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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 579

d'oliveira, 22.03.21

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Saída precária 8

TPC para adultos

mcr, 22 de Março

 

Se algum/a leitor/a  não souber o sentido das iniciais eu explico porque também não sabia: trabalhos para casa, ou seja, aquilo com que os senhores professores chateavam as crianças depois de longas horas de escola. Parece que a mania continua, pobres miúdos. E pobres pais...

Ora, para enganar a pandemia e estadia forçada entre quatro paredes, mesmo que a casa seja (e é) grande, tenho-me dedicado a pequenas modificações nas estantes.

Em boa verdade o que eu precisava era de mais uma sala com estas de parede a parede mas agora só está livre o quarto de dormir e as casas d banho. E a CG que, de quando em quando resmunga contra a invasão livreira era capaz de se zangar... No caso das casas de banho sempre fui contra mesmo se entre amigos e conhecidos houvesse um largo par de adeptos de leitura “sanitária” (ou seja na sanita). Havia mesmo um padrinho do Quim Pais de Brito que tinha, segundo o afilhado, uma estante carregadinha até mais não e muito à mão. Que livros leria não faço ideia. O meu tio Marcos dedicava uma boa hora pela manhã a aviar os grandes clássicos franceses. O Balzac há de ter durado mais de um ano nessa releitura higiénico-matinal. 

Eu nunca fui adepto dessa prática mas longe de mim condenar esses exacerbados leitores que conseguem o pequeno milagre de fazer duas coisas ao mesmo tempo.

Voltemos, porém, aos nossos lavores (esta vi para um leitor gentilíssimo  que me elogiou “a fluidez da escrita”. Obrigadinhos e continue a ler-me que eu não escrevo para a gaveta), os trabalhos de casa no que toca à impossível tarefa de arrumar livros.

No afã de encontrar sempre mais um buraco para meter um livro, descobri há muito que nas estantes quando sobra espaço por cima da livralhada, há a possibilidade de criar uma estante suplementar onde se podem pôr livros deitados.

Todavia, numa das estantes do escritório nº 2, tanto a olhei que verifiquei duas coisas. A primeira é que o Voltaire (eu sou, como um primo afastadíssimo e alentejano, padre de profissão, aliás duplamente padre pois além do seu múnus sacerdotal fez quatro filhos, o último dos quais foi baptizado com Deusdado, coisa que enfureceu o bispo que o quis suspender. A população que apreciava o primo que era homem de muitas artes, amigo de ajudar, compassivo e folgazão, não deixou o bispo vir à terra ameaçando de lhe fazerem coisas medonhas com o báculo. O pobre prelado recolheu a quartéis e o primo continuou a espalhar a palavra de Deus e a “força vital”.  Ora para além dos predicados mencionados, esse primo era “voltaireano” e lia o filósofo das luzes com o mesmo fervor com que lia o missal.

Infelizmente, algum descendente, crente fervoroso e reaccionário, vendeu ao desbarato os livros do senhor Arouet, se é que os não queimou...)

Estava muito para baixo, mesmo se as estantes de cima também tivessem outros favoritos, a saber algum Stendhal e Casanova. Entre as estantes, a ocupar espaços vagos estavam álbuns japoneses quase tudo gravura.

Entendi que se subisse todos livros talvez conseguisse juntar os japoneses que ainda por cima são quase todos altos, na prateleira de baixo, subindo também a colecção completa da “bibliothéque internationale d’erotologie”, uma publicação famosa do Jean Jacques Pauvert que lhe valeu a sessenta as autoridades não deixavam a libertinagem correr pelas ruas sem mais nem menos. E não é que não só conseguisse uma re-arrumação mais racional (Stendhal, Voltaire, Casanova e BIE) mas sobretudo consegui aumentar o número de japoneses tornando mais viáveis as estantes do lado também dedicadas ao Japão, uma mania!

Claro que nada disto evitou que os Casanova e os Voltaire não estejam em 2 filas. De todo o modo conseguem-se visualizar os de trás que, no caso de Voltaire até nem tem grande dificuldade. De facto, numa alfarrabista simpática e pouco propensa a ter compradores de livros franceses, encontrei praticamente toda a edição “plêiade” a dez euros ocada volume. Em estado novo, novíssimo, um brinquinho. Confesso que treze dos volumes albergam a “correspondência” de que lerei apenas uma que outra carta. Treze volumes, quinze mil duzentas e oitenta e quatro cartas! Arre! (cáspite! – esta é outra vez para o leitor da “fluidez”, ora tome lá e embrulhe!). E assim passei umas horas...

Antes isto do que ficar pandémico, stressado, histérico, com impigens, escrófulas, dor de cotovelo ou hidrartrose das criadas de servir (esta lia há muitos anos em “3 homens num bote sem falar do cão” de Jerome K Jerome e não sei bem  (nem mal...) a que se refere.

Na vinheta: a estante intervencionada ainda antes da súbita dos livros da Pauvert

      

 

estes dias que passam 578

d'oliveira, 21.03.21

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Saída precária 7

Pequenos paradoxos sem importância

mcr, 21 de Março

 

Eu nasci neste retângulo à viera mar plantado a quem alguns líricos chamam jardim, outros mais versados em Eça chamariam torrãozinho de açúcar mas que, como diz a canção tradicional não passa de “terras de Espanha, areias de Portugal”, isto é uma porção de território entre montanha e mar que nunca alimentou suficientemente os seus habitantes.

Por isso, desde que puderam, estes, lançaram-se pelo mundo fora, primeiro para Oriente, depois para o Brasil, para África  onde se misturaram com deportados e para as europas  para onde continuam a ir.

Talvez algum vá à aventura, outros (mas não muitos) terão fugido à guerra ou às polícias, mas a esmagadora maioria agarrou na mala de cartão e foi em busca de pão. Dessa contínua sangria de gente houve quem regressasse, sobretudo primeiras gerações mas também nesse capítulo, não se pode falar em grande número de regressados.

Curiosamente, ou talvez não, Portugal, potência colonial de segunda ordem, acabada a guerra, começou a atrair, e em número crescente, cidadãos oriundos das ex-colónias. Começou com a chegada de goeses ainda nos anos sessenta, depois juntaram-se-lhe indianos e paquistaneses sem qualquer ligação com Portugal. Acabada a guerra, além de acolher muitas centenas de milhares de retornados predominantemente de origem europeia, começaram a chegar africanos, primeiro das antigas colónias (Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde) e depois de variados países africanos independentes desde o final dos anos cinquenta ou da primeira metade de sessenta.

