes, de ideologia (seja ela qual for) de princípios ou de ética alastram pela velha Europa. E não é apenas um aventureiro tonto na Geórgia, na Polónia, numa das ex-repúblicas jugoslavas que provam o que venho de dizer. Na vizinha Inglaterra um vago “socialista” em versão light conseguiu durar dez anos, destruir um partido forte, abandonar a tempo o barco do poder e andar por aí a vender as excelências de uma anterior intervenção musculada no Iraque á procura de armas de destruição maciças.  Agora, diz-se, gostaria de desempenhar um alto cargo europeu. Eventualmente o de Durão Barroso. Por mim, tudo bem, mas se querem que vos diga, Blair ou Durão é Dupont e Dupont. Vira o disco e toca o mesmo.

Dir-se-á que, de todo o modo, não é o mesmo um Blair ou um Berlusconi. Não estou assim tão certo disso. Tirem a este os toques meridionais e excessivos, e a ética, a postura, o oportunismo são idênticos. Com uma diferença: Berlusconi é mais autêntico menos perigoso, portanto. E tem mais gosto… para mulheres.

* Lucia Bosé numa cena de "non c'è pace tra gli ulivi

 

Estatísticas do Incursões

O meu olhar, 24.07.09

                         

O Incursões nasceu há 5 anos e mantém-se cheio de vitalidade. A equipa foi rodando, mas isso é também uma prova de vida. Alguns números interessantes:
Foram escritos até agora 5 010 posts;
Foram efectuados 15 115 comentários;
Fomos visitados 812 140 vezes (estas visitas não incluem a equipa do Inc.).
Pela minha parte, agradeço a todos os que colaboram neste espaço diversificado, quer de temas quer de opiniões. É da diversidade que brota o desenvolvimento. Portanto, que continuemos assim: diferentes e unidos! 

Au Bonheur des Dames 198

d'oliveira, 22.07.09

Chuva de verão

Hoje de manhã, bem cedo, demasiado cedo, quando me preparava para ir fazer o meu “footing” (não se riam da palavra que são quatro quilómetros w tal bem puxados!) diário, descobri que chovia. Uma chuva canalha, miúda mas espessa, um desengano para todos os que como eu decidiram um dia, já tarde, tentar congelar a barriga no seu já avançado bojo.

As gatas Ingrid Bergman e Kiki de Montparnasse olhavam-me incrédulas: “então este maduro vai sair com esta chuva estilo nevoeiro espesso e desagradável?, perguntavam-se uma à outra. Notei que havia naqueles olhares uma comiseração certa pelo hospedeiro, ou pela sua apoucada argúcia. Raios partam as felinas!, disse para mim próprio. Também não lhes farei a vontade. E, em boa hora, desisti da caminhada. Esta chuva pegajosa não me merece. E voltei para a cama para mais meia hora.

Na esplanada, a ler o jornal e a tomar o primeiro café da manhã, voltei a amaldiçoar o tempo que fazia. E a pensar porque raios teria de aturar duzentos metros mal medidos de chuva só para ler o jornal diante de um café. Hábitos antigos, rotina a mais, é o que é.

Se estivéssemos no inverno, isto bastaria para recolher a penates, agarrar nuns livros, e preparar uma jornada farta de leitura. Mas estávamos em Julho, nom de dieu!, em Julho mês mais que estival…

Terá sido por isso que entendi não dever ceder ao péssimo exemplo das gatas que dormitavam no melhor sofá da casa, e resolvi ir à baixa.

Em má hora o fiz, numa descida em curva para direita, o carro mesmo numa velocidade moderada, entrou em despiste graças à chuva e ao óleo na via (adoro esta palavra!) e zás! Bateu de frente numa parede de cimento e depois de traseira, num pião que ainda me aterroriza, rebentou com uma montra também ela arrimada a outra parede de betão.

Saí ileso, sem sequer uma esfoladela, o carro bem amochado mas com o motor a trabalhar.

O responsável pela garagem, pensando que me consolava, disse-me que eu era o terceiro a quem acontecia o mesmo infortúnio. Uma chuvada a destempo, o óleo na “via” e os 50 quilómetros, eventualmente ajudados por uma travagem brusca, dão cabo de um dia de inverno em pleno Verão, ameaçam as férias, pelo menos as minhas porque não acredito que a companhia de seguros tenha tudo pronto em 1 de Agosto, ou seja, se paga ou não paga, se paga tudo ou se vai arguir da idade do “veículo” (ah que palavra!) mesmo se, nos últimos trinta anos fui um cliente que pagou sem pestanejar um seguro contra todos os riscos… É por essas, e por outras…, que alguns amigos me comparam desfavoravelmente com o ET.

Claro que sempre poderei dizer que escapei desta, e garanto que, por escassos segundos, vi a minha história pregressa andar para trás a uma velocidade, essa sim, vertiginosa.

