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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

30
Jun20

estes dias que passam 438

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada centésima quarta

Livros evadidos

mcr, 30 de Junho

Se há uma coisa que, no cafarnaum cá de casa, esteja organizada e ordenada é a biblioteca mesmo estendendo-se por várias divisões e corredores. E não é coisa fácil dado haver livros que acabam por pertencer a duas categorias ou que simplesmente não cabem nas estantes (in)disponíveis.

Posso, entretanto, garantir que estão todos numerados, todos “tombados” no livro mestre onde anoto as compras e dou o número de entrada e todos com uma ficha ou individual ou, colectiva (no caso de autores com várias obras ou, menos frequente, de uma colecção. Assim Eça tem direito a uma ficha única que já vai em quatro dado o número de edições e de livros sobre ele enquanto que os boletins da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais constam de uma boa meia dúzia de fichas sempre com o mesmo título.

Todavia, volta e meia, compro um livro repetido apenas porque não tive o cuidado de ir ao ficheiro ver se ele existia. Fico furioso, como calcularão pois não tenho vocação mecenática de qualquer espécie e se tiver de dar dinheiro a alguém, o que por vezes acontece, dou-o a organizações que considero dignas de ajuda e não a livreiros ou editores.

Ora, recentemente, comprei dois livros em dois alfarrabistas distintos que julguei não ter: As ”Marchas, danças e Canções” de Fernando Lopes Graça , numa edição relativamente recente mas esgotada, e “Bahia de Lourenço Marques... questão... com a Grã-Bretanha... 2ª memória do Governo português... “ uma publicação de 1874 sobre a longa disputa entre Portugal e a Inglaterra sobre o domínio da baía e também da cidade que na altura era um foco de doenças mas que serviria para porto das recém conquistadas colónias boers.

Foi o Presidente da França, marechal Mac-Mahon quem dirimiu o conflito dando razão à parte portuguesa.

(não foi o único conflito sobre esta esplêndida baía pois os holandeses também a quiseram e chegaram a pôr pé na costa mas vencidos pelo clima e pelos portugueses mandados à pressa de Moçambique (ilha) numa das muitas expedições que aquela zona necessitou. Em boa verdade, mesmo depois dos ingleses terem sido contrariados, a cidade, aliás vila, foi atacada por “impis” africanas eventualmente armadas e pagas pelos primeiros).

Quando fui fazer a ficha dos livros, entretanto lançados no livro mestre, descobri estupefacto que já os tinha, pelo menos as fichas apareceram. Fui por eles e nada. Procurei esforçadamente as duas obras nas estantes respectivas e, das duas uma: ou estou cego ou elas escafederam-se (adoro esta palavra!) para local incerto.

Note-se que ambos os livros tem formatos que os distinguem da maioria. São mais altos, bastante mais altos, que a generalidade dos livros. vá lá saber-se a razão, sobretudo no caso das “marchas... “ de Lopes Graça.

Já por aqui terei contado que um dos meus melhores amigos, o Pedro Sá Carneiro Figueiredo, era um leitor voraz e, de cada vez que vinha cá a casa para jogar bridge (ele foi, na porra da curta vida que teve, o pior jogador de bridge com que me cruzei – e notem que que levo sessenta anos de bridge!-Nunca percebi como é que um tipo tão inteligente e tão entusiasta daquele jogo conseguia acumular disparate sobre disparate a uma pasmosa velocidade!), fazia uma razia nas estantes e saía ajoujado ao peso dos calhamaços. Quando regressava, trazia os livros, ou melhor não os trazia todos porque, na casa dele, a mulher e a empregada, sempre que viam um livro com ar de perdido metiam-no na estante mais próxima. Eu nem dava pela coisa, limitava-me a pôr os volumes entregues no seu sítio. O Pedro entretanto morreu e durante anos a viúva, ia-me trazendo chorosa e desamparada os livros que encontrava e que felizmente tinham a minha assinatura ou algum carimbo meu.

De facto, só se dá pela falta de um livro quando vamos por ele, pelo menos quando a biblioteca tem um certo tamanho.

Também é verdade que, durante alguns breves anos, o meu grupo se dedicava a mudar a ordem dos livros nas bibliotecas dos outros. Ou melhor, só o faziam se a biblioteca tinha sinais evidentes de estar organizada. Isto põe qualquer leitor num estado de exasperação quase homicida e temendo que algum dia alguém chegasse a extremos destes, entendemos negociar um tratado de paz selado com um belo jantar de marisco.

Porém, tudo isto é mais que passado. Todos envelhecemos e alguns de nós já deixaram este vale de lágrimas. Há anos que das minhas estantes só saem livros para uma única destinatária que, de quando em quando, se lembra de começar a ler algum autor que desconheça. Então, chega-se com pezinhos de lã, na esplanada do costume, tenta pagar o meu café e pergunta-me com ar inocente, como há dias “Olha lá que me dizes do Manuel Teixeira Gomes?” Eu digo que sim, que, apesar de ter sido presidente da república, foi um homem interessantíssimo que, às tantas mandou a política às malvas e se retirou para uma pequena cidade argelina onde acabou os seus dias. E que escrevia muito bem. E, conhecendo a peticionária como conheço pergunto logo se quer que eu lhe empreste algum livro. Claro que quer. E é uma excelente leitora que, ainda por cima, encaderna em papel espesso os volumes emprestados, restituindo-os atempadamente com menos pó do que à ida.

Mas os livros acima citados passaram seguramente à clandestinidade. O do Graça ainda se compreende pois é uma antologia de poemas anti-regime de Salazar, musicados por um excelente compositor e oposicionista. Tive a honra e o prazer de conhecer boa parte dos autores das canções e de cantar muitas delas num alarde de desafinação que só a amizade me salvou de ser considerado uma provocação!

Agora, a “memória sobre a bahia...” (bahia com h para acentuar o i!, que bonito!) é que não se entende. Nem os mais espevitados e hodiernos (outra palavra de estalo!) activistas anti-coloniais se atreveriam a atacar este monumento, tanto mais que em Lourenço Marques, hoje – e tolamente!- Maputo, ainda subsiste o venerável nome de Mac-Mahon, na praça do mesmo nome e mais ainda a memória da sua decisão pois ninguém tocou no nome da avenida 24 de Julho dia da decisão do marechal. Este nome transitou integro do regime colonial para o actual nacional.

Os bifes foram derrotados mas nem por isso deixaram de afluir à cidade em todos os períodos de férias. Vinham embebedar-se e, de caminho, frequentar as putas da antiga rua Araújo. Em Moçambique, no tocante a putas o que sobrava eram raparigas pretas e mulatas. Os cavalheiros do apartheid deslumbravam-se e pecavam duplamente. Fornicavam e fornicavam com gente de outra cor o que nas leis canalhas da África do Sul equivalia a crime de “bestialidade”!!!

Nós rapazolas, claro que atacávamos em enxames cerrados a rapariguinhas “bifas” com a sólida convicção, nunca provada, de que obteríamos mais do que uns beijinhos coisa que elas generosamente distribuíam com fartura. Na boca! Ai...

Portanto, e voltando à vaca fria, andam dois livros a monte. Terão fugido ao covid? Aos impostos? Ao Ventura? Ou, hipótese improvável mas que não se pode ignorar, temem encontrar-se com o Sr. Presidente da República e serem alvo de beijos e selfie (ou vice-versa)?

Na vinheta: praça Mac-Mahon em Maputo, se é que ainda se chama assim...

 

29
Jun20

estes dias que passam 437

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada centésima terceira

recado às meninas do bloco

mcr, 29 de Junho

 

 

 

juro que nada me move contra as jovens senhoras do Bloco de Esquerda, bem pelo contrário. Haver um partido que tem como porta-vozes quatro mulheres é qualquer coisa de refrescante. Estou a referir-me a Catarina Martins, a Marisa Matias e às duas manas Mortágua, como é evidente.

Provavelmente também poderá haver algum cavalheiro capaz de aparecer perante a tv e os restantes media mas são elas que normalmente aparecem.

Só lhes chamo “meninas” porque provavelmente poderiam ser todas minhas filhas, dada a diferença de idades.

De certo modo, também assim as apodei porque suponho que não conheceram nem viveram no antigo regime que, pobre de mim!, aturei até aos 33 anos, a famosa idade de Cristo.

De certa maneira, alguns dos tiques mais “esquerdistas” que julgo ver nelas, lembram-me gente do meu tempo de menino e moço, melhor dizendo de conspirador. Nessa época, não era incomum encontrarmos os antepassados dos modernos “activistas”, na altura apodados de “contestatários”, vulgo “contestas” que ruidosamente se manifestavam contra muitas coisas e, sobretudo, tomavam por “burgueses” os que pacientemente lá iam tentando meter uma farpa no pescoço imenso do touro governamental.

