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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

liberdade vigiada 113

d'oliveira, 22.08.21

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Liberdade vigiada 113

Encarar a verdade

mcr, 22 de Agosto

 

 

Os jornais noticiam a tomada de Mocímboa da Praia (cidade do  litoral a norte de Moçambique) por tropas ruandesas ( na totalidade mil homens destacados para o país). Pelos vistos, a operação durou escassos dias e foi coroada de êxito.

Fica por perceber para que serve o exército moçambicano. Se é que serve para mais alguma coisa do ser a guarda pretoriana do regime da Frelimo...

Um exército que arrasta os pés para cumprir o acordo de inserção de ex-tropas da Renamo nos seus quadros permitiria pensar que não precisa de mais efectivos.

Ora um bando de rebeldes  sem preparação militar deu-se ao luxo de ocupar a uma cidade costeira importante durante vários meses sem reacção de qualquer espécie.

Isto significa que milhares ou dezenas de milhares de cidadãos do norte de Moçambique (por enquanto apenas na província de Cabo Delgado) estão à mercê de ,eia dúzia de “bandidos armados” que põem e dispõem a seu bel-prazer da vida e segurança dos moçambicanos.

Moçambique entra, assim, de pleno direito, no clube dos países falhados, dos países incapazes de assegurar os mais elementares direitos dos seus cidadãos!

A afirmação não é minha mas de outros, bastantes, comentadores, entre os quais Miguel de Sousa Tavares mo último “Expresso”.

E junta-lhe mis alguns Estados desde a Somália à Líbia ou à Guiné Bissau.

Custa-me estar de acordo, pelo menos no que toca a Moçambique, uma terra onde vivi três anos. Conheci (conheço) alguns dos seus dirigentes ou ex-dirigentes, fui amigo de alguns e digo fui porque nunca mais os vi e quarenta/cinquenta anos depois é tempo demasiado para me reclamar de qualquer laço de amizade ou camaradagem.  

De todo o modo, desde que as incursões islamistas radicais começaram, sempre me surpreendeu (e meço as minhas palavras) a facilidade do seu progresso, a falta de resistência das forças militares e/ou policiais.

Agora, com a chegada de tropas estrangeiras, verifica-se que os insurrectos são batidos sem especial dificuldade e que as populações poderiam, e deveriam, ter sido protegidas.

Não o foram. Alguém é responsável. Dado o peculiar sistema político moçambicano, é ao Governo e ao partido que o suporta, que devem ser pedidas responsabilidades.

Tentar explicar o desastre iminente n Norte com outras razões é apenas tentar enganar o povo moçambicano e a comunidade internacional. O resto é pura paisagem...

 

 

liberdade vigiada 112

d'oliveira, 21.08.21

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liberdade vigiada 112

conversa inacabada

mcr, 21 de Agosto

 

Pelos vistos, o Afeganistão ainda é notícia. Por cá, o sr. Jerónimo de Sousa que, visivelmente, não é um historiador e provavelmente padece de perda forte de memória, entendeu afirmar que os americanos e a NATO tinham registado uma derrota histórica naquela parte do mundo.

Há menos de 30 anos, teria o actual Secretário Geral do PCP, quarenta e tal anos, o Exército Soviético, acossado por guerrilhas afegãs, começou uma pouco gloriosa retirada do Afeganistão. Foram mais de 100.000 soldados acompanhados por cerca de 300.000 afegãos um exército que também se liquefazia a casa dia que passava.

A intervenção soviética no Afeganistão durou dez anos e no que respeita a episódios bizarros foi ainda mais pródiga do que a americana. Foram tropas especiais soviéticas que liquidaram um primeiro ministro, aliás, comunista, para o substituir por outro igualmente militante mas pertencente a uma facção rival. O PC afegão teve ao longo da sua conturbada existência duas facções que se digladiavam a ferro e fogo. Convém recordar que a “influência” soviética no Afeganistão vinha desde os tempos de Dataline (1947) e que nunca deixou de intervir directa ou indirectamente no país.

Conviria, pois, a alguém que assistiu na primeira fila a este sórdido episódio militar, que envolveu continuamente tropas especiais russas e serviços secretos igualmente russos, que substituiu manu militari dirigentes “democraticamente” eleitos, sem falar nos executados, à boa e velha maneira, conviria, dizia eu, alguma contenção. E algum respeito pela verdade dos factos. Claro que o senhor Sousa pode sempre dizer, e no íntimo pensará assim, que a retirada ominosa se deveu a Gorbatchev que, como se sabe, não passa de um traidor e de um coveiro da heroica URSS que ruiu sem grande estrondo em poucos e acelerados meses, quase sem uma voz que se levantasse em sua defesa.

E recordar que nada fazia prever que a URSS se interessasse por este desgraçado país que, ainda por cima, tinha governos, como se disse, notoriamente influenciados por si, amigáveis.

Pelos vistos, esta história pregressa não ocorreu ao sr Jerónimo de Sousa. Perda forte de memória ou apenas falta evidente à verdade?   

 

Ainda sobre este mesmo assunto, ouve-se agora, em várias partes europeias, um melancólico “kaddish” sobre as mulheres afegãs que estarão (e estão, seguramente) em risco de ver ser imposta a burka, negada a educação superior, e cerceados os seus direitos.

Convinha explicar que, mesmo se isto é verdade (e não duvido que seja) é mínima a percentagem de mulheres que, de facto, estavam, “ocidentalizadas” (uso o termo á falta de melhor) e que serão eventualmente perseguidas. A enorme maioria da mulheres afegãs, vivendo fora dos centros urbanos importantes, nunca despiu a burka ou teve hipóteses de aceder aos pequenos privilégios das suas congéneres mais educadas.

E lembraria, também, que, em plena Europa, e em redor da principais cidades ocidentais, há dezenas ou centenas de milhar de mulheres muçulmanas que ainda usam os mais variados véus islâmicos, incluindo-se nessa multidão muitas europeias de origem cristã que se vincularam ao Islão. Até em Portugal, onde a presença de muçulmanos é insignificante se vêm “nicabs” e outros artefactos do mesmo teor. E note-se que, por cá, oficialmente é o Islão moderado que predomina...