As gatas tinham, como sempre, razão. Em francês diz-se de um tempo assim, “un temps de chien”, ou “un temps a ne pas mettre un chien dehors”. Ou seja, se eu fora gato, ou tivesse ouvido as gatas, não estaria agora a deitar contas à vida, farto de chuvas de Verão, que deveriam cair nos incêndios que já lavram na floresta e não nas ruas sujas de óleo de uma cidade onde, como se diz também há momentos em que só saem à rua os doidos ou os cães. É pelo menos o que se diz em Itália sobre as horas violentas do início da tarde nos meses de Verão. Em África, vejam lá, diz-se algo muito parecido sobre essas horas em que o sol abrasa: só andam na rua os cães e os…brancos.

Eu sei que falava de chuva e não do sol a pino. Mas, em nome da sesta reparadora, parece-me que é a mesma coisa. Andar na rua às duas da tarde sem razão imperiosa só um tolo, um cão e pode ter, como teve, consequências.  

O incómodo chamado BPN / BPP

JSC, 22.07.09

O deputado Nuno Melo notabilizou-se no caso BPN. Admito que muito do recente sucesso eleitoral do PP se deveu a esse acentuado e notório protagonismo. Durante meses e meses o Deputado NM apareceu, diariamente, nas TV.s , em tudo que era noticiário radiofónico, com fotos abundantes na imprensa.

 

A princípio, pareceu-me contraditório que o caso BPN estivesse a ser liderado politicamente por um partido com a matriz ideológica do PP. Aos poucos lá fui percebendo que o caso BPN era o pretexto para atacar (ainda que com bastante razão) o Banco de Portugal, estratégia que BE e PCP não desmontavam, porque também estavam empenhados no ataque ao Banco de Portugal, que entendem (mal) como a mão do Governo.

 

Contudo, o sentido mais profundo da estratégia parecia ter por objectivo minimizar a discussão da tramóia e roubalheira desenvolvida no BPN, impondo, na agenda política, a discussão em torno da incapacidade e ineficiência dos órgãos de supervisão. Quando começava, finalmente, a ser anunciada a constituição de arguidos, o líder do PP veio acusar o Banco de Portugal por ainda não ter preenchido o cargo de director dos serviços de supervisão. Sobre os arguidos disse nada.

 

Era de esperar que com a constituição de diversos arguidos, ligados aos casos BPN e BPP, aqueles que durante meses lideraram na comunicação social o debate parlamentar dissessem alguma coisa, mostrassem regozijo, mesmo que contido, por estarem a ser obtidos resultados e até procurassem ver nisso algum sucesso do seu trabalho parlamentar, enfim, que dissessem qualquer coisinha.

 

Até hoje o que domina é o silêncio, a denotar algum incómodo, porque apesar do esforço político que tiveram para descentrar a discussão pública do que verdadeiramente interessava, verificam, agora, que o que está a vir à tona são os nomes de quem nunca falaram nem querem falar.

 

O que se avalia na Escola?

JSC, 21.07.09

Hoje, ao ler esta notícia, lembrei-me de um aluno que depois de chumbar pelo terceiro ano consecutivo à disciplina que leccionava veio expor-me a sua situação. Disse ele, que só lhe faltava essa disciplina para acabar o curso, que obtivera passagem, com boas notas, às disciplinas com precedência, cuja nota aguardava pelo resultado desse exame. Disse mais, que estava empregado e que tinha programado o casamento para esse Verão, que por tudo isso lhe traria um grande desarranjo se não fizesse a disciplina e com isso acabasse o curso (bacharelato).

Ouvido isto, falamos sobre a disciplina e o seu desempenho, perguntei-lhe o que pensava fazer em matéria de estudo, ee ia prosseguir para a licenciatura ou se ficava por ali. A resposta foi pronta, estava farto de estudar, ia casar e apostar no trabalho que tinha.

Analisado o “contexto” pareceu-me que nada de grave aconteceria se lhe desse um dez no exame. De uma assentada resolvia o problema dele, da namorada e dos pais. Ainda falei com um colega, também professor do referido aluno, que foi da mesma opinião. Afinal de contas o rapaz queria era casar e para isso os pais exigiam que acabasse o curso. Pelo estilo nunca mais pegaria num livro e outros comentários deste jaez, convenceram-se a dar (em sentido literal) o dez.

E a coisa bem podia ter acabado por aqui. Contudo, dois ou três anos volvidos, eis que me cruzo com o ex-aluno numa Universidade. Cumprimento-o e digo, então, que faz por aqui? A resposta foi requintada: Estou a acabar a licenciatura. Muito bem, felicidades, disse.

De seguida telefonei ao meu colega e contei-lhe. Olha o malandro, disse ele.

Agora que li a notícia do Público, quem sabe se este aluno ainda não vai acabar uma licenciatura ou mesmo um mestrado, quem sabe…