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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

12
Nov19

au bonheur des dames 416

d'oliveira

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À Lagardere

 

mcr 11.11.19

 

Duvido bem que a maioria dos meus leitores tenha algum vez lido Paul Féval, um cavalheiro francês (sec XIX) que, com Ponson du Terrail (outro da mesma nacionalidade e da mesma matriz literária), escreveu romances de capa e espada na senda de Alexandre Dumas. Féval tinha um herói, o jovem Lagardere, espadachim emérito que aliava a coragem, a virtude ee o encanto a um bote secreto com que vencia duelos tremendos.

Depois, sei lá porque razões começou a usar-se a expressão “à Lagardere” para referir ousadia (num primeiro tempo) e excesso de qualquer qualidade, finalmente.

Ora, eu, ainda que sem especial vontade, vou voltar a referir-me uma vez mais à sr.ª dr.ª Joacine Moreira deputada do Livre (ou será o Livre que é o grupo de Moreira?) que tem ocupado excessivamente as páginas dos jornais. E não pelos melhores motivos, convenhamos. A polémica instalou-se pelas más razões, desde a gaguez da personagem até à cor de pele brandida como arma de arremesso pelos seus partidários (a começar pelo sr. dr. Rui Tavares) que carregou nessa tecla juntamente com a da condição de mulher como se isso fosse uma panaceia para o parlamento. Não é o facto de ser mulher, mesmo negra (como ele insistiu e ela se conformou com inegável à vontade ), que faz um bom deputado/a. E nem sequer como símbolo isso parece valioso num país que, com todos os seus defeitos (e são muitos) já elegeu gente de “cor” (pudica expressão para dizer preto que, pelos vistos é muito pior do que negro) e até tem no seu Governo uma mulher negra (ou preta) e um 1º Ministro com sangue indiano.

Portugal mesmo sem recorrermos ao estafado luso-tropicalismo, encheu-se de negros (escravos) desde o século XVI, de mulatos e governou colónias onde estes foram, em quase todos os casos, os executantes subalternos da política colonial e imperial. No Alto Alentejo subsistiram durante centenas de anos grupos fortemente mestiçados para ali levados para os trabalhos agrícolas e se, agora, são menos visíveis foi porque abandonaram a zona e se cruzaram com “brancos” nas zonas de imigração interna para onde se deslocaram.

E onde é que entra a sr.ª deputada Joacine? Entra, precisamente, com uma versão modificada da espadeirada à Lagardere. Ou seja, ganhará sempre todas as discussões recorrendo ao argumento “atacam-me porque sou negra, mulher e gaga”. Perguntam-lhe alhos e ela responde que é negra. Perguntam-lhe bugalhos e retorque que é gaga (“de fala mas não de cabeça”, sic). À questão dos negalhos dirá que só lhe falam disso porque é mulher. E assim, sucessivamente.

Todavia, as questões que se puseram em relação a esta senhora não são assim tão inconvenientes. A gaguez é mesmo um senão, uma barreira à discussão no parlamento. Darem-lhe mais tempo, benefício que não discuto e a que, muito menos, me oponho, pode ser uma prova desagradável de condescendência e não o reconhecimento de um direito. De todo o modo, sozinha como está e com a limitação de direitos que também recai nos outros dois deputados igualmente sós, temos que mais minuto menos minuto em pouco modificará a discussão na AR.

E, já agora, o problema da gaguez não perpassou sequer ao de leve, pelas cabecinhas iluminadas dos dirigentes do Livre? Não acharam (e muito menos entenderam) que, mesmo sem assessor espampanante de saia de pregas e meia verde bandeira, era complicada a sua acção no parlamento?

É que, para um espectador distraído, poderá surgir a tentação de pensar que a cor d pele é apenas um truque para mostrar a “diferença” mesmo se isso não tem cobertura política e/ou ideológica! E se for assim, e bem que o pode ser, impõe-se uma grave conclusão: a cidadã Joacine chega ao parlamento não por ela própria mas pelo sexo, pela cor de pele e, eventualmente, pelo seu problema de locução. Um truque, um expediente uma vigarice (para usar uma expressão posta em moda politicamente pelo sr. deputado Rui Rio).  

