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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

estes dias que passam 708

d'oliveira, 30.06.22

Como um naufrágio perto da costa

 (“mal acomparado”)

mcr, 30 -8-22

 

Os leitores benévolos notarão que escrevi ml acomparado propositadamente pois vou por em comparação duas situações que não são totalmente iguais mas que tem, no fundo, uma espécie de justificação idêntica.

Suponha-se que um barco carregado de imigrantes naufraga a dois passos da costa. Enquanto não chegam salvadores profissionais um turista prepara-se para se lançar à água para tentar resgatar um dos que debatem entre duas ondas. Alguém lhe diz que a sua tentativa é inútil porquanto quanto muito conseguirá salvar uma criatura e há mais umas dezenas que estarão praticamente condenadas.

 

Isto não tem nada a ver com a crise dos obstetras (outras se perfilam para lhe suceder)  mas prece mesmo a frase da srª Ministra que enquanto vai dizendo o costumeiro avisa que nem com todos os obstetras existentes no país se resolve esta actual crise. 

(e note-se que este país não é para recém nascidos que são poucos, muito poucos mesmo para sequer se pensar atingir um saldo demográfico medíocre)

 

Eu não sei se faltam assim tantos obstetras mas vou conceder que talvez, que os números ministeriais estão, por uma única e irrepetível vez, certos.

Mesmo assim seria de boa prática tentar recrutar, seja lá de que maneira for, todos quantos sejam recrutáveis. Assobiar para o lado, rasgar os vestidos, cobrir a cabeça de cinza ou fornecer explicações esfarrapadas é que não. 

O meu pai, uma espécie de João Semana partejou mulheres por todo o lado. Eram pobres ou, no caso mais tardio, de Moçambique, estavam no meio do mato a léguas de qualquer sítio onde sequer houvesse um enfermeiro. Uma fogueira, um recipiente duvidoso onde se aquecia uma pouca de água, um facalhão  que só Deus sabe se cortava ou não foram algumas vezes os únicos meios para trazer um menino a este mundo. As mais das vezes a parturiente, ou os seus não falavam português. Socorriam-se do “pisteiro” de caça do meu pai , que se passeava por aqueles sertões afastados de tudo para caçar, como intérprete. Ao que sei as coisas correram sempre tão bem quanto possível e com os escassos meios de bordo. Não foram muitas as ocasiões mas andarão ou não por esses matos de Deus um par de criaturas que provavelmente morreriam porque o médico só por acaso ali estava a passar e os problemas do parto eram demasiadamente graves para os conhecimentos das mulheres da aldeia. 

Ou seja, e para concluir: se não há obstetras num determinado momento, vai-se à procura deles ou de quem tenha pelo menos os rudimentos do acto médico.Ou recrutam-se médicos na Cochinchina, na Moldávia, na Índia,   sei lá onde. 

E, sobretudo assume-se (com todos os efeitos práticos daí decorrentes)  que o “sistema está doente, muito doente e que há que refazer , e rapidamente, tudo ou quase tudo. 

Est srª Ministra já por várias vezes mostrou que detestava tudo o que lhe cheirasse a “não público” mesmo que alguns resultados de gestão sejam avalizados pelo Tribunal de Contas. Com elogios e garantindo excelentes resultados para o Estado.

 O TC é uma voz a clamar no deserto da auto-suficiência, da arrogância e do autismo ideológico. 

É “pró que estamos...

 

(ha poucos dias um deputado do PS com responsabilidades na sua bancada falou sobre “PPP” na saúde e acusou o PSD de nunca ter sequer lançado uma. E guinchou esta afirmaçãoo que afinal era falsa. Melhor era uma mentira. Ao que depois se averiguou a primeira “ppp” da saúde é do tempo de Cavaco Silva.

Todavia, conviria ainda lembrar que se as “ppp” foram obra do PS porque raio de razão  foram elas abandonadas, vilipendiadas mesmo quando os resultados eram bons? 

A pergunta é meramente retórica porque com eventuais respondedores como o deputado “mal informado” não vale a pena gastar mais cera. O defunto é ruim!

au bonheur des dames 507

d'oliveira, 29.06.22

Quando toca a todos, morre solteira

mcr, 30-6-22

 

Refiro-me à culpa como, seguramente, terão adivinhado. E se falo em culpa é porque, nos últimos dias, e a propósito de situações diferentes, alguns articulistas e comentadores vem anunciando culpas colectivas seja a propósito de imigrantes que morrem antes de chegar à terra prometida, seja porque crianças em risco são assassinadas. 

Segundo estas respeitáveis criaturas quando acontece algum desastre e à falta de culpados facilmente identificáveis e identificados, a culpa é de todos.

Uma espécie de “Fuenteovejuna”, versão século XX e despida de tudo o que fazia o fulgor dramático dessa peça de Lope de Vega. Recordemos, uma jovem virgem é  vítima do senhor local. Este será assassinado pelos aldeãos . À  pergunta dos juízes chamados para averiguar os factos, a resposta é unânime: “Fuenteovejuna lo mato”. E, na impossibilidade de castigar toda a gente, o Rei acaba poe mandar arquivar o caso pois não é  ou são identificado(s) o(s) matador(es)  (cito de memória mas suponho que ainda me lembro suficientemente desta peça do genial Lope de Vega.

Na tragédia portuguesa da morte de uma menina de três anos, identificada desde cedo como possível criança em risco e posterior arquivamento do processo, fala-se em culpa colectiva  que vai desde os progenitores, à família alargada, e destes à comunidade próxima, depois ao resto das pessoas sem esquecer uma série de instituições de vária ordem. Falhou tudo porque, eventualmente, um terceiro elemento, outra família   dada como raptora acabou por, à força de maus tratos, de matar a criança.

Um juiz, inteligente e respeitável, digno de consideração pelo bom senso dos seus textos, acaba por alargar tanto o conceito de culpa que se torna impossível ou quase determinar a quem cabe a responsabilidade da tragédia meso se haja, culpados evidentes que terão agido com liberdade e que obviamente estão justamente arguidos. 

No caso das sucessivas levas de imigrantes africanos que morrem na travessia do Mediterrâneo (ou mesmo do Atlântico) devido à fragilidade dos barcos que os transportam e à insensibilidade das mafias que lhes cobram fortes somas pela viajem, também se apontam culpas a demasiados actores. E, no caso, são mais as vozes que acusam os países de destino (na Europa) do que os governos, os regimes dos lugares de onde partem. Depois, há ainda as secas, a falta de emprego, de futuro, de esperança que faz as pessoas lançarem-se  à aventura de procurar, longe e na incerteza, o que lhes falta ali mesmo onde nasceram se criaram e tentam criar os filhos .