Ora, se atentarmos na comunicação social, Portugal é um país racista, que ainda não se esqueceu do colonialismo que praticou com mão dura e repressiva e de que não se esquece, antes tenta perpetuar.

Quando refiro “comunicação social” não refiro toda mas aquela que se precipita avidamente sobre as declarações de algumas criaturas, mormente negras e que tendo nascido e crescido em territórios africanos, demandam terras portuguesas para viverem, criarem os filhos e nacionalizarem-se portugueses. Que é que as traz para um país tão grosseiramente racista, e ignorante dos benefícios do multiculturalismo?

Eu nada tenho contra os emigrantes que chegam, bem pelo contrário, acho que nos enriquecem de diferentes maneiras, que melhoram o nosso saldo vital, venham eles de África, do Brasil, da Venezuela (aqui são mais retornados do que outra coisa, fugidos a um regime miserável que se especializou em tornar emigrantes os seus naturais e em empobrecer de maneira medonha os seus naturais) ou do Leste europeu.

Num país que há dois séculos exporta gente, a chegada de quem quer viver aqui é, pelo menos, bem vinda. De resto, como praticamente todas as famílias portugueses, a minha família andou por meio mundo, estabeleceu-se onde pode, e os poucos que regressaram não o fizeram de motu próprio.

E volto ao mesmo ponto: como é que alguém suporta viver num país que alegadamente o maltrata, ofende, despreza e segrega?

Vou até um pouco mais longe: dos meus tempos de jovem, relacionei-me com colegas africanos que, na sua grande maioria, acabaram por sair de Portugal para se juntarem aos movimentos independentistas (fundamentalmente de Angola e Moçambique). Custou-me a compreender o regresso de alguns à metrópole que combateram e onde se acolheram como refugiados políticos. Surpreendeu-me o facto de muitos (entre conhecidos e desconhecidos) nunca terem renunciado à nacionalidade portuguesa quando não a reivindicaram anos e anos depois das independências africanas. A coisa chegou até a representantes dos mais alto cargos políticos post independência. Um solavanco, e não foram poucos, e ei-los que aparecem munidos de um passaporte português.

No caso de oriundos extra PALOPs a coisa ainda é mais estranha. Não vão para França ou para o Reino Unido antigos colonizadores, cuja língua falam. Vem para Portugal onde as possibilidades de êxito parecem ser menores, onde não tem familiares, amigos ou simples conterrâneos!

É evidente, basta conferir os números, que os acusadores de Portugal são uma ínfima minoria dos instalados por cá. Não menos verdade é que, aqui e ali, sobretudo na população menos educada, o factor cor da pele pode significar repúdio. Que o trauma dos retornados, bem vívido em certas zonas suburbanas, alimente focos de tensão. Que antigos combatentes possam associar estes recém chegados aos seus adversários de outrora (mas também seria bom recordar que há ainda numerosas associações de ex-militares portugueses que mantem fortes laços com as colónias onde serviram e para onde todos os anos enviam substanciais ajudas materiais. Há uns anos referi aqui um numeroso grupo de ex-combatentes na Guiné que todos os anos iam (e provavelmente continuam a ir)para lá carregados de tudo o que podiam angariar para ajudar as populações que vivem junto dos seus antigos quartéis. O mesmo se passa, mas em muito menor grau, com ex-combatentes em Angola e Moçambique.

O que é extraordinário, ou talvez não, é que disto, desta clara solidariedade ninguém fala. Nem os próprios que, como me disse um, não tem tempo para discutir com os Mamadus pretos ou brancos quando a urgência é acudir às pessoas. E sacou-me uns centos de euros para comprar material escolar...  Em troca recebi umas fotografias dos meninos a usarem o que eu pagara. Choraminguei para o lado e lembrei-me da minha escolinha primária em Buarcos e dos meus amigos descalços ou de tamancos com quem joguei ao pião, roubei fruta no parque Sotto Maior e me engalfinhei à bordoada quando era caso disso.

Quem me lê sabe que não poupo o país onde nasci e que não tento varrer o seu lixo para debaixo do tapete. Mas, do mesmo modo, entendo que  anda por aí muito filisteu (de várias cores e origens) que faz das rábulas mais em voga uma espécie de ganha pão político ou intelectual. A esses há que dizer “est modus in rebus” e se não perceberem que vão perguntar.  

Eu, para o peditório dos exercícios penitenciais, das autocríticas virtuosas, não dou.

 

 

Começou a Primavera, parece. A ver vamos se é desta que as cisas melhoram. Bem preciso era que os próximos Outono e Inverno vão ser de amargar

 

a vinheta: figura provavelmente songhié (ou de area cultural confinante), RDC, finais do secXIX. A base está muito deteriorada. 

estes dias que passam 577

d'oliveira, 20.03.21

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Saída precária 6

Aventais só os de Buarcos

mcr, 20 de Março

 

 

entre os muitos e variados defeitos que tenho conta-se este: nunca me interessei pela Maçonaria. Nem muito, nem pouco. Nunca tive a menor curiosidade pelo tema, nunca me lembrei de elencar os meus amigos em maçons e não maçons e se algum me confidenciou ou deu a entender que o era, a coisa entrou-me a cem e saiu a duzentos.

Nunca fui directa ou indirectamente convidado para fazer parte dessa fraternidade e a única vez que alguém me sondou muito elipticamente sobre uma eventual adesão, foi de tal modo etéreo e subtil o eventual convite que nem sequer o considerei como tal. Só anos mais tarde, já o meu amigo estava morto e enterrado é que soube que efectivamente ele teria pensado em mim, o leigo mais leigo que há, para a sua sociedade secreta.

Também, e ainda com mais razão, nunca ninguém me citou para o Opus Dei. Aliás, também só num enterro, é que me inteirei que o meu excelente amigo António A era da “Obra”. Devo, em seu abono, dizer que ele era uma pessoa fascinante, cultíssima, maníaco por Veneza, leitor insaciável e conversador de mão cheia. A gata Ingrid Bergman roçava-se por ele mal o via e a gata Kiki de Montparnasse não se escondia dele, chegava mesmo a farejá-lo de longe, o que prova quão amável e amigável era esse meu amigo.

Também, neste capítulo, a minha curiosidade era reduzida à mais ínfima expressão. De todo o modo, sabia mais da OD que da Maçonaria  pois cheguei a ler um livrinho sobre o assunto.

Também, de um ponro de vista genérico nada tenho contra as pertenças de A, B ou C a estas organizações ou a outras  tais como a “ordem de Malta” ou, uma coisa qualquer que tenta ressuscitar os templários, a Cruzado Eucarística”, o Rotary  e os outros agrupamentos mais ou menos da mesma espécie.

