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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 372

d'oliveira, 24.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada trigésima sétima

Perdidos e achados

mcr, 24 de Abril

 

(vai o folhetim dedicado a José Neves, um desconhecido leitor que me enviou uma gravura de Rouault. Obrigadinhos! E um abraço!)

 

E comecemos pelo princípio como dizia um imortal “lente” de Direito: “perdidos e achados” é, também, o título de um livro do recentemente falecido Luís Alfredo Garcia Roza, um brasileiro, claro, que, através do “policial”, descreveu a sociedade do seu tempo.

Como a crónica de hoje vai ser, espero-o, variada, pareceu-me bem piratear o brasuca. Digamos que é uma homenagem a um conterrâneo do meu pai, carioca exilado para Vila Nova de Gaia pouco depois de nascer.

Voltemos ao sr. padre Maia, o reverendíssimo que veio a terreiro defender o bom nome dos lares de velhinhos.

O ilustre clérigo avançou com uns números patuscos para provar que as mortes em lares correspondiam a quase nada dado o número de pessoas neles internadas.

As últimas estatísticas provam que 40% das mortes em Portugal dizem respeito a pessoas internadas em lares. Quarenta por cento, reverendíssimo! Quase metade!

E é este número, senhor padre, que tem de ser levado em linha de conta. Felizmente que a taxa de mortalidade por cá é diminuta mas isso não só não se deve às virtudes dos lares como, aliás, carrega ainda mais as tintas destes.

Se o sr. padre se desse ao trabalhoso exercício de ler, talvez conseguisse dar um pinote de alegria ao saber que, no resto da Europa, a mesma taxa se eleva a 50% muito embora, nesse número horrendo se devam contar os dois desastre (Espanha e Itália) e um meio desastre, a França. Em países menos atingidos, porque mais precavidos, a taxa de mortalidade em lares é claramente inferior à nacional.

Deixemos o reverendíssimo entregue aos seus exercícios espirituais e passemos a outro e pior flagelo nacional, a Sr.ª Ministra da Cultura. Digamos, com excessiva generosidade, que não difere excessivamente dos seus antecessores cuja esforçada mediocridade já era proverbial.

S.ª Ex.ª não destoa do patético conjunto de criaturas arrancadas a uma digna obscuridade e trazidas à luz cruel da ribalta sabe-se lá por que razões.

Desta feita, e face à mais grave crise que o livro em Portugal alguma vez sofreu (censura governamental incluída), S.ª Ex.ª resolveu num arroubo de generosidade destinar 400.000 euros às livrarias e editores. Suponho que serão as pequenas e médias livrarias independentes e os editores pequenos e médios que se poderão perfilar como destinatários da esmola ministerial. Todavia, talvez S.ª Ex.ª ignore que, mesmo assim são bastantes, o que faz com que a repartição do exíguo bodo aos pobrezinhos pouco, ou muito pouco, atenue a horrenda quebra de rendimentos destas duas fileiras do livro. Isto será ainda pior se nos lembrarmos que as grandes superfícies (FNAC ou Bertrand) e as “grandes” editoras ou grupos editoriais também estão a apanhar pela medida grande. Ou, para usar uma expressão dos meus tempos de rapazola, esta malta está a apanhar um "enchouso" de porrada. Ou seja, cada livraria pequena e corajosa, cada editor pequeno e interessante está a ser enchousado que era assim que chamávamos ao pião das nicas.

Ao que li, mas poderei ter percebido mal, estas quatrocentas milhardas pagarão uns livrinhos que, depois, irão para bibliotecas municipais. Nem me atrevo a pensar que livros serão escolhidos mas cheira-me que o rRui Nunes não estará no lote...

Isto se as queridas bibliotecas tiverem lugar para os monos.

Disso, da capacidade das bibliotecas, tenho um farto historial. Acho que já aqui terei narrado um pequeno caminho do calvário por que passei quando me veio à cabecinha sonhadora oferecer a minha biblioteca pessoal (+ - 25.000 espécies) a que acrescentaria 8.000 cds e 2000 LPs se estivessem interessados. Os meus amigos alfarrabistas ficaram, primeiro, perplexos, depois indignados e finalmente riram-se e olharam-me como quem olha um tontinho senil.

Claro que as bibliotecas consultadas nem me responderam. Ou melhor: na entrevista pessoal, babaram-se e agradeceram-me efusivamente. Depois, pensaram melhor e descobriram que não tinham sítio para os livros. Mas, nessa altura do campeonato, já nem me informaram. Uma bibliotecária amiga e competente explicou-me que a maioria das bibliotecas não possui armazém que se veja. E deu-me o exemplo do Porto cuja prestigiada Biblioteca Municipal está há anos à espera de ter um local onde guardar milhares, dezenas de milhares (centenas ...) de livros. Quando, na mesma e “invicta” (?) cidade se construiu uma biblioteca moderníssima (a Almeida Garret)t nos terrenos do Palácio de Cristal, dotaram-na de um armazém para 500.000 livros que foi logo ocupado com espécies vindas da Municipal. “Talvez alguma biblioteca do interior” murmurou-me dubitativa. “E será frequentada?”, perguntei, como se não conhecesse a resposta. “Bem, isso é outro problema...",  respondeu-me evasivamente a minha suspirante amiga.

Na América daquela absoluta pandemia chamada Trump, as bibliotecas tem depósitos para milhões de livros e agentes em toda a parte a procurar e comprar livros para as encher. Os alfarrabistas portugueses vendem mensalmente, e só de livros dedicados à “expansão/colonização” dezenas de livros que só existem na Nacional e na Sociedade de Geografia (que, aliás é uma instituição privada de utilidade pública). Isto, apenas no que toca a um dos 20, 50 ou 100 items que os americanos procuram. Imaginem como desde há anos, saem pela calada edições valiosíssimas sem que alguém, sobretudo os patriotas do costume, recalcitre.

Portanto, e quanto à criatura ministerial e a anedota da ajuda, estamos conversados.

Contas feitas aos anos que carrego e marcando os meus 18 anos como o início da minha carreira de comprador de livros, verifico que comprei 1, 3 livros por dia contando sábados e domingos. Ou seja já gastei com livrarias, editores e restante malta do livro mais, muito mais, do que desta feita a Ministra “concede”.

Isto sem falar na editora de que fui um dos muitos sócios (Centelha) ou da livraria "erva Daninha" para a qual, sem ilusões de qualquer espécie, contribuí como sócio.

Deixemos, este desconsolado território da ajuda ao livro e passemos a algo que nem sequer me parece assim tão insólito: a descoberta de um extenso arquivo de fichas policiais e processos da PIDE nas mãos de uma particular que propunha esta mercadoria no OLX.

A única coisa que surpreende é a vastidão da colecção de documentos que na realidade roça o incrível. Todavia, e para que se saiba, a dispersão de documentos da PIDE foi levada a cabo por muita (e nem sempre boa) gente.

A começar pelos militantes de um conhecido partido que, tendo sido dos primeiros a entrar nas sedes policiais, rápida e eficientemente fez uma triagem que não só englobava os seus militantes e simpatizantes mas também outros perseguidos políticos de que convinha saber qualquer “coisinha”.

Depois, e falo por mim, os próprios militares (sobretudo os milicianos mais politizados) que ocuparam as sedes de Coimbra e do Porto trouxeram de lá processos de amigos que foram entregues aos próprios. É assim que tenho em minha posse (aliás há muito que ando para o entregar à Torre do Tombo) o processo 49 526 (MCCR..., Mª João S Delgado de Oliveira – minha mulher- e Editorial Centelha(???)) com cerca de 50 folhas entre ordens, informações de agentes, transcrições  de cartas de familiares meus, fotocopias, enfim algo que só acaba no dia da tomada da sede da pide no Porto!

É lá que consta a minha vocação bombistas, logo eu que detesto qualquer coisa que cheire a pólvora, incluindo foguetes e fogo de artifício e outras diversões muito portuguesas. Também um agente (aliás vários) afirma que eu exerço “grossa actividade” legal e ilegal, que defendo presos políticos, que assino manifestos enfim que pertenço às hostes “leninistas marxistas” A sede de Coimbra da mesma polícia abunda na mesma acusação mas omite duas prisões sofridas. A valente Maria João só consta por, coitada, ser, na altura, casada comigo. A parte da Centelha estará noutro dossier mas este com capa cor de rosa está comigo.

Confesso que este dossier, que juntaria a outros doze ou treze que também trazem o meu pobre nome, dá muito fraca ideia da organização policial, do cruzamento quase inexistente de processos e da escassa perspicácia de informadores e agentes. “Foi isso que te salvou”, disse-me na altura o Jorge Delgado, meu sogro e meu querido amigo que também tinha um passado “sinistro” e uma condenação pesada no currículo. Em boa verdade, ele fora, um quadro importante na O R do Porto acho que controleiro do “sector intelectual” . E dizia, risonho: “a PIDE ao prender-me conseguiu que eu fosse expulso de assistente da Faculdade de Ciências e obrigou-me a trabalhar como engenheiro civil e a ganhar muito mais dinheiro do que alguma vez teria se tivesse continuado no ensino...”

Graças a esses rendimentos (todos do trabalho) o Jorge Delgado fartou-se de ajudar outros, muitos, militantes que a clandestinidade e a prisão tinham deixado desamparados. Tinha uma cultura marxista notável e, nos últimos anos da sua vida, foi um crítico acérrimo do stalinismo (e estava muito bem documentado) e das formas aberrantes que o poder assumiu nos países ditos “socialistas”. Pouco tempo antes de morrer, quando eu lhe dizia que o passo seguinte era pôr em causa o leninismo, ele já aceitava a ideia ainda que recusando tomar uma decisão tão violenta que questionava todo o seu percurso político. Mesmo depois de divorciado, quer ele quer a Alcinda, minha sogra, continuaram a receber-me como um filho. Acho que retribuí plenamente essa amizade. E que saudades tenho de ambos...

