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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

O ódio como arma dos ignorantes

José Carlos Pereira, 26.08.25

Não há muitos meses, no seio de dois empreendimentos habitacionais, com vasta oferta de serviços, na freguesia de Paranhos, no Porto, abriu um mini-mercado e loja de conveniência, cujos funcionários são asiáticos, provavelmente do Bangladesh ou do Nepal. Trabalhadores diligentes, simpáticos e que foram reforçando a oferta ao dispor dos clientes, de acordo com as necessidades destes. O mini-mercado presta um serviço de proximidade que não existia, já que os supermercados mais próximos distam algumas centenas de metros.

Numa zona bastante frequentada durante o dia, devido à proximidade ao maior hospital do Norte do país e ao principal pólo universitário da cidade, mas habitualmente tranquila durante a noite, certo dia apareceu inscrita na montra da loja a frase "Fuck Islam". Uma atitude vergonhosa e absolutamente condenável. Nada justifica o ódio, o insulto e a ameaça a quem trabalha e presta um serviço à comunidade, seja português ou imigrante. Com sorte, quem escreve frases assim conta na família com pessoas que emigraram e procuraram melhores condições de vida no estrangeiro, precisamente o mesmo que esses cidadãos asiáticos fazem em Portugal. Ignoram, por certo, que Portugal sempre foi um país de emigrantes e que o país precisa de mão-de-obra para vários sectores da nossa economia. 

Neste caso concreto, a ignorância dos atrevidos até confundiu o Islão com os países asiáticos em geral. Na verdade, se a religião muçulmana predomina no Bangladesh, o mesmo não acontece no Nepal, onde o hinduísmo é claramente maioritário.

estes dias que passam 1008

mcr, 25.08.25

Aqui não há inocentes!

mcr, 25-8-25

 

Desta feita não vou falar de Israel, ou dos seus dirigentes, ou dos cidadãos que os apoiam (e que não parecem ser poucos, bem pelo contrário).

Também não vou continuar a falar da Rússia invasora que lembra pesadamente a URSS de má memória, sobretudo aquela que, com Stalin,  criou a cortina de ferro e fez reféns numa dezena de países que o acaso e a geografia lhe deram como vizinhos.

Sobre este tema e citando Erich Maria Remarque, “nada de novo a leste” (ressalvando o ponto cardeal que era outro).

Melhor dizendo, a oeste há algo de novo dado que pela primeira vez na História há um presidente americano que junta a ignorância histórica,  o narcisismo, a ideologia num cacharolete indigesto e irresponsável (o futuro o dirá certamente) e permite a um tiranete local, ex-polícia político mas inteligente e saudoso de um passado imperial levar um país (o seu) para a ruína ignominiosa e outro para  a destruição lenta mas inflexível.

Fiquemo-nos, porém, no torrãozinho de açúcar que ainda não saiu da tragédia dos fogos.

Hoje, parece que a calamidade nos deu umas precárias tréguas mas, desde já, se pode dizer que desta feita, este foi o pior ano em perda de hectares de floresta, destruição de culturas, morte de animais domésticos e selvagens,  A terra enegrecida anuncia um futuro ameaçador para pessoas e animais.

Como se isso não bastasse, temos que Governo e Oposição vão degladiar-se sobre o como, o porquê do desastre, ao mesmo tampo que habitantes locais, autarquias e seus venerandos representantes, bem como um largo rol de instituições que deveriam prevenir catástrofes, combatê-las rapidamente, se fingem exteriores a tudo o que ocorreu desde mediados de Julho.

Eu não duvido que alguns incêndios se devam a mão humana, que as alterações climáticas tenham ajudado, que os calores excessivos tenham propiciado as chamas e tornado difícil o seu combate.

Todavia, e bastou ver as reportagens televisivas (a que também iremos), para ver que a limpeza das matas foi quase sempre rara e pouco convincente, que as autoridades, todas as autoridades mormente as políticas (a começar nas juntas de freguesia e nas câmaras municipais) tenham sofrido de miopia imbecil e contínua durante a Primavera e o início do Verão.

Sabe-se que mais de metade das matas ficaram por limpar (e fala-se num milhão de hectares). Sabe-se que os proprietários rurais de pequena ou pequeníssima dimensão não quiseram ou não puderam limpar o que era seu e próximo, que outros que vivem longe ou desconhecem a sua qualidade de proprietários ou não sabem que responsabilidades têm ou não se ralam.

Ardeu, pois, uma enorme quantidade de hectares. Morreram no combate às chamas algumas pessoas que as quiseram domar, foi destruída riqueza que vai demorar anos (muitos) a recuperar mas o que se espera para os próximos dias é a troca de culpas e desculpas entre oposição toda e Governo que, como de costume, irá falar de herança de governos anteriores (o que, de resto também tem o seu quê de verdade...).