Não vou, nem vale a pena, fazer o processo desses maximalistas que agora estão respeitáveis como, por mero exemplo, o dr. Durão Barroso para não falar de um tal Vilar , dito o “1001” que ainda conheci na versão fundibulária de secretário geral de um pequeníssimo agrupamento “comunista” e logo a seguir como mentor menor de alguma gente do PPD.

Toda a gente muda, ou quase e não é contra isso que venho. Eu, ao longo destes últimos quarenta e tal anos, verifiquei que alguns mudaram muito depressa e sempre para melhor, para a carninha da perna bem assada e com batatinhas à volta.

Nos tempos em que vociferavam, as coisas eram diferentes mas eles afirmavam que se devia cortar a eito, sem apelo nem agravo. O PC, que já tinha da matéria largo e antigo conhecimento, baptizou-os de “esquerdelhos” e meteu-os no mesmo saco de muitos outras esquerdistas menos faladores mas mais produtivos. E, aos olhos da restante e reduzida opinião oposicionista matava dois coelhos de uma só cajadada. Por um lado ao misturar uns e outros deixava entender que aquilo era tudo uma balda, por outro fazia com que os militantes da esquerda não comunista (ou não comunista de obediência – cega – soviética) parecessem uns tontos irresponsáveis.

Mas, deixemos estas águas passadas e voltemos ao recado que titula o folhetim de hoje. Pelos vistos, e segundo uma comissão do Conselho da Europa, as mulheres portuguesas tem remunerações inferiores em 16/17% (para trabalho igual) às dos homens.

Confesso que, quando li a notícia me admirei pois, velho do Restelo que sou, julgava a situação ainda pior.

Eu faço parte daqueles que julgam as quotas um mau princípio mesmo que seja imposto para tentar equilibrar as coisas. É que a quota dá sempre a ideia de que a mulher (ou o preto, ou o cigano) está no lugar em que está por favor e não por mérito próprio, naturalmente.

Na minha vida profissional e enquanto dirigente de instituições onde havia mulheres, descobri que, mesmo quando estas estavam em larga maioria, era exígua e quase só ornamental a existência delas em escalões de comando, mesmo nos mais modestos. Numa entrevista que terá causado escândalo, e na qualidade de presidente de uma instituição em que 80% dos trabalhadores eram mulheres não chegava a 10% os cargos de chefia a elas atribuídos. Numa entrevista, de que infelizmente não guardo cópia, afirmei que aquilo parecia um galinheiro onde uma dúzia de galos governava a seu bel-prazer.

Querem saber que no rol dos indignados (desde o ministro da tutela e principais auxiliares aos meus subordinados) estavam muitas, uma multidão das minhas subordinadas. “que não eram galinhas, não senhor”, “que eu era um esquerdista disfarçado e bem vestido (sic)”, um “menino da Foz” (no Porto daquele tempo havia quem considerasse isto um terrível insulto, coisa que não aquecia nem arrefecia os jovens privilegiados habitantes daquela zona).

E pouco a pouco, de mansinho, com cautelas mais que muitas, fui promovendo mulheres sobretudo ao nível das chefias de secção. E nem sempre, ou pelo menos uma vez, acertei. Mas que introduzi um princípio, disso, agora, ninguém que recorda esses anos contesta.

Aliás, ainda era estudante, e já tentava melhorar, ao nível de organismos académicos onde estava inserido, a percentagem de mulheres. Nessa época a coisa era assim. Na direcção havia sempre uma mulher (e só uma) num conjunto de sete elementos. Nos restantes organismos directivos cada um com três lugares primavam pela ausência.

Cheguei a inventar um argumento que pensava ser arrasador: as organizações estudantis viviam debaixo da apertada vigilância da polícia e das autoridades académicas locais e ministeriais. A guerra apertava nas colónias e um bom castigo para quem saía da casca era ser incorporado, fazer Mafra e seguir para os cenários de guerra como “atirador especial” (já não estou seguro se este era o nome da especialidade). Para os mais perigosos havia ainda o expediente de os enviar para um batalhão disciplinar e depois embarca-los como soldados rasos ou quase para o quentinho dos trópicos. Mas, regra geral, bastava enviar o relapso como aspirante miliciano para uma das três frentes africanas. Também havia o bambúrrio de ser enviado para os pequenos paraísos (Cabo Verde, S Tomé ou Timor) mas isso requeria muito pouca gente. Portanto, o grosso dos aspirantes milicianos iam para carne para canhão, no caso, canhangulo.

Ora, argumentava eu, para evitar chatices de chamada antecipada para Mafra, nada como começar a pôr mais mulheres na direcção dos diferentes organismos estudantis pois elas não podiam ser mobilizadas! Querem saber que nem assim? Os meus amigos não prescindiam do seu direito “natural” de serem dirigentes e muitas da minhas amigas achavam que aqueles cargos estavam destinados aos homens.

Houve mesmo uma colega minha que quando eu referi a injustiça da distribuição de lugares de direcção num organismo a que ambos pertencíamos, me chamou “marialva”. Perdoei-lhe porque percebi que ela nem percebia o que aquilo queria dizer.

Voltemos, outra vez, às senhoras deputadas do BE pois eu bem que esperava que esta notícia as fizesse mexer, indignar-se publicamente, denunciar a situação. Pelos vistos nada disso aconteceu. Pode sempre dizer-se que está na ordem natural das coisas a crítica a esta injusta situação, que já houve as necessárias denúncias, que não vale a pena chover no molhado, enfim tudo o que quiserem.

Todavia, esta notícia da condenação de Portugal (e de mais uma boa dúzia de países europeus...) é fresquinha e sempre dá pano para mangas. E variava-se das questões “fracturantes” que podem estar na moda para algumas raras criaturas mas nada dizem à maioria das pessoas. Aqui a coisa é clara, claríssima: as mulheres ganham menos, tem muito menor acesso a lugares de direção e, mesmo no Parlamento são minoritárias quando na população geral do país são quase 55%!

O recado às “meninas” do BE poderia ser extensível à senhora da CGTP mas, tenho o vago pressentimento que ela não o ouvirá, tanto mais que a denúncia vem de um organismo europeu “burguês” e, eventualmente, inimigo dos mais “amplos direitos dos trabalhadores e proletários portugueses, bem como de amplas camadas populares” etc., etc...

E por aqui ficamos. Com mais esta medalha de mau comportamento. Com covid e sem turistas ingleses. Que injustiça!

 

Um livro fresquinho, fresquíssimo: saiu uma tradução da Eneida feita por um conceituado professor da Universidade de Coimbra.

Olhem que vale muito a pena, quanto mais não seja porque Virgílio conta muitos acontecimentos que, por razões de toda a ordem, não constam da “Ilíada” e que fazem parte da grandiosa série de mitos com que a nossa cultura europeia se construiu. E Camões não só leu o romano como se baseou nele para escrever os Lusíadas. Logo no princípio as armas e os varões assinalados vem direitos de arma virumque cano com que se inicia o poema latino.

Nunca recomendo um livro que não tenha na minha biblioteca. No caso, o que por cá há é uma antiquíssima tradução publicada na Sá da Costa e outra maravilhosamente ilustrada mas francesa (ed Diane de Selliers): o texto latino, à parte, é ilustrado por miniaturas do códex “romanus vaticanus latinus 3867. A tradução para francês traz copiosas reproduções de frescos romanos. Todavia, a obra é pouco manejável pelo tamanho, 34x27 e consequente peso.

Obviamente, já encomendei o livro que, se calhar vai comigo para férias.

 

Gostaria de poder dedicar este pobre folhetim a duas mulheres. A primeira chamava-se Maria Helena Rocha Pereira e foi professora catedrática em Coimbra e teve a gentileza de me permitir assistir às suas aulas de cultura clássica. É autora de alguns livros fundamentais sobre o tema que estão felizmente reimpressos. Já morreu.

A segunda, felizmente viva e muito viva, chamava Elvira Fortunato, é cientista e ao que consta há quem pense nela para o Nóbel da Física. Já tive oportunidade de a ouvir em diversas entrevistas televisivas e, agora de a ler, via Expresso. Adorava conhecê-la pessoalmente. Talvez me conseguisse encasquetar neste bestunto velho algumas noções de física que sempre me desesperaram pois parece-me que tem o supremo dom de tornar simples o que é complicado. Vou de seguida ouvir Serge Reggiani cantar “les loups sont entres dans Paris” onde perpassa a “charmante Elvire” de Regnard.