Não sei se nisto tudo ela é actriz ou meramente vítima. Seja como for, ha aqui algo que cheira a expediente eleitoral e a uso e abuso de diferenças de sexo, e de cor.

E é pena porquanto uma voz (mais uma) feminina pode sempre tornar o parlamento mais abrangente, mais curioso mais interventivo.

 

 

10
Nov19

au bonheur des dames 415

d'oliveira

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“Lonely Woman”

mcr, 10.11.19

 

Permito-me recordar um belíssimo tema do grande grupo Modern Jazz Quartet (John Lewis, Connie Kay, Percy Heath e Milt Jackson –piano, bateria, contrabaixo e vibrafone). A música, porem deve-se a Ornette Colleman, um saxofonista rebelde mas genial. E tanto ou tão pouco que o álbum do MJQ que contem esta composição intitula-se justamente “lonely woman” e tem uma capa lindíssima que adorna a gravura deste folhetim.

De todo o modo, não é do MJQ que pretendo escrever mas, roubar o título ,para apenas falar da jovem mulher de 22 anos, cabo-verdiana e imigrante, provavelmente pouco alfabetizada que vivia nas ruas de Lisboa como sem abrigo. Junte-se a isso uma gravidez provavelmente indesejada e o abandono do alegado pai da criança.

Não pretendo dizer que a tentativa de homicídio tenha justificação, sou infelizmente um vago jurista não praticante, imbuído todavia dos preceitos inculcados pela Faculdade e pela ética que bebi desde menino.

De todo o modo, se a mulher jovem e ignorante tivesse ido a uma abortadeira (que ainda as há) ou, caso mais difícil, tivesse abortado legalmente num hospital (pressupondo que encontraria um médico que não levantasse a famosa objecção de consciência) onde estava o crime?

Alguém, aí desse lado das leitoras e leitores que, com infinita paciência, me aturam poderá explicar-me?

Eu sei que andam por aí subtis distinções entre feto e recém nascido (que reconheço do alto da minha idade, meio social, classe, cultura e educação mas que não funcionam da mesma maneira para uma jovem, pobre, miserável mesmo, só e abandonada numa terra estrangeira e não tão afável como a propaganda tenta fazer-nos acreditar) mas que quer isso dizer perante o caso concreto?

Temendo irritar-me mais do que me apetece, não li, não ouvi os comentadores jornalísticos e televisivos que, pelos vistos não largam a notícia. Sei, tão só que a rapariga está preventivamente presa o que, dado o seu passado próximo, até pode ser um alívio. Tem um teto e três refeições quente por dia o que, para um sem abrigo em fins de Outono numa Lisboa onde chove que Deus a dá, pode ser um “upgrade” (estamos em época boquiaberta por uma coisa chamada web summit que pelos vistos nos vai pôr no cume do progresso tecnológico e na vanguarda da ciência) de certa importância.

Todavia, apesar da minha pouca atenção aos oráculos que pululam pela tv e um pouco pelos jornais, não tive eco de um pouco de dó, de compreensão, de caridade no caso em apreço. Pelos vistos, todos acham que a pobre criatura é uma homicida fria e desapiedada.

Entretanto, um recém nascido, mesmo mulato parece despertar o interesse de demasiada gente, incluindo (e é melhor aspecto) adoptantes. Um bebé de dias é um must mesmo se andam por aí, e mal, centenas de crianças que hão de crescer em instituições frias longe dos focos da comoção pública. Fosse eu mais novo, mais experiente da coisa jurídica e vivesse em Lisboa, já me teria oferecido para defender essa mulher só, terrivelmente só.

(em tempo: estou obviamente disposto a contribuir com algum dinheiro para ajudar a acusada. Assim eu saiba como e a quem o entregar.

 

 

08
Nov19

o leitor (im)penitente 214

d'oliveira

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Raduan Nassar

 

mcr 8.11.19

 

Correndo o risco de me repetir, pois já, aqui, escrevi duas ou três vezes, sobre Raduan Nassar, volto a insistir.

