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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Benfica, Vieira & Poder, Lda.

José Carlos Pereira, 15.09.20

O artigo de opinião "O que é o Benfica? Dinheiro sem mística", da autoria de um benfiquista que pensa para além da espuma dos dias, é para ler e reflectir. A estratégia do presidente do SL Benfica, Luís Filipe Vieira, sempre assentou em capturar o poder para a sua trincheira. Quem não perceber isso...

au bonheur des dames 416

d'oliveira, 10.09.20

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Antes que me acusem de sexismo

mcr, 10 de Setembro

 

Eu ia falar de três novidades culturais, a saber: as doações de Alberto Manguel e Paulo Mendes da Rocha e a notícia infausta e tristíssima da morte da Cotovia, uma editora pequena mas excelente que funcionava mos locais da velha livraria Opinião, outro monumento desaparecido (bem como, aliás, muitos dos seus frequentadores habituais). Fica para o próximo post porquanto duas candidatas à Presidência da República fizeram acto de presença.

Em boa verdade, não se trata de nada de novo. Sabia-se, de há muito, quais as disposições do BE e de Ana Gomes. Só isso bastaria para não dar à pequena notícia qualquer relevo. Porém, e antes que isto pareça sexismo, o melhor é ir pela alegada novidade e tentar uma que outra conclusão.

Comecemos pelo esforçado e gasto tema da novidade. Nenhuma destas mulheres pode arrogar-se de estar fora do sistema ou de ser uma refrescante surpresa. Ambas foram deputadas, inclusivamente no Parlamento europeu que é onde está Marisa Matias, esta já foi candidata ao mesmo mandato enquanto que a Ana Gomes é mais conhecida do que o doce da Teixeira.

Do ponto de vista programático também não se descortinam surpresas, aliás difícil seria dada a função a que se candidatam.

Eu bem sei que o actual inquilino de Belém sofre de uma espécie de doença de S Vito que o faz correr ceca e meca que, pelos vistos, faz feliz os media e o Zé Povinho que gosta, adora, uma selfie com o Presidente.

Mas mais que andar disparado pelas estradas, ruas, caminhos, atalhos ou veredas de Portugal e ilhas, o actual locatário de Belém, gosta de molhar a sopa e de ser um Presidente interventivo, porventura mais do que a função permite e o bom senso recomendaria.

Pessoalmente atribuo esse frenesim à tentativa de ficar na História. Duvido que o método seja eficaz porquanto a um estadista pedem-se coisas mais interessantes do que um par de alfinetadas (e algumas úteis..., aliás) e um corrupio constante.

Por muito que se queira, os políticos que vão ficando na História pregressa, foram mais discretos. Soares, cuja popularidade ainda é visível, tinha um projecto, uma ideia de Portugal, um longo percurso cimentado desde os seus verdes anos e deixou obra. Sá Carneiro, teve a ousadia de pensar pela cabeça própria e de enfrentar o meio de onde vinha e os políticos que o tinham convidado para deputado durante o “marcelismo”. Isso e a morte romântica e trágica ao lada de grande mulher que soube escolher (e ser escolhido) transportou-o para a lenda e a legenda. Cunhal teve uma vida empenhada, dura, combativa, notoriedade internacional e deixou um partido que tantos anos depois ainda se aguenta mesmo trémulo. (basta olhar para o destino dos partidos espanhol, francês ou italiano – o partido de Gramsci, Togliatti e Berlinguer!...- para perceber a diferença- O stalinismo e a naftalina conservam os partidos quase tão bem quanto os operosos funcionários que diariamente tomam conta da múmia de Lenine.

Mesmo o dr. Salazar mantem um prestígio que, graças às criticas menos ponderadas, preservam a sua imagem ascética.

Ora nada disto ocorre com o dr. Rebelo de Sousa, uma inteligência fria, um percurso político sinuoso e sem chama que ele soube compensar com os famosos factos políticos que ia inventando e, sobretudo, com uma presença contínua na televisão. Durante centenas de domingos, entrou pela casa dos portugueses, à hora do jantar e numa linguagem simples estudadamente simples criou a fama e o proveito de que se aproveitou. (isto, aliás só prova a inteligência da personagem mesmo se essa inteligência se tenha aplicado geralmente em exclusivo benefício próprio. Para isso soube trabalhar árdua e incessantemente, o que, servido por uma cultura e uma memória importantes o pôs na ribalta onde está e de onde, para já, não será desalojado.

Isto dito, permito-me pensar que da aparição há muito anunciada destas duas senhoras nada de grave há a temer para o Presidente. O cavalheiro Ventura vi a votos para contar as suas espingardas (no que não difere da senhora Matias), não tem de apresentar mais do que o estereotipado manifesto do “Chega” pelo que joga em casa. Eventualmente, poderá ter mais votos que qualquer delas, coisa que não prevejo difícil. Não tanto porque arrebanhe as simpatias de muita gente mas porque, se a apatia eleitoral se mantiver, ele pode alcançar os resultados que pretende.

Ainda se não conhecem os espontâneos e menos o/a candidato/a do PC. E digo “o/a” porque ao partidão pode sorrir a ideia de tirar um coelho da cartola, aliás, e sem ofensa, uma “coelha”.

Para já uma constatação: Marisa já avisou que não desiste a favor de Ana e parece improvável que esta não retribua o favor. A ideia que fica é que, como de costume, a famosa unidade da Esquerda continua tõ longínqua quanto foi sempre. Nem a tentativa de “geringonça 2” que Costa busca desesperadamente pode ser transposta para este palco eleitoral.