Todos, seguramente, recordarão as reportagens de barcos à beira do naufrágio, carregados do dobro ou do triplo da lotação prevista. Ou para passar à América das multidões em fuga de países problemáticos no fim da América central que atravessam a pé todos os países até à fronteira da Terra prometida, os Estados Unidos. O espectáculo seria épico se não fora aterrador: homens, mulheres e crianças caminhando centenas de quilómetros sem quase bagagem, animados apenas pelo sonho americano e esporeados pela fome, pela injustiça e pelo terror. E vítimas, também eles, de máfias locais que os espoliam do pouco dinheiro que tem e que os abandonam logo que os põem do outro lado da fronteira. 

Ainda ontem ou anteontem vimos um camião abandonado, numa estrada secundaria do Texas, verdadeiro caixão rolante onde já se contavam cinquenta mortos e mais umas dezenas de sobreviventes em miserável estado. 

Fora a habitual culpa do imperialismo e aliados, dos americanos em especial, lá vem de novo a teoria da responsabilidade colectiva, máxime de todos. 

E assim, um pacífico cidadão americano ou europeu que se indigna, que é favorável à recepção ou à protecção dos mais fracos fica envolvido pela teia gigantesca  da culpa colectiva. De nada lhe vale o facto de, nas suas parcas capacidades, ter protestado, votado contra leis injustas contra um estado de coisas de que, individualmente não é responsável. 

Eu recuso-me a ser metido no grupo dos executores directos, indirectos ou afins da pequena Jéssica. Recuso-me a ser culpado pelo que em Odemira se faz ou se fez aos trabalhadores indianos e nepaleses que se amontoam em casassem condições mas a preços elevados. Menos ainda aceito ser responsabilizado pelos maus tratos da polícia, da guarda republicana, pela indiferença da câmara municipal  ou pela velhacaria de algum patrão. 

A menos que achem que, sozinho, poderia pegar numa bomba e ir por aqueles sertões liquidar os maus da fita. 

Portanto vamos destrinçar as coisas e as responsabilidades. Que há situações infames ninguém duvida. Que se deve, a todo o momento, tentar solucionar o problema é óbvio. Que os culpados, uma vez encontrados devam ser punidos também não merece grande reflexão. Porém, convirá não perder de vista as árvores e muito menos confundi-las inocentemente ou não, com a floresta. 

Para a culpa não morrer, outra vez, solteira...

o leitor (im)penitente 235

d'oliveira, 28.06.22

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Aventuras com livros

mcr, 28-6-22

 

 

Os meus olhos já não são o que foram em muitos e leais anos de serviço. Agora, graças a um tratamento caro mas imprescindível lá vou aguentando esta barca sabendo, porém, que não voltarei a ter a mesma acuidade visual. O problema desta doença ocular é que não há melhoria mas tão só possibilidade de não piorar.

É a essa esperança que me agarro firmemente como o náufrago à boia miraculosa que, em Deus ajudando (e as ondas, as correntes e tudo o mais ) o hão de levar até à praia.

Descobri, entretanto, que há limitações ao leitor impenitente que fui e que, vou tentando continuar a ser. Há livros impressos a letra miúda que já não arrisco. E a escrever, o truque é escolher o tamanho da letra e ir pondo o que vem às cansadas “celulazinhas cinzentas” de que falava Poirot.

Muitos dos meus habituais amigos alfarrabistas condoem-se e sempre que apanham um livro que julgam interessar-me o primeiro cuidado é verificar o tipo de letra. E guardam-no até me encontrarem triunfantes quando, agradecido e maravilhado, desembolso o preço pedido.

Às vezes exageram. Assim, o João C mandou-me um um mail informando ter “Le petit Simonin ilustre (le Littré de l’argot) e perguntava malicioso se eu o queria Claro que queria pois sou perdido por calão seja em que língua for e que eu perceba.  Lá veio o Simonin acompanhado de uma italice Chamada “Il sublime” de um cavalheiro que dá por Baldine Saint Girons. Além do tipo de letra ser dificultoso por pequeno, confesso que, nesta idade, o sublime queira isso dizer o que que quiser, não me atrai.

(aqui o que interessa é que a letra do simonin é menor do que a do livro a devolver. Mas o gosto, a mania aumentam-me a graduação dos óculos..).

Numa livraria alfarrabista aqui perto de casa dou com os tês volumes completos dos “Trois regnes de lanature”. Na verdade, na internet a maior parte dos fascículos simples anda entre 20 e 50 euros pelo que  entendi que era barata feira.

O organizador desta publicação é um famoso professor Chenu,  autor de uma “Encyclopedie d’Histoire Naturelle”, uma monstruosidade em 35 volumes (!!!)  que, de resto, rareiam no mercado.

A mim, o que me surpreende, é o fervor dos eruditos (e dos leitores) dos séculos XVIII e XIX que se atiravam de pés e mão para a edição de obras gigantescas de divulgação científica que, pelos vistos, se vendiam com facilidade.  Trinta e cinco volumes gordos (vi quatro na mesma livraria) é leitura ou mera consulta para anos!...

Nos duvidosos tempos que se vivem tenho por difícil senão impossível empreitadas desta natureza . Pelo preço, pelo volume gigantesco de tomos, pela falta de tempo para já não falar do desinteresse em conhecer o mundo com um pouco mais de rigor do que os dois minutos de televisão.

Não faltam edições caras, evidentemente. Mas são reservadas a poucos leitores o que justifica os preços pedidos. Já aqui referi um par de editoras espanholas que se dedicam a  publicar o que elas chamam “quase originais”, edições limitadas a cerca de 900 exemplares, fac-similadas com extremo rigor, e apresentadas com um luxo invulgar (Moleiro ou Siloé ou mesmo Cartem, são os nomes mais conhecidos).

Curiosamente, ou nem isso, hoje mesmo chegou-me uma edição francesa do “Ramayana” em 7 volumes (30 x 28) e ilustrada abundantemente por miniaturas indianas dos sec XIV a XIX. É um edição primorosa  da “Diane de Selliers ed2) especialista em publicar clássicos de todo o mundo muito bem ilustrados  mas a preços inferiores aos espanhóis já citados.  De todo o modo não se trata de coisa barata  e esta obra começou por ser vendida por cerca de 900 euros. Na altura achei caro sobretudo comparando com vários outro livros da mesma editora que fui comprando desde as Viagens em Itália de Stendhal até à Divina Comédia  também excelentemente ilustradas. Claro que o Ramayana é algo de extenso e isso obviamente implica custos. Porém, agora, numa revoada de saldos da editora, surgiu com um enorme desconto, coisa para 80%  e não resisti. Aliás, com paciência, coisa que falta à esmagadora maioria dos leitores viciados, a espera vale a pena. A editora, provavelmente para se livrar dos restos de edições faz uma vez por ano um saldo generosos  que aprendi a aproveitar.

