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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

31
Mar20

estes dias que passam 348

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada décima sexta-feira

engenhoso mas trapalhão

mcr, 31 de março

 

“Lá ideias tens, mas a execução é abaixo de cão”, dizia-me um velho amigo a quem, volta e meia, recorria para salvar uma estante infamemente pintada por mim. E é verdade, uma verdade dolorosa ou como afirmava Danton, “a verdade, a áspera verdade”.

Quando cheguei ao liceu, tudo me pareceu senão fácil pelo menos razoável. Tudo excepto o desenho, fosse ele geométrico, à vista ou livre. No primeiro, que requeria tira-ljnhas e mais uma panóplia de instrumentos sinistros e tinta da China, o meu trabalho acabava num série confusa de borrões miseráveis. Os dedos sujos de tinta, algum pingo na roupa, o desenho geométrico negava-se-me como uma virgem ofendida.

O desenho à vista só o era se a vista fosse completamente zanaga. Um cego não me ficaria atrás se é que não me ultrapassaria em rigor.

O desenho livre, era, com favor, medíocre. O pobre professor devia olhar-me como se olha uma praga do Egipto, uma nuvem de gafanhotos, um pequeno terramoto.

Ainda por cima eu era, nas restantes disciplinas, um bom aluno, eventualmente o melhor. As notas de desenho até nem eram tão horríveis porquanto o pequeno conselho de professores terá entendido que eu não era cábula mas inepto, doente, sei lá o quê.

O Dr. Ilídio Sardoeira, que me dava aulas de Desenho e Ciências Naturais, confidenciou ao meu pai que já consideraria um forte progresso o facto de eu não sujar o chão à minha volta num raio de um metro. Ilídio Sardoeira era, além de excelente professor e homem bom, militante comunista pelo que no fim do ano escolar foi preso e nunca mais o vimos. Só o reencontrei trinta anos depois e pude dizer-lhe de viva voz quanto as suas qualidades de pedagogo me tinham impressionado. O excelente senhor ficou feliz, claro que não se lembrava de mim, tantos eram os anos passados, até que lhe recordei que me dera 8 a desenho e 16 a Ciências Naturais. Fez-se um clique e na memória do ancião lá reapareci eu aureolado de borrões de tinta da China, de gouache num impressionante exemplo de arte selvagem. “Ai tu és esse?” disse-me enquanto me abraçava. Era eu, claro, comovido mesmo se o reconhecimento do velho mestre assentasse numa espécie de Alcácer-Quibir artístico.

Vem tudo isto à baila porque o último Expresso espeta umas farpas nos comentaristas televisivos que, agora em casa, se mostram com uma estante atrás. Eu até compreendo o facto. Eles devem estar nos respectivos escritórios caseiros, se os têm, e por isso é natural a estante. Todavia, o Expresso que sabe bem mais do que eu, deixa no ar uma suspeita de que há naquilo muita pose, muito amor aos livros, sejam eles quais forem. Com a malícia que caracteriza a secção “Gente”, o Expresso deixava no ar uma pouco inocente acusação aos cavalheiros em causa.

Fiquei um pouco atrapalhado pois quando não tenho uma vinheta apropriada, deixo uma fotografia de alguma das 15 estantes que me forram um T-4 +1. Isto para não falar da cave. São livros a mais, isto já nem é amor pela leitura, eu devia era ser interditado, proibindo-se a livreiros editores, feirantes e alfarrabistas que me vendessem sequer um papel escrito quanto mais uma revista ou um livro.

Ainda por cima, e aqui está a prova de que lá engenhoso sou: Já não há estante que não tenha espaços horizontais aproveitados onde jazem mais livros, normalmente os mais compridos. Para tal, além de substituir praticamente todas as grossas prateleiras de madeira (espessura de 2,5mm) por outras de vidro com apenas 6 mm. Os meus críticos aplaudem a ideia mas apontam o ligeiro problema de nem sempre elas estarem perfeitamente horizontais pois sou eu que munido de um leal mas inocente Black & Dekker faço as furações na estante...

Também já aconteceu e por várias vezes que encomendo vidros com medidas erradas ou por demasiado grandes ou porque não tive em linha de conta outros pormenores como , no caso das estantes fechadas as fechaduras. O excelente e prestável vidraceiro a que recorro já me pergunta se eu tenho a certeza eaté levou a desfaçatez a um ponto terrível, pedindo-me que lhe levasse a prateleira a substituir!...

Ora bem, quando li aquela frechada aos comentadores estabelecidos na praça da televisão e arredores pensei que poderia fazer com o I phone fotografias das escassas paredes onde não se acoitam as estantes. Vai daí apontei o aparelho a dois ou três locais e pimba, saia fotografia! O resultado, pouco brilhante, deveria depois ser passado para um computador, no caso este. Em princípio, eu iria ao ícone das fotografias, teclaria, apareciam as ditas cujas selecionaria a fotografia, teclaria a que me interessasse carregava num símbolo que tem uma set e escolheria “mensagem” ou e-mail . Nova carregadela e já está!

Está o tanas e o badanas! Aparece a mensagem ”o envio falhou”

Isto que acabo de escrever, sucedeu ontem e hoje por duas vezes. E não é que à terceira o raio da fotografia cá apareceu? Não, isto não é só trapalhice minha, devo é estar endemoninhado. Às tantas foi uma praga da CG que acha que esta casa parece um pandemónio de livros, discos (nem me atrevo a dizer quantos) dvd de cinema e máscaras africanas para já não falar dos quadros.

Um vizinho inquietou-se e deixou cair a seguinte pérola, grande sacana, “um dia destes você está no sexto andar ou mesmo no quinto!” (eu vivo no sétimo...) E de pouco serviu o facto de eu lhe explicar que isto aqui, no Foco, é construção de luxo, à prova de tudo. E de, ironicamente, lhe lembrar que quando foi preciso fazer obras profundas na fachada, fui eu quem foi unanimemente escolhido para representar os condóminos frente aos responsáveis pelas obras, à equipa de fiscalização, a um professor doutor arquitecto que nos custou uma fortuna e à própria administração. E a verdade é que não reduzi o orçamento previsto mas ganhei muita obra a mais, quase 6% do orçamento inicial. Bem me lixei pois fui eleito membro da comissão de acompanhamento da administração (ou seja apanho com as reclamações das minhas simpáticas condóminas ainda mais velhas e acabadas do que eu) cargo de que ao fim de vinte anos de pastor me libertei com o argumento da idade avançada.

E pronto, em vez de estantes, ai vai uma vinheta. Antes que alguns dos poucos mas persistentes curiosos me salte ao caminho aqui vai a identificação, de cima para baixo e da esquerda para a direita. Domingos Pinho, mascará songhie (Congo) Ana Maria (uma das primeiras compras que fiz), Diogo de Macedo (aguarela sobre papel para o álbum de minha avó Dora Heinzelmann), Dario Alves (acrílico sobre madeira). José Rodrigues (desenhado pouco antes da sua morte), António Modesto (aguarela), bronze de Benin, António Modesto (acrílico). Ainda do lado esquerdo, 3 máscaras Buru (Gabão), Ogoni (Nigéria) e Dogon (Mali) . Os tacos do bilhar (livre!, se faz favor) não contam. Nem o maravilhoso canapé, velharia recuperada que serve para o Nuno Maria subir e descer duzentas vezes ao dia.

Leitoras e leitores, isto está para durar. Cautela e caldos de galinha, aguentem que é serviço. Não se deixem vencer por essa bicheza maligna e, muito menos, pelo stress do confinamento! Se tudo correr bem, lá para fins de Maio poder-se-á, leitorinhas gentis e “velidas,” “bailar so aquestas avelaneiras frolidas” como bem cantou Airas Nunes. Ora aqui está uma bela sugestão de leitura: poesia medieval portuguesa ou galaico portuguesa. Há muito por onde escolher, basta ir ao Wook.

30
Mar20

estes dias que passam 346

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada décima quinta

O gajo é um mijondro!

mcr, 30 de Março

 

“É holandês e basta!”, diria o Tó Coragem que tinha uma habilidade rara e certeira para avaliar pessoas. Mas não é bem assim que eu conheci holandeses (e sobretudo uma holandesa) que não afinam pelo mesmo diapasão do ministro insolidário. Na Holanda, como por estes bandas, há de tudo como na botica. Que um ministro de um país fundador desta coisa que se chama União Europeia recalcitre contra os desmandos de um país que está – e fortalece – a mesma União, que acolhe centenas de milhares de turistas holandeses todos os verões desde a Galiza à costa dourada, desde a Andaluzia até às Baleares, é,à partida mau gosto. Também é verdade quem questão de gosto, os holandeses na generalidade não são exemplo para ninguém. Mas há que reconhecer que são trabalhadores, teimosos como mulas espanholas (estão a ver?) e que dá gosto ver aquelas paisagens nascidas da maré baixa e dos pântanos tão mimosamente cuidadas. E há o Rembrandt & companhia (e que espantosa companhia!). Ou o Mondrian, o Karel Appel e tantos...

Eu aproveitei um ciclo do Curso Internacional de Direito Comparado para permanecer durante quase três meses em Amsterdam com breves saltos a outras cidades. Tirando a comida que, na realidade, não se recomenda, o resto foi sempre bom, holandeses e holandesas incluídos. Reservados mas gentis, calados mas atenciosos e, em certos casos, dado o tempo que então por cá se vivia, solidários.

Para quem saiba alemão, quase que se conseguem ler os títulos dos jornais. O resto é, como eles dizem contentíssimos uma língua que demora muito a ser falada com dificuldade. Alguém, na altura, me disse que a palavra passe da Resistência aos invasores alemães era o nome da praia de Haia, Scheveningem coisa que à primeira vista seria de fáil elocuçãoo mas na prática é uma trabalheira. Sem querer ofender parece que logo de início se pretende escarrar o Sch e depois é uma série de pequenos uivos guturais de que só os holandeses são capazes. Vendo esta história como a recebi de um descendente directo do famoso dr. Tulp, o médico figurado por Rembrandt na ”Lição de anatomia”.

