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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 352

d'oliveira, 04.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada décima nona

“oftálmicas” (lembrando o Francisco Cordeiro)

mcr, 4 de Abril

 

O Alcino, bom e velho amigo, deixou-me, na papelaria um maço de papéis com coisas escritas pelo Francisco Cordeiro, outro ainda mais antigo amigo. Conheci-o logo nos princípios de sessenta a propósito do associativismo estudantil. O Chico fazia parte da pró-associação de Medicina do Porto, era amigo de amigos e simpatizamos de imediato. Alto, magro, magríssimo, olhos encovados, calvície a despontar, um bom humor a toda a prova e uma cultura excepcional. Como os leitores, decerto, adivinharão, o Chico percorreu o cursus honorum político da época. Conspirou, foi preso, o costume. Fui-o encontrando, durante esses anos de vinho rosas, anos de brasa, de aventura. E quando, finalmente, cheguei ao Porto, reatámos, com maior proximidade, uma amizade que nunca esmoreceu. Quando celebrou os 50 anos, procurou-me para escrever um texto a propósitoda efeméride e que seria a prova de presença de cada um dos convidados. Assim fiz, e parece que ele ficou contente. Publico-o em separado (anexo à jornada 19). Infelizmente, pouco tempo depois, morreu subitamente ao fazer a barba e deixou os textos que irei ler, logo que as fotocópias estejam prontas. A única vez que li alguma coisa dele, fiquei fortemente impressionado. O Manuel António Pina, nosso comum amigo, era da mesma opinião mas razões que já não recordo deixaram o primeiro projecto de publicação em águas de bacalhau. Eu, sempre que apanhava o Alcino Loureiro ou a Manuela Melo insistia na urgência de ver os textos para perceber se havia possibilidades de os publicar. Eles concordavam mas nunca se andou para a frente. Amanhã irei finalmente lê-los, com os olhos embotados pela comoção e pela saudade.

Todavia, isto nada tem a ver com o título ou, melhor, com a palavra “oftálmica”. Quem me conhece já sabe que aí vem historieta, claro.

E começo por mim. 1960/1 o meu ano de caloiro. Não demorei sequer uma semana a descobrir que ao lado da faculdade de Direito, monumento nacional como nos lembrava o Doutor Carlos Moreira, o “Zé do Caco” (usava um monóculo) quando nos queixávamos do frio que se rapava naquelas salas imensas, estava a de Letras, pejada de raparigas e com um bar onde se podia ir por uma bica. Afreguesei-me num ápice. Ora, durante as horas que ali passava amesendado, habituei-me a ver uma bela, belíssima, caloira de Germânicas que aguentava a pé firme, sem pestanejar, os meus olhares mais fatais, concupiscentes e persuasivos. “Está no papo” dizia-me a mim mesmo. Faltava o principal, alguém que nos apresentasse, que naquela época aquilo era assim mesmo no embiocado país que era o nosso (e vosso, leitores mais novos que não imaginam como era “o incrível país de minha tia, trémulo de bondade e aletria”((Alexandre O’ Neil)). Este alegado derriço à distância acabou abruptamente quando alguém me disse que aquela jovem de belos olhos e olhar colaborante era mais míope do que uma toupeira. Não usava óculos por garridice.

Passemos ao Chico daqueles mesmos anos. Pelos vistos, também ele, tinha o hábito de trocar olhares ferozmente incendiários com qualquer exemplar do sexo feminino que lhe estivesse ao alcance do olho brejeiro e, vamos lá, merecesse o esforço. O Chico, mais inventivo do que eu, chamava a isto praticar “oftálmicas”. Com mais outra diferença. Ele não tentava namoriscar os alvos que eventualmente lhe aguentassem o olhar fulminante. Era o jogo que lhe interessava mais do que o resultado final. Alguém, um dia, quis apresentar-lhe uma moçoila de muito bom ver e o Chico indignou-se. “Que não, que não, que, assim. aquilo perdia a graça e o mistério”.

