Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Portugal reforça posição no investimento directo estrangeiro

José Carlos Pereira, 21.06.21

Portugal alcançou o 10º lugar como país de destino mais atractivo para o investimento directo estrangeiro (IDE), em número de projectos, meta que satisfaz particularmente todos os que estão envolvidos em processos de captação de investimento.

Embora 2020 tenha registado em Portugal um menor número de projectos concluídos face ao ano anterior, situação que curiosamente não se verificou na Região Norte, a posição comparativa do nosso país colocou-o no top 10 das economias mais atractivas para o IDE.

homem ao mar 68

d'oliveira, 21.06.21

1601636581633.jpg

Liberdade vigiada 48

São as águas de Junho a anunciar o Verão

mcr, 21 de Junho

 

 

As leitoras (e os leitores, também) convirão que este título é uma fraca tentativa de me tentar aquecer como autor na belíssima fogueira de “águas de Março” um canção brasileira que reputo genial.

E uso o “genial” até porque há no país (alegadamente) irmão uma gigantesca enxurrada de más canções, péssimas letras, um horror, uma pimbalhice que quase iguala a nossa.

Todavia, uma pessoa perdoa tudo quando ouve, esta ou “Louvação” ou “Garota de Ipanema” (essa invenção brilhante de Vinicius de Morais que em tudo foi excessivo até no talento. Neste só terá sido batido pelo número de casamentos (oito. Oito? Oito mesmo, oitinhos da silva, caros amigos. VM levava as coisas a sério e foi ao registo civil oito vezes. Juntem-lhe os “entreténs”, as pequenas escapadinhas,os encontros “casuais” (casuais, o tanas e o badanhas, ou em alemão que é mais fino: o Tanhauser e o Badanhauser).

Eu digo isto, porque todas as manhãs me barbeio, lavo aos dentes que restam e os que paguei por bom preço, ao som de uma emissora que tem uma boa banda musical, muito do meu tempo, algum jazz, ums fiapos de soul ou R & Bmas que quando lhe dá para o que eles apelidam de bossa nova é um desastre. Umas criaturinhas presumivelmente femininas com um fio de voz moribundo, letras dum primarismo grotesco, enfim the great brasilian disaster.

Ora para desastres, ao Brasil já chega aquela caricatura de pitecantropus de seu apelido Bolsonaro. Se o deixarem, até ao fim do mandato ainda morre mais outro meio milhão de desgraçados que a criminosa imprevidência da criatura deixa morrer sem vacinas.

(Já agora: será que a solícita câmara de Lisboa também enviou para a embaixada brasileira os nomes dos cidadãos brasileiros que se manifestaram contra este vírus político que assola o país do cacau e do carnaval?)

Voltando ao tema de abertura: hoje, primeiro dia do Verão, choveu pela manhã. Agora as coisas compuseram-se o céu limpou um pouco, sopra uma brisa razoável mas não chove o que já é um avanço.

A minha mãe a quem referi o facto climático atalhou com rapidez. ”É para ajudar o Costa. Assim há menos gente na praia!”

Será. Costa cuja longevidade política é fenomenal tem tudo a favor. Tudo? Bem, tudo , tudo, não. Aquilo de ter obtido um apoio norte coreano no congresso do partido (94% !!!) estraga-lhe um pouco a vitória. É um triunfo excessivo. Excessivo e dificilmente verdadeiro. Será que toda a oposição interna só leva seis por cento? Alguém acredita nisso?

Esta avalanche de votos há de ter pelo meio muito voto oportunista. Se não podes vencê-los junta-te a eles é uma velha e sábia frase muito usada em política politiqueira mas de consequências imprevisíveis depois. Demasiado unanimismo torna os dirigentes surdos ao marulhar dos descontentamentos, ao sussurrar das críticas ao apontar dos defeitos.

Ora, para Costa, este pode ser um “verão violento”. Com a variante indiana, agora seraficamente delta, com os fogos estivais (as matas não foram limpas ou foram pouco limpas) com o ministro dos fogos debaixo de fogo, com os turistas desconfiados e raros, com os pequenos (grandes) casos a rebentar como a erva nos passeios, Costa vai ter que dar à perna.

O Verão vai ser violento e não no sentido do magnífico filme de Zurlini, com a belíssima Eleanora Rossi Drago a dar a volta à cabeça a um rapazinho. Ym rapazola como eu quando vi o filme!

Será que Costa, ungido pelos votos socialistas no congresso, prestes a sê-lo de novo pelos milhões da União europeia e agora pelas águas de Junho, vai navegar nesses mares tranquilos sem ser incomodado por Rio, por Catarina, por Marcello & tutti uanti e chegar a bom porto?

Eis ao que me levam duas pingas de chuva quando me dirigia para o café da manhã.

De todo o modo, que o Verão vos seja propício, leitores. 

* Na vinheta: fotograma de "Um Verão violento" (1959)  

 

   

 

 

homem ao mar 67

d'oliveira, 20.06.21

image.jpg

Liberdade vigiada 47

“ao menino e ao borracho...”

mcr, 20 de Junho

 

 

...“ põe Deus a mão por baixo.”

Os ditados não estarão na moda mas a verdade é que, de quando em quando, acertam em cheio. Então um menino de dois anos e meio, sai alta madrugada para fora  de casa acompanhado pela cadela e anda perdido por montes e vales (pelo menos par ele, tão tamanino!, hão de ser montes e vales) durante 36 horas e nada, ou quase lhe sucede?

Bem sei que ele traz um nome forte se é que o Noah com que o baptizaram quer dizer Noé, o construtor da arca que salvou as espécies todas deste mundo até aportar são e salvo ao monte Ararat para refundar a humanidade. Mesmo assim, com este tremendo precedente, o rapazinho de Proença forte proeza cometeu.

Também será bom exaltar a imensa cadeia de solidariedade local que espontaneamente se criou e cresceu. No Portugal profundo, nesse interior esquecido de todos, há ainda solidariedades que não se desvaneceram, sentido de comunidade, generosidade a rodos. Quem não se atirou aos caminhos, por os desconhecer, trouxe, comida, águas, o que poude para ajudar os populares, a guarda, a polícia, toda a gente. Por uma vez sem exemplo as redes sociais encheram-se de notícias, apoio, apelos. Às vezes estas redes podem ajudar.

O menino foi encontrado, são e salvo, como manda o ditado, como queríamos todos os que se comoveram. Escoriações ligeiras, mas boa disposição, sono bastante e apetite (pudera, não!)