Portanto, mesmo tendo em linha de conta as profundas diferenças culturais, fico estupefacto com a agressividade do holandês em relação à Espanha. É verdade que a Holanda se fez, um pouco, contra o Império espanhol, foram anos de luta desigual contra os melhores soldados do mundo , os dos “tércios” espanhóis do duque de Alba.qualquer dos adversários sentia o amparo da sua variante cristã e tinha o outro quase como um Anti-Cristo. Não vale a pena carregar na legenda da Espanha Negra porquanto os holandeses, logo que se apanharam à solta nos trópicos não moderaram o entusiasmo em abater os indígenas com que se cruzavam. É verdade que, no Brasil, a ocupação holandesa teve um inesperado resultado: o príncipe Maurício de Nassau, levou com ele uma plêiade de cientistas e ilustradores que produziram uma boa dezena de obras sumptuosas sobre o Brasil. Estão reeditadas pelas editoras Kapa e Index, normalmente agrupadas em caixas de dois ou três volumes e são voluptuosas! Arranjei alguns nos alfarrabistas mas por mais que tente não consegui até hoje, completar a colecção. Do Brasil, sabe-se, há uma enorme literatura descritiva e fortemente ilustrada, desde os portugueses Alexandre Rodrigues Pereira e fr Cristovam de Lisboa, aos grandes desenhos de Debré para já não falar de Rugendas ou Ender e dos restantes acompanhantes de grandes expedições que se prolongaram até quase ao fim do sec. XIX. No entanto, e a par de Ferreira, são os holandeses quem vai mais longe e mais cientificamente na descobertam descrição e valorização do Brasil.

Também sabemos que parte do nosso império do Oriente sofreu ataques devastadores dos holandeses, a começar por Ceilão definitivamente perdida para a famosa Companhia das Índias Orientais que muito holandêsmente sabia centralizar a acção militar com a ganância comercial.

Ora, e estamos mesmo no ponto que queria defender, é isto que separa os holandeses da malta do Sul. Eles são medonhamente organizados, calvinistas até dizer basta (e nisso de calvinismo bastaria lembrar os boers e a rapaziada do apartheid), embebedam-se só às sextas feiras com genebra, não sabem distinguir um bom vinho duma zurrapa feita de uvas, fornicam na posição do missionário, as mais das vezes para cumprir com a missão reprodutora e comem arenques crus (que, por acaso, mero acaso, até não são maus de todo). E crocitam naquela língua impossível, parente pobre do alemão.

Em boa verdade, os nossos irmãos peninsulares andaram a dançar à beira do vulcão e a Espanha, tão cheia de salero e alegria, consegue ter um Estado pesadíssimo a que se somam dezassete autonomias de custos igualmente pesadíssimos. Nestes últimos tempos, o PSOE, na ânsia de governar, fez acordos ruinosos e caríssimos. Mesmo assim, do outro lado da medalha, a Espanha, bastariam o Quixote, Velasquez Goya e Picasso. É credora de uma imensa dívida cultural. E científica, ética e civilizacional! Não merece que um mijinhas, um mijondro neerlandês venha com a história da cigarra e da formiga. Aliás que seria do Verão sem o canto das cigarras? E quem é que se atreve a enfrentar um carreiro de marabuntas? Alguém gosta de apanhar com o fedor duma formiga-cadáver pisada?

O David Mourão Ferreira, autor bem interessante, poeta excelente, óptimo divulgador de poesia, cachimbante excessivo mas sempre um homem de bem, escreveu um belo poema “Tu vens das terras de Holanda... que muito vos recomendo ó leitores (e entre todos, desta vez o Alcino que, coitado dele, cumpre o dever de amizade aturando-me a prosa vadia). A coisa, fui verificar anda na Internet com o nome “ein Lieed vor Margaretha” ou algo assim.

Soube o poema de cor já lá vão uns bons quarenta anos e usei-o descaradamente, como o carteiro de Neruda, para o murmurar a uma holandesinha por quem perdidamente me apaixonei. O romance foi tão tórrido quanto rápido porquanto ela morreu súbita e estupidamente de um desses males horrendos com nomes difíceis e curas quase impossíveis. Chamava-se Ana Alatha, Deus a tenha! Ou a terra que é quase o mesmo. E aqui, já que estamos numa de poesia, é bom lembrar o Zé Gomes Ferreira

Vais morrer com a saia rota

E sem flores nos cabelos.

Mas isso que importa

Se, depois de morta,

Até as mãos da terra hão de floresce-los?

 

Ah, se o holandês arrogante lesse poemas de amor... Se num dia de Verão parasse numa tasca andaluza e ouvisse uma malagueña, uma soleá , enfim qualquer outro palo do cante jondo; se ao mesmo tempo provasse uma lasca finíssima de presunto, do verdadeiro, do de cura prolongada; e se o acompanhasse de um copo pequeno de vinho, também verdadeiro, mediterrânico, bebida de deuses mais antigos que os do Olimpo;e se visse uma gitana a taconear uma dança ritmada por palmas e uma breve guitarra... ah, holandez duma figa, também tu havias de querer um pouco mais de sol, um pouco mais de sal um pouco mais de sul.

Mas perdido, nos frios céus pardacentos do norte, céus tão baixos que até os patos se perdem (Brel), ameaçado pelo mar do norte tantas vezes invasor, descambaste como uma viúva velha e que já não recorda o Verão,o amor e, nota bem, a compaixão e a solidariedade.

Voltaire, o enorme (leitores: atirem-se aos Contos e ao Candido e ao Zadig, há edição portuguesa) zangado com algum editor holandês, terá proferido a famosa frase “adieu camards, canaux, canaille” atacando um ou vários livreiros que lhe falsificariam a prosa. Todavia, foram esses mesmos editores os únicos a dar guarida ao grande escritor alvo de uma censura violenta e insensata no seu país. Como qualquer outro país, a Holanda é como Jano: duas faces.

Hei de voltar a Amsterdam para beber um copo de cerveja nas imediações do Spui, a Haia para voltar ao Mauritshuis, museu maneirinho repleto de obras primas absolutas que alberga o “petit pan de mur jaune” que extasiou o meu compadre Proust e me fez chorar de comoção. Não há países maus mas apenas labrostes em todas as latitudes e longitudes, Lá como cá. Mijondros e mijinhas, cabroes e imbecis, ministros ou paisanos.

Aguentem-se manas espanholas, Maria a de Madrid que tão bem cantava, Coro a basca aventureira, Margarita a catalã corajosa. E não liguem ao mijondro : aquilo há de ser um ejaculador precoce...

*na vinheta: "Vista de Delft", Vermmeer, e lá está o "pequeno pedço de parede amarela". no mesmo museu, está o retrato do dr Tulp que corre sob o nome de Lição de Anatomia. E perto do museu há (ou havia) um restaurante indonésio magnifico que servi um reikstafel de fazer chorar os anjos...

 

 

29
Mar20

estes dias que passam 345

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada décima quarta

Reflexões de outro ocioso

mcr, Março

 

É domingo. Será mesmo? Fora o facto da papelaria estar fechada e dever comprar o jornal no supermercado, nada distingue o dia de hoje do de ontem. O que também não deixa de ser um reflexo da quarentena. Os dias serão iguais aos dias, só as notícias serão piores.

Não quero dizer mal do dia do Senhor mas os domingos mesmo os antigos quando tinha que dar duro pelo pãozinho e pela manteiga, o domingo não era nada que me excitasse.

Quando era rapazinho, as coisas eram diferentes, mais desportivas. A minha mãe ia a uma missa muito cedo, perto de casa, embonecava-nos e mandava-nos para a missa na igreja matriz onde oficiava um monsenhor mais chato do que uma pescada psicadélica com sermões mais longos do que a espada de Afonso Henriques. Eu e o meu irmão mais um amigo do peito e meu colega de turma no liceu, avançávamos pela esplanada fora, e depois do jardim, em vez de inflectir à esquerda, seguíamos em frente, Largo do Carvão, Praça Velha, Praça Nova e enfiávamo-nos no museu municipal dr. Santos Rocha. Já conhecíamos as colecções de cor e salteado mas havia uma sala japonesa com armaduras de samurais, armas exóticas enfim, a aventura possível para quem se baldava à missa. Ao fim e ao cabo estávamos apenas a fazer tempo, para aparecer na entrada da igreja no fim da missa para saber de que cor eram os paramentos do padre. E para assistir à saída da missa onde as nossas coleguinhas todas iam. E com elas seguíamos até ao Bairro Novo onde os pais de família já estavam sentados nas esplanadas dos cafés. Os pais de família, ao contrário das mães, talvez também fossem a uma missa especial que lhes libertava toda a manhã ou então, como aventava o Bartolomeu, minhoto de Ponte da Barca, atirado para a Figueira para casa de uns tios para poder frequentar o liceu, tivessem licença especial, alguma bula ou coisa semelhante. “O meu pai também não vai à missa, fica dormir em casa até ao meio dia”

Agora nem missas há. Também podia haver que não seria eu que as frequentaria, Nem para ver as mulheres à saída. Há uns anos ia até uma esplanada sobre o mar, na Foz. Contudo, com a dificuldade para estacionar, desisti. Fico pelo bairro, e ataco a jornalada do fim de semana numa pastelaria mesmo em frente à porta da garagem, Nestes últimos tempos nem isso com o encerramento do estabelecimento. A CG acha que eles vão abrir em “take away” o que seria óptimo pois ela jura que já não tem imaginação para cozinhar. Nem vontade.

Ou seja, uma criatura, metida em casa, chateia-se que nem uma ostra. E fica preguiçosa. Não me faltam coisas para fazer, ficheiros de discos e de dvds para passar ao computador, reorganizar estantes no vão intento de ganhar espaço. Listar livros que estão em estantes fechadas e que, como a idade avança impiedosa, nem sempre me ocorrem o que já teve como efeito comprar repetidos. Jogar bilhar. Que diabo tenho um bilhar que já quase não utilizo. Bilhar sem parceiro/adversário é uma perda de tempo.