E faço-o porque para minha grande e grata (oh quão grata!) surpresa, o Público de hoje, no seu suplemento “ípsilon” (pp 18 a 24, inc.) dedica sete (/!!!) página sao autor de três pequenas mas extraordinárias obras primas da literatura escrita em português. Sáo elas “Lavoura Arcaica”, “Um copo de cólera” e “Menina a caminho, todas escritas e publicadas no século passado.

Foram alvo de edição portuguesa mas, se bem recordo, passaram despercebidas a leitores e a “críticos”. Andaram perdidas por feiras de ocasião a preços vis e eu aproveitei para comprar alguns exemplares para oferecer a um par de amigos.

Depois, RN ganhou o “Camões” e isso trouxe-lhe alguma visibilidade por cá. Moderada visibilidade mas que terá servido para o reeditar ou escoar os exemplares já publicados.

Agora, esta sumptuosa recensão do punho de Isabel Lucas (num suplemento onde o literário costuma andar por duas páginas esconsas) talvez desperte mais atenções, curiosidade e leitura. Felizes serão (e bem aventurados) os que se resolverem desbravar esta obra mínima de um autor que “abandonou” a literatura pela criação de coelhos e que nunca se promoveu, bem pelo contrário.

Curiosamente, ou talvez não (decididamente: não!) Chico Buarque, ao ter notícia do seu justíssimo “Camões” (2019) logo referiu com grande nobreza e dignidade aquele seu antecessor no prémio. Nassar, sempre reservado e tímido, não escondeu a satisfação tanto mais que acha Chico Buarque, sic, “um génio”. Por mim, que admiro ambos e que tenho por CB uma forte admiração desde “Morte e Vida Severina” texto de João Cabral de Melo Neto, um dos nomes maiores da poesia brasileira, portuguesa e universal, este texto jornalístico merece destaque. Por várias razões: está bem escrito, fornece pistas bem interessantes sobre o autor e pode servir de convite à leitura dele.

Leitoras e leitores, ao trabalho, melhor dizendo (e citando obliquamente Paul Lafargue) ao prazer!

07
Nov19

O leitor (im)penitente 213

d'oliveira

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Prendas para amigos leitores

(recordando uma leitura que dura há cinquenta anos, quase dia por dia)

mcr 7-11-19

Deveria dizer: prendas para leitores comprovados. Poderão avisar-me que já não há disso. Retorquirei que, se bem que raros e em vias de extinção, ainda andam por aí como aquele cavalheiro que ameaça continuamente retirar-se da política mas que não resiste e volta a chatear o indígena, uma e outra vez.

Os leitores persistentes não mereceriam esta comparação mas, na verdade, tirante a personagem, as coisas passam-se mesmo assim. O verdadeiro leitor nunca desiste. Agarra num livro, lê três linhas, brilha-lhe o olho e, zás!, aí vão duas páginas sem parar. E sai com o livro, mais leve de algibeira mas com o coração alanceado desejando estar já em casa, quentinho, num cadeirão pronto a ler e, por isso, a escrever uma nova história que não exactamente a do autor. Se o não consegue, das duas uma: persiste, teimoso e arrasta-se pela leitura até ao último ponto final; ou então irrita-se, agarra no livro, e mete-o na estante dos desistidos (é o meu caso: à página 20 cai a sentença. Sim e vamos até à última página desejando que outras tantas a continuem ou deixamos aquilo no sítio em que ficamos enfartados. Até já me aconteceu acabar um livro e, sem intervalo, recomeça-lo. Não foram muitas as vezes, é verdade mas ainda recordo a primeira vez que li Camilo José Cela, um galego apanhado pelo Nobel. O romance chamava-se “mazurca para dos muertos”. Comecei-o pouco depois do jantar e, no dia seguinte pelas seis da manhã acabei-o. Cinco minutos depois, constatando que já não valia a pena dormir, reabri-o na página e e aí vai disto...

