Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

23
Fev10

Sinais dos tempos

José Carlos Pereira

Os últimos tempos têm sido conturbados na cena política nacional. Depois do drama do défice e da crise financeira internacional, temos a política portuguesa no seu esplendor. Vejamos:

1. José Sócrates deu uma entrevista ontem a Miguel Sousa Tavares, na SIC, e desfiou novamente as suas razões quanto às trapalhadas para que o têm arrastado. O líder socialista está determinado e não parece ser desta que o conseguem abater. Mas Sócrates deve tomar cuidado com os boys socialistas que pululam pelo aparelho de Estado e pelas empresas públicas. Mais papistas que o Papa, podem deitar muito a perder...

2. A saga da transcrição das escutas por parte de alguns jornais, com agendas marcadas, bem como o espectáculo degradante das audições na Comissão Parlamentar de Ética, dizem tudo sobre a qualidade de certo jornalismo, apostado na sistemática violação de regras elementares da profissão.

3. As (distantes) eleições presidenciais começam a animar. A candidatura de Fernando Nobre, por muitos méritos que o médico reúna, está votada ao fracasso. E terá de justificar muito bem que a sua presença na disputa não é só para atrapalhar Manuel Alegre. Contudo, como há dias lembrava Alfredo Barroso, não tenho candidato em quem votar nas presidenciais e isso é que verdadeiramente me preocupa. O que virá por aí?

4. Pedro Passos Coelho, Paulo Rangel e José Pedro Aguiar Branco estão em plena luta pela liderança do PSD. Passos Coelho reúne apoios, Rangel denota fragilidades de carácter muito preocupantes e Aguiar Branco parte com algum atraso. Se fosse militante ou simpatizante do PSD apostaria neste último, porque me parece o melhor preparado. Mas os tempos estão mais de feição para os discursos de guerrilha...

22
Fev10

Au bonheur des dames 222

d'oliveira

 

Não é bem assim...

A jornalista Helena Matos tem uma coluna semanal no “Público” que não me canso de ler. De facto, tive sempre a ideia de que só lendo os do outro lado poderemos compreender o mundo em que nos movemos. Bom seria que muitos conservadores fizessem idêntico esforço, para já não falar da “minha gente” que muitas vezes parece possessa quando se lhes recomenda atenção aos adversários.

Vivemos, as mais das vezes, em mundos fechados, estanques, incapazes se discutir com os outros apenas por que os não ouvimos. A esquerda diaboliza a direita que por sua vez se enche de urticária só de pensar na esquerda.

Tu lês isso?” perguntou-me uma vez um simpático camarada quando me viu de Stendhal  em punho. “Devias era ler o Balzac que é muito mais progressista.”

Lá tive de explicar ao bom moço que Balzac era mais reaccionário que uma pescada, monárquico ainda por cima e que a famosa citação de Marx sobre ele pretendia apenas realçar o facto de Balzac, o enorme, o gigantesco, ser o mais interessante e fiel cronista dos defeitos da nova classe em ascensão.   E rematei-lhe com o “nosso” Júlio Dinis, honrado e precoce cronista do fontismo, morto demasiado novo para poder ser um Balzac português. A inteligentsia oficial detesta-o, acha-o xaroposo e atira-o para o recanto das leituras recomendadas a meninas casadoiras. Todavia, no século XIX, não há escritor que se lhe compare no que toca à descrição da gente que substituiu por esse país fora os vencidos do antigo regime. Basta ler “Os fidalgos da casa mourisca” para perceber como o campo, certo campo, se transforma e como a mentalidade dos novos proprietários transforma em jardins as devastadas propriedades dos fidalgos arruinados.

Foi, eventualmente, o Joaquim Namorado, arauto de um neo-realismo severo mas inteligente, quem me alertou para o perigo de ler só o que os “nossos” publicam.  E dizia com a maior seriedade que escreveria no “Agora” ou no “Diário da Manhã” se o deixassem dizer o que pensava. E lia-os claro, afirmando que conhecer o adversário era meio caminho andado para o vencer.

Agora que esclareci um dos motivos que me levam a ler Helena Matos (para já não falar da sua inteligência, de algum humor e do bom português que usa) vamos ao que interessa: o seu texto de hoje, 18 de Fevereiro, “Os situacionistas”.