E assim já temos um disco para propor

 

* na vinheta: Cipriano Dourado: “vindima” serigrafia (ou gravura tintada?) exemplar 73/100, assinado da obra indicada. Acho que foi a primeira obra de arte que comprei e não foi assim tão barata... pelo menos para o bolso de um jovem advogado! 

28
Jun20

estes dias que passam 436

d'oliveira

O s dias da peste 

Jornada centésima segunda-feira

Anda alguém a mentir-nos

mcr, 28 de Junho

 

O “Público” anuncia que Portugal, com a comovente companhia da Suécia,  está excluído da lista de países que entram no corredor aéreo britânico. Razão para tal desfeita do mais antigo aliado (que em matéria de desfeitas sempre foi desembaraçado): temos uma alta percentagem de infeccões por cada 100.000 habitantes (o dobro da do Reino Unido, e mia do quádruplo das de Itália ou Espanha, ambas abaixo dos 10 casos).

Portanto, se turistas ingleses vierem a Portugal, podem contar com quinze dias de quarentena na hora do regresso. Toma lá e embrulha!

Uma senhora secretaria de Estado do Turismo tentou recordar à Inglaterra que o “torrãozinho de açúcar é um destino “clean & safe” e o melhor destino segundo um “conselho mundial de viagens e turismo” (sic). 

Os “bifes” não se impressionaram, logo eles que há uns dias atulharam as praias do sul da Inglaterra com quase um milhão de banhistas. Aquilo parecia uma corrida de lemings para o precipício do covid, as autoridades locais rugiram indignadas e temerosas mas os compatriotas do Boris estiveram-se nas tintas. Se, na próxima semana, não houver um surto gordo de infecções temos uma de duas: god is with UK ou eles é que sabem.

Não sei quais vão ser as consequências para o Algarve, porquanto, e à lembrança das multidões nas praias do sul da semana passada, sempre tive a ideia de que aquela malta é um tanto ou quanto suicidária, tipo “carga da brigada ligeira” (se é que isto ainda significa algo para alguém). Por outras palavras: situação desesperada mas não grave: para o Algarve em força! 

Não creiam que esta notícia da desafeição momentânea da bifalhada me alegra. Não, de modo algum. Todavia aquela minudência dos 45 casos por cada 100.000 habitantes é cruel e, sobretudo, verdadeira.

Na edição do “Expresso da meia noite”, de sexta feira, uma médica, por sinal directora do serviço de infecciologia (!?!) do hospital de Amadora  veio também lançar mais azeite nas chamas e afirmar com ar cândido mas seguro que a descoordenação na zona de Lisboa e Vale do Tejo está em velocidade de cruzeiro. Não só não foi contraditada mas, logo a seguir, a Ordem dos Médicos e mais um punhado de responsáveis abonaram esta afirmação. 

Por outro lado, se olhamos para o mapa das freguesias mais afectadas (as famosas 19 de Loures, Odivelas, Amadora, Sintra e Lisboa poderemos ver que aquilo é a mancha indelével e infame da extrema pobreza na região.

Junte-se as péssimas condições de habitação (que não permitem o isolamento dos infectados nem dos que com eles contactaram), o estado caótico dos transportes que andam mais abarrotados do que nunca, a necessidade que as pessoas tem de ir trabalhar para conseguir pôr o pão na mesa e deixará de ser surpreendente esta contínua média de 300/400 infectados por dia. 

Não se trata como os especialistas já explicaram de uma consequência de haver mais testes (um dos slogans favoritos de Trump e do seu imitador barato Bolsonaro, convém lembrar a alguns políticos indígenas que também usam este argumento...) mesmo se, como é evidente quantos mais testes se fizerem mais casos podem aparecer. A verdade, pelos vistos, e cito os tais especialistas, é que estamos acima da percentagem “normal” de novos infectados por novos testes. 

Também seria bom lembrar que anda pelas bocas do mundo, de certo mundo, a afirmação de que são os jovens que se juntam na rua para lhe darem nas cervejas, que arriscam e arriscam os idosos. Mas nas freguesias já citadas a coisa parece funcionar mesmo sem juventude e sem jumentude. 

Que ninguém me pense como defensor  da rapaziada que se emborracha estupidamente nos parques ou nas praias à noite. Mas se isto acontece há, para já, uma rede de cumplicidades familiares. Alguém lhes dá o cacau para comprar as bebidas, a chave de casa para saírem. 

A crua realidade, a feia realidade é esta: são os pobres (por definição feios, porcos e maus) quem está a levar com o covid nas trombas. 

Eu não sou político no activo, nem idade já tenho para isso, mas lembrado dos variados hospitais de campanha montados e desmontados rapidamente, ousei pensar que eles seriam locais interessantes para internar quem não tem em casa condições de enfrentar a provável infecção sem tramar a vida dos familiares, novos e velhos. 

E lembrei-me, ó memória cruel e justiceira!, que durante todo o período anterior toda esta gente agora ameaçada esteve sempre a trabalhar, desde os grandes centros de logística, a construção civil ou os trabalhadoras de empresas e fábricas que não fecharam. 

Então só agora é que o vírus se lembrou deles? 

A vantagem de ter muitos anos (pobre vantagem) é a gente estar já prevenida sobre a conversa habitual dos responsáveis políticos que, à menor contrariedade, se escudam na “má informação” dos outros, os culpados!

Durante dois inteiros meses, andaram por aí uns perus de segunda categoria a fingir-se de pavões e a proclamar a excelência das suas medidas  a que, modestamente, associavam o povo, o bom povo, os heróis do mar e a restante parafernália patriótica em uso.

E apontava-se o dedinho virtuoso a outros países que, coitados, não estavam dotados de governantes tão sábios e prudentes.

E agora estamos aqui. Atordoados com a sensação de estar abandonados e, durante uma breve erupção patriótica do sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, ameaçando retaliar. Ora faça V.ª Ex.ª o favor de pôr os “bifes” de quarentena. E os dinamarqueses esses atrevidos, e os outros todos que diabo! 

Não seria a primeira vez que proclamaríamos o “orgulhosamente sós”...

Hoje não há vinheta. Éa minha maneira de me manifestar contra essa gente europeia que não compreende esta pátria de heróis do mar e nobre povo. Contra os canhões, marchar . E em força, carago!

 

27
Jun20

estes dias que passam 435

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada 101

Sobre o racismo português (final)

mcr, 27 de Junho

 

 

Eu não queria voltar a este tema por duas ou três razões. Os leitores já devem estar mais que fartos desta discussão e, sobretudo da campanha promotora do arrependimento nacional por tudo o que, ao longo de oito séculos, ocorreu e que, aos olhos de hoje, pode parecer (ou é) pouco curial, pouco civilizado ou abertamente criminoso.

A história é o que é e não vale a pena tentar estudá-la à luz deste século em que, provavelmente pensaremos de maneira a escandalizar os antepassados e fazemos coisas (ou permitimos) que, nessa época, seriam consideradas crimes medonhos, pecados horrendos, faltas imperdoáveis.

Identicamente, não criticamos os gregos cuja civilização que tanto se admira, tinha na base o trabalho escravo, a menorização da mulher, a diferenciação entre os raros cidadãos e uma plebe que só, pouco a pouco, conseguiu conquistar alguns direitos mas nunca atingir a igualdade com a minoria aristocrática. E por aí fora.

Todavia, é uma inquestionável verdade que, nas sociedades ocidentais, em todas as sociedades ocidentais, persistem laivos de racismo sob as mais variadas formas. Na Europa oriental e central, à falta de negros foram sempre os judeus os perseguidos, humilhados e desprezados.

Com a revolução russa, houve a ideia de que finalmente, os judeus se libertariam da longuíssima perseguição histórica de que eram vítimas. E não foi por acaso que uma importante série de dirigentes bolcheviques eram judeus. Porém, a grande maioria dos judeus da URSS eram religiosos e a vida deles não melhorou substancialmente justamente porque a religião foi fortemente combatida .Já no fim do consulado de Stalin, houve uma violenta perseguição aos médicos judeus dele e, por extensão a milhares de judeus. Poucos anos antes, a Alemanha nazi tentou, e quase conseguiu, aniquilar o povo judeu. Nessa tarefa foi ajudada por gente de vários países onde havia minorias judaicas (e aqui pode incluir-se a França de Vichi que entregou milhares de cidadãos franceses de confissão judaica (incluindo crianças!) às autoridades alemãs. Em contrapartida, ironia da história, na Tunísia, colónia francesa habitada quase exclusivamente por muçulmanos, houve uma clara protecção popular dos judeus residentes...

A questão dos negros (ou dos indianos, polinésios, ameríndios ou povos asiáticos ditos amarelos) foi visível nos países que colonizaram esses territórios. Aí até era fácil fazer a destrinça, graças à cor a pele.

