Au bonheur des dames 411
Ora explique-me lá, Sr.ª D. Ana Catarina
mcr, Março, 2020
O PS, de que a senhora citada na epígrafe é uma das mais repolhudas figuras, apresentou o nome do doutor Vitalino Canas para juiz do Tribunal Constitucional.
Percebe-se mal esta candidatura de alguém que exerceu sempre funções políticas mesmo se, como afirma, tenha andado quarenta anos a preparar-se para tão meritória magistratura que, curiosamente, só existe há trinta e oito.
Quarenta anos, provavelmente mais duros, foi o tempo que o povo eleito vagueou por um pequeno deserto entre o Egipto e a terra do leite e do mel. Percebe-se mal que, mesmo nesses tempos longínquos, andassem tanto tempo às voltas quando, e na mesma época, os exércitos egípcios e os caldeus se guerreavam várias vezes nessa zona e nas adjacências. Pelos vistos, o que era um passeio para estes povos ou para as suas tropas foi um labirinto para o povo judeu.
O Doutor Vitalino Canas tem um percurso variado mesmo se nos últimos 25 anos tenha andado sempre entre o Governo e a Assembleia da República. Além dessas tarefas pesadas foi advogado e sócio maioritário de uma sociedade de advogados, gestor de empresas e mais não sei quantas coisas. Ao ler-lhe um apressado currículo na internet fico desnorteado com tanta actividade q que se deve juntar a citada preparação para juiz. Mesmo dando de barato os dois anos em que o TC estava longe a vaguear no ventre infecundo da política nacional.
De todo o modo, o doutor Canas soube, e desde há algum tempo!, que o seu nome não era benquisto pelos eleitores na AR. O BE primeiro, por obscuras razões (não fora consultado!...) e outras formações depois foram anunciando a sua recusa. Do PPD veio a notícia de que o partido não se sentia “confortável” com a candidatura. Nem mesmo isso refreou o entusiasmo do candidato ou fez reflectir o partido apoiante. Autismo, cegueira, mero olho vesgo ou tolice rematada?
Em boa verdade, a prudência aconselhava que, perante essa evidência, o candidato se retirasse da lide para evitar a vergonha do chumbo. Não o fez. E, pelos vistos, a direcção do PS personificada na senhora Mendes, insistiu também ela na ousada proposta.
O resultado foi ainda mais deprimente do que se esperava. Atente-se só neste vago exercício: O PS tem 108 deputados e a lista por ele apresentada obteve 93! Em boas contas, isto significa que sem qualquer voto favorável de outra formação (o que não parece crível) 13 (feio número) deputados (mais de 10% da bancada) também não se entusiasmou com Vitalino. E aproveitando a boleia do voto secreto, pimba, deu-lhe no toutiço.
Conviria recordar que, para ser eleito, o candidato teria de somar 146 votos. Isto já nem é uma derrota. É Alcácer Quibir! É o terramoto de Lisboa! É uma tourada à antiga portuguesa...
Ainda não consegui saber a reacção do candidato mas já fui atropelado pela senhora Mendes.
Pelos vistos, a culpa é da oposição, melhor dizendo do PPD! Os 13 infiéis socialistas parece que se escapam entre as gotas da chuva, pobres inocentinhos.
A srª Mendes acusa urbi et orbe, tudo e todos. E de vários delitos todos maléficos. Os deputados (exceptuando o quadrado manco dos fiéis) são um bando de relapsos e não percebem nada da vida democrática. E só sabem “boicotar o normal funcionamento das instituições”! Se a Sr.ª Mendes fosse venezuelana e se chamasse Maduro não diria mais nem melhor. Mas, para desgraça nossa, a criaturinha é portuguesa, nacional, “nossa”. E disse estas enormidades sem ninguém, até ao momento, lhe emendar a mão ameaçadora e a língua atrevida.
E, já agora, haja alguém que lhe explique o que é a democracia e o que é um parlamento, mesmo este.
No meio desta confusão, uma pessoa de que sou amigo e que considero (António Correia de Campos) também foi chumbado para o Conselho Económico e Social. Este não é o seu primeiro desaire visto que há meses já lhe tinha sucedido idêntica desgraça. Desta feita, o resultado foi ainda pior.
Também, por mais voltas que dê à cabecinha pensadora, não entendo a teimosia dele em se apresentar. Ainda por cima, já não é nenhuma criança, andará pelos 77/78 anos, idade provecta que aconselharia tarefas menos trabalhosas. E, sobretudo, ACC é um respeitado “senador” da República, com um longo e louvável percurso que não mereceria esta “afronta” mesmo se ele já pudesse antever este resultado que, insiste-se, já não é uma novidade.
Voltando ao outro personagem deste drama de faca e alguidar, devo dizer que o doutor Canas me é completamente indiferente. Raras vezes dei por ele e nunca pelas melhores razões. A criatura não suscita sequer a vaga simpatia que, às vezes acompanha os derrotados. Pelo contrário, as suas declarações pareceram-me arrogantes e desafiadoras. Eu, para o peditório da empáfia, nunca dei e não vou dar. Mais, alguém que foi durante anos porta voz do sr. Sócrates não me parece a melhor alternativa para a magistratura constitucional. Pelos vistos nem Vitalino, nem Ana Catarina são desta opinião aliás sufragada por um forte maioria de deputados, incluindo, pelo menos, treze socialistas. O futuro dirá como é que acabará esta desastrada novela. De algo, estou certo: não vai acabar bem mas pode acabar menos mal. Mas para isso uma coisa é necessária: bom senso!
E bom senso é algo que parece estar nos antípodas das declarações da Sr.ª Mendes...
(1) este folhetim já tem barbas pois foi escrito no exacto dia da derrota do Sr. Canas. Entretanto fui dar uma volta ao bilhar grande e deixei-o em pousio. Neste entretempo António Correia de Campos fez o que devia: deixou de ser candidato. Mesmo que, à quarta vez, fosse eleito, a sua posição seria sempre frágil. E ACC, um veterano da crise de 62, um homem com um grande currículo não merece andar como um navio desgovernado à mercê das simpatias ou antipatias dos parlamentares, muitos dos quais, a maioria, são meros anões e meras vozes do seu dono.
Enhorabuena, António, enhorabuena!