Desenvolve HM a seguinte tese: os rebeldes de 60 ( a geração de sessenta) ter-se-ão sentado no poder a partir de 75/80, mais propriamente no PS e, insensivelmente, as novas condições politicas e económicas  tê-los-á convertido em “situação”. Ou em “situacionistas” (se bem que, aqui, não haja, penso, nenhuma referencia aos “internacionais situacionistas” que de resto foram escassamente conhecidos pela geração de sessenta portuguesa). “Situação” portanto no sentido que se dava à expressão justamente nos anos do Estado Novo. A “situação” era a gente do regime e contra ela, de longe, pouco, e fracamente ouvida, resistia a “oposição" (a “oposicrática” como lhe chamávamos, nós os de sessenta, desconfiados dos velhos republicanos, dos “reviralhistas”, dos náufragos de dezenas de intentonas, pequenos caciques locais vencidos pelo tempo, pelo progresso, pela ideologia e, sobretudo, pela dolorosa consciência de que tinham sido eles os coveiros da República  e os involuntários - ou inconscientes – parteiros do Estado Novo. )

A tese é interessante mas artificial. Primeiro, esquece o facto evidente (basta ver a idade dos actuais membros da elite dirigente do PS) de serem relativamente escassos os membros dessa geração ainda politicamente activos. Digamos que quem tinha 18 anos em 69, por exemplo, andará agora pelos 59/60 anos, o que sai um pouco da média de idades que se obtém analisando  os órgãos dirigentes do PS. E, mais do que isso, os verdadeiros centros do poder (politico, económico e social).

Depois, e basta olhar para outros partidos (desde o PSD ao PC ou mesmo o BE) para ver que a fracção combatente de 60 também tem aí um largo número de representantes.

Em terceiro lugar, explorando para lá das fronteiras caracteristicamente partidárias, vão encontrar-se numerosos soixante-huitards (para usar uma expressão consagrada) que se manifestam noutros sectores sociais, em múltiplos blogs, as mais das vezes profundamente críticos dos actuais partidos de esquerda ou centro-esquerda. Contas pessoais minhas, referidas apenas, aos militantes coimbrãos entre 62 e 69 dão fé de uma reduzida presença na “situação” encontrada por HM. Isto para não falar nos muitos que tendo estado envolvidos na politica activa |(maxime nos Estados Gerais de Guterres) se afastaram rapidamente quer do PS quer mesmo das suas franjas mais próximas. Ou mais cúmplices.

A “situação” a que HM se refere abrange fundamentalmente gerações mais novas, como aliás exemplarmente se pode ver a partir dos últimos desenvolvimentos do processo “Face Oculta”. Mesmo que ponhamos um “jovem” de 35 ou 36 anos na margem inferior da amostragem, dificilmente se apanha peixe graúdo para lá dos cinquenta anos de idade.

A “situação”, a existir organizada, solidária e decisivamente interveniente, foi pescada nas “Jotas”, no aparelho post-soarista (e isto não é passar um atestado de inocência e bom comportamento ao soarismo genuíno), no caldo de cultura desideologizado dos anos 90, nas versões “blairistas” da politica à portuguesa, nas universidades feitas à pressão no mesmo período, nesse magma obscuro de cursos e “cursillos” vagos e fantasistas, na expansão de pequenas maçonarias desdentadas mas vorazes que diariamente ocupam pelas boas (ou pelas más, sobretudo) razões as páginas principais dos jornais.

Eu poderei perceber que HM veja nos de sessenta (ou na representação que terá deles) a origem de todos os horrores que perseguem a nova geração conservadora. A “festa” anarquista, o desafio desbragado aos poderes instalados, o impudor politico (que haveria, há que dizê-lo, ser um dos pais putativos do politicamente correcto) e a iconoclastia ideológica (que também foi berço de muito e horrendo terrorismo...) são razões suficientes para apavorar a mais destemida analista dessa época sobretudo se só a conhece pelos slogans, pelo escândalo e pelo exotismo.

Repito: os situacionistas de HM (tal qual saem do seu divertido escrito) têm outros pais e outras mães dos que nos pariram. Por favor Helena Matos tire-nos de dentro dessas suas criaturas.  

 

* como é evidente o texto sai com atraso. Escrito na esplanada, num computador de combate, nele ficou esquecido até hoje, 22, altura em que repegando no mesmo computador dei com o texto. Achei, apesar de tudo, que ainda teria a sua escassa utilidade e aproveito para o dedicar A Maria José C. e a José M., meus amigos.