Para leitores igualmente impenitentes nem vale a pena referir a trabalheira que consiste em arranjar um “buraquinho” para o novo livro. Algo de épico, de imaginação criadora e de paciência quase infinita.

*na vinheta: edições de “Diane de Seliers” (Eneida, Rimbaud, Decameron, Stendhal,  Verlaine,  Erasmo e, claro o Ramayana e mais dois de poesia oriental

au bonheur des dames 506

d'oliveira, 27.06.22

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Geopolítica a la carte

mcr, 27-8-22

 

 

Sou a favor de liberdade de escrita o mesmo é dizer da liberdade de pensar e dizer o que se pensa.

Conviria, porém, acrescentar que essa liberdade não se deve basear na completa distorção dos factos, na invenção dos mesmos  ou na sua pura e simples falsificação.

Vem isto a propósito de um texto com apelativo título de “A contracção do Ocidente” surgido hoje num jornal de referência.

E só se recorre a essa página bacoca e falsa porque o texto joga (e abusa) com a eventual (e até natural) ignorância de alguns leitores menos versados em História.

A noção geopolítica de Ocidente é relativamente recente e adquiriu alguma solidez no fim da 2ª Guerra  ou melhor, com o início da guerra fria e o consequente estabelecimento da “cortina de ferro”.

Afirmar que a noção de “Ocidente” teria começado durante a época da expansão europeia e consequente colonização efectiva de quase toda a África e boa parte da Ásia (não se inclui as Américas do Sul e Central pela simples razão de que o auge da colonização asiática e africana (2ª e 3ª metades do sec XIX) é relativamente posterior à onde de independências latino-americanas, mesmo se essas independências fossem fortemente condicionadas pela política dos EUA) não tem pés nem cabeça.

Nem os EUAse sentiam especialmente parte de uma comunidade de países europeus de que o mar e a recente independência duramente conseguida os separava, nem a Europa do século XIX se considerava a si própria como um todo. A simples presença da Turquia e do seu Império (que alcançava o mar Adriático) tornava a noçao de Ocidente (tal como a consideramos ) inoperante. É verdade que, em contrapartida o império russo estava fortemente ligado às monarquias europeias mas nessa época a noção de Rússia era ,ainda, mesmo que erradamente , a de um país para cá dos Urais.

Por outro lado, mesmo excluindo, os conflitos nascidos com as ambições coloniais (e foram muitos, relembremos o mapa cor de rosa...) as guerras intra-europeias que culminaram em 1914-18 não são mais do que uma prova que se de ocidente se falava não se tiravam daí quaisquer consequências práticas.

É desta guerra que começa a ser visível a ideia que, mesmo “isolacionista” havia uma potência (de novo os EUA) que mostraria possuir grandes afinidades com alguns países europeus pela língua, pela religião e sobretudo pelo acolhimento de milhões de emigrantes que transformam a ex-colónia inglesa, protestante num melting pot em que se começam a notar as presenças de fortes contingentes católicos (irlandeses, italianos e polacos) de judeus em fuga dos contínuos pogroms de leste bem como de uma cada vez mais significativa presença de imigrantes escandinavos.

De facto, foi a 2ª guerra e, de novo, a intervenção decisiva dos americanos que  deu origem (inclusivamente politico militar, NATO) a uma ideia de Ocidente tal qual (ou pelo menos bastante próxima)  como hoje o pensamos.

Todavia, este Ocidente estava irremediável e dramaticamente marcado por um “Leste europeu constituído pelos países do Pacto de Varsóvia, herdeiros da libertação/ocupação soviética.

É verdade que o comunismo suscitou na Europa ainda em guerra uma preocupação duradoura; que provocou uma muito limitada intervenção anglo-francesa a favor dos russos brancos; que marcou pela desconfiança uma forte animosidade recíproca de que a existência do Komintern não é absolutamente inocente.

É também verdade que as tentações nacionalistas que em certos casos desembocaram no fascismo e no nazismo 8que não são exactamente a mesma coisa) ocorreram em variados países do futuro “ocidente” desde o rexismo belga aos nacionalismos polaco e grego à ameaça de uma virulenta direita francesa (que durante a ocupação teve uma breve aparição graças ao governo de Vichy  e ao idoso mas providencial marechal Petain)  para só referir os de maior impacto. Isto sem falar em regimes nacionalistas Espanha puros e duros como Portugal que subsistiram mais um par de décadas e vieram a engrossar o “ocidente” graças à NATO e ao efectivo receio que o bloco de leste suscitava.

Mesmo aceitando que algumas ex-colónias britânicas mormente a Austrália, a Nova Zelândia (e o Canadá) pudessem em certos momentos ser considerados extensões do “ocidente”  dada a população branca e anglo-saxónica, a submissão à coroa britânica e o regime parlamentar, seria importante salientar que pouco a pouco esses países criaram políticas autónomas e relações particulares com as nações mais próximas

Todavia, nem a China, mesmo quando ocupada parcialmente por potências europeias, o Japão e a Índia que “pertenceu” ao Império britânico até 1948, puderam alguma vez ser consideradas  “ocidente”. O mesmo ocorreu com o Médio Oriente post-império turco ou o Magrebe francês.

E muito menos África que só alcançará a soberania (em territórios criados a régua e esquadro pelas potências colonizadoras) nos anos sessenta foi alguma vez tida ou achada neste xadrez geo-político. Aliás, e a exemplo dos países da Indochina, se alguma influência houve na imediata época post colonial essa influência foi soviética.

A noção de Terceiro Mundo, de países não alinhados  (em cuja criação a China já República Popular teve alguma intervenção ) também não decorre de uma reacção contra o imperialismo mas tão somente de uma tentativa de viver sem especiais problemas com os dois blocos que a partir de 1945 se desenhavam e defrontavam. É bom lembrar que mesmo no bloco de leste houve um país (a Jugoslávia) que tentou – e decerto modo conseguiu- encontrar fortes pontes de entendimento e cumplicidade com os “não alinhados”.