Há dias, um jurista escreveu um pequeno texto no “Público” lembrando que uma floresta em que o Estado apenas detém 5%  dos terrenos e em que mais de 70% dos proprietários não pode ou tem dificuldade em limpar o que é seu será sempre pasto das chamas, cada vez maiores, mais violentas e mais prejudiciais.

De resto, nos incêndios de 2017 (se não erro) o pinhal de Leiria (do Estado) ardeu descontroladamente.  

Só não ardem as propriedades das grandes empresas papeleiras que obviamente sabem o que podem perder e defendem os seus terrenos, limpam-nos cuidadosamente, têm um pequeno exército de sapadores sempre prontos. Essas empresas sabem, e demonstram, quanto a floresta pode valer.

Porém não é aos pequenos, envelhecidos proprietários rurais ou aos desconhecidos proprietários que abandonaram o campo e, porventura, desconhecem os seus direitos (e deveres) que o exemplo pode servir.

Enquanto não se mudar drasticamente a estrutura fundiária o lume reaparecerá cada vez mais ateado.

Quem não quer ou não pode limpar os seus terrenos não deve ser proprietário. Cabe ao Estado limpar os terrenos abandonados, exigir aos donos o pagamento desta tarefa, ou em alternativa retirar-lhes a posse e a propriedade do que não só não cuidam mas do que por incúria se torna perigoso para todos os que ainda querem viver na terra abandonada.

Parece que um avião custa 50 milhões (e só funciona  à luz do dia). Com esse dinheiro é provável que muitas centenas de milhares de hectares possam ser imediatamente adquiridos para mais tarde, eventualmente, se poderem criar propriedades com dimensão ideal para serem trabalhadas, divididas e lucrativas.

Alguém dirá que proponho o confisco de terras. Convenhamos: muito do que hoje é floresta privada não conhece ou não é possível conhecer os seus proprietários, aliás parece que o famoso cadastro não anda nem desanda justamente porque entre o abandono do interior, as heranças divididas e redivididas ou meramente indivisas ninguém se entende. Ninguém se posiciona para pagar a factura do fogo que se ateou no seu domínio mesmo que dele haja vítimas e prejuízos avultados.

É bom lembrar que quem combate os fogos é pago por todos nós que pagamos impostos para defender a propriedade alheia cujo dono se está nas tintas para quem adianta o dinheiro mas não para algum eventual subsídio a que moralmente não tem o mínimo direito.

O país litoralizou-se. O interior foi abandonado não apenas pelos seus habitantes mas também pelo Estado que reduz continuamente os serviços essenciais nessas zonas (com a excepção da cobrança de impostos!...). As aldeias têm entre 5 e 50, às vezes quase 100 habitantes. Destes uma elevada percentagem é preenchida por gente idosa e abandonada à sua triste sorte. Ficaram ali porque já não tinham para onde ir ou sequer possibilidades de trabalhar e competir com os pobres imigrantes que chegaram em catadupas.

Pode sempre criar-se uma linha, uma fronteira, uma cortina de ferro ou de caniço que separe o litoral vitorioso e enturistado do resto, da pobreza, do abandono. Ou entregar à Espanha... que provavelmente o recusará pois fogos e desastre já tem que chegue que lá como cá  a ideia é a mesma e a cidadania corre o mesmo triste destino.

Ouvir os antigos companheiros de Costa e do PS, ouvir o sr. José Luís Carneiro guinchar acusações, logo ele que ex-ministro da Administração Interna bem devia saber a quantas aquilo no seu tempo andou. Ouvir um ex-medíocre comentador de futebol convertido em líder político ou um par ridículo de radicais de segunda ordem a bramir vai ser a nossa sina nos próximos dias. Se não houver mais fogos.

E a propósito desta última e desagradável e inoportuna hipótese, conviria meditar mesmo que ligeiramente no tratamento televisivo das desgraças. As televisões competiram com toda a espécie  de narizes de cera nas notícias. Tudo para ganhar audiências. Passaram vezes sem conta as mesmas trágicas imagens do fogo. Os seus enviados repetem à saciedade toda a mesma toada de tropos dizendo em dez minutos o que poderia ser dito em um. Uma das televisões juntava ao uivo desconsolado de repórteres sem imaginação nem contenção uma tira de legendas eivada de adjectivos que pela repetição e mau gosto retirava à catástrofe toda a dignidade e e se dirigia aos mais baixos instintos dos espectadores leitores que no sofá se indignavam contra tudo e todos. As televisões deram voz a toda a espécie de acusações de autarcas sem nunca se lembrarem de lhes perguntar se eles tinham nos meses anteriores levado a cabo alguma acção útil para prevenir o verão quente que lhes iria tombar sobre a cabeça. Ou sobre as trombas ou sobre o focinho matreiro. Foi uma disparatada manobra eleitoral desses cavalheiros que descaradamente uivavam amor e devoção ilimitada a aldeias perdidas onde provavelmente nunca teriam posto o pé. Ei-los a fingir de bombeiros mas sem se arriscarem a segurar numa mangueira frente ao mais pequeno fogacho, dedo apontado aos de cima que de resto, há que reconhecê-lo  mostraram toda a sua extensa mediocridade comunicativa. Outro desastre.