 

E, finalmente, continuo na minha: um país que se desmorona em oito dias, cujo exército se rende sem um tiro, parece provar à evidência que legitima a insurreição taliban. Ou que repele qualquer contaminação de valores ditos ocidentais, civilizados, democráticos.

E, pelos vistos, demorou algum tempo até os americanos que eram quem morria e quem pagava a ocupação, percebessem que ninguém os queria ali. Nem mesmo as almas caridosas que, por essa Europa fora, choram as “irmãs” afegãs, depois de antes, poucos dias antes criticarem com aspereza a presença americana, a “ocupação” imperialista, colonialista e capitalista.

Em que ficamos?

 

liberdade vigiada 111

d'oliveira, 20.08.21

Liberdade vigiada 111

Irrelevante!

mcr,20 de Agosto 

 

O euro deputado Pedro Marques antecessor de do actual Ministro Pedro Nuno, confessa candidamente que o que mais teme na vida é a irrelevância!

Curisamente, é justamente isso o que é, foi e, muito provavelmente será: irrelevante.

A sua passagem pelo Ministério foi o que em fogo de artifício se chamava (ou chamava) um bouquet. Muita fogachada ed epois o silêncio e o fumo e a sensação de que todas aquelas luminárias tinham acabado).

Depois de ter feito dezenas de anúncios que nunca se concretizaram, o dr. Costa despediu-o misericordiosamente para o Parlamento Europeu. Foi o mais anódino cabeça de lista da história já longa das candidaturas ao PE, retirando a Maria Manuel Leitão Marques, uma ex-ministra inteligente, determinada e com obra feita, o eventual protagonismo que ela poderia ter tido.

E por lá anda, supõe-se que perdido entre as luzes de Bruxelas. Das poucas vezes que se ouviu, disse um par de trivialidades , de tal modo triviais que nem sequer causaram incómodo ou espanto.

Sempre que, por mero acaso ou para evitar um bocejo, me lembro dele e o meto na conversa. A pergunta é sempre igual: “Quem?”

Nessas raras alturas, só me acode o Garrett, e a palavra final do Romeiro: “Ninguém!”

Ao eurodeputado fugiu-lhe a boca para a verdade, num extraordinário exercício de auto análise  de que, a bem dizer, não o julgava capaz. Ele teme o seu inexorável destino: a irrelevância.

 

liberdade vigiada 110

d'oliveira, 19.08.21

Liberdade vigiada 110

Na casa da mãe

mcr, 19 de Agosto 

 

Quando chega a 2ª quinzena de Agosto, eis que me dirijo a Oeiras para estar uma temporada com a minha Mãe.

Assim, substituo o meu irmão que aproveita para ir para o Algarve, para a praia. Nesses quinze dias, apesar de médico, ele besunta-se todo e está horas e horas ao sol. De quando, em quando muda de posição como se faz aos leitões e aos cabritos. 

Convenhamos que, para médico, o processo não é exactamente o mais aconselhável mas, dada a idade dele, é possível que dali já não haja consequências de maior. 

Isto lembra-me o meu Pai, médico também e grand fumador. Passava a vida a afirmar que o tabaco fazia mal mas, no dizer da minha Mãe fumadora passiva que agora “anda nos cem anos”, aquilo era um mero discurso para os clientes e uma verdade da boca para fora. 

Nas vésperas de morrer, com um AVC tremendo, tinha finalmente deixado o cigarro o que o fazia andar nervosíssimo. Por vezes, penso que o abandono do cigarro já no fim dos sessenta, acelerou a morte ou pelo menos o AVC. E sinto remorsos por ter insistido com ele, sobretudo porque eu mesmo também fumava. Passaram-se anos antes de, por iniciativa própria, sem nada que me preocupasse, deixar o cigarro. Andei com um maço  no bolso durante um ano inteiro. Resisti heroicamente e agora celebro (pelo menos) 25 anos sem fumar. Mas tenho fortes saudades e sobretudo depois do café, chego a sentir um arrepiozinho na garganta a pedir o tabaquinho.

Portanto, Oeiras e casa materna. Uma que outra visita a alfarrabistas, livrarias e pouco mais.

A minha Mãe, sempre que a previno da minha iminente chegada, afirma que talvez não valha a pena eu ter o incómodo de ir. Todavia, vejo, à chegada, que a visita lhe agrada e aproveito para varejar os restaurantes próximos a fim de lhe trazer comidas que lhe agradem e que não se fazem em casa.

Amanhã, sexta, serão as sardinhas assadas, aqui mesmo do lado. O ideal seria irmos lá mas a excelente senhora já não quer sair de casa. 

Nos próximos dias farei uma lista de pratos que lhe agradem (e a mim...) para não a deixar tratar da logística alimentar. Uma das empregadas (a das segundas, quartas, quintas e sábados) partiu para férias e isso desequilibra um pouco a vida caseira. De todo o modo, a Mãe ainda gira pela casa num vaivém contínuo a fazer coisas.

Com cem anos é obra! 

 

 

liberdade vigiada 109

d'oliveira, 18.08.21

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Liberdade vigiada 109

falar da guerra de África

mcr, 18 de Agosto

 

 

Guerras de África houve várias e bastante constantes. A começar pelas de ocupação que duraram até aos anos 20 do século passado. Todavia, reserva-se o termo (com “guerra do ultramar” ou “guerra colonial” ) para o período de 1961-1974. E neste período as guerras foram três, iniciadas em épocas diferentes e normalmente localizadas em parcelas maiores ou menores dos territórios.

