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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 644

d'oliveira, 07.02.22

Morrer na praia 

mcr, 7-2-22

 

a semana que passou ficou marcada pela história pungente de um menino marroquino que caiu a um poço desactivado com uma profundidade de mais de trinta metros e um diâmetro entre os 25 e os 45 centímetros. 

A criança sobreviveu à queda, o que j´é um quase milagre e que nos faz acreditar no velho e pelos vistos verdadeiro dito “ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo”. 

Na impossibilidade de alguém poder descer pelo estreitíssimo poço houve um enorme esforço de escavar outro paralelo para tntar resgatar o menino. Cinco dia, longos, angustiosos, acompanhados em todo o mundo duraram esses esforços com a criança viva e aparentemente percebendo as instrucções que lhe chegavam. Quando finalmente tudo parecia encaminhar-se para um final feliz e ansiado por qualquer um de nós, eis  que a criança morre praticamente nos braços dos seus esforçados salvadores.

Um menino que morre é um pouco do nosso futuro que também morre.

E foi algo que comoveu todos quantos acompanharam esta tragédia.

Claro que houve televisões que se não coibiram de fazer disto, do acompanhamento de uma jovem vida que lutava obstinadamente, de um grupo de salvadores que nunca descansaram,um espectáculo onde para entreter um público ávido de notícias se multiplicavam entrevistas com gente da segurança civil, psicólogos e mais outros parlapiadores que, longe dos acontecimentos, sem informação que os ajudasse se alargaram prodigamente em divagações de toda a ordem num exercício de mera e triste vaidade, de vacuidade de hipóteses atiradas ao acaso. Tudo por amor às audiências e ao desejo de estar na televisão. Doentio e escabroso! 

Se, ao menos isto servir para poupar outras, eventualmente muitas vidas de crianças que, ignorando o perigo brincam perto de armadilhas mortais e as mais das vezes inúteis, já será um progresso mesmo que não justifique o canibalismo infecto de certas televisões, nacionais, nossas.

Como acima já afirmei, o futuro, o nosso  e o de todas as pessoas de bem ficou mais curto e mais triste.

Saliente-se a imensa onda de solidariedade em Marrocos e no resto do mundo civilizado. De quando em quando há situações e gestos que nos fazem acreditar na espécie humana.  

 

 

estes dias que passam 643

d'oliveira, 06.02.22

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Um mundo de sombras chinesas

mcr, 6/2/22

 

 

em Portugal também há labirintos. De buxo, claro e em jardins antigos e escondidos. Ou, mais recentemente, na política que se vai penosamente praticando por aí.

O último exemplo é o BE. Como qualquer cidadão sabe, este agrupamento (e digo agrupamento porque ainda não desapareceram os tiques originais de alguns dos grupos que o comstituíram, como de resto, atenta a sua, deles, natureza era previsível) sofreu uma pesada derrota eleitoral. Mis pesada ainda se tiveros em linha de conta que até ao último momento, a sua líder, marcava encontros com António Costa para a dia seguinte ao das eleições.

Isto mostra até que ponto, o BE andava perdido no seu (também) labirinto pessoal.  Chega a parecer autismo aquela ideia de reunião depois de o BE ter sido o mais encarniçado adversário de um entendimento , mesmo quando o PS lhe abria uma passadeira vermelha. Nada!

O bloco queria tudo como ocorre sempre com grupos maximalistas e...fanatizados por muito que esta palavra cause engulhos a vários amigos meus simpatizantes da causa.

O BE faz lembrar os dias alegadamente heroicos da fundação da 3ª Internacional que, porém, ocorriam numa época totalmente diferente desta (cem anos depois) , num cenário dramático de fim de guerra, de derrota pesada do Império Russo e de desagregação dos impérios centrais. O comunismo (melhor dizendo, o bolchevismo) saía de uma violentíssima guerra civil e havia a necessidade absoluta de criar algo que protegesse o frágil país soviético.

Mais: os “revolucionários” aproveitavam a perda de influência dos velhos partidos socialistas que tinham sem excepção votado os plenos poderes aos governos dos países em guerra.

Não foi a primeira tentativa de regressar a a uma suposta idade do ouro socialista que desde os miríficos anos sessenta foi sendo tentada, proclamada e... abandonada.