E outra vergonha...

estes dias que passam 1007

mcr, 16.08.25

Saudades da censura  (Credo!...)

mcr, 16.8.25

 

Há dias publiquei  um texto chamado “comprar uma guerra estúpida” (12 de Agosto). Na altura já achava que declarar guerra ao mais que restrito número de mulheres que amamentam crianças por demasiado tempo (no caso a polémica estalou com a ultrapassagem de dois anos de amamentação) era politicamente (mas não só) uma burrice a tender para o guiness.

Todavia nunca pensei que uma criatura de seu nome Elsa Gomes (ex-assessora da Ministra do Trabalho, convém salientar e actual directora adjunta dum importante departamento da Segurança Social, re-saliente-se...) viesse a terreiro dizer (e cito o Público) “Nenhuma mulher normal  amamenta um filho depois dos dois anos. Quem diz o contrário não pode ser uma boa mãe!”.

Eu, homem sem filhos, não serei a pessoa mais idónea para avaliar do impacto do leite materno numa criança com dois anos. Sequer com um. Não conheço nenhum caso de amamentação depois dos dois anos mas estou mais que convencido que isso será, no mínimo, raro ou até, nos tempos que correm, raríssimo.

Todavia, a ideia de “mulher normal”  e sobretudo a de “boa mãe” parecem-me ser juízos de valor (pelo menos biológicos, mas também éticos e sociais, para não falar no que se passa por outras geografias onde a coisa parece ser mais habitual) que ninguém com um mínimo de inteligência, de bom senso, de visão política, ousaria fazer.

Pois, pelos vistos, a dita cuja Elsa Gomes (não confundir com a cantora e mais duas ou três pessoas que na internet a apagam) entendeu atirar esta acha bem untada de gasolina para a fogueirinha que grassava.

Se eu fosse maldoso, coisa que nunca fui por achar inútil, seria capaz de pensar que o facto de ter sido ex-assessora da Ministra do Trabalho e usufruir presentemente de uma sinecura na Segurança Social, quiçá sem que o seu currículo, preparação, conhecimento, justifiquem o cargo que poderá eventualmente ser devido apenas e só ao cartão partidário e à devoção aos poderes neste momento imperantes se deve apenas e só ao síndroma HMS  ou seja “his master voice”.

Conheci ao longo da minha já extensa vida um farto número de criaturas que ocupavam cargos sem que estivessem habilitados para o efeito. Conheci uns centos de cretinos, de idiotas, de incapazes e outro tanto de medíocres que contribuíram (provavelmente sem sequer terem consciência disso...) para o estado de atraso em que o país está (e donde provavelmente não sairá tão cedo enquanto se tornarem públicas profissões de fé deste teor).

Eu, que não sou suspeito de ser amigo do actual Governo mas que também ninguém me poderá considerar inimigo, tenho por mim que esta frase, aliás duas que raiam o abjecto, possam ter favorecido o Governo, a Ministra, a maioria que os apoia.

Tenho (pelos vistos)  a imensa sorte de não conhecer a senhora Elsa. Tentei saber quem era mas ou não fui competente ou, de facto, a criatura ainda não merecia notícia sobre ela. Vi, isso sim, citada a frase ou frases em vários órgãos de informação e, convenhamos, que me pareceu que todos eles pareciam chocarreiros.

E a palavra chocarreiro é um mínimo que uso porquanto poderia, se valesse a pena (mas não vale), qualificar a declaração de modo bastante mais “abrasivo” para usar um termo em consonância com o desastre que vamos vivendo.

Nem sequer cito a primeira bem aventurança que abre o Sermão da Montanha pois creio que, tudo visto, lido e respigado, não merece ser mal empregado neste caso.

estes dias que passam 1006

mcr, 12.08.25

Matar os jornalistas. Cegar o mundo.

(variações sobre uma tragédia)

mcr, 12-8-25

 

Não é novidade para ninguém. Israel para além da eficácia militar, tem serviços de informações de altíssima qualidade que, quando é necessário se transformam em serviços de execuções  absolutamente implacáveis.

É neste contexto que se deve tentar perceber a morte de um jornalista da Al Jazira. Enquanto a estação afirma que este jornalista era um talentoso e corajoso repórter, os serviços israelitas juram que era um agente do Hamas.  Fosse ou não, já está morto. Melhor dizendo, e recorrendo apenas ao testemunho israelita: foi executado com mais quatro desventurados colegas pelos israelitas.