Na Guiné a guerra teve fundamentalmente duas frentes (Senegal e Guiné Conakri. Foram frentes extremamente activas, mantendo uma contínua pressão sobre o exército português, graças não só à densidade da mata, à falta de vias de comunicação, mas também ao apoio sem hesitações de ambos os países limítrofes.  E , em certa altura, cfr relatórios militares portugueses, verificar-se-á que os guerrilheiros tinham armas sofisticadas, algumas inexistentes no exército colonial e conseguiam defender-se com vigor e êxito da aviação militar portuguesa.  Em Angola, a frente começou no norte, teve uma época tardia no Leste , mas a partir de meados de 60, os combates eram esporádicos e a “trégua”  entre as tropas portuguesas e as incipientes forças da Unita traduziu-se numa forte pressão sobre os destacamentos do MPLA que tiveram assim pouco e difícil terreno para combater. No Norte, depois da erupção violentíssima dos guerrilheiros da UPA, a repressão do exército colonial, restabeleceu de certo modo a situação anterior mesmo se, nunca tivesse deixado de haver combates.

De certo modo, neste território, a joia da coroa, a rivalidade violente entre os três movimentos de libertação permitiu que a tropa portuguesa alcançasse alguma proeminência militar e reduzisse eficazmente a acção da guerrilha. De resto os países limítrofes Zaire e Zâmbia embora permitindo a existência de efectivos guerrilheiros  nos seus territórios, limitava-lhes os movimentos ao mesmo tempo que se desinteressava (o termo é justo) da actividade de espiões de Luanda que relatavam boa parte dos movimentos dos insurgentes.

Em Moçambique, a frente estava no Norte, em território makonde e só foi deslocada  a partir da famosa mas pouco produtiva “operação nó górdio. A partir dessa altura, começaram a aparecer vias de penetração guerrilheira na região de Tete  o que ameaçava o centro de Moçambique. Neste caso o país mais visivelmente comprometido na guerra foi a Tanzânia que se tornou um “santuário” da Frelimo. Nas regiões do Sul a fronteira com a África do Sul nunca foi forçada pela guerrilha aí inexistente e não permitida. Por junto, e com extrema dificuldade, algumas dezenas de militantes políticos conseguiram escapar de Moçambique e atravessar vastos territórios sul africanos e rodesianos para chegar a bases independentistas. Mas muitos tiveram sérios percalços e alguns foram ou imobilizados ou devolvidos a Moçambique.

Se a história puramente militar está em boa parte feita, já a história política ainda tem muito que andar. À uma, porque boa parte do que foi editado entre nós, sofre de uma posição política e ideológica do(s) autor(es) que mais do que uma narração imparcial, tão neutra quanto possível e não ocultando toda uma série de problemas, mormente as dissensões, guerrilhas intestinas e de influencia nos movimentos de libertação ou entre eles  é algo de raro entre nós.

.Há muita gente que entende sobrepor a sua íntima convicção aos factos que são atropelados, omitidos ou diminuídos consoante a posição de quem os descreve. Há também uma estranha condenação inicial do outro, seja ele o “turra” ou o”tuga”. Como se os membros das guerrilhas fossem todos iguais e os comandantes portugueses idem. Ora, nada disto é verdade. Nem todos os guerrilheiros foram sanguinários ou mataram mulheres e crianças ou serviçais negros dos colonos. Nem todos os comandantes portugueses exerceram uma repressão violentíssima, sem fazer prisioneiros mas apenas mortos na reconquista do norte de Angola, por exemplo.

A guerra mesmo com um corpo estável de tropas portugueses de cerca de 150.000 homens recorreu cada vez mais a tropas africanas, auxiliares, a comandos, a contra-guerrilheiros que no final das campanhas representava já umas largas dezenas de milhares de efectivos. Uma das razões porque “só” houve nove mil e tal mortos metropolitanos tem aqui a sua justificaçãoo. Havia voluntários africanos para morrer em vez do soldadinho português recém-desembarcado e desconhecedor de tudo. Não é por acaso que  o coronel Marcelino da Mata foi o soldado português mais condecorado de todas as guerras. Foi-o porque tinha reais qualidades militares e porque conhecia o terreno. Isto não significa que eu apoie (ou desapoie) as posições do dito militar. Não foi caso único nem em outros países deixou de haver “indígenas” que tomaram o partido dos colonizadores. Isso ocorreu na Indochina, na Argélia, no Kénia ou no Congo ex-belga. Do mesmo modo, aliás, houve portugueses brancos das colónias que tomaram desde logo o partido dos independentistas. Neste capítulo ninguém pode, com boa fé, falar em traição. Em Portugal, se é verdade que durante bastante tempo a causa colonial mereceu o apoio maioritário da população (incluindo de importantes membros da Oposição Democrática), houve também, e desde antes do desencadear das hostilidades (Angola 1961) uma minoria que defendia a independência das colónias. Recordo-me perfeitamente de, em 1957, vinha eu de Moçambique para o 6º ano do liceu em Coimbra,  ser interrogado por estudantes mais velhos sobre o “estado de espírito” dos negros moçambicanos. Em boa verdade, nem sequer pude responder pois não tinha nem idade nem preparação para apreciar a questão. Aliás, lá, isso nem sequer era, nos meios em que me movia, uma questão!...

Há poucos dias, uma historiadora portuguesa indignava-se pelo facto de, durante a guerra de África, tropas e/ou agentes portugueses terem lançado alguns raides em países vizinhos das colónias, nomeadamente no Senegal (onde houve mesmo tropas comando portuguesas em acção) na Guiné Conakri (a famosa “operação mar verde”) ou na Tanzânia onde agentes portugueses penetraram para atacar o chefe Lázaro Kavandame, um makonde que teve posições importantes no início das hostilidades e que mais tarde entrou em ruptura com as chefias da FRELIMO.

