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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 561

d'oliveira, 04.03.21

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Os dias da peste 193

medalhas para todos?

mcr, 4 de Março

 

O Sr. Presidente da República vai, até ao 50º aniversário do 25 A, condecorar todos os militares “de Abril” que participaram no golpe.

Assim, a secas, a notícia vale o que vale mas não clarifica exactamente quem será condecorado.

Por exemplo, os revoltosos das Caldas da Rainha cuja acção antecedeu e, de certo modo, preparou os espíritos para o que um mês depois ocorreria, estão no lote?

Quando se fala de militares a quem é que nos referimos? Aos oficiais do quadro? A esses e aos milicianos? Também aos subalternos ?

E os soldados, os galuchos, enfim o grosso da tropa que aceitou marchar?

Ou, por serem muitos, por não serem ilustres, não merecem a comenda?

Não vou, agora, inquirir se serão englobados os militares das três frentes de batalha que, longe da metrópole, imediatamente secundaram (e boas razões tinham) o pronunciamento. De todo o modo, seria bom saber exactamente tudo isso , porquanto imaginemos que os comandantes chefes, a oficialidade e, sobretudo, as praças – sempre os mais sacrificados- se recusavam a acatar as ordens de Lisboa e da Junta de Salvação Nacional?

Os treze anos de guerra, a vida no “mato”, as privações normais desse afastamento de qualquer cidade ou simples vila tiveram resultados temíveis. Não era apenas a morte à espreita, a lonjura, as más notícias diárias, o facto de um número considerável de soldados estar longe da família, perdido no sertão a combater uma guerra que mal compreendia. Ainda hoje, o stress da guerra afecta gente da minha idade, mais velhos e mais novos. Houve um milhão(no mínimo) de jovens que perderam a frescura e a juventude naqueles lugares duvidosos.

Em sequer vou referir os mortos, os feridos ou os psicologicamente abalados. Mas tudo isso, toda essa gente, deu “o coiro ao manifesto” e o país convenientemente amnésico. Abalado pelas discussões recentes (que curiosamente só tem como actores pessoas que não viveram esse tempo, muito menos a guerra, sequer o regresso das colónias a fuga desordenada e, muitas vezes a falta de solidariedade dos residentes na metrópole que não viram com bons olhos a multidão de refugiados que subitamente lhes caiu em cim), muits desses ex-combatentes calam o que viram, o que passaram, refugiam-se nos ansiolíticos, na droga, no álcool, no rancor.

Não faço parte do pequeno grupo dos que apontam à tropa e especialmente ao corpo de oficiais de carreia todas as responsabilidades decorrentes do 28 de Maio e o Estado Novo.

Mas foram eles a guarda pretoriana do regime, aguentaram-no durante dezenas de anos e, nas condições de feral mediocridade nacional foram uma classe privilegiada. A guerra que eclodiu nas colónias depressa os desencantou e os cansou.

Mas as baixas, essas, atingiram sobretudo os soldados, os subalternos, os milicianos. Isto para não falar da chamada “africanização da guerra” ou seja do cada vez maior recurso ao uso de tropas negras que, mesmo hoje, são escondidas debaixo do tapete da “história” pelos “anti-racistas” que fazem de conta que nada disso existiu...

Ou que se reduziu a uma ínfima minoria de pretos maus (quase brancos), exactamente o contrário de umas elites guineenses, angolanas e moçambicanas que, como é visível, só querem o bem estar dos seus compatriotas que governam com total respeito pela democracia e pelos direitos humanos.

Voltando à vaca fria: o cinquentenário será se não erro em 2024. Três anos de “medalhanço” portanto. Chegará para todos ou ter-se-á que esperar pelo centenário para atingir os que faltarem?

 

     

  

estes dias que passam 560

d'oliveira, 03.03.21

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Os dias da peste 192

Há leitores de luxo

mcr,3 de Março

 

Há dias deixei aqui um pequeno testemunho sobre Lourenço Marques, cidade onde fiz o 2º ciclo dos liceus. Por qualquer razão, terei feito uma pequena incursão histórica e citado um excelente historiador da cidade e de Moçambique, Alexandre Lobato a quem, por mera, mas burra, distração rebaptizei de André!

Um leitor atento, veio retificar esta toliçada e, de caminho, relembrar dois outros historiadores, A Rita-Ferreira e Alfredo Pereira de Lima.

