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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

A lição de Felipe González

José Carlos Pereira, 08.01.13

Quando tantas vezes se discute por cá a relação entre eleitos e eleitores e a forma como o cidadão comum avalia o desempenho dos agentes políticos, a entrevista que Felipe González deu ao "Expresso" serve para nos reencontrarmos com um grande líder e para colhermos uma grande lição.

Questionado sobre como recebeu as recentes homenagens do seu partido - o PSOE - pela passagem do 30º aniversário da tomada de posse do primeiro governo que liderou, González diz o seguinte:

"...Creio que os políticos não devem esperar gratidão. Se trabalharam bem, podem esperar reconhecimento. Gratidão devemo-la nós, que pedimos o voto, aos cidadãos, que nos confiam a sua "soberania pessoal" para melhorarmos a realidade".

Tão simples, tão claro, mas quase sempre arredio do pensamento de quem exerce funções públicas...

Para quem tem medo

O meu olhar, 08.01.13

Um texto de Fernando Teixeira Carvalho:

 

“(…)Para quem tem medo, e a nada se atreve, tudo é ousado e perigoso. É o medo que esteriliza nossos abraços e cancela nossos afetos; que proíbe nossos beijos e nos coloca sempre do lado de cá do muro. Esse medo que se enraíza no coração do homem impede-o de ver o mundo que se descortina para além do muro, como se o novo fosse sempre uma cilada, e o desconhecido tivesse sempre uma armadilha. 
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Estudos pouco académicos

José Carlos Pereira, 07.01.13

Algumas autarquias socialistas do Tâmega reagiram, pela voz de José Luís Carneiro, presidente da Câmara de Baião e da Federação Distrital do Porto do PS, face aos resultados de um estudo da Universidade da Beira Interior que colocava vários municípios da região entre os que apresentavam piores resultados no Indicador Concelhio de Desenvolvimento Económico e Social de Portugal. Segundo aquele autarca socialista, tal estudo baseou-se em dados desactualizados e também em dados sem confirmação, exemplificando mesmo com o caso do seu município em vertentes como as unidades turísticas existentes e os investimentos realizados na área ambiental.

O estudo da Universidade da Beira Interior veio a público na semana passada e colocava nove concelhos do Tâmega e Sousa entre os trinta piores classificados. Segundo José Luís Carneiro, as autarquias de Baião, Amarante e Lousada admitem mesmo avançar para outras instâncias caso a Universidade não se retrate publicamente.

Lamenta-se, de facto, que estes estudos académicos, que depois saltam naturalmente do âmbito universitário para as páginas dos jornais, com as consequentes ilacções públicas, não se rodeiem dos cuidados essenciais para que a realidade escrutinada não seja posta em causa. Os pressupostos de um estudo desta natureza devem graduar o impacto causado pela dimensão, características e localização dos diferentes municípios, como é evidente.

Ao verificar que Marvão e Constância são os 6º e 7º melhor classificados no índice e que Vimioso vem logo a seguir ao top ten, no 11º lugar, fica-se com a convicção de que os factores de ponderação usados para a construção deste índice deixam muito a desejar. Mas o que interessa é ocupar umas páginas de jornais...

estes dias que passam 282

d'oliveira, 03.01.13

Nada de novo na frente ocidental

 

 

 

Descansem os leitores: este título não é meu. Pedi-o emprestado a Erich Maria Remarque, notabilíssimo escritor alemão e honrado opositor do nazismo. ERM escreveu-o em fins da primeira grande guerra e o livro tornou-se um dos grandes manifestos do pacifismo contemporâneo.

 

Todavia a frente a que modestamente me refiro é esta, a nossa, a da Laura e do Pedro e restante gentinha que deve pensar que a democracia é dizer duas patetices no facebook.

 

Pateta e patético e estou a ser generoso. 

 

O cavalheiro que supostamente faz de Primeiro Ministro ainda não percebeu que a democracia não andar por aí a fingir-se povo e "pipolar". O povo, benza-o Deus, não quer uma criatura igual a ele mas alguém que mande com bom senso, que invente com alegria, que diga o que tem a dizer com dignidade. Alguém com bom gosto, virtude que manifestamente falta ao senhor Passos Coelho. E a mais um par de políticos começando pelo senhor Seguro e continuando pelos restantes chefes partidários que são farinha do mesmo saco. Talvez menos patéticos mas igualmente desprovidos de visão, de sentido de Estado, de desejo de servir e de compreensão pelo que todos nós, paisanos, passamos.

 

Quando, por distracção e infelicidade, caio no canal do parlamento, penso em Eça de Queiroz e na sua farpa sobre o tema. Hoje a coisa é menos sarrafeira mas infinitamente mais ordinária. Envergonha-me ver as tristes figuras daquela gente a quem num momento de desvario culposo entregámos a nossa representação. "Aparent rari nantes in gurgite vasto…"

 

O ano que começa, começou, aliás, não augura nada de bom. À uma, a senhora Merkel para quem paradoxalmente uma boa maioria dos portugueses se vira, ora numa acusação, ora numa queixa mas sempre com um pedido, ainda está longe e ir a votos. Longe, mas sem cuidados. Ao que vou vendo e lendo, está segura de uma vitória confortável e nem o facto do Partido Liberal poder ir para as catacumbas parece incomodá-la.

