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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

A política da venda dos anéis

JSC, 23.09.10

O governo vai cumprir o acordado no PEC e vai alienar mais uma parcela de GALP. O Tesouro encaixa 900 milhões de euros fresquinhos, mas perde chorudos dividendos futuros, ano após ano, na parte correspondente ao capital alienado. Numa perspectiva de médio e longo prazo o governo está a fazer um mau negócio, a descapitalizar o Estado. Coisa de somenos para quem vive no sufoco de tesouraria.

 

Segue-se a EDP, pelas mesmas razões e com as mesmas consequências. Entretanto prossegue a venda de bens imóveis, desde quartéis a tribunais, escolas e outros equipamentos.

 

Reforçam-se as parcerias público privadas em diversos domínios, com lucro mais que garantido para os parceiros privados. Algumas até tiveram por objectivo libertar bens propriedade do Estado para poderem ser alienados.

 

Não é só na administração central que se procede a esta política de alienações e antecipação de receitas. Em outros sectores da administração pública também se vem adoptando a política das concessões de serviços públicos, com antecipação de receitas que não se destinam a novos projectos, antes a suprir carências de tesouraria.

 

A política que desde há muitos anos vem sendo seguida, no sentido de alienar as participações públicas em sectores estratégicos, não obedece a qualquer modelo de desenvolvimento para o país nem a opções de natureza estratégica, apenas tem como critério suprir necessidades imediatas de tesouraria, pagar despesa realizada, bem acima do que a capacidade financeira do Estado permitia.

 

O Estado, no seu todo, cada vez assume mais compromissos com grandes grupos e cada vez tem menos património.

 

O ministro das Finanças acaba de anunciar que o Orçamento para 2011 terá cortes significativos em todas as rubricas, para fazer baixar a despesas pública e que irá extinguir todos os organismos que se mostrarem desnecessários. É uma boa intenção. O problema, o grande problema, das finanças públicas não é fazer cortes no orçamento. Essa é a parte mais fácil. O grande problema que o Ministro das Finanças tem para resolver é fazer cortes na despesa real, efectiva. Ora, neste domínio é o descalabro que se conhece, donde a necessidade de prosseguir a venda dos anéis.

Pular e avançar

José Carlos Pereira, 23.09.10

O clima é de turbulência, a nível económico e político, mas é conveniente não desprezar os sinais positivos que todos os dias (ainda) nos chegam. Os profetas da desgraça que abundam entre nós parecem preferir o caos e a derrocada, mesmo se nem todas as vozes confluem nesse sentido, e não faltam exemplos de quem esbraceja e luta contra as adversidades.

Ao ler os jornais de ontem, vemos números aterradores (dívida das empresas públicas na casa dos 17 milhões de euros; quase 14 mil entidades públicas e privadas a receber dinheiro do Orçamento do Estado; juros da dívida pública não param de crescer), contrastantes com outros indicadores positivos (endividamento externo a cair pela primeira vez pelo menos desde 1996; exportações até Julho no sector da cortiça cresceram 9% face a 2009; líder parlamentar da CDU alemã a dizer aos portugueses para acreditarem nas suas forças e não na ameaça potencial do FMI). Aqueles são sempre mais notados do que estes.

Enquanto isso, há empreendedores a forçarem o país a progredir na ciência, na tecnologia, na inovação. Assim se cria condições para o aumento das exportações de serviços e bens transaccionáveis. Na passada segunda-feira, participei na I Conferência da Rede PortusPark, rede de parques de ciência e tecnologia e incubadoras da região Norte, e testemunhei o entusiasmo e o sucesso de investigadores e empreendedores que fazem Portugal pular e avançar, ao nível dos melhores do mundo. É por aqui o caminho.