Também é verdade que sou pouco dado a ajuntamentos clubísticos ou outros (nem do Clube de Bridge sou associado!...) e os poucos clubes onde, por acaso me inscrevi, foram por mim tão pouco frequentados que a dada altura me demiti. O caso mais flagrante foi o Clube de Moledo amabilíssima instituição que (suponho) funcionava só no Verão. Durante anos fui lá uma vez por temporada para pagar as quotas. De um outro clube perto do Porto nem isso. Pagava as quotas por transferência bancária e só lá fui duas vezes e apenas para jogar bridge.

Nisto sou marxista, tendência Grouxo: só me inscreveria num clube que não me admitisse!

Actualmente, sou apenas membro da Sociedade de Geografia de Lisboa mas, como vivo no Porto, a minha presença é nula. Todavia a SGL edita um bom boletim, tem um acervo de excelentes separatas que, volta e meia, encomendo e merece ser apoiada porquanto a sua Biblioteca é um tesouro e a actuação (conferências colóquios, mesas redondas) é, sempre foi, intensa. E tem um restaurante simpático mesmo se não consegue comparar-se com o da Casa do Alentejo e muito menos, sempre na mesma rua, com o Gambrinus (até a minha Mãe insistia em ir lá. “eu pago” dizia-me e lá íamos com o tio Quim e a tia Hundine que quase desfalecia de prazer embora gemesse que era indecente pagar aqueles preços! E a minha Mãe, cortava cerce “não se preocupe que hoje pago eu!” Hoje e sempre, pensava eu sem maldade mas rindo-me à socapa)

Mas tudo isto, esta desconversa já habitual e que os meus resignados leitores já conhecem de ginjeira, tem a ver com um proposta de lei entrada no Parlamento sobre a obrigatoriedade de detentores de cargos políticos declararem a pertença à Maçonaria e ao Opus.

O Parlamento tem destas coisas, volta e meia, legisla sobre a espuma dos dias, sobre minhoquices ou sobre coisas de gravidade para que não está preparado, habilitado ou simplesmente mandatado (é o caso da eutanásia onde se verificou  até que ponto a pobreza dos argumentos se confundiu com a mais frenética ideologia. Os parlamentares remendaram uma lei que já levou umas farpas fortes no Tribunal constitucional e onde, francamente, não se percebe a diferença entre suicídio assistido e eutanásia. Do primeiro sou adepto, assim como do testamento vital que, até há pouco não ultrapassava os vinte e cinco mil declarantes. Num país onde os cuidados continuados são o que são, onde os lares são o que são, os abandonos de velhos, idem, aspas, aspas, esta discussão em tempos de pandemia soou a falso para não dizer algo que me constitua arguido de injúrias contra os digníssimos deputados.  

 Voltando, à Maçonaria (os da Opus andam mais calados que os arquivos secretos do Vaticano)  tudo começou com uma proposta de uma coisa chamada PAN que legislava sobre o nada. Aconselhava, se tanto, as pessoas a declararem se eram ou não da sociedade secreta A ou B. Enfim, uma nulidade que aliás vem de algo que ainda não consegui perceber ao que vem. O PPD, que tem muita gente nas maçonarias, veio corrigir o tiro de pólvora seca, propondo que seja obrigatória a declaração de pertença à Maçonaria e ao Opus.

Notem bem: ninguém quer que os cavalheiros maçons digam o que lá dentro fazem, dizem ou pensam. Apenas se exige que, por mera transparência, digam se são ou não são membros de uma associação secreta. Eu sei que muita gente detesta o termo “associação secreta” mas é exactamente isso o que estas associações são ou deixam que se pense assim delas.

Todavia, ergueu-se uma guincharia medonha, uma exaltação “democrática e patriótica” que vê a Liberdade a perecer como Joana d’Arc e os algozes da inquisição a afiarem os instrumentos de tortura. Note-se que em muitos países os maçons declaram a sua participação e nem por isso são incomodados ou prejudicados.

Cá é o que se vê e aí vem logo a Ditadura Nacional e a proibição das estruturas maçónicas mesmo se pelo menos o Presidente da República, Carmona fosse como numerosos militares do 28 de Maio, maçon...

(e já agora relembraria, que o Estado Novo não via com bons olhos a “Obra”, sobretudo a partir do momento em que esta começou a interferir na política espanhola. Claro que esta má vontade era ente dentes mas que existia, existia. A Igreja oficial tolera, mais do que apoia, a “Obra”. De todo o modo isso é “com eles”. Que se amnhem...)

Eu, quando aquele elíptico amigo me falou da Maçonaria, lembro-me de lhe dizer que “aventais por aventais, preferia os das peixeiras de Buarcos”

É verdade que, por garridice, por pobreza, o luxo dessas mulheres valente, fortes e trabalhadoras, mães dos meus amigos da escola primária, tinham por único luxo, belíssimos aventais bordados em longas e longas horas furtadas ao sono. E em dias de festa, ei-las que os punham sobre o melhor vestido domingueiro, que Buarcos não é o Minho das mordomas carregadas de oiro.   

Vejam a vinheta e atrevam-se a dizer que eu não tenho razão!

Ai, se eu puder, este ano, lá para os princípios de Setembro, irei, leigo mas idólatra, à festa da Senhora da Encarnação. Em lembrança da minha meninice e em homenagem aos meus professores primários. E a alguns juvenis amores...

diário Político 229

d'oliveira, 19.03.21

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diário político

demonizar, diz ele

d’Oliveira fecit em Março

Rui Tavares, um dos dois colunistas (ambos Tavares!...) da última página do “Publico” escreve um texto que vale a pena ler  (eu acho que RT como JMT, o outro T, suscitam boas discussões e merecem ser lidos com alguma atenção) . O título diz tudo: “a demonização” da esquerda e do socialismo produz monstros”

Este título tem origem em Goya que criou uma água forte (nos “Caprichos”) com o título “el sueno de la razon produce monstruos”.

RT entende que está em curso uma campanha ruidosa e temível contra a Esquerda que, se for bem sucedida, tenderá traduzir-se em medonhas perseguições de democratas, socialistas e libertários.

RT começa o seu texto com uma evocação sumária e ligeira, demasiado ligeira para um historiador, da Comuna de Paris, movimento que começou como um protesto contra o avanço dos prussianos sobre a cidade e se transformou em levantamento popular revolucionário contra o governo burguês. A curta guerra civil que se seguiu saldou-se em cerca de vinte mil mortos  de ambos os lados entre civis e militares apoiantes da comuna e do governo, e produziu cerca de vinte mil mortos. A repressão foi duríssima e terá resultado num elevado número de mortos mesmo que no “muro dos federados” só se mencionem menos de duzentas vítimas, fuziladas. Não se sabe quantas mais houve mas suspeita-se que andariam por milhares. Além disso houve um grande número de deportações para os mais recônditos cantos do Império.