Foi ele, que, anos mais tarde, me explicou que, dada a minha história abortada no bar de Letras, também eu era um praticante de “oftálmicas” ou, pelo menos, merecia ser considerado um aspirante a tão complicado desporto. Fiquei comovido e disse-lho, acrescentando que ignorava quase tudo da prática e tudo, absolutamente tudo, da teoria. E o solícito “olhador” começou a dar-me um curso intensivo, dizendo que aquilo era como o “bumburismo”, ou seja a criação de um amigo imaginário a quem recorremos quando alguém nos quer chatear com convites que não desejamos. A teoria é explanada na peça de Óscar Wilde, “A importância de se chamar Ernesto”, uma leitura aprazível para estes tempos miseráveis. Ora aqui está mais um livro que, averiguei agora mesmo, está na “wook”. Leitores, cuidem-se, aguentem, não deprimam, não dêem hipótese a essa bicheza (se bicheza é) do covid. Ignorem-no olimpicamente como em “Os marcianos divertem-se” de Frederic Brown, colecção Argonauta, Livros do Brasil . Esta é uma recomendação à leitora que me tem por elitista. Um elitista que lê ficção científica!

* a ilustração: De cima para baixo: masc. UBI (Costa do Marfim), BAÚLÊ (Mali), GURUNSI (Burkina Faso), BOZO (Mali), TSCHOKUÉ (Angola. Lunda) Não estou seguro mas o bronze (casal dos primeiros antepassados ) será do Mali e da etnia DOGON. A figura armada, pau preto, é MAKONDE (Moçambique norte ou Tanzânia sul). Ao lado, e antes que me perguntem, estante dos dvd de filmes americanos. E depois parte da estante dos livros sobre África. 

Um país mobilizado

José Carlos Pereira, 04.04.20

Na edição online do jornal "A Verdade", publico hoje um artigo de opinião sobre o modo como está a ser enfrentada a luta contra a Covid-19:

"A renovação do estado de emergência não surpreendeu ninguém na fase em que nos encontramos da luta contra a Covid-19. Presidente da República, Assembleia da República e Governo permanecem alinhados num amplo consenso quanto aos instrumentos necessários para travar a propagação do vírus e os efeitos da doença que se abate sobre muitos milhares de portugueses.

O Governo tem agora caminho aberto para aumentar as restrições à circulação injustificada, reforçando inclusivamente as penas contra as violações que venham a ocorrer, para reforçar os apoios necessários aos hospitais e demais equipamentos de saúde, incluindo-se aqui os lares onde residem milhares dos nossos cidadãos mais velhos, bem como para intervir nas relações de trabalho, seja redobrando a fiscalização de despedimentos, seja limitando alguns direitos dos trabalhadores, que poderiam ser um obstáculo sério em alguns sectores.

A maioria dos portugueses tem feito, em várias sondagens, uma apreciação bastante positiva da actuação dos titulares dos órgãos de soberania, particularmente do primeiro-ministro e do Presidente da República, no modo como têm enfrentado uma crise que é sanitária, mas também económica e social. E eu subscrevo essa opinião maioritária.

Nenhum país, nenhum governo poderia estar preparado para um embate desta dimensão. O nosso excelente Serviço Nacional de Saúde (SNS), dotado de profissionais tantas vezes exemplares, não podia estar preparado para receber um número tão elevado de doentes, muitos deles necessitados de cuidados extremos. O país, com uma mobilização extraordinária de todos, públicos e privados, procura agora disponibilizar aos profissionais os meios suficientes para que possamos lutar, com a confiança possível, contra a Covid-19. Isto num momento em que a concorrência entre países é enorme e a dependência face a fornecedores, muitos deles sem escrúpulos, é total.

Também a nível económico e social, o Governo tem implementado as medidas possíveis com os meios à disposição. Numa altura em que ainda se discute de que modo a União Europeia poderá apoiar os estados membros, sem consenso à vista, o Governo português tira partido das boas execuções orçamentais dos últimos anos para poder apoiar empresas e trabalhadores, muitos deles a verem repentinamente terminar os seus vínculos laborais.

As medidas de apoio directo ou as linhas de financiamento garantidas pelo Estado são instrumentos colocados à disposição de empresas e trabalhadores, de modo a conter os efeitos nefastos da crise. Essas medidas podem certamente melhorar e corrigir assimetrias que ainda se fazem sentir, contando para isso com a flexibilidade de que o Governo já foi dando provas, mas é evidente que não é possível dar tudo a todos. Além do mais, convém não esquecer que tudo aquilo que hoje for dado terá de ser pago amanhã.

Não é admissível, como alguns vieram defender, que o Estado se substitua às empresas e pague por inteiro os ordenados dos privados – seriam 1,6 mil milhões de euros por cada mês! Como também não é de todo razoável reivindicar apoios para empresas de duvidosa viabilidade, que já foram somando no seu percurso dívidas ao fisco e incumprimentos bancários.