Eram gente boa, leal, solidária e corajosa. Assim alguém me lembre quando eu também já aqui não andar!

Nota final: ontem desesperei-me por não encontrar o meu catálogo do “Miserere” de Roault. Apanhei o sacaninha escondido bem à vista (!!!) deitado sobre os catálogos da letra “R”! Trata-se de uma edição de 1951 (“L’étoile filante” aux Editions du Seuil) e o preço original de venda ainda está marcado a lápis: 198.00 (escudos, claro). Para a época era muito caro. Qualquer coisa como 200 euros actuais.

 

Na vinheta: parte da estante nº 1 (poesia portuguesa e estrangeira) e discos de jazz e clássicos.

estes dias que passam 371

d'oliveira, 23.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada trigésima sexta

Isto não vai ser rápido

mcr, 23 de Abril

 

Não pregues nenhum prego na parede
Atira c’0 casaco pra cima da cadeira.
Para quê cuidados só por quatro dias?
Vais regressar amanhã.

Não dês água à pequenina árvore.
Para quê plantar mais uma árvore?
Antes que ela alcance a altura de um degrau,
Partirás daqui com alegria.

................................

 

Olha o prego na parede que tu pregaste:
Quando é que tu julgas que vais regressar?
Queres saber o que tu lá bem no íntimo julgas?


Dia após dia

.......

sentado no quarto a escrever

...............
Queres saber o que o que é que pensas do teu trabalho?
Olha o pequeno castanheiro ao canto do pátio
Para quem carregaste o regador cheio d'água!

 

 

Socorro-me do velho grande senhor o mesmo que escreveu sobre a mudança da roda à beira da estrada. Muito boa gente, esquece os últimos poemas do “pobre BB” na ânsia de ocultar “a verdade, a áspera verdade” (Danton) sobre a relação do poeta com a RDA.

É verdade que morreu em estado de santidade revolucionária ou, pelo menos, foi isso que se apregoou. Sabe-se, porém que o levantamento popular de 17 de Junho de 1953 e, sobretudo, a violência da repressão que se seguiu, o abalou profundamente.

Todavia, não é da conturbada caminhada de Brecht que pretendo falar mas disto, desta pandemia que não cede como todos quereriam e que ameaça voltar (se é que dará tréguas no Verão) a partir do Outono/Inverno próximos.

Aliás, e bem, Costa (e quase todos os outros líderes europeus) tem-se esforçado por prevenir que o combate ainda não está resolvido, muito menos vencido. O vírus não aprecia o tempo quente, o isolamento tem-lhe cortado o passo mas, como vai ser preciso regressar a uma incerta e insegura normalidade, não há quaisquer garantias de que não haja um novo descarrilamento. As pessoas começam a estar fartas do confinamento e a arriscar. As máscaras ajudam a desafiar as probabilidades por mais avisos e apelos à prudência que se façam.

Até aqui se nota: hoje mais um bar restaurante abriu um balcão exterior para fornecer café em copos de plástico. E a 1 euro!, o que diz tudo da ganância do virtuoso proprietário...

Claro que não resisti.

Ontem usei máscara pela segunda vez. A primeira foi horrível, a máscara colava-se à boca com a respiração. Esta, segunda, melhor, até pode ser lavada e passada a ferro!... O pior foi que venderam uma de tamanho pequeno o que se tornou ainda mais desconfortável. A rapariga amabilíssima da papelaria garantiu-me que brevemente virão mais e maiores. Assim seja!

As notícias sobre o número de doentes recuperados começa a saltar. Creio, porém que isso se deve mais ao facto de finalmente se fazerem mais testes e a mais pessoas que já passaram pelo vírus. Quando ouvia os números ridículos de curados, espantava-me. Como tenho a mania de ir aos noticiários estrangeiros , o baixo número português intrigava-me. Aliás, também me intriga o baixo número de infectados. Em princípio isso apenas significa casos declarados aos hospitais sem cuidar de assintomáticos e de doentes que padecendo de vários males julgam que o estado de doença se deve às maleitas de sempre e não ao bicho maligno.

Uma organização que não recordo agora, veio alertar para um aumento de mortes em comparação com períodos anteriores homólogos. Provavelmente, uma parte dessas mortes também se deve ao covid. As mortes reportadas por covid são apenas de doentes assinalados.

Não quero, com isto, retirar importância à DGS mas simplesmente afirmar que, nesta altura do campeonato, ainda há demasiadas pontas soltas.

Quando a crise começou, mas antes da declaração do estado de emergência, lembrei-me de ir fazer uma limpeza de ouvidos e cortar o cabelo. Entretanto, um mês já passou e começo a olhar torvamente para a gaforina que me cobre a cabecinha pensadora. Ai que saudades do senhor Teixeira, barbeiro que frequento desde os anos oitenta. Aliás, devo a essa barbearia outra atenção. Um espanhol que me vende livros queria comer bacalhau. Ora, raras vezes, se é que alguma, pedi bacalhau quando vou a um restaurante. Não sabia, portanto onde levar o meu convidado. Ao queixar-me deste meu desconhecimento, o ajudante do senhor Teixeira, o senhor Silva prontamente me recomendou o restaurante Treze. Fomos lá e saímos contentes como cucos. Boa posta, boa confecção, preço decente.

Quando a nossa empregada recolheu a penates para cumprir a penitência confinante, pôs o problema da confecção das refeições. A casa é grande, a CG é uma maníaca da limpeza a outrance e eu já desisti de cozinhar. Por acaso, soubemos que o Treze fazia take away e, oh que felicidade, trazia as refeições a casa. Afreguesámo-nos logo e só posso dizer bem. Ainda hoje me lambi com um robalo grelhado, muito bem acompanhado por batatinhas a murro, com um molho de manteiga como há muito eu não comia.

Também isto tem a ver com o poema de Brecht: há que procurar adaptarmo-nos aos novos tempos. Criar novos hábitos. Como diz a menina das unhas da barbearia: não abandalhar!

O mesmo se dizia, na cadeia, nos velhos e maus tempos. Não abandalhar. Não se deixar vencer pela desgraça, pelo desânimo, pela desculpa que “não vale a pena”. E o resultado era uma pequena vitória e um aviso aos carcereiros. Estou preso mas não vou ceder. Aqui os porcos, feios e maus são vocês. Lacaios da injustiça, lumpen que não sabe que o é (aliás o lumpen nunca tem consciência mas enfim...).

Nesse capítulo, o PC tinha mesmo editado uns livrinhos de regras que iam desde jamais confessar, muito menos atirar para cima de outros o que quer que fosse, mas também um guia de sobrevivência na prisão. Nunca os li mas falava-se muito disso e provavelmente, na minha primeira vez, alguns dos mais velhos transmitiram ao resto da malta essas regras que também eram de resistência, tomar banho, manter-se asseado, vestir-se decentemente na medida do possível, manter a civilidade nas relações com os outros, ajudar, proteger, mostrar sempre que o futuro estava com os presos nunca com os guardas.

Mais tarde li alguns clássicos da literatura prisional, Silvio Pelico (le mie prigioni) Julius Fucik (scritti sottp la forca) entre outros. São textos impressionantes.

Todavia, o livro de hoje é de Brecht. As magníficas traduções de Paulo Quintela andam por aí. A Gulbenkian editou-as todas em vários volumes (com Rilke, Holderlin e outros) e a preço comedido.

* a vinheta Georges Rouault Eu queria mostrar “demain il fera beau, disait le naufragé” mas não sei onde pus o meu catálogo e não encontro essa peça na internet.

 

 

 

 

 

 

Do confinamento ao Dia da Liberdade

José Carlos Pereira, 23.04.20

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Na edição de hoje do jornal "A Verdade", cuja plataforma online cobre toda a região do Tâmega e Sousa, publico um texto de opinião sobre a etapa final do estado de emergência e a comemoração do 25 de Abril na Assembleia da República:

"Estamos a pouco mais de uma semana do final do estado de emergência. Completar-se-á então um período de cerca de seis semanas em que uma grande parte do país viveu confinada nas suas residências, afastada dos locais de trabalho, de família e amigos, com regras restritivas da sua mobilidade.

Neste momento, tudo indica que o estado de emergência não será renovado. A evolução do número de infectados pela Covid-19 e a necessidade premente de retomar a actividade económica assim o aconselham. Com efeito, os dados mais recentes da propagação da pandemia levam a acreditar que ultrapassámos já o pico da fase de contágio. O número de doentes infectados e hospitalizados tem sofrido um crescimento diário contido, sem com isso se poder menosprezar a tragédia que cada vítima representa.

Todos, cientistas, investigadores, médicos e outros responsáveis na área da saúde pública, continuam a descobrir elementos novos sobre as características da Covid-19. Contudo, é já um dado adquirido que o confinamento a que nos votamos em Portugal foi determinante para que a evolução da pandemia não tenha ficado fora de controlo como sucedeu em outros países. Estou convicto que a preocupação em que o Serviço Nacional de Saúde não colapsasse, em que não assistíssemos por cá às imagens que vimos das unidades de cuidados intensivos sobrelotadas em Espanha e Itália, guiou as decisões dos nossos responsáveis políticos e também influenciou a adesão dos portugueses ao confinamento.

Permitam-me aqui uma visão mais local do combate à Covid-19 para enaltecer a forma pronta como a Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa e as autarquias da região se mobilizaram para reforçar os meios de prevenção e diagnóstico da infecção e também os equipamentos colocados à disposição do hospital de referência e de outras unidades de saúde e da protecção civil. Na região onde surgiram alguns dos primeiros casos da infecção em Portugal, com muitas indústrias expostas ao exterior que nunca pararam de laborar e milhares de emigrantes a regressarem às suas residências, essa resposta dos autarcas tem sido fundamental para assegurar uma resposta eficaz às necessidades existentes.