Sobre este último, confidenciei-lhe que não estava tão representado na minha biblioteca como os outros e que até tinha uma obra dele, manca de um dos seus três volumes (“História dos Caminhos de Ferro de Moçambique”, ed. Da Admao dos portos, caminhos de ferro e transportes de Moçambique, 1971).

Ora o meu solícito e amável correspondente respondeu-me na volta do correio , oferecendo o exemplar em falta (1º vol) pois o tinha repetido.

Fiquei maravilhado pois mesmo se eu passe a vida a oferecer livros repetidos que, por descuido, comprei, não é usual conhecer pessoas com iguais hábitos.

Confesso que até já pensei em publicar a lista de repetidos oferecendo a quem quiser ter o trabalho de os vir buscar. Não é generosidade mas apenas uma tentativa de arranjar espaço para outros livros que incessantemente vão entrando.

Por exemplo, um primo meu aceitou receber (e “estimar”...) a colecção completa dos JL publicados desde o 1º número. Estão encadernados por ano e à medida que vou mandando encadernar o último ano completo, lá segue ele para o seu novo proprietário. Deste modo, mantenho-me a par do que vai saindo e despacho numa só vez um inteiro ano de publicação.

Encadernado e pronto a consumir! Não se pode pedir mais.  Ou propondo-os à troca, coisa mais complicada dados os meus gostos actuais.

Tenho mesmo uma lista de amigos a quem vou dando livros. O primeiro de todos era o Manuel Sousa Pereira, escultor viciado em leitura e cinema que ia a todas. Agora já não está e, até nisso, faz uma falta danada.

Costumo dizer que não sou um coleccionador de livros mas apenas, e já me chega, um leitor. Todavia, há autores que, de tanto os apreciar, fui comprando tudo o que els publicaram (Stendahl, Casanova, Prévert, Rabelaus, Helder, O’Neil, Eça, Voltaire, um largo número de surrealistas de toda a parte mas sobretudo franceses, e mais umas dúzias que seria ociso mencionar. E não me fico pela “literatura” dita “séria mas acrescento-lhe uma boa dose de autores policiais desde os eternos Chandler e Hammett até ao Caileri e ao San Antonio esse prodígio da criação de palavras novas e divertidas em França.

Quando o comecei a ler, por indicação de um amigo da Sardenha que conheci em Berlin no Goethe Institut, San Antonio (Frederic Dard) era considerado literatura de 2ª ou 3ª . Com o andar dos anos, começaram a reparar na sua prodigiosa criação de palavras e expressões, na transformação do argot e toca de saírem teses e mais teses universitárias sobre o homem. Se bem recordo, o autor não se emocionou demasiadamente com a glória académica e continuou tranquilamente o seu caminho amparado por uma multidão de leitores (eu incluído) que não perdiam um novo título.

Sic transit...

Na vinheta: os meus dois volumes da História dos Caminhos de Ferro... e a estante dos livros de Lobato. Por cima fica a dos livros de Rita-Ferreira mas não coube na imagem.

 

(Ao amável ofertante convinha que me indicasse a s/ direcção pois descobri aqui alguns títulos que lhe poderão interessar. Logo que tenha notícias enviarei a minha direcção...)

 

O Norte e o Plano de Recuperação e Resiliência

José Carlos Pereira, 02.03.21

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Acima da discussão sobre se o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) reserva demasiado dinheiro para o sector público em detrimento do privado, creio que se deve questionar como vai o mesmo ser aplicado de forma equilibrada no território nacional.

Por isso, fizeram bem os autarcas da Região Norte e a própria Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte em reivindicarem para a região um papel relevante na gestão de uma fatia do PRR que corresponda ao peso que o Norte representa na população, no PIB, no emprego e nas exportações.

estes dias que passam 559

d'oliveira, 02.03.21

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Os dias da peste 191

Alguém anda a fazer caixinha!

mcr, 2 de Fevereiro

 

Faço parte, sabe-se lá com que mala gana!, do grupo de portugueses sofridos que tem cumprido as regras que o Governo paternal e a DGS maternal lhes vão atirando para cima como quem atira ossos aos cães.

A imagem não é assim tão descabida porquanto é notória a convicção governamental de que. menos do que cidadãos, nós portugueses, não passamos de meros súbditos.