Ao Governo exige-se que esteja atento e totalmente disponível para ir acertando as medidas à medida que o tempo passe e que os efeitos da crise se avolumem. Os serviços públicos devem estar focados na agilização dos procedimentos necessários para que o dinheiro chegue rapidamente às empresas. Os dinheiros dos fundos europeus devem ser disponibilizados com celeridade. As dívidas às empresas devem ser saldadas de pronto, injectando dessa forma liquidez na economia. Em Bruxelas, António Costa terá de continuar a lutar por uma solução financeira à escala europeia.

Como nos têm dito, Abril será um mês essencial na luta contra o coronavírus. É fundamental que cada um de nós faça a sua parte para que a propagação da doença fique contida em patamares que permitam uma resposta eficaz do SNS. Claro que haverá muitas mais vítimas e os nossos familiares e amigos sofrerão com isso, mas temos de nos unir e de mostrar que somos capazes de vencer o vírus. Logo a seguir, cá estaremos para reerguer o país e ajudar a ultrapassar a recessão económica e a crise social que já atingem Portugal, a Europa e o mundo em geral."

estes dias que passam 351

d'oliveira, 03.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada décima oitava

Ora dizes tu ora digo eu

mcr, 3 de Abril

 

isto começa a parecer um labirinto. Ninguém, com autoridade clara e indiscutível, explica exactamente um par de coisas simples.

Comecemos pelas máscaras. Sim ou não? Já ou só depois de estar infectado?

Até, ontem, a maioria, senão a quase totalidade, apontava para o uso só depois de estar infectado. E argumentavam: a máscara protege não o infectado mas os que lhe estão próximos, os que cuidam dele, o ajudam, lhe trazem a comida etc...

Os ainda sãos não devem usar máscara porquanto é inútil e dá uma falsa sensação de segurança.

A CG que desde que se levanta até à hora do leitinho, xixi e cama, anda numa sarabanda com o telemóvel a espreitar as notícias, avisou-me, há minutos que a OMS recomenda o uso generalizado de máscaras, doentes e não doentes, efe erra á e pilinhas de fora! Que as anteriores recomendações de não uso de máscara se deviam pura e simplesmente à escassez delas!!!

Claro que vou tentar confirmar isto, no noticiário da uma da tarde e nos seguintes. O “Público de hoje, 3 de Abril, é omisso a este respeito.

Ponhamos que é verdade o recado da CG. Máscaras, máscaras, máscaras. Primeiro problema, onde é que as há à venda. Eu não ando todos os dias acorrer para a farmácia, mas das duas vezes em que lá fui, de máscaras nem a sombra, idem para as luvas, o mesmo para o álcool. Vá lá, venderam-me um gel pequenino que há de dar para no máximo, e poupadinho, uma semana.

A segunda notícia estarrecedora é a de que a regra de manter uma distância conveniente (digamos dois metros) de outra pessoa não serve. O vírus, sempre a CG e as suas fontes, pode atingir-nos a oito metros de distância. É verdade? Se não é que fazer a quem põe estas notícias. Poderemos fusilá-lo provisoriamente?

Ferrar-lhe um enxerto de bordoada? Mandá-lo por umas semanas para a enxovia? Ou basta uma multa relativamente pesada?

O Senhor Presidente da República perorou longamente sobre o 2º Estado de Emergência. Não vale a pena tentar explicar que mais de cinco minutos adormece o ouvinte, pelo menos distrai-o. Depois, os comentadores aparecem e dizem se sua justiça. A seguir virão os político e finalmente ouvir-se-á o povo ou alguém que se assume como tal.

Entretanto, e ainda sobre o discurso à Nação de S.ª Ex.ª, temos que “esta é a mais grave crise nos últimos 45 anos”. Ou seja, desde 75, o ano do Verão quente, que por enquanto está ainda só a 44.

Parece que também há quem fale nos dias que antecederam antes do 25 de Abril de 1974. Lamento muito, mas nem no estertor do Estado Novo, com a guerra no horizonte de todos e no presente de muitos, vivemos tempos assim, tão angustiantes, tão indefesos, tão falhos de soluções. S.ª Ex.ª poderia ter falado da gripe asiática que, nos idos de 57, também não foi pera doce, da gripe “espanhola” que produziu uma hecatombe a que se seguiu logo outra com o tifo que matou, em Portugal milhares de pessoas (1917-18). Quando fui tratar de re-arranjar o jazigo, descobri que além da minha avó Dora, estava lá um caixãozinho de criança, datado de 1918. Trata-se, julgo, de um primo afastado que estaria em Gaia por qualquer motivo. Teria poucos anos, oito se bem recordo.