Ainda por cima, pelo menos hoje, o canal mezzo resolveu dar uma ópera de Massenet (Cendrillon). Ora eu embirro com as óperas em francês. Ópera que se preze é em italiano. Até o Mozart percebeu isso. E que bem que percebeu! Já pensaram no que seria o D Giovanni ou o Cosi fan tute (ou As Bodas...)em francês? Ou em alemão? O alemão é bom, muito bom para “lieder”, para o 4º movimento da Nona, para Bach e para mais, muito mais peças musicais. Mas aquela absoluta, etérea, leveza mozartiana c’e bisogno della bela língua.

Agora que refiro esse enorme promontório que se chama Beetoven, recordo que tive um contemporâneo em Coimbra, cujo pai , advogado de renome e melómano reconhecido, dizia por bravata que Beethoven era “de vez em quando um génio mas sempre ordinarote” (sic). Isto indignava mesmo os muitos, quase todos. que quase não conheciam o genial surdo, que numa ladainha em surdina crocitavam ah” oh! Que horror” ! O Zé Carlos Costa de que alguma vez falarei, cortou cerce esse coro de viúvas carocas com um “esse gajo é uma besta1 quadrada!” fiquei-lhe reconhecido por dizer alto e bom som aquilo a que eu me não atrevia.

Voltemos, porém, aos domingos. Parte da minha ojeriza advém do facto de, no terceiro ano do liceu, ter sido transplantado para Coimbra. A Figueira só tinha 1º ciclo e o meu pai acreditava na “escola pública”. Aquilo foi um desterro. Sem amigos, longe de todos os colegas com que tinha feito a escola primária e os primeiros anos do liceu, eu sonhava com as idas a casa num comboio lento e ronceiro. Mas isso era só de quinze em quinze dias. De facto, o meu Pai era um fervoroso da Académica e aproveitava a minha estada na cidade para pegar em mim e irmos à bola. Eu detestava futebol, tanto mais que o meu jeito era nulo, e tinha de aturar duas boas horas daquilo. Sem ir a casa! Sem ver as primeiras namoradinhas, as primeiras emoções...

Nunca me recompus desse ano de exílio. Em África, arrastado, outra vez, terei visto cinco ou seis jogos. Em Coimbra e que me lembre terei ido a dois jogos da Académica, sempre em época de crise académica. E um deles foi em Lisboa, a final da Taça de 1969. Era tal o risco da Académica ganhar que o almirante mira carpetes faltou ao jogo! A malta perdeu mas no fundo ganhou o respeito de todos quantos assistiram e viram como milhares de estudantes mostravam o seu protesto. Houve um casal benfiquista que me abraçou. Gostei sobretudo do abraço dela, caloroso e duradouro. Ai a minha mocidade...

Domingo, pois. Preguiça. Estou, como diziam os meus amigos espanhóis de Sanxenxo, pachucho. Ou seja, com aquela vaga e estúpida e melancólica sensação de estar adoentado. Pachucho estoy, coño!

Leitores, cuidem-se! E não se sintam pachuchos, não vale a pena. E aguentem que os sábios da saúde já adiaram para fim de Maio o pico filho da puta da crise. Adiantem lá essa merda um bocadinho, carago!

 

* o título do folhetim de hoje, remete para o fabuloso Jerome K Jerome, autor de "ociosas reflexões de um ocioso" e sobretudo do admirável "Três homens num bote sem falar no cão" Há tradução portuguesa e aquilo é rir até não mais. 

28
Mar20

estes dias que passam 344

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada décima terceira

Cedo erguer, dá jeito

mcr, 28 de Março

 

Em tempos que agora parecem idílicos, usava-se o rifão “deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer”. Suponho que isto se destinava à juventude que, obviamente, preferia deitar-se tão tarde quanto possível e acordar, com uma fome de cavalo, à hora do almoço.

Enquanto não explico o título, lembro o tempo em que, vá lá saber-se porquê, eu e os meus amigos gastávamos solas e meias solas a percorrer uma cidade adormecida e deserta conversando sobre os mais absurdos temas e troçando dos que vencidos pelo sono iam desertando.

Já perto da manhã, abancávamos na “Trancosence” um pequeno e modesto restaurante que abria as portas ainda a madrugada ia alta para angariar fregueses mais sérios do que nós, ferroviários, trabalhadores dos estaleiros, gente ligada à pesca que ia esperar as traineiras, sei lá quem mais. Ou melhor, sei: nós, rapazolas em férias da universidade, perdidos entre Coimbra, Lisboa e Porto e que sós nos encontrávamos nas férias do Natal e da Páscoa.

E nas do Verão? Alto aí e para o baile! No Verão, chegavam os nossos amigos das férias grandes, era a época dos namoricos de praia, coisas aliás importantíssimas, a miragem da turista ingénua que aceitava uns passeios pela serra da Boa Viagem para ver as vistas, enfim, sonhos a maior parte das vezes inalcançáveis, que aquele tempo era carregado de virtudes, melhor dizendo de violência virtuosa. Ou de virtude à força. Por isso, a praia, os grupinhos da praia, adquiriam tanta importância.

No resto do ano, a cidade adormecia ou, pelo menos, caía numa modorra pesada e esperava pelos meses estivais para ganhar algum dinheiro alugando casas aos “banhistas”, trabalhando para eles, explorando-os tanto quanto era possível.

Nós, meninos da pequena elite local, não tínhamos que dar-lhe forte e feio no Verão, aquilo era mesmo um tempo de férias, pelo que fazíamos a mesma vida que os turistas faziam, ou quase.

Nos meses de defeso turístico, obrigados que estávamos a vir a casa ver os familiares e aturá-los (pelo menos era o que pensávamos ou que resmungávamos), gastávamos a noite como podíamos. Os cafés fechavam o mais tardar à meia noite e depois nada mais havia a fazer senão percorrer em alta conversata ruas desertas, os cais, a avenida sobre a praia. E ir comer um bife imenso e a bom preço à “Trancosence”. Uma aventura!

Quando digo que estava tudo fechado, não estou a ser inteiramente verdadeiro. De facto, entre a estação e a praça nova, havia a “madame” pseudónimo libertino de um bar que se chamava qualquer coisa Paris. Era um estabelecimento com barmaids e havia a suspeita consistente que as raparigas não se limitavam a aviar uns cognacs ou uns finos mas que levavam o seu zelo interesseiro a outro tipo de actividades com a cumplicidade (melhor diria sob a direcção) da “Madame”.

Todavia, aquilo aquele sedutor clube masculino, estava reservado aos pater familias mais abonados e não a rapazolas com os tostões contados. Portanto, nós passávamos de largo tentando lobrigar pelos interstícios da montra com cortinas não os chefes de família abancados mas as trêfegas trabalhadoras que ganhavam o seu com os corpinhos que Deus lhes tinha dado.

Deixemos porém, esta viagem sentimental a um passado definitivamente passado e enterrado, e vamos ao provérbio modificado que dá título ao folhetim.

Mesmo em confinamento severo, as pessoas precisam de comer. Eu, que nesta casa, sou o moço de fretes, resolvi guardar um dia, dois no máximo, para aviar as compras necessárias.

É assim que aproveito uma regra do “Corte Inglês” para em batendo as nove da matina, estar heroicamente à porta do supermercado. Convém dizer que o Corte Inglês estende o direito de entrada reservada das 9 às 10 aos membros das forças de segurança e aos profissionais de saúde, como afirma a propaganda. Seja como for, dá imenso jeito apanhar esta boleia matutina. São poucos os fregueses, despacha-se uma pessoa em pouco tempo, não há bicha nas caixas e zás! Para casa que se faz tarde. Para casa mas com passagem no quiosque para comprar os jornais, e ao sábado é uma molhada deles. Como é cedo ainda, também o quiosque está sem freguesia, no máximo um que outro paisano que também não passa sem o jornal.

No bom tempo, eu atulhava-me (aliás continuo) de jornais, o Público, o Expresso, o Le Monde, e o El País e a revista italiana Expresso e aterrava na esplanada para uns cafés matinais e farta leitura.

Agora a esplanada fechou e os cafés tomo-os em casa feitos numa dessas maquinetas nespresso. Uma tristeza! Eu até estou disposto a acreditar que os cafés em cápsula são de grande, imensa, qualidade. Serão, mas não sabem a nada. Ou, melhor: sabem a pouco. Aquilo sai muito bonito, cremoso, um regalo. Bebe-se e mais parece que se bebeu um medicamento. Ai Jesus, Maria, José! Que venha depressa o pico desta merda, o declive, e os dias iguais aos antigos dias. E a bica na esplanada, com o copo de água da praxe... Querem acreditar que nem os copos de água caseiros sabem ao mesmo?

E os jornais, num maple confortável da sala, parecem menos exuberantes, e não é só do soturno noticiário de que são portadores.

Leitores cuidem-se. Aguentem estes ásperos tempos como puderem e souberem. Isto ainda tem pelo menos, um mês, um mês e meio (e sou optimista) de penar. E sonhem com o “temps des cerises” o tempo em que as belas mulheres estarão prontas para tudo, como dizia o bom Clement, poeta menor do século XIX que nunca pensou que o seu poema acabasse por ter conotação política.

*a gravura. A bem dizer esta fotografia era para o texto de ontem porquanto mostra a parte esquerda duma estante carregada de livros sobre as ex-colónias. Com o meu habitual jeito cortei-lhe a parte de cima e dei-lhe chão a mais. Paciência que “em tempo de guerra não se limpam armas! Arre, desculpa estúpida!

