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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

06
Fev18

Au bonheur des dames 4445

d'oliveira

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Segundo texto para Maria Assis sobre os tempos que correm

Dois Secretários de Estado que gostam de ler.

 

Faço parte dessa ínfima minoria de criaturas que tem o hábito de ler. O solitário vício de ler. Livros, revistas, jornais, literatura inclusa e indigesta das embalagens dos medicamentos, folhetos, grafittis, seja o que for. Com uma única excepção: nunca (NUNCA) li a chamada imprensa cor de rosa. Defeito meu, certamente ou então será porque não consigo ter qualquer espécie de curiosidade pelas vidas do jet set ou dos que gostam de o ser. Melhor dizendo, leio as letras gordas das capas que se metem pelos olhos dentro de quem vai por um jornal ou uma revista no quiosque.

Assim sendo, só louvo a propensão leitora de dois políticos socialistas que, durante os seus mandatos governamentais, alimentavam a cabecinha pensadora lendo imprensa vária (num dos casos) e livros não especificados no outro. Desconheço se, nesses tempos de glória, eram, no Governo, os únicos a parar para ler ou se mais alguém da mesma banda os acompanhava nesse dever de saber como ia o mundo. Todavia, o MP vem agora acusar as duas criaturas de terem comprado tais publicações com um cartão de crédito atribuído a governantes. Mais tais publicações (que num dos casos, o mais grave, ascende a mais de 13.000 euros e tinha por alvo, revistas, romances e livros técnicos) não foram encontradas uma vez terminado os mandatos dos cavalheiros em questão. No caso menos importante, José Magalhães, a quantia em causa –pouco mais de 400 euros – refere apenas revistas. Para o tempo de mandato convenhamos que foi pouco. Provavelmente sabia tudo e só comprava, de longe em longe, informação de que necessitava. Ou então era apenas um fraco leitor.

No segundo caso, Conde Rodrigues parece ser um leitor omnívoro. Em cinco anos gastou mais de 2500 euros anualmente. É bem verdade que terá comprado “livros técnicos” (os livreiros, quando se lhes pede, passam uma factura com este termo sem que isso seja necessariamente verdade) e romances para além das publicações periódicas. De nenhum destes produtos resta traço nos gabinetes ministeriais. E é aí que as coisas se complicam. Por muito leitor que se seja, o dinheiro com que se comparam os livrinhos ou é nosso ou de outrem. No caso em apreço, do Estado (obliquamente nosso, dos contribuintes ou seja de um terço das criaturas que habitam este torrãozinho de açúcar e que passam por ricas ou remediadas).

Não consigo (por grave defeito meu) lembrar-me do senhor Conde Rodrigues mas rendo-lhe um pequeno preito de homenagem: num país de semi-analfabetos dá sinais de curiosidade intelectual e literária mesmo se, eventualmente, os “romances” em causa sejam de amor ou (perversidade que gostosamente partilho com ele) eróticos. Quem nunca leu Sade, Crebillon fils, Laclos, Montesquieu ou Diderot não sabe o que perde. Nisto de romances cabe tudo desde a senhora Corin Tellado o senhor Marcel Proust. Tivesse ele tido o cuidado de deixar os livrinhos na biblioteca do Ministério e não seria este arrebatado leitor quem lhe atiraria a primeira pedra. Mesmo se o seu gosto literário não coincidisse com o meu. Mas não deixou!...

Alguém menos dado a perdoar extravagâncias literárias poderia pensar que Sª Ex.ª se abarbatou com 729 publicações (é esse o número que o MP revela. Ai quanto gostaria eu de saber os títulos, os autores, pelo menos os géneros, da livralhada comprada...) pertencentes ao Erário Público.

O senhor José Magalhães foi, como se disse, modestíssimo. Contas feitas, só em jornais, gasto três vezes mais por ano. Bem vistas as coisas só o “Público” chega e sobra para atingir a escassa verba de Magalhães. E é isso que me espanta. Então o raio da criatura lia assim tão pouco? Ou foi apenas distraído? 400 euros são de facto uma soma mais que exígua para o que se espera da curiosidade intelectual da personagem. Magalhães, desde os seus tempos de Vichinsky lusitano e censor moral ao serviço da bancada do PCP, dava a ideia ler um pouco mais do que o “Avante” ou aquela “verdade a que temos direito” e que se intitulava “O Diário”, publicação que se finou mansamente alguns anos depois do PREC.

Isto parece quase tão ridículo quanto a historieta de mendigar um bilhete para ver a bola no camarote do senhor Vieira. É mais uma burrice, uma esperteza saloia, do que um crime.

Joaquim Namorado, um excelente amigo, tinha um projecto de Código Civil que continha apenas um artigo e um parágrafo único que passo a citar

Artº I É proibido ser estúpido

  • º único Fica revogada toda a legislação em contrário

Vê-se que Magalhães, apesar de ideologicamente próximo de Namorado não leu ou se o leu não percebeu. Que desperdício!

Voltando, contudo, à vaca fria: que diabo de revistas compraria a criatura? Teria alguma graça se fosse a tradução brasileira da “Playboy”, ou a relançada e francesa “Lui”. Todavia não o creio: O apostrofante Magalhães dos heroicos tempos do PREC não cabe na pele de um leitor de Hugh Heffner, eterno woomanizer de pijama de seda que vagueava pela “mansão” rodeado de coelhinhas pouco dadas aos extremos do #metoo.

Seria alguma revista de automóveis dessas com muito brilho e retratos de modelos que nunca estarão ao meu alcance ou, sequer, dos meus leitores?