Pelos vistos, a família, há ainda uma irmãzinha de seis anos, é, no pitoresco dizer da CG “meio hippie”. Será tudo o que queiram mas os testemunhos dos vizinhos da aldeia são unânimes em considera-la boa gente, afável e bem integrada.

O menino é “no dizer dos populares, muito “desenrascado” para a sua tenra idade, está habituado a acordar cedo, a vestir-se e ir em busca do pai, sempre com a cadela por companhia.

Desta feita, fintou o bicho ao meter-se por onde o animal não conseguia passar.

E não foi por acaso que a cadela foi encontrada bem perto do local onde várias horas depois ele foi encontrado. Ou seja o bicho não o abandonou, como, com a habitual rapidez do comentário apressado, alguém sugeriu.

De vez em quando, há histórias assim, pequenos milagres.

Esta história de Noah, recorda-me outra do meu irmão que, mais pequeno ainda, aproveitou a balbúrdia da casa de meus avós e a porta aberta para as escadas para se escapulir. Saiu para a rua e deitou pés ao caminho, rua abaixo.

Ninguém deu conta do seu desaparecimento, numa casa de dois andares.

Entretanto, uma alma caridosa encontrou-o a chorar no Largo do Carvão, frente à doca. Agarrou no infante, deu~lhe uma oportuna fatia de broa que o calou e subiu a mesmíssima rua das Parreiras para ir à polícia ou aos bombeiros entregar o estranho achado. Por sorte a tia Nené estava à janela e terá dito para uma irmã “vai ali um menino igualzinho ao Tané." A boa samaritano terá ouvido e perguntou “ó menina este menino é daí?" Era, claro que era, e o destemido viajante foi recolhido à casa e trancada a porta por onde se escapulira. Durou menos de uma hora esta aventura viajeira do pequeno, pequeníssimo,  malandrim mas ainda hoje setenta e muitos anos depois, é lembrada.   

E aqui, num país cada vez mais céptico, cada vez mais dual, cada vez mais abandonado por pretensas elites que não só o não conhecem como teimam em não o corrigir, ajudar, melhorar, vale a pena parar um momento, deixar para trás as glórias ilusórias do futebol que a crueldade germânica, o trabalho continuado dessa selecção, o rigor e o espírito de sacrifício, tornam, como  já é habitual, a Alemanha um carrasco da “equipa de todos nós”.

Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo, eis uma boa dica para um domingo  de cidade abafada pelo nevoeiro que lá se vai desfazendo.

Já não foi a tempo para a costumeira bica à beira mar que, quando saí  por ela, até chuviscava, azar de quem cedo se levanta.

Entretanto o jornal descreve sofridamente o jogo de ontem, bastaram-me os títulos e sib-títulos para me achar informado e um pouco espantado com o sr Fernando Santos e a sua exclamação “só duas faltas na 1ª parte!? Nem acredito!”

Pois! Ele nem acredita mas a expressiva vitória alemão deixa-o em mais lençóis. Agora terá de se haver com a França o que não é pera doce. Se as coisas correrem para o torto, eis que será hora de fazer a mal e regressar à realidade e ao país que bem precisa de pensar seriamente no que fazer com esta espécie de 3ª ao 4ª vaga.

E o sr Presidente lá poderá deixar de "estar focado no futebol" para pensar um pouco mais serenamente se andamos ou não para trás,

E, já agora, perceber que a palavra nunca é perigosa. Será melhor nunca dizer nunca que o diabo tece-as (mais um anexim português, antigo, popular e muitas vezes sábio)

Tenham um bom domingo.    

 

homem ao mar 66

d'oliveira, 19.06.21

wm.jpeg

Liberdade vigiada 46

É a responsabilidade política, estúpido!

mcr, 19 de Junho

 

confesso que durante muito tempo olhei com simpatia o sr. dr. Medina, actual Presidente da Câmara de Lisboa. Parecia-me um razoável candidato a sucessor de dr. Costa, criatura que celebrou 10.000 dias de vida política!

(Dez mil dias são mais de vinte e cinco anos ininterruptos!Arre!)

Claro que havia uma coisa que me parecia bizarra: um político no activo, mais um, nas televisões a fingir de comentador. Todavia, isso, já é pecha velha na política nacional pelo que já nem estranheza me causava.

Ontem, o dr. Medina entendeu gastar hora e meia do seu mais que precioso tempo para explicar algo que, por muito que se queira não tem explicação: a contínua, reiterada e indecente violação da lei de protecção de dados, com a consequente entrega de nomes de pessoas a embaixadas eventualmente ameaçadoras para com os cidadãos nacionais que contra o regime que elas representam se manifestavam.

A primeira conclusão a retirar de pelo menos 72 violações da lei comprovadas é que mesmo o extinto Governo civil de Lisboa, na pessoa de um tal António Galamba também fez uma perninha na denúncia. O referido Galamba negou mas Medina (e os documentos) desmentem-no sem apelo nem agravo)

Depois, Medina entregou-se a um exercício de há muito conhecido: a desculpabilização!

Ou seja, referiu um despacho de António Costa, seu antecessor no cargo que claramente proibia a entrega de nomes. Entretanto, essa reiterada delação continuou desenfreada, por mero efeito do aparelho burocrático camarário!

O inocente presidente da Câmara, os angélicos vereadores, a ranchada de assessores políticos todos ignoravam o que se passava.

É obra!

Ninguém, mas mesmo ninguém, se deu ao trabalho de verificar se o despacho de Costa era cumprido. Ninguém se lembrou da hipótese, mera hipótese, de haver algum grão de areia na engrenagem! Arre que estamos no reino da inocência catatónica, da desculpa pelintra, da fuga grotesca à responsabilidade.

Pelos vistos, uma direcção política da Câmara ignora(va) o que nas caves dos Paços do Concelho se cozinhava!

Provavelmente, ignoram-se ainda muito mais coisas, algumas eventualmente daninhas, outra mera e má burocracia.

Todavia, o dr. Medina que me desculpe: a ignorância do que se passava debaixo do seu delicado nariz, afectado, pelos vistos, pela incapacidade de percepção dos maus, fétidos, odores que nas obscuras salas de obscuras repartições, se cozinhava.

A CML funcionaria assim, pelo menos em alguns sectores, e não os menos importantes, em roda livre, à rédea solta, sem que os funcionários fossem controlados por chefias de secção, de divisão, de repartição de serviço seja do que for!!!