Portanto, não me pareceu brilhante a ideia de estarmos perante uma crise como já se não vi desde há quarenta e cinco anos. Sejam quais forem os perigos que S.ª Ex.ª viu há quarenta e cinco anos, nenhum é comparável a este rufar de medos, boatos, impotências várias, que acontece por todo o mundo e que tem um rasto de um milhão de mortes.

E depois, não é só esta perplexidade quanto ao “pico” da crise, quanto ao regresso à normalidade possível. Todos os dias nos falam de uma nova data, de um carregamento de testes, máscaras a chegar, da hipótese de medicamentos que atenuem mesmo se não curam definitivamente a infecção. Neste ruído de fundo, é difícil perceber onde estamos se é que estamos em parte alguma e não no meio do mar tenebroso à mercê de um Adamastor que também não vemos mas tememos. A isso a esse medo difuso, junta-se, cada vez mais evidente, a incerteza sobre o emprego, sobre os postos de trabalho, sobre a produção. A crise económica virá sem dúvida mas qual será a sua dimensão e sobretudo a sua extensão. Que meios teremos para reerguer uma economia que já há muito tinha pés de barro que vibrava sob a pressão do turismo, a “indústria” mais efémera e insegura que há.

Junte-se a estes dois e diferentes terrores o stress do confinamento, que isto de estar fechado numa casa com a família toda a todo o momento não é nada fácil. Basta que alguém entre em depressão para os equilíbrios frágeis se perderem. Psiquiatras e psicólogos vão ter muito com que se entreter.

Eu não falo pr mim. Somos dois, vivemos num apartamento muito grande, lá nos vamos organizando tant bien que mal. Agora, há meia dúzia de dias, descobrimos o take away trazido a casa, a lavandaria aberta onde levar a roupa para ser passada a ferro pelo que as tarefas domésticas estão mais simplificadas. Ou estariam não fora a CG ter, desde sempre, a mania de lavar o lavado, o raio da criatura não para. Agora descobriu que os quadros (e são umas boas dezenas!) poderão estar cheios de pó por cima. E pimba, toca andar com um dos escadotes dos livros, empoleirada, de pano húmido de água e lixívia a dar-lhe forte e feio. Ontem, veio uma empregada fazer uma limpeza forte. Perdeu a manhã a limpar estantes, nunca os livros foram tão “higienizados”. Também passou o espanador pelos discos e promete voltar na próxima quinta feira para continuar a nobre batalha. Aspirou com valentia e violência alguns tapetes que parecem novos e os vidros das janelas perderam aquele ar entediado e sofredor que quatro semanas sem cuidados lhes tinham dado. A CG exultava e decidiu pagar-lhe o dobro do que ela pediu. A pobre senhora resistiu heroicamente mas finalmente aceitou com a condição de na próxima jornada de trabalho se pagar apenas o que ela acha justo.

A propósito do take away , as refeições vem de um restaurante onde vezes sem conta não consegui marcar mesa. A comida é excelente, boa e velha cozinha portuguesa, sem arremedos de “nouvelle cuisine”, “veganismos”, cozinha de autor e outras balelas que não suporto. E ao encomendar tenho a saudável sensação que estou a contribuir para manter uma pequena empresa, a garantir salários, postos de trabalho. Por isso vou todos os dias pelo jornal, à papelaria e por fruta, legumes e outra pequenas coisas a um “mercadinho do foco” que também não se rende. Entreguei em cada lado algum dinheiro e assim não mexemos nele. Quando estes adiantamentos estiverem no fim , novo carregamento e nova rodada.

Só o café me desconsola. Eu trago em cima dos lombos antigos e vergados, milhares de bicas tiradas em centos de cafés e pastelarias. Estas cápsulas do nespresso & similares poderão ser fabricadas com os melhores cafés, das melhores colheitas mas falta-lhes qualquer coisa. Se calhar tenho um paladar habituado à ordinarice, serei como os antigos amantes do tinto carrascão em copos de três. Copos mal lavados, carregadinhos de vírus menos fdp, a vozearia dos beberrões ou, no Alentejo, o cante, ai o cante. É tempo de me entreter a ouvir os cds alentejanos, bom jazz, melhor ópera enfim muito rock n roll, tudo. Nisso, a televisão é boa companhia, sobretudo o canal “Mezzo”, vinte e quatro horas de música variada. Ainda ontem, ouvi pela quinta o sexta vez, a nona dirigida por sir Simon Ratlle, gravada em no Barbican há pouco mais de um mês.