Portanto e para resumir-

O Ocidente nasceu de facto (que não de direito) no fim da guerra com o despontar da guerra fria

Creceu e tornou-se forte e próspero graças ao plano Marshall, aos trinta glorioos anos, as primeiras tentativas comunitárias europeias e à incapacidade do bloco leste levar a cabo uma política que garantisse aos seus cidadãos uma mínimo razoável de prosperidade, liberdade  e felicidade. Tudo veio abaixo com a queda do muro e a implosão da URSS. Porém tudo estava anunciado desde o 17 Junho de Berlin, o levantamento húngaro, a primavera de Praga e o solidarnosc polaco.

Sempre que podiam, multidões do leste debandavam para a Europa capitalista arriscando inclusive a vida. Não houve jamais um movimento em sentido contrário, sequer uma pálida amostra.

Caída a URSS, o que se verificou foi uma irreversível aposta dos países ex-socialistas de se adaptar política, económica e socialmente aos padrões ocidentais dos seus vizinhos. Todos sem excepção ou, caso queiram, com a excepção da Bielorússia.

Em suma: não só o Ocidente parece real mas a sua contracção não existe para já. Diria mesmo que nos planos político e militar o “ocidente” cresce não apenas na Escandinávia  mas também no Mar Negro (a Geórgia também já bate à porta da UE, escaldada que está com a ocupação da Abcásia e da Ossétia do Sul. Pela Rússia evidentemente. Pela Rússia que, neste momento mendiga, solicita a benevolência da China que, tudo indica quer continuar a ser oriental.

E nesse oriente cobiçado pela China, os casos de Taiwan, directamente ameaçada, da Coreia do Sul, da Tailândia ou do Japão, permitem pensar que mesmo não pertencendo ao “ocidente” (a Geografia tem destas coisas!...) há neles uma clara predisposição para se entenderem cada vez mais com o Ocidente que se contrai (provavelmente contai a barriga de riso com a tese da contracção.)

 

 

(os leitores terão reparado que deixei de lado a África e a América Latina. No caso desta última se é visível o declínio da influencia norte-americana – basta lembrar os tiranetes da Venezuela ou da Nicarágua que há quarenta anos teriam sido convenientemente defenestrados por movimentos “populares” soprados de fora, continuam a desgraças os respectivos países e os seus cidadãos cada vez mais súbditos que engrossam as imparáveis correntes de imigrantes que rumam a norte.

Em África, para além da forte corrente migratória para a Europa ex-colonizadora, a hora é, ainda, a de um frágil e túmido estabelecimento das regras da democracia parlamentar, do abandono lento dos regimes de partido único, da criação de uma consciência nacional e do fim, espera-se, dos conflitos étnicos e religiosos qua assolam violentamente um boa dúzia  de países.

 

  

 

estes dias que passam 707

d'oliveira, 26.06.22

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Marcha pela guerra

mcr, 26-6-22

 

A exígua manifestação promovida pelo PC e respectivas organizações satélites que, ontem, percorreu um par de ruas é um monumento à hipocrisia, à má fé e um insulto aos cidadãos portugueses que eles tomam por estúpidos.

Reclamar a paz (“com conversações...”), sabendo de antemão que qualquer tentativa de diálogo foi varrida da mesa pela Rússia que nem nas poucas vezes em que delegações suas e da Ucrânia se sentaram a uma mesa  deixou de atacar, bombardear, destruir e matar cidadãos indefesos, é um exercício de hipocrisia e e mentira absoluto. Quando há conversações há, pelo menos, uma temporária suspensão de hostilidades. Ora tal nunca ocorreu como é fartamente sabido.

O sr Jerónimo de Sousa que afirmando não ser a favor de nenhuma das partes (mesmo se uma é invasora e outra invadida !!!) e com a experiência de quem participou numa guerra injusta, recusa referir a palavra invasão (pelo menos no extracto televisivo a que tive acesso pois aí voltou a falar em “operação”)

O espantoso no meio disto tudo é que ninguém confronta esta criatura com o facto do “partido irmão” russo ser um dos mais ardorosos defensores da “intervenção especial”, de ter proposto na Duma o reconhecimento das repúblicas separatistas fantoches, de ter expulsado da sua pequena coorte quatro deputados provinciais que na sua região se pronunciaram contra a guerra.

Boa parte das pessoas mais velhas, Jerónimo incluído são ainda do tempo da invasão da Checoslováquia pelos “exércitos “irmãos” e do Afeganistão. Nestas duas alturas nem uma destas tristes personagens foi capaz de uma crítica, um reparo, um lamento pela sorte do povo e do país invadidos.

Dir-se-á que, mesmo aceitando que nesta manifestação a destempo e contra a moral e a ética, havia também algumas pessoas de “boa vontade” movidas pelo horror à guerra e pelo desejo de concórdia. É possível se bem que quase inverosímil.

Como é possível ser tão cego, tão imbecil que não se veja na convocação da manifestação uma tosca operação de falsificação do que se passa, do que todas as televisões mostram diariamente. Como é possível ignorar largos milhões de refugiados, inclusive em Portugal, de quase 10 milhões de deslocados internos, dos mortos visivelmente executados, das cidades reduzidas a destroços à semelhança de Stalingrado?

Como é possível fingir que a Ucrânia é um coio de nazis quando na Rússia há dezenas de organizações tão ou mais fascistas todas unidas no apoio a Putin?

Como é possível continuar a referir um apoio incial da NATO quando se sabe que esta arrastou os pés e só depois de se verificar uma inesperada e forte (e legítima) resistência ucraniana é que foi enviando , e a conta gotas, armamento defensivo que tem chegado tarde e más horas e cuja falta provocou não só a queda  de Mariupol ou Severdonetsk ou de zonas limítrofes da Crimeia?

Como é possível não perceber que há um sentimento generalizado e mundial contra a intervenção que por várias vezes se materializou na ONU e nas respectivas sessões gerais ou das suas diferentes agências?

Só me referi aos “inocentes ´uteis” (tropa habitual deste género de manifestações pindéricas. Os outros, os que sabem, que organizam, que mexem os cordelinhos estão apenas de má fé e o seu preito à Rússia vem já de outros tempos, do tempo do “sol da terra”, do país dos “trabalhadores”, das “conquistas revolucionárias”  do gulag .Esta gente ainda não digeriu a implosão da URSS, o desastre contínuo de uma economia que nunca permitiu uma vida folgada à gigantesca maioria do povo, silenciada pela bufaria, pela polícia política, pela deportação de grandes grupos humanos como ocorreu na Crimeia, na Estónia em Kaliningrado, antiga Prússia oriental transformada num  enclave de populações russas transferidas para ali depois da expulsão em massa dos habitantes originais.