Dirigi durante quase vinte anos entidades públicas, com autonomia administrativa e/ou financeira. Boa parte do meu trabalho era justamente saber se a máquina funcionava, se não havia, mau serviço, se os utentes não eram prejudicados.

Numa única inspecção feita a um antecessor, cujos resultados, só apareceram já durante o meu mandato, verificou-se que de mais de cinquenta mil (50.000) documentos de despesa havia dois não justificados. Faltavam, saiba-se dois bilhetes de eléctico relativos à década de sessenta! Eram bilhetes de 70 centavos e um escudo! Tanto bastou para que o meu antecessor, pessoa politicamente próxima do antigo regime (anterior a Abril de 1974) visse o seu mandato de longos anos manchado por uma nota abaixo de muito bom!

Reclamei, mesmo sendo  adversário político do pobre senhor. Esses bilhetes de eléctico eram em papel fininho, pequenos, facilmente perdíveis no meio da confusão de folhas, folhinhas, papéis, agrafados ou soltos. Durou bastante tempo o processo mas finalmente alguém reconheceu que aquela perda de dois ridículos, mesquinhos, documentos de despesa que já na época pouco ou nada ignificavam: por junto, ambos valia o preço de um café!

O inspector que concluiu  o relatório sobre o recurso por mim apresentado espantava-se por ser eu, um declarado adversário político do dirigente criticado,a tomar as dores dele. Expliquei-lhe que tomava as dores da instituição, e por isso dos meus antecessores se, porventura, eles tivessem razão. E que um extravio de dois bilhetes de eléctrico deveriam, no pior dos casos, ser imputados ao sistema de arquivamento, às condições em que os documentos eram guardados, à eventual negligência de um pequeno funcionário, enfim a tudo menos ao homem que comandava um exército de seiscentas e trinta pessoas e movimentava uma instituição com um orçamento que ultrapassava (na época) algumas centenas de milhares de contos!

Mais: que combatia os meus adversários políticos mas recusava a chicana miserável que aquela inspecção por muito criteriosa que fosse, por muito fundamentada que se demonstrasse, poderia evidenciar.

Ganhei o respeito dos meus subordinados, a gratidão de um pobre homem que demorou anos a ser readmitido como assessor do mesmo ministério, e o respeito da Inspecção Geral e dos Directores Gerais com quem, depois, trabalhei anos a fio.

Eu não sabia na altura mas era a responsabilidade política que me conduzia numa luta sem relevância para mim mas pela dignidade de outros, anteriores ou posteriores dirigentes de instituições análogas.

E era isso, a responsabilidade política, que eu esperava do dr. Medina!

Quero crer que ele seria incapaz de permitir a delação, que seria violentamente contra a entrega de dados pessoais, fossem eles de quem fossem, e dirigidos a quem quer que seja, Incluindo ao MAI e à PSP!

Mas foi a Câmara dele, dirigida por ele, a Câmara a se vai recandidatar a meter o pé na argola. É ele o máximo responsável, soubesse ou não o que se passava nos recantos mais sombrios daquele casarão. Vir dizer que vai exonerar um qualquer obscuro funcionário é grave, é indefensável. Por junto poderá mandar abrir um inquérito com vista a um processo disciplinar. A menos que o “alegado infractor” seja um funcionário político por ele livremente nomeado. Se é esse o caso, poderá sempre perguntar-se qual o critério que levou a escolher essa criatura para algo tão delicado, tão relevante quanto a gestão e defesa de dados pessoais.

Eu sei que um pedido de demissão a quatro meses das eleições é algo de incongruente como o dr. Medina afirma. É, claro que é. Mas é o único gesto digno a tomar, tudo o resto é baixa política, fuga às responsabilidades, desculpas de mau pagador. A Câmara errou? O Presidente paga. É para isso que o elegeram. É isso que se espera. O gesto é inútil? Não de todo: é honrado e digno. E, aqui para nós, seria uma arma poderosíssima no sentido de garantir a reeleição.

As pessoas andam tão desconsoladas com os políticos que uma qualquer manifestação de inteireza moral, ética e política seria saudada.

Medina não percebeu isto. É pena! Muita pena! Não voto em Lisboa mas se votasse já não teria o meu voto.

 

A tempo mas por outro assunto: A região de Lisboa, dois inteiros distritos, está com um cerco sanitário. Pode ser inconstitucional mesmo se há o art.º 20 da lei da protecção civil que expressamente refere esta hipótese.

Não fazer nada, como eventualmente pedirão alguns mais indignados é seguramente desproteger, ainda mais, os restantes portugueses que, pelos vistos, sabem proteger-se melhor, cumprir mais as regras de distanciamento. É que Lisboa e respectiva região asseguram quase 70% dos casos novos de infecção.

Ou será que se prefere a velha tese  “Morra Sansão e quantos aqui estão!?

Acharão os opositores da medida que é preferível deixar correr o vírus pelo resto do país? Exacerbar uma hipotética 4ª vaga?

Ainda por cima o cerco sanitário tem uma duração de um fim de semana. Com chuva prevista! Que diabo, nisto, estou com o dr. Costa!

E aproveito para tentar mandar um recado ao Sr. Presidente: neste momento deveríamos estar todos focados na saúde pública e nos meios de a defender. É que  há gente a morrer, há gente internada, há gente a sofrer e não é o futebol que vai ressuscitar uns ou melhorar a saúde dos outros.

O futebol é absolutamente secundário, Sr. Presidente. Como o populismo de que muitos, e V.ª Ex.ª também, se socorrem.        

  

homem ao mar 65

d'oliveira, 18.06.21

unnamed.jpg

Liberdade vigiada 45

“o país da minha tia?”

mcr, 18 de Junho

 

Os generosos leitores que me aturam com evangélica paciência perdoarão que, uma vez mais, me socorra de Alexandre O’ Neil, poeta da minha especial devoção (com mais dois ou três nutridos quarteirões de colegas  rimadores...) desde a minha perdida “juventude, divino tesoro” (Rúben Dario, outra descoberta desses anos de vinho e rosas e aventuras perigosas).

De facto O’Neil termina este verso (sem ponto de interrogação) da seguinte maneira: trémulo de bondade e aletria”

Ora eu agarrei na 1ª parte e dei-lhe forma interrogativa pela simples e tristíssima razão de que num inquérito feito à escala da União Europeia, os portugueses ficaram com a fama de serem adeptos de poderes fortes, digamos autocráticos, numa escala horrenda de mais de 80%!