Também a RTP 2 consegue a proeza de trazer alguns programas interessantes (não todos, claro) e há as séries policiais nos AXN e companhia. Com jeitinho e paciência passa-se bem. Também é de referir mas isso é para quem ainda não esqueceu o franciu dois canais franceses, TV 5 e ARTE. E mesmo as televisões de notícias em contínuo mostram-se quando querem. Ontem vi uma longa entrevista com um cientista Pedro Simas de alto lá e para o baile. O cavalheiro é bom, fala com clareza e simplicidade, ensina sem arrogância e inculca serenidade e confiança a quem o vê/ouve. Chapeau!, doutor, assim, sim. Obrigadinhos...

A gata Kiki de Montparnasse acaba de chegar. Deu a volta ao bilhar, pulou para um maple e daí para obilhar propriamente dito e espojou-se dengosa à spra que eu lhe vá fazer festas. O que será para já. Não podemos deprimir uma gata.

Leitores,cuidem-se. Para os mais corajosos, uma leitura imprescindível “A Odisseia” na tradução de Frederico Lourenço. Isto, se a curiosidade vos não devorar, dá para três boas semanas de Abril . Se o pé vos pxa para a ficção, eis um livro extraordinário, bom, divertido que narra uma temporada galega em que achuva não para nem esmorece “Mazurca para dois mortos”.de Camilo José Cela Ainda deve haver na wook.

* a ilustração de hoje um canto da sala com parte dos discos de jazz. O quadrinho que se vê é do Siné, um autor colérico, generoso e divertido que foi uma referencia a partir dos anos sessenta.

estes dias que passam 350

d'oliveira, 02.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada décima sétima

Há um tempo para dar e há um tempo para vigarizar

mcr, 2 de Abril

 

Arre!, que estou muito do lado do Eclesiastes. Não que o texto não mereça leitura séria e atenta mas citações dele (ou, como é caso, adaptações) vindas de um agnóstico puro e duro, são pouco habituais. Será do tempo? Será que eu já interiorizei que “há um tempo para todo o propósito debaixo do céu”, (Ecl.1) o que, aliás, é uma evidência?

Mas não há nenhum monumento literário que não use (e abuse) de evidências que, ao fim e ao cabo, são balizas para o leitor navegador não se perder excessivamente.

Estamos a viver momentos prodigiosos, quer o queiramos quer não. Eu não queria e creio que uma sólida, quase unânime, percentagem dos que me aturam o quisessem. Isto está para lavar e durar, bom seria que fosse só até maio mas, como diz uma epidemiologista da DGS (raio de sigla de tão más recordações me traz!!!) prognósticos e previsões só depois do jogo acabar que esta maré só nos mostra a ponta do iceberg.

Tenho tido acesso a narrações de actos de solidariedade, de generosidade, de resistência de enorme dignidade mas, a exemplo das criaturas que se atafulharam de papel higiénico, de luvas, de máscaras, de álcool a 70%, de gel, eis que na internet começam a pulular os habituais percevejos da vigarice. De ontem para hoje, recebi três notificações da MEO a dizer-me que devo somas entre mil e tal euros e quase quatro mil. E que corro o risco de perder o serviço, de apanhar com o tribunal em cima dos cansados lombos. Vá que não me ameaçam com o confinamento...

Ora eu, da MEO apenas sei que é uma prestadora de serviços que não uso. Primeiro, ingénuo que sou!, pensei que havia algum engano e respondi que não era cliente. Um tal “postmaster” ou algo do mesmo teor respondeu-me que a minha resposta não poderia seguir pois o endereço era desconhecido. O que me leva a crer que em breve terei novas notícias. O(s) vigarista(s) deve(m) estar a apalpar o terreno, a preparar-me a cama, para no momento certo virem com uma exigência de pagamento já com destinatário certo.

Já corre por aí a história do falso médico de bata que nos bate ao ferrolho para desinfectar e trocar as notas que temos em casa. Parece que um casal de idosos (há sempre um casal de idosos, nestas histórias de exemplo e proveito) perdeu de uma penada cinco mil euros. É caso para dizer que não sei se terei pena da ingenuidade ou da estupidez. Ou das duas coisas ao mesmo tempo.