Em boa verdade, a lógica militar tinha razão de sr: não poderia permitir-se que nesses países limítrofes e apenas do outro lado da fronteira se acoittassem grupos armados que, uma vez terminada a sua missão ,nos territórios coloniais, passavam a fronteira e não tinham com que se incomodar. Os africanos não foram os únicos a usar a estratégia dos “santuários”. O procedimento foi p mesmo durante a guerra do Vietnam (e daí as invasões e bombardeamentos do Laos e do Cambodja, na da Argélia contra os franceses. Obviamente, os atacados repostavam tanto mais facilmente quanto os países limítrofes eram militarmente fracos. Daí as cautelas usadas pelo Zaire e pela Zâmbia no que toca aos guerrilheiros da UPA e doo MPLA e, em menor grau, da UNITA.  Kinshasa estava cheia de espiões pró-portugueses, a PIDE mantinha relações quase amistosas com a polícia do Zaire.

Conflitos já não coloniais mas modernos apresentam as mesmas características. Convenhamos que para os insurgentes, a solução de passarem a fronteira para escapar à repressão é uma necessidade que

obriga os perseguidores a violarem território alheio. Normalmente, o expediente tem resultados limitados, pois, apesar de tudo, há o risco de ser descoberto e de causar um escândalo internacional, tanto maior quanto menos importante é o país agressor, De todo  o modo, pelo menos no que toca às queixas do Senegal e da Guiné, a reacção internacional foi escassa  não só porque as acções portugueses foram raras mas sobretudo porque havia o embaraço da proteção a grupos guerrilheiros.

Em Moçambique, graças a Jorge Jardim, um magnata ligado a vários interesses no Malawi, Rodésia do Sul (actualmente Zimbabue)  e África do Sul houve alguma movimentação de agentes portugueses e claras cumplicidades locais.

Uma outra questão sobre a qual o silêncio é pesado, diz respeito às relações da PIDE com o Exército. A primeira, em África substituía ou complementava a “Inteligência” militar. Havia uma forte colaboração e isso de resto foi depois vi´sivel na não perseguição da polícia nas colónias mesmo depois do 25 de Abril e, provavelmente, n moderada repressão que o MFA exerceu sobre a PIDE.  Mas isso é outra história que também alguma vez poderá ser contada. Esperemos que os famosos arquivos (e sobretudo o dos informadores!) sejam finalmente disponibilizados ao público. Ainda hoje, desconheço os nomes das criaturas que me foram carregando os processos (14, catorze!) de que fui alvo. Como dizia o inspector Sachetti, uma vez que em grupo fomos protestar já nem sei porquê, “os nossos informadores estão entre vocês, os democratas. Não vale a pena recrutar adeptos do Estado Novo porque esses são olhados com toda a desconfiança”.

Acho que ficámos sobressaltados, eventualmente amedrontados mas, na verdade esquecemos rapidamente as palavras do polícia. Demasiado rapidamente...

liberdade vigiada 108

d'oliveira, 17.08.21

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Liberdade vigiada 108

Só agora começou...

ou será a mesma história?

mcr, 17 de Agosto

 

Eu percebo que o meu texto de ontem sobre o desastre medonho do Afeganistão incomode muita gente. E gente decente, honesta, compassiva e civilizada.

Todavia, continuo a pensar que era imperativo escrevê-lo pois a desmemória histórica, inocente ou de má fé, vigora por aí e desenfreadamente.

Eu gostaria que não se visse no que escrevi qualquer espécie de apreço à “realpolitik” que é algo que sempre esteve longe dos meus horizontes. Tentei apenas ultrapassar a indignação fácil da “bem-pensância” indígena que nunca deixa de tentar dar uma bicada , no capitalismo, no imperialismo, no conservadorismo, e em mais um par de  “ismos” fáceis e prontos a usar.

E não são apenas os saudosos da finada e não chorada União Soviética que deu forte impulso ao desastre afegão com os dramáticos resultados que se conhecem. Há mais criaturinhas como a “minha tia, cheias de bondade e aletria (O’Neil dixit)que, assistiram sem um murmúrio aolongo de vinte anos ao que se passava no Afeganistão. Pelos vistos nunca viram que, fora as cidades, as bases militares, as principais vias de comunicação e os aeroportos, toda aquela desolada vastidão, de montanhas e vales escondidos, era território onde o taliban se movia como peixe na água.

Também não viam que o esforço de guerra era suportado a 90% pelos EUA, em soldados, material, dinheiro e gorjetas aos governamentais. Que a corrupção campeava livremente ao mesmo tempo que  o suposto exército afegão se ia entretendo nos quartéis ou em pequenas acções onde o esforço era feito pela aviação americana, pela artilharia americana pelos meios terrestres americanos.

E não viam, ai a miopia!, que entre o Afeganistão e o Paquistão havia, há, sempre houve, a famosa “zona tribal” onde os guerrilheiros de Alá se escondiam, descansavam, saravam os ferimentos, e traficavam livremente todos os ópios  que a terra produzia.

(aliás, e pelos vistos, já ninguém se recordava que esse mesmo Paquistão fora o santuário de Bin Laden durante anos a fio até ao raid ordenado por  Barak Obama que não teve um aplauso generalizado como também ninguém agora lembrará.)

Agora, as horrendas cenas do aeroporto de Cabul é que estão a dar! Não que sejam falsas mas apenas porque, mostram na sua crueza que “aquilo”, o Afeganistão dentro do concerto das nações, era um castelo de cartas, uma miragem, um falsificação, em suma, nada. E era em nome desse nada que a América, a Nato, alguns reticentes países árabes, as boas consciências, as feministas, os defensores de todos, e mais algum, direitos de todas, e mais alguma, minorias andavam por ali a matar e a morrer.

Também ninguém viu que a proposta de Trump tinha pelo menos uma base: o cansaço, a opinião pública americana, o isolacionismo habitual e a escassa, cada vez mais escassa, vontade de enterrar ali milhares de milhões de dólares sem retorno de qualquer espécie. Trump é caso patológico mas não é absolutamente um imbecil. Viu na “paz” que negociou trapalhonamente uma ajuda para as eleições que ia disputar. O homem estava-se nas tintas para umas dezenas de milhares de democratas afegãos, os de boa fé, claro. “A América, primeiro” queria dizer que aqueles vagos indígenas  esfarrapados, enlouquecidos pela jihad não valia o sangue de um puro americano, pelo menos o sangue de um verdadeiro republicano, muito mais útil para invadir Capitólios e esmurrar negros, latinos, chinocas, coreanos ou democratas, gente tíbia sem fé na América.