Basta ouvir o dr. Costa, o senhor Cabrita, esse mesmo o defensor estrénuo de emigrantes, e a srª ministra da saúde que nos metralha dia sim dia não com verdades como punhos e seguramente pensa que somos todos parvos. (ainda agora, repetiu que sendo ela como é uma pessoa responsável e pronta a assumir todas as responsabilidades do que se passou desde o Natal, logo que se provar essa impossibilidade de ter sido o Natal a principal fonte do desastre, ela “assumirá”. Entretanto vai atirando aos paisanos com o frio invernoso de Janeiro, a variante inglesa e todas as que aparecerão para provar que não foi o descaso da opinião dos cientistas e o oportunismo popularucho natalício o que provocou a hecatombe a que se assistiu.

Esta gente é assim, continuará a ser assim, só faltou culpar (mas lá chegaremos!) o governo de Passos Coelho de tudo o que o vírus fez e mesmo do vírus...

Parece, é a PSP quem o afirma, que no fim de semana quatro milhões de portugueses saíram à rua. Tantos? De certeza? Quatro milhões é quase meio país, que diabo. Como é que a solícita policia chegou a um número tão grande e tão redondo?

As televisões não mostraram nada que se parecesse com esta avalanche de cidadãos ávidos de sol, se sal e de sul. O número de autuações de onde eventualmente se poderia extrapolar o de pessoas a circular não dá, nem de longe, para tais resultados.

Eu, quanto a números policiais estou habituado a vê-los assim: se é uma manifestação contra os poderes estabelecidos, a polícia atira para metade e os manifestantes para o quádruplo. Os jornais mais sérios tentam calcular as multidões fazendo conta aos metros quadra ocupados. De nada serve esta precaução porque cada lado reivindicará o seu número e, meia dúzia de dias depois, tudo isto há passou...

Todavia, volto aos quatro milhões para perguntar se esse número não deveria fazer o nosso paternal pastor Costa e o não menos paternal e meu homónimo Presidente reflectirem na hipótese de, pelo menos, deixarem cair algumas pérolas da sua gigantesca sabedoria sobre, por exemplo, que critérios há e afinados para a 11(onze?) de Março nos virem revelar os limites a um pequeno desconfinamento.

Comecemos pela criançada. O meu neto Nuno Maria, três anos feitos e perfeitos, chora baba e ranho pela sua escolinha, pelos amigos que já não vê há que tempos. O meu sobrinho neto Gil, um pouco mais velho e bastante mais longe, está na mesma.

Os alunos dos primeiros ciclos além de sofrerem o mesmíssimo mal, tem aulas arrevezadas, e pior, nem todos tem a mesma oportunidade de as ter e de as aproveitar. Os famosos computadores que inundariam o país ou, pelo menos, a multidão jovem, não chegam ou só chegam às pinguinhas. Se essa velocidade de fornecimento se mantiver nem para 2023 estarão cá todos.

Não vou sequer referir os restaurantes, os cafés, os pequenos comércios de rua, os barbeiros e assimilados, que por este andar correm mais depressa para a falência do que para uma qualquer reabertura. E refiro estas pequenas e micro empresas porque são uma enorme maioria e podem – como já se viu, antes- manter os seus serviços com “distância social”. A proibição de serviço ao postigo para “afastar multidões” sedentas de café, de galões, de bolos e outros mimos, foi das coisas mais burras que já vi decididas. Vamos pagar tudo isso, em falências, desemprego, logo que acabem as moratórias, os lay-off e os expedientes que se tem usado para manter as coisas dentro de um certo controlo. Só vejo, sempre na televisão, gerentes de empresas a afirmarem de cara descoberta e identidade estabelecida que as “ajudas” ainda não chegaram. Das duas uma: ou mentem e há que processá-los duramente, ou dizem a verdade e, nesse caso, há que perguntar o que fazem as “autoridades”.

Dirá algum/a leitor/a que estou de má fé, que tenho uma pedra no sapato contra o Governo ou que sou um saudoso do anterior. Lamento informar que há por aqui mais de cinquenta textos contra Passos Coelho & companhia, e tenho-me como pessoa de boa fé, demasiada boa fé. Lá quanto à pedra no sapato não a escondo. Bastaria este ano que passou para ter não uma mas uma dúzia de calhaus duros contra algo que corre atrás dos acontecimentos, que não ouve atempadamente quem devia, que nem sequer imita os bons exemplos lá de fora, por prosápia, ignorância ou toleima, que governa como quem navega à bolina e, sobretudo, não decide ou decide tarde e a más horas. Neste exacto momento já deveríamos todos saber quais os critérios que permitirão sair do confinamento ou continuar nele. Também os cidadãos individualmente tem planos, projectos, algum esfarrapado sonho e precisam de saber o que podem ou não podem fazer, amanhã, daqui a um, dois, três meses... E não estou a falar de férias, praia, viagens (e se falasse não seria um despropósito... ) mas de decisões económicas, por exemplo.

