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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Estes dias que passam 370

d'oliveira, 15.05.18

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Força, força, camarada Sócrates

Nós seremos a muralha de aço

 

mcr 15

 

Algum(a) leitor(a) mais idoso recordará um patético slogan do Verão violento de 75 em que as “massas populares” (melhor: um punhado de criaturas que pensava que o era) aclamavam incessantemente o Sr. coronel Vasco Gonçalves durante o que se pensou ser um prelúdio ao assalto ao Palácio de Inverno.

A algazarra foi orquestrada pelos minoritários adeptos de uma cubanização da política portuguesa que pareciam entrincheirados numa nova linha de Torres com o epicentro na margem sul. E juravam que eram fortes, que representavam o país, ou os trabalhadores (ou os trabalhadores “conscientes”), ou qualquer outra coisa.

Poucos meses bastaram para se ver que nem sempre “uma centelha incendeia toda a pradaria” e o pouco que ardia era fogo de palha.

A muralha de aço era de barro e os muitos milhares que presumivelmente a constituíam desapareceram sem deixar rasto notável pese embora a mitologia neo-sebastianista que, ainda hoje, suspira por aqueles dias incandescentes.

O país real (bom ou mau, mas real) veio ao de cima e vive pacatamente 363 dias por ano, As excepções são as efemérides do 25 de Abril e 1º de Maio em que, no meio de uma indiferença bastante generalizada, há em algumas cidades marchas de cidadãos que reivindicam (contra quem? Contra o quê?) a “herança de Abril” e manifestam uma e outra vez o seu horror à “longa noite fascista”. E, no primeiro caso, o parlamento é engalanado, há discursos comovedores mesmo se repetitivos de ano para ano, e uma parte significativa dos deputados estreia um cravo vermelho na lapela ou a espreitar pelo decote.

Nada tenho contra este quadro tanto mais que, como as pessoas, sou de opinião que as sociedades necessitam de rotinas estabelecidas. Não deixo, porém de sublinhar que as festividades tem menor ou maior “quadro humano” consoante o tempo é ou não estival. Em havendo sol q.b. e calor o povo deserta as festas e ruma às praias para aproveitar o feriado. Nada mais natural nem mais lógico. Nem mais humano.

 

Tudo isto me veio ao pensamento com a actual vaga de comentários acerbos sobre o sr. Pinho e o sr. José Sócrates. De repente, o partido que representaram no Governo, desatou numa jeremiada patética, num tilintar de cilícios, num discurso de desculpas e indignações que nos apontam cruelmente a proximidade d eleições.

Quem me lê, nunca aqui viu escrita qualquer condenação do ex-primeiro ministro socialista. Não que eu o considerasse inocente e limpo de toda a suspeita. Nada disso. Mesmo tendo votado, uma única e irrepetível vez, na criatura, só o fiz para esconjurar um outro fantasma chamado Santana Lopes. Que sucedia a um outro agoirento governante chamado Durão Barroso, escafedido a meio mandato para a Europa e para um posto que só lhe caiu em cima por os que mandavam terem achado que que ele, no leme, não estragava nenhum arranjinho a ninguém. E não estragou.

Todavia, uma vez desaparecido Santana do panorama, logo se começou a ver quem era o governante Sócrates. Autocrático, vaidoso, incapaz de permitir qualquer escrutínio à sua vida pública, aos seus diplomas (ai os diplomas, os exames ao domingo, o inglês técnico, a barafunda, a licenciatura que de repente deixou de o ser pelo não reconhecimento da Ordem dos Engenheiros), a vida acima das possibilidades, o despesismo em obras públicas de duvidosa utilidade e pesadíssimos encargos, a gestão danosa, a ideia de que para ultrapassar as contas públicas deficitárias se poderia continuamente recorrer a empréstimos, o alastramento descomedido das PPP, os sinais iminentes da crise que nos iria seguramente cair em cima, o inacreditável aumento da funçanata pública em vésperas de eleições, a tentativa de controlo dos media, os processos milagrosamente parados pela cumplicidade de certas instâncias ligadas à Justiça, tudo indiciava que no reino da Dinamarca lusitana havia algo de podre para não falar de esqueletos no armário. Mesmo quando, se demitiu forçado por um seu ministro das Finanças e derrotado sem apelo nem agravo na eleição seguinte, o sr. Sócrates não percebeu que se impunha, para salvação própria, um período de nojo, muito comedimento, cautela e caldos de galinha.