27
Mar20

estes dias que passam 342

d'oliveira

Diário das semanas da peste

Jornada décima segunda-feira

É preciso ter sorte com a família

mcr, 27 de Março

 

quando fui por uma fotografia de Coimbra que aí “postei” (a linguagem internet é horrenda e em boa verdade eu poderia ter escrito “publiquei” mesmo se isso pudesse causar confusão) deparei-me com umas cartas da avó Aldina, a “velha Senhora” que também já deu um ar da sua graça nestes folhetins com que vou entretendo o dia a dia.

Numa dessas cartas, escrita cerrada, miudinha para poupar no papel (E, até conseguia em certos casos, depois de escrever na horizontal, dar-se ao luxo de meter mais umas linhas na vertical, coisa que me fazia trocar os olhos e a paciência). li várias referências a familiares e especilmente aoseu avô materno, José. A avó escrevia uma boa dúzia de cartas por dia pois a família era grande. Só irmãos tinha seis, a mãe dela tinha ainda mais de várias fornadas pois o trisavô José Costa Alemão despachou duas ou três mulheres legítimas.

José Costa Alemão nasceu no Brasil, em Minas Gerais (não sei em que cidade) e quando chegou a altura veio para Coimbra cursar Medicina. Não acabou o curso pois, estando no último ano, zangou-se com o tio que era Reitor da Universidade e regressou a casa. Irrequieto, constituiu um grupo e foi desbravar os matos brasileiros e disso há uma vaga notícia que li num resumo histórico brasileiro. Quando, o Brasil se meteu numa das suas guerras fronteiriças, entenderam as autoridades mobilizar os portugueses que por lá mourejavam. A coisa indignou alguns que achavam nada ter a ver com a bandeira “auri-verde” (só mesmo os brasileiros usariam esta expressão!) e vai daí recusaram ir para a tropa. As autoridades replicaram com ordens de mobilização, ameaças de prisão e açularam a populaça contra os portugas. Em boa verdade, os portugueses emigrantes chegavam ao Brasil com uma mão à frente e outra atrás, fugindo da miséria,  atiravam-se ao trabalho e geralmente tinham sorte. Isso, e o facto de serem comerciantes, pequenos comerciantes, não os tornou especialmente benquistos entre o povão que tinha de ir à padaria, à mercearia ou ao talho do português. Obviamente, multiplicaram-se os incidentes e algumas centenas de portugueses, com o apoio do marquês de Sá da Bandeira, abandonaram tudo e vieram para o Sul de Angola em barcos fretados pelo governo de Portugal. Traziam mulheres, filhos, sobrinhos, escravos e uma desvairada vontade de prosperar. O trisavô fez parte de uma dessas expedições que Pedro Chaves, um seu cunhado chefiava. Aportaram a Moçâmedes e largaram para os sertões. O trisavô criou na Chibia uma grande fazenda que teve a honra da visita do general João de Almeida que muito a apreciou e louvou em “Sul de Angola, relatório de um governo de distrito (1908-1910), esboço fisiográfico da região, elementos etnográficos e históricos e dados diversos, acção militar e administrativa, progresso moral e material, economia e fomento” (Agencia Geral das Colónias 1936, 2ª edição). São mais de 600 páginas recheadas de mapas, fotografias, quadros estatísticos, um luxo. Elogia o trisavô que aparece com o nome de Alemão Coimbra. Na verdade, o velho senhor ficara marcado pela cidade onde estudara e adoptara o nome Coimbra. Do seu passado de estudante de medicina usou sempre os conhecimentos pelo que além de grande fazendeiro e pai de prole numerosa era conhecido como uma espécie de médico. E aventureiro, pois a ele se deve o reconhecimento total do curso do rio Bembe, como testemunha em “Vou lá visitar pastores” o Ruy Duarte de Carvalho. Quando o conheci, disse-lhe quem era e ele, generoso e gentil, respondeu-me o seu antepassado era um homem das Arábias. Explicou-me melhor o facto do trisavô ser “capitão de segunda linha”, ou seja podia, em casos excepcionais ser mobilizado e avançar com as suas tropas geralmente irregulares para as zonas onde faltassem as tropas de 1ª linha.

Todavia, não é dos feitos militares (se os houve) do trisavô que venho falar mas apenas da sua prole pois filhos não lhe faltaram. Dentre esses, uma fornada houve (da segunda  ou terceira e última mulher) em que a imaginação baptismal do trisavô atingiu altos cumes. Efectivamente, entendeu homenagear os nossos longínquos avós e deu nomes latinos aos três filhos (todos mais novos que a minha avó, filha da bisavó Hermínia, por sua vez filha do primeiro casamento). Assim nasceram e cresceram Horácio, Tito Lívio e Castorina. Conheci a tia Castorina na passagem por Luanda e o tio Tito Lívio em Lisboa.

É dele que vou falar. Tito Lívio Costa Alemão (Coimbra?) nascido provavelmente em 1900/1901, fez toda a sua vida em Angola como aliás todos os seus irmãos. Em jovem foi batedor do Exército português participando assim na ocupação de alguns territórios do interior leste, nomeadamente no Cuanhama. Algum mérito terá tido porquanto, já nos anos 70, o Governo português chamou-o a Lisboa para depor num relatório que nunca vi, nem conheço mas que lhe permitiu estar por cá quase meio ano. Era um velho encantador, de fala fácil como se comprova pela primeira (e por mim testemunhada) conversa com a sobrinha, minha avó. “ai Lili que bem que estás! E bonita!”, A avó do alto dos seus setenta e poucos anos corou como uma debutante, “Tio Tito Lívio sempre adulador”- Resposta: “que não Lili, nada disso. Bem me lembro de ti, eras um pêssego!” (e para mim e para a João minha mulher: “sim um pêssego, um pastel de nata!”) E depois, como calculam foi um rosário de recordações e notícias da imensa parentela que por Angola vivia.

A segunda vez com o tio Tito Lívio foi deveras difícil pois o homem furtava-se ao nosso contacto e saira abruptamente da pensão onde se hospedara. qundo finalmente o Tio Quim e eu o caçámos, eleligeiramente envergonhado confessou que uma empregada o acusara de sedução e de ser presuntivo pai de uma critura a nascer. Não negava o "contacto carnal" (sic) mas entendia que com aquela idade, já não era homem para fazer mais filhos. "Olha que se fosse" andaria carregado de titosliviosinhos"!!!

Foi, durante das longas conversas com a avó e sobrinha que me fui apercebendo da figura do trisavô (o “avozinho”, como dizia a avó) que fizera fortuna e se arruinara por culpa de um filho que foi mau gestor das propriedades familiares. Nos seus melhores tempos, provavelmente antes do nascimento da avó, na casa grande havia mesa posta para dezenas de pessoas, familiares ou passantes. Foi assim que, em certa altura apareceu um grupo de boers fugido dos ingleses. O trisavô recebeu-os fidalgamente, alojou-os e perguntou se havia no grupo rapazes solteiros pois tinha, Tito Lívio dixit, "umas familiares solteiras para desencalhar." E assim, a tia Hirondina, irmã do trisavô casou com van der Keller (ou Koeller?) que lhe chamava Hirrondina, carregando nos rr e enchendo-a de filhos.

Por onde andarão esses afastadíssimos parentes? O tio Tito Lívio desapareceu nos idos de 74/75 desconhecendo-se se conseguiu chegar à Namíbia, se morreu de morte natural ou morte macaca, dos seus filhos apenas há a vaga notícia que terão retirado para a Namíbia e daí para sei lá que sítio. Portugal era, para eles algo de absolutamente estranho e estrangeiro. A tia Castorina, tarde o soube, morreu aqui no Porto para onde veio com uma das filhas. Quando fui por elas já não estavam na cidade. Os irmãos da avó todos mais novos do que ela, chegaram sãos e salvos, depois de mil aventuras. Só conheci um deles, o tio Pedro que viera muito antes, logo que se reformou. Um dos filhos, o primo Roberto escreveu vários livros de que ando à procura sob o título geral “Angola dados e factos”. (Pago o que for preciso desde que razoável). René Pellissier, um excelente especialista em história das colónias portuguesas e muito editado por cá (Estampa) elogiou-lhe a probidade e o trabalho miudinho de levantamento histórico feito por um autodidata. O Roberto ia morrendo sufocado pelo orgulho e pelo reconhecimento. Perdi-lhe completamente a pista se é que não morreu pois era dez ou vinte anos mais velho do que eu que, como saberão, já não sou - e de há muito - uma novidade.

Convém lembrar que umas boas centenas de páginas de carácter histórico e muito factuais foram escritas cá, longe dos arquivos de Namibe (Moçâmedes), Chibia, Lubango (Sá da Bandeira)! Boa malha, primo Roberto!

E para terminar mais outra jornada, eis uma história de um parente longínquo que partilhou com o trisavô a aventura da vinda do Brasil para o Sul de Angola. Era homem culto, com apreciáveis dotes de comando e tinha as suas entradas no Paço. Depois de se estabelecer em Sá da Bandeira, casado e com filhos, viu uma senhora igualmente casada, pelos vistos muito bonita e com uns olhos que todos admiravam. Paixão tremenda, abandono das respectivas famílias, fuga para a metrópole onde se instalaram. A esposa abandonada lançou-lhe uma praga: “aqueles olhos e perdição que me perderam o marido haviam de cegar”.

Pois não é que alguns meses depois, um ano talvez, a bela destruidora do lar da ressentida senhora cegou?

Meu Deus que família!

Leitores, cuidem-se! E amparem as velharias familiares que tiverem. E saquem-lhes a história dos mais antigos (em África: dos mais velhos). Verão que a aventura dessas quase desaparecidas figuras já só em fotografia, merece um pausa, um enternecimento, um sorriso.

25
Mar20

estes dias que passam 341

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada décima

Salut y forza nel canut!

mcr, 25 de Março

 

Há pouco, para surpresa absoluta minha, o telemóvel trouxe-me uma voz cavernosa, apropriada à época que vivemos: “Mic, olá!”

Ia caindo para o lado, aliás ia caindo do sofá onde, com uma venda nos olhos, era embalado por umas árias de Vivaldi cantadas por um belíssimo contratenor. Convenhamos, preparava-me para uma sesta reparadora pois desde há muito que sou um adepto dessa deliciosa pausa post-prandial.