Não nos conformarmos e não desistirmos é meio caminho andado para ultrapassar a crise em que nos encontramos.

estes dias que passam 213

d'oliveira, 22.09.10

Ejusdem farinae

Por razões que sempre excederam os limites do meu pobre entendimento, o Dr. Manuel Maria Carrilho goza em alguns meios da excessiva fama de personalidade. Politica e social. Claro que esta última vertente virá provavelmente da esposa, senhora que, independentemente de considerações estéticas, ocupa um imerecido lugar no leque de vedetas televisivas. Mas Carrilho lá aparece vagamente de príncipe consorte, penteadinho, sorriso forçadamente colgate e muito palavroso.

Como os leitores recordarão, até ao dia fatal em que Guterres o tirou da cartola como Ministro da Cultura, a criatura era absolutamente desconhecida. Mesmo no PS houve um prolongado e surpreendido ahhh. De facto, na altura, e fazendo fé em várias deixas do Guterres ainda candidato, havia a ideia de que esse cargo iria para António Reis, maçon, fundador do partido, ex-Secretário de Estado da Cultura, miliciano de Abril e principal impulsionador do Conselho Coordenador de Cultura dos Estados Gerais.

Razões misteriosas (que toda a gente conhecia, aliás, e que se prendiam, dizia-se com a agitada vida sentimental de Reis) fizeram com que este tivesse sido preterido. Alguns sequazes de Guterres garantiam que Reis, uma vez ganhas as eleições, partira para local desconhecido e inatingível, em galante companhia, e que ninguém lhe conseguira telefonar para saber se ainda estava disponível para o Ministério.

Amigos de Reis garantem que o telefone deste constava de várias agendas mas que a sua agitada e última paixoneta pusera as almas piedosas e inocentes (e recatadas! E seguidoras da boa moral cristã e conjugal...) em polvorosa. E que isso fora pretexto para a súbita aparição de Carrilho aos pastorinhos que aconselhavam o Chefe de Governo na formação do Ministério.

Seja como for, eis que um desconhecido Carrilho entra no carril governamental e sai Ministro.

As pessoas lembrar-se-ão provavelmente de ter sido ele o porta voz das figuras rupestres do Côa, as tais que, coitadinhas, num país de marinheiros sem navios nem Índias novas para descobrir, não sabiam nadar.

O Côa para ali está, com as gravuras salvas do horrível naufrágio, solitárias como dantes, numa terra pobre como dantes, tendo por ocasional companhia, esforçadas levas de estudantes que, pastoreados por professores indiferentes, passeiam a sua ignorância pelos penedos. Fora isso, nicles, ou ainda menos.

Mas isto, o medonho barulho que se armou, deu a Carrilho a oportunidade de se mostrar, grande, enorme e musculoso contra os filisteus. Depois, sempre que apanhava um microfone a jeito, eis que Carrilho, brindava o país e o mundo com estentóreas frases sobre nada e nada que passavam aos ouvidos surdos da plebe como a suma teológica da nova cultura pret-a-porter. As pessoas lembrar-se-ão de algumas desqualificações feitas por Carrilho sobre políticos que, valha a verdade, não eram piores nem melhores do que ele. Andava a fazer a mão para mais altos voos. Em tempos mais recentes chamou a Alegre o que Mafoma não chamou ao salpicão de Chaves.

Saiu do Ministério num repelão e preparou-se para outro salto mortal: a Câmara de Lisboa.

A crua realidade de uma derrota humilhante diante de um politico da terceira divisão distrital chamado Carmona Rodrigues não o terá convencido de que não era pessoa para estes campeonatos. E de repente, ei-lko em Paris, na embaixada de Portugal na UNESCO.