Cela tinha mau feitio mas escrevia muito bem e devem-se-lhe duas boas dúzias de excelentes obras entre romances e livros de viagens (a viagem a Alcarria está aí para o mostrar). Foi também o director de uma belíssima revista “Papeles de son armadans” que deu guarida a muitos jovens escritores furando o bloqueio franquista, coisa que, depois do prémio, a inveja de alguns zelotas, quiseram esquecer, obliterar ou negar.

Isto vem a propósito de uma antiquíssima descoberta. Corriam os anos cinquenta, aliás, estvamos em 59 e eu, ainda liceal, fazia anos dali a dias, e uma namoradinha ofereceu-me (melhor dizendo: permitiu-me escolher) “A retirada dos 10.000” de Xenofonte na saborosíssima tradução de Aquilino Ribeiro. Depois da primeira leitura, achei que devia gastar uma dinheirama valente e mandei encadernar o livro. E em boa hora o fiz que pois foram muitas as vezes em que voltei a essa alucinante aventura de uns milhares de mercenários gregos, contratados por um pretendente ao trono, vivida numa retirada de milhares de quilómetros, entre povos desconhecidos e pouco amistosos. Tudo isto na desordem das assembleias a cada passo, por alguma coisa a democracia fora inventada na Grécia, pelos truques, pelos discursos, pelas manifestações de heroísmo, pela descrição de paisagens e geografias diversas até ao momento entre todos desejado do avistamento do mar (Thalassa, thalassa!, eis a expressão que se tornou imorredoira).

Entretanto, já neste século, encontrei num alfarrabista, um exemplar da Retirada. Resolvi oferecê-lo a um amigo. Encadernado em meia francesa, salvo do ar cansado, graças a uma aparadela ligeira, entreguei-o ao destinatário. Dias depois, este, telefonou-me maravilhado. Estava a terminar o livro e já tinha saudades dele. Assim começou um hábito que tenho mantido. Sempre que encontro um exemplar da obras, compro-o, mando-o encadernar e escolho o “freguês”. Já lá vão 11 e até ao fim do ano serão treze os escolhidos. Não sei o que me dá mais prazer: se os agradecimentos se o acto simples de dar.

Hoje, visitei um velho amigo hospitalizado. Já estava na lista há tempos mas a ocasião ainda não se proporcionara. De uma vezada matei dois coelhos com a mesma cajadada. Cumpri um mandamento da Igreja (visitar os enfermos) e oferecer a “Retirada...”

Pensando bem: foram três coelhos. Já me tinha esquecido do meu prazer em oferecer...

 

 

* A Retirada tem por verdadeiro nome Anabase termo grego que, segundo Aquilino, no prefácio, significa “marcha para o interior”.

 

** Creio que a ilustração é da autoria de Júlio Gil que é o responsável pela minha edição e datada de 1957 na tiragem especial de 300 ex em papel especial Alfa, exemplar nº 298 assinado pelo tradutor .

 

 

 

07
Nov19

diário político 222

d'oliveira

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Estes dias bizarros

d'Oliveira fecit 7/XI/ 2019

 

! Nunca fui adepto de dar o nome de pessoas vivas a ruas, prédios ou instituições. As razões são muitas se bem que a mais óbvia seja esta: depois da homenagem, o homenageado pode perder a cabeça e desatar a fazer tropelias de todo o género ou, pelo menos, tornar-se uma criatura odiosamente vaidosa e insuportável.

Recordo, entre parêntesis, que, na minha meninice, vivi anos a fio na rua ou avenida Almirante Tenreiro, um homem forte do Estado Novo e manda-chuva do sector das pescas. Com o 25 de Abril a toponímia mudou porventura por iniciativa dos primitivos homenageantes. Aconteceu algo de semelhante à ponte Salazar rebaptizada “25 de Abril”.

Ora, para evitar estas desastradas reviravoltas toponímicas, bem avisado andará quem só queira o seu nome glorificado depois de morto.