Caros leitores, este espectáculo enoja-me como me enoja a piedade agora descoberta por um par de criaturas que de repente se tomou de amores pelas desgraçadas mulheres afegãs, perdão pelas raras que ousaram deixar de usar a burka e quiserem estudar e existir.

Isto esta colectiva emoção vai durar dez, quinze dias, até ao fim de Agosto: depois virão as autárquicas, o começo das aulas e a guerrilha do Orçamento. Entretanto o Afeganistão lá estará onde sempre esteve, na fronteira do esquecimento.

Como a Somália, o Sudão do Sul, os rohinga, os náufragos do Mediterrâneo e outros... tantos outros.   

*a vinheta  : alguém se lembra da queda de Saugão? do assalto de desamparados à embaixada dos EUA? dos anos que se lhe seguiram? dos boat people? Aqui, infelizmente para os que ficam não há mar...

liberdade vigiada 107

d'oliveira, 16.08.21

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Liberdade vigiada, 107

saudades de Trump

mcr, 16 de Agosto

 

Na sequência de uns bizarros acordos com os talibans “moderados”, o antigo Presidente dos EUA anunciou e começou a concretizar a retirada das tropas americanas do Afeganistão.

Em boa verdade, os cidadãos americanos estavam faros daquele “buraco” que consumia milhões de dólares por dia e onde morriam soldados americanos quase diariamente.

Digo americanos porque, apesar de haver uma suposta intervenção da NATO com tropas de vários países europeus (até Portugal) era a América quem tinha todos os encargos e quem enviava a grande maioria das tropas.

A intervenção no Afeganistão deveu-se ao facto de serem os governantes deste país (todos talibans) quem dera refúgio aos assassinos do 11 de Março mesmo se, como se sabe, a grande maioria dos intervenientes islâmicos fossem sauditas.

Isso e o facto de naquele desgraçado país, saído de uma guerra de libertação contra a invasão soviética de que, pelos vistos, já ninguém se lembra (!!!) reinar um total desprezo pelos mais elementares Direitos Humanos e a “sharia” mais estúpida de sempre (convém explicar que a “sharia é, de per si, estúpida e não vigora em grande número de países islâmicos).

Nem vale a pena falar no regime imposto às mulheres, desde a “burka” à negação de qualquer espécie de instrucção escolar.

(eu mesmo, traduzi para português um relato sobre o tema: “O grito silenciado” de Ana Tortajada, Asa, 2002. O relato , escrito na primeira pessoa vale pelo testemunho corajoso de alguém que se arriscou a ir ver “ao vivo” o que por lá se passava).

Portanto, e antes de mais convirá estabelecer que, os males de sempre do desgraçado Afeganistão se viram reforçados por uma estúpida e incompreensível intervenção soviética que se saldou numa retirada ignóbil, na morte de milhares de soldados soviéticos, na destruição de um sistema político frágil e no massacre gigantesco das populações afegãs apanhadas no meio dos contendores. A isso seguiu-se o regime dos insurgentes talibans e as suas criminosas relações com a Al Qeda e similares.

Finalmente, a intervenção americana e/ou aliada nunca atingiu nenhum dos objectivos a que se propôs. É verdade que as mulheres (ou uma minoria das mulheres, mormente as das cidades) puderam aceder à escola, aos cargos menores da Administração Pública mas nunca isso foi algo de seguro e definitivo. A guerra larvar que nunca terminou (a partir de zonas de “santuário” no Paquistão (as famosas zonas tribais onde a administração paquistanesa é um puro mito) deixou sempre suspensa sobre as cidadãs afegãs esta temível espada de Dâmocles.

Assim, é bom que ao analisar esta retirada americana, decidida, negociada e começada por Trump, tentemos perceber se o actual Presidente Biden, poderia ter revertido essa decisão.

Estou absolutamente convencido de que tal não seria possível. A América, a opinião pública americana e todos os analistas não só estavam fartos mas sobretudo convencidos de que o prosseguimento da ocupação seria sempre desastroso, caríssimo e, há que dizê-lo, sobretudo à luz crua dos acontecimentos destas duas últimas semanas, contrário à própria opinião pública (?) afegã. A continuação dos americanos só convinha a uma pequena parte da população, residente nas cidades e corrupta até à medula. Para a esmagadora maioria da população afegã, os estrangeiros eram e são “infiéis”, inimigos que, no caso, também são “ocupantes”.

Não ver, ou, sobretudo, não querer ver isto, é apenas uma cegueira absurda dos que, agora, choram a desventura das mulheres afegãs. E de todos os que, de perto ou de longe, colaboraram com o “invasor” e com o “poder colaboracionista”.

Biden já tem preocupações que lhe cheguem dentro de portas, a começar pelos negacionistas da vacina, pelos republicanos que tentam em alguns Estados do sul modificar as leis do recenseamento eleitoral de modo a afastar minorias negras, latinas ou outras. Isto para não falar no financiamento da despesa federal contra a qual se tem erguido um muro de trumpistas vencidos mas não convencidos.

Por outro lado, há, sempre houve, nos EUA uma forte ideia isolacionista que pretende, dê lá por onde der, proibir a intervenção americana no exterior dos EUA e, em segundo lugar, para lá do continente americano.

Esta guerra era impopular desde o início pelas razões acima expostas e não apenas entre os republicanos. Uma importante minoria democrata, mesmo que brandindo outros motivos, via a guerra do Afeganistão com maus olhos.