Eu, como os mais críticos recordarão, e de dedo espetado, venho por aqui dizendo que o dr. Salazar pode estar enterrado mas não olvidado. Direi mesmo  que o cavalheiro de Santa Comba está em vias de beatificação política.

Passa-se com ele o que se passou com esse horrível rei que foi Pedro o cruel, dito o justiceiro, criatura de maus fígados que algum povo  exaltou depois dele ter azorragado um bispo e supliciado um par de fidalgos. Outro do mesmo jaez, o sr. Marquês de Pombal  que tratou adversários reais ou supostos com extrema crueldade e desprezo. Depois de fortalecer os podere do rei, de se engrandecer de forma extraordinária, de meter nas cadeias uns milhares de súbditos, caiu grças à morte do Rei , no que se chamou a “viradeira”. O defensor do absolutismo foi esquecido durante cem anos e reabilitado pelos republicanos que provavelmente o admiravam por ter expulsado os jesuítas. Note-se que não esqueço a obra feita mas considero imperdoável muitos dos seus métodos.

O dr. Salazar, sacristão laico e melífluo, não teve a mesma gulodice de riquezas que o finado marquês. Mas converteu o poder num exercício solitário, tratou o país como se fora uma herdade e os portugueses como ganhões. Com muitas avé marias, safanões dados a tempo e um olímpico desprezo pelas multidões numca teve oposição capaz e só uma cadeira velh e traiçoeira o venceu. Os seus últimos meses foram uma encenação ridícula, fúnebre, grotesca,  uma tragicomédia desconhecida dos cidadãos: umas dúzias de áulicos movimentavam-se à sua volta como se ele ainda mandasse. Tudo com a aprovação do sr Marcello Caetano e do Presidente da República de então, outra caricatura de político e de marinheiro.

Cinquenta anos depois, mais dia menos dia, eis que a Democracia vigente se vê confrontada com esta imensa, ameaçadora saudade de um Chefe.

“Haja quem mande”, parece ser o slogan silencioso que abafa todos os outros. Os portugueses precisam de um Fuhrer manso e cheio de pai-nossos, de um avô à moda de Petain, de um Salazar remoçado de ténis em vez de botas de carneira-

Assim se explica que nem sequer  voto quadrienal seja algo queo mobilize especialmente, que os partidos sejam agrupamentos em que também imperam os homens fortes ou, em casos também conhecidos, uma espécie de reinos de taifas que se agridem com os inimigos à porta da cidade.

As carreiras políticas iniciam-se nos cursillos de juventude, passam pelas antecâmaras ministeriais, pelas assessorias políticas, e os candidatos ao parlamento são, à cautela, eleitos em magote, sem que os cidadãos possam escolher entre eles. Uma vez eleitos estes pais da pátria sentam-se obedientemente no hemiciclo e levantam ou baixam o cú à ordem dos pequenos chefes de bancada. E ai de quem murmure... Desgraçado o que protesta e defenestrado o que vem a público defender ideias contrárias à linha do partido.

O poder exerce-se em círculos concêntricos, em alianças esporádicas de amigos, nomeando para cargos repolhudos os que por qualquer razão não podem sentar à mesa do Conselho de Ministros.

Veja-se, como exemplo simples, o caso da amantíssima esposa do competentíssimo ministro Cabrita. Depois de se entender que nos cargos ministeriais não cabiam familiares, a senhora foi despedida que, por enquanto isto de escolher quem fica ainda não está dentro das linhas da política de igualdade de género. Durou  pouco o seu degredo: vai agora presidir a uma alegadamente independente Autoridade da Mobilidade.

A mesma criatura que encerou vários troços de linhas de caminho de ferro, sempre prometendo que seriam  renovadas, coisa que nunca ocorreu, vai de novo zelar entre outras coisas pelo bom estado da ferrovia!  Com sorte aceitará o fecho da linha do Oeste, que de resto quase não funciona e de mais um par de ligações que não rendam votos. O Ministro que a nomeou entende que uma importante personalidade do PS, sempre com tarefas políticas em nome do PS, é suficientemente independente para vigiar a acção governativa do PS...

“Haja quem mande!” resmungarão os órfãos do poder forte e viril. E isso terá eco nos restantes ouvintes também eles saudosos dos bons velhos tempos, da ordem, da dignidade da pobreza ignorante e simples, da “casa portuguesa, pão e vinho sobre a mesa” etc., etc..

Como diz a cantiga: “é uma casa portuguesa com certeza”!

 

*a vinheta caricatura de Nuno Castela Canilho.  Homem de Igreja, Salazar, nem a a ela consentiu tudo.

A imagem relembra-me o episódio da explosão da bomba quando o ditador ia para a missa em casa de um amigo. São e salvo, sacudiu o pó do fato e rumou à missa sem que nada traísse o seu estado de espírito. O homem tinha sangue frio para dar e vender e não era timorato. duas qualidades que exacerbaram a sua meticulosa construção de um país fechado, pobre e fora do mundo contemporãneo. E a imagem pia e solene do poder de um homem só. 

homem ao mar 64

d'oliveira, 17.06.21

gettyimages-1190944642-612x612.jpg

Liberdade vigiada 43

Dias cinzentos...

mcr, 17 de Junho

 

Falta uma semana para o S. João mas as orvalhadas já se anunciaram. Aliás, o que se apareceu foi a chuva. Uma chuva burra, leve que parece desafiar o Verão que ainda há dois dias parecia ter entrado de vez. Pelos vistos ainda não foi desta.

Este ano, de qualquer forma, o S João foi de férias para parte incerta pelo que a chuva mesmo cumprindo a sua tarefa de chatear o transeunte não causa especial transtorno.

Todavia, com ela vieram dias cinzentos, pesados que também não animam ninguém.

Encontro um vago conhecimento feiro na Alemanha, em Murnau, durante um par de meses sabáticos que dediquei ao estudo do alemão no Goethe Institut local.

Murnau é uma bonita cidadezinha do tamanho de meio bairro portuense ou lisboeta. Ou ainda mais pequena. De todo o modo tem uma situação extraordinária. Na margem de um lago, o Stafelsee, junto de montanhas onde se esquia (Murnau não será Garmish-Partenkirchen ou Oberamergau mas é uma agradável zona de veraneio e também de turismo invernal). Terá cerca de 10.000 habitantes, metade na zona urbana e a rapaziada do Goethe era (será ainda?) bem recebida e dava cor e movimento no centro da cidade.