Confesso que nunca percebi a que título o puseram lá. Aquilo costumava ser o lugar para onde se deportavam os políticos perigosos, os que “mijavam fora do penico”. Carrilho se bem que tonitruasse já não oferecia qualquer perigo a quem quer que fosse. Todavia, lá o colocaram por alguma obscura razão. Confortado com o apetitoso posto, Carrilho fazia de quando em quando uma aparição fugaz nas colunas dos jornais.  Suponho que o não liam ou se o liam não o levavam muito a sério. Até ao dia em que... e extraordinariamente, o embaixador português  na UNESCO entende criticar de viva voz o Governo que representa e mais do que isso, recusa votar o nome que o mesmo Governo entendia dever apoiar para um qualquer cargo  internacional. Convenhamos que, enquanto cidadão, Carrilho tinha razão em não gostar do candidato egípcio que num acesso de oportunismo politico Portugal apoiava. Porém, era embaixador, e os embaixadores baixam a crista e fazem o que lhes é pedido. Gostem ou não. E se não gostam mesmo nada, demitem-se. Carrilho sempre com a mira nas egrégias personalidades do panteão nacional e republicano, bem poderia fazer o mesmo que João Chagas (que falava melhor, escrevia melhor e se arriscava a sério) que por duas vezes se recusou a servir governos de que desconfiava.

Mas Carrilho não se demitiu, o Governo engoliu a afronta e lá mandou outro quiddam votar em vez do senhor embaixador.

Toda a gente (excepto Carrilho) percebeu que este “já era”. E tanto já era que desde há largos meses se faziam apostas sobre o seu sucessor. Carrilho, lá no etéreo lugar onde o tinham posto, não sabia de nada, não via nada, não ouvia nada.

Agora jura que soube da sua demissão pela Lusa. O Governo, por seu lado, garante que o notificara. Entre os dois que se entendam. Com uma pequena nuance: Carrilho não sai porque há uma rotação normal, por via do habitual movimento diplomático. Carrilho que se saiba não é nomeado para qualquer outro posto diplomático. De resto, nem é diplomata de carreira. Carrilho jura que este alegado atropelo (?) resulta da sua pena vigorosa e certeira. O governo assobia para o lado.

Daqui a dois dias ninguém falaria disto mas que vai haver gritos, choro e ranger de dentes, olá se vai. Eu mesmo, ao comentar este fait-divers inócuo estou a contribuir para esta pequena erupção de notoriedade da parelha Amado-Carrilho. É uma tolice de que mais tarde me arrependerei. De facto, é preciso andar muito desprovido de tema para bordar meia página à volta disto. Mas eu sou assim. Bem que sei que “de minibus non curat praetor” mas que querem? Às vezes também nos apetece entrar na coutada da imprensa cor de rosa.

 

* o título reflecte o que penso dos actores desta comédia triste.

Tranquilidade

O meu olhar, 22.09.10

Tenho andado muito ocupada pelo que nos últimos tempos apenas apanho as notícias de raspão. No entanto, como são centradas em alvos específicos é fácil apanhar os motes em voga: Queiroz/Mourinho/Paulo Bento; Benfica/erros de arbitragem; FMI/execução orçamental/ aumento da despesa pública. Foquemo-nos nesta última porque as outras são romances com final datado.

Grandes títulos nos jornais, análises na televisão, informações alarmistas na rádio, levam-nos a pensar que isto vai cair tudo nas mãos tenebrosas do FMI, que o país está numa vertiginosa derrapagem e que a oposição, leia-se o PSD, não quer eleições e até gostava de segurar o Governo mas assim não há condições. Alarmada, resolvo perder um pouco de tempo para tentar perceber o que tinha acontecido entretanto desde a última vez em que eu me considerava mais ou menos informada. Tentei perceber porque de repente toda a gente falava do FMI e da sua inevitável intervenção em Portugal. Tentei ainda averiguar que especialistas proclamavam essa análise. Busquei saber que números tinham surgido para sustentar tais pontos de vista. Procurei essa informação, mas com alguma dificuldade porque a comunicação social está inundada de análises, mas os factos são escassos.