A não renovação do estado de emergência na próxima semana ocorrerá também, como referi, pela necessidade que o país tem de ir retomando a sua actividade económica. É imperativo que tal aconteça. Se é verdade que muitas empresas industriais continuaram a sua actividade, embora com limitações no seu processo produtivo, já a larga maioria das micro, pequenas e médias empresas teve de encerrar portas por causa da pandemia, deixando em lay-off ou no desemprego mais de um milhão de portugueses, com a subsequente perda de rendimentos.

Parar o país durante um mês e meio é algo que nunca tinha acontecido e o custo que o Estado terá de suportar para apoiar empresas e trabalhadores será brutal, repercutindo-se certamente esse efeito nos próximos orçamentos do Estado. Teremos, por isso, de criar condições para um regresso paulatino da actividade nos diferentes sectores, com todas as cautelas, de modo a fazer regressar à vida milhares de empresas e a respectiva mão-de-obra.

Antes do fim do estado de emergência viver-se-á o Dia da Liberdade. Será, sem dúvida, um 25 de Abril diferente. Pelas limitações que todos sentimos e pela liberdade que não poderemos ter nesse dia. Mas será também uma data que, mais do que nunca, merece ser assinalada, para evocar a liberdade, a democracia e uma das suas maiores conquistas, o Serviço Nacional de Saúde, hoje no centro de toda a atenção e muito acarinhado pelos portugueses.

A discussão sobre se a Assembleia da República, que nunca deixou de estar em funcionamento neste período, deve ou não comemorar de forma solene o 25 de Abril faz pouco sentido. Estranho seria que a data não fosse assinalada. Uma sessão do Parlamento com um número restrito de presenças, certamente rodeada de todos os cuidados necessários, não tem qualquer comparação com manifestações, religiosas ou outras, que ficaram impedidas durante o estado de emergência e que foram invocadas nos últimos dias pelos que se opõem à comemoração do 25 de Abril.

O quotidiano da vida democrática tem os seus rituais e entre eles não pode deixar de estar a comemoração do “dia inicial, inteiro e limpo”, como escreveu Sophia. Até para nos lembrar que há um antes, um durante e um depois da pandemia que enfrentamos."

estes dias que passam 370

d'oliveira, 22.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada trigésima quinta

Toma lá e embrulha!...

mcr, 22 de Abril

(em memória de Ana A, tão cedo desaparecida)

Eu sei, sei perfeitamente, que uso um tom demasiado coloquial, terra a terra, nestas prosas que vou debitando para o éter em busca de um par de leitores/as generosos/as que me aturem, lendo-me. Gostaria de lhes garantir que, ao cumprir tão benevolente tarefa, ganham um bónus de desconto para os seus pecados. “Mene, mene. Tekel. Farsim”, contado, pesado e dividido foi isto que Deus, ele próprio, e por seu próprio punho escreveu na parede do palácio de Baltazar, esse grande malvado que perseguia o povo eleito.

Cada leitura das minhas crónicas dará pois ao leitor pecador (e só os muito pecadores, concupiscentes, irrequietos e inconformados me leem) um bónus de desconto no momento do ajuste de contas definitivo. Uma espécie de bula, no caso não onerosa, pelo que nenhum moderno Lutero se virá a revoltar. A revoltar e a estragar as portas de alguma igreja que, se a memória não me falha, o Martinho pregou as suas teses numa entrada já não sei de que igreja.

Tivesse sido esse o único estrago do frade indisposto com o Papado e não andaríamos agora de candeias às avessas com os países do Norte, gente calvinista, luterana, pedreiros livres, apóstatas e sei lá que mais coisas todas malignas, nefandas...

Hoje, num artigo curto mas inteligente, aquela senhora doutora Bonifácio (a quem já por mais de uma vez, irritado com as suas, dela, diatribes, mordisquei a canela) vem explicar numa linguagem clara um dos vários porquês desta divisão norte sul, no caso a das agriculturas tão diversas e com consequências económicas importantes. (não transcrevo o artigo que agora os leitores tem tempo para ir por ele via internet). Entre o norte e o sul há mais fronteiras: a do azeite e da manteiga, do vinho e da cerveja, por exemplo. E, claro a do catolicismo romano e das igrejas protestantes. Não que não haja católicos nesse Norte rigorista, frio e com pouco sol que os há. Não que no Sul não tenham frutificado os protestantismos apesar das guerras e das perseguições de todo o género. Mas a fronteira existe, até na toponímia: o que a norte do Loire se chama Francheville, a sul é Villefranche se bem recordo um exemplo tirado de uma leitura com mais de vinte anos de uma senhora chamada Henriette Walter (“L’aventure des langues en Occident”)que descobri maravilhado num programa de Bernard Pivot (Apostrophes) que segui religiosamente durante toda a sua duração. Nessa noite não havia bridge o que não irritava os parceiros do costume que me entravam pela casa dentro já com um suplente, me bebiam a cervejinha e o whisky (o Zé Portocarrero dava-lhe na “água da Escócia” e, descarado, entregou-me uma lista dos whiskies que bebia não fora eu comprar alguma zurrapa horrenda e imbebível!). Acho que vi todos os programas do Pivot, sobretudo aqueles de que agora toda a gente fala (o Nabokov a beber whisky ou outro destilado por uma chávena de chá, o Bukovsky a cair de bêbado, uma senhora (Denise?) Bombardier a acusar o agora proscrito Gabriel Matzneff de ser um pedófilo, o enorme Dumezil a pedir por favor que não comprem o livro dele confessadamente difícil e destinado só a especialistas (fiquei doido por comprar mas contive-me. E bem!) a “nossa” Sofia a afirmar-se eterna devedora de Cesário Verde...). Por cá, tirando o David Mourão Ferreira, os programas literários são uma insuportável chatice pedante. E o grande Vitorino Nemésio que se sentava frente ao espectador e ia debitando o que lhe vinha à cabeça, numa conversa de bica aberta, discorrendo sobre tudo e sobre nada com argúcia, leveza, ironia e graça. Isto mesmo o disse à filha (Gi Nemésio) que comovida me deu um abraço e me largou um “Você é um gajo porreiro!” (Gajo? Porreiro? Homessa, dessa não estava à espera mas caiu-me bem. A Gi era casada com um cunhado do Rui Feijó, um certo Zé Queiroz que fez parte, como o Rui e como um Abrunhosa pai de um ex-primo meu da ignorada mas corajosa “rede Shell”. Honro-mede ter conhecido alguns desses combatentes da liberdade entre eles um Luís filho do senhorio da nossa casa de Buarcos. À conta disso e de mais outras que tal foi preso e era um motivo de conversas baixinho lá em casa par os miúdos (eu e o meu irmão) não percebermos).

Ai que já me perdi!...

Voltemos à vaca fria: Norte-Sul, não este mesquinho Porto Benfica, mas um Norte Sul que tem de se congraçar para evitarmos um naufrágio pior que o de Sepúlveda.

Eu já aqui confessei um amor desenfreado por uma holandesa que morreu ainda o nosso idílio corria a todo o vapor. Conheci-lhe a família e era gente do melhor que há. Também conheci o Cees, o Jan Pieter, a Sílvia, as duas holandesas voadoras e tenho de todos uma recordação terna. Era uma malta “porreira”! E europeus até ao tutano, solidários até dizer chega quando nós, os portugas ainda nem sequer sonhávamos em bater à porta do que então se chamava CEE.

Num dos ciclos do “Cours de Droit Comparé” organizado pela Faculté Internationalle pour l’Einseignement du Droit Comparé”, aterrei em Amsterdam e, logo que cheguei, soube que o governo holandês resolvera conceder uma bolsa a estudantes de países sem liberdade (Beneficiei eu, um par de espanhóis e dois polacos a quem o generoso governo da altura permitira sair com o equivalente a 30 dólares. Para passar um mínimo de dois meses na Europa capitalista! Em boa verdade, eu já tinha uma bolsa generosa da Gulbenkian e a FIEDC garantia-me alojamento, propinas e refeições. Ou seja, com alguns dinheirinhos meus senti-me rico. Rico, trinta e um anos, amigos e uma namorada “la mar de buena” como me garantiram os andaluzes do grupo.

Por essas e por outras, mesmo achando que o ministro batavo se excedera, não sou dos que aplauda calorosamente o repugnante de Costa. Foi fácil, foleiro e populista.

Deixemos, porém, esta incursão política para melhores dias, se os houver, e passemos à actualidade.

Hoje, fui à farmácia por umas máscaras dessas difíceis. PFF2S. Agora, há máscaras à fartazana. E a cinco euros cada. E só duram 8 horas. Ou seja, um cidadão que se quer defender desses bicharocos viciosos tem de abonar 100 eurinhos por mês só pelos dias úteis. Eu posso dar-me a esse luxo. E os outros, os que estão no lay off, no desemprego, no salário mínimo ou até no salário médio? Como é? Chucham no dedo, usam uma meia metida pela cabeça? Arriscam e saem para a rua sem nada com a mãozinha à frente do nariz?

Alguém que responda que eu não quero agora, e aqui, usar o vicentino vibrante de Buarcos...

À saída da farmácia, deparei-me com um café aberto. Aberto? Aberto mas com todas as precauções. Serviço take away. Um caixotinho de papelão para pormos o cacau, outro para o lixo, o café em copo de plástico e o resto embalado.

Ai Jesus, Maria José! Que bem me soube o raio do café! Espero que aqui nesta zona tão chic, haja entre os cinco estabelecimentos que existem, um, basta-me um!, que siga esse exemplo de desembaraço, de luta pela vida, de “utile precauzione” (o Rossini que me perdoe).

Ora aqui está uma coisa em que nós, portugas duma figa, costumamos ser bons: desenrascarmo-nos. Com a imaginação que a necessidade espevita. Quem não tem cão caça com furão. Ou com gato!

Acho que é uma das coisas que nos distingue dos batavos, dos teutões dos eslavos e escandinavos. Nós, habituados à pouquidão, nados e criados nesta terra sáfara entre montes escalvados e a praia imensa e estéril, tivemos que dar à perna para nos safarmos. Por essas e por outras é que, quando a coisa nos corre de feição, nos rimos, cantamos, celebramos. Uma sardinha a pingar num naco de broa, uma fatia de pão com um fio de azeite, uma rodela de tomate e outra de cebola eis um manjar de reis.