Ora, esse conhecido, aportou a Murnau já eu lá estava e coincidimos com a famosa vitória do Porto sobre o Bayern de Munique numa final da Champions disputada em Viena. O desmiolado português a que me refiro, resolveu apostar em nome dele (e meu!) que o Porto ganharia. Claro que toda a gente apostou pois era impensável derrotar o Bayern em terras germânicas. Bem sei que o Anschluss hitleriano era já passado masque diabo. Viena fica perto, toda a gente fala alemão e o clube tinha simpatias dos dois lados da fronteira.

Quando soube da extraordinária gabarolice do meu compatriota que, ainda por cima era benfiquista refugiei-me em casa e nem sequer abri a televisão. Foi outro dos estudantes do Goethe, desta feita, um islandês quem me veio avisar da vitória inesperada. Com ele vinham dois amáveis japoneses que sempre que me viam se desbarretavam e faziam um sem número de vénias enquanto me chamavam Marcero San (O segundo r substituí o l que eles não conseguiam pronunciar e o san indicava que, já nessa altura, quase há quarenta anos, eu era “o mais velho”.

Lá saímos para umas cervejas propiciatórias e celebrativas. Ainda não tínhamos chegado ao bar preferido dos estudantes de alemão quando vejo uma turba multa de gente nova e goeetheana enlouquecida pelo álcool. Comandava-os o portuga descarado apropriadamente vestido camisa esverdungada e calças dum velho a cair para o cor de rosa sujo, de bandeira em punho e a dar os slogans. Nunca ouvi tanto palavrão português junto. E olhem que sou de Buarcos! A restante comandita berrava os c... os f... os m... os pqp...,  num germano-português com influencias linguísticas várias. O que lhes faltava em pronúncia sobrava-lhes em entusiasmo. No meio daquela tropa fandanga estavam dois árabes e um turco que terão nesse dia sido baptizados goela abaixo com schnaps de má qualidade e cerveja local, essa sim boa, há que dizê-lo.

Um eepectáculo inolvidável. A alemoagem acordada pela gritaria vinha Às janelas e, espanto!, aplaudia. Eu envergonhadíssimo.

Vergonha que aliás continuou no dia seguinte quando o director do Goethe veio à nossa aula congratular-me pelo vitória do F C. Porto (tal e qual!). A mim que, por junto e atacado, sou um adepto não praticante da Naval 1º de Maio da Figueira da Foz!

Tudo isto, este rosário de descoroçoadas recordações veio ao de cima porquanto, no encontro com o agora já semi-idoso benfiquista atrevido, recordámos duas inteiras semanas de fins de Maio e princípios Junho em que o sol não compareceu. Duas semanas! Duas!, diabos me levem. A malta do sul, espanhóis, italianos franceses e um israelita andava mais macambúzia que uma fiada de ostras prontas a servir.

Cá, por dois dias sem sol, a CG geme, diz mal da vida, ameaça emigrar, culpa o Governo, a Câmara e até a Junta de freguesia (fora o que sobra para mim!...) e critica as gatas por dormirem todo  o dia.

E eu, confesso-o, também sinto o peso do dia feio sobretudo porque a falta de luz acarreta um esforço suplementar para ler o jornal na esplanada.

E sem vontade de pegar no computador e aviar o folhetim diário tarefa que me impus no primeiro dia da pandemia como disciplina para passar o tempo.

Claro que o que sai é isto, esta crónica mal parida que gostaria de dedicar à leitora Mónica S que me pediu as coordenadas do blog e prometeu ler.  Não estou no meu melhor (que já de si é fraquinho) mas a culpa é do tempo. E obrigado por me aturar os constantes pedidos de explicação sobre as funções do computador. Cliente mais chato e ignorante V. não tem. Que seja para reparação dos seus pecados que o que faz é obra de grande misericórdia!  

 

* na vinheta: Murnau am Stafelsee, claro!

homem ao mar 63

d'oliveira, 16.06.21

780665.png.jpeg

Liberdade vigiada 43

“Portugal dos pequeninos”

mcr, 16 de Julho

 

A Iniciativa Liberal apresentou-se à sociedade como um partido responsável, interessado, em colisão com o excessivo centralismo burocrático português e com algumas ideias arejadas em uso nas formações de centro direita.

A candidatura de um seu militante para Presidência da República permitiu pensar que nesse espaço político havia ideias e combatividade suficientes para fomentar uma discussão pública capaz de interessar quem pretende ver os horizontes políticos alargarem-se e contribuírem para a mobilização dos cidadãos.

Mesmo sem me captar o voto, saudei a IL pela frescura e desembaraço com que vinha pontuar uma discussão fechada e soturna.

Agora, porém, eis que a IL entendeu questionar o Governo com um arraial popularucho que pretendia provar que era possível curto-circuitar um par de regras camarárias e governamentais consideradas demasiado restritivas da liberdade dos cidadãos.

Eu nem sequer vou chamar à colação as declarações, aliás justas e certeiras, sobre a ”festa do avante”, uma colheita de fundos disfarçada de festa político-partidária. Nada me move contra essas jornadas comunistas pois percebo e aceito que os militantes comunistas gostem de se encontrar uma vez por ano à volta de uma sardinhada, de uma travessa de bifanas, de petisqueiras várias. Tudo regado a boa (e menos boa) música, com barraquinhas de “souvenirs” e “recuerdos” vagamente artesanais de partidos “irmãos” e menos irmãos.

É verdade que, pelo meio, há uns discursos fervorosamente ouvidos e aplaudidos mas convenhamos que a “festa (“nã festa como esta”...) serve fundamentalmente para encher os cofres das organizações do “Partido”. Ainda por cima sem gravames fiscais de qualquer espécie! Em boa verdade, também não se conhece, no restante arco político, nada igual em militância, sacrifício, esforço pessoal e trabalho voluntário.

Todavia, no caso que ora nos ocupa, este arraial que, pelo menos na televisão, pareceu um pouco “todos ao molho e salve-se quem puder, não podendo igualar-se às famosas cautelas com que a férrea disciplina comunista impôs na Quinta da Atalaia. Se a IL pretendia provar qualquer coisa, falhou redondamente. As mesas corridas, a malta sem máscara, a falta de controlo à entrada não diferem muito do que pelas noites do bairro alto se vê.