Conclusões que retirei em síntese:

- Os especialistas que têm sustentado na comunicação social, com mais alarmismo,  a tese da intervenção eminente do FMI são Medina Carreira, Eduardo Catroga, Ernâni Lopes, António de Sousa e Miguel Beleza;

- O défice do subsector Estado aumentou entre Janeiro e Agosto de 2010 em 445 milhões, face a igual período de 2009, sendo que este aumento está abaixo do previsto no OE 2010, com a revisão decorrente do PECII;

- A receita aumentou naquele período 1,8 %, correspondentes a 22,72 milhões de euros;

- A segurança social registou em Agosto um excedente de 661 milhões de euros, mais 32 milhões do que em 2009;

- O FMI questionado sobre uma eventual intervenção em Portugal garantiu que não está a preparar qualquer intervenção no nosso país e elogia o esforço do Governo no controlo do défice e avança que acredita que será feito o necessário para garantir a redução do défice para menos de 3% do PIB em 2013.


Face a tudo isto questiono-me: a quem interessa a instabilidade gerada? É que essa sim é verdadeiramente grave porque em nada ajuda o grande problema que o país enfrenta actualmente: a especulação sobre a dívida portuguesa, que leva a que a taxa de juro cobrada pelos investidores estrangeiros tenha subido perigosamente situando-se agora em 6,390%, quando em Agosto tinha descido para 5,011%.

 

Com tudo isto continuo intranquila. Não porque a despesa pública esteja descontrolada como nos querem convencer, nem tão pouco pela anunciada intervenção do FMI, mas sim porque os partidos que não ganharam as eleições, (sim, porque se a memória não me falha tivemos eleições muito recentemente) fazem uma oposição pouco responsável, em alguns casos notoriamente alarmista e teatral, falo concretamente do PSD, não do partido como um todo mas directamente de Passos Coelho e assessores, quando o país precisa, e muito, do grande valor do novo seleccionador nacional de futebol: tranquilidade.

Au Bonheur des Dames 242

d'oliveira, 21.09.10

“Notícias do bloqueio”*

Um leitor amável (também os há, que isto não é só leitorinhas gentis) pergunta-me a que se deve a minha muito menor presença nestas áreas rarefeitas do éter virtual. "Preguiça?", ousa arriscar. Ou, mais simpático, “cansaço?”.

Vá lá que não evoca a possibilidade de conflito dentro do blog, que os há noutros colegas, como aliás, se sabe. Diga-se em boa verdade que com os camaradas desta barca tenho conflitos e muitos. Com JCP há a minha permanente inveja: ele come como dois mcr, não falha um bom festival gastronómico, fuma "cohibas" gigantescos, dos enrolados à mão sobre as coxas generosas de mulatas cubanas (que são, depois das mulatas francesas e das coleguinhas brasileiras, as mais belas mulheres do mundo, ou, pelo menos, essa é a opinião autorizadíssima de Jorge Amado – cfr. "Os velhos marinheiros".)  E é portista, ou seja, está em estado de graça com a ininterrupta série de vitórias no futebol.

Com o meu olhar e respectivo consorte há o problema velho, velhíssimo, de eles se aboletarem no Douro, numa casa e quinta soberbas, com vistas para o rio, mordomias várias que incluem uma cerejeira e um canteiro generoso cheio de ervas aromáticas para não falar de outras igualmente perfumadas mas de menor valia culinária. Como se isso não lhes bastasse, a casa deles, aqui na cidade, tem um quintal imenso onde se pode até assar sardinhas sem perigo de cheiros incómodos.

Do fugido Coutinho Ribeiro é conhecida a minha permanente animosidade pelo facto dele ter uma coorte (e uma corte) de leitoras que fariam empalidecer Casanova e D Juan juntos e com (vejam lá!...) a contribuição multinacional do Cristiano Ronaldo de quem há pouco vi a fotografia de uma “amiga intima” russa e de mau génio.

Poderia continuar pelos restantes membros da banda, uma certa poetisa brasileira que, coitada, tem de viver no Rio de Janeiro junto à lagoa “não sei quantos de Freitas” ou a uma ex ex-Kamikaze que se aboleta numa choupana de vidro nos Algarves e pratica actualmente de livreira.