Não são apenas umas dezenas ou centenas (e que fossem muitos milhares) de empresas, de organizações de vária ordem, de sindicatos ou de partidos, que precisam de acertar a agulha, somos muitos, muitos mais que ainda por cima seremos essenciais para uma saída da crise tão airosa quanto possível.

Este jogo de escondidas, se jogo é e não simples impotência, não pode continuar.

Não deve continuar.

Basta olhar para a restante Europa, ver meia dúzia de noticiários ao calhas para perceber que, se as dificuldades são muitas, as possibilidades de tentar uma solução também o são. Basta passar pelo escrutínio dos cidadãos.

Dos cidadãos. Nunca dos súbditos!

Isto não é, não pode ser, mesmo que o pareça, o jogo da cabra cega! (cfr vinheta)

 

EStes dias que passam 558

d'oliveira, 01.03.21

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Os dias da peste 190

“feminismo e feminismos”

mcr, 1 de Março

 

Há assuntos que me chamam a a atenção mas em que só pego com pinças. Ou porque não são a “minha praia” ou porque para evitar interpretações apressadas (coisa que está muito na moda da discussão em Portugal) teria de escrever muito mais do que um simples folhetim que se dedica sobretudo a tentar passar o tempo de confinamento obrigatório.

Todavia, um artigo publicado hoje no “Público” permite-se abordar, ainda que obliquamente, o tema do feminismo porquanto uma senhora socióloga concede uma longa entrevista sobre o tema.

Com um título pomposo: ”A ditadura (salazarista) tinha uma ideologia fortíssima que nunca foi posta em causa”

Claro que os títulos são da responsabilidade de quem entrevista, ou do editor e, portanto, não posso sem mais atribuir este à entrevistada.

Em boa verdade ela acrescenta que a democracia (leia-se depois do 25 A) nunca pôs em causa a herança “salazarista”.

Eu nunca tive qualquer espécie de simpatia pelo cavalheiro de Santa Comba Dão mas quando vejo que tudo lhe atiram para cima, fico irritado.

A História, sempre ela, mostra à saciedade que neste capítulo o dr. Salazar apenas seguia um forte tradição ideológica, ética, cultural e política com longos, longuíssimos antecedentes.

Em termos de política em relação às mulheres até, por ironia (e por respeito pela verdade) se pode dizer que foi ele, o ditador, quem, ao contrário da 1ª República, concedeu (limitados) direitos de voto às mulheres fazendo eleger meia dúzia de fervorosas partidárias suas para a Assembleia Nacional. Contrariamente, o anterior regime dito “democrático” não só proibia o direito de voto das mulheres mas, no único caso em que uma mulher, médica e chefe de família, votou numa eleição foi o congresso que solenemente lhe anulou o voto entretanto entrado em urna depois de um tribunal ter entendido que ela tinha direito a votar. Um lei de 1913 veio esclarecer que o direito de voto incumbia apenas aos varões. Está tudo dito.

Portanto, o velho e manhoso ditador (que na altura ainda era novo mas hábil) mereceria que, pelo menos, se lhe reconhecesse este avanço dos direitos das mulheres que bem lhe pagaram em cartas, milhares de cartas apaixonadas e em votos leais sempre que houve uma patética imitação de eleições parlamentares.

Recordo que, na Academia coimbrã, o voto para a direcção da Associação Académica só foi “concedido” às mulheres já em fins de quarenta. Por uma Direcção Geral democrática (ou republicana como então se dizia). O resultado foi surpreendente. Até à eleição de Carlos Candal (1960) nunca mais a “esquerda”, os “democratas”, os “do contra” ganharam eleições. As raparigas votavam em formação cerrada na “situação”.

Quando cheguei a Coimbra ainda persistia esta fidelidade feminina à causa da “reacção”. Nas Assembleias Magnas, eternizavam-se as discussões para esperar que os batalhões femininos vindos dos lares tivessem ordem de marcha. Logo que as raparigas partiam, era um ver se te avias de votações onde, mesmo assim, a nossa margem de êxito era curta.