Em Portugal, chegámos tarde, como habitualmente, à presença de uma extrema esquerda no parlamento. Como, aliás à presença de uma alegada extrema direita ao mesmo  areópago.

O BE apareceu revestido de “novidade” mesmo se os dois mais importantes componentes (o trotskismo e o maoísmo) já tivessem dado sinais de acelerado envelhecimento e de absoluto irrealismo político e social.  

Medrou nos meios urbanos e sofisticados de uma “gauche divine” que achava o PC insuportável e demasiado comprometido com o regime soviético que o amparou sempre, o alimentou e o educou

Nunca saiu das grandes cidades, nunca conseguiu penetrar no mundo do proletariado, na administração local, sequer nas grandes empresas.

Nasceu de (e criou depois) uma clientela educada, “indignada”, ”fraturante” mas incapaz de suscitar grandes paixões fora dos circuitos e círculos originais.

Todavia, revestiu-se da habitual panóplia icónica e emblemática das chamada “esquerda comunista” e como tal deu azo a que a sua líder vnha afirmar que, num partido revolucionário, as direcções não dependem das vitórias ou derrotas eleitorais. “Isso seria para os partidos conservadores, PS, incluído, onde as lideranças reconhecendo o fracasso das suas estratégias, tem o bom e salutar costume, de se demitir.

Como o PC, o BE acha (ou nele uma fracção importante acha) que isto de eleições é apenas um mau momento e que depois tudo como dantes quartel general em Abrantes..

Não vale a pena ir buscar exemplos de outro caminho nos antigos PC internacionais e importantes. Aí as lideranças pagavam caro, muito caro, os erros, as derrotas ou, às vezes nem isso. Na China, na URSS nos países do pacto de Varsóvia, nas grandes países europeus com Pcs fortes, as derrotas tinham consequências.

Não vale a pena propor à direcção do BE uma reflexão sobre isto porque genericamente os seus jovens militantes ignoram tudo da História pregressa, das andanças , dos desaires, do socialismo e, mais grave, do marxismo que deve ser palavra oca e sem sentido  nos dias de hoje.

Há numa forte maioria do progressismo actual uma ignorância: abissal da literatura, do pensamento, da prática e da teoria dos “clássicos” Marx deve ser um amável cavalheiro demasiadamente barbudo que fica mal num retrato ao lado do Che, romântico e sesastrado como a sua curta história (depois de Cuba) provou. Nem a África, nem a Bolívia foram êxitos, sequer vagos indícios de qualquer estratégia, fosse ela qual fosse.  E em vez do Mao da verruga, o que, eventualmente,  os entusiasmará é a falange de rapazolas a erguer alucinados o paupérrimo livrinho vermelho, uma espécie de “reader’s digest” das obras do Presidente (que aliás também não era um génio da teoria marxista).

Algum(a) leitor(a) dirá que se o BE não cumpre os mínimos olímpicos então que dizer do PC?

Tenho por mim, que o PC começou a definhar no exacto momento em que perdeu o PTEC. Mais tarde, a queda do muro e desmantelamento da URSS foram mais outros dois dobres de finados. E, em boa verdade, na maioria dos países europeus os fortíssimos partidos comunistas entraram em agonia. Mais apressada ou mais lenta mas sempre irremediável. Em Portugal, porventura graças a um atávico atraso político, económico e social, esse declínio assumiu e assume uma forma lenta. Lenta mas inexorável. A disciplina (admirável) a fidelidade (surpreendente) o enraizamento sindical e autárquico vão sendo mermados mas resistem tanto quanto podem e enquanto os velhos militantes viverem. O PC perde extensas zonas do país (às vezes para o Chega mas isso ocorreu também com os congéneres de França e da Itália) reduz-se às grandes cidades, ao baluarte alentejano  e , prova disso, é que com menos votação do que o BE teve mais deputado do que estes. Mas perde terreno e os exemplos de Évora ou de Santarém onde não consegue eleger membros importantes do seu aparelho são sinal disso.