Claro que se nos cai em cima dinheirama que se veja, é um desastre. O novo riquismo (até o político...) é a nossa desgraça. E foi sempre assim, com a pimenta das Índias, o oiro do Brasil o café, o cacau e o algodão das colónias. Foi um “fartar vilanagem” até acordarmos tão pobres como antes, tão incapazes de tirarmos da História o ensinamento possível.

Eu até percebo os do Norte, gente que passa semanas ou meses sem ver sol que se veja, com frio de rachar, sem mar, sol, sal e sul. Quando cá chegam tudo lhes lembra o paraíso com excepção dos indígenas. “Olha par estes moinantes! Ao sol como gatos, à espera que da bananeira lhes caia goela abaixo a banana” E já em rodelas!”

Nem se lembram dos nossos emigrantes que lá nessas terras do demo e do dinheiro esgaravatam que nem doidos, suando as estopinhas, para ganhar o suficiente para fazer um modesto pé de meia e voltar ao terrunho.

Fico-me por aqui que já estou farto de dar ao dedo. A gravura de hoje retrata um pouco o que algures aí em cima disse. É um cartaz que estava numa residência universitária em Amstelveen, subúrbio de Amsterdam e sede da Frije Universiteit onde aprendi qualquer coisinha. Achei que o cartaz lá não era preciso e trouxe-o com o assentimento de duas holandesas vizinhas de quarto depois de uma noitada na Societeit onde aviámos um quarteirão de cervejas. Tenho-o numa parede desde o ano de 1972.  

A legenda é fácil de entender mas aqui vai a tradução  "Libertem Portugal das garras da ditadura!"

Obrigado, camaradas batavos. Fico a dever-vos uma. 

 

 

 

 

 

estes dias que passam 369

d'oliveira, 21.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada trigésima quarta

Mais efeitos colaterais

mcr, 21 de Abril

 

Ontem, ao falar das comemorações do 25 A na Assembleia, escrevi que Eanes não estaria presente. Pelos vistos, asneei forte e feio pois ele anunciou que, embora discordando, viria à sessão. As minhas desculpas. Desconheço a disposição de Cavaco Silva e já não arrisco a sua falta que seria lógica.

Também presumi que os deputados acorreriam em massa mas, já há notícia de reduções nos número previstos em alguns grupos parlamentares. De todo o modo o número de 130 presenças mantém-se. É lá com eles e com os convidados que, pelos vistos, se sentem heróis do mar, nação valente e imortal e tal como em Alcácer Quibir não cederão às forças combinadas e superiores da bicheza invasora. É o mal de saber pouca história pátria, pois os mouros estraçalharam o exército português, a fina flor da nobreza e o pateta do rei.

Aliás, atrevo-me, impatrioticamente, a pensar no que seria do reino com D Sebastião regressado são e salvo. E desconfio que Filipe II (1º de Portugal) foi muito melhor rei do que alguma vez seria o tonto do sobrinho.

Aviadas que estão as minhas desculpas pelo lapso de Eanes, abandono a polémica da comemoração não sem antes me preocupar com as celebrações seguintes, as do 1º de Maio. Tempos houve, quando eram tabu, saía eu para a rua com mais uns loucos e vá de desafiar a polícia. Aquilo, sobretudo aqui no Porto, era sempre a mesma correria desenfreada com a polícia a moer-nos os lombos. Durava pouco, acabava com meia dúzia de pessoas presas e depois convenientemente sovadas nas esquadras.

Logo que o 1º de Maio pode ser festejado legalmente, achei que já não era necessário participar na marcha. Enquanto houve parceiros para o bridge, aquilo era uma festa. Começávamos logo depois do almoço e só acabávamos já a noite ia longa. O 1º de Maio é uma festa e os direitos dos trabalhadores e de todos os cidadãos deverão ser sempre uma preocupação fundamental. Aliás, o papel dos sindicatos e das comissões de trabalhadores mostra que é diariamente que o 1º de Maio se celebra. No dia, fora o desfile de alguns figurões à frente, as coisas não fazem nada mais do que no quotidiano dos locais de trabalho onde a tentação de cercear direitos e negar regalias é bem forte e pede firmeza.

E se é verdade que, no meio da crise que vivemos pode ter havido atropelos aos direitos dos trabalhadores, também não é menos verdade que, sem encomendas, sem meios de trabalhar sem risco, sem fornecimento de matéria prima, sem hipóteses de vender ou exportar, há milhares de empresas que não poderão satisfazer sequer esse mínimo que é o pagamento de salários. Isto é uma realidade cá e em toda a parte, China incluída. É aliás, por isso, que me parece inaceitável, a posição dos sindicatos da funçãoo pública que exigem aumentos salariais sabendo bem que todo o sector privado corre riscos dramáticos. E sabendo ainda que terá de ser o Estado a tentar compensar parcialmente essa falta de rendimento de trabalhadores em lay off, parados, dispensados ou despedidos.

Não queria estar no papel da responsável principal da CGTP. Sobretudo porque esta é uma prova de fogo para alguém que toda a vida foi quadro sindical, nunca tendo de enfrentar um patrão. Se uma mulher à frente de uma central sindical é um sinal importante e que, pessoalmente, me regozija, não deixo de anotar que a experiência de vida laboral desta senhora não me parece exaltante.

De qualquer modo, sinto curiosidade em ver como é que a CGTP vai conseguir levar a cabo as anunciadas “acções de rua” sem pôr em causa a defesa da saúde dos manifestantes, dos espectadores, se os houver, e dos familiares de todos.

Hoje no “Público” a dr.ª Maria do Rosário Gama, fundadora e dirigente da APRE assina um artigo importante sobre essa disfarçada tentativa de enclausurar os velhos (eu digo velhos e não idosos como o politicamente correcto agora sugere. Isto quando não se fala em “seniores” palavra que roça as raias da estupidez pedante) mesmo levantando para o resto da população as limitações à circulação. Já aqui disse o que pensava, mesmo correndo o risco de falar pro domo mea. E faço notar que serão os velhos quem durante muito tempo, meses ou anos, terão de aguentar as consequências da crise que aí vem. Quando não houver dinheiro para as creches e jardins de infância; quando não houver dinheiro para a renda de casa ou quando este escassear para poder pôr comida na mesa quem é que vai aguentar o embate senão essa parte cada vez mais crescente da população?

Na página ao lado, o padre Maia um dos homens fortes da Igreja para os cuidados com a velhice, vem afirmar que anda por í uma espécie de conspiração contra os lares. Que há 80.000 “idosos” institucionalizados (sem contar com os lares particulares e com os clandestinos...) e que, até ao momento, só morreram 200. Esquece o reverendo cavalheiro que esses 200 são um terço do total dos mortes até hoje. 33% por cento senhor Padre!

E já que quer comparar números, os 400 mortos restantes saem de cerca de 9.000.000 de cidadãos. Será que a aritmética não se ensinava no seminário?

Eu, pobre pecador, não quero de modo algum apoucar a obra das misericórdias e das outras instituições da sociedade civil ou religiosa. Ainda bem que existem. Sem elas a vida de muitos milhares, de dezenas ou centenas de milhares, de portugueses seria bem pior. Muito, mas muito, pior!

O referido senhor padre afirma que o Estado “apenas contribui com um terço, ou um quarto, do custo total de um idoso internado num estabelecimento. É verdade que as IPSS dão um jeitão dos diabos e cumprem um papel que o Estado, este ou qualquer outro, não consegue cumprir. E que a actividade das dezenas de milhar de voluntários, actividade quase sempre gratuita, poupa milhões ao erário público. E, já agora, é bom lembrar ao senhor Padre que não é só a Igreja Católica a a dar um forte sinal de solidariedade. O mesmo tem acontecido com a pequena comunidade hindu, com a comunidade muçulmana (e nem falo dos seguidores do Aga Khan) ou com as restantes igrejas cristãs, incluindo no lote, as que desdenhosamente são apelidadas de seitas.

Isto para não referir milhares de cidadãos não organizados que contribuem para toda uma série de iniciativas como se verificou ainda há pouco com as contribuições para o hospital de campanha do Porto e para múltiplas acções de combate à praga e levadas desinteressadamente a cabo por gente que não quer ficar indiferente.

Eu diria que isto, esta multiplicidade de acções, este fortíssimo movimento sem fronteiras nem líderes, é uma celebração da democracia, de Abril de Outubro de Janeiro ou de Agosto. E não é preciso uma sessão solene na AR, uma missa em Fátima ou uma manifestação na baixa de Lisboa para provar que, em todo o lado, há cidadãos, há democratas, há gente que defende a liberdade dos outros porque sabe que assim defende a sua.

Leitores, cuidem-se! Inventem, inventem-se! Como este livro hoje proposto inventa a alegria, o bom humor. O seu autor Carelman revelou-se em 1969 (Belo ano, Zé Dias! Belo ano!) e as edições sucederam-se em todos os formatos e todos os preços. Além da capa trouxe um modelo de tandem para casal em instancia de divórcio.

estes dias que passam 368

d'oliveira, 20.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada trigésima terceira

A ortodoxia democrática sicut Ferro Rodrigues

mcr, 20 de Abril

 

O meu amigo Ferro Rodrigues entende que a sessão solene da AR sobre o 25 A é importantíssima. Mais: que foi sufragada por uma grande maioria dos parlamentares. Por isso, deve ter lugar.

Vejamos por partes. A importância da sessão solene não se reveste de especial gravidade. A democracia parece consolidada, não se vê, nem no Chega!, adversários dela, os cidadãos votam, acatam sem grande discussão o que sai da Assembleia e do Governo, não consta que na cave de algum cidadão se acumule pólvora, nitroglicerina, bombas, sequer petróleo para voltar aos áureos tempos da “artilharia civil” e da “formiga branca”.