Nada disso sucedeu.

A criatura foi para Paris “estudar”. Com um empréstimo junto de uma instituição bancária que, à partida, o obriga a uma vida simples, frugal e serena. Nada disso ocorreu.

O homenzinho instalou-se no XVI bairro, o mais caro de Paris. Numa casa que, pelos vistos, agora se aluga a 1000 euros por noite, frequentando (segundo a imprensa da época) restaurantes caros (mesmo se os há bem mais caros em Paris) e uma prestigiada Escola.

De Paris, ao fim de um curto período, trouxe um livrinho parido segundo agora consta por uma mãe de aluguer, no caso um cavalheiro que é professor universitário numa faculdade portuguesa. A obrinha, modesta e inócua, foi alvo de uma campanha publicitária extraordinária e pareceu vender mais do que o finado Saramago. De repente, descobre-se que até isso, esses milhares de exemplares se compravam ao alqueire, ao quintal, à tonelada eram fruto de uma manipulação do mercado. E sempre por um pequeno grupo de criaturas que nem sequer disfarçavam o rasto. Tudo para satisfazer a ensandecida vaidade de alguém que alegadamente era o seu autor.

Durante o processo, descobriu-se que o famoso milagre da Rainha Santa tinha uma espantosa réplica nos nossos tempos. Um “amigo” (e que amigo!) financiara tudo desse as estravagâncias parisienses até à compra dos livros. E comprara bens da mãezinha de Sócrates. Casas e casinhas.

Não sei quem é esse benfeitor Santos Silva. De onde lhe vem o dinheiro. Quanto exactamente investiu nessa amizade à prova de bala, à prova de tudo.

Sócrates, entretanto, é preso à saída do aeroporto. Comoção geral! Condenação enérgica de amigos, companheiros e camaradas. E de muito povo, sempre ele. O dr. Soares visita-o na cadeia. Formam-se caravanas por todo o país socialista para o ir venerar a Évora. Cantam-se à porta da cadeia, cantigas revolucionarias ou quase. Senhoras choram comovidas. Sócrates amigo, o povo está contigo.

Os mais prudentes, de todo o modo uma minoria, refugiam-se no segredo de justiça e juram que são os procuradores e mais perseguidores que trazem cá para fora, gota a gota, pormenores cada vez mais escabrosos dos interrogatórios. E o mundo, aquele mundo, vai-se desmoronando: os processos contra outras pessoas –sempre bem colocadas – acumula-se. O escândalo cresce. O “deserto” à volta de Sócrates, “cresce”, se me permitem citar Nietzsche.

As boas almas indignam-se não tanto com os eventuais espantosos e inauditos crimes mas com o que escorre cá para fora em cascata. O cúmulo foi a longa reportagem da SIC (da SIC e não do “correio da manhã”). Os jornalistas da estação falam em interesse público. Vicente Jorge Silva e Jorge Wemans – dois jornalista que muito prezo – falam, pelo contrário em jornalismo de sargeta. Será? Melhor: sem esta reportagem saber-se-ia hoje alguma coisa desta sórdida história?

Dizem-me: esta reportagem colocou o julgamento de Sócrates na praça pública. É verdade em parte. Todavia, uma coisa é a discussão política e ética e moral deste caso a todos os títulos escabroso, outra será o julgamento em tribunal. Se entretanto ocorrer no nosso tempo. Não há quem aposte o começo em data próxima e, muito menos, quem duvide que tal processo durará anos e ano. Por mim, que provavelmente já cá não estarei, a coisa nunca terá fim antes de 2030. E estou a ser optimista.

Conviria, porém, analisar melhor esta cambalhota dos amigos de Sócrates. Ao contrário da outra muralha de aço (que ainda hoje recorda melancólica o fim da “revolução”) esta nova espécie de arrependidos defensores do “animal feroz” (Sócrates dixit) vem agora a terreiro manifestar indignação, fúria, desolação. Arece que foram enganados! Não viram, não ouviram, não souberam ler os sinais evidentes e estridentes do que homenzinho era. Há mesmo uma ex-namorada, jornalista de profissão que num inenarrável vómito auto-punitivo se despe em público e conta a desventura de uma vaga coabitação entre luxos estrafalários de que nunca desconfiou. O amor é cego! Ou parvo.