Tentar atirar para cima de Biden com uma situação que ele não provocou nem podia sequer, sem grande risco, reverter, é pura demagogia e profunda ignorância. Ou uma mera tentativa de meter no mesmo saco o actual e o antigo presidentes dos Estados Unidos. O anti americanismo, de mistura com o anti capitalismo e o anti imperialismo é poção venenosa que dura e serve sempre. Basta ler certos articulistas nos jornais de hoje que, de resto, quase nem disfarçam o sentimento que os move.

Faço parte dos que lamentam a sorte dos afegãos. Já lamentava aquando da invasão soviética que, curiosamente foi aplaudida por muita gentinha que hoje se atira a Biden como gato a bofe.

Fui contra a intervenção no Iraque que deu no que deu. Fiquei horrorizado com o modo expedito como foram abandonados os curdos que, na Síria e no norte do Iraque derrotaram o Estado Islâmico no terreno. Já antes tinha denunciado a tentativa de agressão do Irão pelo Iraque que teve, por razões conhecidas, a bênção de muito boa gente que odiava os chiismo mais ainda que o ditador corrupto que o atacava.

Neste mesmo instante, a China ameaça Taiwan, uma democracia, repele com inusitada violência os democratas de Hong-Kong, proíbe a frágil oposição em Macau, e mantem, dentro deportas zonas imensas sob quase ocupação militar, a começar pelos uigures e a continuar pelo Tibete. As delicadas criaturas que censuram Biden por abandonar um país que não quer ser ajudado nem reconstruído, que vem sem uma censura os talibans tomarem Cabul sem um tiro, nem se lembram destes pequeno episódios da violência imperial. E nem sequer vou relembrar o espesso silêncio que as mesmíssimas criaturas usam sobre a Venezuela ou a Nicarágua, pais onde o poder já proibiu uma boa dúzia de candidatos de se apresentarem a eleições...

O mundo não ´só é um lugar estranho mas sobretudo perigoso. E com certos comentadores torna-se absurdo... 

* a vinheta: precisam de legenda?     

 

liberdade vigiada 106

d'oliveira, 15.08.21

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Liberdade vigiada, 106

Parabéns, Joaquim !

mcr, 15 de Agosto

 

Conheci o Joaquim Gomes Canotilho no longínquo ano de 1960 quando em Outubro entrei como caloiro (costuma dizer-se que, no nosso ano, não houve caloiros  mas eu senti-me, desconfortavelmente, caloiro nesse ano de... caloiro) na Faculdade de Direito. É mesmo um dos condiscípulos que mais cedo conheci e com quem sempre me dei bem.

O Joaquim distinguiu-se não só como bom aluno mas sobretudo como excelente pessoas, bem disposto e sem nenhum dos tiques dos bons alunos, os “ursos” como ainda se dizia.

Para mim  não foi surpresa o seu percurso académico, o êxito que desde sempre teve e a fama que rapidamente granjeou como especialista em Direito Constitucional.

Já não sei quem o apodou de “O Professor” dada a sua extraordinária capacidade docente, o seu desapego às mundanidades, o seu interesse por diferentes áreas do Direito sem esquecer a vertente cultural que nunca descurou.

A prova provada está nas sucessivas reedições da “Constituição da República Portuguesa anotada” (uma parceria com Vital Moreira, outro notável constitucionalista que se tornou conhecido pela intervenção política quer como constituinte quer depois como deputado e mais tarde como juiz do Tribunal Constitucional).

O Joaquim nunca abandonou Coimbra e a sua Universidade mesmo se , e por várias vezes, tivesse leccionado fora de Portugal. E essa é uma das razões por que ”Direito Constitucional e Teoria da Constituição” (Treze, 13, ddições!!!) da sua autoria continue a ser reeditado.   Note-se que onde quer que fosse, deixava um rato de seriedade científica, de erudição e bonomia e de simpatia que num panorama universitário com o português são mais a excepção do que a regra. De quando em quando lá o encontrava, os nossos caminhos nunca se  cruzaram mas eu ia sabendo dele, por colegas e amigos que não regateavam elogios ao jurista, ao professor mas também, e sobretudo, ao homem.

A última vez que nos cruzámos foi por altura do enterro do Eugénio de Andrade. Nessa altura era o leitor culto e entusiasta que ali vinha despedir-se e agradecer a grande mensagem poética do Eugénio que também conheci e com quem privei bastante.

Um conhecido meu, também presente no cemitério, espantou-se “aquele gajo também lê o Eugénio?” Tive de lhe dizer que “aquele gajo” lia Eugénio e muitos outros, que desde que o conheci era alguém atento à cultura que se fazia em Portugal e que o facto de ser um grande constitucionalista não o impedia de ser homem culto fora do exclusivo círculo do Direito. Atrevo-me até a pensar que justamente a sua enorme curiosidade intelectual só melhorou e reforçou a sua profunda cultura jurídica.

Isso, aliás, ficou patente nas relativamente raras entrevistas que foi dando ao longo da sua vida e especialmente depois do justíssimo Premio Pessoa  em 2003.

Descobri, hoje, ao ler um excelente artigo de Paulo Rangel, no “Público”, que o Joaquim fez recentemente 80 anos, o que o torna ligeiramente (por meses) mais velho do que eu. Rangel em duas colunas evoca o professor (e colega) com entusiasmo, admiração e alegria. O seu testemunho, opinião de alguém, bastante mais novo, com diferente visão do mundo e da política, diz muito quer do Joaquim, quer do autor do artigo e prova que há um território para além da política de todos os dias que pode e deve ser partilhado por todos quantos se interessam a sério por Portugal.