E é com esta observação que me despeço. Nada de novo na frente ocidental do torrãozinho de açúcar. Notícia, verdadeiramente notícia, é a eventual intenção do governo britânico sobre a manutenção de Portugal, digo o Algarve, na lista dos destinos permitidos sem quarentena.

Deixem-nos vir emborrachar-se para a nossa bira mar. Eventualmente também trarão algum covid , coisa mais do que natural num país onde o vírus se ceva. Mas as libras servem de vacina...

 

* na vinheta: “Ceifeiras” de Cipriano Dourado. Bem sei que alguém poderia pensar que eu iria usar a imagem da Barbie para troçar. De modo algum: vai mesmo esta obra de Dourado de que aliás tenho uma bela serigrafia tintada que me acompanha há mais de quarenta anos.

o leitor (im)penitente 219

d'oliveira, 08.09.20

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Vicente!

mcr, 8 de Setembro de 2020

Ele era uma das caras possíveis, luminosas, apaixonadas, do Jornalismo. Era, digamo-lo sem receio, a honra do jornalismo português. Honra partilhada, evidentemente, basta recordar o Fernando Assis Pacheco, outro morto iluminado e iluminante, e muitos outros, não demasiados, convenhamos que isto é território de índios e cow-boys.

Conheci o Vicente, quando lá pelos inícios de setenta mandei uns textozinhos ao jornal cor de rosa que ele dirigia das lonjuras da Madeira. Eu, desde que “O Comércio do Funchal” começou a ser notado pela coragem, pela irreverência, pela alegria, tornei-me assinante e, não resisti a propor os meus fracos serviços. Tudo começou por um artiguinho sobre o facto de jogadores de futebol conseguirem dar-se bem mesmo sendo de clubes diferentes. Uns indignados resolveram criticar o facto. Queriam sangue e não jantaradas de amigos, uma vez acabado o jogo. Meti-me ao barulho, não resisto a causas perdidas, e lá verti algum sarcasmo e alguma paulada no lombo dos adeptos irascíveis. A coisa saiu e eu fiquei naturalmente contente. E reincidi, reincidi e reincidi. Entretanto a censura entrou em campo e recortava-me a prosa com violência. Da redacção vinha de quando em quando uma palavra amável, estilo “ainda não foi desta mas não desistas”. Claro que eu não desistia, era o que faltava.

Razões de vária ordem fazem com que pouco ou nada reste dessa minha colaboração. A censura e a minha pouca diligência, para não falar num malfadado incêndio onde perdi algumas pastas de prosa e, pior, várias gravuras e serigrafias, uma de Picasso incluída, deixam a posteridade desarmada quanto ao meu génio jornalístico. Paciência...

O 25 A veio, a vida mudou, o Comércio do Funchal também e lá nos perdemos de vista. Por pouco tempo, pois o Vicente, deixou a ilha e instalou-se em “cuba” (cfr o Alberto João Jardim da época, na altura transformado em ferrabrás insular). E começou a época do Expresso que, na altura ainda era recente mas já excelente. E melhorou com o Vicente (estão a topar a rima?)

E o Vicente lá estava, claro. A mesma escrita ágil, o mesmo raciocínio amplo, a mesma ou mais e melhor cultura ao serviço da causa da informação que continuava a ser um território de fronteira onde apareciam umas criaturas, ao serviço do “povo” (um povo inexistente e inventado mas útil para combater a “reacção” sempre multiforme e com mais cabeças do que a hidra) que tentavam acabar com qualquer jornal que não estivesse conforme à verdade a que alguns tinham direito.

Alguns anos depois, a aventura do “Público”, jornal que fiz meu desde o dia primeiro e inaugural. E o Vicente ao leme, com uma equipa de malta nova e entusiasta.

Entretanto, numas férias no Carvoeiro, voltei a encontra-lo graças ao José Luís Nunes que já por cá não anda (e que falta faz!!!) e ao Luís Matias, amigo certo de Lisboa e de Paris.

Foi uma festa.

Não sei se foi ele quem me indicou para cronista regular do Público, operação que se gorou devido a dificuldades financeiras do jornal. Digo isto porque o Vicente era uma das poucas pessoas que me conhecia a prosa desatada e que, melhor ainda, a apreciava. Se não foi peço desculpas a quem se lembrou de mim.

A vida dá voltas e voltinhas, o Vicente parecia um farol, aparecia e desaparecia mas ,como o farol, sempre a indicar a direcção certa, a rota cabal e aventureira. E a dizer as verdades incómodas que fizeram ranger os dentes a muitos políticos, mesmo os que lhe eram próximos.

Nos últimos tempos ia-o lendo no Público, nem sempre concordando mas seguro de uma coisa: o Vicente só escrevia o que acreditava e não fazia fretes.Por isso lia-o com gosto, com avidez e com, como dizê-lo agora?, com antecipadas saudades. 

Agora, hoje, tropeçou na mesquinha. Ora porra!

Quando lá chegares dá um abraço ao Assis e a mais um par de amigos com que partilhei angustias, alegrias, esperanças e muito mais.

Os anos sessenta vão-se diluindo mansa mas inexoravelmente. É a lei da vida, melhor, da morte. Não há volta a dar-lhe.

Adeus, Vicente!