“O povo é sereno” e nem sequer se vislumbra fumaça de qualquer espécie. Dito isto, nada me move contra uma celebração da data em termos que respeitem as normas de segurança sanitária em vigor. Aos senhores deputados, mais do que a qualquer outro colectivo de cidadãos, compete dar um rigoroso exemplo de cumprimento das normas emanadas da DGS e sufragadas pelo Governo.

Será razoável reunir debaixo do mesmo teto cento e trinta cidadãos (vão ser mais, querem apostar?) que não tem qualquer certeza sobre se estão ou não infectados?

A cerimónia seria menos significativa se se limitasse a 100, 50 ou 25?

Aliás, ao que sei, já há recusas. Eanes, Sampaio, Cavaco quase certamente, o presidente da Associação 25 de Abril, para citar os mais em vista. Dir-me-ão que os convites ainda não seguiram e que estas personalidades poderiam não estar na lista. Tal afirmação enche-me de gozosa curiosidade...

Houve quem trouxesse a Páscoa, a festa maior e mais importante do cristianismo, à baila. Que se se proibia uma deveria proibir-se tudo o resto. Lembraria, sem especial convicção que o Estado é laico mas que a Igreja, desde o Papa até aos párocos e à maioria dos paroquianos, entendeu a razão de reduzir ao mínimo a celebração. Aliás as autoridades religiosas desde os hierarcas israelitas até ao Grande Mufti da Arábia saudita estão no mesmo barco de cuidados. Em Lisboa, a autoridade religiosa muçulmana até ofereceu o espaço da mesquita para instalar desalojados de um hostel onde se verificou um caso de infecção.

Portanto, deixemos cair essa guerra religiosa que não teve lugar.

Alguns, repito, alguns (não todos) destacados membros da Esquerda parlamentar vieram falar da importância do ritual celebrativo. Pelos vistos o rito é importantíssimo. A forma agiganta-se perante o espírito...

Confesso que dessa cerimónia pelos vistos crucial para a vida da Nação portuguesa nunca vi mais do que os excertos dados pelo noticiário da noite e mesmo esses só os aguentei porque estava à espera da continuaçãoo das notícias.

Do pouco que vi e que depois reli nos jornais retiro uma opinião: nada de excepcional, de relevante ou sequer de agudo interesse nacional. Em quarenta anos os discursos repetem-se sem novidade. Na esmagadora maioria das vezes, foram medíocres, pouco (ou nada) entusiásticos e carregados de narizes de cera. Uma amiga minha, insistia em ver o inicio da sessão solene para saber quem trazia e quem não trazia o cravo vermelho. Feita essa verificação, aparecia na esplanada com a estatística floral e ansiosa por uma bica dupla e reparadora.

Quando o tempo está bom, a enorme maioria do povo arranca para a praia gozar o bom tempo e o feriado. Pessoalmente, acho que isso, essa ideia de pequena festa, de encontro com amigos e familiares, de fuga à rotina significa verdadeiramente o 25 A. Antes uma banhista em biquíni (ai o machismo) do que cinco deputados enjorcados num fato cinzento de mau corte e engravatados com umas coisas horrendas que alguém lhes vendeu como gravatas...

De todo o modo, se a Assembleia quer comemorar que comemore. E que, ao fazê-lo dê aos cidadãos confi(n)ados o exemplo de distanciamento social. Não me preocupa a eventual infecção de um ou vários deputados mais do que a de quaisquer outros cidadãos. Preocupa-me, e repito-me, o exemplo.

Andam por aí duas petições publicas sobre o magno assunto. Uma a favor da reunião celebratória e outra contra. Há 9 horas São 19.11 horas de segunda feira, a primeira tinha 27.000 assinaturas e a segunda 100.000 (a fonte dos números é a mesma). Destes números não retiro qualquer especial ilação excepto esta: a democracia funciona e 127000 cidadãos já se exprimiram livremente. Ora aqui está uma celebração espontânea e viva da liberdade (para que conste: não assinei nenhuma delas)

Já aqui narrei que nesse longínquo 25, com um pequeno grupo de pessoas, reuni uma frota de automóveis para, caso a revolta falhasse podermos conduzir à fronteira alguns dos conspiradores. A fronteira era uma velha conhecida minha e já passara vários desertores, incluindo o meu próprio irmão que, já médico e com Mafra feita, se viu relegado a soldado raso com destino à Guiné. Foi fazer o serviço militar para Paris como tantos outros. Portanto, não recebo, e muito menos aceito, lições de revolução e democracia de quem quer que seja. Este passado não me confere qualquer especial direito ou privilégio mas permite-me poder afirmar, sem receio de ser desmentido, que entre o discurso no conforto da S Bento e o risco de ser contra um regime há diferenças. E grandes.

E, agora, aqui chegados, como diria o dr. Marques Mendes, oráculo da SIC dominical, que livro propor aos leitores? Pois nada mais fácil: Nuno de Bragança, “Directa”, um livro que descreve uma “passagem”, o desconforto da conspiração, e, sobretudo, um país que a maior parte dos portugueses e dos senhores deputados não conheceu. E também nada faz por conhecer...

Como se o 25 de Abril tivesse apagado todo um passado próximo e inconveniente...

A vinheta: Atlas de Fernão Vaz Dourado (reprodução fidelíssima do exemplar da Torre do Tombo, datado de Goa 1571), Publicado por iniciativa e sob orientação do Visconde da Lagoa a expensas da Livraria Civilização Editora, Portugal, Porto, 1948. (53,3 por 33,5 cm)

A comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses teve a infeliz ideia de o reproduzir com medidas muito menores e sem ter sequer o cuidado elementar de “encarcelar” os mapas que ocupavam uma folha dupla!!!

Este belíssimo atlas foi posteriormente editado por Manuel Moleiro (Barcelona) o que dá claramente ideia da importância dele.

Fernão Vaz Dourado nasceu em Goa e nunca esteve no Reino. De todo o modo conseguiu a extraordinária proeza de fazer um atlas (17 cartas em folha dupla e duas folhas duplas de tábuas) que requer um grande conhecimento técnico, científico e artístico. Sabe-se pouco sobre ele e a notícia mais copiosa é a que vem no livro auxiliar da edição Moleiro. Como eu já tinha a edição de 1948, tive de suar as estopinhas para conseguir o referido texto auxiliar que finalmente me foi oferecido pelo vendedor da Moleiro. Também é verdade que já lhe comprei várias publicações...

 

estes dias que passam 367

d'oliveira, 19.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada trigésima segunda

Efeitos colaterais

mcr, 19 de abril de 20

 

Quando me instalei nesta casa, vai para mais de vinte anos, comprei uma planta de interior que foi crescendo em rapidez e graça. Depois apareceu-me a CG, e também já lá vão mais de vinte anos, ela decidiu transferi-la para uma varanda entretanto fechada com janelas de correr. Ao mesmo tempo, dotou a planta de um vaso que eu achei gigantesco mas que, com o andar dos anos se revelou adequado senão apertado.

E, juntou-lhe a companhia de um par de orquídeas. Com o correr dos anos, apareceram mais orquídeas, mais umas plantas de que sempre desconheci o nome e graças à minha ex-vizinha Irene vieram uns ramos pequeninos de begónias que agora estão frondosos.

A Irene tem mão verde e, quando me ofereceu a primeira begónia, ainda no outro apartamento num prédio da mesma construtora muito perto deste, recomendou -me que falasse com o vegetal. ”Faz-lhes bem e crescem melhor!, asseverou-me.

Acenei educadamente com meia cabeça mais que dubitativa e achei que se as plantas gostam de conversa também gostarão de música. E a begónia inicial ouviu ópera, concertos de piano, sinfonias, muito jazz e bastante rock. E também doses de canções francesas, música dos meus portugueses favoritos quase todos amigos de outro tempo, o Zeca, o Adriano, o Zé Mário e por aí fora. Pelos vistos, fez-lhe bem.

Ouviu também, coitada!, discussões amenas à mesa do bridge, muita política, para já não falar de outras falas mais íntimas que se há um tempo para morrer também outro para amar.

Todavia, há já uns anos que a CG, agricultora frustrada, se queixa de uns bichos que lhe dão cabo dos jardins suspensos. “Esta bicheza”, rosnava, “é atraída pela planta grande!”. Lá grande era que já tocava o teto da varanda para não falar no volume.

Durante anos, fiz ouvidos de mercador a estas queixas pois, apesar de ser um citadino de pura cepa, sempre duvidei do poder da planta para atrair uns insectos mínimos que, aliás, não faziam mais do que poisar-lhe nas folhas que se mantinham saudavelmente verdes.

Não contava com o covid. Esta aberração, ao obrigar-nos a ficar em casa quase 24 sobre 24 horas, tem um efeito colateral: temos de ouvir as queixas conjugais. A casa é grande, enorme dizem alguns amigos que agora também estão em clausura severa mas a CG guardou dos seus tempos revolucionários a constância. E vá de seguir-me pelos quartos e salas sem me dar trégua. E sempre a dar-lhe nos malefícios da pobre planta que de tanta poda que levou (a última foi horrenda) estava com um aspecto meio avariado.

Se os não puderes vencer, junta-te a eles. Ontem, pela tardinha, armei-me de serra elétrica e aí vai disto. Em meia hora desbaratei ramos e tronco. Hoje, pela manhã, enchi um saco de lixo com o podado e ajoujado ao seu peso fui pô-lo no contentor da cave.

Falta ainda, retirar umas arrobas de terra e raízes (mais sacos grandes de lixo, mais exercício físico, mais trabalho rural). Com uma temível certeza: a CG vai querer fazer novas plantações, sei lá de quê.

O que significa ter de ir ao horto para trazer as inocentes plantas o que até nem seria grande sacrifício, e uns sacos de terra que me irão derrear os lombos. Porque S.ª Ex.ª não pode fazer carregos por via não sei bem de que maleitas. E também não pode guiar o seu próprio carro porque desde que lhe fizeram uma operação infame aos olhos tem dificuldades em guiar.