Tal não sucedeu com Rosa Mota. A cidade do Porto entendeu que se Lisboa dera o nome de Carlos Lopes (outro campeão olímpico da maratona, para quem porventura já não saiba quem é) a um pavilhão desportivo no parque Eduardo VII, bem que se poderia dar novo nome ao pavilhão do Palácio de Cristal e de uma penada homenagear a atleta.

Convenhamos que a homenagem era fraca porquanto o “palácio” estava já num estado deplorável a pedir obras urgentes.

Apareceu uma cervejeira disposta a pagar caro a publicidade e enterrou uma boa dezena de milhões no edifício, restituindo-o à sua primitiva dignidade e melhorando muito o seu interior. Percebe-se, assim, que a tanto milhão gasto corresponda uma enfática vontade de perpetuar grandiloquentemente o nome da marca e eis que temos o “superbock arena em letra grrafal (como compete a uma marca de cerveja!...) e mais em baixo e um pouco menos apelativo “pavilhão Rosa Mota”.

Rosa não gostou mesmo se, em seu tempo de atleta, tenha provavelmente usado dorsais com marcas de produtos que amparavam e subsidiavam a sua carreira. Desconheço se, nessa época, criticou o estado calamitoso do pavilhão que tinha o seu nome.

Agora, recusou-se a assistir à inauguração do renovado espaço. Estava no seu direito e não serei eu quem a critique. Porém, além de faltar à cerimónia, que, de todo o modo se realizou com a habitual pompa e circunstância, Rosa Mota resolveu alertar a pinião pública para a “desconsideração” sofrida. Pelos vistos, desconhece a força do dinheiro e a penúria das instituições públicas que se viram obrigadas a recorrer ao mecenato da “superbock”.

Parece que, apesar de convidado, o senhor Presidente da República não esteve presente. Agenda sobrecarregada, preparativos para a recentíssima e feliz intervenção cirúrgica ou mera solidariedade com a atleta que S.ª Ex.ª há pouquíssimos dias exaltara como valendo mais que muitos, todos, os presidentes da república. Eis que o Professor de Direito se revela um conhecedor da Grécia clássica e da admiração sem limites ali professada pelos atletas vitoriosos.

A Câmara do Porto apanha por tabela mesmo se parece evidente que, no caso, pouco ou nada poderia fazer. Alguém acha que o senhor Presidente da Câmara, deveria comparecer de corda ao pescoço ou de luto carregado apelando aos “homens bons” da cidade dita invicta ou à plebe que se está nas tintas para substituir a superbock por uma “sagres”?

Quem sou eu para aconselhar Rosa Mota, sobretudo depois do caldo entornado. De todo o modo bastava-lhe faltar à cerimónia, envolvida num digno mas loquaz silêncio para se perceber o seu desagrado. Ao proclamá-lo tão ruidosamente (acompanhada ou não pela indignação de uns, pelo calculismo de outros e pelo populismo de eminentes figuras públicas) a coisa adquire um risível tom que diz muito sobre o “torrãozinho de açúcar”....

 

2 O novo Governo da pátria imortal nação valente averba 69 responsáveis! É obra! Eu não vou pela facilidade da acusação mesquinha quanto ao custo de tantas luminárias a que se irão somar infindáveis hostes de assessores e demais afilhados.

Também não vou, à semelhança de um Ministro remanescente, chorar sobre a perda de uma senhora Ministra por acaso, mero acaso, esposa amantíssima do mesmo cavalheiro. Aqui, à puridade, sempre direi que ela me parecia valer por três dele mas isso é porque talvez eu seja um feminista que se desconhece.

Eu, sobre relações familiares no Governo não digo sim ou não. Também não digo “nim”. Como se ensinava na imortal faculdade de Direito que me amargou a juventude, cada caso é um caso. E naquele, nunca me dei conta que os negócios do mar andassem com o mesmo lento e frágil vagar que o senhor Eduardo Cabrita imprime ao seu pelouro. O ar pesado e cansado do ministro parece ser o retrato do estado do seu ministério. Mas isso é outro contar.