 

estes dias que passam 487

d'oliveira, 08.09.20

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Previsível, caro Watson, previsível

mcr, 8 de Setembro

 

 

 

Não é preciso chamarmo-nos Holmes, Sherlock Holmes, para ver na candidatura da dr.ª Ana Gomes, algo que nunca foi novidade. Nem sequer, convenhamos, se revestiu de especial habilidade. A dr.ª Gomes sempre foi candidata, cultivou mediocremente o pretenso mistério da sua “reflexão”, deixou que aparecessem uns escassos apelos à sua apresentação, enfim fez o que pode, mas pode pouco.

Começa a desenhar-se um cenário semelhante ao de há alguns anos. De um lado o dr. Rebelo de Sousa (que também anda a “reflectir” esforçadamente). Do outro o cavalheiro do Chega que é meio candidato porquanto apenas pretende ganhar espaço e publicidade, bem como contar as suas tropas, a dr.ª Marisa Matias, recandidata não se sabe bem a wue propósito. A srª Gomes a reunir os socialistas descontentes, o candidato do PCP, cuja candidatura nem precisa de rosto pois na verdade não o tem, seja qual for a apagada figura proposta e, eventualmente mais alguns personagens secundários político-anedóticos.

Resumindo: uma fraca salada de frutas ou, melhor dizendo, uma pessegada! Estas criaturas vão dividir o espaço mediático com algum réu importante num desses processos que prometem muito e se arrastam ainda mais tempo.

Isto nem sequer distrai do covid, muito menos da infâmia persistente dos “lares” onde há dezenas de surtos, pesem embora as esfarrapadas desculpas do senhor padre Maia e do dr. Manuel de Lemos, homem forte e eterno das Misericórdias.

Sobre isto, esta tragédia barata que se abateu sobre as antecâmaras da morte, já nem vale a pena dizer seja o que for.

Por uma vez, sem exemplo, o dr. Ferro Rodrigues que se tem ilustrado como uma das figuras representativas do sono da razão de Goya, disse algo que vale a pena sublinhar. Perguntava o distinto ancião por que razão não havia inspecções sistemáticas aos lares com colheitas sistemáticas para prevenir os surtos. Pelos vistos, só ha testes quando surge um infectado. O resultado é esta avalanche de casos que, crescentemente, dizimam os indefesos velhos e atacam também funcionários.

“Casa roubada, trancas à porta” parece ser o leit-motiv da DGS quanto a este trágico assunto. Sobre esta instituição começam a levantar-se as mais dramáticas dúvidas. Foi o caso da festa do Avante, cujo relatório só saiu a fórceps e que, mesmo assim, não se entende de todo. Foia história miserável e aviltante da retenção em quarentena das crianças retiradas às famílias. Já não bastava esse trauma mas ainda se impunha uma quarentena repelente!

De repente, começa a ouvir-se, de todo o lado, a queixa de que a DGS, ou a sua dirigente mais visível já esgotou o seu prazo de validade. Como é que uma senhora com boa reputação se foi deixando levar na corrente, canhestramente, incapaz de perceber coisas simples, sobretudo coisas que tocam a mera humanidade, como o caso dos miúdos?

Ai “as crianças, Senhor! Porque lhes dais tanta dor?... (Augusto Gil, outro poeta celebrado e esquecido). Agora, duas, de Famalicão estão no “olho do furacão”. Tudo por causa de uma dessas inutilidades do luso “eduquês” que, depois da “Religião e Moral” ou da “Organização Política e Administrativa da Nação” salazaristas, tira tempo e dinheiro às pessoas e aos cofres do Estado.

Eu nada tenho cotra o facto de se ensinarem nas Escolas as Declarações dos Direitos do Homem, da Criança e mais três ou quatro princípios que deveriam, mais do que enformar as Constituições, enformar e informar o quotidiano das gentes.

Todavia, estas disciplinas deveriam ter bem presentes as críticas que, in illo tempore, se formularam às anteriores tentativas de enquadramento ideológico das pobres criancinhas, vítimas sem voz dos iluminados do Ministério da Educação.

A história é simples e conta-se em duas linhas: uns pais extremosos , eventualmente ultramontanos, não permitiram que os abencerragens fossem às tais aulas de cidadania. Em boa lógica mandava-se um cabo de esquadra à casa dos ditos progenitores para os levar à esquadra mais próxima e, eventualmente, entrega-los a um tribunal expedito. Mas o Ministério (mal chamado) da Educação preferiu outra via, mais fria e mais imbecil: chumbar rectroactivamente os garotos! Depois, um Tribunal veio emendar a mão grotesca do departamento estatal. Agora andam por aí à compita uns abaixo assinados que juntam personalidades, luminárias e gente que adora aparecer neste género de comédia bufa. Provavelmente, a maioria dos abaixo-assinantes não tem duas ideias capazes sobre cidadania e menos ainda sobre educação. Mas, em vendo um papelucho a circular, aí vai disto!

Às vezes suspeito que o covid ataca as cabecinhas de muita gente. A coisa não mata, é assintomática e, como o cigarrinho, dois copitos ou mesmo uma passa, acaba por ser socialmente aceite.

Mas os mistérios da Escola não acabam aqui. Neste momento, a discussão centra-se na abertura das aulas. Uma das questões tem a ver com a “Educação Física”. Como irão ser as aulas? Em ginásio ou ao ar livre? E no caso deste último como é que se impede que ande tudo ao molho?

Ninguém perguntou se, numa hipótese de piorar a situação, se poderia suspender estas aulas e focar as atenções nas matérias de facto imprescindíveis.