Não posso dizer se o finado era ou não um terrorista, um compagnon de route, um simpatizante ou tão só um jornalista que tentava dizer o que se passava naquele “Auschwitz à moda de Netanyahu”.

E refiro Auschwitz com total conhecimento de causa: só jornalistas já morreram mais de 200  (ou 250...). Se, como afirma Israel já morreram 20.000 soldados do Hamas, então temos que as crianças já mortas perfazem o total de mortes! Será que cada terrorista do Hamas se fazia acompanhar de dois cúmplices infantis? Seriam estes os portadores das armas do heróico futuro mártir? Ou foram liquidados apenas porque como na América do faroeste o melhor palestiniano é o palestiniano morto?

A hecatombe jornalística deve ser analisada tendo em conta que Israel não permite a entrada de televisões ou outros meios de informações internacionais. Se não é para poupar as vidas desses inconscientes que se expõem ao horror dos bombardeamentos, temos que há nesta proibição de meios de comunicação, externos e isentos,  a ideia de ocultar tudo o que por lá se passa. Aldous Huxley que inventou o título “sem olhos em Gaza” tem aqui uma merecida homenagem por parte dos israelitas  (notem que nunca escrevo judeus!....) que provavelmente nunca o leram.

E é importante dizer que também em Gaza nem todos os jornais israelitas podem entrar. Será que querem poupar as vidas desses israelitas que se opõem ao governo radical e gangasterizado de Netanyahu? Antes isso que serem obrigados a suicidá-los como na Rússia (mas pode ser, é mesmo provável que também aqui se atinja esse sinistro patamar).

E já que estamos perante a evidência da ocupação (mais uma!) de Gaza conviria dar uma vista de olhos (sumária) sobre como Israel nasceu.

Em 1900, viveriam na Palestina, isto é em todo o território que vai da fronteira egípcia ao Líbano alguns escassos milhares de judeus , tão pobres e miseráveis como os seus conterrâneos árabes. Eram ortodoxos mesmo que não fossem da mesma espécie criminosa dos actuais. Eram poucos e viviam ali como a maioria dos judeus sefarditas viviam nos territórios árabes, desde Marrocos ao Iémen e ao Iraque, de resto entidades políticas inexistentes nessa época. Boa parte do Médio Oriente pertencia ao Império turco, às colónias francesas do Magrebe, ao reino de Marrocos quase um protectorado.

Na Europa do Centro e do Norte estava instalada a comunidade asquenaze, constituída por judeus não oriundos do antigo Israel  ou da diáspora que se seguiu à tomada de Jerusalém e à expulsão de judeus das suas terras ancestrais. Ainda hoje está viva essa distinção que é visível em Israel . Poderá afirmar-se sem receio de desmentido que o Israel actual foi fundamentalmente pensado e construído pelos asquenaze, vítimas, de resto de pogroms por toda a Europa nomeadamente pela de leste, Rússia incluída. Os sefarditas  expulsos da península espalharam-se pelos territórios árabes do Magrebe e do Médio Oriente com uma pequena minoria que rumou a terras ocidentais, desde a Holanda à Itália, de onde é aliás originária a palavra ghetto.

Em 1917, um ministro britânico em carta enviada ao poderoso banqueiro Rotschild, levantava a hipótese a de o “Governo de Sua Majestade poder aceitar a ideia de um estabelecimento da comunidade judaica na Palestina “.

Os leitores recordarão que foi no final da guerra que a França e a Inglaterra estabeleceram mandatos na Síria e no Líbano, por um lado e na Palestina e na Jordânia por outro.

Convém porém lembrar que a colonização de parte da Palestina, se bem que financiada pela alta finança judia, não teve especial impacto na burguesia de confissão judaica fosse ela do Sul ou do Centro europeu ou vivesse já na América. Em 1940 não chegariam a 100.000.

O holocausto mudou tudo e sobretudo permitiu que um Ocidente carregado de remorsos votasse na ONU a criação do jovem Estado de Israel, laico e dividindo a Palestina em dois estados. E é bom lembrar que nem a tragédia da Shoa nem a alegada epopeia israelita, tiveram efeito sensível em boa parte da Europa onde restavam judeus.  E menos ainda na América que, porém, financiou mais generosamente o novo Estado. Mais: armou-o até aos dentes, defendeu-o continuamente e o exemplo mais clamoroso da cumplicidade ocidental foi a campanha do Suez.