Com amigos destes, Sócrates não precisa de inimigos. Mesmo se, como se sabe, foi ele o seu principal inimigo e carrasco. Foi petulante, imprudente, impudente e, a l alongue, néscio até dizer chega. Estou a vê-lo a olhar para a populaça que o aclama(va) e a pensar quão tonta ela era. E, finalmente, a desprezá-la. Terá dito para os seus botões: “todo o burro come palha, a questão é saber dá-la.”

O seu consulado foi uma septénio de hipóteses perdidas, uma navegação à deriva, um exercício de despudor que, entretanto, ainda não foi posto em causa sequer pelos recentíssimos “arrependidos” e pela sofredora Madalena atraiçoada.

A ex-novel “muralha de aço nem sequer tem a dignidade da antecessora que, mesmo vencida, conseguiu debandar com certa ordem e recordar entre choro e ranger de dentes o ano ardente em que parecia poder conquistar o mundo.

E a procissão, podem estr certos, ainda só vai no adro. Como nas telenovelas os próximos capítulos hão de ser escaldantes.

(nota à margem: entre os indignados e ofendidos há gente que graças a um buraco na lei tem viajado de e para as Ilhas com dois subsídios que não se complementam mas antes se deviam anular.

* na gravira: Roque Gameiro "Naufrágio de Sepúlvreda"

O Porto

José Carlos Pereira, 14.05.18

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Com a devida vénia, transcrevo parte do texto que hoje escreve no "Expresso Curto" o director do jornal, Pedro Santos Guerreiro, que mostra compreender bem a simbiose entre o Porto cidade e o Porto clube:

 

"O FC Porto é o campeão desta época, Sérgio Conceição é o homem do ano, Pinto da Costa é a personalidade de uma era.
A era do presidente do clube não tinha afinal terminado, ao contrário do que se escreveu nos últimos quatro anos: se tivesse terminado, o Benfica era hoje penta e Pinto da Costa estaria a receber prémios-carreira. Quando recebeu este sábado a medalha de honra da cidade do Porto, "o Porto que eu amo", tinha a taça de campeão ao lado. Foi o momento mais bonito da noite nos Aliados, entre os cânticos na avenida e os foguetes no céu, "o céu mais azul". Os dois discursos da noite, ambos curtos e não lidos, de Rui Moreira e Pinto da Costa, foram sobretudo sobre o Porto. Não o clube, mas a cidade. Porque o clube faz maior a cidade que é maior do que o clube. "Tornar maior esta cidade" é o desejo inscrito no poema de Pedro Homem de Mello que Pinto da Costa citou. Não por acaso, o poema chama-se "Aleluia".
Benfiquistas, sportinguistas e outros istas desligam a televisão nestes momentos, porque a euforia dos vencedores contrasta com os seus insucessos. Na noite em que os atletas voltaram 19 anos depois à câmara de onde foram desalojados por Rui Rio, e em que nos Aliados se montou uma festa como não havia memória, o batimento cardíaco depende da cor do coração, mas a forma como uma cidade vive é nítida aos olhos de todas as cores. Não se trata de identificação de uma cidade com o seu maior clube, mas da identidade da própria cidade, que celebra como quem vive em família e faz de uma vitória no futebol uma festa da sua própria existência comunitária e cidadania. O Porto só se conhece por dentro e a sorte dos de fora é que a mesa tem sempre um lugar vago para quem queira entrar com autenticidade. "Porto - palavra exacta, nunca ilude", escreve Pedro Homem de Mello.

(…)Pinto da Costa é campeão. O Porto é campeão.

Diário político 225

d'oliveira, 08.05.18

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Um atestado de óbito tardio

d'Oliveira fecit, 8.5.18

 

A ETA (uma vez mais) anunciou a sua dissolução. E digo uma vez mais porque já por duas vezes em anos passados o anunciara sem que daí decorressem efeitos práticos ou, pelo menos, todos (e os principais) os efeitos práticos.

Agora, reduzida a um escombro vergonhoso e destroçado, a ETA proclama a extinção definitiva de algo que nada mais era do que um pobre mas perigoso bando de malfeitores sem alma nem causa vivendo de e pelo o terror cego que espalhava à sua volta. As polícias espanhola, autonómica (Ertzaintza) e francesa cercaram-na, prenderam os principais cabecilhas e, sobretudo, desvendaram a complicada máquina do terror. Aprisionando cada vez com maior facilidade os militantes (cada vez mais jovens, cada vez mais impreparados militar e politicamente) as polícias obtiveram moradas, nomes, pseudónimos, dados de toda a espécie que, uma vez trabalhados, desmontavam zonas inteiras da clandestinidade.

