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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

estes dias que passam 591

d'oliveira, 05.04.21

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Liberdade condicional 1

A procura constante da unidade

mcr, 5 de Março

 

o título é suscitado pelo último artigo (hoje) de Rui Tavares que, em teoria e por escrito, é m paladino da unidade da “Esquerda”. Começo por pôr Esquerda entre aspas porque há certas “esquerdas” que copiaram das piores “direitas” algumas características detestáveis, a saber, a existência de um partido único e consequente proscrição de todos os restantes; a estatização completa da economia; a ditadura (do proletariado – se é que ainda existe um proletariado que se pense e reconheça como tal ou de outra classe, ou ainda de algo que finge ser a harmoniosa união de todas as classes); a vigilância acentuada de toda e qualquer forma de pensamento exterior ao oficial; a unicidade sindical e deslegitimação de outras formas de organização dos trabalhadores etc.

Poder-se-ia ainda referir a omnipresença e omnipotência de um “aparelho” partidário fora do qual não há possibilidades de propostas legais, sociais ou políticas, aparelho esse que, ciclicamente é alvo de purgas sejam elas a noite das facas longas ou as famosas “depurações dos elementos anti-partido.

Pelos vistos nada disto ´importante para retirar um (ou vários) partido da lista celestial de bem aventuranças esquerdistas.

Todavia, há mais: Rui Tavares não me parece ser o melhor defensor dessa pulsão unitária que apregoa nos seus textos. De facto, e que me lembre, foi deputado europeu pelo BE mas durou pouco essa “unidade”. Por razões confusas mesmo se muito louváveis, RT tornou-se a meio do mandato, deputado independente o que, num sistema como o que entre nós vigora, é, pelo menos, bizarro. Os deputados portugueses, seja para a Europa seja para a AR são obrigatoriamente apresentados pelos partidos, dependem da votação global nos partidos e não respondem perante os cidadãos eleitores.

Depois, Tavares criou um partido, ou algo do mesmo género e vaga substância que, também tem conhecido as suas dissidências e exclusões voluntárias ou forçadas. Este partido, “Livre” de seu nome teria sido fundado para unir, lutar pela união das Esquerdas. Não uniu, os outros pouco ou nada deram por ele e a própria prática partidária parece ser pouco consentânea com esse desejo unitário. Em poucos anos de existência, o Livre parece condenado a desaparecer do mapa político incluindo da AR onde meteu uma deputada que, valha a verdade, pintou a manta e desserviu entusiasticamente o partido a que deveu a eleição e a sua frágil fama.

A história da Esquerda mesmo sem aspas é a História de quase duzentos anos de projectos que nunca – mesmo se o pretendiam – conseguiram unificar o povo, as classes laboriosas, as elites revolucionárias ou os simples partidos. Internacionais houve três, ia a dizer quatro mas a trotskista parece evaporada, a 3ª desaparecida com o muro de Berlim e o posterior naufrágio da URSS, a 2ª (a socialista é uma respeitável instituição que faz que vive mas não vive, antes vegeta e a primeira morreu de morte natural ou nem isso.

Os partidos socialistas apareceram e desapareceram (em Portugal vamos no segundo), foram vítimas da 3ª internacional onde as cisões dos velhos partidos sociais democratas foi levada a cabo com uma violência doutrinária que hoje parece inacreditável (na implantação do pc francês havia uma cláusula que excluía peremptoriamente o neto de Marx!!!) e os primeiros anos do Komintern foram marcados pela luta contra os socialistas (o famoso slogan alemão: Klasse gegen Klasse!) e, quanto à autonomia dos partidos comunistas nacionais, a coisa chegou à caricatura de tal modo os enviados pelo Komintern criavam aparelhos clandestinos de controle das direcções partidárias nacionais, todos de obediência absoluta ao PC(b) primeiro e ao PC da URSS depois.

Não insistirei na questão da depuração interna, mesmo se ela custou milhões de vidas, nem na crise sino-soviética dos anos 60 e seguintes que deu origem a mais uma longa teoria de dissidências que, por sua vez se multiplicaram (em Portugal, contas mal feitas terão existido pelo menos cinco partidos ou proto-partidos “maoístas”, batendo assim os dois –ou três- agrupamentos trotskistas hoje finados).