Convenhamos: o PC tem uma história, uma longa história de cem anos que, aliás, tem muitos momentos opacos, muitos dirigentes ignorados, eliminados, esquecidos, alguns sobressaltos ocultados. Alguém sabe quem foi Carlos Rates, Cansado Gonçalves, Júlio fogaça, mesmo Militão Ribeiro ou o mítico “Pavel” (Francisco de Paula Oliveira)? Já nem refiro alguns dissidentes dos últimos 50 anos, gente que se afastou depois da Primavera de Praga , fundadores da FAP, ou críticos que se destacaram anteriormente na Resistência, nas prisões incluindo um candidato à Presidência da República que, mesmo vivo, está morto e enterrado para os Ex-camaradas. 

O PC lá foi fazendo o seu caminho, a sua História” retocando-a (uma velha prática stalinista) sempre que foi preciso.  Mas isso, esse ocultamento teve o condão de não despertar a suspeita dos militantes, de manter o bunker a funcionar. Como na batalha de Alcacer Quibir o PC repete a fórmula do tresloucado rei Sebastião, “morrer, sim, mas devagar!”

Aí sim, tem razão de ser a ideia de que as eleições não determinam (ou não determinam fatalmente) a permanência do seu líder. De resto Jerónimo de sousa é um activo valioso. “Operário”, simpático, jovial, modesto com boa figura, Jerónimo pode ainda “render” votos tanto mais que a sua aparente bonomia o torna menos estridente do que Catarina.

Em qualquer caso, o PC averbou também uma dura derrota que vai tentar mitigar nas ruas, nas empresas nas autarquias, tuso zonas onde o BE nunca entrou nem parece fadado a entrar.

É a História... E a Política...apesar de tudo. À portuguesa, claro...

* na vinheta: os gurdas vermelhos e o seu imortal líder...

estes dias que passam 642

d'oliveira, 05.02.22

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O mais rápido caminho para a tirania

mcr, 5-2-22

 

As Américas do Sul e Central tornaram-se desde há muito em laboratórios da “revolução” e “contra-revolução”  sendo que uma e outra por muitas vezes se confundem.

O caso da Nicarágua é exemplar. Depois de uma vitoriosa luta contra o ditador Somoza, a “frente Sandinista de Libertação Nacional” chegou ao poder que, intermitentemente ocupou até à presidência de Daniel Ortega. Nos últimos anos, longos anos, o partido e sobretudo o seu líder e respectivs esposa, tornaram-se conhecidos por um exercício autocrático, brutal e continuado do poder. Não tem conta os processos contra opositores de toda a espécie, incluindo-se no lote, muitos ex-dirigentes sandinistas.

Agora, e mais uma vez, a repressão abateu-se sobre um numeroso grupo de opositores onde se incluem vários ex-candidatos à Presidência da República.

Ortega & mulher (vice-presidente, claro, à moda argentina) não apreciam a concorrência de modo que, logo que aparece alguém a disputar-lhes legalmente e através de meios pacíficos e democráticos, o lugar, socorrem-se de um expediente cada vez mais comum, ou, de novo cada vez mais habitual: prendem a criatura, acusam-na de uma panóplia de crimes de traição, de envolvimento com interesses estrangeiros, quase sempre dos E U A, levam-na a tribunal e este obedientemente condena os réus a penas longas, demasiado longas.

Obviamente, milhares de cidadãos desprotegidos e empobrecidos juntam-se a outros desgraçados, mormente das Honduras e engrossam as caravanas que tentam atravessar o México até à fronteira americana onde se acumulam à mercê de grupos mafiosos que prometem passá-los por alto preço para a “terra prometida”. Quando lá chegam, se chegam, são, se apanhados, devolvidos ao lado sul, quando não caem em redes mafiosas de exploração de mão de obra que irão cobrar mais uma vez pelos empregos baratos e clandestinos que encontram para esta pobre multidão.

Resta saber se, nesta selva de traficantes humanos, há ou não gente ligada aos países de origem e se, havendo, estão ou não amparados pela polícia e restantes agentes do poder político local.

De herói revolucionário Ortega alcandorou-se a tiranete violento o que prova que Somoza não foi apenas um adversário a abater mas também um exemplo para os seus opositores.