E é verdade que caiu nas mãos de uma criatura que merecia a tortura tártara que impuseram a Miguel S Strogof (ai a leitora que me acusa de elitista vai afiançar que só cito o Verne para provar a minha inocência). Até fomos posteriormente a Coimbra consultar uma nova versão da Santa Luzia, desta feita em corpo de homem, o miraculoso dr. Murta, e nem ele se sentiu capaz de reparar as maldades feitas aos olhos da CG.

Aliás, já antes, eu desempenhava o papel de “chauffeur privé” da Madama. Com a agravante de estar sempre a ouvir reparos ao meu modo de conduzir! Homem sofre! É claro que termos dois carros de pouco serve, pois, fora as vezes em que vai ao cabeleireiro ou arranjar as unhas, todas as restantes deslocações estão a meu cargo.

Ainda sexta feira verifiquei que dois carros podem significar nenhum. Dado a permanência ameaçadora do vírus canalha, resolvi telefonar ao excelente engenheiro e proprietário de uma excelente oficina e propor-lhe que desse um pequeno arranjo às viaturas. Convém dizer que este cavalheiro tem um serviço óptimo: manda buscar e trazer os carros a nossa casa. Na sexta, como dizia, trouxe o meu já tarde e preparava-se para levar o da CG. Veio sozinho pois para fazer a troca não precisava de trazer um empregado. Claro que o carro não pegava. Bateria nas lonas! E o meu amigo Alexandre não trazia cabos de bateria nem eu os tinha. E agora? “Agora leve o carro que trouxe e segunda feira trata-se do resto. E desculpe qualquer coisinha... ”. Ou seja, está na garagem um carro em coma induzido sem ventilação de qualquer espécie.

Esta curta série de pequenos desastres, está-se mesmo a ver, é obra do maligno ou do covid que o pariu. De todo o modo não me consegue atingir que até a televisão dá uma boleia. Anteontem, vi uma versão bem simpática do “Barbeiro de Sevilha”. Ontem, apanhei na 2 os “carmina burana” bailados. E hoje, em vez da sesta reparadora vi um longo programa sobre catedrais, numa emissão da TV5. Com a vantagem de ser meridianamente claro. Revi Florença, Chartres, Sevilha e vi a catedral de S Basílio e a Igreja do Santo Sepulcro. É bem verdade que podemos viajar sentadinhos no sofá.

E aqui está uma boa ideia para um livro que também, Deus seja louvado!, se lê sem dificuldade. Claro que é de um autor inglês, Michael Baxandall e a edição que tenho é francesa: “L’oeil du quattrocento”, uma viagem pela pintura italiana dessa época, entre todas, abençoada.

E já que usei a expressão “Deus seja louvado” (fraco agnóstico que sou!) dei comigo a pensar na sublime Elis Regina e na sua interpretação de “Louvação” do Gilberto Gil. Há um disco (LP e CD) da Elis com o título “A arte de Elis Regina” que traz um pancadão de canções e entre elas esses dois tops absolutos “Louvação “ e “Águas de Março”.

Elis foi vítima das drogas, como o foram Charlie Parker, Billie Holiday ou Janis Joplin, para só citar estes. Pessoalmente, não suporto ver tanto talento perdido pelo álcool ou por drogas duras. Perdi vários amigos graças ao álcool mesmo se depois piedosamente se disfarçasse a causa de morte fazendo passar por acidentes directamente provocados pela bebida. Imperdoável!

Na vinheta: gravura do volume “de arboribus et fructibus” que faz parte da “Historia naturalis” (7 volumes) do dr. Joannes Jonstonus (sec XVII) fac-simile ed por Siloé (Burgos Espanha). A obra vem acompanhada de outros tantos volumes de comentários, tradução e explicações em espanhol. Não se cita o preço que é escandaloso. Mas antes nisto do que na botica.

estes dias que passam 366

d'oliveira, 18.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada trigésima segunda

Heróis a mais

mcr, 18 de Abril

 

Venho de uma família onde há médicos e farmacêuticos há gerações. Nas últimas fornadas contam-se o meu pai e o meu irmão. Até ao meu Vº ano do liceu, a família pensava que eu seguiria as pisadas do pater famílias. ”Ele tem o nome do pai e até pode herdar a pasta de luxo...”

Esta pasta de luxo foi costume que terá caído em desuso muito antes de eu chegar à faculdade (os leitores desculparão mas em Coimbra ninguém dizia frequentar, ir para, chegar à universidade. Falava-se apenas na “faculdade”, assim a secas). Consistia numa pasta com adornos de prata, sem bolsas interiores e forrada com as cores da faculdade e ornada das fitas “largas”, símbolo do último ano. E nesse tempo creio que ainda não se usava a “cartola”, de resto um adorno para usar depois do ano lectivo acabar!...

Eu mesmo, via-me a seguir a carreira paterna. Porém, esse desiderato foi-se esfumando durante o IIº ciclo e, no Vº ano, a prova foi o facto de eu ter dispensado à oral em “letras” e ter de ir prestar provas em “ciências”, fundamentalmente por causa da Fisica-química, cadeira de resto fundamental para o ingresso na faculdade de Medicina.

Quando, para desgosto do meu pai, anunciei a escolha de ”letras” afirmando que queria seguir História, o progenitor replicou-me que isso era ir para funcionário público. Desviei para Direito, licenciei-me, fiz algumas post-graduações (quase todas no domínio do Direito Comparado) mas acabei no funcionalismo público. De facto, meses depois do 25 A, fui convidado para presidir à comissão administrativa da Caixa de Previdência e Abono de Família da Indústria Têxtil, na época a quarta maior caixa do país. Devo a indicação ao Mário Brochado Coelho, um grande advogado e um excelente amigo e contemporâneo de Coimbra (e do CITAC) e a Mário Cal Brandão, um dos históricos resistentes socialistas do Porto.

Aquilo era para durar um ano mas acabou por se transformar em sete, altura em que achei que já tinha feito tudo o que era possível. Em vez de regressar à advocacia, aceitei o convite de Rui Feijó, outro grande resistente e intelectual e sobretudo grande amigo, para integrar os quadros da Delegação Regional de Cultura do Norte onde permaneci e de onde só saí porque me demiti do cargo de Delegado Regional em franca oposição a Santana Lopes, efémero e nocivo Secretário de Estado da Cultura (que aliás, possivelmente contrafeito) me convidara para o cargo. De facto eu achei absurda, estapafúrdia, gravosa e estúpida a ideia de transferir esta delegação do Porto para Vila Real!

E, em boa verdade, não só não funcionou como, sobretudo, se perdeu um longo e bom historial de intervenção cultural. Eu nem sei se em Vila Real ainda existe algum gabinete dessa fantasmática delegação, apropriadamente encafuada num rés de chão esquerdo duma qualquer rua da cidade. Que aquilo durou vários insípidos anos, durou, pois nenhum Governo se atrevia a tirar aquela “conquista” descentralizadora a Trás-os-Montes.

Agora que já fiz mais uma digressão biográfica, voltemos à vaca fria: os heróis!, no

Parafraseando Cesariny: herios somos nós todos caso, os médicos, enfermeiros e restante pessoal hospitalar que estão, diz-se, na “primeira linha”.

Lá estar, estão. Ao lado do pessoal do INEM, dos bombeiros que conduzem ambulâncias, da PSP e GNR que montam as barreiras nas estradas e interpelam automobilistas nem sempre amáveis ou sequer compreensivos, dos milhares de voluntários que vão levar mantimentos e outra ajuda às casas dos mais isolados e necessitados, dos “benévolos” que percorrem à noite as ruas para ajudar os sem domicilio, das auxiliares das escolas que mantiveram as cantinas abertas para fornecer uma refeição decente a milhares de crianças pobres, dos vendedores em lojas e supermercados que ali estão firmes a ajudar na venda de alimentos essenciais, dos farmacêuticos, dos inúmero cuidadores informais que continuam a encarregar-se de gente idosa (e são milhares), do pessoal dos lares que, mesmo com erros tolos, mantiveram muitos milhares de pessoas mais ou menos bem tratadas (e basta ver os números de infectados neste sector de trabalhadores), dos camionistas que asseguraram, e asseguram, o transporte de todo o género de mercadorias essenciais, do pessoal de recolha do lixo, das centenas ou milhares de empregadas domésticas que asseguram o serviço de casa a famílias exaustas e com filhos pequenos, dos “soldados do papel”, ou seja dos donos e empregados de quiosques e papelarias onde se vai por um jornal, pelo maço de tabaco, pelo pagamento do telemóvel, do pessoal dos correios e dos carteiros que diariamente nos trazem cartas e encomendas...

E muitos outros que não consigo individualizar mas que mantém o país “aberto”.

Alguém mais predisposto à tirada ideológica, diria, dos trabalhadores, e não lhe faltaria uma boa dose de razão mesmo quando isso traz água no bico.

E, já agora, que dizer dos jornalistas que saem do mais que relativo conforto das redacções e vão para a rua falar com as pessoas, inquirir o que se passa?

É verdade que, cá ou no resto do mundo, os trabalhadores da saúde, tem pago forte e feio o seu esforço pelos outras. É verdade que muitos deles até já nem vão a casa para proteger as famílias. Aliás, o mesmo se passa com polícias, por exemplo os de Ovar que estão num hotel sem mordomias para poupar os familiares.

Parafraseando Cesariny, o inoportuno, “heróis somos nós todos ou ainda menos!”

Uma imensa, avassaladora onda de respeito, de sacrifício, de solidariedade, de bondade, de caridade, de responsabilidade, varre o país da praia à montanha, do norte a sul. Uns caso de burrice manifesta, de negligência torpe, de má fé canalha não empanam um generalizado consenso e uma notória disciplina no cumprimento das regras do confinamento.

Há cidadania! Há cidadãos! Estamos num país onde quase todos observam regras de respeito e de solidariedade. Esta é a prova provada de que vivemos numa democracia plenamente aceite. Este é um dos legados do 25 de Abril. Sem retórica, nem cravos vermelhos.