A cada novo preso, agora sem qualquer dificuldade, seguiam-se confissões pormenorizadas de operações, descrição de refúgios, de casa clandestinas, de cumplicidades de toda a ordem. A “kale borroka” (versão selvagem e infame da luta de ruas) foi o começo do fim de uma estratégia que semeava mortes quase indiscriminadas e um terror absoluto mesmo entre os nacionalistas mais ferrenhos. A ETA, através do “imposto revolucionário” já só tentava manter-se à tona, custear a enorme despesa de se manter fora do alcance dos radares policiais e políticos.

É bom relembrar para as alminhas mais suaves, amigáveis e ignorantes, que, apesar de nascida durante o “franquismo”, a ETA matou mais de noventa por cento dos seus alegados “inimigos” durante a democracia, precisamente quando os direitos civis eram já reconhecidos, as liberdades respeitadas e as polícias controladas. A Democracia é sempre frágil quando se fala de segurança pública.

A ETA, durante o franquismo e depois do espetacular atentado contra Carrero Blanco, manteve uma atitude discretíssima que a polícia do momento era desalmada. Foi contra o Estado Democráico que ela evidenciou todo o seu potwncial de atque. Estava segura que ,mesmo com os GAL e outros escassos e pouco duradouros grupos “anti-terroristas”, os famosos Direitos, Liberdades e Garantias lhe asseguravam uma extrema impunidade. Por outro lado, e a talho de foice, granjeara à sua volta um círculo virtuoso de admiradores babados que ainda viviam (e vivem) à sombra da lenda da “Espanha negra”. E eficaz. E matava, torturava, prendia, invadia casas e esconderijos dia e noite.

Nesse grupo de “cretinos úteis” avultavam os bispos bascos. A bispalhada do lugar além de fascistóide, medieval descendente de inquisidores benzia dos altares a nova “cruzada” que pouco se distinguiu daqueloutra que no tempo da guerra civil iluminava a Falange e os seus guardas mouros exemplo último do ultra-catolicismo triunfante. Na verdade, o País Basco não era republicano e tampouco democrático. Era um cocktail de beatério, e conservadorismo aldeão alentado pelas elites de Bilbau e S Sebastian. Ideologicamente estavam do lado do “caudillo” e a liberdade porque ocasionalmente lutavam fundava-se nas teorias raciais de Sabino Araña, o fundador da causa basca. Nem mais, nem menos.

A ETA que, quinze/vinte anos mais tarde, nasceria argumentava com o massacre infame de Gernika mesmo se isso tivesse ocorrido uma geração antes.

Como (não) é suficientemente sabido, a ETA, sobretudo, após a morte de Franco, dividiu-se em tendências, a mis famosa das quais se crismou a si própria ETA P-M (politico-militar). Foi este a fracção mais consistente ideológica e politicamente da organização. Foi também, o grupo que mais depressa cindiu, se desfez e desapareceu depois de ter percebido que a acção terrorista só era eficaz no semear do medo mas não convertia os cidadãos em apoiantes da independência. Também foi neste grupo, mas não só, que a ETA remanescente matou gente. É bom relembrar que ao lado das centenas de vítimas (polícia, políticos, e – esmagadoramente - gente comum) foram assassinados ex-militantes mesmo se contra eles não pendesse qualquer suspeita de identificação com a polícia, com o “Estado Espanhol” ou contra a causa basca. Invoque-se apenas Yoyes a militante assassinada anos depois de ter saído da organização. E, também de novo talho de foice, recordemos a intensa campanha contra a elite intelectual basca que se viu obrigada a exilar-se sob pena do misericordioso tiro na nuca (por todos, Fernando Savater, o filósofo e escritor de dezenas de títulos sobre ética e política).

Todavia, repontar-me-ão que a ETA sobreviveu, em democracia, cerca de quarenta anos. Em primeiro lugar, cedo se percebeu que a ETA deslocara para lá da fronteira, grande parte do seu aparelho político e logístico mesmo se no pais basco francês nunca tivessem tido especial êxito as teses independentistas que uniam esta região a Euzkadi e à Navarra.