A coisa lembra-me Churchill que, interrogado, durante a guerra, sobre qual a maior influência nos seus carácter e determinação, respondeu que devia tudo à ginástica. “À ginástica? Como?”, perguntou o estupefacto repórter. –“Nunca a fiz”, respondeu o velho e indomável leão enquanto acendia um charuto para acompanhar um whisky...

Entretanto, a Fenprof já veio contradizer o Ministério, os directores das escolas e as federações de pais. Pelos vistos nada vai bem nos preparativos para a reabertura das aulas. Nem sequer a contratação de mais professores e mais auxiliares. Provavelmente a Fenprof entende que mais valia pôr de novo em pousio a educação, ideia que desde sempre parece defender...

“Mas as crianças, Senhor! Porque lhes dais tanta dor?”

 

Quanto aos adultos, sobretudo os mais velhos, os “idosos”, os “seniores”, um conselho: pouca letra e bico calado. Aguentem que é serviço. E tomem lá os candidatos à Presidência. Com a telenovela, as discussões sobre o futebol na tv (agora sem o ventura!...) e os reality shows, está o país servido.

“Esta é a ditosa pátria minha amada”

O que fazer com a extrema-direita?

José Carlos Pereira, 04.09.20

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A extrema-direita em Portugal não nasceu com André Ventura e com o Chega. Muitas das suas bandeiras eram há muito esgrimidas em alguns sectores da sociedade portuguesa. O preconceito perante os imigrantes e os refugiados, a discriminação face aos ciganos, o racismo ou a defesa da pena de morte andavam na boca de muita gente. E as redes sociais acabaram por catapultar esses desabafos de café para a esfera pública.

Se a isto se juntar a situação económica difícil de milhares de pessoas, a desconfiança latente em relação aos poderes públicos e o sentimento de injustiça (ou inveja, vá...) perante a situação privilegiada de algumas classes sociais e profissionais, está encontrado o caldo que levou  André Ventura para a Assembleia da República (AR) e lhe proporcionará um resultado significativo nas próximas eleições presidenciais.

Aqui chegados, os partidos do sistema e os analistas políticos interrogam-se sobre a melhor forma de lidar com o populismo de Ventura. Deixá-lo a falar sozinho, desvalorizando-o? Ou combater a sério as suas propostas, não lhe facilitando o caminho? Dúvidas que já se colocaram em muitos países por essa Europa fora.

André Ventura é um oportunista, que diz tudo e o seu contrário para alcançar a notoriedade que pretende. Já vimos as enormes diferenças de valores e princípios entre o que defendia nos seus papers académicos e o que agora preconiza no Chega. Em 2017, era candidato a presidente de uma importante autarquia da área metropolitana de Lisboa por um partido com os valores do PSD, mas dois anos depois estava a ser eleito para a AR com bandeiras xenófobas e racistas. Emergiu como comentador futebolístico, mas nunca interveio para denunciar as práticas criminosas sob investigação no seu clube, logo ele que está sempre de mira apontada a tudo e a todos.

Até agora, o Chega tem-se praticamente esgotado em André Ventura e espera-se que novos dirigentes dêem a cara para que se conheça bem o que os motiva e a massa de que são feitos. Tal como os empresários que têm apoiado financeiramente e incentivado André Ventura.

O que fazer com a extrema-direita e com o Chega em particular? Não transigir, denunciar, apontar, desmascarar sempre! Um partido com os valores do Chega não se pode sentar à mesa para negociar com gente decente. André Ventura pode conversar com os grupos violentos de extrema-direita que já têm histórico de crimes e até de mortes, mas nunca poderá ser visto como um parceiro confiável por partidos estruturantes da nossa democracia como o PSD ou o CDS. Se há linhas vermelhas em política, esta é uma delas. Convém lembrar Rui Rio disso mesmo, pois não há moderação que salve o Chega.

À direita, há quem defenda que, se o PS pode negociar com PCP e Bloco, também os partidos de direita podem conversar com o Chega. Ora, uma coisa nada tem a ver com a outra. Ainda que, neste ou naquele dirigente, possa haver uma simpatia mal disfarçada por regimes ditatoriais e anacrónicos como Cuba ou Venezuela, isso deve ser levado à conta de...comunhão histórica. Na prática do dia-a-dia, nos valores enunciados e nas políticas defendidas, nunca vimos nos partidos de esquerda o desprezo pelos valores dos direitos humanos. Pelo contrário, estamos habituados a vê-los pugnar sempre pelos direitos dos mais desprotegidos, por melhores salários e condições de vida, por mais investimento público na saúde ou na educação. Por mais igualdade e oportunidades.

Por último, constata-se que o crescimento do Chega veio dar força e coragem a alguns movimentos racistas e xenófobos, que saíram do armário e se sentem legitimados para manifestações como a que recentemente evocou o hediondo "KKK". Uma realidade lastimável para o Portugal do séc. XXI e que nos obriga a estar permanentemente atentos e vigilantes. Sem qualquer moderação.

au bonheur des dames 415

d'oliveira, 04.09.20

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Dois pesos..

mcr, 5 de Setembro de 2020

 

Entre os apoiantes resolutos do actual Governo grassa uma crescente simpatia pelo pirata informático que irá brevemente a julgamento. Pelos vistos, esta bizarra espécie de justiceiro mesclada de chantagista (pelo menos alegadamente) é uma espécie de herói e eventual candidato a funcionário público. Ou, dito de outra maneira, a pátria agradecida converte um bufo num patriota...