Pessoalmente nada tenho contra a comemoração da data. Já me parece mais duvidosa a afirmação do senhor Presidente da Assembleia da República quando fala de uma maioria comemorante contra uma minoria que duvida dos resultados de uma reunião que, mesmo sem chegar às duzentas pessoas (e não vejo como impedir a totalidade dos deputados de comparecer), vai encher razoavelmente a sala das sessões. A prudência aconselharia a evitar a multidão, o bom senso idem. A ideia de que assim se defende um símbolo fundamental de um novo tempo de liberdade não tem grande pé para andar. O ritual é sempre um postiço. Bastaria que todas as televisões dessem ao mesmo tempo um espaço de antena ao(s) discurso(s) que o bom gosto manda ser claros, curtos e incisivos. Quanto as comemorações do 1º de Maio que normalmente se reveste da forma de um desfile e um discurso final não vejo como “outras acções de rua, prudentes e respeitadoras do distanciamento social” o podem substituir. Ou será que assistiremos a um desfile solitário da senhora coordenadora da CGTP, trazendo nas mãos um ramo de cravos para os depositar não sei bem onde, talvez na rotunda mas bem longe do temível marquês, cavalheiro pouco amigo das classes laboriosas.

Lá mais para diante ainda teremos o 10 de Junho. Excluído que está um desfile militar, também estará fora de causa aquele estrado onde se amontoavam as luminárias do costume, fardadas ou a paisana, com ar compenetrado e chateado por lhes estragarem o dia com os discursos. Um dia em já é bom ir à praia.

Eu gostaria de lembrar ao dr. Ferro Rodrigues e a um moço do BE que jurou amar os rituais que, em estando o dia bom, a população ingrata foge impatrioticamente para as praias e, quando na televisão dão um resumo comprido e chato das cerimónias, muda de canal para alguma eventual telenovela ou uma série policial.

Eu, para desfile já dei o que tinha a dar e há mais de sessenta anos. Andaria eu no IVº ano do liceu /Liceu Salazar, em Lourenço Marques) e com toda a miudagem masculina do estabelecimento, fardado a preceito, enquadrada em “castelos”, lá marchou aquela tropa fandanga para a baixa da cidade, mais exactamente para a fortaleza. O dia estava que fervia. Um sol inclemente caia sobre “a mocidade que passa(va)” como dizia o hino. Em pouco tempo, parados e ao sol começaram a cair lusitos, infantes e vanguardistas. Caíam como tordos com princípios de insolação. Quem me salvou foi o meu pai, capitão médico que, fardado (com o uniforme de gala) espada e tudo, entrou por ali fora e retirou-nos (a mim e ao meu irmão) daquele pobre enxame ridiculamente militar. Aliás, pouco depois, ainda a cerimónia ia a meio, foi dada ordem de destroçar e a “mocidade” desapareceu num par de minutos, aliviada mas transpirada.

Tenho, porém, uma confissão a fazer. Sempre que posso vejo na televisão o desfile do 14 de Julho francês. É que no fim, desfila a Legião pela qual eu tenho um facataz: é que em miúdo li o “Beau Geste”, numa banda desenhada, depois vi o filme e, finalmente, sempre em Lourenço Marques, segui uma série que passava, antes do filme principal, no cinema Scala, também baseada nessa história de companheirismo e amizade. A bd teria sido publicada no “Guri” ou no “Gibi”, duas publicações brasileiras para a rapaziada que chegavam pontualmente com a revista “Cruzeiro” também brasileira onde imperava, entre outros, Vão Gogo, um pseudónimo do genial Millôr Fernandes.

E aqui está como sem querer e, muito menos, planear, chego ao livro do dia: “Kaos” de Millôr Fernandes (há na wook e a baixo preço). Para os mais requintados a wook também vende “Millôr definitivo” (que contém o Kaos), um must !

Leitores: aguentem! cuidem-se! sejam heróis, heróis quotidianos, sem estátua nem medalha ao peito mas sãos e salvos. Lembrem-se que, na maioria das vezes, os heróis servem-se mortos!

 

 

 

 

estes dias que passam 365

d'oliveira, 17.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada trigésima primeira

A propósito de quem me serviu com amizade

mcr, 17 de Abril

 

A D Eugénia, nossa empregada de sempre (ou melhor de há mais de vinte anos) telefonou do seu confinamento a dar por findo o seu dedicado trabalho de 4 dias por semana da 8 às 15. Tínhamos concordado em que se retirasse para casa, sem perda de vencimento, pois seria um risco grande para ela (e para nós) fazer a longa viagem de metro desde Gondomar.

Este mês e meio, uma ciática que não cede e que não pode ser medicada porque não há médico que vá a casa, muitos anos de trabalho, são boas razões para se reformar de vez.

Ela choramingou ao telefone, a CG replicou choramingando do lado de cá, estamos a pensar pagar-lhe por inteiro, os subsídios de férias e Natal e, enfim, dar-lhe uma pequena prova do nosso agradecimento. Sempre lhe pagámos muito acima do salário mínimo nacional, quase o dobro pois ela, só a cair de febre é que deixava de vir. Nestes últimos tempos, com o Nuno Maria a fazer algumas manhãs por semana cá em casa, nunca ela se esqueceu de lhe trazer um pãozinho fresquíssimo da padaria-confeitaria. O mais que enérgico infante passava o pão ao estreito ainda na garagem onde ela o ia buscar e essa deve ser uma das razões porque ele fazia logo duas inteiras maratonas pela casa, sempre a trote.

"Quem os meus beija, a minha boca adoça!", diz o rifão e é bem verdade. Ora, à boleia da D Eugénia, corre à minha frente um grupo pessoas que, ao longo dos anos muitos, foram servindo, em casa dos meus pais e avós. Naquele tempo, não havia o politicamente correcto pelo que as serviçais eram criadas. Criadas de servir, ponto, parágrafo.

Não as recordo todas, seria impossível, mas algumas nunca mais me saíram da memória, a começar por uma empregada de meus avós que foi remobilizada quando eu estive com a primo-infecção. Ela já estava reformadíssima, recolhida num lar da Ordem Terceira mas, sem um momento de dúvida, instalou-se em casa dos meus avós para se ocupar de mim que, aliás, não lhe dava grande trabalho. Era uma prodigiosa conversadora, fina, arguta, com uma memória que agora lhe invejo, tinha servido sempre na família da minha avó (segunda avó, que a primeira e verdadeira foi levada pelo tifo que se seguiu –“acavalou” – à gripe espanhola de 1918). Com esse passado, tinha histórias a dar por um pau sobre a família. Em boa verdade, ela contava-as com generosidade, carinho, adoçando alguma aspereza. E recordo que, quando eu lhe apontava que apesar de tudo a família não era de santidade certificada, ela respondia que ”da família não se diz mal” incluindo-se, deste modo, nesse colorido grupo de familiares de que eu já só conheci meia dúzia.

Em Buarcos, os meus pais tiveram empregadas, quase todas da mesma família, vindas de uma aldeia perto chamada Reveles que a internet me informa ter como orago Nossa Senhora do Ó. Lembro-me de lá ter passado alguns dias em casa dos pais desse grupo de moçoilas que se foi sucedendo lá em casa. Vinham novas, já com uns rudimentos de cozinha, “o trivial”, apuravam a mão e depois iam-se casando e dando lugar à irmã seguinte, às primas e por aí fora.

Aturavam-me a mim e ao meu irmão, com um carinho e uma paciência tais que só de me lembrar delas me comovo.

Creio não faltar à verdade ao narrar um pequeno episódio ocorrido há cerca de trinta anos, nesta casa onde vivo. Uma dessas antigas serviçais, com quem a minha mãe se correspondia (eu sempre me surpreendi com a quantidade de pessoas com a minha mãe se carteou toda a vida. Aquilo devia ser genético pois a mãe dela, a “Velha Senhora” mantinha o sólido habito de escrever três cartas ao dia, com interrupção do domingo pois nesse dia não recebia correio.). Ora, a Deolinda, era esse o nome dela, teria de vir ao Porto assistir a um festival de dança onde uma neta participava. Assim, pedia a minha direcção para me ver se eu tivesse tempo. “E que não tivesse” terei dito à minha mãe, “ela que apareça!”

No dia aprazado lá me tocam à campainha e fui esperar a Deolinda ao átrio do elevador. Quando apareceu, com o marido ao lado, olhou-me com a mesma ou mais redobrada antiga ternura e disse: “Ai Jesus como o menino está crescido!”

Fique claro que eu, nessa época do reencontro, teria uns cinquenta em cima do lombo e que elanão me via desde os cinco ou seis anos.

Foi uma tarde em cheio, podem crer. Uma tarde em família.

Em África, os meus pais tiveram sempre os mesmos três criados. O cozinheiro, a quem a minha mãe sempre tratou por senhor Tesoura, o criado de dentro, o Mário que se declarava nosso irmão e era mais ou menos da nossa idade, e o mainato (o lavador de roupa, engomador que também fazia uma perninha de jardineiro) um velho cavalheiro muçulmano sempre de branco e com um ar de dignidade insuperável. A esse, nem eu nem o meu irmão (e muito menos a minha mãe) tratávamos por tu como sucedia com os outros dois. Apesar de não se intitular nosso irmão, até porque era da idade da minha mãe ou mais velho, tinha uma secreta cumplicidade connosco. Quando íamos a casa de férias de Verão, se a minha mãe ordenava uma comida que ele achava que não nos agradaria, logo o fazia saber, negando-se com alguma diplomacia: "meninos não vai gostar!"