A História da 1ª Internacional poderia ser feita a partir de textos avulsos de Marx e Engels, para não falar noutros autores que em artigos, opúsculos e livros atacavam com grande vigor as teses de adversários   enquanto defendiam as próprias posições. Lenin, mais tarde, também deitou o seu par de achas para a fogueira, antes de tornar autónoma a fracção bolchevique do POSDR. 

Faz falta, ou porventura existe, um dicionário de todos os teóricos importantes internacionalistas se é que uma obra desse teor se poderia fazer sem esquecer ninguém. Algo que começasse em Proudhon e viesse até Jaurés ou Kaustky (o “renegado”) para apenas balizar uma história apaixonante e uma literatura partidária abundantíssima. E onde estivessem devidamente representados todos os grandes teóricos anarquistas que, por si sós são outra corrente poderosa e paralela à da ultimas internacionais.

 De todo o modo, RT d´pistas para reexaminar a impotência das “esquerdas” portuguesas que sobrevivem graças a uma outra maior e mais dramática impotência da direita conservadora nacional onde viceja o dr. Rui Rio, prova provada do desastre que atingiu esta ideia.

 

 

Para esclarecer alguma eventual dúvida: o facto de considerar inconstitucional a lei da AR e respectiva promulgação presidencial não afecta nem condena a justeza da defesa de sócios gerentes, trabalhadores a recibo  e outras vítimas da pandemia. Apenas quero significar que sem regras claras não há constituição que se aguente. A justiça, aprende-se nas faculdades de Direito, não elimina a segurança das relações jurídicas. E sem isso pode ser, e quase sempre é, uma arma de dois gumes- E sempre a favor de uns poucos contra a multidão dos mais fracos.

O resto, o TC decidirá e seria bom, óptimo que decidisse depressa.

*na vinheta: uma esplanada em Paris. Ai, que logo que isto passe estarei lá.

 

estes dias que passam 590

d'oliveira, 04.04.21

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Saída precária 21

“Demain fera beau...”

mcr, 4 de Abril

 

Roubo o título do folhetim a uma gravura belíssima de Rouault, um dos primeiros grandes pintores a que tive acesso “ao vivo”, isto é a uma exposição de obras suas. Já lá irão cinquenta e tal anos mas nunca mais me esqueci tal a força, a pungente beleza das gravuras.

Anos mais tarde, muitos anos, aliás, troquei uma máquina fotográfica pelo catálogo, um catálogo de 1952 editado pela Seuil e distribuído pela “Etoile Filante”.

Quer eu quer a outra parte contratante achámos que tínhamos feito um bom negocio mesmo se o catálogo acusasse a idade e estivesse manchado na capa enquanto a máquina estava nova em folha tendo apenas tirado um único rolo de fotografias.

Eu explico: numa ida a Veneza (a 2ª ou a 3ª) achei que teria de fotografar algumas das maravilhas ou cenas de rua vulgares (por exemplo um enterro) para futura memória. Comprei o maquinismo (caro, bastante caro mas, segundo o vendedor, simples, robusto e próprio para tornar uma pobre fotografia de amador principiante numa obra de arte) numa loja perto do Duomo e parti na minha primeira aventura fotográfica. Numa manhã radiosa como a de hoje despachei um rolo de 36 fotografias. E trouxe tudo para a pátria madrasta para uma loja conhecida onde se revelariam as 36 obras de arte.

Quando fui pelas fotografias, o lojista intrigado mas sarcástico pediu-me para lhe mostrar o meu método fotográfico. E eu, ingénuo e confiante, assim o fiz. Verificou-se que tirara 36 fotografias ao meu olho esquerdo com a objectiva virada para mim !!!.

Nunca mais peguei no perverso instrumento, ou melhor peguei nele para o trocar pelo catálogo. E durante anos desisti de me tornar um émulo de Doisneau, um fotógrafo amigo de Prévert e de que gosto muito.  

Nunca mais (ou quase) tirei fotografias às cidades que visito. Compro bons guias muito ilustrados ( a Gallimard editou alguns absolutamente imbatíveis, Veneza, Paris, Florença etc,. que são sumptuosos. E caros! E raríssimos.) E o mesmo faço com monumentos e museus.

Portanto, está explicado o negocio acima referido. Quanto à gravura o título completo é “demais il fera beau disait le naufragé”

Amanhã, pela fresquinha (quase de madrugada!...) irei ler o jornal e tomar a(s) bica(s) à esplanada do costume, na mesa do costume, frente a um jardim onde andarão eventualmente meninos e cães (entre eles um perdigueiro que usa uma espécie de lenço vermelho como gravata e que poderá ser o digno sucessor de um outro perdigueiro -"o perdigueiro doido"- de que aqui, há uns bons dez anos dei conta.