Depois, temos as “empresas” que subitamente desataram a vender máscaras, luvas, gel a preços especulativos como confidencia, também hoje, no Público, uma farmacêutica. E conta ainda o cao de um cliente que comprou modestamente uma caixa de luvas e as foi vender aos pares por 1,5 euros à porta de um supermercado próximo.

Eu mesmo já fui vigarizado um par de vezes, escuso de me estar aqui a armar ao pingarelho. Vou contar:

Há um largo par de anos, mais de 30, fui abordado por um fulano bem falante que me saudou entusiástico e pelo meu nome. Eu tenho (ou tinha) uma enorme vergonha de não reconhecer as pessoas. Dava-me a sensação que era uma prova de arrogância, de “classe”, esquecer quem, eventualmente humilde se teria cruzado comigo. Por isso, não me atrevi a murmurar que não recordava o arganaz que entretanto me debitava uma história tremenda de perda de emprego num media qualquer, de espera por outro salvífico trabalho que, infelizmente, demoraria ainda umas semanas a concretizar-se. E, entretanto, havia que comprar a comidinha que o alojamento ainda não estava em risco pois o senhorio era pessoas de bem e compreensiva. Além do pãozinho, havia as “pequenas mas urgentes necessidades culturais, nada de grave, um jornal, o JL, um filme imperdível, a quota do cineclube.

E eu, burro, apiedado e envergonhado por não lembrar quem me tratava por tu, falava de conhecidos comuns, pedia notícias de A ou de B. Porém, às tantas, refere-me uma criatura (uma das três ou quatro) com quem eu cortara relações havia já um par de anos. Resmunguei que não conhecia o fdp mencionado e logo o urubu exclamou com um sentimento digno do fadinho do embuçado, Oh, peço perdão, esqueça tudo o que eu disse, estou a ver que me enganei redondamente, que terrível coincidência”.

Este discurso (tão ao contrário do anterior) deixou-me perplexo tanto mais que parecia absolutamente sincero e magoado. E estendi-lhe uma fatia de 50 (escudos, desses do tempo anterior) que ele, num arrebatamento de gratidão me jurou devolver logo que o futuro emprego, sempre na área cultural, se concretizasse. E, ala que se faz tarde. Desandou, não sem me deixar um cartão falso como Judas.

Anos mais tarde, 5, 6 ou mais, eis que me cruzo com alguém que, com uma cantiga semelhante me apanha já não sei como e me oferece um discurso ligeiramente semelhante, muito ligeiramente semelhante. Sem o atavio de recordar o fdp com quem eu mantinha (e mantenho) relações cortadas. Cumpre esclarecer que eu, desses três labrostes, nem o nome digo. São, a exemplo do que recomendava Huxley no “Admirável mundo novo”, “non persons”, invisíveis, sem cor, sabor ou cheiro, como a água destilada das lições de física do terceiro ano dos liceus.

Reapareceu o emprego futuro para o qual (novidade!), já tinha recebido cartão de identificação onde figurava como assessor ou consultor, mas para já estava depenado, sem cacau para o tabaquinho, sem poder beber uma bica, menos ainda comprar o jornal. E levou-me mais outra nota, provavelmente uma de cem que os tempos eram difíceis como canta o Ferré. Esta nota correspondia, de novo, à minha confessada vergonha de não reconhecer as pessoas.

Todavia, ao chegar a casa, resolvi pensar melhor no que sucedera e agarrei o telefone e liguei para a empresa citada no cartão com telefone e tudo.

Os leitores, bem mais sábios do que este cronista descuidado já adivinharam o que sucedeu. Isso mesmo! Nada! O telefone tocou até uma voz me anunciar que aquele número não existia.

Chamei-me todos os nomes que conhecia e em todas as línguas que arranhava.

E agora, mais velho, mais desconfiado, macaco de rabo pelado, estou mais atinado. Tanto que há uns meses, meses felizes, estando eu a beberricar mais uma bica descuidada na explanado do costume, me aparece uma criatura com um imenso boné que uivou de alegria ao ver-me. Tive a coragem de lhe exigir que se destapasse pois assim não estava a ver quem era. O que foi feito alegremente. Topei-o pela careca reluzente e pelo resto, aliás. Era o Zé Ferraz, queridíssimo amigo que mora a dois passos, enfim a vinte, duzentos, e que eu já via há uns bons anos. Saltei-lhe ao pescoço e durante uma boa meia hora parecíamos dois catraios a falar sem parar, comovidos, felizes por estarmos vivos. Até que a mulher do Zé apareceu e o arrastou para não sei onde, zangada por ele lhe ter desaparecido sem dizer água vai.