É verdade que não são uma multidão, que de ano para ano vão perdendo apoiantes e militantes, que de legislatura em legislatura perdem deputados, que o número de Câmaras vai diminuindo a cada  eleição autárquica. E, por espantoso que pareça, é nas suas antigas regiões que florescem com maior força as tentativas conseguidas de implantação da extrema direita que eles dizem combater. Os extremos tocam-se, mimetizam-se porque, ao fim e ao cabo, assentam na mesma grosseira mistificação política ideológica e histórica. E no desprezo pela gente comum, mormente pelos mais fracos e mais desprotegidos (a que eles, os sábios, os esclarecidos, chamam “lumpen proletariado!)

au bonheur des dames 505

d'oliveira, 24.06.22

 

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Terna foi a noite

(ou assim o espero...)

mcr, 24, 6,22

 

 

Já não tenho idade, vontade e possibilidade para os folguedos de S João mas tal não me impede de desejar aos outros, aos que ainda tem pernas para andar, cabeça para sonhar, e vontade de ver nascer o sol na praia junto com quem quiserem, que tenham tido uma boa noite de S João.

E que tenham acordado cansados mas maravilhados com a aventura.E com a vida!  Amanhã ou na próxima semana há que voltar à vida de todos os dias, enfrentar as agruras da época que vivemos mesmo que o Verão já nos acene com o sol o mar e o sal.

Que o austero Baptista, transformado num jovial protector de amores efémeros,  é santo milagreiro disso não tenho duvidas pese embora o mei conhecido cepticismo religioso. Mas nasci aqui, noutra terra que festeja com força dois dos santos (Pedro e João) populares, e isso torna-me sobretudo meio pagão e propenso a acreditar em prodígios de toda a ordem.

E ontem não foi excepção. O dia amanheceu carregado de nuvens, a chuva deu-lhe forte e feio pela manhã e fez-nos a todos  os que estávamos a salvo da inclemência, protegidos na esplanada , temer o pior. Mas não! Por obra da natureza gentil ou do santo protector da cidade, o tempo mudou, a chuva partiu para outros sítios, a tarde prometeu uma noite de milagres, as esplanadas encheram-se de festeiros os grelhadores a carvão surgiram por todo o lado, as sardinhas ainda pequenas mas já apetitosas douraram como se devida. Com uma boa salada de pimentos, broa, vinho em abundância , a noite trouxe a acalmia que permite as rusgas, os bailaricos, os derriços, a noite que oferece tudo e a cumplicidade para os amorios. Que Deus, ou apenas S João, seja louvado!

E que para a semana  as gentes de muitas comunidades piscatórias sintam igualmente a benevolência de Pedro para outra noite festiva. Havemos de ver boa parte do Porto deslocar-se para a margem esquerda do rio, para a Afurada, para continuar os folguedos. As gentes desse bairro ribeirinho de Gaia merecem essa pequena bênção.

E nessa população atrevida, marítima e bem disposta, estará de certeza a D. Rosa, peixeira e amiga, bonita e alegre, que sempre me serviu bem e me tratou melhor. Bem se vi que éramos os dois da orla marinha, mais mar e areia que terra boa.

E lá mais para sul, os filhos e netos dos meus companheiros de escola, e eles mesmos se ainda vivos. Que S Pedro vos abençoe a todos é o recado deste exilado numa cidade generosa que só tem um defeito: não é a sua!

 

(os leitores e leitoras repararão que utilizo o plural masculino normal do português com que nasci, cresci e escrevo. É que agora andam por aí uns imbecis, entusiastas da última novidade e da última moda, que (política e imbecilmente correctíssimos), a propósito  de uma coisa chamada, e mal, não binário, querem mudar a língua e a ortografia com acrescentos grotescos e sem futuro. Arre!) 

 

*o título é pilhado a Scott a Fitzgerald não vá alguém pensar que aqui usamos os outros sem cerimónias de qualquer espécie. “Terna é a noite” é um grande, genial romance. A ler urgentemente.

 

Au bonheur des dames 504

d'oliveira, 23.06.22

 

 

 

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Vocação para pião das nicas?

mcr, 23-6-22

 

Um leitor perguntou-me há tempos o que era um “pião das nicas”. Não me disse a idade mas tenho a certeza que é bem mais novo do que eu.

Ora vamos lá: nos tempos “de bibe e pião”, os meninos, ricos e pobres, brincavam muito com piões. Brinquedo barato que se pode usar sozinho ou em grupo, o pião era algo que se comprava em toda a parte mesmo se havia preços diferentes

O jogo mais popular consistia em desenhar um círculo na terra, se possível endurecida, para dentro do qual se atiravam os piões com certa habilidade pois era imprescindível que depois de rodopiarem dentro eles saíssem do círculo. Se não saíam tornavam “piões das nicas” e os restantes jogadores tentavam acertar-lhe com os seus piões. Par lhe fazerem mossa (“nicas

9 Ao dono do infeliz  desamparado pião restava um truque: ter um segundo já bem marcado que substituí o primeiro. Era o “pião das nicas”.

Suponho que agora o pião já pertença a essa espécie de objectos desaparecidos ou em vias de extinção que, volta e meia, tentam ressuscitar numas coisas esparvoadas e já sem sentido a que apelidam jogos tradicionais.

 

O dr. Costa, nosso bem aventurado pastor e guia, descobriu há muito uma nova versão deste brinquedo pobre. 

Quando está em apuros, tem sempre um ministro das “nicas”, uma espécie de cordeiro sacrificial que oferece às multidões ululantes e indignadas quando as coisas não correm de feição.  Foi assim que usou, até ao casco, um ministro da defesa, outro da administração interna e agora a senhora da saúde.

A táctica é sempre a mesma mas resulta: enquanto o pagode pede a cabeça da criatura, o Governo e sobretudo costa passam ilesos pelos pingos da chuva.

Depois passarão ao caixote do lixo da História sem apelo nem agravo.  Para alguns isto é “solidariedade institucional”. Para outros apenas uma maneira de fazer que faz continuando parado.

Entretanto, e no caso em apreço, a burrocracia espessa e ancestral da funçanata pública mormente da saúde passa incólume, continua, perpetua-se e torna-se ainda mais viciosa.

Quem protesta é tão só um inimigo do SNS, curiosa acusação herdada de décadas de “língua de pau”, que  os pc de todo o mundo usaram até à exaustão (de certo modo havia uma pequena falange de puros cercada   de uma horda imensa de malfeitores que só pretendiam o mal da humanidade e, mesmo deles próprios.