E iniciarei, nesta mesma rubrica uma nova série de crónicas a que já dei nome: “liberdade condicional”. E se tudo correr como espero, logo que me vacinar o folhetim passará a nomear-se “liberdade vigiada”. Vê-se que os vícios que apanhei na faculdade de Direito não foram todos convenientemente extirpados mas que querem, cada um é feito de influências e vícios que o não largam até à cova.

Hoje, almoçaremos com o Nuno Maria, pais e avó paterna. Seis ao todo, ligeira entorse às recomendações do ilustre quarto pastorinho que, nestas coisas cumpre à risca o que a sua frenética hipocondria lhe impõe. Nisto, ao contrario da lei fundamental não é especialmente criativo, se é que interpretar a constituição com liberalidade e liberdade excessivas se pode considerar criatividade. Enfim, em Portugal há muito que as palavras deixaram de ser o que eram e o acordo ortográfico fez o resto.

E boa Páscoa para todos. Demain il fera beau...

estes dias que passam 589

d'oliveira, 03.04.21

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Saída precária 20

Esperando pela segunda feira

mcr, 3 de Abril

 

Vai um bulício inusitado pelo nosso pequeno bairro. Os cafés e pastelarias preparam as esplanadas com força de mangueiradas, num afã de limpeza para ter tudo pronto. O Vlub 21 antecipou-se: a esplanada está montada, as mesas à distância conveniente, tudo pronto.

As lojas já tem as montras cheias de novidades primavera-verão, a porta entreaberta e uma imensa esperança de negocio.

É que foram três longos, penosos, tremendos meses. Ficaram por se fazer os saldos de inverno, as últimas trocas post Natal e  venda normal. E houve quem não resistisse. A cafetaria padaria mais moderna, a que tinha mais freguesia não aguentou um inteiro ano de encerramento. Há anúncios de aluguer, coisa que vai durar que investir neste momento não é para todos, sequer para alguns. No supermercado a zona de refeições está montada. Apenas uma fita vermelha previne os clientes que a coisa aonda não é para hoje. A senhora do “mercadinho” anuncia que volta a abrir aos sábados. Um dos cabeleireiros de senhora, fechou portas. Um anúncio avisa as eventuais clientes de que aquele estabelecimento com 45 ou 46 anos terminou a sua aventura. Também fecharam a galeria de arte, um loja deposito de máscaras sofisticadas e nada se sabe o restaurante de sushi que estava pronto a abrir em Dezembro passado.

De todo o modo, os clientes da “minha” esplanada andam risonhos. Segunda feira, ocuparão as suas mesas preferidas, frente ao jardim, beberão o café em chávena, poderão acompanhá-lo com um bolo ou uma sanduiche, o que lhes der na gana.

Numa palavra a primavera vai mesmo chegar. Há uma roda de velhas senhoras, e são quase uma dezena, que voltará a animar-se mesmo que se divida em várias mesas. Estas senhoras eram fieis  das manhãs tardias e algumas persistiram em aparecer para um café ao postigo. É o seu único momento de convívio fora de casa, a vida é curta, a delas mais ainda e estão dispostas a gozar a pequena liberdade que a vacinação eventualmente lhes trouxe.

(a propósito, a parentela mais velha começou, esta semana, a ser vacinada. Já não era sem tempo que todos eles, desde a minha mãe aos tios e primos, andam pelos garbosos noventa e tal anos! E já tem a 2ª dose marcada!!!)

 

ainda não deixaram de se sentir as ondas de choque sobre a decisão presidencial de promulgar as medidas que ultrapassam e ferem (e parecem inconstitucionais) o Orçamento aprovado pelo mesmíssimo parlamento que agora entendeu ir em socorro das vítimas da pandemia.

O Sr Presidente veio a terreiro dizer que “é o Direito que serve a política e não a Política que serve o Direito”. A frase é bombástica mas não tem ponta por que se lhe pegue. A política só é sadia se levada a cabo com regras e estas por muito bom coraçãozinho que se tenha, por muito espírito pascal que haja, não podem ser modificadas a todo o momento. O Sr Presidente pode querer conquistar um lugar no Céu e sentar-se à esquerda de Deus Padre quando deixar este vale de lágrimas. Por isso, e sem ofense, costumo dizer que S.ª Ex.ª é o “quarto pastorinho”  (de Fátima ou da Ladeira, ou de Lourdes ou de qualquer outro ignoto sítio milagreiro...)