O único mas formidável problema que veja em tanto ministro e secretário de Estado é o raio da sobreposição. Eu, ave de mau agoiro e piores fígados, temo conflitos em série nas áreas secantes ( e, muito provavelmente das tangentes) de cada senhor Secretário de Estado pois as próprias atribuições já conhecidas não estabelecem fronteiras fáceis, sequer seguras entre cada pelouro. Depois, os Secretários de Estado, sobretudo os caloiros vão fazer o possível e o impossível para mostrar de que madeira são feitos (e nisto não vai qualquer comparação com o imortal Pinóquio, tanto mais que Costa é demasiado espesso e encorpado para fazer de Gepeto).

A juventude (que é uma doença que passa com a idade) é assim. Muito afirmativa, muito senhora do seu nariz (e volto a dizer que nada de Pinóquio aqui, mesmo se alguns governantes mentirem mais do que o ousado boneco e sem o perigo de lhes crescer o nariz...). Mas mesmo sem o sangue a ferver-lhes nas guelras o simples estado dos problemas que vão enfrentar e a bandalheira em que está o desgraçado interior vão dar água pela barba a muitos destes jovens cavalheiros.

Este governo gigantesco tem no seu gigantismo (perdão pela estilo pleonástico) a ameaça maior para o sucesso. Por muito hábil que seja o Primeiro Ministro, coordenar 19 (+ 50 por interpostas pessoas) criaturas não vai ser pera doce.

Depois, nunca fui, não sou, e já não me deve restar tempo para ser, adepto desta moda de desmultiplicar ministérios (agora vamos ter o da função pública, Jesus Maria, José!...,) como se isso fosse a poção mágica do sucesso. Não é. Os detalhes por muitos que sejam, não implicam que não deva haver uma visão de conjunto que o desregramento de ministérios pode ferir.

 

 

3 Parece que a senhora Ministra da Função Pública vai premiar os funcionários que faltarem pouco. Eu aceito que se premeie o funcionário que não falte e mais ainda o que produza trabalho que se veja que inove, que proponha, que cumpra. A falta (não falo de doença, claro) é sempre uma anomalia e, por definição, acarreta custos quanto mais não seja pela descoordenação que pode provocar num serviço. E, na generalidade. não deve ser tolerada, 

Eu teria estimado que S.ª Ex.ª tivesse referido o escândalo da nomeação de chefias, o favoritismo político a falta de respeito pela CRESAP, a situação inacreditável de centenas de responsáveis em funções a título de substituição e por períodos que são até contra a lei.

Dir-se-á que isto é óbvio. Será, mas nunca é demais insistir, reconhecer uma realidade que corrói as instituições e afecta o bom nome da função pública no seu todo.

É verdade que o mal vem de longe mas justamente por isso é que é urgente extirpá-lo.

E já que se fala de função pública seria bom que, de uma vez por todas, se permitisse aos mais de dez mil novos contratados para o exercício dessas funções o acesso à ADSE, como é desde há muito pedido pelo Conselho Geral da instituição (lembremos que o silêncio da administração e do Governo sobre isto que parece justíssimo e, aliás, necessário para a boa saúde financeira da ADSE, é ensurdecedor.). Além de ser um indiscutível direito desses trabalhadores, é, seguramente, uma boa ajuda para as finanças da instituição. Parece que a senhora presidente da ADSE ainda não percebeu isto.

Nós não percebemos como é que a criatura lá foi parar mas esse é um mistério facilmente resolúvel...

 

 

 

06
Nov19

au bonheur des dames 414

d'oliveira

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Em Berlin, espantado

mcr 5.11.19

 