(não tive, nem tenho qualquer simpatia por Nasser e pelas aspirações árabes mas neste caso só a URSS e os EUA conseguiram fazer retirar da área do canal franceses, ingleses e israelitas que obviamente tentavam levar a cabo mais uma operação neo-colonialista. )

Fui, pela idade, e pela curiosidade, por interesse político e ético, testemunha atentíssima destes últimos sessenta anos.  Nunca justifiquei o terrorismo árabe ou palestiniano, de resto nunca justifiquei qualquer terrorismo fosse ele da Rote Armée Fraktion, da Action Directe, do IRA, das Brigadas Vermelhas (& associados), da ETA sem esquecer as caricaturas repelentes e domésticas que por cá floresceram e que nunca foram punidas.

Todavia, conviria lembrar a Israel e amigos que  isto, este tsunami de violência sem limites vai aumentar (e de que maneira!) aquilo a que os radicais israelitas chamam “anti-sionismo” e que é apenas uma crítica aos excessos vingativos que já ultrapassaram tudo o que poderia ser tomado por dura réplica ao crime do Hamas.

Estão à vista as consequências. Dezenas de países que nunca tinham pensado em reconhecer a Palestina vão fazê-lo, Portugal incluído. Ao fim e ao cabo, o Hamas está, como ele próprio se gaba, a sair vitorioso.

Sei que Israel pouco se importa com o reconhecimento internacional de um Estado que todos os dias ataca, mesmo na Cisjordânia que ainda não é Gaza mas que para lá lenta mas resolutamente caminha.

Pessoalmente, entendo que o Governo Português deveria  mostrar algo mais. Por exemplo, suspender sine die o eventual reconhecimento de nacionalidade aos 80.000 casos de alegados descendentes de sefarditas portugueses que estão à espera. Aliás deveria ser levada a cabo uma rigorosa verificação da documentação apresentada para evitar que mais um par de oligarcas putinistas russos se transformem em cidadãos portugueses. De resto, conceder a nacionalidade a quem não fala português, não tenciona viver em Portugal e, provavelmente, nem sequer conhece o país parece uma tolice, um embuste e uma forma de garantir a um par de criaturas lucros já denunciados na obtenção da nacionalidade. A lei que um parlamento acéfalo votou generosamente, sem limitação temporal e sem garantias sérias, deveria ser, quanto antes, revogada. Ou posta em banho-maria por uns largos tempos.

Como observação final gostaria de lembrar que a defesa de Israel tem agora na extrema direita os seus principais campeões. Longe vão os tempos de Le Pen e da sua referência, a senhora Dufour, a que ele, canalhamente, juntou a palavra “crematoire”...

estes dias que passam 1005

mcr, 11.08.25

Comprar uma guerra estúpida

& outras tolices estivais

mcr, 11-8-25

 

Uma senhora ministra com idade de ser mãe de filhos adultos ou mesmo avó, entendeu vir guerrear no campo da amamentação materna e, já agora, tentando regulamentar excessivamente o que, na melhor das hipóteses, tem escassa importância económica, ética ou jurídica. 

Eu, em tempos já bem distantes, dirigi uma instituição em que mais de oitenta por cento da força de trabalho era feminina. E uma forte maioria  das mulheres estava em idade fértil e tinha ou pensava vir a ter filhos.

Contra um ministro esparvoado mas ambicioso, criei um infantário e demais graus de internamento de crianças e jovens que ia quase até aos doze anos (como salão de estudo). Sua Excelência começou por tentar chamar-me à pedra mas, perante os resultados  de ganhos de produtividade  e afundamento das faltas, mudou de rumo e, quando eu afirmei que ele teria tido a ideia, logo veio ao Porto pavonear-se perante as pessoas interessadas.

Dessa época, já nos anos do PREC ficou-me a sensação de que os casos de amamentação fraudulenta eram raros, raríssimos.

Num país em que os problemas que se levantam a um Governo minoritátio, são enormes, em que é preciso navegar com todas as cautelas, abrir este tipo de frentes de batalha merece pôr em causa os dotes intelectuais de quem se esganiça para impor autoridade.

No domínio da emigração conviria, para já, saber quantos emigrantes entraram  no país nos últimos anos e sobretudo quantos é que por aí andam.

Só um tonto varrido é que pode pensar que a percentagem de emigrantes num determinado país nada significa. Por isso, parece razoável que haja organismos que regulamentem não só as entradas mas as condições de vida e de emprego de quem chega. E que previnam os mais que habituais abusos de certos empregadores, bem como as actividades das empresas fornecedoras de mão de obra temporária para já não referir o combate às máfias que traficam gente dos mais variados locais.

É verdade que se impõe uma legislação tão cuidadosa quanto rigorosa, inteligente, apta a resolver os problemas que uma falta de trabalhadores implica.

Infelizmente, nem sempre os legisladores têm um conhecimento suficiente das leis e muito menos da escrita das mesmas leis. O resultado está à vista: por maioria forte, foram considerados inconstitucionais diferentes aspectos da lei aprovada e enviada ao Tribunal Constitucional.  