Todavia, ocupemo-nos de Portugal. Uma organização que o “Público” afiança ser respeitável (o European Social Survey) veio afirmar, com base num inquérito feito a cerca de 1500 portugueses, que 62% deles manifestam racismo.

Não quero contestar estes resultados se bem que a amostra me pareça escassa. No entanto, estas coisas não podem deixar de ser contextualizadas, social e historicamente. Portugal fez uma guerra colonial onde implicou mais de um milhão de soldados que, obviamente, sofreram bastante durante os dois/três anos de permanência em zonas de guerra. Não falo dos mortos e feridos que não foram assim tantos mas das consequências psicológicas de tão longa estadia em terras hostis, com clima diferente, sempre rodeados pelo perigo de uma embuscada, de uma mina, de um acidente. Com que espírito voltaram eles dessa traumática experiência? Como é que encaravam o 2outro”, o “preto” sabendo como sabiam que os massacres no Norte tinham sido cometidos por, ou com a cumplicidade dos empregados de confiança dos colonos chacinados (a que devem juntar-se os empregados fieis que também não foram poupados)?

Estes soldados tinham famílias que viveram esses tempos com o coração apertado e também não teriam qualquer boa impressão de quem lhes matava ou podia matar os filhos, maridos irmãos, pais ou demais parente que cumpriam o serviço militar. E juntem-lhe um mínimo de dois três milhões de pessoas.

Com o fim da guerra colonial, regressaram (ou vieram pela primeira vez) centenas de milhar de portugueses colonos. Vieram como se sabe com uma mão atrás e outra à frente. Durante anos, esses “retornados” alimentaram (e alimentam, os que sobrevivem) uma natural raiva a quem eles acham que os espoliou.

Em poucas palavras, metade da população portuguesa tem dos negros africanos uma imagem que não se pode considerar enternecedora. Treze anos de guerra são muitos anos e quarenta anos são poucos anos para esquecer, menos ainda para sarar feridas, ressentimentos, angústias.

Juntem a isto os dramáticos índices de escolaridade, a escassa cultura, a desconfiança perante o outro. Que resultado queriam que houvesse? Amor e beijos? Deixem estes para o Sr Presidente da República e lembrem apenas o que acima referi.

Vamos à segunda parte da questão: que emigrantes de “cor” temos entre nós? Dos cerca de 600.000 (números oficiais que provavelmente escondem mais umas dezenas de milhar de ilegais) dois terços pertencerão Às ex-colónias, à Índia e países próximos e à enorme fatia de brasileiros “não brancos”.

E quem são estes emigrantes? Pois, naturalmente, gente pobre, iletrada, com fracas capacidades profissionais, destinada aos pequenos empregos mal pagos, enfim à pobreza portuguesa.

Que imagem, portanto, tem os portugueses de raiz destes seus novos concidadãos? Acha-los-hão cultos, inteligentes e amáveis? Compreenderão as línguas vernáculas ou crioulas que eles utilizam? Os hábitos alimentares, os costumes, as crenças que trazem?

Perceberão que o mau domínio do português, a escassez de habilitações condenam estes novos habitantes a uma pobreza para a qual o elevador social há de demorar três ou quatro ou mais gerações?

A televisão que dá de África normalmente as imagens de guerra, de pobreza extrema e de gritante riqueza das pequenas e gananciosas elites criadas entre os dirigentes políticos e militares, ajuda?

A mim o que me surpreende é verificar que para esta terra, pelos vistos tão preconceituosa e por isso mesmo cruel, tenham vindo tantos africanos e brasileiros. E que tenham vindo tantos dirigentes políticos e militares africanos que combateram o colonizador de armas na mão e que por motivos diversos tiveram de fugir dos países que ajudaram a libertar para se acoitarem no país colonizador.

Desconheço absolutamente o organismo que acima citei. Qual a fiabilidade dele, quem o sustenta, se está reconhecido por instâncias internacionais reconhecidas. Mas entendo que 1500 inquiridos são poucos inquiridos. E sobretudo sem um estudo comparativo dos dados históricos recentes de que apenas citei três exemplos, entendo que haver 38% de convictos anti-racistas é, neste contexto e neste país recém saído do analfabetismo gritante e da incultura generalizada, um belíssimo resultado que permite esperar uma boa evolução à medida que os anos passem.

Ou, para citar uma canção popular “Mané Chiné,... preto, preto... meu queimadinho do sol”. Estão a ver como da cor “racial” se passa para outra coisa que não a escondendo a atribui a fatores naturais e climáticos?

É esta percentagem de portugueses já livres de preconceito que me faz esperar um par de coisas: a melhoria da questão emigrante e a derrota dos que pretendem atiçar portugueses contra portugueses e basear numa pretensa raça lusitana que nunca existiu (de tanto sangue negro ou berbere ou de várias outras procedências que carreamos desde há séculos) um país outro. E notem que não me refiro apenas ao Chega e a umas poucas centenas de cabeças rapadas. Mesmo sabendo que, mais cedo ou mais tarde, há de aparecer com alguma expressão eleitoral uma extrema direita. Na Europa que temos, a única anormalidade portuguesa é haver apenas um deputado pindérico da Direita pura e dura.

 

((não me quis referir a expressões racistas noutros países europeus. Além dos negros, dos árabes, dos turcos (na Alemanha) lembremos que em Itália até contra italianos há racismo Veja-se o que se passa no norte contra o habitante do sul, o “cafone”. E na conjunctura italiana, até Roma já é um pouco sul. E contra os do sul vigoram exactamente os mesmos preconceitos que o ESS verificava em Portugal. Afinal onde é que ficamos?

Nas “nacionalidades” catalã e basca há um forte e enraizado sentimento de superioridade em relação aos emigrantes de todas as outras regiões espanholas. Como de costume trata-se de gente pobre que vem até essas regiões mais desenvolvidas tentar ganhar a vida.

Na Europa Central há uma etnia perseguida desde sempre: os ciganos. São na Roménia, na Bulgária, na Hungria minorias sempre desprovidas de certos direitos e olhadas como inferiores.

Nos territórios da Federação Russa, os olhados com desprezo são regra geral os caucasianos com especial relevância para os tchetchenos e para outros grupos de religião muçulmana. Ora aqui está um enorme e interessante objecto de estudo – mas estudo sério- para o European Social Survey.))

*na vinheta: dança das máscaras kanaga ). país Dogon (Mali). Estas máscaras podem chegar a ter mais de dois metros!

 

26
Jun20

estes dias que passam 434

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada centésima

“white man’s burden”

mcr, 26 de junho

 

 

Kipling, um autor hoje esquecido (excepto em Inglaterra e no caso d poema “If”) cunhou esta expressão para significar que o homem branco (fundamentalmente o britânico) carregava um pesado fardo que consistia no dever de educar uma panóplia imensa de povos selvagens e não brancos.

E mesmo nos brancos, estou em crer que Kipling acreditava que alguns também deveriam ser civilizados.

Esta era a mentalidade vitoriana mas também a da época. E era de tal forma dominante que muitos “indígenas” das mais variadas procedências e latitudes, macaqueavam o “civilizador” e tentavam juntar-se a ele nem que fosse como cabos de ordem, capatazes ou mordomos.

Isto passou-se um pouco por todo o lado, inclusive nas incipientes colónias portuguesas. Vem desta altura as “ilustres famílias” angolanas (em reduzido, ínfimo número) moçambicanas. E é curioso recordar agora, século e meio depois, que os rebentos dessas mesmas famílias ( mestiçadas quase todas) foram, nos anos cinquenta e sessenta, os primeiros actores dos independentismos africanos nas colónias portuguesas.

Todavia, não é disso que venho falar mas de algo bem diferente. Uso o termo de Kipling já não para referir a missão mas antes para dar à palavra fardo outro (aliás legitimo) significado.

E isso porquê? Porque hoje, pelos vistos, foi notícia a decisão de ordenar a prisão de três polícias do SEF indiciados pela morte brutal de um cidadão ucraniano que, a fazer fé, nos jornais, foi assassinado à pancada numa fria e raivosa execução que durou horas, numa sala escondida, usada pelo SEF.

Aqui não se trata, como no caso do americano Floyd, de alguém seguido e apanhado pela polícia por eventualmente ter usado uma nota falsa para comprar qualquer coisa.

Não, aqui, o homem, apanhado com documentos viciados, pelos agentes do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, tentava apenas continuar a viver e trabalhar em Portugal.

Não contesto a provável ilegalidade da presença dele neste país que precisa de gente que faça o que os portugueses não sabem ou não querem fazer. A verdade é que temos 600.000 estrangeiros cá instalados e que todos os anos aumenta o número de peticionários da nacionalidade portuguesa.