E estou, que me desculpe a senhora socióloga, a falar de uma elite educada, de futuras médicas, professoras, farmacêuticas, engenheiras ou advogadas!

Curiosamente, como venho de Buarcos, terra de pescadores, sempre vi as mulheres assumirem o governo da casa. Ou porque os homens estavam no mar durante meses (os do bacalhau) ou porque, mesmo vindo para casa todos os dias, era a mulher que tinha de se desenvencilhar. Um dos meus tios por afinidade, filho de pescador e professor do ensino secundário, ainda entregava à mulher o seu ordenado na íntegra, ficando apenas com o do o café e do tabaco. Era a minha tia quem governava as finanças da casa. Mesmo que eu suspeite que o meu tio (uma criatura excelente e um homem cultíssimo) o fazia para não ter trabalho, a verdade é que as coisas eram assim mesmo. Havia também o álibi dele ser doente do coração mas convenhamos...

Sobrevivente que sou dessa época tenho bem presente a enorme mudança que a guerra trouxe à sociedade portuguesa no domínio da feminização de grande número de profissões, mormente as industriais. Como a socióloga reconhece, a guerra mobilizou para a frente interna do trabalho dezenas ou centenas de milhares de mulheres que substituíram os soldados e os emigrantes que abandonaram o país para ir buscar melhor vida na Europa. E também eles eram uma multidão imensa, primeiro os homens, depois, anos depois, com os maridos já precariamente instalados, as mulheres e os filhos.

Esta dupla falta de braços masculinos teve outra e boa consequência. As condições de trabalho, sobretudo a remuneração melhoraram mesmo se isso se obtivesse, e não poucas vezes, com movimentos reivindicativos. Digamos que as mulheres trabalhadoras portuguesas no espaço de uma geração (ou em menos, até) entraram no mercado do trabalho e adquiriram alguma consciência política.

Curiosamente, também as lutas estudantis, as crises de 62 sobretudo a de 69 em Coimbra despertaram para a trincheira dos direitos democráticas cada vez mais mulheres. É minha íntima convicção , e não me canso de o dizer que metade, pelo menos, da responsabilidade pela luta vitoriosa de Coimbra se deveu às raparigas.

Nove anos de direcções democráticas da AAC e, também – e muito! – o forte afluxo de raparigas à universidade transformaram quase radicalmente a situação. Tudo isto sem esquecer a situação política nacional e internacional, a crescente informação e as movimentações de jovens na América e na Europa.  

Todavia, como a senhora socióloga sugere, nem assim se fechou o fosso de desigualdade de género que ainda hoje é visível na clara diferença de remuneração a que se assiste em variados sectores. Ou na divisão do trabalho doméstico.

Mas também aqui não é contra quarenta anos de “noite fascista” que se luta mas sim contra vários séculos de existência como país, contra costumes ancorados, enraizados fortemente e que se reproduzem também devido às mães dos senhoritos que por aí medram viçosos.

E, presumo eu que nisto já vi muito, a coisa está para durar. Mas, também é verdade, que o caminho, como dizia Machado, se faz caminhando.

Citando, também obliquamente, a actual prémio Nobel da literatura, Louise Glûck

Não posso continuar

a limitar-me a imagens

Só porque pensais que tendes direito

a contestar o que quero dizer

Estou finalmente preparada para impor

entre vós a claridade

A VINHETA: EU QUERIA PÔR UMA FOTOGRAFIA DA FERNANDA DA BERNRDA, DIRIGENTE DA AAC EM 1969 , MUINHA AMIFA E MINHA EX-SÓCIA DE ESCRITÓRIO DE ADVOGADOS. RAZÕES QUE DESCONHEÇO LIMPARAM-LHE A IMAGEM DA INTERNET, OU ENTÃO SOU EU QUE SOU UM NABO.

DE TODO O MODO, ESTE TEXTO VAI-LHE DEDICADO E, AO MESMO TEMPO, A TODAS AS RAPARIGAS DE 69 EM COIMBRA. YINHAM TUDO, JUVENTUDE, CORAGEM, INTELIG^NCIA, BELEZA E ENTUSIASMO. SEI DO QUE FALO POIS CASEI COM UMA DELAS, SOU AMIFO DE MUITAS E CONRINUO PERDIDO DE ADMIRAÇÃO POR TODAS

(DESCULPEM AS MAIUSCULAS MAS DEVO TER FEITO UMA ASNEIRA E NÃO CONSIFO DESFAZÊ-LA.)  

 

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