Todavia a santidade tem muito pouco a ver com o Direito Constitucional e oa constituição não é exactamente um ponto de exame com a possibilidade de respostas múltiplas.

Se S,ª Ex.ª queria bondosamente a felicidade dos seus “súbditos” (eu disse súbditos e não cidadãos; levam a constituição a sério e  não podem ser atordoados com frases sem sentido mesmo se muito bonitinhas) enviava o texto para o TC com uma mensagem a fundamentar a sua interpretação. Tal não seria ilegal e S.ª `Ex.ª farta-se de dizer o que pensa mesmo se isso belisca outra competências.

É bem verdade que os segundos mandatos presidenciais são sempre muito complicados. Um mandato de sete anos e único resolveria muita coisa mas isso é, também, com um parlamento e com as criaturas que o infestam e se sentem bem com uma constituição prolixa e profundamente afastada das gentes.

 

Resta-me desejar a todos um bom domingo. Para os meus leitores cristãos (quem me dera que fossem uma multidão, desejo sinceramente uma verdadeira Páscoa que é a grande data e a grande festa dos crentes. E a grande promessa, também.

* na vinheta : celebração da missa de Páscoa na Rússia. Só para recomendar a quem não conheça essa beíssima peça musical que é a "Grande Páscoa Russa" de Rimsky Korsakov. Imperdível!

o leitor (im)penitente 210

d'oliveira, 02.04.21

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Saída precária 19

De regresso a Coimbra

mcr, 2 de Abril

 

 

Melhor dizendo: de regresso às primeiras leituras coimbrãs. De facto, ao que líamos nos primeiros anos sessenta, antes da descoberta do surrealismo.

Cheguei a Coimbra em finais de 1960, com uma curiosidade sem limites e uma fúria leitora temível. Mergulhei quase sem me dar conta nos neo-realistas sobretudo por causa da “Vértice” revista que (com a “Seara Nova”) comecei imediatamente a comprar, até me tornar assinante.  Na verdade eu já vinha com leituras de italianos (Pavese, Ptatolini, Vitorini, Silone) que, com Erich Maria Remarque, Steinbeck, Caldwell e Richard Wright, foram os primeiros agentes que me politizaram.

Mas foi em Coimbra que descobri fundamentalmente os poetas neo-realistas e depois, ou juntamente os romancistas da mesma escola.

Já aqui referi a presença fortíssima do Joaquim Namorado (e também do Torga...) que rapidamente conheci e comecei timidamente a frequentar. Daí o meu interesse pela edição de “Aqui estamos lado a lado, como sempre. E assim continuaremos. (Joaquim Namorado e Mário Dionísio: correspondência)”, uma edição conjunta de “Casa da Achada/Centro Mário Dionísio” e “Lápis de Memórias” com apresentação e notas de António Pedro Pita.

Ainda não acabei de ler o livro mas não posso, não quero e não sei conter o meu entusiasmo. Em primeiro lugar pelo que ele significa de homenagem a dois intelectuais de primeira água, corajosos, autênticos e honrados que, de certa maneira, são duas traves mestras do movimento literário e artístico que com impressionante força eclodiu e se desenvolveu fundamentalmente a partir de fins de trinta e continuou a ser uma espécie e bússola até meados de sessenta. Dizendo melhor, uma das bússolas de uma literatura (a portuguesa) que sob múltiplas formas nunca se conformou com o Estado Novo. Há umas largas dezenas de artistas e escritores que, mesmo de outras escolas (e lembro especialmente, os surrealistas  ou os presencistas) se notabilizaram pela sua recusa e resistência. Porém, o neo-realismo apresentou-se combativo, intransigente e obviamente inspirado pelos ideais da 3ª Internacional, melhor dizendo, pelo comunismo. Daí, porventura, a sua capacidade atracção que perdurou muito além da 2ª guerra, do MUD juvenil, e se estendeu à campanha Delgado e à construção do movimento associativo estudantil.

Portanto, comunistas e “compagnons de route”, “lado a lado”, partilhando muita “incomodidade” (um título de Namorado) uma infinidade de “dias cinzentos” (outro de Dionísio).

Foi essa uma das minhas escolas, não a única, felizmente, mas, eventualmente, a principal. Nunca militei no PC, nunca tal me passou pela cabeça, mas ombreei com os seus militantes em tudo o que era levantar a grimpa e lutar contra o Estado Novo.