Depois, há que referir o sistema de terror imposto à população em geral. Qualquer cidadão poderia não concordar mas, seguramente, guardava para si essa convicção sob pena de se ver apontado como traidor e/ou serventuário da Espanha. Desde cartas de ameaça a “pintadas” nas paredes ou na porta da casa tudo serviu para pelo exemplo avisar os mal-pensantes dos riscos que corriam. Os não bascos, os “metecos”, sabiam quão perigoso era para eles expressar uma opinião mas mesmo assim a expressão política da fracção mais radical nunca foi relevante. O espaço independentista moderado estava ocupado pelo PNV, Partido Nacionalista Vasco, formação conservadora q.b. e que muitas vezes serviu (e serviu-se) de apoio da Direita espanhola.

A ETA extingue-se de “motu próprio”, afirmam os do último quadrado numa cerimónia ridícula e tonta em território francês testemunhada pelos de sempre. Nem isso é verdade. A ETA já não existia senão como fantasma. Mesmo assim na sua declaração final ainda houve o arrojo de tentar distinguir entre as vítimas. Uma, coitadas, foram o resultado de fortuito erro , aliás desculpável dado o “estado de guerra”. Outras, polícias do Estado, ertainztas ou militares, para já não falar de políticos eleitos, mereciam morrer. Dos ex-militantes assassinados nem uma palavra.

Ao descalabro moral, ético e político junta-se esta outra qualidade: a hipocrisia. E a mentira, evidentemente, base da “narrativa” há dias apresentada.

A herança destes anos de chumbo é pesada: Quase mil vítimas mortais. Centenas de presos, milhares de auto-exilados, uma sociedade dividida que levará o seu tempo a recompor-se.

Esquecia-me: umas dúzias de cavalheiros com um passado de sangue mas livres como passarinhos. Ainda os veremos, como por cá, a escrever livros de memórias onde a morte de outros e a mão encoberta desaparecem como por encanto. Talvez nem valha a pena referir os escassos, tristes, primos portugueses da ETA. Também levam com eles no consciência o peso de alguns mortos, de umas bombas, de uns assaltos a bancos (para onde foi o dinheiro?) que uma justiça morosa, medrosa e uma sociedade generosa deixaram sem solução.

 

O elefante no meio da sala

José Carlos Pereira, 04.05.18

decisão de José Sócrates de sair do PS acaba por não surpreender. O antigo primeiro-ministro sempre deu a entender que gostava que o partido que liderou fizesse a sua defesa perante o que classifica como abusos do Ministério Público e da investigação. António Costa, pelo contrário, decidiu que o melhor era separar águas entre a justiça e a política, procurando dessa forma encontrar um caminho que permitisse ao PS não ficar permanentemente – durante quantos anos? – sob o flagelo dos efeitos da investigação, da acusação e do futuro julgamento de José Sócrates. António Costa tomou a opção certa.

O que se passou entretanto para que os dirigentes socialistas, com Carlos César e António Costa à cabeça, se tenham afastado dessa abstinência na discussão em torno dos crimes imputados a José Sócrates para virem agora verbalizar evidências “lapalissianas”, isto é, que será muitíssimo negativo, que será uma desonra e uma ofensa aos princípios éticos que devem guiar qualquer democrata se os crimes de que o antigo primeiro-ministro está acusado vierem a ser dados como provados? Foram só os indícios veiculados pela comunicação social quanto ao ex-ministro Manuel Pinho que serviram de detonador? Ou foi o cálculo táctico de que os temas relacionados com a Operação Marquês estão de tal modo consolidados na opinião pública que o melhor seria vincar já esse distanciamento face a José Sócrates? Desta feita, não creio que o PS tenha seguido o melhor caminho e arrisca-se a fazer deste um dos assuntos centrais do próximo congresso.

Apoiei e votei em José Sócrates, que não conheço pessoalmente para além de uma breve conversa nos bastidores de um comício no Porto nas autárquicas de 2005, quando liderei, como independente, a lista do PS à Assembleia Municipal de Marco de Canaveses. Reconheço muitos méritos aos seus governos, assim como vários erros de percurso e de casting. Quero confiar no Estado de Direito e, por isso, aguardo pela lenta evolução do processo, não me deixando impressionar em demasia pelos folhetins que vão surgindo a público. Como sempre tenho defendido, um processo destes exige provas concludentes e não pode ficar apenas pelas convicções de quem investiga e julga. O que não impede que possa fazer já uma apreciação muito negativa do estilo de vida e do carácter já revelado por José Sócrates. Mas isso é do domínio da moral e não da justiça.