O ruído à volta da Venezuela que prossegue o seu penoso e trágico caminho em direcção ao abismo, oculta estas novas variantes do mesmo empeçonhado vírus político que parece ser o fado dos latino americanos.

Convirá tentar perceber quem são os seus apoiantes por cá e no Ocidente em geral mesmo se no fim a surpresa não seja extraordinária.

Convidam-se os leitores a adivinhar...  

 

au bonheur des dames 464

d'oliveira, 04.02.22

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Depois da manhã (submersa) da tarde dos amigos, a noite, a noite sem madrugada: Lauro António 

mcr,4/2/22

 

 

Se me perguntarem quando é que o conheci não sei responder. Arrisco uma data mais que imprecisa, anos 61 a 62,

De qualquer maneira, antes de o conhecer de viva voz e corpo inteiro, eu já conhecia o crítico de cinema desde as páginas do “Diário de Lisboa” ou do república, os jornais que nesses anos sombrios tentavam furar  o cerco.

Certo, certíssimo, é termo-nos encontrado durante nos de cinema, noitadas de conversa e discussão durante os anos em que houve o Festival de Cinema da Figueira.

Aliás foi num desses dias mágicos de Festival que o Lauro apresentou a “Manhã Submersa”, um dos poucos filmes que salvam a honra do convento e da cinematografia nacional

Data desse dia uma boa amizade, fraterna e cinéfila entre o espectador poro e duro /eu) e o cineasta, crítico, animador Lauro. Segundo ele, ter-nos-emos encontrado antes numa mesa do “Vává”, café mítico repleto de cineastas, críticos, cinéfilos e outra fauna, tudo gente do contra que dissecava até ao mínimo pormenor os filmes que nos chegavam, bem como as revistas de cinema que estavam na moda (Cahiers du Cinema, Positif e alguma outra italiana de que já nem recordo o nome, mesmo se suspeite que fosse o “Cinema Nuovo” onde pontificava o Guido Aristarco).

Eram os anos de oiro do cineclubismo português onde entrei logo que cheguei à faculdade.

Aliás, no ano de caloiro (no meu ano houve caloiros, mesmo se uma tradição coimbrã afirme sempre que, no “nosso ano” os não houve...) entrei nesse mundo mais cinéfilo via “Centro de Estudos Cinematográficos” da Associação Académica de Coimbra, obra do Alfredo Tropa. Aí, de facto, em meia hora, deixei de ser “caloiro” para me tornar sócio pois lá descobriram que eu gostava “a sério” de cinema. Lembro-me de ter explicado aos “doutores” que me tinham “mobilizado” para varrer as instalações da secção, que praticamente tinha nascido no “cinema Peninsular” da Figueira da Foz, onde, durante a projecção de um filme americano (com o Gary Cooper), rebentou o saco das águas de minha Mãe. Era eu que me anunciava.

A convivência com o Lauro continuu durante anos e anos quer nas sessçoes do Festival quer dpois em esporádicos encontros em Lisboa ou na simples leitura das suas críticas em jornal.

Aqui para nós, o Lauro ficou muito sensibilizado com uma minha intervenção longa no dia da estreia figueirense da “Manhã Submersa”.

Todavia, o simples facto de vivermos em cidades diferentes, o passar dos anos, o fim da colaboração regular e constante do Lauro em jornais, teve o seu efeito. Creio que, nos encontramos, pela última vez, quando ambos participámos buma mesa redonda sobre o Eduardo Prado Coelho, por altura da inauguração de uma sala com o seu nome e os seus livros na Biblioteca de Famalicão. Era uma doação da filha do Eduardo e da Maria Manuel Viana, minha prima, companheira dos últimos anos do Eduardo.

Recordo que, nessa altura, já o Lauro possuía uma enorme colecção de dvd de cinema e atrevia-se a proclamar quetinha todos os filmes de uma longa série de cineastas europeus.

Ora eu, que também já arranjara umas centenas de filmes, arrisquei-me a pedir-lhe que me emprestasse o dvd da “Estratégia da Aranha” que eu considero como um dos grandes filmes de Bertolucci. O Lauro engasgou-se e depois de esquadrinhar de memória toda a sua enorme colecção acabou por confessar que esse filme faltava. E de facto faltava porque na época, por razões desconhecidas não fora editado.