A gravura é de 28 de Maio de 1969 e retrata a Assembleia Magna que decretou a única greve estudantil vitoriosa de que tenho memória. Todavia, nesse dia, ninguém esperava vencer o Governo, a "situação" e a universidade, bem pelo contrário. Mas há (raríssimos ) momentos em que se tem de fazer das tripas coração e esse foi um desses e decerto terá contribuído para que Helena Matos escreva hoje com liberdade sobre tudo o que entende valer a pena.  

19
Fev10

PARTILHAR O QUE TEMOS

Mocho Atento

"Deixarmo-nos trabalhar pela sede de Deus não nos desliga das preocupações do mundo que temos à nossa volta. Pelo contrário, esta sede leva-nos a fazer o impossível para que outras pessoas possam tirar proveito dos bens da Criação e encontrem uma alegria de viver.

Fazer uma escolha dos nossos desejos, aceitarmos não ter tudo, leva-nos a não monopolizarmos as riquezas para nós próprios. Santo Ambrósio já dizia no século IV: «Não são os teus bens que distribuis ao pobre, apenas lhe dás o que lhe pertence

Aprender a não termos tudo preserva-nos do isolamento. As facilidades materiais levam muitas pessoas a fecharem-se sobre si mesmas, descurando as verdadeiras formas de comunicação. Bastaria muito pouco para que as coisas não fossem assim.

Há muitas iniciativas de partilha que estão ao nosso alcance: desenvolver redes de entreajuda; favorecer uma economia solidária; acolher os imigrantes; viajar para compreender por dentro outras culturas e outras situações humanas; promover geminações de cidades, de vilas, de paróquias, para ajudar aqueles que precisam de auxílio; utilizar bem as novas tecnologias para criar laços de apoio...

Permaneçamos atentos para não nos deixarmos invadir por uma visão pessimista do futuro, focando-nos nas más notícias. A guerra não é inevitável. O respeito pelos outros é um bem inestimável para prepararmos a paz. As fronteiras dos países mais ricos devem poder abrir-se mais. É possível haver mais justiça na terra. As análises e os apelos com vista a promover a justiça e a paz não faltam. O que falta é a motivação necessária para perseverar para lá das boas intenções."

Irmão Alois, Carta da China.

 

19
Fev10

Gastar o tempo

JSC

Lê-se no Delito de Opinião e corroboro, cada vez mais, a ideia de que este inquérito parlamentar é mais um revés que se abateu sobre o país, a somar à crise. Ainda hoje ouvia as questões que os parlamentares colocavam a Armando Vara e as respostas que este dava, para concluir que aquilo não faz grande sentido. Depois de tudo resumido, vai dar em nada. Quanto custa ao país este inquérito parlamentar? E nem me refiro à remuneração paga aos senhores deputados e a toda a logística que suporta aquilo. Estes nem serão os custos mais significativos. Claro, são os custos da democracia, admito. E as questões da governação, quando e quem as discute e debate?

 

19
Fev10

Ajudar a banca, de novo

JSC

Com activos de 12 mil milhões de euros, sete por cento do PIB português, os fundos de pensões dos bancos são, cada vez mais, um problema para o sector

 

A tentação deve ser grande. Reduz-se a dívida pública e ajuda-se, mais uma vez, o sector bancário. Problemas para o futuro próximo? Mais que certos. Mas isso não são preocupações do presente. As proeminentes preocupações do presente são o esmiuçar das escutas.

 

 

19
Fev10

Mandela por Clint Eastwood

José Carlos Pereira

aqui se escreveu sobre o filme Invictus e até sobre o poema que o marca. Contudo, depois de ver mais esta magnífica obra de Clint Eastwood não podia deixar de relatar a emoção com que vivi a película.

Clint Eastwood junta Morgan Freeman e Matt Damon e, com eles, permite-nos apreender a enorme dimensão humana e política de Nelson Mandela. A sua grandeza moral, a sua magnanimidade, a sua visão política e a capacidade para ver a floresta para lá da simples árvore dão-nos uma lição de vida.

O rugby, que está no centro do filme com a caminhada dos springboks até ao título mundial em 1995, retrata como a união de um país se construiu a partir de pequenos (?) detalhes. Mandela foi, sem dúvida, um dos príncipes do século XX.

17
Fev10

Comissão de Ética

JSC

        
Eu também mereço ir à Comissão de Ética. É que também falei ao telemóvel, andei a fazer comentários acerca disto e daquilo e até insinuei sobre as escutas e outras coisas mais. Depois de tanto falar não me parece justo que ninguém tenha interesse em ouvir o que tenho para dizer sobre estas matérias.