Não tenho qualquer espécie de simpatia pelos que dedicam o seu tempo a tentar cheirar o cu alheio na esperança de sentir um peido aromático ou, pelo menos, economicamente vantajoso.

A mim, o que neste caso me espanta é o facto de aqui se pressupor um prémio. No outro prato da balança está o inenarrável ataque a uma auditoria da Ordem dos Médicos a um lar alentejano onde, pelos vistos tudo corria mal. E tão mal que em poucos dias, dezasseis indefesos velhos foram libertados das suas duras penas e estão agora no cemitério local a gozar de um merecido descanso eterno.

A questão levantada pelo dr. Costa tem a ver com a ilegitimidade da Ordem em levar a cabo inspecções deste género. Esmo se, como é flagrantemente o caso a auditoria tivesse apenas destapado um homicídio, aliás dezasseis, involuntário. A Ordem defende-se com uma cláusula dos seus Estatutos onde é clara a ideia de que tem o dever de intervir.

Conviria perguntar se alguma acção seria levada acabo não fora a Ordem ter posto a boca no trombone.

Dirão que, no caso do pirata também as coisas correriam para o habitual silêncio comatoso próprio do mundo glauco do futebol. Talvez. De há muito que é notório que esse submundo alimenta tudo incluindo largos sectores do mundo político que, à pala da futebolaça, do amiguismo das claques, do comentário ruidoso e permanente, se vai fazendo conhecer e reconhecer.

Por enquanto, trata-se apenas (este apenas é relativo) de corrupção. Ainda não morreu ninguém, por fas ou por nefas, por incúria ou abandono. Por falta continua dos elementares deveres de solidariedade com um punhado de velhos que só andam por aí a atrapalhar...

A Ordem deu um pontapé no vespeiro. Ai Jesus que isso é ilegal. A denúncia de dezasseis mortes é ilegal! A vida de dezasseis pobres velhos é ilegal e não merece explicação, comentário sequer prevenção para casos futuros. Entretanto, depois disto, já são uma dúzia os lares onde o covid se ceva impunemente...

A vozearia defensiva que se ouve de lés a lés sobre as mortes nos lares é revoltante, insultuosa e repelente. Sobretudo quando e compara o número de mortes (ou de infecções) de cá com os números de outros países. Como se a morte tivesse diferentes características em França, Espanha ou Portugal . Lá são morte, cá são simples desaparecimentos. Azares da vida, velhice a mais, abandono familiar, ganância das instituições.

Eu até ouvi o estarrecedor argumento de que determinadas situações de idosos internados custarem o dobro ou o triplo daquilo que o Estado dá! Não se percebe como é que as Misericórdias e outras instituições subsistem com tal sangria desatada e constante.

De repente, descobriu-se algo que existe desde sempre, a saber os lares ilegais. Extraordinária descoberta ainda mais surpreendente do que a da pólvora. Tais lares aparecem às claras, fazem publicidade, tem tabuleta à porta mas, pelos vistos, nem a Segurança Social nem os restantes poderes públicos davam pela coisa. Eu sei que a SS volta e meia encerra um desses depósitos de agonizantes num processo demorado que permite muitas fugas. Ninguém me explica, porém, como é que se não vá atrás das famílias que para lá atiram os familiares indesejáveis e imprestáveis...

O dr. Costa disse em off que os médicos eram uns marotos, provavelmente algo ainda pior ,e uma indiscrição trouxe a público a sua censura. Depois, o costume, ou nem isso: o primeiro ministro reuniu com o bastonário terá prometido (segundo este) uma explicaçãoo bastante) mas tal não foi visível. O bastonário transmitiu a todos os seus colegas (e são muitos, e são essenciais) o que se passou e a guerra está aberta.

Curiosamente, ou talvez não, o Governo tem em mãos um projecto de diploma que cerceia os poderes das Ordens. Estas já se reuniram, já foram anunciando o seu protesto e, de novo, os tambores da guerra.

A democracia vive de equilíbrios delicados e a existência de Ordens profissionais, longe de ser um mal é um precioso contributo para a existência de uma sociedade civil forte e autónoma.`

É conhecido o escasso entusiasmo das elites políticas quanto à existência de contrapesos que regulem, ou não permitam, um exponencial crescimento das suas prerrogativas. O PS não é excepção, antes costuma brandir a frase de Coelho “quem se mete com o PS leva”. Não é difícil de prever outra frente de batalha. Nas horas problemáticas a fuga para os conflitos imaginários é um seguro meio de criar um bunker (sempre ilusório, a la alongue) para alguém se manter na crista da onda.

As conclusões são óbvias. Alguém vai pagar as dificuldades que o futuro próximo nos vai trazer.

“L’autunno sera caldo!”, diziam, no meu tempo de jovem, outros jovens, desta feita italianos. E foi, como se sabe. Com as dramáticas consequências que se conhecem e que, neste ano miserável mostraram como a destruição de um Estado imperfeito não trouxe aos cidadãos nem felicidade, nem saúde nem esperança. “Apenas” umas dezenas de milhares de mortos ...

o leitor (im)penitente 218

d'oliveira, 03.09.20

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Deambulando pela feira

mcr, 3 de Setembro, 2020 

 

Não sou, nunca fui, um admirador entusiasta da “feira do livro” mesmo se aceite que, volta e meia, se encontra um par de pepitas perdidas no cascalho do mainstream literário.

Todavia, com a inclusão generalizada dos alfarrabistas e dos pequenos livreiros (e grandes amadores de literatura) e com a mobilização de muitas pequenas editoras, notabilíssimas por trazerem autores e obras novas, diferentes, desafiantes, a “feira” melhorou.