A partir desta efeméride, RT passa em revista as conquistas democráticas e populares que não podem sem mais ser apenas atribuíveis ao socialismo (a primeira segurança social foi da autoria de Bismarck, por exemplo) mesmo se este, nas diversas formas de que se revestiu seja obviamente  o factor mais determinante. Todavia os radicais e republicanos preferentemente conservadores também deixaram fortes marcas no progresso europeu, sem falar da democracia cristã que mobilizou as classes laboriosas cristãs para o mesmo fim, a conquista de direitos cívicos, políticos e sociais.

RT também refere que, ao lado das sociais democracias e aliados houve formulas violentas, duras e ditatoriais de”socialismo” que, de 1917 a 1989, deixaram na europa um rasto impressionante que ainda hoje permanece em parte oculto em arquivos ou na falta de vontade de certos historiadores que se “esquecem” com facilidade dos fantasmas do gulag e outros. Neste exacto momento, há um regime alegadamente socialista que controla o país mais populoso do mundo, e mostra as suas garras na região uigure, em Hong Kong ou no Tibete sem menosprezar a China chinesa.

Todavia, é verdade que o fascismo e todos os regimes autoritários similares surgidos no fim da 1ª Guerra erigiram como principal inimigo a democracia e, especialmente, o socialismo, radical ou não.

E não é menos verdade que, em países saídos da “cortina de ferro” há algo a que chamam regimes iliberais que, de facto, ba mais são do que reacções desproporcionadas aos anteriores regimes de obediência soviética. Na UE, e mal, entraram pelo menos três países (Polónia, Hungria e Eslováquia) que são exemplos claros da crescente limitação das liberdades de que a União pretende ser portadora.

Finalmente, mesmo entre as democracias antigas europeias existem movimentos de Direita radical que contestam o “sistema”.  E é também verdade que mesmo nos países que experimentaram a dureza de regimes autoritários duros (Portugal, Grécia e Espanha E na Alemanha – a AfD) reapareceram movimentos ultra-conservadores. Não são demasiadamente nutridos, rondam os 10/15 % e bão é crível que cresçam  muito a menos que a crise económica e social se agrave. É bom lembrar que os radicalismos medram em situações de grande dificuldades, de pobreza, de desemprego, de insegurança. Não nascem da riqueza, da paz social e do trabalho para todos. Bastaria lembrar como é que a Direita lepeniana cresce em França. Justamente em anteriores zonas vermelhas atingidas pelo desemprego e pela desinsdustrialização. Na Alemanha é no Leste ex-comunista que a AfD ganha adeptos, não é na Baviera, bastião de uma direita conservadora social-cristã. Na Itália foi o Norte altamente industrializado que a Direita ganhou mais votos. E por aí fora.

Ora o meu ponto não é retirar toda e qualquer razão a Tavares mas apenas dizer-lhe que demonizar seja que adversário político for cria monstros, obnubila os espíritos. Eu lembraria a RT que, entre as duas grandes guerras, o maior trunfo de Hitler e a origem de todas as facilidades internas que teve, tem na base a luta sem quartel entre socialistas e comunistas. Com uma teoria “científica” fundamental baseada na expressão “Klasse gegen Klasse”. Os socialistas, a mais poderosa força política alemã eram tachados de “sociais fascistas”, de traidores à causa operária, de subalternos da reacção.

Quando a guerra começou, ainda a União Soviética trocava beijos e abraços com o 3º Reich, os partidos comunistas ocidentais, assobiavam para o lado. No caso da França invadida e ocupada, o Partido Comunista Francês expulsava os militantes que queriam lutar contra os alemães e, cúmulo dos cúmulos, tentaram obter autorização para publicar “L’ Humanité”. A “Resistencia” é bom que se recorde, começou por ser obra de democratas e de alguns conservadores que não aceitaram a humilhante posição de Vichy.

 

E durante o “ensaio geral” da 2ª  Guerra, no palco espanhol, o PC liquidou o POUM, atacou os anarquistas e infiltrou os partidos republicanos. E verdade que, do outro lado, estavam os generais (não todos), os requétés, os fascistas,  e uma importante fracção da população hotoriamente conservadora e católica. Basta atentar, por exemplo, na entrada dos franquistas em Barcelona. De onde surdiram aquelas centenas de milhares de pessoas de pata no ar e a cantar o “Cara al sol”?    

Voltando à vaca fria: o mal da demonização é ela existir. De esquerda ou de direita. E por cá, sem citar nomes, tem havido basta demonização, apelos à dissolução de partidos, queixas na Procuradoria Geral da República contra líderes partidários. Em que ficamos?

A ilustração dupla traz Goya o sumptuoso e o maoísmo mais caricato. E muito mais perigoso e pejado de milhões de vítimas.  

estes dias que passam 576

d'oliveira, 19.03.21

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Saída precária 5

Babel revisitada (e justificada!)

mcr, 19 de Março

 

 

Eu sou um leitor impenitente. Aliás mantenho neste blog uma coluna com esse nome. Leio várias línguas e, nas que desconheço ou não me sinto inteiramente à vontade, leio as traduções.

Pelos vistos, e ao fim de largas, demasiado largas, dezenas de anos, ando a tresler, a ser vigarizado por criaturas que, sendo tradutoras, são incapazes de referir o que o autor quis, exactamente, dizer. 

É o que decorre da imbecilidade que, há vários dias, tem página aberta em jornais. Tudo a propósito de um poema de Amanda Goman, uma jovem americana e negra que se tornou conhecida no dia da tomada de posse de joe Biden. O poema, na minha visão, branca, paternalista, ignorante da vivência de uma rapariga saída da adolescência, não é genial mas é francamente interessante e merece ser conhecido por toda a gente que fosta de poesia. Como nem todos sabem inglês, muito menos o inglês da América e, menos ainda, o inglês falado pelos “afro-americanos” ( e poderia mesmo acrescentar-se o inglês falado na região, na cidade ou no bairro de manda...) há que traduzi-lo. Para isso basta haver um(a) tradutor(a) interessado/a, sensível capaz de dar, ou tentar dar, toda a força e emoção do poema.

Pelos vistos isso não chega. Na Holanda, recusou-se a versão de uma conhecida tradutora e(suponho) poetisa por não ser negra! Ou seja, na Holanda e adjacências cretinas, não basta saber, perceber, sentir o poema da jovem americana. Há que ser negra (sublinho o sexo), provavelmente jovem e ter sido alvo de racismo.