Anos depois, consegui fazer uma cópia de uma cassete e mandei recado ao Lauro que, claro, me pediu outra cópia. Acho que nunca lha fiz chegar até porque soube que teria sido publicado finalmente, e na América!!!, um dvd do filme.

O Lauro António, além da sua gigantesca e inteligente cinefilia, era um homem culto e afável. Tinha a paixão de ensinar as matérias de que gostava, era pessoa de diálogo e um excelente conversador.

A pequenez cinematográfica do país, sobretudo para quem já só apanhou a 25 de Abril passados os trita e tal anos, a inexistência de estruturas de produção os defeitos conhecidos da distribuição foram (e provavelmente  ainda são) factores que determinaram a sua curta carreira de realizador que ele compensou larga e generosamente com a de divulgador. E com ele foi toda uma inteira geração de cineastas que noutras geografias poderia eventualmente ter deixado um rasto mais forte na história do cinema.

Todavia, ele ainda teve tempo e generosidade para deixar em Setúbal um centro de divulgação cinematográfica exemplar e rico. Assim as pessoas o saibam aproveitar.     

 

 

estes dias que passam 641

d'oliveira, 03.02.22

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Dialogando amenamente com ZÉ Onofre

mcr, 02-02-22

 

 

O leitor Z.O., a quem desde já agradeço os comentários e a paciência em me ler, propõe-me uma explicação razoável e seguramente histórica para o que meia dúzia de folhetins abaixo eu escrevera sobre os constantes golpes de Estado, as guerras civis endémicas e o desassossego geral em África, sobretudo, mas não só na África sub-sahariana.

Quis o acaso que eu começasse a minha prometida resposta justamente no dia seguinte a mais um golpe de Estado na Guiné(Bissau), o enésimo nesta ex-colónia que considero, até prova (forte) em contrário, um Estado falhado.

 

Já sei que os mais fervorosos anti-colonialistas, racistas & similares me vão cair em cima mas os factos são os factos, a verdade é, como queria Danton, “áspera”. Paciência e adiante, mesmo se, desta feita, a intentona tenha abortado. Provisoriamente, vou avisando, provisoriamente...

 

ZO depois de historiar rapidamente, a evolução europeia, desde o fim do Império Romana (e da “pax romana”, invenção inteligentíssima e duradoura que criou em todos os territórios sucessivamente conquistados e anexados sociedades  rapidamente romanizadas e cidadãs de pleno direito de Roma oferecendo ao Império altos dirigentes (só das províncias da Hispania vieram dois excelentes imperadores) e permitindo que numa enorme extensão de território se criasse uma civilização comum que não só resistiu aos “Bárbaros” mas os instruiu, educou,, civilizou.

Depois, o Papado, integrou e pacificou, na medida do possível, os reinos resultantes.

É verdade que, depois, as guerras não deixaram de ocorrer mas, para além delas, foi sempre perceptível a mesma ou semelhante ideia de cultura e de modos de vida.

 

Ora, diz ZO a colonização europeia de África (fundamentalmente no sec XX) assentou numa divisão do continente africano feita a régua e esquadro na Conferência de Berlin. Tratava-se de partilhar um gigantesco território desconhecido a 90%, entre países que sonhavam com a glória, o poder  e as mirificas (ou não) riquezas de África.

E é absolutamente verdadeira a situação descrita mas mesmo que importante para explicar a África contemporânea não ´é, de per si, inteiramente suficiente, para se entender este permanente estado de guerras civis endémicas, de golpes de Estado, de toda a sorte de violências inter-étnicas (e é aí que a questão das fronteiras estabelecidas é primordial)

Tirando a Etiópia (alvo tardio da Itália que aí quebrou os dentes)a África foi toda dividida. Na verdade, o Egipto e o Magrebe também não escaparam, mesmo se aí houvesse um reino ancestral e forte. Marrocos, várias províncias do Império Otomano,  ligadas a este por laços demasiadamente débeis.

Poder-se~á dizer que em países jovens criam-se sempre situações de incerteza que, mal geridas, conduzem a resultados sempre maus.