Excluo desta situação apenas os descendentes de sefarditas expulsos à cinco sículos só porque ao pedir um passaporte português não assumem a pretensão de viver ou trabalhar em Portugal. A ideia é outra. Tratar-se-ia de “reparar” algo que sucedeu há quinhentos anos, a expulsão de quantos judeus não se convertessem ao cristianismo, e só esses, convém acrescentar. É verdade que depois, os cristãos novos viveram sempre sob suspeita de “judaízar” e a Inquisição encarregou-se com notório afinco de trazer essas ovelhas perdidas para o aprisco do Senhor. Aos mais retorcidos aplicou-lhes um estanho caminho da salvação queimando-os em inacreditáveis (aos olhos de hoje) cerimónias a que acorria muito povo.

As perseguições ao “povo eleito” ocorreram por toda a Europa, com recurso a diferentes métodos, mas resultados quase sempre idênticos. Primeiro eram espoliados, maltratados e depois eliminados. Nos locais mais condescendentes, eram apenas segregados em ghettos, palavra de origem veneziana que significava fundição. Ora, o local da “judiaria” veneziana era justamente a zona onde existiu uma antiga fundição de ferro. A palavra foi-se internacionalizando e culminou na infâmia absoluta do ghetto de Varsóvia como é sabido.

No caso que me interessa, o do assassínio de um pobre ucraniano, relevo algumas particularidades. Pouco ou nada distinguiria este cidadão de qualquer português. Provavelmente seria mais loiro mas acredito que já falaria um português relativamente escorreito como soe ocorrer com os emigrantes daquelas partes da Europa. Não há aqui nada que lembre a cor que torna as vítimas de racismo facilmente distinguíveis.

O que me surpreende (ou nem isso...) é que esta morte violentíssima, perpetrada com uma frieza espantosa, não suscitou especial alvoroço no mesmíssimo país que anda há largos meses a uivar contra o racismo e sequelas ou antecedentes. Ninguém saiu para rua, ninguém se lembrou de afirmar que um elemento do SEF morto é um bom elemento dessa polícia.

Se me perguntarem a razão desta falta de reacção dos nossos “activistas” só me ocorre uma explicação. Ninguém noutros países se manifesta contra os maus tratos a emigrantes “brancos” do leste. Mais de um leste que, no caso da Ucrânia, foi muitas vezes considerado “fascista”, porque, aquando da invasão do território soviético por tropas alemãs houve, num primeiro momento, um bom acolhimento do invasor. De facto, estava vívida na memória ucraniana a grande fome (1930-1932 com repercussões para 1933) que se terá traduzido numa perda líquida de 10 a 15% da população (essencialmente rural). Se se lhes juntarmos as deportações (300 a 400.000)para territórios inóspitos, o fuzilamentos em massa e o bloqueio das fronteiras por onde poderia vir algum auxílio alimentar, fácil é de verificar que qualquer inimigo de Stalin seria um amigo da Ucrânia.

Todavia, os alemães cedo começaram a mostrar o seu desprezo pelos “Untermenschen” ucranianos o que suscitou uma forte resistência (e outra grande perda de vidas de civis).

Com a implosão da União Soviética, a Ucrânia foi, com os países bálticos, uma das regiões iniciais que abandonaram a URSS, o que também não abonou, nos “progressistas” e filo-comunistas ocidentais, os seus escassos créditos “democráticos e anti-fascistas”.

Estará aí, também, uma das causas da inacção dos “activistas” domésticos. A vítima dos criminosos do SEF não era nem negra nem lutadora mas tão só um desgraçado que queria alimentar decentemente a família, talvez mesmo um aspirante a capitalista...

O “fardo” imperial tornou-se, cento e cinquenta anos depois, um fardo pessoal, a-histórico e sem potencial ideológico. Nada que excite o entusiasmo militante dos protestatários em busca de uma causa.

“Fracturante”, se possível...

Dois livros imprescindíveis: Svetlana Alexijevitch, prémio Nobel 2015: “O fim do homem soviético”, “A guerra não tem rosto de mulher”

E mais um “Vida e destino” de Vassili Grosmann. Absolutamente admirável. É bom que se saiba que V G escritor soviético de nacionalidade ucraniana, foi perseguido por Stalin, salvando-se apenas porque este morreu. O livro foi proibido, o manuscrito apreendido. O KGB chegou a confiscar a fita de máquina de escrever com receio (!!!) de que ao autor fosse possível reescrever a obra. Grossman morreu em 1964 sem a ver publicada. A história da publicação é igualmente épica. Uma amiga o escritor tinha a única cópia dactilografada do manuscrito, passou-a a um outro amigo que a conseguiu microfilmar e, graças a Andrei Sakarov (prémio Nobel da paz, 1975) chegou ao Ocidente dentro da embalagem de um maço de cigarros. O sucesso foi imediato e mundial e o livro mantem-se bem entre os mais vendidos.

Vale a pena lembrar que alguém do Politburo soviético teria avisado o autor que o livro permaneceria proibido e inacessível 200 ou 300 anos. Afinal sucedeu a esta profecia o mesmo que ao Reich de 1000 anos. Durou pouco.

 

a vinheta: a grande fome ucraniana e oseu principal ( mas não único!) artífice.

25
Jun20

estes dias que passam 433

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada nonagésima nona

Regresso ao passado, muito passado

mcr, 25 de Junho

 

 

 

Desde finais de Fevereiro que não vinha a Lisboa, melhor dizendo a Oeiras, rotina que durante anos me consumia a metade da última semana de cada mês, ou seja, partia à quarta e regressava ao domingo. Vinha (e venho) ver a minha mãe que ostenta uns garbosos 98 anos (que perfará daqui a um mês certo). Aproveito para varrer os alfarrabistas, ir a um par de galerias, encontrar alguns amigos e, obviamente estar com os familiares mais chegados.

O covid sacana interrompeu esta peregrinação mensal que só recomeçou agora.

A viajem foi tristonha: sempre debaixo de chuva miudinha ou cacimbo fortíssimo, as estações de serviço da autoestrada (uso sempre a A 17 e a A 8) em serviços mínimos (café em copo de cartão, tomado de pé e, em certos sítios, café só de uma maquineta dessas que faz tudo e tudo sabe a nada, casas de banho exteriores, menos mal).

Hoje, logo de manhã, fui a Lisboa para a rotina do costume. Em primeiro lugar descobri que demorei metade do tempo que demorava, trânsito fluido, quase escasso. Em Lisboa, um autêntico passeio. A minha ideia é que em meados de 2020 passeava por uma Lisboa de há 30 anos. O parque de estacionamento (Camões) abarrotava de lugares vazios: À chegada e à partida cerca da uma da tarde!

O Chiado e arredores com 10% (e estou a ser eventualmente generoso) dos transeuntes. As esplanadas da Brasileira e da Benard com uma ocupação que não ultrapassaria os 20%. Um sossego. Nos três alfarrabistas onde entrei, fui sempre o único cliente. E na esplanada fui atendido mal me sentei!

Convenhamos que, para desconfinamento a coisa deixa muito a desejar. Mais tarde falei com um lojista do pequeno centro comercial que fica ao lado de casa da minha mãe e ele confidenciou-me que na primeira semana tinha tido uma clientela razoável mas que depois disso ela rareava. “As pessoas não acreditam e receiam que as coisas piorem de novo” explicou-me. Para o animar fiz algumas compras e descobri que estava tudo com descontos de 20 e 30%...E os saldos só começam em Agosto...

A única excepção foi uma loja de “alta fidelidade esotérica” onde queria pedir umas explicações sobre um aparelho que comprei: estava fechada porque o(s) seu(s) empregado(s) tinha ido fazer uma “instalação”. Mas amanhã, garantiram-me agora, ao telefone, estarão abertos e desejosos de me ajudarem. Cheira-me que a freguesia anda longe.

A minha excelente mãe, quando me apanha cá, manda-me ao banco levantar-lhe dinheiro. Lá parti, munido de um cheque já com uma assinatura fraquinha (os olhos estão numa lástima, logo ela que era uma leitora ferrenha...).

Descobri que na agência bancária onde temos contas, já não há “tesouraria”. Em vez disso há um maquinismo modernaço que fornece o cacauzinho mediante uma série de manipulações. Claro que, logo ao primeiro pedido, a máquina avisou que não podia prosseguir (ainda estávamos nos preliminares...) porque faltava alguém – no banco central – para certificar ou acompanhar (ou chatear, ou outra merdice qualquer... ). A solução foi eu levantar dinheiro da minha conta e depositar nela o cheque da maternidade. A jovem bancária que me atendeu e se dispôs a ser a minha cicerone no labirinto maquinistico, assegurou-me que aquilo era o futuro. Em resposta garanti-lhe que aquilo, aquele radioso futuro, era o desemprego de mais uns tantos colegas dela ou dela própria. Ficou atrapalhada e deixei-a a meditar no progresso que só agora ela via um tanto ou quanto ameaçador.