Aliás, poderia mesmo duvidar-se se algum branco, mesmo europeu e generoso, perceberia o poema ou todo o poema. O mesmo se dirá, por exemplo, de alguém que queira ler Leopold Sedar Senghor e o seu poema manifesto “Mulher negra, mulher nua”. Ou Cesaire, seu companheiro de combate e antilhano, o que complica tudo. Ou Malcolm de Chazal outro poeta da mesma geração, preto e surrealista.

Já não refiro os poetas japoneses que Jorge de Sousa Braga traduziu, pelos vistos mal, muito mal: é português, nortenho, provavelmente sem um milímetro de espírito do bushido ou qualquer outra coisa intrinsecamente japonesa. Talvez goste de cerejas mas é possível que nunca tenha visto as flores de cerejeira e, muito menos o monte fuji...

Mas há mais e mais próximo. Como poderemos ler Hafiz ou Omar Kayam? Ou os poetas russos? Ou o turco Nazim Hikmet?

A coisa poderá mesmo estender-se às raízes da nossa alegada civilização greco-romana. Saberemos nós o que é que Homero pretendia dizer aos seus, vários séculos antes da nossa era?

Como é que um cidadão francês actual poderá ler Fernando Pessoa sobretudo no heterónimo alberto Caeiro?

Como é que alguém, em Espanha, se atreveu a traduzir Herberto Hélder.

Será que alguma poetisa portuguesa se atreve com Lorca?

E mesmo dentro dos PALOP, será que um nascido e crescido em Abrantes perceberá completamente o José Craveirinha? Ou mesmo o Rui Knopfli apesar deste ser branco?

Será que, por exemplo, o senhor Mamadou Ba, mesmo falando português, consegue perceber uma língua que provavelmente só começou a ouvir já adulto?  É que há coisas que se aprendem com o leite materno ou no jardim escola e nunca mais. 

Esta fecunda discussão iniciada na Holanda não pode ficar por aqui. Ora vejamos:

Beethoven, um cavalheiro alemão e surdo compôs uma “nona sinfonia” numa altura em que o Japão ainda estava fechado aos estrangeiros. Todavia, no Império do Sol Nascente havia música e músicos. E instrumentos musicais. De todo o modo o que lá se produzia er, digamos, profundamente estranho para os ouvidos ocidentais. Como é que século e meio depois, há um coreógrafo que se atreve a produzir em Tóquio um bailado sobre a sinfonia do cavalheiro surdo e alemão? Terão os espectadores nipónicos compreendido não direi tudo mas vá lá, vinte por cento do que viram e ouviram? É que a música poderá pretender ser a mais universal das artes mas não escapa às leis do local onde é produzida. Como é que eu me atrevo a afirmar que gosto de flamenco tanto quanto desgosto de samba se não sou espanhol, andaluz e cigano?  Será que o meu desinteresse pelo samba provém de não ser brasileiro, mulato, pobre, carnavalesco e frequentador de “terreiros”?

E na pintura? Acaso alguém, ponhamos um habitante de Bombaim  (agora Mumbai) conseguirá compreender “O grito” de Munch, as “demoiselles d’Avignon” ou os “painéis de S Vicente”, isto no caso de, mesmo entre europeus, não houver discordância quanto ao significado destas peças, coisa que, no caso da última, está aí para as curvas?

No meio disto tudo que é grandiosamente profundo e barbaramente imbecil sobressai ainda uma cereja (se me é permitido falar de uma frutinha japonesa ou do Fundão)  uma outra questão. É que há quem diga que no primeiro caso, o da jovem americana e negra, a discussão seria apenas possível se a peça a traduzir for criada por um colonizado, preto de preferência, por alguém que sofre o racismo quotidiano à mão dos bisnetos dos esclavagistas  do Sul. Ou seja, tudo isto, se reconduz à discussão que anima um par de redes sociais e que em Portugal, muito apropriadamente desencadeou uma pichagem na estátua do jesuíta Vieira e uma fúria iconoclasta nas senhora Joacine e no senhor Ascenço, duas luminárias que ornamentam o parlamento nacional.

Esperemos pelos próximos capítulos....

Na vinheta: um livro de um senhor florentino chamado Dante, a sua tradução/traição por um senhor do Porto (e premiado como tradutor!!!) chamado Vasco Graça Moura e uma edição de bolso, que usei muito, quando pensava que compreendia (ah toleima, ah audácia, ah engano fatal, ledo e cego) o que ia lendo.

Faltam mais duas edições, uma em francês e outra em espanhol, baratinhas e compradas quando ainda não me atrevia com o italiano, e faltava uma edição portuguesa.  Em meu abono só posso dizer que tinha entre dezoito e vinte aos e andava sobressaltado pelas "virgens que passavam ao sol poente"

 

 

  

 

estes dias que passam 575

d'oliveira, 18.03.21

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Saída precária 4

Paisagem desolada

mcr, 18 de Março

Na zona onde vivo, um conjunto de prédios que rodeiam um jardim, há em dois dos lados uma galeria comercial que obviamente, com um ano de confinamento tem sofrido danos, alguns deles irreparáveis. De todo o modo, os dois pequenos cafés reabriram ao postigo. E vendem refeições em regime de take away. Há um restaurante vegetariano que também tenta funcionar, um japonês que está pronto mas ainda nem sequer abriu portas e dos dois restaurantes, um só faz take away à noite (?!). Das loja de acessórios e confecções só uma abriu mas as proprietárias afirmaram-me que, por enquanto, andam apenas a receber os artigos novos, a fazer limpezas porque, obviamente, é difícil a um cliente adquirir seja que tipo de roupa for. A menos que a leve para casa para provar... Os barbeiros e a cabeleireira abriram e funcionam a todo o vapor o que se compreende. Andava toda a gente com uma gaforina impressionante e agora tentam eliminar essa abundância de cabelo o mais depressa possível não vá o diabo tecê-las  voltar tudo à primeira forma.

A loja dos chocolates também abriu e prepara-se para a Páscoa, com camadas de amêndoas de todos os feitios e cores. Apostam na gulodice dos cidadãos que mesmo em liberdade vigiada darão ao dente desalmadamente que o doce nunca amargou.

Durante o confinamento, apenas estiveram abertos, o supermercado, um pomar, uma óptica, o quiosque dos jornais e a lavandaria. E os bancos claro... Uma das galerias de arte fechou, a livraria reabriu cautelosamente  e há um bar que aguarda melhores mas tardios dias (ou noites).