Durante esses dezoito anos de Nampula, os meus pais vieram à Metrópole algumas raras vezes. Numa delas, porque iriam estar ausentes quase um ano, combinaram “emprestar” os criados a pessoas amigas que precisavam. Quando regressaram, a casa para onde iam, estava ainda por concluir, pelo que se alojaram no hotel. O cozinheiro e o mainato concordaram em ficar com os transitórios patrões até à instalação na nova casa. O “nosso irmão” Mário é que não esteve pelos ajustes. Desandou da casa onde estava, instalou-se no anexo do consultório do meu pai e durante cerca de dois meses tratou-lhe da roupa, fundamentalmente das batas, aliás, com um jeito que não era conhecido. Ia aos recados, limpava o consultório, ia comprar os cigarros que o meu pai fumava incessantemente, enfim fazia tudo mas com os patrões de sempre.

É verdade que os meus pais pagavam um pouco mais do que era prática estabelecida, sobretudo ao cozinheiro que era motivo de inveja de todos os nossos amigos. Mas isso só não justifica aquela fidelidade, aquela lealdade e, atrevo-me a dizer, aquela amizade. A última vez que os vi foi em 1965, há cinquenta e tal anos, portanto. Mas lembro-me deles, das suas expressões, da alegria e do espanto com que ouviram pela primeira vez “Lonely woman” pelo Art Blakey & the jazz messengers que o meu pai, diga-se de passagem, comprou por engano que ele era pouco do jazz.

Regressando à Figueira, melhor a Buarcos, enfim à Praia que era como chamavam ao escasso quilómetro que ia do Viso até ao “ferro de engomar” e que significava uma rua com casas só de um lado e praia do outro. Há mais duas personagens que me estão sempre no pensamento e no coração, se é que a víscera alberga algum sentimento. Duas Marias. A Maria do Rão e a Maria costureira. Ambas costureiras das que se instalavam por algum tempo na casa dos clientes onde faziam toda a espécie de trabalhos de costura. Para tal, no dia anterior à sua instalação, carregavam a máquina de costura, instrumento que nos fascinava a mim e ao meu irmão e do qual estávamos proibidos de nos aproximar sem um adulto por perto. Depois, no dia seguinte pela fresca manhã, chegava a costureira e começava uma longa teoria de conversas com a minha mãe. Cabia nisso, tudo, a começar pelos mexericos. Um festival! A mais constante, mais amiga, mais cliente do meu pai que se ocupava do resto da família dela era a Maria. Uma mulher miúda, com ar antigo, sem idade definida, confidente de sempre que chegou a visitar-nos no Porto, instalando-se por um par de dias e renovando com a minha mãe aquelas longas intermináveis conversas como se entretanto não tivesse havido um hiato de mais de vinte anos.

A Rão talvez não fosse tão lá de casa mas era também alguém com que se podia contar. Às tantas, emigrou para França e por lá se manteve até o marido morrer. Mulher de Buarcos, filha e neta de gente do mar, entendeu que o marido havia de ter terra amiga a guardar-lhe os ossos. E trouxe-o de táxi, morto e bem morto, para ser enterrado como Deus manda entre a Serra da Boa Viagem e o mar, perto de pais e demais antepassados que a França pode ser boa para se ganhar dinheiro mas é, será sempre, estrangeiro. Ora toma lá e embrulha!

Finalmente, que "já são horas de embalar a trouxa, boa noite ó ti Maria”, há que referir as Berlanjas. As Berlanjas eram, se bem me lembro, três. Três irmãs espadaúdas, desembaraçadas que se dedicavam a trabalhos pesados, isto é a lavar e escarafunchar uma inteira casa sem deixar chão incólume, arrastando móveis, enfim um estado de sítio. Uma vez por mês, ou por dois meses, ei-las que chegavam lá a casa e aquilo ia tudo a eito. A minha ideia é que as tábuas do soalho, chão de “riga”, iam ficando cada vez menos espessas com as esfregadelas rudes e o sabão amarelo que elas usavam. No fim do dia, o reboliço acalmava e a casa rescendia. Mulheres de armas! Basta ver que o nome Berlanja era delas, os maridos é que tinham perdido os deles. Uma vez casados com estas alegres forças da natureza, passavam a ser os “Berlanjos”. É para que saibam.

Tudo isto, estas pessoas, este povo amigo e resoluto, são memórias vivas, nítidas, amáveis, comoventes que ainda me embalam o sono e, hoje, neste tempo de pesares, me consolam e animam.

Se é permitido a um agnóstico, são os meus anjos da guarda.

É também por isso que reivindico com um misto de orgulho e humildade uma expressão roubada a Eça: eu não sou mais do que “um pobre homem de Buarcos”.

E já que estou nesta banda entre mar e serra, que tal espreitar Ramalho Ortigão e o seu curioso livro “As praias de Portugal”, um guia instrutivo, divertido e sempre bem escrito. Há edição recente. Não proponho “As Farpas” que é muito volume embora sejam uma fotografia interessante do país que éramos e que, por vezes, ainda somos. Nas "praias..." vale a pena ler o que ele diz da Figueira. É impagável.

Leitores, cuidem-se. Talvez já estejamos no fim do princípio ou, oh quem dera!, no princípio do fim. Ânimo, tolerem os mais próximos que este confinamento faz parecer “mais chatos do que o Nanaia” (expressão muito figueirense, claro) todos quantos partilham o nosso teto.

Na vinheta: uma página do “Atlas Miller” (Manuel Moleiro ed, Barcelona) um dos grandes atlas reunidos pelo Visconde de Santarém que, infelizmente, teve de o vender numa ocasião de aflição financeira.

Existe uma edição no formato fac-simile, que o editor chama pomposamente “quase-original” tirada a 987 exemplares e com um preço olé, olé. O meu exemplar leva o nº 747 e paguei-o aos bochechos...

 

o leitor (im)penitente 217

d'oliveira, 17.04.20

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EVOCAÇÃO  DO 17 DE ABRIL DE 1969

 

Abro as portas do tempo devagar

colhendo mil memórias de um só dia.

 

No espelho destes anos que passaram

sinto a sombra dos sonhos naufragados.

 

Há hoje na cidade nova peste.

Cerca os dedos da vida de um bolor

que nos queima e nos perde sem parar.

 

Não estava escrito então este silêncio

na boca das revoltas que inventámos.

 

Não era o não ser desta agonia

que apunhalava a negro a cor das ruas.

 

Por isso, esta guitarra que se esvai

desmoronada em peste  rua a rua

colhe em silêncio toda a luz do dia.

 

Escrevamos pois de novo outro lugar

onde caiba em pleno o mês de abril.

 

                        Rui  Namorado

                   [ Coimbra, 16 de abril de 2020]

poema publicado no blog "O grande zoo" 

Eu conheci o Rui ainda em 1960, logo que, caloiro, cheguei à faculdade. Ainda hoje me divido: seria Coimbra a “dos lavados ares” (Eça? ) Ou um negrume igual ao do resto do país embiocado e temeroso, um relento a século XIX, patente nas capas e batinas, nas trupes, nos senhores lentes tão contentes de si mesmos, nos “futricas” que se desbarretavam à passagem dos “doutores” imberbes que eram o eixo principal do rendimento de inumeráveis habitantes da cidade?

Contra uma universidade parada no tempo, encerrada na “alta”, começava com a AAC sob a direcção de Carlos Candal, uma outra e nova tentativa de libertar os espíritos e a palavra.

Rui Namorado fez parte desse grupo, reduzido, firme, generoso que conspirava a todo o momento, poetava nas horas vagas, estudava de quando em quando e sonhava um outro Portugal.

Comecei por o ler na “Via Latina”, o jornal da AAC, onde também escreviam Manel Alegre, Fernando Assis Pacheco, Zé Carlos Vasconcelos, Francisco Delgado, o Zé Silva Marques e o César Oliveira. Destes, restam o Rui, o Manel e o Zé Carlos a quem, deste recanto, mando fortes, rijos, muitos, abraços bem como às belas mulheres que os aturam mais do que eles merecem.

O Francisco e o Zé Silva Marques partilharam, com o Manel, o exílio que os tempos, aqueles tempos, não eram saudáveis para quem se opunha. De todos fui amigo, tenho (espero) todos os livros que publicaram e que li, à medida que saíam com emoção e sem parar.

Quase todos estiveram nos “Poemas Livres” e na “Poesia Útil” publicados em Coimbra na década de sessenta.

Os quatro primeiros estrearam-se em livro via Vértice, depois de publicarem na revista, onde também, colaborei sempre que a censura o permitiu. Depois, alguns foram publicados pela Centelha, uma aventura editorial onde o Rui, o Fernando, eu e muitos outros se empenharam.

Onde houvesse uma trincheira, o Rui aparecia. Não admira que tenhamos sido companheiros em Caxias, onde também esteve o Chico Delgado ou o António Lopes Dias, ainda há dias antologiado por d’Oliveira em “Textos Alheios” aqui neste blog onde se tenta manter uma porta aberta para o futuro. Em 69, lá estava ele, no Conj., uma espécie informal de directório da crise académica. Depois de sairmos da Universidade continuámos a cruzarmo-nos noutro grupo informal e conspirativo que acabou quase todo no MES, donde, também, quase todo, saiu rapidamente.

Além da poesia, RN publicou vários livros imprescindíveis sobre cooperativismo onde, aliás, era um reconhecido especialista, de memórias e de política em geral. Uma vida literária que resume o século.

* Francisco Delgado foi, como o Rui, expulso da Universidade, exilou-se e fez toda a sua vida no estrangeiro. Publicou três livros “Dire l’amour”, “Rompre le silence” e Poemes de l’amour païen” (poemas do amor pagão, Pierre Jean Oswald ed, Paris 1974, que o único que tenho)

**José Augusto Silva Marques foi um conhecido militante do PC que se evadiu d a cadeia dessa polícia no Porto, funcionário clandestino de notável coragem e dissidente mais tarde. Exilado, regressou a Portugal em 1974, foi deputado e dirigente do PPD. Escreveu “Relatos da Clandestinidade, o PCP visto por dentro” Em Coimbra, nos anos de faculdade foi uma das vozes mais duras e mais críticas nas Assembleias Magnas.

Na vinheta: Rui Namorado, obviamente.