Eu nada tenho contra as máquinas mas esta maquineta irritou-me porquanto a zona onde a agência está instalada é predominantemente de pessoas idosas, reformadas que vão ter alguma dificuldade em usar estes prodígios da técnica que necessitam de cartão, de telemóvel para receber um código e que, pelos vistos, falham muitas vezes logo no princípio das operações...

É que, a alternativa era eu ir descontar o cheque a uma distância bastante razoável. Imaginei logo alguns dos “idosos” (a novilíngua politicamente correcta!!!), que provavelmente já não conduzem, a ter de fazer mais uma caminhada penosa para descontar um cheque provavelmente exíguo.

O mesmo se passa com o IRS que agora é cada vez mais feito a partir da internet. Num país envelhecido, com um índice de alfabetização mais do que medíocre nas idades avançadas (e numerosas), imagino os problemas que se levantam. Felizmente, muitas dessas pessoas estarão pela fraqueza dos seus proventos isentas do pagamento do imposto.

Este “felizmente” poderá parecer de um cinismo infame mas apenas me quis referir ao facto de tais pessoas pelo menos escaparem a mais essa violência da prestação de contas.

 

* na vinheta: máquina de calcular

 

 

 

24
Jun20

estes dias que passam 432

d'oliveira

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Os dias da peste

Jornada nonagésima oitava

Vieram ao engano

mcr, 24 de Junho

 

 

O jornal “Público” traz a notícia de que há quase 600.000 emigrantes em Portugal. Ou seja, 6% da população portuguesa é emigrante. Isto sem contar com os emigrantes ilegais que seguramente andarão pelas dezenas de milhares.

No número dos “legais” há cerca de 80.000 africanos de Cabo Verde, Angola e Guiné e aproximadamente o dobro de brasileiros. Da Índia e do Nepal são mais de 11.000. Da Roménia há quase 32.000.

Não constam israelitas ainda que haja mais de 18.000 que pediram e obtiveram a nacionalidade portuguesa.

A que vem esta enxurrada de números que, como já se disse, só diz respeito a emigrantes legais?

Pois, ainda à controvérsia sobre o racismo em Portugal. De facto esse “monstruoso” problema que ocupa páginas de jornais, manifestos semanais, graves opiniões de “activistas”, uma estátua maltratada e a promessa de mais actos profundamente libertadores.

Não se entende, pois esta perversa mania de tantos estrangeiros de cor claramente diferente da predominante em Portugal em virem submeter-se a contínuos vexames. Seguramente que vieram ao engano. E não se vão porque estão enganados e sujeitos a terríveis ameaças.

Eu juntei à lista os brasileiros que em grande percentagem tem mais que visivelmente sangue africano e os romenos porquanto é provável que alguns ou muitos deles sejam ciganos, mesmo se presuma que a grande maioria dos ciganos que pedincham pelas ruas terá entrado clandestinamente. E citei os israelitas, já não por razões objectivas e objectivadas de racismo mas porque, tradicionalmente, eles foram vítimas (em Portugal até metade do século XVIII).

Não pretendo, ao brandir estes números, vir fazer a apologia do país dos brandos costumes, do “país de minha tia trémulo de bondade e aletria” (O’Neil) ou sequer negar que, aqui e ali, haja um, dez cem imbecis que se sentem racialmente superiores ou maltratam africanos ou ciganos. Era o que me faltava!

Queria, apenas pôr alguma água na fervura sobretudo porque há dias, ao fazer um zapping descobri um ancião de brancas barbas e ar apostólico que jurava que isto aqui era o pior país da Europa em termos de racismo. Não sei onde é que a criatura foi buscar este tonitruante afirmação porquanto já só o apanhei no fim da rábula e, confesso, já não tenho pachorra para este peditório.

Para este e para mais alguns, muito em voga, a começar pelo anti-europeísmo pateta que assola certas zonas da direita radical e da esquerda idem. Regra geral, trata-se de gente que nunca viveu fora de Portugal e que só conhece o “estrangeiro” de ouvir falar ou de passar rapidamente de cidade em cidade, sem nunca se demorar o tempo suficiente para, além de três monumentos vistos a correr, tentar perceber em que terra estão. Também é verdade que boa parte destes hodiernos turistas apressados fala quanto muito um inglês básico que lhe permite comer hamburgers nos quatro cantos do mundo e aviar umas cervejolas à noite.

A Europa, quanto muito, serve-lhes para estender a mão pedinte e criticar os “frugais” (em portuga, os “forretas”) que são uns malandros insensíveis e não solidários. Do “outro” apenas viram o turista low cost que, em manadas, assola Lisboa, Porto e Algarve, numa também apressada viajem pelos monumentos, praias e tascas, tira uma fotografia na mesa do Fernando Pessoa na “Brasileira” do Chiado e deixa um rasto de papéis que embrulharam comida rápida e garrafas de plástico vazias.

Eu não posso obrigar, estas alminhas portuguesas a dar um par de horas a tentar perceber os “outros”, os respectivos países, a origem de algumas opiniões não muito lisonjeiras sobre os do Sul (também elas fruto de algum desconhecimento e de vários atropelos ao bom uso dos dinheiros que cá chegaram – e aqui nem vale a pena insistir para não me envergonhar retrospectivamente mais do que já me envergonhei ao ver om ose roubava à fartazana, se inventavam cursos de formação à pressão e se fingia fazer coisas que nunca se fizeram.

A coisa nem teria especial significado não fosse dar-se o caso de estes puros e progressivos cidadãos serem responsáveis por agremiações políticas, serem “activistas”, serem “opinion makers” (ou presumirem disso. E serem levados a sério pelas televisões ignorantes...).

Durante muito tempo, provavelmente sempre, houve na velha sociedade portuguesa um sólido horror a tudo o que vinha de fora, a tudo o que cheirasse a livre pensador, a “pedreiro livre”, a liberdades cívicas e por aí fora. “Portugal é pequenino mas é um jardim à beira mar plantado”, um “torrãozinho de açúcar” etc. Isso, essa ideia de excepcionalidade miraculosa que começou com o milagre de Ourique e que não terminou com os fulgores de Abril, enquistou-se em todas (ou quase) as mentalidades

Em contraponto, quando alguma ideia estrangeira cá penetrava, o resultado era uma má tradução dela, se possível em calão.

A república tem uma série de instituições assim que acabem ppr funcionar mal, não serem respeitadas (o caso mais evidente é o Provedor de Justiça. Por melhores que sejam os magistrados que ocupam o lugar, pouco êxito tem. De facto, a Administração faz ouvidos de mercador às diligências da PJ, finge que anda mas não dá um passo, um desastre. E um desrespeito.

A lista poderia continuar mas não vale a pena. Como de costume, quem critica tem uma agenda oculta e, ainda por cima é estrangeirado. Ou velho do Restelo. Ou outra coisa qualquer.

Enyretyanto, contra a abominação do estrangeiro, temos as modas importadas de lá. Neste momento, o que está a dar é o racismo. Amanhã será outra coisa, talvez de novo a regionalização ou qualquer coisa que surda no horizonte televisivo e que “esteja a dar”.

Demais passa tudo e a paz sonolenta volta a reinar.

 

* na vinheta: imagem tirada de “El libro de los inventos”

23
Jun20

estes dias que passam 431

d'oliveira

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Os dias da peste

jornada nonagésima sétima

A história trágico-marítima segundo Reynolds

mcr. 23 de Junho

 

Quando havia uma tempestade no canal da Mancha os jornais ingleses costumavam afirmar que a Europa estava isolada. Provavelmente os insulares súbditos de Sua Magestade pensavam que os europeus não sabiam nadar e que um canal como o deles era intransponível. Isto apesar dos normandos o terem atravessado sem dissabor e de o nosso portuguesíssimo Baptista Pereira, por duas vezes e num "crawl" mais que decente, o ter vencido.

Desta confiança no Canal, melhor nos canais, tive, nos já longínquos anos de 72/75, uma confirmação mais do que superlativa.

Nesses tempos felizes e descuidados, aproou à Faculdade Internacional de Direito Comparado um inglês que respondia ao vulgar nome de Michael Reynolds. Meão de altura, cara risonha e sardenta e uma sede polaca e ancestral. Acrescente-se, como única excentricidade notória, o dom e o gosto pelas línguas francesa e italiana que ele praticava com facilidade e elegância.