Da zona de escritórios nada sei, advogados, médicos, arquitectos e outros  funcionam em dois andares acima do rés do chão pelo que não se sabe o que acontece. As joalharias estão fechadas. A agência de viagens e uma loja de máscaras especiais desapareceram Havia dois ou três espaços desocupados e desocupados continuam. Quem é que se atreve numa época tão incerta. A “Farfecht” (se é que se escreve assim) fechou um enorme bloco onde se concentravam centenas de trabalhadores. O parque de estacionamento privativo está vazio. Há uma para-farmácia que ia abrir mas, até ao momento, nada se sabe. O mesmo acontece com o hotel de cinco estrelas fechado há anos e que estaria em vias de ser negociado. O cinema também já só é uma saudade mas nisso seguiu o destino de todos os outros.

Sendo este o panorama, não admira que o movimento seja modesto, modestíssimo. Alguns cães exuberantes, seguidos de donos melancólicos, correm pelo jardim. A miudagem foi, com alívio de pais e vizinhos, para as escolas. O carteiro termina a ronda de entregas quase duas horas mais cedo!

Eu não questiono as disposições legais existentes, nem a ordem, ou desordem, do que abre ou não.  As esplanadas que reabrirão proximamente estavam organizadas de modo a manter o famoso distanciamento mas sou má testemunha dado que chegava cedo e cedo desandava. Mas nunca ouvi queixas ou reparos.

Agora, quando chego ao postigo do “Sandwich Bar” lá me servem um café em copo de plástico e o proprietário desculpa-se com a vigilância policial. “E eu até sempre lavei as chávenas na máquina apropriada” lamenta-se. Será que o copo de plástico não reutilizável e por isso aumentador da pegada ecológica, é mais adequado do que uma chávena lavada em água fervente?

O barbeiro que frequento que, desde há muito, tinha organizado um sistema de marcações prévias e se gabava do seu espaço ultra limpo e desinfectado, pergunta-me o que é que mudou (mo caso dele nada. Ou tudo. De facto não trabalhou durante quase dois meses, pagou ordenados e segurança social e ainda espera as ajudas prometidas e irrisórias.)

Aqui, neste espaço agradável e semi-fechado pode-se andar sem máscara pois não se vê ninguém ou quase. Todavia, um polícia mais zeloso interpelou uma vizinha minha que atravessa um jardim deserto de cara destapada. Vá lá que aceitou as razões da senhora que num gesto largo e moscovita lhe apontou os quatro cantos do bairro sem criatura vivente à vista. Ou melhor, reparou num perdigueiro (deve ser o habitual perdigueiro doido que volta que não volta encontro  no caminho para a banca dos jornais. Aproxima-se, fareja, deixa-se acariciar atrás das orelhas e parte numa corrida absurda pelo jardim fora. Provavelmente ninguém o informou de que aqui não há perdizes nem outra caça menor ou maior, excepção feita das pombas que desapareceram e dos pardais atrevidos que mendigavam migalhas na esplanada e de um par de melros que apareciam perto da porta da nossa garagem comum. )

Quando me cruzo com a Irene Maria, amiga antiga, e pergunto “como vais?” ela responde, com meio sorriso cansado, “-Confinada!” Alguns amigos e e vizinhos estão invisíveis. Ou então, aproveitaram a pandemia para começar a dormir mais...

Outros não reaparecerão. Ah, Manel (Sousa Pereira)  que falta fazes!

* na vinheta: paisagem aérea do bairro. Na torre mais à esquerda, e em primeiro plano, vivo eu há mais de vinte anos... Aliás vivo aqui, neste bairro, desde 1975, uma eternidade.

estes dias que passam 574

d'oliveira, 17.03.21

 

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Saída precária 3

Trás- os Montes no coração

(e noutras vísceras menos nobres

mas utilíssimas). E no nariz!

mcr, 17 de Março

 

o mistério do chá que cheirava a salpicão (do bom!)

Comecei a beber chá quando andava no liceu, no sexto ano. Estava a milhares de quilómetros de casa de meus pais e tinha uma encarregada de educação, amiga da família e sobretudo da tia Nené. Era uma excelente pessoa, meio britânica (até se chamava Gladys  Telles Grilo e bebia chá em quantidades notáveis. Eu aparecia muito à hora do lanche e lá me fui habituando, ao chá, às torradas, aos scones e sei lá que mais.

Quando cheguei à faculdade, constatei burramente que chá era mal visto. Lá me virei para o café, muito Maria vai com as outras. Por acaso, um companheiro de pensão, muito, mas muito, mais velho, estava a tirar umas cadeiras de biologia porquanto era formado noutra área mas o seu emprego em Moçambique exigia dele uma licenciatura em biologia. O Gunderico (não invento, Gunderico da Veiga Ferreira, notável descobridor de algumas moscas ou algo parecido, ex militante comunista, homem de boa e ampla conversa), bebia chá em doses excessivas. E combinava as chazadas com cachimbadas tremendas pois, como verdadeiro apreciador do cachimbo, andava munido de uma espécie de cartucheira onde trazia  uma boa dúzia de cachimbos pois afirmava que um cachimbo só deve ser reutilizado horas depois (se non è vero...).

Apesar desse exemplo, eu, caloiro e tonto, persisti no café, viciei-me a tal ponto que até para dormir tinha que aviar uma bica.

Este divórcio do chá durou dezenas de anos mas aí há vinte anos, resolvi voltar a esse amor de adolescência. E dividi o dia. Até às três ou quatro da tarde funciono a café. Depois entra o chá (+ ou – três chávenas). E especializei-me em chá branco, o que é feito das flores do arbusto. Mas o chá branco é raro, as pessoas preferem o preto ou o verde pelo que comecei a ir comprá-lo directamente ao “Corte Inglês”.

Ora, há uns tempos, talvez ano meio, descobri na secção gourmet uma marca de chá (TWG) que não só tinha um excelente chá branco mas que, nas falhas, rinha outros de nomes exóticos e atraentes. E foi assim que em Dezembro passado comprei uma ecaixa de “Imperial Lapsang Souchong”. Claro que gostei, pudera não! Todavia, durante as semanas em que pela tarde me regalava com o chá, sentia na casa, no escritório, na sala, onde quer que fosse, um cheiro intenso a salpicão. Salpicão do bom, do verdadeiro, do transmontano, feiro em casa e vendido em raras feiras e a preço forte. Em boa verdade, eu e a CG tínhamos comido umas lascas de salpicão uma noite em que havia, para o acompanhar um belo folar transmontano.