Depois, o vocativo “MIC” retrocedeu-me a 1962, muito precisamente aos meses que se seguiram à minha (e de outros 43 amigos e amigas) detenção em Caxias sur mer, mais precisamente no “reduto norte” onde estagiámos uma temporada para afugentar dos nossos corações e, sobretudo, das cabecinhas pensadoras, o vírus medonho do sonho da liberdade. Finalmente, muito poucos, um punhado,  uma mão pouco cheia, chamou-me isso.

Eu explico: nos primeiros dias de prisão, cerca de uma quarta parte dos presos coimbrãos foi atirada para uma masmorra infame, mal cheirosa, húmida, enfim a vera sinopse de tudo o que pensávamos das cadeias do regime. Depois, voltámos ao convívio da maioria e os “aposentos” onde penámos até sair pareciam um palácio. É verdade que havia grades que davam para um corredor e desse corredor novas grades que davam para um pátio. Mas via-se, sentia-se, pressentia-se, o sol, pelo menos o dia e o rumor de outros presos que já tinham direito a sair das celas.

Como não faltava tempo para imaginar qualquer forma de enganar o confinamento, fundei com o Jorge Bretão um “movimento de independência da cela 2”. Razões não nos faltavam, sobretudo uma: As famílias ansiosas, os amigos, muitos anónimos juntaram esforços para enviar para a cadeia pelos visistantes permitidos, mantimentos de todo o género (até leitão apareceu), tabaco em abundância, chocolates, enfim um passadio de primeira para uma prisão de terceira. A nós quase nada chegou pois os da cela grande pensavam que a coisa era dividida em quinhões. Apenas, uma vez, apareceu um frango que o Bretão, açoriano fino amante de livros de mistério, logo decretou: "traz uma mensagem". E não é que trazia? enfiado no cu do frango, um papel "estamos bem .E vocês?"

Ah o doce aroma da solidariedade. Falamos disso mas só em momentos como aquele é que realmente o percebemos...

O "mic 2" durou como brincadeira um máximo de dois dias mas quando narrei ao António Mendes de Abreu, esta facécia, ele ficou alucinado. Em boa verdade, alguma razão lhe assistia. Estivera connosco na ocupação ilegal da sede da Associação Académica. Fora embarcado, sempre connosco, para quartel da Guarda Republicana. Porém, na triagem aí feita não foi contemplado com o bilhete para Caxias. Era demasiado jovem e, ainda por cima, liceal. O Toninho, que viu o irmão ir na leva gloriosa das novas vítimas da repressão, sentiu-se diminuído, quase um pária. Pouco lhe importou que cento e tal de outros ocupantes tivessem, como ele, escapado à escolha da pide. Ele tinha DIREITO a também ser preso, por muito imberbe que fosse (e era-o). O facto de ser liceal, afirmava, não impediu o Octávio Ribeiro da Cunha de ir connosco. Ou o Alfredo Fernandes Martins. Porque é que os cabrões da pide, ao não o escolher, o humilhavam daquela maneira?

Falei com o Bretão e, com a ajuda do Mário Silva resolvemos a situação. Primeiro, nomeámos, o Toninho membro do comité interior do mic em rigorosa clandestinidade. Depois, o Mário conseguiu o impossível: um emblema exclusivo dos ex-presos para o Toninho. De facto, fora o Mário qum desenhara o emblema, umas mãos e uma espingarda com o número 40+4, ou algo no género. Apenas recomendamos ao António que fosse parco no uso do emblema, o que ele cumpriu galhardamente.

A partir daí, ele, e mais alguns outros e raros compinchas, resolveram chamar-me “MIC”. Até morrer, novíssimo, de morte filha da puta, um cancro na língua, o Toninho sempre me chamou MIC. E fomos sempre excelentes amigos. Aliás, sou amigo de todos os Mendes de Abreu a começar pela mãe Judite, mulher admirável e corajosa que também já cá não anda, até ao irmão Pedro que, para mim, é como se fosse um irmão.

Ora, para regressar à historieta (afinal começada, sem eu o saber, ontem) aparece-me vindo das profundezas do tempo e do espaço, este caturra que ao que vejo me lê. Que fazer, como diria o cavalheiro Ulianov? Que não fazer, já que estamos neste tempo suspenso e burro? Pois foi uma hora de conversa telefónica que até meteu uma filha com inclinações para o bloco de esquerda. "Isso passa-lhe", disse eu e a desgraçada que estava à coca bramiu um "velho reacionário". O sacana do pai tinha posto o telelé em alta fvoz ou lá como se chama isso para a família testemunhar aquele rasgão do tempo, aqueles tdias de vinho e glória que também ele tinha vivido.

Claro que eu agora sei tudo daquela gente, eles tudo de mim, da CG, do pequenino Nuno Maria que está em casa com tele-aulas da educadora e notícias dos outros meninos, que as mães lá se organizaram para trocar vídeos constantes da petizada. E até têm “trabalhos para casa”, isto não se faz a crianças de dois anos, mas elas na sua inocência (que cedo perderão) lá fazem os rabiscos enquanto o colégio não reabre.

Em passando este mau bocado, está combinado, havemos de nos encontrar. Até lá ele desejou-me sorte e eu respondi-lhe com o catalaníssimo “Salut y forza nel canut” que são duas coisas que rapazes da nossa idade bem precisam.

E já agora, desejo-vos o mesmo, leitores e leitoras. Elas que se desenrasquem e descubram uma fórmula menos machista que as abranja. E resguardem-se gentes de Deus, resguardem-se. Seria estúpido chegar até aqui e ir apanhar a merda do vírus à conta de um passeio ao sol.

Vai o folhetim, para um punhado de mulheres que conheci, admirei, amei e respeito. Permitam que apenas nomeie a Judite Cortesão, a Maria Assis, a Guida Lucas, a Amélia Campos, a Teresa Feijó e a João Delgado. E a Fernanda Granado e a Adalcina.

“Deus vos salve, rosas!

Lindo(s) serafin(s)...”

E com a cantiga do Zeca, nosso amigo e companheiro daqueles tempos de brasa, me despeço.

*na gravura: desenho de Mário Silva feito em Caxias. O raio do homem fez 39 desenhos diferentes, com os meios de bordo: folhas de papel pequenas e caneta ou esferográfica azul. Um para cada companheiro. Poderia eu, alguma vez, deixar de, enternecidamente, o lembrar? 

24
Mar20

estes dias que passam 340

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada nona

Efemérides

mcr 24 de Março

 

Ai quanto eu gostava de não ser um caso de risco nesta conturbada época! Mas sou que os anos passam e de que maneira! Hoje dei comigo a recordar não apenas o “dia do estudante” (o verdadeiro, o que ficou) mas também com um ano e dois dias de distância o “primeiro encontro nacional de estudantes” (Coimbra 21 e 22 de Março de 1961).

Qualquer destes eventos foi proibido, melhor dizendo, o "encontro" de Coimbra foi proibido mesmo antes de começar, o "dia" passou a proibido ao fim da tarde de 24.

Em boa verdade, proibições era o que nunca faltou durante o “Estado Novo”. Uma pequena pandilha bem humorada de que fiz parte, editou um pequeno caderno onde logo na primeira página se afirmava “que, regra geral, era tudo proibido salvo as seguintes excepções...”

E que mesmo essas para serem permitidas necessitavam de lei expressa na falta da qual competia a quem de direito estabelecer se um acto, uma situação, um livro ou até mijar para o penico estavam ou não abrangidos pelo diploma que se seguia.

Perdi, ou alguém resolveu que eu perdesse, a minha cópia desse pobre documento que só os nossos 18/20 anos justificavam.

De resto, perdi, ou foi-me perdido, uma boa quantidade de coisas, mormente livros. Nem conto um bom quarteirão de publicações que a pide me levou numa das sortidas à casa onde vivia. Entre eles (tenho uma lista incompleta) os judiciosos agentes deram como perniciosos três títulos: “Anthropologie politique” de Georges Balandier, “Teoria de la classe ociosa” de Veblen e “Do assassínio considerado como uma das belas artes” de Quincey a que juntaram, cúmulo dos cúmulos!, “Mãe Negra” de Rodrigues Júnior, um jornalista moçambicano nada afecto às independências negras.

No entanto, as pilhagens muitas vezes curiosas da polícia eram consideradas um risco possível pelo que nunca contei estes livros na lista extensa dos “desencaminhados” da minha biblioteca. E nesse grupo estão “Electrónicolírica” de Herberto Helder, “Assim se faz a História” e “O perfil da estátua” de Eduardo Guerra Carneiro, “Passage de l’homme” (duas vezes!) de Marius Grout, uma obra curiosíssima que ganhou o Goncourt bem como mais umas dúzias que não vale a pena mencionar. O livro do Hélder nunca mais o apanhei sequer a preços inflacionados como todas as suas primeiras obras. Do Eduardo consegui comprar o primeiro mas nunca mais vi o segundo que foi o seu primeiro livro perpetrado entre Vila Real e Coimbra e que ele impingia aos amigos. Era uma obrinha que ele nunca mais recuperou mas que tinha o especial aroma de ser um livro de adolescente e, mais, muito mais, escrita por um querido amigo.

Voltando, porém, às efemérides. O encontro de Coimbra permitiu-me conhecer o Medeiros Ferreira e o Nuno Brederode. Há um processo da pide sobre mim (eles são mais de uma dúzia!) onde me é apontado o facto de ter sido eu quem escondeu o Medeiros depois deste ser intimado a sair imediatamente de Coimbra. Não me lembrava deste feito mas se a pide vigilante o afirma, tomo-o como certo. Mesmo proibido, o “encontro...” realizou-se e tomei parte activa nele.