Se era para desafiar a autoridade da Câmara abalada pelo escândalo da entrega de dados de cidadãos a embaixadas de duvidosa fé democrática (ou nem sequer isso...), falhou redondamente o alvo. As criaturas (e serão muitas) privadas das patéticas e pouco inspiradas “marchas populares”, das sardinhas no fogareiro, e de outros divertimentos próprios dos santos populares não perceberam a lição que a direcção da IL, incapaz de compreender o sentimento popular, pretendia dar.

As pessoas indignaram-se, irritaram-se e isso trará frutos que cairão no regaço dos adversários da IL.

AS frouxas explicações do sr. Cotrim de Figueiredo no sentido de justificar a vertente política desta jornada e a comparação feita entre a sua anterior crítica à festa do Avante e a crua realidade deste arraial semi-selvagem são de uma evidência pungente. A seu tempo se verá se daqui deste encontrão de gente sairá ou não mais um foco de infecção a juntar aos que já afligem Lisboa.

Pessoalmente, não sendo adepto da IL, nada daquilo me afectaria não fora a claríssima perda de algum eco discordante na monotonia política que é o nosso triste fado.

A iniciativa da Iniciativa é uma espadeirada na água e ainda por cima com poucos salpicos. Uma oportunidade perdida e, até prova em contrário, uma tola incoerência num partido que precisa de se afirmar.

E uma liberalidade oferecida de bandeja aos seus adversários e detractores...  

homem ao mar 62

d'oliveira, 15.06.21

IMG_0795.jpg

Liberdade vigiada, 42

De que é que se queixam?

mcr, 15 de Junho

 

Já aqui o disse mas volto a repetir: não fomos vítimas de nenhuma artimanha inglesa mesmo se a “velha aliada” é capaz de tudo nas relações internacionais.

Todavia, no caso do turismo, a verdade é que eles tinham editado um par de regras que deveriam ser conhecidas de toda a gente sobretudo dos operadores turísticos algarvios (e também dos lisboetas, já agora).

Tais regras cuja necessidade não discuto eram claríssimas: acima de um determinado número de infectados no país a visitar impor-se-ia a regra da quarentena no regresso.

Isto era público como a equipa covid da Ordem dos Médicos, pela voz do seu  responsável, revelou num programa do Expresso da Meia Noite (SIC notícias).

Portanto não houve, neste caso, qualquer rasteira, mas apenas a aplicação estricta da lei inglesa em Inglaterra ou, melhor, no Reino Unido. Em Portugal, não especialmente no Algarve, os números passaram a barreira e  a consequência foi o país sair da lista verde.

Por cá foi um coro de virtuosas indignações. Mesmo os “especialistas” saíram a terreiro afirmando que os britânicos eram uns malvados, uns ineptos e, seguramente, ao serviço de uma qualquer internacional anti-lusitana. Estes especialistas lá saberão do vírus mas vê-se que leem pouco, muito pouco...

Uma dúzia de dias depois, qual é a paisagem infecciosa de Portugal? Pois uma alegre curva a subir forte e feio sobretudo na região de Lisboa. Só aí, verificam-se mais de metade das infecções no país.

Aliás, basta ver as reportagens televisivas para perceber  que algo corre mal no reino de Portugal. É o Bairro Alto completamente abarrotado de criaturas jovens, cara destapada, copo em punho; são as praias apinhadas apesar das famosas regras anunciadas, dos semáforos, das bandeirinhas.

Lisboa e a região estão a milímetros da barreira do desandar para trás se é que o Governo tenciona respeitar a sua anunciada vontade. Permitam-me que duvide pois sei como é que estas coisas funcionam e não tenho grandes dúvidas sobre uma eventual moscambilha sanitária. Para atrás anda o caranguejo e mija a burra, dirão os contraventores que já tinham feito o Sporting apesar de um e-mail policial oportunamente perdido nos ínvios corredores camarários. (A Câmara de Lisboa é mais perigosa que o labirinto do Minotauro e ali pode ocorrer tudo , mesmo quando isso possa acarretar violação grosseira da lei. O angélico presidente da Câmara, os inocentes vereadores, a pacífica multidão de assessores e mais um batalhão de burocratas ociosos entretêm-se a verificar se não há teias de aranha nos lustres do salão nobre mas esquecem-se do resto.

Eu não sou dos que dizem que houve delação na entrega À Rússia e antes a Israel, À China e à Venezuela dos nomes de organizadores de manifestações mesmo se o efeito é exactamente o mesmo. Houve apenas desleixo, incompetência, desprezo pelos direitos de cidadãos que se acolhem à proteção dos seus direitos, honra e vida em Portugal)

Agora, num outro sector, em que há várias entidades a responsabilizar temos que houve uma feta de aniversário com quinhentos convidados e cerca de 15% - para já pois não se sabe se houve assintomáticos – de infectados. Casamentos com pequenas multidões e idêntico número de doentes. Baptizados, idem, aspas, aspas.

Ora bem, se já foi possível identificar essas festas de arromba, pareceria natural que organizadores e participantes fossem convenientemente autuados. Conveniente e fortemente autuados, que diabo!

Alguém quer apostar que algo acontecerá?

Ora, os ingleses, que ontem mesmo, adiaram por mais um mês o desconfinamento local, sabem como este país funciona. E sabem de certeza que todos os dias cerca de metade dos novos infectados estão em Lisboa.

E Lisboa, juntamente com Faro é uma das entradas no país. Provavelmente, a principal. Trocado em miúdos, Lisboa prejudica o turismo. E prejudica-se! Ou antes, alguma, bastante, da população de Lisboa, está apostada em lixar o mexilhão porquanto o covid está, de novo e cada vez mais, a bater na rocha.

No meio disto tudo, algo de estranho ocorreu. O Sr. Presidente da República, naquela linguagem sibilina que usa quando lhe convém, asseverou que o desconfianamento não ia voltar para trás! Não sei se ele previu a excepção de Lisboa no caso das piores previsões se concretizarem, se mandou algum recado ao Governo ou se se distraiu, coisa que nele seria surpreendente...

E por falar em surpresa: alguém tirou um coelho da cartola. O PS portuense já tem candidato à CMP: trata-se de Tiago Barbosa Ribeiro, um apoiante de Ana Gomes e pelos vistos do independentismo catalão. Fora isso é o líder da concelhia socialista. Apesar de ser deputado pela segunda vez, não é exactamente uma “personalidade” portuense ou que os portuenses conheçam bem. É a 3ª ou 4ª escolha a sair da confusão em que o PS local parece ter-se metido. O fantasma de Rui Moreira paira sobre o partido mas, pelos vistos, este ex-bloquista  passado ao PS entendeu enfrentá-lo. Não espera a vitória mas lá saberá que está a fazer currículo.