O Michael apareceu-nos em Pescara, terra natal de D' Anunzio, e logo ao fim do primeiro dia, tinha pronta e verificada a difícil geografia dos bares e tascas da cidade.

Adoptámo-lo imediatamente tanto mais que ele fazia um spaghetti al pesto digno de louvor sobretudo, e era geralmente o caso, quando a fome apertava cerca das quatro da manhã.

Foi numa funesta noite em Veneza que recebemos o primeiro aviso de que o nosso Michael (jamais Mike, s.f.f.!) era atraído por canais. De facto, enquanto víamos um grupo de turcas dançar, o Michael caiu no Rio della Paglia.   "Antes fosse na Riva del Vin que ía mais a condizer" -foi o comentário do Édmond Gérard, luxemburguês imperturbável e subtil que assinava por mim nas aulas do meio dia quando eu me baldava para a praia.

Em Amsterdão, no curso seguinte, reuniu-se de novo a mesma tertúlia amável para mais um ciclo do Curso de Direito Comparado. Um distinto cavalheiro que dava pelo nome de V.W. Bossenbroek levou a sua extrema hospitalidade ao ponto de nos franquear gratuitamente (isto é sem pagar jóia e quotas) e durante todo o período da nossa estadia, as portas da Stiching Societeit Uilenstede que era, de facto, um honradíssimo bar de estudantes da Vreie Universiteit Amsterdam. Abria às dez da noite e encerrava às seis da matina. Os jurídico-comparatistas, por muito canudo de direito que ostentassem, gostavam, com alguma desmesura só perdoada pelos verdes anos, de alcoóis brancos ou tintos, da genebra traiçoeira, da Heineken e de toda a restante e copiosa variedade de bebidas que, a preço módico, a SSU fornecia.

Numa noite, em que as libações,por via do frio que faz no verão holandês, terão sido, digamos, substanciais -e, à saída- o Michael mergulhou de chapa num canalzinho de dois metros de largura que saía de um braço do Amstel e se perdia entre Amstelveen e Uilenstede.

-"Este gajo tem a mania de tomar banho à noite!" -soltou o Gérard para um luzido grupo de meninas em que avultavam, -benditas as mães!- a Catherine Fox e a Maria Kirkos.

Esta estranha repetição de banhos terá enervado alguem do grupo pelo que decidimos convocar o aquático "bife" para uma reunião de emergência no "Bistro Anette". Aí, apanhado ele sóbrio, exprobámos-lhe a atitude demasiado líquída para um "fellow" de Cambridge e cominámo-lo a deixar de frequentar qualquer espécie de canal. Enumerou-se, mesmo, em documento hoje em mãos de Maître Jean François B, uma série de canais entre os quais avultavam os de Suez e de Corinto (este a instâncias patrióticas da Maria e do Stellos).

Ora sucede que sete anos mais tarde, em Paris, a Catherine Fox me apareceu de telegrama fresco e urgente na mão. O nosso Michael tinha naufragado em pleno canal do Panamá a bordo de um barco bananeiro.

Melhor dito: o barco rebentara com uma comporta e adernara atirando o sedento britânico para aquele no man's land que já não é Atlântico mas ainda não chegou a Pacífico.

O Michael informava que só naufragara naquele lava-pés yankee por não constar da lista de proibições que fora estabelecida na ridente Amsterdão...

Em nome e representação da restante comandita, espalhada por esse vasto mundo de Deus, a Catherine e este vosso criado telegrafaram para Londres perdoando o recente naufrágio (tanto mais que além de frustado não se verificavam dolo, má fé ou sequer erro grosseiro) .

Recordava-se, todavia, ao trágico-marítimo malgré lui a velha máxima conhecida de todos os juristas: non bis in idem !

Gaudeamus igitur !

 

Ai, leitoras e leitores generosos, escrever poucas horas antes da grande, risonha, explendida, lasciva noite, mesmo sabendo que não há (?) gente festiva e marota de alho porro na mão, mangerico, erva cidreira (ou infelizmente, estupidamente etc...) de martelinho a zurzir as cabeças alheias, a cantar orvalheiras, orvalheiras, orvalheiras/ora viva o rancho das solteiras, que as rusgas não se farão, que ninguém irá das Virtudes à Ribeira, ou de S Lázaro às Fontaínhas, suspeitando que esta noite de balões e amores vadios (ai que saudades, ai que memórias!...) que soem terminar nas praias da Foz, de Gaia, de Matosinhos e de Leça, é duro. 

Não que eu, mesmo atrevendo-me a pensar que sou um velho "verde" (pelo menos na cabeça...), fosse para meio daquele imenso sarrabulho de gente de quase todas as idades, estratos sociais, religiões. Mas, há uma tradição que eu respeito, ou várias, como por exemplo, comer as primeiras sardinhas do ano, mesmo se elas ainda não pingam no pão que isso é  lá para Agosto, oferecer um vaso de mangerico à CG, outro à Ana, e mais, se mais mulheres aparecerem a quem vier, comprar o alho porro à primeira vendedora que me há de chamar "ó meu amor compre aqui que é mais barato", mentira absoluta que, em nome do "degolado" lhe perdoo, enfim cumprir com a tradição.

Eu, que vivo no Porto, por razões que tem a ver com o primeiro casamento (já lá vão demasiados anos) entrei no grupo de devotos de S João, sem dificuldade. Ao fim e ao cabo, o S João é a maior festa da Figueira da Foz (não de Buarcos, terra de pescadores devotos de S Pedro mas mais devotos ainda da Senhora da Encarnação). Desde pequeno qe fazia a ronda das fogueiras na rua da minha casa, fogueiras as mais das vezes feitas na praia que o lado esquerdo da rua era isso mesmo, areia e, nas marés vivas mais violentas mar a lamber a rua. 

Em boa verdade sempre me pasmou este S João (e os outros dois compadres António e Pedro) profeta desarmado, homem austero que criticava violentamente o poder. então, aqui, nesta terra debruçada sobre o mar, o diabo do homem protege amores? E amores efémeros, de uma noite, entre desconhecidos ou quase, amores pecadores (que são os melhores, como diz uma  canção popular italiana), como é isto possível. Mais: como é que a Igreja portuguesa, tão conservadora que ela era (e ainda será), fecha os olhos, assobia para o lado, finge não ver as faces coradas que no dia do santo irão à missa, limpar devotamente mas sem grande pesar, os pecadilhos e pecados de toda a noite? 

Eu não sei de que terra serão (uso o plural com ousadia) os meus leitores. Os do Porto acharão tudo isto natural. ao fim e ao cabo é uma inteira cidade, aliás várias (de Gaia a Matosinhos, da Maia a Gondomar) qu se precipita para o centro do Porto e, zás, entra na festa sem dizer água vai ou pedir licença. Mas os de fora imaginarão sequer o reboliço disto? 

Um grande amigo meu e respectiva mulher, francesa ela, vieram há muitos anos passar o S João a convite meu. Nem vos digo, nem vos conto: foi tremendo. Primeiro portaram-se como tripeiros e a Jackie até já falava à moda da Ribeira, segundo, eles que vinham por um dia só desandaram depois do S Pedro, e da festa da Afurada, no outro lado do rio e festa rija também. Declararam-se portuenses, digo tripeiros de nascimento arrenegando Lisboa e Paris, os ingratos!... " mcr, meu querido podemos continuar albergados no teu apartamento?" -"então não podem. ficam, pois claro" E os meus amigos do Porto todos à compita para um almoço hoje, um jantar amanhã, entusiasmados com o duo maravilha que saiu de cá a custo, quase chorando. Estão a ver o que faz o S João?

Estão a ver o desastre que é não haver S João hoje? 

 

 

22
Jun20

A dança de Centeno

José Carlos Pereira

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Mário Centeno deixou na semana passada o Governo, mantendo a presidência do Eurogrupo  por mais umas breves semanas, enquanto se prepara para ir ocupar o lugar de Governador do Banco de Portugal. Todos os sinais apontam nesse sentido. Parece mesmo que o ex-ministro só aceitou integrar o actual Governo até ao momento em que cessasse o mandato de Carlos Costa no Banco de Portugal. Talvez isso justifique o facto de ter sido relegado para quinto lugar na hierarquia do actual Governo.

O distanciamento de Centeno em relação a António Costa vem de trás. Foram as críticas públicas do primeiro-ministro ao acordo conduzido pelo presidente do Eurogrupo com vista à concretização do instrumento orçamental para a convergência e a competitividade da zona euro. Foi a gaffe da transferência para o Novo Banco via Fundo de Resolução. Foi a desvalorização pública do trabalho conduzido pelo consultor convidado pelo primeiro-ministro para preparar o plano de retoma da economia. Já na legislatura anterior, deixaram marcas todos os episódios relacionados com a indicação de António Domingues para a liderança da CGD.