Em suma, e como se vê, eu supuro inveja por todos os poros, jogo esforçadamente no euromilhões para viver melhor que os colegas, ir a banquetes pantagruélicos, ter um harém, enfim ter sol na eira e chuva no nabal. Baldado intento, tanto mais que os anos vão pesando. É que eu sou, aqui, “o mais velho”, título que na  Europa decadente dos Sarkozys e Sócrates não vale sequer uma caganita de coelho. Se, ao menos, estivesse em África, numa África da minha longínqua juventude, toda em azul e coqueiros, carregada de cheiros intensos e de estouvada ingenuidade, talvez me sentisse menos amargo, menos inútil, mais conformado com a idade que lá não é estorvo e que é respeitada. E com a ideia de, num futuro próximo, passar à condição de antepassado, o mesmo é dizer de intermediário entre os vivos e os mistérios da criação do mundo e o Além.

Todavia, leitor curioso, nada disto explica individualmente esta pequena gazeta à escrita diária. Não que não seja preguiçoso, sou-o, e bastante, graças a Deus e à santa madre Igreja que transformou esta alta qualidade em pecado mortal. E eu adoro pecar...Não que por vezes não me fatigue esta permanente bulimia escrivã, pois que, de quando em quando, o motor encrava, há ratés, a frase não sai, ou sai manca, obtusa, descorada como o prepúcio do infante otomano que, numa imortal novela de Durrel ( o Lawrence, claro), era motivo para um convite dos extremosos pais, embaixadores da Sublime Porta para os colegas diplomatas assistirem “à  jucunda circuncisão” do abencerragem.

De facto, a verdade verdadeira destas sincopadas ausências prende-se com um velha vício: escrevo, cada vez mais, coisas compridas, compridíssimas que não cabem num blog que já adorna por todos os lados com os meus textos-fleuve como diz(ia) o meu leitor José (Olá J. como vai essa bizarria? Dê notícias, homem de Deus, nem que seja para dizer que os meus solilóquios estão piores que uma colher de óleo de rícino...).

Juro que todos os dias me sento a esta mesa (ou seja, aqui na esplanada, a ver as raras “virgens que passam ao sol poente”  (Ah queridos mestres Cesário e O’Neil, saravah!) e dar ao dedinho matraqueador. Começo de mansinho, truca, retruca, capilé, andarilho, e de repente já lá vão páginas e páginas que só a um penitente de muitos crimes feios se poderá dar a ler.

Vou mesmo abrir um estaminé bloguístico aqui ao lado para amortalhar essas indigestões escriturais, esses excessos, porque, valha a verdade, também me irrita escrever para a gaveta, no caso em apreço, o gavetão.

Portanto, e para abreviar (boa piada, esta...) estou em permanente estado de vício solitário e escrevente. Só que, como se sugere, a coisa tem, pelo menos e para já, carácter secreto e clandestino. É até por isso que os nossos sapientes e prudentes educadores acharam que “o vício solitário tem consequências terríveis para a saúde, podendo mesmo produzir surdez, epilepsia e cansaço", muito cansaço. E olheiras...

*0 título da crónica é roubado a Egito Gonçalves poeta de qualidade que  fez o favor de ser meu amigo. Vale a pena redescobrir este autor nem que seja pesquisando pelos alfarrabistas.

Desespero

JSC, 17.09.10

D. Sebastião ventríloquo

 

Ilustrando o pântano de interesses em que, durante o seu mandato na Federação, se tornou o dirigismo futebolístico nacional, Gilberto Madail meteu a corda ao pescoço e os pés a caminho e foi a Madrid acocorar-se ante D. Sebastião, tentando, a bem da Nação, convencê-lo de que "é a hora!" e a manhã de nevoeiro chegou (ou, rigorosamente, chegará no próximo 8 de Outubro, data em que a "selecção de todos nós" e do empresário Jorge Mendes joga com a Dinamarca). A ideia é a de que o Desejado passe o "dar o nome" como treinador da selecção, orientando-a por correspondência ("à distância", explica o "Mais Futebol"), encarregando-se a Federação de arranjar uma barriga de aluguer local que dê a cara por ele nos treinos e no banco. A coisa funcionaria assim: o salvador da Pátria ventríloquo falaria em Madrid, nas pausas dos treinos do Real e, em Lisboa, o boneco mexeria os lábios e faria ouvir a sua voz e a sua vontade. Não faltam por aí bonecos, no futebol e no resto. Custa a crer é que Paulo Bento ou Manuel José, os nomes mais vezes referidos como estando nos planos da Federação, aceitem um tal papel