 

Eu ia concluir mas lembrei-me a tempo que , ontem, quarta feira o parlamento aprovou um voto de apoio à entrada da Ucrânia na lista dos países candidatos À União Europeia. O voto não foi, felizmente, unânime: o heroico quadrado do pcp votou contra.

Sabendo que este exíguo partido, em perda de velocidade e falho de imaginação, não tem, bem pelo contrário, qualquer espécie de estima pela UE, foi bom saber que estava contra o desejo de (comprovadamente) mais de 80% dos portugueses e (obviamente) dos ucranianos que esmagadoramente, et pour cause, querem ser europeus e da UE.

O pcp tem uma farta dose de vocação eritreia e ama desveladamente a ideia de u país pobre e desesperado, receita útil para dar ao proletariado “consciência de classe” e fervor revolucionário.

Hoje, é para quem vive no Porto, a “grande noite” a noite sensual e pecadora que manda que cada um acuda à rua ou a um qualquer arraial animado apenas de boa vontade, um alho porro, uma erva cidreira ou um manjerico.

Nem vos digo nem vos conto das saudades que tenho da minha já bem avançada juventude e do fiz, do que quis e do que sonhei. Agora, mais, muito mais, velho, receberei em casa familiares próximos e um neto que ainda não tem idade de sair por aí fora. Para as sardinhas, a salada de pimentos e tudo o mais.

Em Buarcos ainda haverá romeiros e, sobretudo, romeirinhas que, pela madrugada, demandarão o mar para o banho santo? Ai os vestidos leves e molhados colados ao corpo!

...

(cala-te velho debochado! Já tiveste a tua dose!)

 

(ainda alguém me há de explicar o mistério de um santo austero, severo, que vivia mais no deserto do que entre os homens e morreu degolado pela vontade de uma mulher perversa e de uma rapariga em flor e despida,  que agora protege as travessuras licenciosas, os arroubos sensuais e a estúrdia de uma inteira cidade enlouquecida...)

*o pião da imagem tem "caruta" coisa inadmissível para os jogadores de pião de Buarcos. quando alguém usava um artefacto assim tão fino, os restantes atiravam-no para um telhado dizendo "pião com caruta vai para casa de uma puta"

au bonheur des dames 503

d'oliveira, 21.06.22

A culpa morre sempre solteira

mcr, 21-6-22

 

Segundo o jornal “Público” a maternidade Alfredo da Costa fez em 2021 2866 partos enquanto o hospital CUF descobertas fez 2916. 

O hospital da Luz fez 2869, os Lusíadas Lisboa 2452 e Lusíadas amadora 1077. O total os 4 privados fizeram quase 30% dos partos em Lisboa onde se contam 13 hospitais públicos .Imaginem os leitores e, sobretudo, as leitoras o que teria acontecido se estes quatro privados não existissem!

(eu já aqui disse que o SNS é uma boa coisa mas que ignorar os hospitais privados com a sanha tremenda com que são ignorados e “destratados”  é uma estupidez supina e absurda. E manifestamente uma  viciosa visão ideológica no que esta tem de mais imbecil e mentirosa.

Cada dia que passa, o cenário sanitário é mais confrangedor e, pior!, ameaçador. Só quem tem antolhos, e é cego ou para lá caminha, e que finge não ver esta realidade dolorosa num país onde nascem poucas crianças. Tivéssemos nós a taxa de natalidade da França e isto era um cemitério de recém nascidos. Não é o Verão  que, aliás, começa hoje, que traz a descoordenação à vesga luz do dia. É a falta de visão, de planeamento, de política que cada vez se mostra mais real e deprimente. 

E não vale a pena vir, outra e estafada vez, atirar culpas ao governo anterior que já lá vão sete anos. É esta rapaziada, esta ministra que subitamente parece um pião das nicas depois de ter sido, ninguém percebe porquê, posta num altar laico pelo PS e elevada (oh céus!) à categoria de sucessora possível de Costa.

A pandemia que assolou o país, assolou também as cabecinhas que sem perceber quem é que esteve à altura dos acontecimentos, organizou e combateu o desastre, entendeu proclamar virtuosa a governação da Srª Temido. Foram os profissionais mal pagos do SNS (todos sem excepção) que deram o litro, ou o hectolitro para ser mais preciso, e formidável logística trazida pelos militares que nos pôs em primeiro lugar no mundo. (eu nem quero referir outra vez a estranha criatura que durante umas semanas, felizmente poucas, andou a fazer de coordenador da campanha anti-covid. Não vale a pena e convém esquecê-lo rapidamente mesmo se, por misteriosas razões (ou nem isso...) a personagem ande sempre nos cumes da responsabilidade política e profissional.)  

As criaturas que enchem a boquinha com o SNS,  e gritam que só querem o bem da instituição e o nosso, deviam remeter-se a uns dias de silêncio e nojo e ir ver o que se passa nos hospitais com urgências atafulhadas e muitas vezes encerradas para perceberem, se é que conseguem, os males estruturais que ameaçam fazer naufragar o projecto generoso de muita gente e anterior ao 25 A (é bom recordar essa verdade) que iluminou o famoso “relatório sobre as carreiras médicas” e foi uma constante cruzada de Miller Guerra, um médico e um político que parece estar esquecido. 

Algumas estultas senhoras vem agora falar dos pagamentos ao tarefeiros das urgências que, verdade seja dita, recompensam estes com honorários duas, três e quatro vezes ao salário indigno dos médicos do SNS.

É por isso que, logo que formados, os jovens médicos fogem a sete pés de um emprego mal pago, com demasiadas horas de trabalho a mais, com falta de meios de toda a ordem, muitas vezes em edifícios envelhecidos e desprovidos d equipamentos modernos.

E é assim que quem pode, faz o sacrifício de pagar um seguro (e aqui incluo os funcionários públicos que descontam forte e feio para a ADSE) para não se subterem à lotaria carnavalesca do atendimento desatempado em hospitais públicos, às bichas cada vez mais longas, às demoras em consultas e cirurgias que levam meso anos a concretizar-se. 

Os tarefeiros das urgências são muitas vezes profissionais do SNS que sacrificam o seu tempo livre para angariar honorários que o hospital não lhes concede.

Os maléficos “privados” pagam melhor, por menos horas mas com uma logística e organização muito superiores. Provou-se isso (cfr Tribunal de Contas) com as últimas PPP que deram ao Estado um lucro superior a 100 milhões de euros em comparação com a gestão pública. Mais doente recebidos, mais doentes tratados, menos despesa e maior satisfação profissional de todos os agentes sanitários envolvidos.