E é uma verdade que a colonização belga, francesa e portuguesa, assentando sempre em colonos  ou administradores coloniais com reduzido conhecimento do mundo africano, não permitiu a emergência de elites locais, autóctones que facilitassem a transição para independência. Mesmo hoje, há numa forte maioria de países um deficit importante de pessoal técnico preparado e sobretudo, independente do poder.

A descolonização africana operou-se por duas vias, armada e pacifica, mesmo se a esta última houvesse sempre subjacente a ameaça de conflitos abertos. No primeiro caso sempre e no segundo a maior parte das vezes houve srmpre um partido político, melhor dizendo uma frente política que comandou o processo de independência. Uma vez obtida esta, esses partidos mantiveram-se firmemente no poder e, regra geral dividiram as benesses deste decorrentes entre a sua clientela. Tratando-se, como se tratava de vanguardas politizadas, educadas (as únicas ou quase, educadas) é natural que de fora ficasse a maioria da população. Desde logo a rural que em África constituía a maioria mas também outros estratos que, por razões diversas não participaram significativamente na oposição à potência colonial.

E esta é uma das razões porque os partidos que se foram tornando, ou já eram, únicos se enquistaram nas nóvas sociedades post-coloniais.

Costuma dizer-se que o poder corrompe. Porventura a asserção não é de rodo em todo verdadeira mas em África foi e para além de todas as previsões. Basta olhar para Angola onde um partido, que recebeu apoios de todo o lado, desde os países socialistas até ao poder revolucionário colonial, se apossou do país, das suas instituições, bateu os adversários com o formidável apoio do corpo expedicionário cubano e continua, mesmo depois de fortes convulsões internas (a revolta “nitista”, a contestação de antigos grupos dentro do MPLA, a queda do clã Dos Santos...) a dominar o Estado, as forças armadas e a economia nacional.

Noutros países, o partido único conseguiu sobreviver a guerras civis catastróficas, mantem o poder nos grandes centros populacionais e, como em Moçambique, mostra-se absolutamente incapaz de defender vastos territórios onde pequenos grupos fanatizados de base islâmica fazem a lei e aterrorizam centenas de milhares de camponeses.

Um terceiro grupo junta a estas situações conflitos inter-étnicos ou simplesmente religiosos  que não conhecem fronteiras nem são facilmente identificáveis ou controláveis.

Aliás, há países em que na época colonial e eventualmente antes havia uma pacífica convivência entre povos que, uma vez independentes, se viram mergulhados em autenticas guerras de extermínio (o desastre Hutu-Tutsi, não é único mas é, seguramente o mais tenebroso(.

Finalmente há ainda países que resultam de uma única administração colonial (o Sudão, agora dois ) ou o Congo. Se no primeiro caso não se vislumbra mais do que a oposição islâmica cristã, no segundo há tudo o que atrás se enunciou, guerras civis, lutas étnicas, incapacidade ou inexistência de elites, ambições desencontradas de militares putchistas e imensas riquezas. No Congo não há ou quase não há poder central eficaz idêntico ao    que fugidiamente foi exercido por Mobutu, ele próprio putchista e autocrata.

Noutros, nomes como Bokassa ou Idi Amin deixam ainda hoje um rasto de terror e desespero. A característica mais comum a todos é o campear absoluto da corrupção. Nem a África do Sul e o seu poderoso e quase único partido governamental escaparam ao flagelo. Hºa um ex-presidente da República acusado de várias tropelias e em risco de passar o resto da sua vida na cadeia.

Acima afirmei que o poder corrompe. Às vezes dir-se-ia que enlouquece. A tragédia do Zimbabué aí está para o recordar.

Nos longínquos anos 60/70 uma série de autores fascinados por África tentou propor medidas que ajudassem à boa governação. Dentre eles, mas não o único, René Dumont escreveu “LÁfrique  noire est mal partie”(Seuil) que mais tarde teve tradução portuguesa, segundo julgo (A África começa mal).Foi um choque e sobretudo uma maneira de juntar africanos devorados pela ambição e ocidentais que viam no negro uma espécie de inocente criatura feita à maneira dos ensinamentos de Rousseau: Dumont foi caluniado, exorcizado, mesmo quando as suas previsões iam sendo claramente verificadas.