 

Manuel António Pina, JN

 

Ouvi as declações de Mourinho em que fala do convite "emocional" de Madail e da dificuldade em dizer "não" ainda que vá adiantando "acho que não vou", deixando para o Real Madrid a decisão final, que julga ser negativa.

 

Não apreciei aquela atitude de salvador da pátria do futebol "a custo zero", diz que até "paga a gasolina do carro" para se deslocar ao Porto. Mourinho perdeu uma boa oportunidade de ajudar a varrer com a porcaria de que falava Carlos Queiroz.   

É destas notícias que eu gosto

O meu olhar, 16.09.10

 


De acordo com a notícia do DN a secundária Alves Martins, em Viseu, conseguiu que 27 alunos entrassem em Medicina, o curso superior com a média mais alta no País. Um feito do qual poucas escolas do País se podem orgulhar. Na escola, considerada com tradição e referência em Viseu, houve ainda 15 alunos a ingressar em Arquitectura, "outro curso com médias de acesso elevadas". Mas na secundária houve ainda outros oito alunos com médias suficientemente altas para entrarem em Medicina, mas que optaram por Medicina Dentária, Medicina Veterinária e Nuclear.

o director Adelino Pinto, para quem este "sucesso mostra que é sinónimo e resultado de bons alunos, bons professores e boas práticas". O director lembra que, "apesar de estar no interior do País, a exigência é sinónimo de qualidade" e acrescenta que "a escola tem adequado o seu grau de ensino às exigências do Ministério da Educação e da sociedade". Mas salienta que a escola "tenta ir ao encontro do que se exige, e adaptamos os nossos métodos em busca de melhores resultados".

Marta Costa, que ensina português, aponta a "postura exigente e rigorosa" da secundária onde "todos trabalham para o mesmo objectivo". E salienta "uma cultura organizacional apurada que permite ter um objectivo e atingir estes resultados".

Também os alunos apontam a "exigência" como causa para estes resultados, diz Bernardo Santos. "Não andam atrás de nós, mas exigem sem nos castrar", conclui este aluno de 16 anos.Já Carlos Esteves, finalista, garante que na escola "os professores estão sempre disponíveis, mesmo fora dos horários e motivam-nos a ser mais exigentes connosco, remata". Por outro lado, "o ambiente é descontraído, há muitas actividades e os alunos funcionam como um grupo, unido, o que nos impele a querer fazer melhor", assevera Joana Lemos, de 15 anos.

 

 

Esta notícia do DN reforça a ideia que em todas os sectores há quem se esforce, quem procure dar o seu melhor, se envolva e se empenhe para atingir objectivos elevados e outros, com as mesmíssimas condições, optam por se queixarem, deitarem culpas a terceiros pelos maus resultados e deitam-se confortavelmente nas suas desculpas. É assim no ensino, é assim nas empresas, é assim em todas as áreas. Mais do que nas condições, é nas pessoas que está, de facto, a diferença.

leitor (im)penitente 62

d'oliveira, 14.09.10

De autores, de livros e outras pergrinações

 

Às vezes, ocorrem pequenas alegrias. Por exemplo: ler a longa e interessante entrevista que José Mattoso deu à “Ler”, revista do “Círculo de Leitores”. Simplicidade, desenfado, inteligência e modéstia, nas boas e devidas proporções, tudo servido numa linguagem simples mas rigorosa, com uma pitada de humor e outro tanto de ironia.