Desta feita, ao acaso do passeio entre stands, aproveitando uma que outra aberta, lá fui pescando alguns livros que me parecem dignos de menção.

Assim, encontrei duas pequenas preciosidades da Hiena, uma editora com provas dadas no capítulo da descoberta e difusão de textos raros ou pouco comerciais. São dois opúsculos de Marina Tsvietaieva, uma enorme, genial, poetisa russa que nada fica a dever a Ana Akmatova, sua contemporânea e amiga. Os livrinhos chamam-se respectivamente “Meu irmão feminino” e “o poeta e o tempo”.

Tsvietaieva teve um destino trágico: assassinada ou “suicidada” em 1941. Nisso não difere de tantos outros –e sempre os melhores – poetas russos da sua geração (Essenin, Mandelstam ou Pasternak, um suicida, um morto na prisão e um condenado ao silêncio). Em boa verdade, nem Maiakovsky escapou a essa sorte, na medida em que, no auge da sua fama, se suicidou.

 

A segunda compra foi a “Obra Completa” de João José Cochofel, um dos homens centrais do neo-realismo, de várias revistas (desde a "Altitude" à "Vertice" e acabando na "Gazeta Musical e de todas as artes," uma presença constantemente nas páginas culturais. Curiosamente, ao folhear (re)descobri um texto notabilíssimo de Rui Feijó, oito páginas a servirem de post-facio a uma obra de Cochofel. Este texto de um dos maiores e mais influentes amigos que tive, é terrível porquanto é o próprio Rui que ao produzi-lo se acusa (inconscientemente, claro) pela sua escassa produção literária, ele que aparece em elogiosas notas de rodapé (a expressão é mesmo de RF) em quase todos os textos autobiográficos de escritores da sua geração! Ai, quantas vezes o desafiei para que arrumasse as suas coisas, se deixasse publicar... Nada feito!

Terceira compra, a Obra Completa de Manuel de Lima, outro autor esquecido que, porém, tinha uma escrita excelente, uma pena afiada, humor e inteligência. A diarreia editorial dos últimos vinte anos, leva tudo pelo cano. Quantas vezes nas feiras ocasionais nos deparamos com livros e autores de grande qualidade submersos pela fúria da novidade, pela incúria dos livreiros (sobretudo os das grandes superfícies, FNAC incluída).

Entretanto, e quarta compra, sempre nos alfarrabistas agora presentes no Palácio de Cristal, deparei-me com um punhado de volumes da Ilustração Portuguesa. A segunda série (1906-1924), claro.

A novidade, para quem, como eu, foi laboriosa, vagarosa e teimosamente, juntando os cerca de 900 fascículos, ao acaso de encontros felizes, de insistentes pesquisas, até de uma ou outra oferta era o facto de todos os volumes estarem com a encadernação (belíssima) editorial e, por isso, trazerem os índices respectivos.

Como disse, já tinha a colecção completa mas 18 dos 37 volumes (semestrais) foram mandados encadernar por mim sobretudo para defender os fascículos (26 por volume) que obviamente devido ao papel e à idade corriam riscos sérios. Portanto, logo que avistei dez volumes bem encadernados, bem conservados, nem hesitei.

(nota para interessados: tenho, pois, cá em casa, dez volumes para oferecer a quem estiver interessado nesta história simples, popular, viva e pejada de fotografias. )

Finalmente, o meu amigo e livreiro alfarrabista Miguel de Carvalho, estabelecido na Figueira da Foz, muito perto da primeira casa onde morei, confidenciou-me que tinha vários exemplares da 1º edição portuguesa de Júlio Verne. Esta edição, distingue-se das múltiplas posteriores por conter todas as gravuras da edição Hetzel original. Também, no que toca a encadernação, ostentava capas duras com ferros belíssimos, muito de época.

Até há alguns anos, eu desconhecia esta edição (colecção “Horas Românticas, Corazzi editores) mas quando a vi foi mais uma machadada nos meus parcos maravedis. Aliás, como encontrei muitos exemplares de capa mole, resolvi mandar copiar os ferros da capa dura de modo que a minha dedicada encadernadora só tem o trabalho de os aplicar nos livros que lhe mando. Quase nem se dá pela diferença!...

Como, acima escrevi, a feira não me entusiasma especialmente. Eu sou, ou era, mais de andar na livraria a meter o bedelho onde ele não é chamado e a percorrer com vagar e prazer canta metro de estante. Ora, a feira, era sobretudo o mostruário das editoras e, vá lá, o carro vassoura de todos os “monos” que eram postos em evidência como “livros do dia” a preços baixos.

Todavia, a mobilização de livrarias e de alfarrabistas, patente na feira do Porto é algo de simpático e permite comprar livros ao livreiro. Só isso já me tira um peso da consciência...

 

  • ao referir a “Ilustração Portuguesa” acrescentei que se tratava da 2ª série. A 1ª, igualmente interessante, publicou-se de 1903 a 1906 e consta de 119 fascículos e não me consta que houvesse encadernação editorial. Apanhei-os numa liquidação de um alfarrabista lisboeta e chamei-lhes um figo.
  • **a vinheta: interior da “Livraria Académica” (Porto), um templo gerido pelo sr. Nuno Canavês, homem que sabe tudo sobre livros e que, porventura, o último dos grandes alfarrabistas portugueses.
  • Como se sabe, os alfarrabistas nunca morrem mas, de repente, desaparecem: foram atrás da 1ª edição de “Os lusíadas” e estão sentados numa biblioteca secreta, gerida por um tal Jorge Luís Borges, e tentam desesperadamente ganhar o leilão do livro. Aquilo promete...