Por outras palavras ignorância atrevida, péssima redacção e desmazelo, para não dizer burrice.

Os fogos do costume chegaram, viram e venceram. Dezenas de milhares de hectares ardidos, animais mortos, casas ameaçadas quando não destruídas, lavras perdidas, um futuro incerto quanto a pastos e centenas de colmeias destruídas. Basta pegar neste último item para perceber que a polinização absolutamente essencial corre sérios, muito sérios!!!, riscos.

Pelos vistos, continua a não haver suficiente limpeza das matas. Desconhece-se que coimas foram ou serão aplicadas aos proprietários faltosos. Desconhece-se, aliás, quem são muitos desses proprietários. Também não se sabe se nos terrenos em risco há ou não propriedade do Estado. Apenas se sabe, isso sim, que nas grandes empresas do sector madeireiro e da pasta de papel não há incêndios porque aí houve redobrados cuidados e limpeza.

Também se desconhece a razão porque há tantas casas (muitas de segunda residência, mormente de emigrantes...) em zonas de risco, sem segurança mínima no que toca a fogo. Quem as autorizou? Como? Quando?

Este país, como toda a orla do Mediterrâneo tem incêndios florestais desde a mais alta antiguidade.

O abandono dos territórios do interior (e o interior começa a 20, 30 ou 40 quilómetros do litoral...) a fuga da população rural,  propiciam a aparição de fogos, com incendiários ou não.

Se há proprietários que não limpam as suas matas, então que a limpeza seja feita pelos diversos poderes públicos e que o seu custo seja cobrado a quem nada fez. Se não puderem pagar que percam as propriedades. E depressa porque, sem acção, para o ano há mais.

Estamos todos, proprietários ou não, do interior ou do litoral, a pagar um preço cada vez mais alto pelo estado da floresta, pelo fim esperado e próximo da fauna e flora, enfim pelo desastre que só  os imbecis não percebem.

Agosto é conhecido por ser a “silly season”  mas  isto não tontice é estupidez, desleixo, afronta a quem se interessa, se incomoda, se indigna e ainda por cima paga impostos que não são nada meigos.

Arre!

estes dias que passam 1004

mcr, 09.08.25

Emigrantes somos todos ou ainda menos

mcr, 9-8-25

 

O meu quarto avô, João Martins, era um fidalgote de baixos rendimentos numa terriola perdida do concelho de Ponte do Lima. Desandou para o Brasil por altura da fuga da família real.

Ao contrário de quase todos os portugueses da época, foi para o Rio Grande do Sul e amassou uma imensa fortuna sobretudo em terras. Ao que sabemos o seu sonho era ir de Pelos até Montevideu sempre por terras suas. Ignoro se o conseguiu mas a verdade éque se tornou  um notável naquele grande Estado do Sul a pontos de, durante a guerra entre o Império e os Farroupilhas, ter-se declarado neutral, acolhendo nas suas terras as mulheres filhas e irmãs dos principais chefes dos dois bandos.

Erico Veríssimo um primo mais longínquo do que a a constelação de Alfa de Centauro, retrata-o na extraordinária saga  “O Tempo e o Vento” ainda que sob os traços mais convenientes de um emigrante do Norte de Portugal casado com uma emigrante vinda dos Açores (que por acaso vinha da poderosa família Bettencourt...).

A dinastia Martins por lá continua mas a bisavó Ubalda Martins casou com o filho de outro emigrante, desta feita um alemão.

De facto o trisavô Ernst Richard Heinzelmann, nascido a norte de Berlim, filho de uma senhora da família Thulman e de um Heinzelmann vagamente bispo luterano ou algo do mesmo teor e substância, licenciou-se em Medicina e acabou por ir para o Brasil, parece que a convite das autoridades do Rio Grande do Sul: Universidade Wilhelm, hoje Humboldt.

Exerceu a sua profissão com grande êxito e reconhecimento público a pontos de haver uma pequena cidade que em sua honra se chama Dr Ricardo.

Também ele figura em “O tempo e o Vento” sob o nome de Dr. Winter, médico. O seu filho Oskar veio a ser o marido de Ubalda e pai da avó Dora Martins Heinzelmann Correia Ribeiro.

O Bisavô José Joaquim Correia Ribeiro  emigrou para o Brasil onde também fez uma boa fortuna. Regressou a Portugal e tornou-se exportador de vinho do Porto, com a filma Correia Ribeiro e filhos.