Foi em 1970, entre Outubro e Dezembro. A minha mulher, estudante de Germânicas, entendeu (e bem!) que uma estadia na Alemanha ajudaria em muito o seu alemão. Nada como a imersão total numa língua para a aprender (e apreender). Os meus mais que generosos sogros propuseram-me que também fosse e que, igualmente, frequentasse o Goethe Institut, se bem que num grau inferior ao da    Maria João. Claro que aceitei sem qualquer hesitação. Acabara o curso de Direito e o 6º ano (curso complementar de ciências jurídicas) podia esperar. De facto, boa parte dos benefícios dessa formação extra nunca me tocariam. Destinava-me à advocacia, não por vocação mas apenas porque com uma informação política altamente desfavorável nunca entraria nos quadros da magistratura ou da diplomacia. Numa palavra, o funcionalismo público estava-me vedado. Só me inscrevi por mero desafio a um passado académico aos altos e baixos e tentando provar a mim mesmo que era capaz. E, em boa verdade, logo em Fevereiro desse ano, voltei a ser preso e estagiei mais uma temporada em Caxias num quartinho com vista para a estrada e para o rio (ao menos isso, pensei quando me vi naquele cubículo minúsculo espartanamente mobilado. De todo o modo, não perdi totalmente o meu tempo, pois foi aí que li, em traduções publicadas pela “Livros do Brasil” , o Proust e o Joyce. Nem me dei conta, no caso do segundo, das famosas dificuldades daquela leitura. Na cadeia, julgo eu com um saber todo feito de experiências várias, até a literatura inclusa nas embalagens de remédios serve. De todo o modo, fiquei com imenso respeito pelo Ulisses e com um a recordação agridoce do meu homónimo Marcel.

Deixemos esta (costumeira e viciosa) deriva e voltemos a Berlin. A Berlin e ao omnipresente muro. Em Wedding, onde era a nossa residência universitária (eine Gefängniss, segundo os nossos novos amigos alemães, ébrios de liberdade por contraposição aos do “outro lado) víamos o muro de cada vez que rumávamos ao centro. Aliás, depressa o começámos a atravessar não só porque havia uma imensidade de extraordinários museu a visitar em Mitte, o velho centro da cidade, mas porque com o cambio contrabandista dos marcos ocidentais por orientais (1 por 4) comia-se barato num restaurante chamado Linden Corso.

A passagem do muro era algo de épico. Não só o carro teria de ir livre de tudo e mais alguma coisa, incluindo imprensa (um dia houve em que “Le Monde” trazia uma reportagem mais do que generosa sobre a DDR apelidando-a de “Dinamarca dos países socialistas” (!!!), exagero estrondoso sobre um país artificial onde faltava quase tudo e sobre uma cidade que em comparação com o sector ocidental parecia mais atrasada do que a Figueira dos anos quarenta. Pois nem esse exemplar laudatório mereceu um salvo conduto e tivemos de o ir de guardar na sentinela americana que nos achou tolamente ingénuos) mas nós teríamos de suportar uma forte inspecção além de sermos obrigados a cambiar cinco marcos ocidentais por igual quantia oriental. Felizmente, nunca nos apanharam o dinheiro leste-alemão trocado nos esconsos da estação de Zoo Garten.

A cidade, do outro lado, era desoladora. A única vantagem era o trânsito ralo e, em boa parte, alimentado por automóveis de turistas como nós. No resto, incluindo a entrada no complexo de restaurante onde íamos, havia um permanente cheiro a couve fermentada ou algo do mesmo género. A arquitectura era deprimente, mesmo na Leninplatze ou na Karl Marx Allee. Na primeira, num bar que deveria querer parecer sofisticado, vimos prostitutas. Um turco, meu colega e admirador de Nazim Hikmet (e isto já diz tudo) nem queria acreditar e suspirava desalentado “Demokratie, Demokratie...” A francesa Martine, vinda do peuple de gauche foi definitiva: “isto é que é o social fascismo”, e, mesmo que historicamente não tivesse razão, de facto, aquilo não era mais do que isso. Uma ditadura protegida por meio milhão de soldados russos, um muro homicida, uma Stasi omnipresente e duzentos mil bufos regulares. No outro lado, poderia estar, e estava, o capitalismo mais auto-publicitado, a imprensa Springer, o luxo inaudito das grandes marcas ou da grande distribuição (o Ka De Ve, Kaufhaus des Westen) um luxo em plena “Kudamm” mas estava também a contestação do sistema, os Kindergarten, as livrarias onde havia publicações de todo o mundo, incluindo do Leste (por exemplo Wolf Biermann que seria expulso da RDA). Mas a liberdade estava passar por lá mesmo se a Rote Armee Fraktion fosse duramente combatida ou Rudi Dutschke alvo de atentado. No pequeno cineclube Arsenal vi alguns dos melhores e mais bem conseguidos filmes políticos que se fizeram a par de grandes clássicos do cinema, uma e outra vez repetidos para gozo de multidões de cinéfilos. Nem vale a pena falar da música ou das exposições de artes plásticas se bem que date daí o meu primeiro contacto com a gravura japonesa o ukiyo-o. Berlin, cercada por um muro infame, grotesco e homicida, resistia como antes conseguira ultrapassar o bloqueio.