Avante FESTA DO AVANTE!

JSC, 01.09.20

Com especial atenção para Miguel Sousa Tavares, Manuel Carvalho, São José Almeida e afins

« - Epá, a mim não me comem por parvo nesta. Isto eu não deixo passar.

- O quê?

- O Avante! Aquela palhaçada! Como é que é possível deixarem que aquilo aconteça?

- É verdade. Escandaloso, pá.

- Estes comunas, pá. Fazem o que querem.

- Pois fazem. Tudo em casa e eles fazem aquilo.

- É mesmo à comuna. E ninguém fala nisto!

- Ninguém.

- Quer dizer, tem aberto um ou outro noticiário.

- Sim.

- Um ou outro comentador tem falado.

- Poucos.

- Poucos, claro. Ninguém critica os comunas.

- Como se algum partido pudesse fazer o que eles fazem.

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estes dias que passam 486

d'oliveira, 01.09.20

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Um homem bom, decente, corajoso, culto

e um grande amigo

mcr, 1 de Setembro de 2020

Morreu hoje, o António Taborda. O nome pouco dirá às novas gerações mas diz muito, muitíssimo, à minha. O António conheci-o em Coimbra, logo em fins de sessenta, era eu caloiro e ele já por lá andava há muito. E andou ainda alguns anos, metido em tudo o que era teatro actividades culturais e associativas. Em 61/2 fez parte da Direcção Geral da Associação Aadémica e por isso foi expulso  de todas as Universidades por dezoito meses (dois anos lectivos!!!) por na, qualidade de membro da DG , ter sido um dos orgnizadores do 1º Encontro Nacional de Estudantes, em Coimbra e, mas  não era explicitamente dito, por, na mesma qualidade, ter sido um dos dirigentes da crise académica de 1962 em Coimbra.

Voltou à Universidade e ao convívio dos seus muitos amigos e voltou ao Teatro Universitário tendo sido meu companheiro no CITAC . Encontrei-o, mais tarde, no Porto já advogado e muito lhe devo em bons e leais conselhos quando comecei a advocacia. Fomos companheiros em tudo o que mexia na defesa de presos políticos, de estudantes acusados de participar nas crises que sacudiam periodicamente a niversidade do Porto, a partir de 70.

E estivemos juntos antes do 25 de Abril, quando isso era dificil e solitário, na resistência ao Estado Novo. Depois, cada um seguiu o seu caminho mas sempre amigos e solidários no projecto de defender a Democracia e a Liberdade mesmo se de pontos de vista diferentes mas nunca antagónicos. 

Ainda há alguns anos, tive a possibilidade de moderar  uma evocação das lutas estudantis em que ambos participamos sendo ele o encarregado de falar de 62 em Coimbra. A vida, o facto de vivermos em zonas distantes um do outro, não nos deram muitas hipóteses de nos reunirmos com a frequência que eu desejaria e que, tenho a certeza, também ele gostaria. 

A lei da vida, e da morte!, separa as pessoas mesmo que elas o não queiram. Agora, só a recordação dele me acompanhará. Uma boa e terna recordação de alguém a quem por brincadeira eu chamava Tarzan, porquanto havia nesses anos da nossa comum mocidade, um atleta de luta livre que era chamado "Tarzan" Taborda. Ora o António, mais que duvidoso amante do desporto, era também ele grande, daí o apodo.

Para a filha e, sobretudo, para a minha muito querida amiga Fernanda, um beijo, muitos beijos. E a certeza que que o António deixa um exemplo de integridade, de boa disposição e de dignidade que perdurarão.   

diário político 228

d'oliveira, 01.09.20

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A grande ofensiva

Ou um fantasma percorre Portugal

d'Oliveira fecit 1-09-20

 

Se um leitor descuidado der com o texto da Sr.ª Ana Sá Lopes (hoje publicado) verificará, alarmado, que está em curso uma segunda noite das facas longas, desta feita contra o proletariado, as forças progressistas, o povo humilde e trabalhador e os seus aliados.

Então não querem lá ver que as forças do capitalismo monopolista, da reacção ultramontana, do social fascismo, dos falsos democratas e do patronato explorador (aliadas como se verá aos banheiros e aos exploradores do turismo balnear e às forças do clericalismo mais radical) querem proibir o livre exercício dos mais simples direitos democráticos consagrados na Constituição, a saber o direito de reunião, o direito de associação, o direito à alimentação e o direito a ouvir o líder do Partido (no caso, este “partido” é o único que usa letra grande) proclamar uma vez mais que está vivo o pensamento de Marx, Engels, Lenine Estaline e Mao, que a luta pelos mais amplos direitos e liberdades está a ser posta em causa pela conspiração burguesa, capitaneada pela reacção, sua filha dilecta, tudo isso alimentado pelo Governo pusilânime, pela DGS (só as iniciais dizem tudo!) pelos comerciante da cidade de Amora, pelos manifestantes da marcha lenta, pelos impulsionadores da acção no tribunal contra uma festa pacífica, patriótica, progressiva e esquerda. E esta festa é um dos mais altos cumes da cultura, quase um Evereste, pelo menos um monte Ural de sabedoria que o “Partido” generosamente oferece ao povo trabalhador, ao proletariado, às mais amplas camadas populares etc., etc...