E foi assim que num ano li todos os poetas do novo cancioneiro, aprendi todas as canções de protesto a eles devidas (r aqui uma reverência a Fernando Lopes Graça) e quando dei por mim, estava a começar a escrever pequenas notas de leitura para a “Vértice”.  Confesso que muitas delas não passaram do sofrível, algumas roçaram a mediocridade, o meu mundo critico era muito em branco e preto e, por exemplo, maldisse de Silone tanto quanto louvei Elsa Triolet. Erros meus, juventude a mais e om senso em falta. No entanto, não me arrependo embora agradeça à Censura, mais do que a violência dos cortes,  sobretudo a eliminação pura e simples de (cálculo aproximado)  dois terços da colaboração enviada. 

Fica-me, desse tempo, o sabor terno e agridoce  de muita leitura, de muita descoberta e a amizade, a sólida, bela e boa amizade de Joaquim Namorado ou Luís de Albuquerque que me meteu a mania da história da expansão portuguesa.

Ora este livro que praticamente se traduz na troca parcial (perderam-se muitas cartas) de correspondência entre Dionísio e Namorado veio avivar-me memórias de um tempo outro em que a esperança e a juventude se combinavam e davam um sentido claro à vida.

Mas mais do que isso, esta correspondência espelha uma amizade e uma camaradagem de grupo, mesmo se sejam apenas dois os interlocutores, e dão um retrato terrível das dificuldades e da coragem que estes intelectuais deram provas. Estão nas cartas plasmadas as dificuldades que afrontaram, as perseguições que os atingiram, a tentativa de os calar pela recusa de um mero emprego de professor do ensino particular. E eles, “lado a lado” e a assim continuaram. A tarefa do organizador, leitor e anotador António Pedro Pita é notável. Pelo cuidado, pelas breves notas biográficas de todos os citados – e são uma multidão, uma saudável, ruidosa e, apesar de tudo, alegre multidão!

Claro que um leitor, um interessado naquele tempo, uma testemunha tardia dessa epopeia, quereria ainda mais. Por exemplo, mais notas sobre as tentativas de quem quis silenciar Dionísio, defendido com unhas e dentes por Namorado, Rui Feijó – o mais querido dos meus velhos amigos a quem acompanhei quase diariamente até à morte- Luís Albuquerque e João José Cochofel.

Porque este grupo não escapou aos filisteus, aos ultra dogmáticos, aos defensores da pureza ideológica. Se essa gente tivesse ganho a batalha pelo controlo da Vértice, esta revista teria desaparecido em dois tempos ap invés do milagre de ter durado até ao 25 A (e mesmo depois mas isso é outra história). Dezenas de amigos meus, mais velhos alguns, mais novos outros passaram pela redacção da revista, começaram aí a sua carreira literária ou apenas (e já é bastante, muito, muitíssimo) a sua intervençãoo cívica. Desconfio que essa história não se fará, estamos todos os da minha geração a ir para o eterno descanso e portanto se alguma vez chegasse o momento de reunir testemunhos e memórias, já cá não estára ninguém.

Mas fica, porém, a presença luminosa, digna  e limpa de dois intelectuais que, na expressão de Pacheco Pereira  na biografia de Cunhal, foram a honra da resistência intelectual portuguesa (ou algo do mesmo género que estou a citar de cor).

Voltando ao anotador: só pela sua excelente anotação, pelos seus retratos breves, pela bibliografia fornecida, já se fica com um princípio sólido da história intelectual daqueles anos. Há aqui muito esforço, muito carinho e muita, mas muita, qualidade.

* a vinheta: livros da colecção "novo cancioneiro" Há edição recente e conjunta

 

 

 

estes dias que passam 588

d'oliveira, 01.04.21

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Saída precária 18

Se tivesse sido hoje...

mcr, 1 de Abril

 

 

O Sr. Presidente da República entendeu avalizar uma proosta do parlamento que aumenta a despesa para além do que etava previsto no Orçamento que o mesmo parlamento aprovou.

Dir-se-á que entre a data da aprovação e os idos de Março muita coisa mudou em Portugal.