 

Anda por aí uma rapaziada que, tomando os seus desejos por realidades, aventa a hipótese de um governo de grande coligação na Alemanha coisa em que nem os social-democratas mais optimistas parecem acreditar. Portanto, quanto a uma mudança significativa e salvadora da Alemanha nem novas nem mandados.

 

Depois, tirando o arruído do costume, as coisas por cá estão na mesma, isto é pior. Mesmo com o envio do Orçamento para o Constitucional. Por junto, o Presidente tirou o tapete à Oposição que jurava fazer o mesmo enquanto absurdamente cominava Cavaco a fazê-lo ele próprio. Foi vê-los, ontem, a palavrear sobre o gesto presidencial. Embaçados, apáticos, queixo caído. De interesse só as reacções do partido de Coelho & similares. Era vê-los a rabiar sem poderem atacar de frente o Presidente, tentando uma pega de cernelha para a qual lhes faltava coragem. 

 

E o povo, "o bom povo português" no meio disto tudo? Pois o povo, ou o povo que a televisão e os jornais mostravam, divertia-se a ver o fogo de artifício (perdão: em Ponta Delgada a tv mostrou um baile de gala ou, pelo menos, aquilo que, naquelas risonhas paragens, passa por o ser: senhoras de vestido comprido -ou muito curto!- e cavalheiros a rigor. Parecia que tínhamos regressado aos anos 50 do século passado, os tais anos que o dr Soares agora descreve como risonhos face à nossa pífia realidade) e a dizer o de sempre, votos de muita felicidade, saúde, alegria, um dia não são dias, enfim a lenga-lenga do costume a originalidade possível de quem não é dado a originalidades. 

 

E a política alternativa? Bom, essa está de férias de Natal ou então entrou antecipadamente no período quaresmal. Depois de não terem dito nada durante um inteiro dia de congresso, eis que começam as baixas mesmo entre os fundadores da iniciativa. Como se previa, e no prazo que se esperava. Pouco a pouco vai-se vendo quem fica e quem fica é obviamente o grupo político e os escassos "compagnons de route" que arregimentou. 

 

E lá fora? Pois lá fora, nas Franças e Araganças, aconteceu o que tinha de acontecer. Expatriaram-se alguns ricos que acharam que pagar 75% de impostos sobre os rendimentos acima do milhão de euros era um confisco. O que me espanta, para além, do pouco alcance da medida (quinhentos a mil milhões de euros) é a indignação que varreu umas quantas criaturas que apontaram a dedo Gerard Depardieu. E, sobretudo, ninguém ter previsto que uma medida daquelas não passaria no Conselho Constitucional. O senhor Hollande perdeu uma bela ocasião e o chumbo da sua medida fracturante não melhorou o seu escasso índice de popularidade. Ah "les lendemains qui dechantent…" 

 

Em Itália,o patusco Berlusconi deita abaixo o governo Monti (por quem tantas lusitanas figuras suspiram) e vê censurado o seu gesto. Vá lá que, menos mal, está noivo de uma rapariga "boa de ver e melhor de apalpar" cinquenta anos mais nova mas apaixonadíssima por ele, está bem de ver! E à espera, eventualmente de um divórcio tão interessante como o da ex Berlusconi que doravante irá receber 100.000 euros dia. 

 

Entretanto, com a direita dividida e eleições à porta, a esquerda italiana corre o risco de ganhar. Esperemos que seja mais imaginativa do que a nossa, porque, por cá as receitas ou não existem (e não) ou prometem-nos uma albanização traduzida em calão. O que, como futuro, não parece risonho a menos que ainda por aí subsistam alguns fieis do suicidado regime soviético para os quais o universo fechado e concentracionário continha uma promessa que, durante setenta anos, se traduziu num quase igual número de presos de consciência. Claro que ainda temos ao nosso alcance as gloriosas vias chinesa, cubana ou norte coreana. É o que se chama escolha democrática.

 

E, a propósito de democracia, relembremos com a devida vénia "a mais populosa democracia do mundo. Ou seja a União Indiana, onde apesar das castas e do seu mais que iníquo regime, das querelas inter-religiosas, há também, o que é um must, o hábito de violar mulheres indefesas (uma a cada dois minutos) de preferência em grupo. Chamar a isto democracia sabe a escárnio de mau gosto. 

 

Esta não é uma crónica para princípios de ano mas que querem? É sobre o ar do tempo. E é o que o ar do tempo permite (ou impõe).

*na gravura: máscara kanaga (etnia Dogon, Mali)

 

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