Enviuvou e casou pela segunda fez, acrescentando ao primeiro filho Artur mais três, os tios José, Alfredo e o avô Alcino. Este destinava-se a Medicina mas fez um ano sabático quase todo passado na Alemanha, estudou por lá química aplicada ao vinho e no regresso informou a família que o seu destino era também a exportação de vinhos. Foi para o Brasil, representando a casa paterna, conheceu na Ópera do Rio de Janeiro a a avó Dora e por lá se casaram e tiveram o primeiro e único filho, meu pai Marcelo nascido na Rua da Lapa, no Rio.

Do lado de minha mãe, também há gente vagamunda. De facto o meu trisavô José da Costa Alemão, nasceu no seio de uma família portuguesa recentemente emigrada nas Minas Gerais. Veio estudar para Coimbra onde um seu tio era Reitor da Universidade e no último ano do curso zangou-se com o tio, abandonou Coimbra e regressou ao Brasil.  Por razões que não vale a pena descrever o Brasil entrou em guerra com o Paraguai e tentou mobilizar cidadãos portugueses lá residentes. Algumas centenas destes pportugueses recusaram, começaram a ser vítimas de perseguições e recorreram ao Marquês Sá da Bandeira, na época Ministro da Marinha e dos Negócios Estrangeiros. Por sua iniciativa, o Governo Português forneceu alguns navios que transportaram os portugueses do Brasil para o Sul de Angola. O trisavô terá vindo na segunda fornada numa expedição em que era o segundo comandante sob as ordens do seu cunhado Pedro Chaves. Desembarcados como todos os restantes em Moçâmedes, José homem culto sem frio nos olhos criou uma grande propriedade na zona da Chibia, ao mesmo tempo que exercia uma medicina utilíssima dado que naquele imenso território não havia rato de médico. Aventureiro, com qualidades de chefia e conhecimentos vários, foi o autor de um relatório sobre o Rio Bero que reconheceu da nascente até à foz. Também se meteu na política local e prestou vários serviços militares tornando-se “capitão de 2ª linha”. Está presente em vários livros desde o volumoso “Sul de Angola  (Relatório de um governo  1908-1910)” AGC 1936, de João d'Almeida e perpassa em várias páginas de dois livros de Rui Duarte de Carvalho que o celebra na sua vertente de geógrafo amador e de etnógrafo também amador.

O trisavô José enviuvou duas vezes e teve um pancadão e filhos dos quais apenas destaco a bisavó Hemínia.

Ainda um dos bisnetos de José deixou em cinco volumes uma curiosa espécie de História do distrito de Sá da Bandeira onde abundam parentes lá nascidos ou lá emigrados.

Ainda da parte de minha mãe o meu avô Manuel Patrício Curado, filho segundo de uma família de proprietários do Alto Alentejo  também foi para África. Como filho segundo estava destinado à vida clerical  enquanto o primogénito herdaria tudo e se tornaria doutor. Manuel, jovem destemido, escapuliu-se do seminário e aos dezoito anos assentou praça no antigo Exército Colonial. Rumou a Angola  que percorreu de lés a lés como oficial reformando-se como capitão.

Dois filhos dele, meus tios também emigraram para Cabo Verde e Angola respectivamente e só regressaram com o 25 de Abril.

Finalmente o meu pai, Marcelo, médico como boa parte dos seus familiares, resolveu também tentar tardiamente a sua sorte em Moçambique onde cheguei aos 13 anos. Fiz lá todo o segundo ciclo dos liceus  e só lá regressei por três vezes entre 52 e 65  para férias.  Não fui mais emigrante do que isso ainda que tenha estudado e feito um par de pequenos cursos em países estrangeiros mormente Holanda, Itália e Alemanha. Já o meu irmão, também esteve mais ou menos emigrado, melhor dizendo exilado político em França. De facto, terminado o curso de Medicina e feita a preparação para oficial em Mafra, foi subitamente desgraduado, e tinha como destino Penamacor e posteriormente África como soldado.  Passei-o pela fronteira de Melgaço e e esteve em França até ao 25 A.

Abreviando. A minha família correu mundo como emigrante mesmo se, de certo modo, emigrantes de luxo ou , pelo menos com mais possibilidades do que o comum dos emigrantes. Todavia, das memórias que recolhi, dos tempos em que vivi fora de Portugal ficaram-me um par de ideias que, no caso em apreço se reduzem a uma só. A minha gente foi bem recebida em toda a parte, pôde prosperar e deixou amigos por onde passou. Este é o caso mais comum da imensa maioria dos emigrantes, mesmo dos mais humildes que aportam a países estranhos para fugir à fome, à guerra ou apenas para melhorar a sua vida e a vida dos seus. Num país que emigra desse sempre, ou pelo menos desde os anos da Índia, só há uma atitude possível. Receber bem quem por bem vem. Integrar, não permitir ghettos, não pactuar com situações infames de exploração do recém chegado e, sobretudo, esfregar nas fuças dos que uivam contra os emigrantes esta simples, terrível verdade: sem eles este país vai ao fundo mais depressa que o Titanic.

