Operação lavagem
Cavaco Silva condecorou Durão Barroso. Cavaco Silva esgotou a palete de adjetivos para enaltecer a figura do condecorado. Este mostrou-se emocionado e aproveitou a ocasião para mostrar ao povo português como correta “a decisão tomada em 2004 para ir para a presidência da Comissão Europeia”. Ao dizer isto, Durão Barroso quer ajudar a tirar a pedra no sapato, que ele sabe que os portugueses têm relativamente à sua pessoa. Deve ter azar, a pedra vai aumentar e tornar-se mais incómoda.
Acresce que a decisão que tomou nessa altura não foi essa. A primeira decisão que tomou foi a de abandonar o Governo português, de largar o lugar de primeiro ministro e de, como diria mais tarde o seu amigo Passos Coelho, deixar a zona de conforto e saltar para cima, para a presidência da Comissão Europeia.
No tempo em girou como primeiro ministro, Durão Barroso teorizou sobre o “país que está de tanga”. Depois, aceitou aquele papel de mordomo nos Açores, de andar a vender a ideia, sustentada em fotos e desenhos, de que o Iraque tinha laboratórios, camiões que saíam de subterrâneos no deserto, onde se produziam armas terríveis para a humanidade.
O resultado é conhecido. Invasão do Iraque. Os laboratórios e as tais armar nunca apareceram. A invasão do Iraque e todo o desenvolvimento posterior foi, em boa verdade, o ventre que engrossou a alquaeda e gerou os facínoras do chamado Estado Islâmico.
Se outras razões não existissem, estas bastariam para que Durão Barroso não merecesse ser condecorado. Mas não é bem de uma condecoração que se trata. O que o Presidente pretende é reabilitar, internamente, a figura de Durão Barroso, de modo a que este se apresente, em tempo oportuno, como sucessor de quem tão mal tem representado o papel de Presidente da República.
O povo não é estúpido. O povo verá sempre Durão Barroso como um fugitivo, que foi tratar da vidinha que não conseguia num “país de tanga” e, sobretudo, seguir o comando de quem o guindou a tais voos. O povo olha para Cavaco Silva e também já não vê nele o Presidente da República, antes o homem incapaz de decidir contra os seus correligionários, alguém que, no período áureo do cavaquismo, esteve rodeado de gente pouco recomendável, de quem nunca se distanciou, bem pelo contrário.
A partir de agora, vai arrancar, em grande velocidade, a operação lavagem da imagem do candidato Durão Barroso. Entrevistas, fóruns, antenas abertas e outras acções de campanha serão usadas nessa operação. O Presidente da República abriu a operação em grande estilo. Nem faltou a foto de família.