 

O PSD indicou um monte de pessoas para serem ouvidas na Comissão de Ética. Vai daí o PS avançou com mais um número de personalidades e não personalidades. O Bloco e o PC também escolheram ou irão escolher as pessoas que querem ouvir. Admito que o CDS também não queira ficar sem ouvintes próprios.

 

A liberdade consiste nisto, em cada partido poder escolher os ouvintes que quer. O que me chateia é não ouvirem todo o pessoal que andou a falar ao telemóvel e a mandar mensagens. Por exemplo, quem mandou mensagens para o PS quando o PS ganhou as eleições merece ser chamado à Comissão de Ética. Que interesses ocultos não poderão estar por detrás de uma mensagem desse teor? O mesmo para o Paulo Rangel quando ganhou as europeias.

 

Em boa verdade, as escutas, como se está a provar, apresentam três grandes vantagens: A primeira, as escutas são a garantia da defesa da liberdade individual e colectiva; a segunda, constituem uma excelente ocupação para os parlamentares; a terceira, concentram a atenção dos media e do povo no que é essencial. Assim, a conclusão apresenta-se óbvia: Escutem-nos. O país não pode esperar.

 

17
Fev10

Igreja Submersa

JSC

Segundo o Papa, o abuso sexual de criança e jovens é um crime hediondo. Durante décadas os padres e bispos irlandeses, tal como também já acontecera em Boston, tiveram um comportamento pedófilo, que só na diocese de Dublin, segundo se lê aqui, envolveu 102 padres, desde 1040.

Por muito que agora a Igreja e o Papa peçam perdão, invoquem a falta de “liderança local” ou se mostrem disponíveis para aceitar a ”cólera dos fiéis”, o certo é que tudo não passará de tentar salvar a face, porque “o crime hediondo e grave” de que fala o Papa decorreu durante mais de meio século e nem pode invocar que tais crimes eram desconhecidos da hierarquia, pelo contrário, a hierarquia fomentava tais comportamentos ao não punir os infractores e ao ocultar as práticas pedófilas de padres e bispos.

A forma mais limpa e transparente que a Igreja (instituição) terá para mostrar o seu arrependimento e vontade de mudar passará por expulsar todos os padres e bispos pedófilos e deixar que os mesmos sejam entregues à justiça.

 

15
Fev10

Au bonheur des Dames 221

d'oliveira

As liberdades, as asneiras, o mau gosto

 

Comecemos por uma história (aliás duas) antiga. Na primeira, o actor principal é o dr Mario Soares. Em Londres, pouco depois de se expatriar. Os pormenores da história são já confusos devido ao tempo (muito) que entretanto passou. Se não estou em erro, alguém importante (o dr Marcello  Caetano?) ia a visitar o velho aliado. Parece que o dr Soares entendeu (e a meu ver, bem) estragar-lhe a festa organizando uma manifestação de denúncia do fascismo e do colonialismo portugueses. A coisa teve o seu impacto escandaloso.

Cá pelo país dos brandos costumes, o povo, ou quem por ele tinha direito a opinar, manifestou veementemente o seu repúdio em manifestações de massas por uma vez sem exemplo consentidas, em abaixo assinados e noutros folclores do mesmo teor e com a mesma inspiração. Inventou-se mesmo uma mentirola grotesca onde o dr Soares dava pinotes cómicos sobre uma bandeira portuguesa! E a tolice era tanta, a crendice era tal qu a coisa pegou e ainda hoje se ouve por aí a história.

Segunda história: um grupo de teatro estudantil de Coimbra, na Bélgica, em Liége num festival mundial de teatro. Acabada a função, enquanto os aplausos se ouviam, um grupo de jovens portugueses exilados, sobe ao palco e manifesta-se. Contra o colonialismo e o fascismo.

Cá, a coisa não teve o mesmo dramatismo, sequer manifestações  e abaixo assinados. Alguns dos membros do grupo de teatro foram interrogados, a policia organizou mais um pequeno processo e as fichas dos jovens actores amadores portugueses ficaram com mais um parágrafo nos seus currículos revolucionários.

Pessoalmente, já que fazia parte do segundo ajuntamento, devo dizer que a manif me embaraçou. O trabalho que tínhamos levado à cena, as longas conversas que mantivéramos com estudantes belgas, com os os participantes do festival (vindos de variados países) e os artigos que coroaram a nossa participação eram suficientes para mostrar aquela pequena parte do mundo o que se passava cá, o que pensavamos disso e como era possível travar na “frente cultural” um combate justo e exemplar. A arruaça de meia dúzia de exaltados fazia perigar o nosso frágil organismo académico, as nossas parcas liberdades e não beliscava em nada o regime politico português.