E lembrar que a diáspora portuguesa terá bem mais de dois milhões de pessoas por esse mundo fora. Imaginem que em França ou na Suíça, no Brasil ou em Angola, nos EUA  ou nos Emiratos aparecem Venturas e outras semelhante criaturas!...

(o título é roubado a uma afirmação de Mário Cesariny: “burgueses somos todos ou ainda menos”. O seu a seu dono.)

estes dias que passam 1003

mcr, 02.08.25

Mesa feita companhia desfeita

(e agora o Nuno Portas)

mcr, 31-7-25

 

Eram os anos enlouquecidos do PREC. Um grupo galhofeiro  e resistente, vindo dos anos infames do Estado Novo, juntava-se diariamente no que consideravam uma espécie de cantina. Convenhamos: a cantina era apesar de tudo o snack-bar do Hotel Florida (ao Marquês de Pombal). Não era exactamente um “haut lieu gastronomique” mas ficava perto dos escritórios de alguns deles.

Juntavam-se em número irregular no que, à falta de melhor, eu chamaria uma “Stammtish” com a diferença de que aqui todos se conheciam.

Eu, por essa época, vinha amiúde a Lisboa e sempre que podia juntava-me aquela fratria com a qual partilhara um penoso ano de carnaval político. Ao fim de um ano, todos percebemos que o radicalismo imperante naquela pequena organização política não levava a lado nenhum. a alguns deles (Jorge Sampaio, César Oliveira ou Nuno Brederode)  ligavam-me mais de uma dúzia de anos de amizade forjada nos anos de chumbo mas também de vinho e rosas das lutas estudantis e políticas.

O grupo que se juntava tinha três mais velhos (João Bénard da Costa,  João Cravinho e Nuno Portas). Seguiam-se o Jorge Sampaio e o Joaquim Mestre e logo eu, o César e o Nuno.

No grupo dos mais novos estavam o Luís Nunes de Almeida e o Francisco Soares (refiro evidentemente os comensais mais assíduos pelo menos aqueles que eu encontrava mais vezes).

Era uma época de incertezas, o ano de 75 foi uma montanha russa de incidentes políticos mas os anos imediatamente a seguir mantiveram um alto grau de dúvidas mesmo se o pior momento já tivesse passado. Era a época de formação do GIS (Grupo de Intervenção Socialista) e os seus mais notórios elementos preparavam-se para aderir ao PS.

Digamos que naquela mesa se conspirava à fartazana e que o projecto político que aquele grupo incarnava era algo de sólido, inteligente, ético e de Esquerda na acepção mais nobre da palavra. Digo-o com todo o à vontade pois, por viver longe (no Porto), nunca aderi formalmente mesmo se sempre me tenha considerado “compagnon de route”. Com uma excepção: antes destes meus amigos passei uma temporada no PS que terminou no dia em que o partido apoiou a imbecil e desvairada moção de censura que o PRD lançou contra Cavaco Silva que chefiava um governo minoritário!

(o resultado dessa gigantesca tolice foi permitir a Cavaco dois inteiros governos com maioria absoluta, além do que converteu o PS numa espécie de federação de taifas que se combatiam com mais força do que a que o partido usava contra o Governo do PPD)

Quando finalmente o GIS chegou ao PS  era já claro que seria recebido com desconfiança mesmo se alguns dos seus membros se tenham distinguido em governos posteriores.

Continuei a manter alguns contactos com alguns dos seus elementos mas a vida tornou-os mais esporádicos. Curiosamente o Nuno Portas, que entretanto veio para o Norte, foi um dos últimos que encontrei aqui mesmo na esplanada onde escrevo. Continuava tão vivo como quando o conheci, curioso de tudo, e a bater-se pelas mesmas justas causas ainda que com muito menor impacto público.

Todavia, a política de habitação que lançou continua a despertar interesse e a manter-se viva porque, com ousadia e imaginação, o SAAL conseguiu deixar obra feita visível, exemplar.

Tenho por mim, apesar de não o conhecer tão profundamente quanto gostaria que o Nuno Portas além da inteligência tinha a seu favor a teimosia e a amabilidade. E a vontade de mudar as coisas, de fazê-las bem ou melhor. Ao dedicar-lhe quatro páginas com fotografia a toda a largura  da capa, o Público, mostra bem que o percurso de Nuno Portas acabou por ser conhecido e, em boa medida, reconhecido

Numa altura em que a habitação se tornou num tema absoluto de discussão, valia a pena  um esforço sério de, sem imitar mas com a clara influência de Portas, se deitar mãos à obra. Seria essa a melhor homenagem possível a este português que atravessou luminosamente a última metade do século passado e o primeiro quartel deste.