Acho que estou a melhorar.

Leitores, cuidem-se. Rezem para que esta merda passe depressa que isto, este triste confinamento, esta falta de sentido dos dias, não é bom e vai causar muito estrago. E não falo da economia, mas apenas das pessoas que já não estavam habituadas a tanta solidão partilhada.

E um abraço ao leitor desconhecido que acha estas minhas historietas divertidas. Faço por isso, leitor, tive a sorte de as viver, sem saber ao certo se mereci vivê-las. Há mais no baú! Isto, leitores, é uma ameaça. Ou o vírus vos apanha, ou eu, ou vocês nem abrem esta página.

*a vinheta: além de muitas e variadas manias, tambem gosto de cartazes. Este está pendurado numa das casa de banho, celebra um autor de que só tardiamente (oh ignorante que sou!) comecei a aperceber-me. E burro, burro pobre, quando passei pela galeria nem sequer perguntei pelo preço. Agora, boa tarde, Inês é morta e já não lhe chego. Contento-me com o cartaz que tambem já não é nada barato. 

 

estes dias que passam 349

d'oliveira, 01.04.20

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Diário das semanas da peste

Jornada décima sexta

Lavar as mãos com whisky

mcr, 1 de Abril

 

o título não faz parte do folclore do primeiro de Abril, se é que inda há quem queira avançar uma mentira. Eu nunca fui dessa comandita, ainda por cimaé o dia de anos de um daqueles amigos que poderia ser um irmão, o Pedro Mendes de Abreu,  e graças ao facto de ser dia 1 nunca me esqueço e lá telefono. Às vezes estou mais de uma hora a tentar apanhá-lo, que aquele gajo tem mais amigos que o Evaristo! Todavia, hoje, apressei-me e apanhei-o à primeira. Está bem, os dele estão todos bem o que já é uma boa notícia.

Mas voltemos ao título. Há muitos, muitos anos, quase numa outra reencarnação, vivi em Lourenço Marques entre o  terceiro e o quinto ano do liceu. Cheguei ao liceu Salazar, hoje Josina Machel, a princípios do 3º período e fui directo para a turma C, a dos alunos mais velhos, muitos deles repetentes. Foi das turmas de que mais gostei durante o meu curso liceal, não sei se o Saka, (Saclerides) será da mesma opinião mas não tenho mais ninguém a quem perguntar. Ou melhor, também sei do Chissano, esse mesmo, o ex-presidente de Moçambique (um exemplo para tantos políticos africanos mas não só que se eternizam no poder). Nanja o Joaquim Chissano, que cumpridos que foram os seus honrosos mandatos, ganhos em eleições multipartidárias, voltou à terra para viver uma velhice tranquila, cuidando dos seus e dos seus bois, esse símbolo africano de riqueza.

Nessa turma C com a qual transitei para o 4º ano juntei-me a um trio de amigos com quem, todas as manhãs, acampava no portão de acesso das raparigas. Eram eles o Tótó, o Humberto gordo (que a cada passagem feminina murmurava em tom que se ouvisse “Oh que bom deve ser viver no campo”) e o Magalhães, Manuel Fernando Magalhães a quem devo o título da crónica.

De facto, o Magalhães era já nesse tempo um excelente aluno de Português distinguia-se pela facilidade com que contava histórias exactamente na proporção inversa dos seu talento matemático, onde era um desastre, um épico desastre. Terá sido em homenagem a esse diferendo com as ciências exactas, ou Matemática simplesmente que, muito jovem, em 1959 (Atlantida Editora), publicou um curioso ivrinho com o título “3x9=21”.

Obviamente o livro tem todos os defeitos de uma primeira obra de alguém que rondaria os 18/20 anos mas traz também o perfume discreto do testemunho, da juventude e da rebeldia. Claro que o tenho, bem evidência, na estante nº 3 da sala. Fui por ele e vi que o comprei na Casa Havaneza, na Figueira da Foz, em Maio de 63. O que sempre me intrigou é a editora. Como é que um tipo de Lourenço Marques publica o seu primeiro (e único) livro em Coimbra. Será que o Magalhães aportou ali para frequentar a universidade? Se foi assim, pouco durou por lá pois tenho vaga notícia que nos primeiros anos sessenta seria jornalista em Moçambique. E da “Tribuna”, o diário mais progressista (se o termo pode ser usado quanto à imprensa moçambicana) da colónia. Também, ouvi dizer que, quando cumpria serviço militar, também em Moçambique, as competentes autoridades do Exército souberam  do livrinho e por isso o terão castigado com alguma dureza. Terá mesmo estado preso.