Não se pede  às ex-as  autoridades, muito menos à Srª Ministra um gesto criativo (se porventura fossem capazes de o ter) mas apenas que copiem o modelo privado no que ele tem de bom e útil e constatado pelo TC. Nada mais. Claro que é sempre possível fazer uma má cópia...

Quanto aos vociferantes meninos e meninas rabinas que confundem a Esquerda com uma rocha de granito basta tapar os ouvidos. É que há vozes que não só não chegam ao seu mas também não chegam a parte nenhuma...

Quando se pergunta de quem é a culpa da situação, a resposta é a do costume.

citando o "romeiro" de Garrett: ninguém!

o leitor (im)penitente 234

d'oliveira, 20.06.22

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Pequena nota sobre o golpe militar na Indonésia

mcr, 19-6-22

No “Público” de hoje, domingo, vem uma longa entrevista de Vincent Bevins, um jornalista americano (n em 1985) autor de “O Método Jacarta” um ensaio histórico onde a guerra fria deixa de ser um confronto entre a URSS e os EUA para ser uma luta pelo controlo do 3º mundo. A tese é mais absurda que audaciosa e faz tábua rasa da história centro e leste europeia no imediato pós-guerra. De todo o modo o que me chamou a atenção foi a referencia a um método terrorista e imperialista que ensaiado na Indonésia em 1965 teria sido replicado com sucesso no resto do mundo ou melhor em vinte países desde o Brasil ao Chile. E sempre, claro, com o apoio dos EUA. O meu interesse vem de um facto simples: pouco depois do golºe militar que alcandorou ao poder o general Suharto, e resultou numa repressão violentíssima na Indonésia, tive a sorte de encontrar alguns indonésios fugidos ao massacre e de por mero acaso (ou quase) ter conseguido farta documentação sobre a questão. Dessa documentação apenas me resta “L’autocrique du bureau politique du parti comuniste d’ Indonesie” (editions Git le Coeur, 1966, Paris, com a menção de que o caderninho de 30 pp que possuo e retrato teria sido publicado numa brochura “Peuple indonésien – unissez vous pour renverser le regime fasciste”, ed de Pekin, 1968) Com base nos citados testemunhos e numa mão cheia de texto aparecidos todos em França e de várias proveniências) escrevi um artigo destinado a uma revista (“Espaço”) que entretanto morreu de morte macaca e que era alimentada por muitta rpaziada que posteriormente esteve ligada às edições Afrontamento e a outra mais clandestinas entre elas algumas católicas). Na altura não fiquei com cópia (ou então esse documento desapareceu graças a duas incursões da PIDE) pelo que já não consigo identificar as minhas fontes. Todavia, eu referia com farta insistência em duas questões: a repressão (gigantesca) afectou de forma devastadora a comunidade chinesa instalada na Indonésia e detestada pelos naturais sobretudo porque era uma comunidade extremamente próspera o golpe de Setembro que terá sido o detonador dos movimentos militares que dizimaram o Partido Comunista indonésio. De tudo isto haverá, inclusivamente em Portugal, rasto jornalístico mesmo se censurado. O presidente Sukarno (o presidente legítimo) que fazia a ponte entre os dirigentes muçulmanos e o PCI e corporizaria um força política moderadamente revolucinária, herdeira dos movimentos anti-coloniais que no fim da guerra e da ocupação japonesa expulsaram os colonizadores holandeses. Todavia, já nos anos 60 era notória uma forte tensão entre os comunistas e uma maioria muçulmana que, obviamente, não via com bons olhos a política oficial do país (recordo nebulosamente um certo “sultão de Djogjacarta (ou Yogyjacarta) – nao confundir com a capital- que teria sido um dos mais importantes aliados do movimento militar. O autor do livro a que me refiro não dá, ou melhor, passa por alto com explicações confusas- relevo especial a este golpe que terá sido o desencadeante do temível contra-golpe de Suharto. Na época foi isso que foi especialmente apontado. Não se trata de branquear a violência inominável dos militares indonésios nem de olvidar as centenas de milhares de vítimas comunistas ou aparentadas. Sei bem que especular sobre história passada (sobre o nariz de Cleopatra é além de ocioso um exercício perigoso) mas não tter em atenção este facto, o golpe, o assassinato de vários generais, parece, no mínimo arriscado. A repressão indonésia (e volto a recordar o número também enorme de vítimas de origem chinesa e quase seguramente sem qualquer ligação ou simpatia pelo partido comunista local) não foi mais replicada noutros pontos do que o que é costume. Onde houver militares a intervir, as coisas são a eito e, no caso concreto conviria sublinhar que o que se passou no Chile de Pinochet não tem qualquer semelhança com a repressão brasileira. Os executores eram sempre militares mas no Brasil, se é possível minorar o que se passou nada teve a violência do Chile ou, mais tarde, da Argentina. Ou, por outras palavras, o método Jacarta será o que quiserem mas tem muito de hipotético. O documento que acima referi, a “autocrítica..., faz um par de referências veladas ao golpe de Setembro sem assumir claramente a sua paternidade mas classificando-o como um “erro” de estratégia, ao mesmo tempo que verbera igualmente a “via pacífica” atribuída à direcção do partido e o “entrismo” nas áreas de poder controladas pelo anterior presidente nacionalista Soekarno. Já na época, o primeiro golpe (o de Setembro) fora atribuído ao PCI mesmo se, pudicamente este, posteriormente o tenha considerado “aventureirista”. Nada disto justifica a repressão desencadeada pelo exército (mas com um forte suporte de massas que aplaudiam a perseguição dos estrangeiros chineses). Todavia, agarrar neste caso indonésio e transpô-lo como método para outros golpes militares nos anos 60 e 70 parece um tanto ou quanto precipitado. Mesmo se, e quando, é o exército que se ocupa de fomentar e dirigir a reacção anti-comunista. Ou será que o método Jacarta começou em Espanha em 1936. Os golpes militares a que se segue uma tentativa de nova ordem mais repressiva e anti-partidos parlamentares tem um longo historial e não são especialmente inventivos quanto aos meios e aos métodos. Sequer quanto às primeiras consequências. Um segundo aspecto do livro diz respeito ao facto de o autor pôe em evidência a luta pelo controlo de terceiro mundo sobrepondo isso à guerra fria. Se é verdade que os países colonizados viram a luta anti-colonial ser dirigida por pequenas elites nacionalistas (muitas das quais crioulas) não menos verdade é que os movimentos libertários e socialistas sempre se empenharam nessa luta. E sempre tentaram amotinar as tropas existentes no sentido de as tornar a ponta de lança do combate nacionalista o que, mais tarde, uma vez consolidado o novo regime, evidencia demasiadamente o papel do exército como guarda pretoriana do novo regime. Só as democracias liberais consolidadas resistiram a essa tentação e mantiveram as forças militares sob controlo civil. Veja-se o exemplo de todos os novos regimes post-coloniais em África.E mais, muito mais nas Américas central e sul, México incluído. Economias frágeis, burguesia escassa, forças sindicais quase inexistentes, só a tropa aparece organizada e com meios capazes de modificar uma relação de forças seja ela qual for. E nisto incluo os raros exemplos de governos sul americanos de carácter “progressista” mas saídos, eles também, de golpes militares. Estamos, porém, no meio de uma nova vaga de patéticas discussões sobre o “imperialismo”. Renovam-se as velhas falácias e acusações incluindo, como agora é o caso da Ucrânia a teoria que tudo o que de horrível acontece naquele país invadido é também (e eventualmente ou principalmente) culpa da NATO que finalmente não passa de um instrumento dos EUA. Nem o facto destes, apesar de tudo, terem sido apanhados de surpresa tão focados estavam nos novos confrontos do Pacífico. Havemos de chegar ao ponto de aparecer alguém a afirmar que foram os americanos a entusiasmar Putin a atacar... Basta esperar.