Em a África mediterrânica escapou: tirando Marrocos por especiais circunstâncias (o poder político e religioso do Rei) todos os restantes países Argélia, Líbia, Tunísia e Egipto tem sofrido de tudo golpes militares, guerra civil, revoltas populares, caos, anarquia eva permanente ameaça do fanatismo islâmico. E aqui não há fronteiras artificias (enfim, as fronteiras existentes não dividem muito mais do que areias do deserto.

A juntar a isto, no Magrebe melhor dizendo em Marrocos e Argélia, há uma minoria espoliada de quase todos os direitos políticos e sociais: o povo berbére. Mas isso é para outra conversa.

E um abraço caro leitor Zé Onofre, desculpe a demora e a escrita apressada mas ando numa roda vida e não queria deixar passar mais tempo sobre a prometida resposta. E obrigado, mais uma vez, pela sua excelente crítica

au bonheur des dames 463

d'oliveira, 01.02.22

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“Isto não fica assim!”

mcr, 01-02-22

 

 

-Pois não. Incha!”

 

O título e a primeira frase do folhetim relembram uma velha expressão comum em brigas de meninos.

Neste caso, aplicam-se à briga de domingo pois, pelos vistos, a coisa não foi digerida por vários dos intervenientes.

E muito menos pelos jornais, televisões, comentadores & restante comandita.

Bastaria ler o Expresso e o Público de sexta feia passada para se verificar como é que dois jornais de referenciaa foram enganados pelas sondagens, todas as sondagens, pelos prognósticos (praticamente todos os prognósticos) e pelas próprias atitudes, declarações, insinuações dos concorrentes.

Seguro, e verificou-se, eram a ascensão do Chega e da Iniciativa liberais por um lado e a queda do BE e do PCP por outro. Auguravam-se maus resultados para o PAN e CDS (mas nunca para o desaparecimento!...) e pouca gente apostava no Livre, mesmo se alguns suspeitavam que este agrupamento poderia ir roubar um par devozes ao BE. O Livre é um BE com boas intenções, bem comportado, ansioso por mostrar virtudes e ...desconhecido fora de Lisboa. Tinha sobre o PAN, manifestamente um partido refúgio para  descontentes de vária origem, a vantagem de declarar claramente ao que vinha, que era pouco, utópico mas amável.

Ler os jornais acima citadas, hoje terça feira é viajar para uns desconhecidos antípodas políticos como se Portugal fosse uma espécie de Birmânia sem Junta militar e sem a srª Aung  San Suu.

A minha única pista seria a D Cidália, gentil inteligente e competente empregada doméstica que, votante no BE se inclinava para o PS  por causa da ameaça Rio. Porém, só hoje me revelou o voto e as suas razões pelo que nem esse apoio tive. Da próxima perguntar-lhe-ei o que irá fazer.

Que os partidos ficaram boquiabertos não há dúvida. O sr Luís, meu fiel hospedeiro na esplanada, estava feliz mas não disfarçava a surpresa “E esta, hem?” repetindo uma frase célebre e antiga. A minha amiga I, jurou que nunca sonhara tal desfecho e mostrou-se penalizada com a derrota do PC. Tentei explicar-lhe que cada vez que morre um velho nos tradicionais bastiões comunistas é um voto a menos na hoste de Jerónimo. Isto sem falar noutra amarga verdade para o povo comunista e verificável Europa fora. É nas tradicionais zonas comunistas que mais prospera a extrema direita, basta ver o que se passa em França ou na finada e não chorada RDA.

Do CDS nem vale a pena falar: aquela espécie de delinquente juvenil que o dirigia fez tudo, mas tudo (e mais qualquer coisa...) para chegar onde chegou. Não foram só o Chega e a IL a destroçar o tal “partido fundador da democracia”. Foi a sua Direcção, uma turbamulta onde os cegos guiavam os loucos ou vice versa.