E preso , porquê? Ora muito simplesmente porque um dos personagens da série de contos, descobre que acabara de apertar a mão a um oficial do exército. “Do quadro ou miliciano?”, pergunta. E, à resposta “Do quadro”, pega numa garrafa de whisky e lava conscienciosamente a manápula pecadora e cumprimentadora para “desinfectar”. Pelos vistos isto foi considerado uma tremenda ofensa às forças armadas e o Magalhães foi alvo de competente processo e mandado para uma cadeia militar. O Luis Carlos Patraquim, jornalista, poeta e autor de um excelente romance sobre o Moçambique moderno (“A Canção de Zefanias Sforza”, Porto editora, 2014) confirmou-me alguns dados sobre o meu antigo colega e chegou mesmo a ligar-lhe uma vez para eu poder trocar duas palavras com ele. Combinámos um encontro que nunca se realizou porquanto morreu. Ainda por cima vivia na “linha”, perto da minha mãe e do meu irmão... Em boa verdade, eu nunca o procurara por pensar que ele vivia em Moçambique, onde durante muitos anos foi o jornalista correspondente da RTP. Parece que, a certa altura, as autoridades moçambicanas terão querido assemelhar-se às militares coloniais e vai daí expulsaram-no do país. Eu recordo algumas reportagens e nada vi nelas que pudesse fazer perigar a independência de Moçambique. Também não sei quando terá ocorrido essa expulsão, se ela foi ou não levantada, mas a verdade é que o Magalhães, criado em África, profissional dos jornais lá, com claras simpatias pela causa independentista, acabou cá. Não é caso único pois toda uma série de intelectuais moçambicanos de que já só está vivo o Eugénio Lisboa tiveram de se exilar em Portugal. Entre eles, o Rui Knopfli, poeta excelente e exemplar, cujas obras se podem eventualmente encontrar por aí. Ou a Noémia de Sousa, a “mãe da literatura moçambicana” com quem me encontrei uma única vez , suponho que na cantina do Técnico durante uma das muitas escaramuças académicas, ou no intervalo de uma delas, Era uma mulher tímida, simpática, espantou-se por eu saber quase de cor um dos seus poemas ("deixem passar o meu povo") e que morreu em Cascais, em 2002. UPoucos meses, um ou dois, antes de morrer, foi publicado “Sangue Negro”, copiosa recolha de poemas seus. em Moçambique, com a chancela dos Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique.

Se algum/a leitor/a quiser perceber melhor a complicada história de uma jovem nação, o livro ideal para o fazer é o do Patraquim que acima referi. Está lá tudo. Tudo, absolutamente.

Anda por aí toda a gente a desinfectar as mãos com álcool, gel não sei quê, produtos que ou se não encontram ou, se acaso se vendem, correm a preços excessivos. A crise do medo vai acompanhada pela da ganância. E pela da falsificação: vi umas máscaras que “se podem lavar, reutilizar desde que passadas a ferro” Nem perguntei quanto custavam. Tenho a ideia que uma desinfecção à Magalhães pode ser um bom ponto de partida. Sobretudo se bebermos um copo do produto, com duas pedras de gelo e “água do Castello”. À vossa saúde!

It’s allright ma, i’m only bleeding”, ah como compreendo o Dylan, rapaz do meu tempo! 

 

 

*A vinheta: o livro do Fernando Magalhães, com duas máscaras a acompanhá-lo. A de cima é uma máscara tradicional "kple kple" da etnia Baúlé (Costa do Marfim).  A outra, tenho por mim que é uma máscara Guru (Mali) mas aceito,  humilde e gratamente, qualquer correcção. De facto comprei-a num leilão sem quaisquer indicações de proveniência e ainda não me dei ao trabalho de a comparar com as fotografias que há em diversos livros de arte africana que possuo. Às tantas é o que irei fazer depois de publicar o post. Cuidem-se! por favor! Já tenho tão poucos leitores que me não posso dar ao luxo de perder seuer um(a)... 

 

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