 

 

Entretanto, acabo de saber que hoje, terça feira, ficamos ligeiramente abaixo de 1000 novos casos, sendo que pelo menos 600 se registam em Lisboa. Não são boas notícias, bem pelo contrário. Persisto na minha: enquanto os infractores conhecidos não foram fortemente penalizados, isto irá sempre em crescendo.  

 

(PS: não tenciono esquecer o arraial tonto e desafiador, da IL A seu twmpo, escreverei sobre essa absurda imbecilidade política e sanitária. ) 

* a vinheta: respondendo a um pedido de uma leitora eis uma "maternidade" africana (Congo)

 

 

 

 

  

homem ao mar 61

d'oliveira, 13.06.21

LIF_d0c94859b58f8caf81753a38e68f59ac.jpg

Liberdade vigiada, 41

À 3ª vez,  a praça ficou deserta

mcr, 13 de Junho

 

Ando comeste título na cabeça há três dias. Retiro-o da linguagem dos leilões e acho-o perfeito para a situação em apreço.

O PS, nacional regional e local está prostrado pela incerteza em relação ao Porto. Há anos, muitos, que não mete o dente na Câmara do Porto, melhor dizendo na Presidência da Câmara.  Em boa verdade, se é que bem recordo, não ganha a CMP desde que o dr. Fernando Gomes entendeu ir dar uma voltinha trágica e sem sentido num ministério em Lisboa que não servia para nada. Quando quis regressar, pensou, ingenuamente, que dado o seu anterior mandato, aquilo, a vitória eleitoral, era favas contadas. O adversário chamava-se Rui Rio, uma criatura que nem entre os seus concitava todas as simpatias. Um amigo meu, parceiro de bridge já falecido, velho amigo desde Coimbra e do CITAC, o João Gama jurava que a candidatura de Rio tenha enchido de felicidade os seus adversários locais “O gajo perde de certeza e isso livra o partido de o aturar durante muito tempo, ou até talvez sempre!”

O diabo é que Rio é teimoso tão teimoso quão Gomes foi fátuo, e ganhou o raio das eleições. Saiu quando já não podia concorrer. E saiu, como de costume: mordendo a canela de um improvisado sucessor que, depois de Gaia, queria ferrar o dente no Porto. Rio, ardiloso, fez-lhe a cama e a CMP caiu nos braços de Rui Moreira, um típico representante da velha e sólida burguesia portuense. A cidade, as suas gentes, não apreciam especialmente os Xicos Espertos. Menos ainda os candidatos que tem um pé fora e outro dentro como foi o caso de escolhidos pelo PS que não davam garantias de ficar na Câmara como simples vereadores se perdessem. E não ficaram como se sabe.

Moreira foi, oportunamente, acusado de tentar auxiliar a sua família no caso Selminho. Esta história eventualmente mal contada, continuou depois de um primeiro arquivamento e há de chegar a julgamento graças a uma reviravolta  judiciária que muitos entendem ter fundamentos meta-jurídicos. Enfim o que for se verá. MAs que há por aí quem aposte numa vitória de secrretaria, ai disso não restam dúvidas...

O PS, portanto, tem estado camarariamente órfão e isso excita profundamente o aparelho local socialista. Desta feita, mesmo com sondagens pouco animadoras, jurou ganhar a Moreira. E atirou para cima da mesa com uma leque de candidatos que incluía pesos pesados da máquina nacional. Todavia, parece que tudo isso eram salvas de pólvora seca. O primeiro candidato (depois de outros nomes terem sido chumbados) apadrinhado por Costa, durou um dia, pouco mais. Tratava-se de um Secretário de Estado em funções que, pelos vistos, ninguém conhecia. Ou conheciam mas não apreciavam. O homem tinha sido uma episódico Presidente substituto de Matosinhos (baluarte socialista) mas a coisa acontecera apenas por ter ocorrido a morte do presidente em funções, de resto ml relacionado com várias facções socialistas locais.

Da sua passagem (que continua, presume-se) pela Secretaria de Estado da Mobilidade (que será aquilo?) não há novas nem mandados. O seu nome não era conhecido  na cidade. Aliás, agora que desistiu ao fim de uma longa candidatura de 24 horas, já sabem quem ele é mas creio que nem por isso o creditem com alguma possibilidade de carreira autárquica sul de Matosinhos.

Depois falou-se numa senhora deputada “independente” de seu nome Rosário Gamboa. Foi sol de pouca dura porquanto, foi a própria que recusou ser lançada Às feras.

Havia, num horizonte pródigo de promessas um nome: o sr José Luís Carneiro. Parece que este cavalheiro, secretário geral adjunto do PS, acarinhava na sua resplandecente cabecinha, o desejo de se presidente da “Invicta”. Não sei se era verdadeiro esse enlevo autárquico mas, na verdade, a referida criatura providencial fez saber por comunicado que “está indisponível”!

Uma maçada tremenda tanto mais que o tempo urge. Rio, sempre ele, jura a pés juntos que os embaraços do PS são mais um frete a Rui Moreira, esse ingrato que tem toureado e bandarilhado o PPD.

A esquerda tripeira também acusa o PS, mas esta esquerda local também se entre-acusa, e de todo o modo nunca foi mais do que um pião das nicas nas tricas autárquicas. É irrelevante na cidade e pode ainda vir a ter sérios dissabores com o Chega que poderá ter algum pequeno êxito nos bairros mais populares.

No Porto, este campeonato foi sempre entre PS e PPD. Só mais recentemente, como se vê é que apareceu a versão “independentes centro-direita (com eventuais centro-esquerdistas a darem uma ajudinha).

Neste momento, o que se discute, é a proibição de S João à maneira tradicional. O que a Câmara propõe é apenas uma festarola controlada, de máscara, febre tirada à entrada de três recintos fechados, farturas, carrossel e pouco mais. O São João das ruas, a noite encantada, as rusgas, o alho porro e tudo o resto (e nem vos digo nem vos conto de que resto falo, oh saudades absurdas) fica adiado. Mesmo se a cidade não tem os números de Lisboa, nem perto disso, não há quem queira arriscar.

Como também não há já quem arrisque um palpite viável para a candidatura socialista. À falta de melhor porque não candidatam um martelinho de S João. Perdiam à mesma mas a malta livrava-se dessa coisa horrenda...    

