estes dias que passam 1002
Das indignidades várias que assolam o mundo actual
mcr, 228-7-25
Comecemos pela cena doméstica que, felizmente é isso mesmo, doméstica, miserável e de pequena dimensão, relevando mais da estupidez que da maldade intrínseca e racista.
Ao contrário do que afirmaram na tv várias personalidades a indignidade em que os “”pretos” viviam em barracas miseráveis em Loures, era de todo o modo inferior à indignidade a que foram submetidos depois de lhes destruírem o alojamento mais que precário. Ao ficarem sem esse telhado risível ficaram em situação ainda mais indigna do que a anterior. Ponto, parágrafo.
Passemos ao vasto mundo onde a indignidade campeia alegremente. Nem sequer vale a pena falar da Ucrânia onde diariamente são bombardeados alvos civis sob o falacioso pretexto de que ou alimentam o esforço de guerra ou são mesmo zonas militares que devem ser destruídas. Isso dura há três anos e está para continuar.
Não vale a pena referir a Eritreia onde o terror nunca deixou de reinar desde que aquela terra se proclamou independente. Também não merece especial menção a atroz guerra civil que devasta o Sudão e que sucede a uma outra que devastou o que agora se chamará Sudão do Sul ou algo semelhante. O mundo provavelmente nem saberá bem ao certo onde é o Sudão, menos ainda as(des)razões da guerra actual, as multidões em fuga e as mortes incontáveis. Aquilo são “pretos” e basta...
Fiquemo-nos, porém, em Israel, Estado vagamente associado à Europa que se mostra incapaz de olhar de frente para o que o exército israelita, às ordens de um delinquente, apoiado por um bando de radicais extremistas, faz em Gaza. Desde a prática de tiro ao alvo contra esfomeados alucinados por uma sopa rala (semelhante provavelmente à que havia nos campos de concentração Nazis) até à fome programada que já matou uma centena e meia de crianças sem falar no que muitos qualificam de genocídio (e as dezenas de milhares de mortos prestam-se a tal qualificação) ao terror desencadeado pelos bombardeamentos constantes de tudo o que mexe e de tudo o que não mexe (mais de 80% do edificado está em destroços, incluindo, escolas, hospitais, mesquitas sempre sob a acusação de serem velhacoutos de terroristas ).
Qualquer leitor(a) dirá que misturo alhos com bugalhos, o que, de certo modo, é verdade. Todavia, e em minha defesa apenas posso alegar que a legalidade do autarca de Loures ignora tudo o resto, a humanidade, a ética, a decência, a incapacidade de resolver os problemas existentes e de os agravar com novos desenvolvimentos que por sua vez hão de criar outros e assim sucessivamente. O autarca ainda não matou ninguém mas também ainda não salvou o que quer que seja, sequer a imagem de uma terra que agora é pilhada por toda a gente sem especial simpatia (minto: o Chega deve estar aflito por ver que nenhum candidato seu poderá bater uma criatura que faz o que ele prega e tem o apoio do PS).
Israel partiu para este ataque a Gaza com três mil mortos inocentes com mulheres violadas, crianças e adultos raptados, enfim com a compreensão de toda a gente, incluindo-se aí muitos árabes. Gaza, por seu lado, deu-se ao luxo de em certos, muitos locais, festejar a infâmia terrorista. E , é bom não o esquecer, de também em muitos locais ter pactuado com a direcção política do HAMAS. O problema, como noutras latitudes, é que a resposta israelita excedeu tudo o que até à altura era pensável e justificável, duvido mesmo que a recuperação dos reféns tenha sido sequer tida em linha de conta. Deu jeito mas a falta de cuidado (demonstrada no caso dos três reféns fugitivos e nus que o exército israelita primeiro matou e depois foi ver quem eram prova sem lugar a especiais dúvidas).
Israel poderá eventualmente dizimar fortemente os soldados do HAMAS mas nunca conseguirá destruir a sua direcção política comprovadamente a salvo nos Emiratos nem muitas das razões da sua luta. Também não convencerá a “rua” árabe sequer muito muitos dos simpatizantes do Estado palestiniano muitos dos quais inimigos jurados do “sionismo”, do capitalismo e de vários outros ismos todos de origem sinistra.
E seria bom que ninguém esquecesse que Gaza é apenas a face horrenda de um outro massacre silencioso que ocorre na Cisjordânia onde colonos israelitas sempre protegidos pelo mesmo exército israelita matam tranquilamente camponeses palestinianos expulsos das suas terras.
Claro que haverá sempre, no pequeno e miserável caso português de Loures, quem diga que ali apenas se cumpriram ordens e a legalidade "democrática”. É verdade mas cumprir cegamente as ordens não significa que se não se deva reflectir na oportunidade de o fazer.
E já que Loures e a sua circunstância continua a excitar a comunicação social que é que se poderá dizer da última e tardia (oito dias) revelação do autarca Leão que afirmou numa reunião com outros autarcas e na televisão que havia provas de que no bairro do Talude se vendiam casebres. Forçado a mais explicações acabou por dizer que uma pessoa (UMA!) teria pago 2 ou 3 mil euros por uma cabana em kit vendida por alguém que finalmente não vive nesse amontoado de lixo e pobres emigrados. Segundo o autarca já havia uma queixa no MP. Convenhamos que parece bizarro, demasiado bizarro que esta notícia apenas seja dada uma semana depois das demolições. Pior com que fundamentos seguiu a queixa da alegada venda do casebre? E que provas há do preço? E porque é que não se identifica o vendedor, autor de tão temível venda?
Claro que pessoas de má fé (nanja eu que até acredito na santinha da Ladeira e nos fenómenos do Entroncamento..) poderão maldosamente dizer que a venda é falsa, o vendedor inexistente e o denunciante apenas um pobre diabo pago para o efeito.
Se porventura estas pessoas todas inimigas juradas da criatura de Loures estiverem certas convenhamos que à indignidades já evidenciada se juntaria uma outra, a mentirosa burra e desesperada. A ver vamos, como diria o cego...