Por um lado é verdade, por outro não tanto. Só uma cabecinha oca (e isso é coisa que não faltará naquele ilustre areópago de luminárias com e sem luz própria ) é que ao aprovar o Orçamento não previu o rumo das coisas. Há nestes exercícios parlamentares um laissez faire, laissez aller que surpreende os mais ingénuos. E de várias maneiras: primeiro porque há sempre umas senhoras do BE e mais alguns cavalheiros de outras bancadas que acham que a pátria nada em dinheiro. Depois, quando se metem a exigir isto e aquilo, nunca exigem uma soma à altura das suas previsões. Finalmente, deixam o orçamento nas mãos de outros que aprovam o que muito bem lhes dá na gana.

Seguidamente, começa a pedinchice. Se a crise se agrava – e tudo indicava que esta se  iria, como infelizmente foi, agravar, ninguém sabe o que fazer: não previu, não poupou, acreditou na senhora de Fátima ou na santinha da Ladeira e pumba, cai de quatro! E toca a pedir sem saber de onde o dinheiro há de vir. Ou melhor, sabendo que há uma teta europeia onde chuchar os maravedis em falta. A Europa, nunca aceite, claro, é optima para estas coisas.

Depois, o parlamento é uma espécie de catavento. Ver o PC aos beijos (escondidos) com o PSD, ou o Chega a apoiar o BE poderia parecer mentira de Abril mas não: é verdade de Março.

Ver um constitucionalista, como o Sr. Presidente presume ser, contornar “criativamente” a lei travão que, no meu tempo, se estudava arduamente e era tida como princípio intangível, prova que, como dizia Vasco Pulido Valente, se vive no país das maravilhas, sem uma Alice, sem um coelho sem o gato a sorrir esfingicamente mas com uma rainha a mandar cortar cabeças...

A oposição, ou seja todos menos o PS, rejubilou com a aprovação do Presidente. E desafiou o Primeiro Ministro a saltar para o meio da arena e desafiar o toiro para uma pega à portuguesa. Costa, que é gordinho, manobrista, seráfico não vacilou. Deve-se ter julgado cabo e forcados e saiu à estacada.

A oposição vai uivar coisas medonhas pois o Tribunal constitucional só lhe serve para quando acha que a acompanhará (e Deus sabe quantas vezes o fez contra o Governo de Passos Coelho...). Desta feita, não há entre os estudiosos “não criativos” da constituição, quem não veja um flagrante entorse aos mais vulgares princípios constitucionais. Mesmo se, do lado das vítimas da lei haja uns largos milhares de cidadãos que a crise rebentou e mais outros tantos ou mais ainda que daqui a um par de meses estarão enterrados na crise até à raiz dos cabelos.

Claro que tudo isto poderia ter sido evitado se, o parlamento tão recalcitrante com o Governo inábil de Costa e lastrado de figuras que deram tudo o que tinham a dar, tivesse aprovado uma moção de censure e derrubasse o dr. Costa. O diabo é que ninguém quer isso. Por patriotismo? Talves. Por calculismo? Seguramente. O PS do país das maravilhas é de uma pobreza franciscana ma o “povo”, ou o “povo que povoa os inquéritos de opinião” vai-lhe dando uma quase maioria absoluta. Ao mesmo tempo, tirando o Chega, a oposição anda aflita com as sondagens. PC e BE averbaram na eleição presidencial um recuo dramático, p PSD fingiu estar na maioria (o mesmo sucedendo com o CDS) mas tal não parece melhorá-lo quando se pergunta por aí como é que vai ser. O dr Rui Rio, um mero contabilista que pensa que é uma águia quando não passa de uma galinha pedrês, tem muito com que se entreter com os seus barões revoltados. O rapaz do CDS, mesmo com uma barba à Lucas Pires, não é levado a sério.

Ou seja, retoma-se o slogan de Alexandre  O’Neil “ele não merece mas vote PS!”

Eu que não sou suspeito de adorar o sr costa estou com ele nesta afição. Isto ainda não é uma república bananeira. Se o parlamento na sua infinita tontice esquece os princípios, há que recorrer a quem lhos lembre. Ao Tribunal Constitucional, ponto, parágrafo.

Já agora. O YC não tem prazo para resolver esta questão. Todavia, se tiver em linha de conta o que está em jogo, deveria tentar responder tão depressa quanto possível. Quanto mais não seja porque vai nisso muito do que ele representa. E do que ele precisa para ser reconhecido como garante da constitucionalidade.

Se a votação do parlamento tivesse tido lugar hoje, nós todos acharíamos que se estaria a cumprir gloriosamente o dia das mentiras. Mas não este voto foi solene e já tem barbas.

Por mim, espero que elas ardam... 

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