Tal como Manuel Alegre, entendo que o PS se precipitou, talvez empurrado pela força do caso Manuel Pinho, que terá direito à sua defesa, naturalmente, mas já deveria ter vindo a público esclarecer prontamente a natureza dos seus rendimentos, pelo menos nos anos em que exerceu funções governativas. Quem não deve não teme. Contra Manuel Pinho, recorde-se, há apenas suspeitas que chegaram aos jornais, sem que o próprio tenha sido ainda ouvido pelos investigadores, muito menos acusado. Não aposto um fio de cabelo por Manuel Pinho, mas a realidade é esta. E não deixa de ser curioso que os partidos se tenham abespinhado justamente com a situação de alguém que não é do meio político, que veio da área financeira e em particular do (agora) desacreditado BES. Se fosse alguém do redil partidário a reacção seria a mesma?

O que é facto é que todos os partidos de governo já albergaram dirigentes de relevo que se viram a braços com a justiça e foram condenados por crimes praticados durante, antes ou após o exercício de funções públicas. Assim de repente, vêm-me à memória nomes como os de Armando Vara (PS, ex-ministro e ex-deputado), Narciso Miranda (PS, ex-autarca de Matosinhos e ex-presidente da distrital do Porto), Isaltino Morais (PSD, ex-ministro, ex-presidente da distrital de Lisboa e autarca de Oeiras), Duarte Lima (PSD, ex-líder parlamentar e ex-presidente da distrital de Lisboa), Oliveira e Costa (PSD, ex-secretário de Estado e ex-presidente da distrital de Aveiro), Valentim Loureiro (PSD, ex-autarca de Gondomar e ex-presidente da distrital do Porto), Avelino Ferreira Torres (CDS, ex-autarca de Marco de Canaveses e ex-senador do partido) e Lino Abreu (CDS, deputado no parlamento regional e ex-secretário-geral do CDS/Madeira).

Por isso, não basta Assunção Cristas vir dizer que o PS tem de fazer uma reflexão interna. Todos os partidos têm de ser mais criteriosos e exigentes na prevenção e no combate a práticas criminosas. E todos os eleitores devem ser mais exigentes e atentos, separando o trigo do joio. Só assim caminharemos para uma democracia melhor.

Au bonheur des dames 452

d'oliveira, 02.05.18

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Simplex à moda do Porto

ou

Vocês que aqui entram deixem na rua toda a esperança

 

mcr 2.05.18

 

Suponha o/a leitor/a que vive numa zona em que todas as ruas circundantes têm o estacionamento condicionado. E que, por ser morador/a, pode requerer uma avença de estacionamento desde que a pague bem como o selo que a indica.

Para o efeito, informa a Câmara municipal, é necessário ter o domicílio fiscal na rua, fornecer os dados relativos à qualidade de morador bem como os elementos necessários à identificação da viatura.

Suponha, ainda (Arre, que V só levanta problemas! ) que acaba de adquirir um automóvel e que está à espera do famoso livrete, documento que, no meu pobre caso, já demora há quase três meses...

( convém esclarecer que o carro está integralmente pago e que boa parte desse dinheiro reverte para os cofres do Estado em IVA, imposto automóvel e demais alcavalas)

Dirige-se, pois, o requerente esperançoso à câmara, pede uma senha e aguarda pacientemente que o seu nº seja chamado.

Uma vez perante o funcionário, explica ao que vem, fornece a documentaçãoo que traz enquanto alega que não pode fornecer o “livrete” por este ainda não lhe ter sido remetido. Em troca, apresenta um documento de venda autenticado pelo vendedor, os documentos que asseguram que a viatura está segura contra todos os riscos. Em ambos os documentos está patente a direcção do requerente e o número e identificação fiscal que garante a veracidade do direito a poder requerer e pagar uma avença de estacionamento.

A primeira questão que o zeloso funcionário camarário levanta é que nada prova a existência do automóvel ou a titularidade da sua propriedade. Como se um vendedor fosse oferecer a alguém um documento de venda, factura e recibo incluídos, apenas por desfastio ou para ludibriar a autoridade municipal...