Todavia, estava de acordo com os manifestantes naquilo que os movia (e que também nos movia). E isso bastava para, como disse, me sentir quanto muito embaraçado. Mas nunca indignado ou capaz de repudiar a acção dos exilados.

Muitos anos depois, agora, mais precisamente, pasmo com as opiniões que oiço sobre a “denúncia de falta de liberdade” feita pelo deputado Paulo Rangel no Parlamento Europeu. É que a maior parte das críticas dirige-se não ao teor da intervenção, à sua justeza, à sua conformidade com o real vivido cá, mas apenas ao “escândalo”: Credo! Lavar a roupa suja em público! Lá fora! Se tiver criticas que as faça “cá dentro”!

O deputado Rangel é seguramente bom moço, um pouco gordo para meu gosto, mas com a inteligência suficiente para ter chegado, na vida civil, onde chegou. Às vezes até tem humor e tenho-o na conta de um conservador arejado e moderno. Tem porém, e isso espanta-me, um crivo muito estreito para avaliar o estado da liberdade de opinião na pátria madrasta. Se se tivesse limitado a dizer que o país fervilha de tentativas de controlo dos meios de comunicação, que os seus responsáveis canhestramente têm mais ousadia para armar conspiratas do que para as manter em segredo, que, numa palavra, são, ao fim e ao cabo, uns péssimos planificadores e uns desbocados mais espertalhotes do que inteligentes, tudo bem. O areópago europeu rir-se-ia desta garraiada á antiga portuguesa e passaria adiante. Mas não. Rangel franziu o sobrolho, esticou o dedo e acusou confundindo planos e tomando a nuvem por Juno. E solene e gordo, ou gordo e solene, disse o indizível: que o país está à beira do calabouço.

Não está, não está.

Cá, entretanto, o público em geral e os filisteus situacionistas horrorizaram-se. Ou fingiram que se horrorizavam. E vá de patriotismo à pazada: que vergonha! Que descoco! 

Tudo isto, em exaltada guincharia, com tropos de câmara dos deputados republicana, a mão no peito, e a indignação a cair em baba sobre as gravatas (felizmente horríveis e de mau gosto) e a fatiota cinzenta ou azul que agora é a farda deles.

Não se lembraram de se rir! Sequer de sorrir! O sorriso assassino de quem vê o adversário pôr a pata na poça, escorregar e cair de cu. Não senhor. Armaram-se em compungidos, anteciparam a quaresma sem sequer aproveitarem a boleia do Carnaval e vá de manifestar repúdio. Muito repudio, como nos tempos da “outra senhora”.

O deputado Rangel disse uma parvoejada em que nem ele acredita (espero-o sinceramente.) e as criaturinhas do outro campo, ergueram as mãozinhas ao céu e, como perus bêbados em véspera de Natal, gluglugaram indignações.

A liberdade está sempre em risco. Sempre. É da natureza humana entender a liberdade boa para nós e má quando somos (ou nos pensamos) vítimas dela. É por isso que ao defender a liberdade de opinião, defendemos a liberdade tout-court. É por isso que necessitamos de uma imprensa tão livre quanto possível, de uma televisão independente do do poder, pelo menos do poder politico. É por isso que certos “segredos de justiça” fazem mais pela injustiça do que a  a crua exposição deles ao sol. É por isso que se deve exigir aos agentes da justiça menos palavras, menos desculpas, menos titubeios e mais clareza, mais acção e mais investigação. É por isso que leis “celeradas” feitas porventura com boas intenções podem revelar-se verdadeiros muros contra a verdade. Em Itália, para não ir mais longe, um poder esquizofrénico, prepara não só leis para perseguir os mais fracos dos mais fracos (os emigrantes) mas também para proteger os mais fortes dos mais fortes do escrutínio da justiça.

Foi isso, esse golpe de asa, que faltou ao deputado Rangel. Encadeado pela “ruptura” de que subitamente se descobriu arauto, confundiu planos, circunstâncias, ideias. Pior: a sua exposição no PE mostra mais mau gosto e presunção do que análise atenta da realidade.  Retomando o exemplo do peru (agora sóbrio) convinha dizer-lhe que quem é anafado como  os meleagridídeos não deve tentar imitar a águia. Para evitar o gluglu e perceber que às vezes o silêncio é de oiro.  Mas isso nem os adversários perceberam......

*gravura rapinada a leolama.blogspot.com