O “dia do estudante” no ano seguinte começou normalmente. Ou melhor, um dos grupos de Coimbra que rumou a Lisboa, fê-lo de comboio. Já não recordo como mas alguém sugeriu que a certa altura, já nas imediações de Lisboa (braço de Prata?), mudássemos para um suburbano que nos depositou sãos e salvos em Entrecampos a dois passos da Cidade Universitária. Em boa hora, o fizemos, porquanto a polícia tinha um aparatoso dispositivo à nossa espera na estação terminus da viagem e nós, todos de capa e batina, seríamos caçados como coelhos. De todo o modo, a carga de porrada prometida para a chegada, não nos poupou horas depois em pleno Campo Grande a caminho de um restaurante Castanheira onde nos aguardaria um jantar pago pelo Reitor Marcello Caetano que, aliás, se demitiu, desconfio que mais insolidário com Salazar que solidário com a malta. De todo o modo, tiro-lhe o chapéu pois a demissão deu brado nacional e internacionalmente.

Entre as várias consequências da crise de 62, conta-se a prisão de 44 estudantes de Coimbra que foram prestamente enviados para Caxias onde passaram uma temporada cuja duração desigual não ultrapassou um mês.

Caxias, parecia a praia de Oeiras na semana passada. Estava lá um magote de gente desde a malta do golpe de Beja, até uns ferroviários (nossos vizinhos do lado esquerdo) e um numeroso grupo de alentejanos do lado direito. Falo evidentemente das famosas casamatas subterrâneas. Com a sorte que tenho, passei, com mais uma dúzia de companheiros, três ou quatro dias, numa cela infecta, fria, miserável e suja. Depois, juntaram-nos aos restantes e só isso já me pareceu meia libertação.

Caxias estava, como disse, atulhada. Tanta gente e bem mais importante que nós, que fizemos o que queríamos, enfim o que queríamos fazer enquanto prisioneiros. Éramos novos, sangue na guelra e despreocupados. Recordo que, de certo modo, nos divertimos, se é que a palavra não assusta algum leitor mais grave. E mais pernóstico, que os há (não entre os meus habituais clientes, claro). Organizámo-nos sob a chefia benevolente do Carlos Mac-Mahon que nos deu um curso completo sobre as origens da luta angolana. O Mac usava um colete dourado directamente sobre a pele. Para baixo vestia uma espécie de calções, mais cueca que outra coisa porque alegava que tinha calor. E contava anedotas espantosas que até os guardas escondidos ouviam. E riam-se a destempo, aquilo demorava a entrar-lhes na cabeçorra lenta. Toda a gente tinha tarefas, desde a vigilância aos pés lavados (inspeccionados pelo falecido Luís Bagulho) até umas aulas de ioga ministradas pelo Jacinto Rodrigues (perdão professor doutor J R!) mas apenas com um discípulo, o pintor Mário Silva (que também já lá vai), aluno de Matemáticas muito mas muito demoradas. Todavia, desenhou que se fartou e todos nós temos um original dessa altura. Além do Mac, orfeonista eterno (na altura já estava formado), havia mais quatro cantores também do mesmo organismo autónomo  e todos - ou quase todos -   açorianos: Jorge Ormonde, Zé Ferraz Alçada, Jorge Bretão e Germano Rego de Sousa: estes dois últimos cantavam muito bem modas açorianas e trocavam os seus cantos com os alentejanos do lado que nos devolviam modas de lá. Escusado é dizer que eu sou, e serei até morrer, um incondicional destes dois cantares. E choro que nem um cabrito desmamado ao ouvi-los. Deste grupo (os quarenta caxos) a que há juntar quatro raparigas (as quatro uvas) já há vários faltosos, provavelmente uma dúzia. Mesmo temendo relembrar o slogan aviltante “Stalin está vivo nos nossos corações”, atrevo-me a dizer que eles estão vivos e jovens e irreverentes e generosos nesta minha pobre víscera que, porém, bate desalmadamente quando os lembro. Ou será que é de mim que me lembro, da minha “juventud divino tesoro” (tomem lá Rúben Dario, ó desprevenidos, incluindo a leitora que, agora, com toda a razão. me chamará elitista mesmo se o Rúben mereça ser conhecido como um dos maiores poetas do século XX).

Foi a lembrança, apesar de tudo grata, desse tempo de reclusão, que me levou a meter este folhetim na série com que petendo testemunhar "estes dias que passam" e, se possível animar os que me aturam lendo-me, favor que me aquece a alma ou o que quer que seja e exista num relapso de todas as fés.

A fotografia: Encontro Nacional de Estudantes, Coimbra, 1961.Da esquerda para a direita, desconhecida lisboeta, Parcídio Sumaviele (advogado e político), Gomes?, Artur Cutileiro (médico), Caeiro (jurista) , Tó Rocha de Andrade (advogado), desconhecido lisboeta ?, Fausto Monteiro (advogado), Mário Roldão (médico) , Helder Costa (encenador e autor dramático), António Barreto (sociólogo), outro lisboeta, este vosso criado, e um desconhecido. Saravah, manos!

Em memória de Abilio Vieira, Alfredo Soveral Martins, Alfredo Fernandes Martins,  José Martins Baptista, José Augusto Rocha, Francisco Delgado, José Monteiro, Irene Namorado, Jorge Bretão, Luis Bagulho, João Quintela, Mário Silva e Carlos Mac-Mahon. E do António Mendes de Abreu que só não foi para a cadeia (ao contrário do irmão Pedro) por ser demasiado novo. Esse insulto ele nunca perdoou à pide. 

23
Mar20

estes dias que passam 339

d'oliveira

Diário das semanas da peste

Jornada oitava

Aventurada de uma quase centenária

mcr, 23 de Março

 

Quase centenária não é um exagero. 97 anos feitos e perfeitos, os 98 ali ao virar do fim de Julho. Pode dizer-se que além de ser uma bonita idade, desta feita o cronista não exagerou.

Ou melhor: excedeu-se, no entender da retratada (se ela lesse estas páginas) porquanto para a minha Mãe, que é dela que se trata, a velhice é uma doença desagradável. Alguma, escassa, razão terá. Anda com dificuldade, apoiada num bengalão com três pés, ouve mal e vê muito pouco.

Destes males o que mais a desgosta é a perda de visão que não tem remédio. Ela foi sempre uma leitora entusiasta e até há bem pouco tempo, dois, três anos lia aplicadamente o jornal e as revistas que ao fim de cada mês eu lhe trazia. A saber, os suplementos do Publico (sextas sábados e domingos), a revista do Expresso e várias publicações e suplementos do El Pais e do ABC. E a Visão, contribuição do meu irmão.Com isto, com os noticiários radiofónicos e os da televisão, a excelente senhora estava a par de tudo o que se passava. A televisão pouco vê pelas razões já apontadas, a leitura é impossível pelo que está reduzida ao rádio que ouve ao deitar e de manhã cedo antes de se levantar.

Cumpre dizer que, mesmo com estas (quase) naturais dificuldades trazidas pela idade, ela não desarma. Pergunta e a cada resposta desfia um rosário de recordações e memórias que nos deixam a todos espantados. Pior: boquiabertos.

Vejam só: há uns anos, estávamos à conversa e ela começou a falar-me de Nisa onde esteve por duas vezes quase um ano. O meu avô era alentejano e militar e, de quatro em quatro anos, gozava a chamada licença graciosa, na terra natal. Da primeira a Mãe, et pour cause (teria menos de um ano...) não se lembra, coisa aliás que muito a aflige. Da segunda, recorda tudo e nesse tudo incluiu-se esta historieta. Um dos grandes amigos do avô quando via a minha mãe a passear com a criada que tomava conta dela, oferecia-lhe cinco tostões para rebuçados. Obviamente, essa gigantesca soma era rapidamente convertida na loja mais próxima em caramelos ou no que fosse. O referido amigo do avô tinha uma criada que volta e meia ia a casa dos meus avós com uma travessa de arroz doce, um cesto de ovos, alguma galinha, enfim com mimos. A rapariga tinha um namorado com quem viria a casar mas já depois da saída dos meus de Nisa.

A Mãe gosta de contar uma história, apoiada factualmente. Portanto, o amigo do meu avô e criada foram identificados com precisão mas o raio do namorado pregou uma partida à memória vetusta da velha senhora. Não se lembrava do nome dele! A conversa murchou pois aquela súbita falha adquiria ao olhos da maternidade um tom sinistro e proporções cataclísmicas. “Ai como eu estou!”, lamentou-se, “a velhice não tem nada de bom!”. Tenti distraí-la mas o serão parecia perdido. Subitamente, o fim duma boa hora, sobressaltou-se e quase gritou “Alberto, Alberto Maçanico! Afinal, não estou assim tão caduca!”

Tive vontade, péssimo filho que sou, de lhe bater. Então ela recordava um nome de um quase desconhecido ao fim de oitenta e tal anos e achava isso não só natural mas obrigatório?

Para além desta cabecinha de oiro, a boa senhora ainda faz tudo ou quase em sua casa onde vive só. É verdade que já tem contratada (e a receber por inteiro) uma criatura que terá a missão de, em ela querendo, passar a viver lá em casa. Mas até agora, a Mãe ainda não achou necessário. A empregada, vai lá quatro dias por semana, faz o almoço, dá uma volta à casa e pelas três e meia quatro da tarde, ala que se faz tarde. Nos dois dias em que não vai há uma outra, mais antiga, que a minha Mãe nunca quis despedir. “Coitada, está cá há tanto tempo! E olha que é útil pois se a outra for à terra (a outra é moldava) como é que eu me safo?”

Mesmo com duas empregadas que aliás não se cruzam nunca se é que não se ignoram, não se pense que a idosa (ai se ela me ouvisse!...) não dá conta das coisas da casa. Faz a cama dela, vigia e ajuda a taefa de fazer a minha cama, pois entende que eu não tenho jeito para tal, melhor dizendo que eu a faço às três pancadas. Apanha-me fora e zás! Eis que as duas dão a volta ao meu quarto. O mesmo se passa com a loiça, mormente a do jantar. Eu achava que a podia lavar e a minha Mãe parecia de acordo. Mal me pilhava fora da cozinha, pimba!, lavava tudo pela segunda vez. Desisti e não tenho remorsos.