Jpão Miguel Tavares, hoje, terça feira, afirma e vale a pena discutir o seu ponto de visto, que foi Rio quem alcandorou Costa ao pódio da maioria absoluta. Direi que Rio, nessa tarefa foi muito ajudado pelas sondagens que prometiam a Costa um escorregão medonho. Se alguém ganhou com as sondagens foi o PS. Nõ só se mobilizou o povo socialista mas toda a gente que Rio eventualmente ameaçava. A começar por quatro quintos do BE e metade do PC sem falar de dois terços do PAN. A improvável ascensão de Rio, que partia de uma clara desvantagem de mais de dez pontos em relação ao PS deu um ânimo espectacular a todos os que acorreram a Costa.

Em boa verdade, o resultado final é quase aquele que,  a principio, se antevia para o PSD. É ir ver ao arquivo dos jornais em qualquer hemeroteca. Em Dezembro ninguém apostava em Rio, o mesmo nas duas primeiras semanas de Janeiro, ou , vá lá, na primeira. A cinco seis dias da data ial ainda havia quem avisasse que Rio perderia por, pelo menos, cinco pontos. Foi pior mas o tal empate técnico nunca existiu (fora das sondagens).

A maioria absoluta não é, em si mesma, má, horrível, tenebrosa. Pode sê-lo, é provável que venha a sê-lo mas isso será por mãozinha marota (a do costume!).

Hoje, no “Público”  a rubrica “bartoon” perguntava como é que rinha corrido a conversa entre Catarina Martins e Costa a propósito do programa do novo Governo. Esta prendada senhora insiste, suavemente mas sem desfalecimento, que foi o PS que provocou a “crise artificial” que levou a eleições. É de temer pela sua saúde mental ou então ainda não percebeu o que aconteceu. Ou as duas coisas. Boa razão tinha a D Cidália quando me confessou que Catarina (pessoa com quem a minha optima empregada simpatiza) não tinha arcaboiço para isto tudo.

Agora, pelos vistos, o BE vai andar a vigiar os políticos racistas. Convenhamos que se por m lado revela um desconhecido pendor policial, por outro é de temer que também não tenha forças para a tarefa. É um combate desigual: cinco contra onze.

E isto se não tiverem a veleidade de lhes juntar os “liberais” e algum psd mais suspeito...

Eu, se me perguntassem, preferiria aconselhar a que o remanescente bloquista tentasse perceber em que país vive, fora do eixo Lisboa-Porto. Fora dos circuitos ultra-urbanos onde se move, que estudasse economia e fosse saber, por exemplo, como é que funcionam outros sistemas de saúde (na Alemanha, na Suécia, na Holanda, para não ir mais longe.

E que percebesse que os dinheiros públicos não são como o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes que pertence ao Novo Testamento e não a qualquer escrito de Marx ou, enfim, de Trotsky. Isto no caso de terem consultado alguma vez estes veneráveis cavalheiros e não apenas a famigerada srª Marta Harnecker divulgadora estilo “reader’s digest” de um vago marxismo coxo e desconchavado.  

E, no meio disto tudo, como vai o PS e como vai Costa? Que ficaram aturdidos ninguém contesta. Nem nos mais loucos sonhos dos fieis entre os fieis, alguma vez a hipótese da maioria absoluta passou disso esmo uma mera, longínqua e inalcançável meta. Costa, ao que se dizia estava cansado e ansioso por uma aventura internacional. Que a morna campanha levada a cabo sem chispa nem fulgor visíveis traduzia o seu estado de ânimo ou de alma. Se queria desandar, está feito ao bife: agora tem de governar e, pior ainda, de gerir, a onda de candidatos à sua sucessão que estes resultados tem sempre esse mérito (ou defeito) trazer ao de cima, fervilhantes, as ambições mais desencontradas e incontroláveis. Quatro anos é uma eternidade para  quem quer ser herdeiro bem como para quem está de fora. E é esse o drama dos vencidos:  estão de fora por mais de mil e muitos dias...

Pior: ninguém entre amigos e adversários esqueceu ainda a história de Job, perdão de Seguro que fez todo o caminho das pedras e acabou chutado para canto.

Quanto ao sr Presidente da República este seu segundo mandato não vai ser uma corridinha nem é fácil para quem inventava factos políticos a cada instante. Diante dele está alguém com uma indiscutível autoridade obtida nas urnas. Vai ser divertido para quem observa.

* na vinheta: imagem relativa ao ""Carnaval dos Animais"  de Saint Saens  

 

 

 

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