Parabéns, Joaquim. E um forte abraço

  

liberdade vigiada 105

d'oliveira, 14.08.21

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Liberdade vigiada 105

De que falamos quando falamos de país?

mcr, 14 de Agosto

A Europa conheceu durante séculos uma continua movimentação de povos vindos da Ásia que pouco a pouco se foram entranhando de oriente para ocidente desde o tempo do império romano. Nem sempre foram tempos de ocupação violenta de territórios mas tão simplesmente de movimentos consentidos pelo Império que, aliás, também ele tinha irradiado da centro de Itália até ao Ocidente, à fronteira anglo escocesa, à Germania e aos territórios romenos. Há pois aqui um cruzar múltiplo de povos. As “invasões bárbaras” mudaram ligeiramente as características raciais dos povos romanizados, Depois, no sul da Itália e na península ibérica houve uma segunda vaga de invasões, desta feita por gentes muçulmanas, fundamentalmente berberes do Magrebe, tropa de choque e camponeses sem terra que sob a promessa de saque e de terra para subsistir constituíram o grosso da ocupação árabe. E isto em várias vagas. No território português, a sua presença é importante no Alentejo e no Algarve, sendo mínima a norte do Mondego. Em Itália, é na Sicília especialmente e um pouco em todo o sul que a sua presença ainda hoje se verifica. Na Espanha, apesar da expulsão dos “moriscos”” ainda se notam traços da sua passagem e permanência. Outra das populações que se encontra disseminada pela europa desde os tempos do Império é a judaica expulsa à força do seu território original. A ela terá acrescido uma segunda vaga de convertidos à fé mosaica esses de origem europeia que terão durante séculos uma fortíssima presença em toda a Europa de Leste. E por lá viveram até ao século XX sendo alvos esporádicos de “pogroms” onde se distinguiam russos, polacos, lituanos e ucranianos. Bata ler “Taras Buba” de Gogol para adivinhar o conflito sempre latente em que os judeus servem de vítimas entre matanças de polacos, russos e ucranianos.

De todo o modo, a minoria judaica e a cigana estão na história da Europa quase desde sempre. E também continuamente repelidas ou meramente toleradas pelos europeus cristãos e sedentários. Os primeiros, quer em Portugl quer no resto da Europa sobretudo ocidental dsempenharam cargos importantes e tiveram forte influência  graças ao facto de poderem – ao contrario dos cristãos – exercer profissões ligadas ao comércio e à incipiente banca. Há, também um rasto de artistas  e intelectuais de fé ou de origem judaica que é impressionante.

Escusado é dizer que periodicamente foram alvo de perseguições violentas, de expulsões (de Portugal e de Espanha, sobretudo) ou de licença de permanência insegura desde que abjurassem.

Os ciganos foram sempre uma minoria perseguida onde quer que assentassem arraiais.  Resistiram a tudo, mesmo aos nazis que os enviaram em grande número para os campos de extermínio e, mesmo hoje, são pouco mais que tolerados na Europa de Leste. E, todavia, a sua música, melhor as suas músicas são quase que o retrato de regiões inteiras desde a Andaluzia até à Hungria e países eslavos do sul.

Depois da descoberta da América, a Europa “exportou” multidões gigantescas para os novos territórios o que por sua vez fez quase  desaparecer populações autóctones nesses territórios.

A partir do século XVII começam a surgir na Europa pequenas minorias de cidadãos crioulos vindos das colónias e que irão ser importantes não só no comércio colonial e post-colonial mas também noutros campos de actividade. Não são muitos mas há países onde eles se vão notando. Incluindo a França que teve no pai de Vitor Hugo um dos seus grandes generais. O filho, esse está no Panteão e é um dos ícones da literatura francesa e mundial.

Os séculos XIX e XX trouxeram para as metrópoles coloniais fortes contingentes de asiáticos, americanos e africanos que se foram miscigenando com maior ou menor felicidade nos territórios de chegada. Tirando o especial caso da Alemanha nazi que enviou para os campos de concentração algumas dezenas de milhares de oriundos da Namíbia e do Tanganika, eles mesmos muitas vezes, quase sempre, filhos de colonos alemães, a França, a Inglaterra, a Holanda e a Bélgica tem  hoje populações de diferentes origens de diferentes datas de chegada das antigas colónias, estabelecidas e enraizadas nos antigos países colonizadores. Entretanto, a Alemanha conta agora com fortes minorias, religiosas, culturais e raciais que escolheram o pais para viver longe da miséria, das guerras, da corrupção endémica  e doa assassínios em massa.

Portugal não é excepção mesmo se a colónia africana (e as brasileira e indiana) seja de instalação relativamente recente (desde os tempos da guerra de África). Todavia, existiu, desde quase o início dos Descobrimentos, um fluxo importante de escravos negros que se disseminou no Sul do país e em Lisboa. Até a toponímia desta cidade está a exemplifica-lo, desde a rua as Pretas até à do Poço do Negros. Desapareceram no seio da população metropolitana ao fim de gerações. Há alguma importante literatura sobre o assunto  (por todos, J R Tinhorão, “Os negros em Portugal”)

Entre s teorias sobre a aparição do “fado”, uma há que o atribui à música de escravos do Brasil. Não tenho conhecimentos que me permitam sequer discutir a questão mas não deixa de ser curioso o facto de haver sobre a “canção nacional” uma teoria deste tipo.

Que o “negro” em Portugal tem raízes antigas na nossa literatura é um facto incontroverso. Relembra-se, a título de exemplo, o “Pranto da Maria Parda”. Alguns autores tentam falar em “mulher de baixa condição” mas o mais provável é que se trate de uma mulher negra (os autores portugueses afirmavam que os indígenas do sul de África eram “pardos” e não negros como os do golfo da Guiné)

O professor Paulo Quintela, grande divulgador do teatro vicentino através do TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra) dava indicações cénicas de escurecer o mais possível os traços da mulher em questão. De a fazer nega. Numa palavra.

Nas artes plásticas, há um célebre quadro sobre Lisboa (sec XVII) onde se vê um negro com as indignais de Santiago o que demonstra, que mesmo nessa época, já havia africanos com funções destacadas que os poderiam levar até essa dignidade.