A única pessoa de quem ela aceita ajuda é a CG. Em indo comigo, a tarefa da arrumação da cozinha é uma romaria. As duas juntas demoram um par de horas perdidas em conversas tremendas e barulho de louça a ser torturada.

Feita esta longa apresentação, e tendo já referido que, além da visão quase perdida e da surdez, a Mãe anda com dificuldade (Já não sai à rua: não quer ir de cadeira de rodas) embora faça hectómetros dentro de casa. Isto desgosta-me pois sei quão gulosa de sardinhas assadas, de cozido à portuguesa e de pratos chineses ela é. Mas nem essa miragem a faz sair da casca.

Ora, há coisa de dez dias, houve um acidente no prédio onde ela vive. Incendiou-se a caixa de electricidade de uma habitação e isso teve como consequência uma falha geral de luz, de elevadores e de água. A coisa ocorreu de manhã cedo, muito cedo.

Entõ querem lá ver que a prisioneira do terceiro A, ela mesma, entendeu que corria perigo e devia sair de casa? Ainda não ouvi de viva voz, a odisseia de uma senhora de 97 anos (feitos e perfeitos) que desceu amparada ao bordão três inteiros andares e mais um intermédio, até atingir a rua, o passeio, a porta do supermercado que faz parte do conjunto de quatro torres onde ela vive e aí sem um ai, esperou pacientemente que alguém desse por ela e prevenisse o meu irmão ou a cunhada dele que vive um andar acima e que, de facto, ao olhar por uma janela, a viu e prontamente a foi apoiar.

As obras durarão no mínimo três semanas pelo que a Mãe aceitou ir para casa do meu irmão para também migrou a cunhada e a sogra dele.

Quando lhe telefonei pela primeira vez depois do acidente, disse-lhe que ela se tinha evadido da auto prisão em que vivia. “Como o Conde de Montecristo”, respondeu-me. “Nem mais”, retorqui, e pensei agradecido que, de facto ela se comportara como uma personagem de Alexandre Dumas, se bem que este nunca tivesse prestado muita atenção às personagens femininas.

A leitora de ontem fará o favor de notar que, mais uma vez, desta feita com ajuda maternal, referi uma livro popular .

Nisto de popular, convém fazer uma distinção. Há povo e povo, como ontem, na Póvoa. Em Carcavelos ou Matosinhos se viu. Umas centenas de imbecis irresponsáveis que mereciam apanhar com o vírus em cima, entendeu vir passear para as esplanadas. Em multidão. Como se estivéssemos num dia normal de primavera!

Também um senhor pároco, de uma aldeia do Centro, entendeu celebrar uma missinha ao arrepio das indicações do bispo. E interrogado pela televisão, encheu o peito e prometeu reincidir. É como os fanáticos ultra-ortodoxos de Israel que, pura e simplesmente, fazem caso omisso das recomendações governamentais.

Não é que eu deseje a morte de quem quer que seja mas se vão morrer pessoas porque não estas em vez dos pobres velhos dos lares ou de outros que receiam o corona que o pariu e não querem morrer?

 

Dois leitores fixes, generosos e bem humorados apontam-me aescritora Corin Tellado que eu  não terei apontado o nome. E um deles junta à lista dos policiais Simenon e Rex Stout . E junta muto bem. Abraço a ambos

 

22
Mar20

estes dias que passam 338

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada sétima

mcr, 22 de Março

A ler vale tudo? Quase!

“o matrimónio esperava-o sentado no sofá...”

 

Uma amável leitora disse-me que eu era um leitor muito elitista. “Bom gosto, mas elitista!”

Ai leitora minha, que engano! Eu poderei ser elitista em muitas coisas, desde o não gostar de futebol até (já me criticaram) ao bridge, ao chá branco, ao sumo de laranja pela manhã,

No capítulo do vestuário, já me deram forte e feio no facto de usar gravata ou, na falta dela, de lenço de pescoço. Eu bem tento defender-me replicando que tenho frio no pobre gargalo mas a desconfiança persiste. Uma outra amiga atirou-se que nem um demónio da Tasmânia ao hábito de usar calças de bombazina!

Um dos frequentadores da habitual esplanada, neste momento encerrada, viu-me com capote alentejano e riu escarninho. Pensei que fosse pela pele de raposa mas não. O criaturo achava que o alentejaníssimo capote era prova de insuperável marialvismo. E reforçou a sua convicção quando me viu de boné.

Arrium porrium catanorum cunque! (tomem lá macarrónico ó críticos maliciosos!) às vezes sinto-me um autêntico ET! Serei?

Voltando à vaca fria, eis que vou confessar à leitora primeira um pecado horrendo e mortal: eu sou um adepto dos vícios solitários (ler e escrever, bem entendido que para o resto gosto de partilhar. Ou gostava que agora, qualquer mulher olhar-me-á de alto e baixo e resmungará um “pfff” desdenhoso seguido de “olha o velhadas careta que mal se aguenta na tripeça a tentar a grande volta ao bilhar grande...”

(Re)voltando às leituras em que me espojo e exponho, sempre lhe vou dar uma lista não exaustiva mas verdadeira.

Começando pela trilogia sagrada das primeiras leituras na Biblioteca Pública Municipal Fernandes Tomás: Júlio Verne, Emílio Salgari e Edgar Rice Burroughs (o criador de Tarzan) . Li-os de fio a pavio, apaixonadamente e estão agora na minha biblioteca em lugar de destaque. Dos Vernes tenho até –mesmo incompletas- três edições desde a normal (Companhia Nacional Editora, antes da Corazzi e finalmente da Bertrand sempre com encadernação de editor mas cpas de várias cores) até à colecção “Horas Românticas” (David Corazzi, sec XIX) que se distingue por trazer todas as gravuras da edição francesa. Finalmente, compro quando encontro as edições francesas, a Hetzel, claro mas não só. E várias obras de referencia sobre Verne, incluindo um álbum da Pleiade!

Do Salgari tenho a obra quase completa, toda editada pela “Romano Torres” em fornadas diferentes desde as de capa azul escura até às muito coloridas dos anos quarenta. O Burroughs está também incompleto mas o que há é tudo da colecção Terramarear.

Continuando nas paixões mais antigas, andam pela estante os “Lagardere” (Paul Féval) e os seus concorrentes de Ponson du Terrail, capa e espada, claro. Obviamente, não falta o Dumas, quase todo em francês, incluindo vários ensaios e dicionários sobre o personagem. Aliás, também tenho as “Memórias” do vero d’Artagnan bem com as de Richelieu.

Sou um frenético leitor de “policiais” pelo que a colecção Vampiro está fortemente representada mas não faltam edições espanholas, francesas (a maravilhosa “série noire”) e italianas.

Durante muitos anos, fui leitor de ficção científica e tenho todos os grandes clássicos publicados pela Livros de Brasil (colecção Argonauta) além de outras edições de variada procedência e língua (Tolkien, por exemplo).

Há uns metros de banda desenhada, incluindo alguns exemplares de “O Mosquito” pois coligi e encadernei cuidadosamente o “capitão Meia Noite”. E só não tenho O Mosquito, O Mundo de Aventuras e o Cavaleiro Andante por ainda não os ter encontrado a preço razoável, em bom estado. E por falta absoluta de espaço!

Se o euromilhões topa comigo, juro que compro uma casa onde possa acrescentar uma biblioteca onde caiba toda a que tenho e mais outro tanto mesmo se não acredite durar o tempo suficiente para tal aventura.

Isto chegaria, querida leitora, mas falta a cereja em cima do bolo.

Já aqui escrevi que passei uns largos meses prostrado numa cama com uma tuberculose. Eu era jovem demais para ler francês ou qualquer outra língua pelo que boa parte da biblioteca do meu avô estava fora do meu alcance. Todavia, havia a minha avó, aliás a madrasta do meu pai, que a verdadeira foi na pandemia da gripe espanhola ou na epidemia de tifo que se lhe seguiu. A excelente senhora tinha uma montanha de livros cor de rosa, provavelmente duas ou três centenas. As colecções tinham nomes mimosos, como “Pérola” “Orquídea” e não sei que mais. Aviei, enquanto doente sem esquecer o imortal “John chauffeur russo, e isto não é uma desculpa, um bom cento de obras de Trini de Figueroa, Barbara Cartland” e sobretudo uma autora espanhola que as batia a todas e há bem pouco tempo foi alvo de uma homenagem de vários autores “sérios”. Tenho o raio do nome debaixo da língua...

Portanto, leitora gentil, psso ser elitista mas nunca, or nunca, me furtei a leituras do mais popular que há (ou havia). Mais, muitos dos autores que citei, incluindo os não citados policiais, são bem mais interessantes e escrevem melhor do que boa parte dos consagrados com tabuleta para rua na praça das letras. Poderia juntar aqui uma lista gorda e sempre incompleta de “grandes nomes” que impenitente leitor que sou fui obrigado a abandonar ao fim de uma ou duas dúzias de páginas. Até já pensei em ter uma estante para estas obras. Fica para a futura biblioteca que farei com os cacauzinhos do euromilhões. Garanto-lhe que ficará surpreendida.

Há uma boa vintena de anos, um dos nossos mais conhecidos (e mais chatos) ficcionistas referia-se depreciativamente a um dos mais extraordinários autores de ficção policial, Raymond Chandler, dizendo que haveria por aí umas mediocridades “que escreviam como ele”! Eu não sei se o celebrado tonto alguma vez leu Chandler mas garanto que se leu, não percebeu pois se há algo que este autor tem é um estilo, um ritmo e um argumento que resistem a tudo mesmo à pior tradução.