O requerente contrapõe que não se pode substituir ao Estado que é quem deveria num prazo normal, duas ou três semanas no máximo, proceder ao envio do “livrete”. E acrescenta que, mesmo tendo toda a simpatia pela Sr.ª Ministra Maria Manuel Leitão Marques, alegada mãe do Simplex, não a pode forçar a ordenar à repartição competente o dever simples de enviar atempadamente a documentação relativa a uma viatura comprada e paga ainda em Janeiro.

O requerente sabe, com um saber todo de experiência feita, das “dificuldades que tem um reyno velho em emendar-se”. Em Portugal não há “simplex” que dobre a Administração Pública, nacional, regional ou local como, aliás, não o há que dome o mole entusiasmo das empresas particulares e semi-públicas que copiam do Estado todos os defeitos e em troca, não o brindam com as suas escassas virtudes.

Também sabe, que os funcionários públicos, seja a que nível for, estão formatados no supersticioso respeito pela forma e não enxergam um palmo acima disso. Explicar a um deles que o livrete apenas confirma o título de propriedade de um veículo esmiuçando-lhe as características fundamentais e que na sua falta por atraso na elaboração do mesmo, alguma coisa há de o substituir mesmo defeituosamente é tarefa que requer nervos de aço e infinita paciência. Mesmo se, como é o caso, apenas se tratar de uma simples avença (paga) para estacionamento.

Neste capítulo, vencida a primeira objecção, ocorreu ao funcionário zeloso outra ideia peregrina: que a Câmara é livre de decidir se concede ou não a avença. Mesmo quando, em documento informativo tal possibilidade vem escarrapachada e cuidadosamente anunciado o seu preço (25 euros ano mais 15 para documento comprovativo).

Também, e sempre nesta indecisa linha de proteger os superiores interesses da Câmara ou dos seus “eficientes” funcionários, não se informa o “requerente” sobre o prazo de “deferimento” do requerimento. A ideia deve ser idêntica à do envio obrigatório do “livrete”: a avença virá quando tiver de vir, amanhã ou nas calendas gregas.

O país moderno de que se ufana o Governo, a Câmara modernaça que parece ser o orgulho de quem actualmente a detém (alguém que vem do “privado” e que, diz-se, não sofre dos males ancestrais da burocracia..), tropeça à primeira nesta miserável pedrinha que, segundo Drumond, “está no meio do caminho”.

Há cerca de quarenta anos, mais precisamente no final do anos setenta do século passado, estando eu em Paris aboletado em casa de um velho e bom amigo, fui por este informado que no dia seguinte teríamos de ir à mairie tratar de mudar alguns dados do livrete de um carro que, embora usado por ele, pertencia ao sogro. Tratava-se, “apenas” de transferir a propriedade do veículo. Depois, anunciava triunfante o Luís, iriamos comer uma choucroute medonha na Lipp.

Maravilhei-me com a ingenuidade do meu amigo expatriado. Então ele pensava que, por viver em França, resolvia tão intricada questão num par de horas? Propus-lhe comprarmos umas baguettes, recheá-las generosamente de foie gras, deitar num cesto duas ou três latas de cerveja e rezar para que antes da noitinha, se conseguisse o pretendido.

O malévolo e cosmopolita Luís mandou-me às malvas e insistiu na sua. A`s dez na mairie e depois rumo a Saint Germain para flanar por um par de livrarias e, finalmente ajoujados ao peso da livralhada, abancarmos na famosa brasserie.

Seja, pensei, pelos meus pecados. Cedo falei: em três exactos quartos de hora estávamos de saída com os documentos em ordem e tempo excessivo para compras e respectivo almoço.

Tão comovido fiquei com a eficácia gaulesa que me prontifiquei a pagar o almoço. Foi caro, claro que o regámos com um belíssimo vinho, farta conversa sobre os males da pátria madrasta e sobre os prodígios de uma Europa a que ainda não tínhamos, enquanto portugas, chegado.

Quarenta e tal anos depois, enfiados na Europa até ao tutano, nem uma merda de uma avença de estacionamento se resolve em tempo decente. E nem se fala do “livrete” que provavelmente virá com D Sebastião dos nevoeiros agoirentos de Alcácer-Quibir!...

 

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