Tudo isto, para por um lado, refrear a ideia de certos “identitários” sobre Portugal (e sobre a europa) que subitamente se insurgem conta a entrada de pessoas oriundas de outros países e outras culturas, sob o pretexto da desnacionalização descaracterização da pátria mas também para tentar reduzir à sua exacta dimensão os clamores, as queixas, as acusações, que pequenos grupos alegadamente anti racistas usam para traçar uma fotografia sinistra de um país que tem um primeiro ministro indiano, um ministro das finanças da esma cor e origem e uma ministra negra. Será pouco, até estou disposto a convir, mas a verdade é que Portugal é o país escolhido para viver incluindo pessoas que acham o país racista. Ou são tontas ou gostam de sofrer a malvadez lusitana. Masoquismo racial?

Tudo isto, para lembrar que Portugal é um país que desde os tempos da colónia brasileira enviou para os trópicos anualmente dezenas de milhares de cidadãos que viviam na miséria mais infame. Se, acaso, nos países que acolhem portugueses actualmente (França, Alemanha, Suíça, Espanha, Grã Bretanha ou Luxemburgo entre outros) vigorassem ideias identitárias e anti portuguesas que destino propõem os nossos identitários para os nossos compatriotas?

 

(a propósito, vale a pena recordar mais um despropósito de uma senhora deputada negra, originária da Guiné, que a respeito de uma mensagem tonta, imbecil, esdrúxula e mal grafada com erros no Padrão dos Descobrimentos arremete contra dois cavalheiros (que nada tem a ver um com o outro excepto o facto de não comungarem da mesma mistela ideológica da referida senhora) referindo que deveriam ser eles a custar a limpeza do monumento! Até ao momento, esta senhora deputada que nada ainda acrescentou de útil ao país e aos eleitores, só tem produzido “ruído” e o pequeno escândalo de, uma vez no poleiro, abandonar a formação que tontamente a levou até lá. Seguramente que passará rapidamente ao esquecimento uma vez que não se descortina partido político que a queira no seu quadro nas próximas legislativas. A única coisa de incomum na sua entrada no parlamento foi o facto de um agora ex-asessor dela, usar saia preta sobre meias verdes horrendas... Fora essa pequena bizarria pour épater le bourgeois nada de interessante se pode dizer sobre o insólito par)

* Na vinheta: portugueses em Bronzes de Benim. Ou de como se sentrou também na arte africana e logo numa das regiões artísticas mais prestigiadas.em África 

 

liberdade vigiada 104

d'oliveira, 13.08.21

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Liberdade vigiada 104

De um “pobre homem” de Buarcos

mcr 13 de Agosto

 

os leitores perdoarão que desta vez eu volte ao meu território de infância e pré-adolescência ou seja à praia da Figueira. Tenho boas e sólidas razões para tal: vivi até aos 13 anos na rua (hoje avenida) que ligava a figueira da Foz a Buarcos, mais precisamente entre a ponte do Galante e o “ferro de engomar”, verdadeiro princípio da então chamada rua de Buarcos.

A casa era pois entre a praia, logo do outro lado da rua, e a mata de Sotomaior, uma mata encantada que além de um parque infantil tinha uma enorme quantidade de mata densa com eucaliptos, mimosas, plátanos e vegetação local para não falar num renque de figueiras mesmo junto ao antigo fortim de Palheiros que ficava mesmo atrás da nossa casa.

Este fortim, nos antigos tempos em que rudo aquilo era um descampado tinha por missão trocar tiro com o forte de Santa Catarina na foz do Mondego e o forte de Buarcos que guardava a enseada. Aquela longa costa de praias (aproximadamente cinco quilómetros) fora por demasiadas vezes alvo de ataques de piratas mouriscos e de corsários ingleses (no tempo dos Filipes que, justamente por isso não só restauraram as fortificações do rio como as muralhas de Buarcos).

A praia, dita “da Claridade” era, foi sempre enorme e aprazível mas com a construção de molhes de acesso ao porto da Figueira, tornou-se imensa, larguíssima enquanto as praias a sul da embocadura do rio minguavam velozmente.

De há muito que os figueirenses falavam de uma trasfega de areia deste a margem norte para a margem sul mas isto de ser de uma pequena cidade ainda que antiga não tinha peso em quem decidia.

Ora, agora, parece que há um projecto sério, realizável, de construir um by-pass que andará por baixo do leito do rio e possibilitará retirar a areia a mais do norte para o sul dunar da Gala, Cova e  Lavos, de modo a restabelecer o equilíbrio, restaurar as praiss, defender as povoações.

O Ministro Matos Fernandes assegurou que “a obra é para andar” e eu, um pobre homem de Buarcos, criado à beira água, vou acreditar. E vou louvar mas também exigir que não passem mais anos de promessas por cumprir. Não é só a defesa da praia norte que precisa de minguar fortemente para se chegar à borda d’água sem desfalecer pelo caminho mas também porque há que defender a orla costeira sul, as suas gentes pescadoras e pobres, o paraíso dos surfistas, tudo. Curiosamente (mas posso estar deficientemente informado) nenhum dos programas dos candidatos à Câmara (desde os habituais até Santana Lopes)  toca na questão, Por um lado é provável que pensem, e bem, que aquilo, é obra para o Estado Central, mas apesar de tudo alguma referência mereceria nem que fosse a título de reivindicação municipal e concelhia.

Leitores e amigos novos e, sobretudo, antigos (e sobrevivos)isto é apenas um blog, uma conversa mansa sobre o estado do mundo, de nós, da nossa gente mas mal ficaria que eu, que devo tanto aquela terra (memórias sobretudo), deixasse passar a ocasião. Ontem, numa conversa até disse que iria a Fátima a pé. Não que acredite mas se isso fosse condição sine qua non, juro que pegaria num cajado e lá partiria por esses caminhos fora. Todavia, não é de peregrinações que os figueirenses (e os de Buarcos, pois então!) precisam mas de obras que também sejam exemplares para a defesa da orla costeira nacional. No caso em apreço, tudo indica que a coisa é praticável e sempre seria um pontapé de saída para algo que de tão urgente seria um exemplo, um convite, um desafio.

 

Na vinheta: a praia da Figueira