No tempo miserável por que estamos passando, eis uma boa recomendação para quem se arreceia da chamada ”grande literatura” (entre aspas, claro). Leiam os mestres do policial, Chandler, Christie, Hammett, por exemplo. Mas também chester Himes, Leonardo Padura, Simenon, Tony Hillerman, Agatha Christie, Andrea Camileri, Manuel Vasquez Montalban, os primos Ellery Queen, a dupla Frutero e Lucentini e mais dois bons quarteirões de autores.

Poderia fazer outra lista de FC mas fico-me pelos Azimov, A C Clarck, J Brunner, Surgeon ou Bradbury, deixando de fora outro quarteirão.

Eu sou um leitor irremediável, pecador, relapso e guloso. Um devoto de D. Gutenberg.

Estão em casa, chateados como pescadas? Leiam um livro. Dois, dez, mil. E que o vírus sacaninha fique longe!

(nota: a frase entre comas junto do título é de um livro que já não posso identificar mas que pertence à multidão dos lidos no meu leito de tuberculoso. Obviamente, o/a cretino/a do/a tradutor/a, sabia pouco espanhol pois, na língua do abençoado Cervantes (ai o elitista!) “matrimónio” também quer dizer “casal”. No jargão dos tradutores chamam-se a estas palavras “falsos amigos”.)

21
Mar20

estes dias que passam 337

d'oliveira

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Diário das semanas da peste

Jornada sexta

mcr , 21 de Março

 

 

 

A Primavera começou mas pergunto-me se alguém deu por ela. E não me venham com essa de que “a primavera é um estado de alma” que eu já sou macaco de rabo pelado há muito. Também não dou para o peditório ultra romântico, melhor dizendo, ultra parvo de engrinaldar a estação com as mais desvairadas florinhas da retórica sentimental.

Em boa verdade, estes deveriam ser os primeiros dias do ano civil. Por isso é que Novembro vem de nove e Dezembro de dez. O ano começaria com o fim dos frios rigorosos, das noites longas, com o recomeço dos grandes trabalhos agrícolas. No entanto, terá havido um papa qualquer que entendeu criar um calendário e desnaturou a marcha simples dos dias. Se foi assim ou doutra maneira, tanto me faz. Eu, em podendo, e como antigo aluno interno de colégios onde o padres mandavam, sempre que posso ferro uma canelada no clerical, vingando-me daqueles calabouços chamados “internato” para onde éramos mandados os mais relapsos ou os que tinham a família longe dos locais onde era suposto praticar-se o ensino secundário.

Peregrinei por três instituições dessas no fim da minha vida liceal. De facto, a família fora para África, andava eu no 3º ano e uma vez concluído o quinto, era mister saber para enviar o rapazinho inocente e estouvado. Eu preferia Lourenço Marques, mas os meus pais, coimbrinhas ferrenhos, entenderam que a “lusa Atenas” seria um destino ideal. Aportei, pois aquela cidade bisonha, cheia de capas e batinas, trupes, futricas e o que mais lá medrava (ou merdava?).

Dei com os costados no austero liceu D João III (que agora, sabe-se lá porquê, se chama José Falcão, ignorando-se que o pio rei fizera pela universidade e por Coimbra mais do que todos os antecessores juntos, dotando as “Escolas” de vários colégios novos (os colégio da rua da Sofia que ainda hoje lá estão mas com funções diferentes – e que bem que dicava se, restaurados, se se convertessem em excelentes residências universitárias dotadas de todos os requisitos modernos) e dando uma forte ajuda ao corpo professoral.

Todavia, o republicanismo parolo, a ”reversão” salazarista e o ciclone do 25 de Abril converteram o liceu de novo em escola José Falcão a precisar de obras urgentes.

Neste abençoado país, a mudança é só de nome deixando tudo o resto, igual ou pior...

As aulas ainda mal tinham começado e veio uma esquecida pandemia, a gripe “asiática”. Não lhe escapei e, carregado de febre, meti-me num comboio ronceiro para a Figueira onde a tia Néné e o tio Marcos me acolheram, trataram e mimaram.

Voltei para Coimbra, aprendi a jogar póquer, King, bilhar livre e matraquilhos e a malquistar-me com o latim e o alemão. Resultado: passei o 3º período em Braga a idolátrica (obrigado Luís Pacheco) no “internato anexo” ao liceu. Aquilo era uma excepção absoluta no ensino público oficial. Destinava-se aos alunos vindos de todo o Minho para os estudos liceais. Dirigia-o um senhor padre Alípio (juro que é verdade) que nos vigiava as longas horas no salão de estudo e obrigava à missinha dominical na capela do solar dos Infias.

Os meus progressos nas duas línguas foram mitigados pelo que no ano seguinte, a família, melhor dizendo o meu avô paterno, entendeu dever passar a “uma fase superior de luta”. E caí no Colégio dos Carvalhos, também dirigido por padres. Contraí lá uma tuberculose que me prostrou meses seguidos na cama em casa. Nos exames que fiz, tive muito bons resultados mas o latim e o alemão foram deixados de lado. Nem outra coisa era possível pois o ensino daquilo exigia aulas presenciais.

Passei o Verão, três meses óptimos em regime de meia manhã de estudo. Às nove marchava para uma explicação de latim com um magnífico professor (o dr. Víctor Guerra, que tem direito a rua com o seu nome) e às 10 uma excelente e competente senhora ensinava-me os mistérios do teutão. Pouco depois das onze estava na praia com os meus amigos e amigas e irava um pouco da tarde, depois do almoço para os tpc que os meus explicadores não perdoavam.

O resto do meu 7º ano foi passado no Colégio Almeida Garrett, no Porto, sempre em regime de internato, claro. Também havia alguns padres mas, apesar da oração da manhã na capela e da missa dominical, a coisa era menos religiosa. E, volta e meia, conseguíamos fugir de noite para andar desamparados por um Porto fechado a rapazolas como nós.Essa glorioa aventura terminou quando um dos fugitivos contou ao pequeno almoço que na noite anterior nevara. Era verdade mas a neve durara pouco e caíra durante as horas de sono. Inquérito feito, houve que se chibasse e fomos todos apanhados.

Devo dizer que, por essa altura, descobri que se me tornasse sócio da “Juventude Musical Portuguesa” ganhava uma horas de liberdade semanais. Claro que era preciso ir aos concertos mas havia intervalos, raparigas melómanas e o ir e vir arrastava-se o mais possível. Aproveito para agradecer à dr.ª Ofélia Diogo Costa (que Deus a guarde ao seu lado direito) esta oportunidade de começar a ouvir mais música do que um adolescente borbulhento entende dever escutar. Mais tarde, vinte anos depois, encontrei as duas filhas da excelente senhora e apoiei o mais possível, enquanto Delegado Regional do Norte da SEC, os seus esforços para manter uma temporada de música no Porto.

A minha passagem por esses locais de limitada, limitadíssima, liberdade tiveram uma consequência. Passei a desconfiar de tudo o que cheirasse a quartel, convento ou agremiação centralizada e autoritária, incluindo clubes meritórios (como o Ténis da Figueira, o Clube de Moledo, um outro ali para Miramar, o Clube de Bridge e por aí fora. Para citar o magnífico Marx (Groucho, evidentemente!) desconfio de qualquer clube que me aceite como membro. E a minha passagem por lá é sempre curta. Do de Moledo, apenas posso dizer que durante alguns anos só lá fui pontualmente uma vez por ano para pagar a quota anual e tomar uma bica. Nos outros a coisa foi mais ou menos semelhante. Quando me tornei mais descarado, recusava agremiar-me e explicava aos caridosos indivíduos que me queriam arregimentar esta minha impossibilidade. E citava, de novo, Groucho, para tornar a recusa menos ofensiva.

Durante a minha vida política, no antigo regime, fui internado várias vezes em alojamentos do Estado desde as enxovias do Tribunal de Coimbra (um horror lúgubre e subterrâneo) a Caxias onde conheci não só as casamatas como também os “quartos” individuais onde penei meses e meses. Uma vantagem tirei destes últimos locais. Foi lá que li o Proust numa edição da livros do Brasil em sete (?) volumes e o “Ulisses” de Joyce na tradução brasileira e publicado também pela “livros do Brasil”. Sou um entusiasta do segundo que só reli outra vez na tradução de João Palma-Ferreira. O primeiro recomecei-o no original francês mas ainda me falta quase um terço (em boa verdade tenho-o lido na edição da Pleiade e o papel bíblia por um lado e o tipo de letra por outro são, em parte, pequena parte, responsáveis por este desleixo) mas Proust por muito Marcel que seja não chega ao irlandês.

Dos tempos de colégio, conservo uma boa recordação musical dos Carvalhos. Naquele tempo estava no auge o primeiro rock n roll que nós ouvíamos graças a um colega mais abonado que todas as semanas comprava um disco. Era conhecido pela alcunha de “Discóbolo” o que prova que alguma coisa sabíamos da história artística da Grécia que nos chegava por via do António Mattoso autor do manual para o 3º ciclo dos liceus. Ainda hoje, oiço enternecido e saudoso, Jerry Lee Lewis, Buddy Holly, Fat’s Domino, Chuck Berry, Eddie Cochran para não falar nos Platters ou, claro no Elvis Presley! E muitos outros, agora tintados pela cor dos anos passados, um sépia quase rosado, a cor das fotografias de praia das namoradinhas daqueles anos ansiosos e felizes.

Também desse tempo vem o meu absoluto amor por Rainer Maria Rilke. Durante semanas inteiras copiei para um caderno todos os poemas constantes da edição de Paulo Quintela (2 volumes) que o tio Marcos me emprestara. Nunca lhe agradecerei suficientemente.

Tudo isto, esta longa vijem pelo passado para vos dizer que, mesmo nestes dias tão esquecidos da primavera e das suas promessas, se pode passar um momento feliz. Basta um livro, um disco, uma emissão de rádio ou de televisão (destes últimos relembro a excelente “smooth fm” e o não menos notável Mezzo (acessível pelo menos para quem usa a NOS).

“Saúde e fraternidade”, como diziam os velhos republicanos, é o que vos desejo

* na gravura: "Jail house rock" de Elvis Presley

 

 

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