o leitor (im)penitente 233

d'oliveira, 18.06.22

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Os esquecidos

mcr, 18-6-22

 

 

Quando pensei no título deste folhetim surgiram-me várias hipóteses todas fundamentadas desde “os suicidados” (no sentido de alguém os ter convenientemente suicidado) até os vencedores derrotados.

Refiro-me obviamente a uma multidão de revolucionários de diversas cores mas sempre “de Esquerda” e que atravessaram parte do século passado, melhor dizendo o primeiro terço do século,  vamos lá os primeiros 40 anos.

No meu tempo, ou melhor quando comecei a frequentar a “sinistra” ainda não se falava neles, et pour cause. Os anos sessenta correspondem de certo modo ao máximo culto da Esquerda comunista ou socialista no Ocidente europeu. Era a época dos poderosos partidos comunistas da França e da Itália, da fortíssima presença dos social-democratas na Escandinávia e das guerras de libertação desde a Argélia ao Vietnam e a Cuba sem esquecer as colónias portuguesas.

“O horizonte era vermelho”, os “amanhãs que cantam” pareciam estar ao virar da esquina e mesmo em Portugal e Espanha (ou na Grécia)  omito da inevitabilidade do triunfo da “democracia” estava associado à acção dos partidos comunistas, das frentes populares, dos programas comuns, enfim o habitual.

Tudo isto foi varrido pelo conflito sino-soviético, pelo XXº Congresso do PCUS que expôs, primeiro clandestinamente e em segredo depois, graças a fugas de informação, que ainda hoje estão por apurar, o desastre ideológico, económico e social do estalinismo,  os horrores do “culto da personalidade”, a existência de um sistema concentracionário inimaginável. Praga em 1968 e a “grande revolução cultural e proletária” destruíram o restante capital de simpatia que “o verdadeiro socialismo” ainda tinha.

Nos finais dos anos 60 começaram a surgir documentos de toda a espécie, balanços terríveis dos anos 30 a 50, testemunhos das purgas pelos que, tinham sobrevivido milagrosamente. Da ainda URSS vinham diária, semanal ou mensalmente biografias, histórias, memórias, de toda uma geração amordaçada.

Todavia, antes, aliás sempre, houve, sobretudo nos países anglo-saxónicos, leia-se especialmente na Inglaterra, publicações de ex membros da Internacional, vulgo Komintern, onde quem quisesse poderia informar-se  sobre o terror que se abatera na URSS nos últimos dias de vida de Lenin e até à morte do “pai dos povos” (Stalin). As deportações maciças de populações, o aniquilamento  de gigantescas multidões camponesas, a vida miserável na grande maioria das cidades, os expurgos sucessivos e medonhos das elites comunistas de que os “processos de Moscovo” são uma ligeira e pequeníssima amostra,  a burocratização monstruosa do aparelho de estado e do partido comunista soviético, replicado a partir do fim da guerra nas “democracias populares” (e com reflexos até nas organizações comunistas dos países ocidentais onde não faltaram “traidores”, “fracccionistas”, “agentes do capitalismo”).

A erupção da “Revolução Cultural e o famoso e absolutamente medíocre “livrinho vermelho”, contribuíram, e de que maneira!,  para uma nova (ou renascida) crítica do sistema comunista.

Tudo isto, que, em boa verdade, parece não ser tão conhecido como deveria, vem a propósito da publicação  de “Eclipse do Sol” de Arthur Koestler que é o primeiro nome de “O Zero e o Infinito”. É a primeira tradução directa do original  (o Zero é o título da edição francesa que serviu de guia a todas as restantes edições, nomeadamente a portuguesa que aliás estava esgotada) Koestler foi um jornalista e, sobretudo, durante muitos anos um agente do Komintern e, graças ao seu talento literário, um romancista, ensaísta r repórter de grandes acontecimentos, incluindo a guerra de Espanha, onde, por pouco, não ficou pois esteve prisioneiro das tropas franquistas. Depois da guerra fixou-se em Inglaterra onde morreu.

Este “Eclipse... narra a história de um revolucionário que, a seu tempo, é preso e sabe que será condenado e executado. Fico-me por aqui pois a trama novelesca e a história unem-se de tal maneira que revelar seja o que seja é um erro que nem nos livros policiais é permitido.

Por razões de vária ordem (incluindo ideológicas...) toda a literatura da época de Koestler e camaradas foi esquecida e nunca teve honras de edição em Portugal. Ou muito poucas. O progressismo nacional por um lado e a previdente censura do Estado Novo mancomunaram-se para silenciar toda uma parte da história pregressa e, sobretudo, tudo o que, de perto ou de longe, dissesse respeito à convulsão gigantesca da “revolução”. De resto, o mesmo síndroma de abstinência editorial afectou todos os renegados, excluídos, vitimas ou não dos fascismos italiano e alemão. Como se nunca tivessem existido opositores desses regimes, nomeadamente opositores conservadores.  Isso convinha aos áulicos do velho ditador rural e catolicão mas também dava jeito aos que sempre proclamaram ser a única oposição ao nazismo e ao fascismo.

Mesmo actualmente as editoras portuguesas não mostram, regra geral, interesse, por tais (e são muitos) testemunhos.

O caso da reedição do “Zero...” agora rebaptizada com o verdadeiro nome da edição original, adquire características de acontecimento editorial sobretudo porque este livro é de altíssima qualidade literária.    

 

 

 

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