Poderia, dado que já passaram anos, ainda ser a espanhola “Interviu”, iniciadora do “destape”, logo “progressista” em terras vizinhas e actualmente apenas uma saudade nocada vez mais rarefeito panorama das revistas europeias. Ou o “Nouvel Observateur” (agora só “obs” ou “nouvel obs” ou qualquer outa burrice a la mode e do mesmo desnatado género e teor. Oh que de labirintos intelectuais, de caminhos que se bifurcam incessantemente mas que acabam todos no mainstream das paradas águas de um vago socialismo à portuguesa, agora apimentado pelo fantasma recorrente do sr. José Sócrates e da geringonça.

Ai Portugal se ao menos fosses só sul sol e sal...

* na ilustração uma (exageradamente) famosa revista dos tempos áureos do “verdadeiro” socialismo tal qual se entendi nas franças e araganças de outros, apesar de tudo, saudosos tempos...

05
Fev18

Uma pérola

O meu olhar

2077 10 segundos para o futuro

 

Um documentário de uma qualidade verdadeiramente incrível e imperdível. Ajuda-nos a refletir sobre nós enquanto individuos e enquanto comunidade no seu enquadramento passado, presente e futuro.

Uma pérola! Uma produção portuguesa, da RTP. Parabéns a toda a equipa que a produziu.

02
Fev18

Au bonheur des dames 444

d'oliveira

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tempos confusos, práticas estranhas

(para Maria Assis, uma testemunha de outro tempo de batalhas duvidosas a que não se fugia)

 

O senho Centeno é uma criatura singular. Apareceu nas vésperas da última eleição legislativa com uma proposta económico-financeira que o PS, sempre preguiçoso e pouco imaginativo, aceitou de braços abertos. Depois, mesmo depois desta perdida, o PS governou. Com Centeno ao leme das Finanças. Quando se esperava que aquele programa fosse aplicado, saiu outro completamente diferente. Com isso Centeno, evadido do limbo do Banco de Portugal, ganhou a simpatia de Herr Schauble que o crismou de Ronaldo. Schauble mesmo alemão e de cadeira de rodas gosta de ironizar...

A recuperação geral na Europa e na UE, o silêncio das ruas portuguesas sem marchas, sem indignados sem manifs, o turismo fugido de um Mediterrâneo perigoso, e o comportamento das exportações fizeram o resto. Foi aquilo e não especialmente Centeno que mudou, episódica e levemente, a pátria imortal dos nossos egrégios avós. O resto, a dívida pública – e a privada, ai a privada!...-, o novo “consumo” interno desenfreado (até o BP o quer limitar) pintaram a cara de um país que ficou negro no Verão.

Centeno marchou para o seu lugar europeu e pelos vistos gosta de estar na mesa dos adultos. Ainda bem, mesmo se lá, como cá, pouco ou nada poderá influir na Europa que se redesenha.

Entretanto, uma palermice ia entornando o caldo. Centeno, arguindo de uma qualquer ideia de segurança pediu, solicitou, implorou um lugarzinho no “camarote presidencial”. Tais lugares não têm preço (ou tendo-o esse é de tal modo elevado que o melhor é não comentar) e o desejo de Sª Ex.ª foi prontamente atendido. Ele e o abencerragem sentaram-se naquele olimpo de papelão e ouropel e provavelmente tiraram uma selfie comemorativa.

Caiu o Carmo e Trindade. Que o camarote tinha um custo a pagar agora ou nas calendas!

O ministro e os seus defensores aproveitaram a burrice da crítica para se defenderem. Os críticos, em vez de dizerem que um ministro não deve pedir este género de favores insignificantes pelo que isso tem de eticamente absurdo e tolo, vieram falar de corrupção. Que diabo, esta corrupção é tão visível que corre o risco de não passar de um tiro de pólvora seca.

Centeno ou foi ingénuo ou tonto. Ou ambas as coisas, ao mesmo tempo. Deveria saber, mesmo inexperiente politicamente, que o que pediu, segurança pessoal ou não como molho, é indefensável eticamente. Gosta de futebol? Basta vê-lo comodamente na televisão, se receia que um energúmeno na bancada lhe venha pedir contas. Os ministros são, ou deveriam ser como a mulher de César mesmo se a Centeno falte cultura clássica.

O Sr. Primeiro Ministro defendeu o seu Ministro arguindo que aquilo, o bilhetinho de borla eram trocos miúdos. De acordo, tem toda a razão. Até aqui!

Mas perde toda a razão, toda, repito, quando afirma, pomposo e desafiante, que nunca o demitirá, suceda o que suceder, seja arguido ou não. Isto é um desafio esparvoado e perigoso à Justiça e um convite a todos quantos cá por baixo andamos, a mandar a Justiça às malvas para não dizer à merda. Demitir Centeno por conta de uma bagatela que releva da sua patetice seria uma tolice em cima de outra. Dizer que, em caso algum (em caso algum!) tomaria providências é um exercício de arrogância presunçosa que nem sequer defende bem Centeno.

Nota à margem: o PE teve uma conversa preliminar sobre esta caso, o que prova que os eurodeputados andam com falta de trabalho. Os deputados portugueses (todos mesmo os “conservadores”) opuseram-se a qualquer inquérito. Se foi por o assunto ser de lana caprina, muito bem. Se foi por solidariedade patriótica, muito mal. Tudo isto cheira a Carnaval mas não é o de Veneza, o de New Orleans nem o do Rio. É um desses pobretes mas alegretes, típicos da nossa província mais provinciana de onde espiritualmente surdiram Centeno e Costa.

 

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