Eu espantava-me como é que, tanto tempo depois,  pelas cinco da tarde, esse cheiro ancestral e evocador de antigas “tainadas” que entremeávamos com o bridge, entrava pela casa, me invadia as narinas cansadas e me fazia lembrar amigos mortos, e tantos que já são...

Não sei como foi mas um dia resolvi cheirar o saquinho do chá antes de o escaldar. E veio, intenso e perturbante, o odor a salpicão. O mistério adensou-se até que resolvi ler o envelope onde vinha o chá. Foi, quase, uma epifania: este chá, de seu nome imperial lapsang souchong é fumado!  O que chegava ao nariz era o cheiro do fumeiro que os chineses (ou os cavalheiros da TWG) podem ser inteligentes, cozinhar bem mas o nosso fumeirinho caseiro, tradicional feito com o lombo de um porquinho que é criado quase como se fosse da família, esse cheiro, odor, perfume é só nosso e nem isso; é só de uns centos de senhoras e senhores transmontanos que matam o bicho, separam as carninhas e com lombos suculentos o põem ao fumeiro ao lado dos presuntos e de outros mimos que também sabem fazer (mas em presuntos, Trás-os-Montes que me desculpe, não se chegam aos de Parma e menos ainda a alguns espanhóis de belota, trinta e seis meses de preparo, preços infames mas que logo esquecemos quando o comemos. Ai se me apanho com a vacina e a fronteira aberta... 

 

Vai esta à memória de Francisco Cordeiro,  Luis Menezes Monteiro e Fernando Assis Pacheco. Todos eles amadores do bom fumeiro, há que dizê-lo. Fazem uma falta danada, porra! Para a conversa, para o bridge, para a poesia. Para tudo! 

diário Político 228

d'oliveira, 16.03.21

Diário político  225

d’ Oliveira fecit nos idos de Março (ou quase)

 

antes que me esqueça: Na Europa foram cinco de milhões de pessoas as vacinadas com a Astra Zeneka. E 30 (ou menos) os casos de aparecimento de coágulos sanguíneos. Isto, em boas contas, significa menos de um caso por milhão de pessoas vacinadas.

Eu desconheço qual a perigosidade dos coágulos. Mesmo aceitando (sem qualquer dificuldade, aliás) que são grave 225s ou muito graves, sempre direi que a percentagem é ínfima e há possibilidades de nem sequer haver relação de causa e efeito no caso em apreço. 

Temo bem que nisto, nesta súbita e arrebata precaução, haja muito de populismo e de “Maria vai com as outras”. Quem já anda a esfregar as mãos de contente é a habitual seita da conspiração, os negacionistas do covid e quejandos. As redes sociais, claro, na sua infinita balbúrdia ignorante, ajudam. 

A DGS deveria explicar a alegada gravidade dos sintomas e, de passagem, qual é a diferença entre as duas (sic) reacções portuguesas e as registadas na Europa. Ao não o fazer ajuda, e de que maneira, o pânico a instalar-se, a desconfiança a aumentar  e a histeria a ensurdecer o mais pintado. Arre!)

 

 

 

 

estes dias que passam 573

d'oliveira, 16.03.21

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Saída precária 2

dove c’è la Sinistra?

mcr 16 de Março

E vamos ao que interessa, ou seja à Itália da minha paixão desde sempre (mais do que a França mas menos do que Paris...). Eu cresci ou, melhor, fiz a minha adolescência com música de fundo italiana, ultrapassando o rock. Ninguém batia Domenico Modugno (“nel blu dipinto di blu") Marino Marini (Marina) ou Renato Carosone (“tu vuó fa l’americano”) e tutti quanti que se lhes seguiram. No capítulo do cinema reinava o extraordinário neo-realismo italiano, as comédias (nunca esquecer Totó!, nunca, jamais, de forma alguma...), uma plêiade de autores que seria ocioso referir, tantos foram eles, e uma multidão de romancistas (Vitorini, Silone, Zavatini – ah, “os pobres são malucos”-, Calvino, Pavese, Sciascia, Pratolini, Malaparte e Svevo, iluminados por dois Nobel de literatura (Quasimodo e Montale ), 1959 1975, e por vários que o mereciam  (Lampedusa, claro, ou Saba).

Tudo isto emoldurado pela História truculenta do fascismo e da resistência a essa lepra, um partido comunista “fora da caixa” sobretudo com Berlinguer (mas também, um pouco. com Togliatti, um dos raríssimos kominternianos intervenientes na guerra de Espanha que escapou às purgas stalinistas)  e, mais tarde, uma extrema esquerda alucinada, violentíssima, criminosa, que ainda hoje deixa rasto na memória de quem, como eu, conheceu gente do Potere Operaio, por exemplo. Lembro-me de ter traduzido, entusiasmado, o “Manifesto per il comunismo” (que depois com amigos roneotipei em cerca de dois quarteirões de exemplares e distribuí tão clandestinamente como foi possível. Conheci alguns dos grandes tenores dessa fracção: Luigi Pintor, Luciana Castelina e Rossana Rossanda (que morreu há poucos meses, apagada pelo turbilhão da pandemia).

O partido comunista italiano, os diversos partidos socialistas que coexistiram, uma poderosa central sindical, com líderes que conseguiam ter luz própria e uma legião de intelectuais que não eram “a voz do seu dono” (como, por exemplo, em França) cresceram e atingiram o seu maior desenvolvimento graças a esta multifacetada sociedade, a esta extraordinária cultura que, num Estado fraco mas regionalmente forte e rico e original pareceram poder ser o farol de um outro socialismo que aceitava matizes, aliciava católicos (a via emiliana) e dava as mãos a uma classe média “burguesa mas progressista” que tornaram Bolonha e a sua região um laboratório notável e atraente.

O final do século XX e, sobretudo, estes anos 2000, arrasaram os cinquenta anos anteriores, varreram partidos desde o PCI à DC passando pelo PS. Nada ficou de pé  e hoje é o que se vê ou viu. Um ricaço amador de vedetas jovens e exuberantes, um palhaço que se pensou político e os netos do Duce, ou, melhor, da sua caricatura.

Contra esta gente já só aparece a barreira dos técnicos politicamente neutros ou quase.

C’ è dove, la sinistra?  Magari, nel blu dipinto di blu...