Mattoso, professor emérito, continua a produzir, a intervir, como se a “reforma” fosse apenas um pretexto para se dedicar ao mesmo prazer de sempre, à mesma paixão, só que agora livre de horários e burocracias. Acaba de sair o 1º volume de “Património Português no Mundo”  (anunciam-se os dois seguintes para muito breve) e já está a rodar uma “História da vida privada” com a chancela do Círculo. No meio saiu uma nova (?) versão de “Portugal o sabor da terra”

Eu, que sou seu leitor de há muito (e amigo de já há um par de anos) sempre me surpreendo nos raros mas felizes encontros que mantemos a propósito de um almocinho de sardinhas, raia ou um honrado ciclóstomo (que a Zé e ele acompanham a champagne!...) com a sua inesgotável curiosidade sobre mil e uma coisas.  Ora aqui está aquilo a que se pode ainda chamar um intelectual a tempo inteiro e pronto a ler.

 

Durante um par de dias andei por Lisboa, de alfarrabista em alfarrabista. Num, encontrei por € 2 o primeiro tomo dos “Trabalhos do primeiro congresso nacional de antropologia colonial”, realizado por ocasião da Exposição Colonial do Porto em 1934. Por tão baixo preço arrisquei a compra apesar de me parecer duvidoso encontrar o segundo e último volume. Pois não! No sábado, na tradicional e excelente feira dos alfarrabistas (na Rª Anchieta), lá estava à minha espera o voluminho segundo mesmo se ligeiramente mais caro.

Durante esses dias, descobri na rua do Alecrim, para minha grande surpresa, as “Memórias de d’Artagnan” em edição portuguesa dos anos quarenta, três volumes pelo voluptuoso preço de € 6. Fizeram-me um desconto e só paguei € 5!!! Como se sabe, o verdadeiro D’Artagnan morreu em Maastricht, feito marechal de França depois de uma longa vida de militar. Serviu dedicadamente o Rei e o Cardeal Richelieu, mesmo se Dumas, o magnífico, o tenha posto no campo contrário. E a propósito de Dumas, lá me chegou de França um “Dictionnaire Dumas” que ando a ler com um prazer multiplicado. É que, ao mesmo tempo, veio das mesmas paragens, um outro dicionário desta feita de Jules Verne, outro autor que encheu de felicidade a juventude.

E sempre nesta estação francesa, eis que a sumptuosa Dianne de Selliers (editora refinada e cara) publica na “petite collection” o “Rome, Naples et Florence” de Stendahl (outra paixão absoluta) ilustrado com uma gigantesca panóplia de reproduções da pintura romântica. Vi o livro na versão “grande” (enorme, aliás) e fiquei com os dentes como ossos. Agora que aparece a versão mais andadeira (mesmo assim de belo tamanho 26x19, 300 pp 150 ill.) a €50, vou arriscar. Sempre é mais barato e muito melhor apresentada do que uma proposta estarrecedora que o “Público” faz: a “Guerra e Paz” de Tolstoi em dez tomos por quase €90!!! Traz umas gravuras de Pomar mas quand même...

Há um mês ou dois, descobri num catálogo de um alfarrabista um par de dicionários de vernáculos africanos (makua, cinyanja e provavelmente ronga). Fui por eles num alvoroço. Nada. Tinham ido e há já muito tempo. Fiquei descoroçoado. Mas Deus, ou pelo menos o pequeno deus dos leitores ávidos, não dorme. Afinal os mesmos dicionários que eu pensava esgotados jaziam numa estante de uma livraria por preços idênticos ou menores aos do catálogo.*

Finalmente, o desgosto. Na excelente e amável Barateira encontrei uma quinzena de exemplares da “flora moçambicana”. São separatas que a livraria vendia entre €0,25 e 0,75. Barata feira! Minutos depois, num outro alfarrabista, os preços começavam nos €2,50...

P.S.: ia eu encomendar um dicionário de makua*  e eis que antes do telefonema fatídico o encontro no catálogo da “Bizantina” a preço ainda mais mimoso. Ele há dias de sorte....

Na gravura: ilustração constante do Rome Naples et Florence