Mário Centeno foi um bom ministro das Finanças e deu um contributo relevante para manter as contas do país no caminho certo, alcançando inclusivamente o primeiro excedente orçamental da democracia portuguesa. Isso mesmo foi reconhecido na Europa. A invulgar popularidade que foi registando em sucessivas sondagens acabou por seduzir Mário Centeno, que aqui e ali se deixou tentar pelo pecado da vaidade, mesmo se a sua acção não esteve isenta de erros

O parlamento debate por estes dias uma lei proposta com o objectivo de impedir a transição do ex-ministro para o Banco de Portugal. Uma lei feita a pensar num caso concreto nunca é positiva em democracia. A discussão sobre o período de nojo e as incompatibilidades deve ser feita, mas sem ter a pressão da aplicação prática no imediato.

Mário Centeno tem as competências óbvias para desempenhar o cargo de governador do Banco de Portugal, mas não creio que seja a opção mais adequada. Do ponto de vista pessoal, Centeno olhará para essa nomeação como o epílogo natural para a sua carreira no Banco, acertando até contas com o momento em que não foi escolhido para um lugar de direcção pelo actual governador. Contudo, do ponto de vista político, sobretudo depois das críticas que formulou ao processo de resolução do Novo Banco e das nomeações que fez para o Conselho de Fiscalização do Banco de Portugal, não creio que seja a melhor escolha.

Admito que tudo esteja acertado há muito entre António Costa e Mário Centeno e que os nomes negociados para o Conselho de Administração venham a permitir um maior consenso entre os partidos quanto à sua nomeação, mas não dou como certo que o perfil de Mário Centeno, de peito cheio com a sua performance ministerial, vá conduzir a um relacionamento fácil com o Governo de António Costa...

22
Jun20

estes dias que passam 431

mcr

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Os dias da peste

Jornada nonagésima sexta

“Ergue-te sol de Verão...”

mcr, 22 de junho

 

 

É ainda manhã cedo mas o sol já lhe dá com força. A esplanada acolhe os seus habitués, oferece a quem quer uma sombra amável de guarda sol mas há clientes que preferem torrar. Já estão mais de 20 graus, anunciam-se trinta, a camisa de linho que envergo parece-me quente, suspiro pela praia que este ano não terei, a praia de Areas a sul de Sanxenxo, onde a esplanada da “Postiña” me esperava todos os dias com a promessa de mexilhões fresquíssimos, de ensaladilla, pão artesano, algum peixe  grelhado, enfim um almoço de Verão a antecipar uma sesta durante as horas quentes do princípio da tarde.

A família, ou seja a CG, a Ana, o Nuno e o Nuno pequenino (que não tem voz na matéria mas  serve de arma de arremesso) exigem uma casa no campo, com piscina e terreno amplo, na zona de Barcelos. Que fazer? Paguei a minha parte e não refilei. De certa maneira, eles tem razão. A Galiza e  a sua enorme paleta de mariscos e peixe fresquíssimo estão longe ( por acaso, nem isso), o covid que se cevou em terras de Espanha assusta e a prudência manda isolamento, cautela e caldos de galinha.

É o primeiro dia de Verão (ou o segundo?) e vem-me à memória a canção do Zeca cujo início titula o folhetim de hoje. E tem uma história esta bela cantiga que, ironicamente, se chama, creio, “coro da primavera”.

De facto, o Zeca era um tanto ou quanto desmemoriado, ou então escrevia tanto que, depois, já não se lembrava de tudo. Sei que muito antes de gravar esta cantiga a cantou em Coimbra num qualquer ajuntamento de estudantada. Quando era preciso, bastava telefonar, e o Zeca generoso e solidário (como aliás, também, o Adriano, outro amigo do peito) acorria.

Eu e dois muito queridos amigos, o António Mendes de Abreu e o João “grande” Nazaré, decorámos a canção só de ouvi-la uma vez. Seria o entusiasmo, a admiração, o facto de sermos todos da “oposicrática”, sei lá, mas a verdade era que cantiga ouvida era cantiga decorada.

Convém dizer que o António e o João tinham o que se chama bom ouvido enquanto este vosso criado nem o ré distinguia do dó. Isto tinha consequências: no numeroso grupo de amigos que se reunia amiúde e cantava sempre que podia, eu estava terminantemente proibido de intervir. Os meus notáveis dotes para desafinar contagiariam Rossini, Mozart ou Beethoven para só citar três criaturas de que, já nessa época, eu era devoto.

Lembro-me que a minha intervenção só era permitida num refrão  de Whimowhe (nem sei se é assim que se escreve) na versão de Pete Seeger. Nesse momento, único e irrepetível, toda a malta se virva para mim e eu berrava com sentimento o refrão.

Ora acontece que, num dia em que o Zeca mais uma vez veio a Coimbra, nós os três lhe pedimos para cantar o “coro da primavera” e ele não recordava a letra. O António e o o João lá se puseram a cantarolar e o Zé Afonso, comovido, só dizia “oh malta isto não é nada mau” Escreveu num papel em letras garrafais a letra e o Zeca lá se lembrou da música e mais uma vez se fez uma noite mágica.

O Zeca já cá não está, o António há muitos, muitos anos que é uma saudade e eu bem que indago pelo João mas não sei dele. Rezo, mesmo ateu, para que esteja vivo e bem.

Tudo isto, esta pequena enxurrada de memórias de um tempo difícil mas feliz, pleno de promessas e, ahimé!, de “juventud divino tesoro” (Ruben Dario) me veio à cabeça, nesta esplanada com vista para o jardim onde correm cães e num pequeno parque infantil brincam meninos sob o olhar vigilante de mães atentas.

O Verão está aí, quente, mas carregado de dúvidas. E de fogos que nos últimos dias, já as matas de Aljezur ardiam. Umas dúzias de hippies alemães, instalados ilegal mas pacificamente viram os seus acampamentos destruídos. Um deles afirmava que ia regressar à terra natal pois Portugal, descobria só agora, era “um país seco” e susceptível de fogos. O raio do teutão é parvo ou faz-se? Então só agora, depois de anos de fogos incontrolados naquelas partes entre Alentejo e Algarve é que chega a esta conclusão?

Se o alemão citado é meio tótó, que dizer dos portugas espertalhaços que se juntam em magotes por todo o lado, para aviar umas cervejolas sem cuidar de distanciamentos sociais e menos ainda do estupor do covid que ronda? Ou do filho da puta que aniversariou e já conseguiu que um cento dos convidados ficasse infectado?

Ada por aí tudo alvoraçado com as medidas de uma dezena de países que desconfiam do nosso desconfinamento e só agora é que começam suavemente a ameaçar os festejantes nocturnos.

Há um mês que a cintura de Lisboa regista entre 75 e 80% dos novos casos de infecção e só agora é que vai haver uma reunião de alto nível sobre o assunto? E querem turistas em força a acudir para este quase vespeiro?

Os poucos aviões que chegaram (e chegam) do Reino Unido e do Brasil com passageiros a quem ninguém sequer tirou a temperatura não indiciam burrice supina e escandalosa?

O Verão, imperturbável, chegou. Por esta altura, noutro tempo, preparavam-se as fogueiras, na Figueira os romeiros chegavam para o “banho santo” e a rapaziada do meu tempo estava de olho nas moçoilas que saiam do mar vestidas mas expostas ao nosso olhar concupiscente que a água moldava-lhes os corpos jovens como se nuas estivessem. Amanhã, por cá, seria noite de festa rija (oh que noites passadas entre a Baixa, as Virtudes a beira rio e a praia varada a madrugada em boa companhia... ), noite orgiástica, perfumada, atrevida, noite de todas as noites, de todos os excessos, Jesus que saudades...

Mas paira no ar, uma sombria ameaça que a imprudência de uns, as atabalhoadas medidas de outros e a geral impreparação de quem devia estar atento e rigoroso e preparado, tudo inquina.

“Ergue-te sol de Verão/ somos nós os teus cantores...”

(mas já se ouvem os temores... já se pressentem os horrores...).

Ainda iremos a tempo?

 

* na vinheta: banho santo?, Figueira da Foz, 1935 (tenho as mais fundadas dúvidas que a fotografia retrate o banho santo que costumava ocorrer na madrugada de 24. E aqui estamos em pleno dia. Provavelmente é apenas uma vista da praia dita “do relógio” que, aliás, ainda não existe...

 

 

 

 

 

 

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