* a vinheta: o abominável substituto plástico do alho porro, da erva cidreira, das flores de cheiro.    

homem ao mar 60

d'oliveira, 12.06.21

images.jpeg

Liberdade vigiada 40

Insistindo, insistindo...

mcr 12 de Junho

 

Quando se escreve num blog, há obrigações: A primeira é dizer a verdade, doa a quem doer. A segunda, obviamente, é corrigir o que se disse se errado.

Acontece que comentei há dias as nomeações de Pedro Adão e Silva e de Ana Paula Vitorino. Em nenhum dos casos usei qualquer argumento que se prendesse com os ordenados que irão auferir. Todavia, já que alguém entendeu informar-me, sempre direi que a segunda personalidade irá auferir um salário mensal de sensivelmente 12.000. Nada mal para quem, até à data era deputada. Quanto a Pedro Adão e Silva vejo que irá ganhar 4500 euros mensais. Nada mal, também porquanto  supera largamente o ordenado de professor auxiliar. Relembro que nunca tinha mencionado os ordenados pela simples razão de que isso pouco importa: estão na lei e quanto a isso não há argumento que valha. Todavia, que são bastante simpáticos, são...

Quanto a Pedro Adão e Silva, ouvi-o afirmar que, depois da queda de Ferro Rodrigues dentro do PS, se afastou da vida partidária. Ora agora, circulam informações que reputo verdadeiras que o dão com um dos membros do staff de Sócrates em 2008 e que, a esse título, participou activamente na elaboração do programa daquele político. Ou seja se se afastou não foi decerto quando Ferro foi substituído, como deu a entender. Por outro lado, como o oiço regularmente na tv tenho por evidente que ele defende normalmente as políticas do PS. De resto, parece mais que evidente que esse é o papel que lhe cabe, face a uma ex-militante do BE e a um do PSD.  Exactamente, como, por exemplo, Ana Catarina Mendes está na circulatura do quadrado  frente a Pacheco Pereira (que se é militante do PSD representa seguramente a ala esquerda da ala esquerda da esquerda (!!!)pepêdista, e a um militante assumido do CDS, mesmo que já não exerça qualquer cargo nesse partido (e é pena dado o que por lá vai...) há bastantes anos.

Se fosse eu a decidir sempre diria que Ana Catarina, sobre ser uma mulher inteligente e combativa, não deveria estar nesse espaço porquanto é uma política no activo. Mas isso já tinha acontecido com António Costa cuja popularidade muito deve à sua participação no programa.

E lembraria que a televisão é um meio extraordinário para lançar políticos ou para fortalecer a sua popularidade. Até Medina é comentador televisivo! Suponho que ninguém me pedirá mais e melhores exemplos...

 

Ontem comentei a triste vergonha, a bufaria desenfreada, que atingiu a Câmara Municipal de Lisboa. Até ontem, eu dava a Fernando Medina o benefício da dúvida sobre se ele sabia ou não qual o destino das informações sobre organizadores de manifestações.

Infelizmente, agora, sabe-se que, já em Junho de 2019, alguns jornais e a televisão, noticiavam frete idêntico: de facto numa manifestação sobre o povo palestiniano (que nem sequer chegou ou passou perto da embaixada de Israel) a CML enviou prestimosamente os nomes dos activistas palestinianos que se responsabilizaram. E por essa mesma altura, soube-se que actuações idênticas tinham ocorrido em manifestações sobre a Venezuela e a China.

Ora a menos que o dr. Medina esteja com alzeimer violento, e por isso desmemoriado, ele sabia perfeitamente do que a (sua) casa gastava. Não pode alegar “burocracias”, nem desconhecimento quanto à amável transmissão de dados à Embaixada russa. E muito menos vir alegar que tudo isto é politiquice suja e selvagem, a fossa da política. S menos que a amnistia Internacional agora também conspire conta o governo português e a gestão camarária de Lisboa.

Paatético e absolutamente tolo foi o gesto da CML de pedir à Embaixada que destruísse os dados enviados. A embaixada com uma surpreendente ironia, veio afirmar que nada fora transmitido a Moscovo e ao mesmo tempo lembrar que a activista russa (um dos três signatários) poderia ir tranquilamente à terra.

Como os leitores saberão, um cavalheiro russo de seu nome Navalny, decidiu ir tratar-se na Alemanha depois de ter “contraído” um envenenamento horrendo numa cadeia que o hospedava graciosamente. Como os russos não queriam que ele morresse na cela, puseram-no em liberdade condicional e às portas da morte. O ingrato súbdito do clemente Vladimir Putin entendeu que talvez na Alemanha o pudessem tratar. De facto, ao fim de seis longos meses (seis, repito, meio ano) estava melhor. Em vez de ficar no país que o salvara, entendeu, o teimoso, voltar para casa. E foi imediatamente preso não só porque estava vivo mas sobretudo porque violara a liberdade condicional. E já se prevê novo julgamento, provavelmente sob a acusação de roubo da carteira de Putin, assassinato de alguma velhinha ou algo do mesmo género.

Está pois tranquilizada a activista convidada a ir dar um passeio pela praça Vermelha. O diabo é se, com os vícios que se lhe hão de conhecer, cospe no túmulo de Lenin, ou rouba um par de carteiras aos sentinelas do Kremlin...

E está pois, tranquilizado, o dr. Medina e os silenciosos dirigentes do PS que andam mudos como carpas quanto a esta extravagante missão da CML.

Nota final: o dr. Medina afirmou, ou alguém por ele, que a lei sobre manifestações previa este género de informação. Não prevê. Todavia, o PS já fez saber que vai mexer na lei. Não é preciso. A lei é clara e a Lei da Protecção de Dados em vigor há já algum tempo também é claríssima.

Os leitores farão o favor de registar que não peço a demissão do autarca. Não vale a pena. Esta gente nunca se demite e pedir tal coisa só os acirra!

Só lamento uma coisa: u tinha uma impressão positiva, não vou dizer entusiástica, mas positiva, do dr. Medina.

Tinha, já não tenho.

(mais uma vez não falo das eleições autárquicas no Porto e da participação do PS. Depois de Pinheiro, eis que a deputada independente Gamboa também se esquiva. Neste leilão, a praça continua teimosamente deserta...)  

* na vinheta: bondosos e sacrificados polícias russos esforçam-se por levar cidadãos em esttado de maldos ebriedade para zonas da cidade onde o frio não seja tão intenso