E mais, o “Partido” nega terminantemente que este ajuntamento não obedeça às mais rigorosas regras da higiene sanitária e marxista leninista, bem como ao mais severo distanciamento social, garantindo que num recinto de 300.00 metros quadrados (o sublinhado é da camarada Ana SL, digo da “amiga” do mesmo nome, dessa esclarecida companheira de estrada do progresso social gloriosamente iniciado num dia de Outubro, aliás Novembro, e sempre percorrido, sobretudo no carinhoso arquipélago Gulag, até tropeçar num mau caminho do Afeganistão e no muro a desabar de Berlin) podem caber muito mais de dezasseis mil e quinhentos camaradas, companheiros e amigos, sempre distanciados, sempre disciplinados.

Que isto, e voltando à camarada, companheira ou amiga Ana SL, é muito menos do que o que se passa nas praias, do que se passou em Fátima (quando? E quantos?) do que se passa nos centros comerciais (quais?) é revoltante. É uma conspiração contra a paz, contra o progresso, contra as justas aspirações do proletariado (onde ele já vai), dos trabalhadores “conscientes” e com “sentido de classe”, do povo trabalhador e honesto, das forças progressistas (outra vez!) e dos intelectuais comprometidos com as “justas aspirações do povo e das forças do trabalho”. E contra o “único partido ( aliás Partido) que não verga, não desiste, mão fraqueja perante a odiosa campanha da reacção, das forças capitalistas (etc., etc...) que não descansarão enquanto não virem o país governado por Trump, Bolsonaro, Hitler, Mussolini sob a meiga sombra do dr. Salazar (que, como é sabido, “está vivo nos nossos corações”, a exemplo de Stalin, patrono durante trinta gloriosos anos –entre a fome na Ucrânia, os processos de Moscovo e a deportação de milhões de inimigos do povo, do progresso e do socialismo, para as ridentes e confortáveis regiões siberianas dos “homens de boa vontade” de todo o mundo, incluindo-se neste grupo as escassas centenas de portugueses que sempre viram na URSS, o Sol da Terra, o paraíso dos trabalhadores e o primado do Direito e da Justiça.

A burguesia e o seu mais hediondo estracto, a reacção fascista, brandem a bandeira do Covid para combater a bandeira vermelha, para esmagar os sindicatos (os bons sindicatos, que também os há maus...) e para acossar o “Partido” (com letra grande) e para negar às mais amplas camadas populares o direito à alegria, à música, à cultura em geral e às bifanas proletárias.

Camaradas, estamos a caminho do 25 de Novembro, digo do 28 de Maio!

A reacção não passará!

 

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Adam por aí uns rapazolas (e rapariguinhas) que acham que o covid é apenas um fantasma que à semelhança de um outro, bem mais antigo, andou há quase cento e oitenta anos a assustar a Europa.

E acham que o uso dos açaimes, digo, mordaças, digo máscaras, é uma manifestação da ditadura do sistema, mesmo se usadas apenas em meios fechados.

O direito à opinião, mesmo a mais disparatada, é livre mas deveria ser confrontado com as consequências. Suponha-se que, contra toda a espectativa (pelo menos do ponto de vista destes novos negacionistas), um destes protestatários é infectado. Que fazer?, como diria o falecido camarada Ulianov, ou a sua múmia embalsamada? Vai sempre guiado pelas suas convicções anti sistema, mandar a maleita às urtigas ou recorrerá ao SNS e às medidas postas em prática pelas duvidosas autoridades que propõem as conhecidas medidas por ele desvalorizadas?

Alguém aposta comigo?

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A DGS, esta, actual e não a outra, antiga e de má, péssima memória, tem uns tiques que, mesmo com muito boa vontade, se terão de considerar desagradáveis. Entre eles, o do excessivo secretismo sobre este processo que, estou em crer, lhes criou uma sensação de comer sapos vivos. Não fora a forte campanha pública e a ajuda do Presidente da República e aposto que ainda hoje desconheceríamos as regras editadas para a “festa”!

Mais, tenho as mais sérias suspeitas de que, a não aparecer uma opinião pública forte, as regras seriam ainda mais generosas.

E nisto, as desconfianças não se ficam pelo organismo da Dr.ª Graça Freitas mas alastram até às esfarrapadas desculpas de vários membros do Governo, incluindo o conspícuo dr. Costa que, aflito por ter o “Partido” do seu lado na questão do Orçamento, se desmultiplicou em desculpas de mau pagador, em piscadelas de olho, em veladas promessas e em públicas afirmações quanto ao carácter político da festa. Como se não soubesse, e de ginjeira!, que a “Festa” é o mealheiro incontrolado da organização. Que a malta só atura os dois pequenos comícios porque no resto do tempo anda nos comes e bebes e nos concertos, na festa fraternal (ninguém duvida) ou seja em meras actividades lúdicas que tem a escassa desculpa da assistência a duas repetições da consagrada cassete que toda a gente conhece de cor

Ainda sobre a DGS conviria acrescentar que o sinuoso discurso desta começa a fazer-nos pensar que aquilo é mais uma repartição burocrática do que um organismo independente. E que voga ao sabor das continuas convulsões da OMS que, nisto, também parece navegar sem leme nem timoneiro.

 

E já agora, lembrar, aos menos versados que o,4% de 500 é diferente de 0,4 de 5000 e muito diferente de 0,4 de 50.000. Ou seja, dito desse modo até pode parecer que se baixou o número de infecta. O que, obviamente, é falso. 

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