 

(ao citar os Nobel de literatura italianos, limitei-me a dois que fazem a fronteira da minha vida política mais activa. Poderia de certo modo juntar-lhes Dario Fo cuja encenação e montagem do extraordinário espectáculo “Ci ragiono e canto” (1964 ou 66), logo passada a disco (existe o cd), me impressionou muito.)

na vinheta: fotograma do filme “No c’è pace tra gli ulivi” (não há paz entre as oliveiras), 1950 de Giuseppe de Santis. Vi este filme, no cinema Peninsular, Figueira da Foz e teria talvez 11/12 anos. Fiquei impressionadíssimo e ainda hoje me lembro de partes. Na altura a crítica dividiu-se entre considera-lo um manifesto do neo-realismo ou um filme falhado por ser individualista... Para mim, faz parte da minha cinemateca ideal e demorei anos a procura-lo mas finalmente consegui-o. E ainda o não vi de novo!...

 

estes dias que passam 572

d'oliveira, 15.03.21

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Saída Precária 1

A Primavera a chegar

mcr 15 de Março

 

Ai meus amigos e leitores generosos, aviei dois cafés ao postigo e o sr. Luís, que já é, e de há muito, um amigo, serviu-mos principescamente em chávena, com copo d água e tudo.  “Daqui a 15 dias já terei a sua mesinha cá fora”. - “Deus o oiça, sr. Luís, Deus o oiça”.

Esperemos que os imbecis do costume não deitem tudo a perder, como ocorreu há uns meses. E que o Governo cumpra, uma vez por todas, com os seus imperiosos deveres que são os de planificar criteriosamente, reprimir vigorosamente, organizar competentemente a toma de vacinas, o rastreio, a testagem em massa.

Se assim for, o quarto pastorinho, o de Belém, nõ terá mais remédio do que apoiar a acção governativa. É ao Governo que compete o comando da luta anti-pandemia. Ao Governo, repito e a função do Presidente da República será a de ajudar, aconselhar, prevenir. E já é muito, e louvável, trabalho.

O frenesi presidencial terá de se limitar às funções constitucionais que não são poucas nem de somenos. Ponto final, parágrafo!

E já que de presidentes falamos, detenhamo-nos no caso Lula da Silva pois, pelos vistos, circula por aí muita confusão. Em primeiro lugar o Supremo Tribunal não se pronunciou sobre o mérito da causa mas apenas, e já é importante, sobre um par de formalidades. Em resumo, parece que o Tribunal de Curitiba não tinha competência. As acusações mantém-se, os julgamentos poderão eventualmente seguir-se e não ficou provada nem a inocência nem a culpa de Lula.

Eu, jurista desmemoriado, nunca fui adepto dos juízes justiceiros. O único com que simpatizei foi com o lendário Roy Bean( cfr. o filme de John Huston com Paul Newman e a belíssima Jacqueline Bisset), um quase western delicioso e divertidíssimo.

O resto, italianos, espanhóis, brasileiros ou até uns vagos portugueses, merecem-me uma forte antipatia. Dito isto, não gostaria de deitar fora, com a água do banho, o menino que se lavou. Quero com isto dizer o grande pecado de Sergio Moro foi não só o seu pendor justiceiro mas a sua ambição política. Que diabo, ser ministro de uma aventesma como Bolsonaro, está como se dizia no meu tempo de caloiro, dez pontos abaixo de cão e cinco de caloiro!...

Fui, durante bastante tempo alguém que simpatizava com o ex-metalúrgico Lula mas o “mensalão” tirou-me qualquer espécie de ilusões sobre a personagem.

É impossível ser-se Presidente do Brasil e ignorar-se as façanhas obscuras de José Dirceu, ministro da Presidência) um homem de confiança que se dedica a comprar lealdades entre amigos e adversários.

José Dirceu, assumiu sozinho as culpas mas não há ninguém, repito ninguém, que, no íntimo, não suspeite de Lula, tanto mais que eram o seu partido, o  seu governo e as suas propostas, os únicos beneficiados.

A isto, acrescentou-se mais tarde o “Lava Jacto” mas a raiz estava naquele obscuro e milionário negocio de comprar de deputados de outros partidos.

Eu sei que estou a referir algo ocorrido há mais de 15 anos e enterrado, convenientemente enterrado, desde há muito. Não pretendo com isso, desculpar os corrompidos, sequer dar razão aos que, cavalgaram a onda e com um virtuoso e frágil ar de pureza enterraram o PT e os seus mais conspícuos dirigentes. Em boa verdade, um populismo enterrou outro e resultado é o que se vê: uma múmia paralítica e ignorante, vagamente militar, a governar, desgovernando, um país que está no primeiro lugar destacado quanto a vítimas mortais diárias do covid.

Portanto, e como também se dizia no meu tempo de estudante, “Calma no Brasil que o Algarve ainda é (será mesmo?) nosso!”

E por hoje é tudo, pois, no primeiro dia de “saída precária”, acho que mereço outra escapadinha à esplanada semi-aberta, semi-encerrada para mais uma bica.  E que bem me vai saber!

* na vinheta: Um ícone brasiileiro que na realidade era português: Carmen Miranda, natural de Marco de Canavezes, terra de um companheiro de blog  que muito estimo.

 

NOTA: um leitor ABM teceu um comentário interessantíssimo sobre o meu posta "amrica, américa". quando quis, como faço sempre, responder, não consegui pois entretanto respondera a um outro leitor Zé Onofre a quem dou as boas vindas (e dispare sempre nem que seja contra ap rópria sombra como o Lucky Luke)

Em suma, ABM repara que a eleição de Biden correspondeu a uma espécie de "tudo menos Trump". É e não é verdade. Seria diminuir a democracia pensar que tudo se resumiu a um espasmo de vómito. Biden tem luz própria, o Partido Democrata existe e a gigantesca competição eleitoral, com números nunca vistos trouxeram à luz do dia concepções antagónicas mas reais e pré-existentes na democracia americana. 

Os democrayas tiveram, nas primárias, um leque enorme de escolhas e foi preciso muito tempo, muita discussão, muito comentário para as coisas começarem a secidir-se a favor do candidato que dava ao mesmo tmpo mais garantias de vitória (e isso é importantíssimo) e conseguia conciliar polítias muito diferentes. Não foi por acao que Bernie Sanderts, um dos primeiros a sair da corrida expressamente "entregou" os seus votos a Biden (ao contrário do que tola  e erradamente não fez com a senhora Clinton. atirando para a abstenção muita gente que, com o seu voto poderia ter evitado Trump. 

Não vou comentar mais um trsto que não consegui abrir totalmente mas cá estou, como sempre, pronto para ouvir e ler interessadamente o que os meus leitores, e espcialmente ABM quiserem dizer. Até os poderei publicar na íntegra pois isso só enriquece este blog e melhora substancialmente a minha intervenção nele. Até lá, um braço, ABM e não deixe de discutor comigo. Só me pode melhorar se é que eu ainda consigo melhorar....