Nós, ficávamos estarrecidos com a explicação oficial das autoridades da RDA: o muro protegia a parte oriental e sã da agressão imperialista. E por isso urgia matar quem do leste se dispusesse a atravessá-lo. Para que os cidadãos do regime dito socialista não fossem inquinados pelo mal imperialista e capitalista, mais valia matá-los!

Quando regressámos, tive a oportunidade de, em conversa com o professor Paulo Quintela, lhe dizer quanto aquela visão me aterrara. O velho senhor que conhecera bem a Alemanha de antes da guerra e que traduzia Brecht, Rilke ou Goethe com carinho e imenso cuidado, assegurou-me que aquilo, aquele condensado de maldade cairia como caíra o 3ª Reich. O tal que prometido para mil anos não conseguira cumprir uma escassa dúzia. A sua certeza confortou-me mas, na verdade, a coisa arrastou-se entre crime, vergonha e desprezo mais uns dúzia e meia de anos, caindo perante o aplauso de dezenas de milhares de berlinenses de leste em Novembro de 1989. Em boa verdade, o muro caiu porque a DDR era um cadáver político a quem Gorbatchov passou uma atrasada certidão de óbito. A DDR era um Estado tão ou mais fantoche do que o Vietnam do Sul. As multidões que de uma ponta à outra daquela caricatura de Alemanha saíam à rua todas as semanas gritando “wir sind das Volk“ (nós somos o povo) e desafiando a polícia anunciavam já aquele fim desastrado, aquele muro que ruiu de repente no meio da alegria popular.

50 anos depois ou quase lembrando a Martine, os dois John (big e little), o Martin, a Maria, a Fée e a Pia, o Zé Leal Loureiro o casalinho corso (de que só recordo o nome da Gabriela). o Zingarelli e a Ana as duas italianas do potere operaio e outros, muitos outros, tudo gente do Goethe Institut. 

05
Nov19

"Mais honesto um fascista do que um Ventura"

José Carlos Pereira

O cronista Daniel Oliveira escreveu, no "Expresso Diário", sobre as enormes incongruências entre o que pensava o académico André Ventura na sua tese de doutoramento, sobre as garantias dos cidadãos, a deriva securitária e a aplicação da justiça, e aquilo que passou a proclamar enquanto líder do Chega. Diz o próprio deputado recém-eleito que uma coisa é ciência e outra coisa é a opinião sustentada na percepção da realidade!

A verdade cru é a melhor forma de desmontar o oportunismo político de um  populista como André Ventura. Nunca a indiferença.

02
Nov19

Pavilhão Rosa Mota

José Carlos Pereira

A Câmara do Porto meteu os pés pelas mãos e deixou-se cair nos braços do concessionário, num processo em que não foi respeitada a campeã Rosa Mota, que também terá sido vítima de alguma ingenuidade da sua parte. Creio, no entanto, que o "Palácio de Cristal", como os portuenses o conhecem, e o "Rosa Mota", como nos habituámos a enunciar o pavilhão, nunca vão ceder o nome, no jargão popular, ao grupo cervejeiro. Um processo em que todos ficam mal, de nada valendo as desculpas esfarrapadas de que o modelo de concessão previa o naming do pavilhão. A Câmara do Porto, que se vangloria das suas boas contas, não precisava de ficar refém do marketing.