Aqui não há inocentes!
mcr, 25-8-25
Desta feita não vou falar de Israel, ou dos seus dirigentes, ou dos cidadãos que os apoiam (e que não parecem ser poucos, bem pelo contrário).
Também não vou continuar a falar da Rússia invasora que lembra pesadamente a URSS de má memória, sobretudo aquela que, com Stalin, criou a cortina de ferro e fez reféns numa dezena de países que o acaso e a geografia lhe deram como vizinhos.
Sobre este tema e citando Erich Maria Remarque, “nada de novo a leste” (ressalvando o ponto cardeal que era outro).
Melhor dizendo, a oeste há algo de novo dado que pela primeira vez na História há um presidente americano que junta a ignorância histórica, o narcisismo, a ideologia num cacharolete indigesto e irresponsável (o futuro o dirá certamente) e permite a um tiranete local, ex-polícia político mas inteligente e saudoso de um passado imperial levar um país (o seu) para a ruína ignominiosa e outro para a destruição lenta mas inflexível.
Fiquemo-nos, porém, no torrãozinho de açúcar que ainda não saiu da tragédia dos fogos.
Hoje, parece que a calamidade nos deu umas precárias tréguas mas, desde já, se pode dizer que desta feita, este foi o pior ano em perda de hectares de floresta, destruição de culturas, morte de animais domésticos e selvagens, A terra enegrecida anuncia um futuro ameaçador para pessoas e animais.
Como se isso não bastasse, temos que Governo e Oposição vão degladiar-se sobre o como, o porquê do desastre, ao mesmo tampo que habitantes locais, autarquias e seus venerandos representantes, bem como um largo rol de instituições que deveriam prevenir catástrofes, combatê-las rapidamente, se fingem exteriores a tudo o que ocorreu desde mediados de Julho.
Eu não duvido que alguns incêndios se devam a mão humana, que as alterações climáticas tenham ajudado, que os calores excessivos tenham propiciado as chamas e tornado difícil o seu combate.
Todavia, e bastou ver as reportagens televisivas (a que também iremos), para ver que a limpeza das matas foi quase sempre rara e pouco convincente, que as autoridades, todas as autoridades mormente as políticas (a começar nas juntas de freguesia e nas câmaras municipais) tenham sofrido de miopia imbecil e contínua durante a Primavera e o início do Verão.
Sabe-se que mais de metade das matas ficaram por limpar (e fala-se num milhão de hectares). Sabe-se que os proprietários rurais de pequena ou pequeníssima dimensão não quiseram ou não puderam limpar o que era seu e próximo, que outros que vivem longe ou desconhecem a sua qualidade de proprietários ou não sabem que responsabilidades têm ou não se ralam.
Ardeu, pois, uma enorme quantidade de hectares. Morreram no combate às chamas algumas pessoas que as quiseram domar, foi destruída riqueza que vai demorar anos (muitos) a recuperar mas o que se espera para os próximos dias é a troca de culpas e desculpas entre oposição toda e Governo que, como de costume, irá falar de herança de governos anteriores (o que, de resto também tem o seu quê de verdade...).
Há dias, um jurista escreveu um pequeno texto no “Público” lembrando que uma floresta em que o Estado apenas detém 5% dos terrenos e em que mais de 70% dos proprietários não pode ou tem dificuldade em limpar o que é seu será sempre pasto das chamas, cada vez maiores, mais violentas e mais prejudiciais.
De resto, nos incêndios de 2017 (se não erro) o pinhal de Leiria (do Estado) ardeu descontroladamente.
Só não ardem as propriedades das grandes empresas papeleiras que obviamente sabem o que podem perder e defendem os seus terrenos, limpam-nos cuidadosamente, têm um pequeno exército de sapadores sempre prontos. Essas empresas sabem, e demonstram, quanto a floresta pode valer.
Porém não é aos pequenos, envelhecidos proprietários rurais ou aos desconhecidos proprietários que abandonaram o campo e, porventura, desconhecem os seus direitos (e deveres) que o exemplo pode servir.
Enquanto não se mudar drasticamente a estrutura fundiária o lume reaparecerá cada vez mais ateado.
Quem não quer ou não pode limpar os seus terrenos não deve ser proprietário. Cabe ao Estado limpar os terrenos abandonados, exigir aos donos o pagamento desta tarefa, ou em alternativa retirar-lhes a posse e a propriedade do que não só não cuidam mas do que por incúria se torna perigoso para todos os que ainda querem viver na terra abandonada.
Parece que um avião custa 50 milhões (e só funciona à luz do dia). Com esse dinheiro é provável que muitas centenas de milhares de hectares possam ser imediatamente adquiridos para mais tarde, eventualmente, se poderem criar propriedades com dimensão ideal para serem trabalhadas, divididas e lucrativas.
Alguém dirá que proponho o confisco de terras. Convenhamos: muito do que hoje é floresta privada não conhece ou não é possível conhecer os seus proprietários, aliás parece que o famoso cadastro não anda nem desanda justamente porque entre o abandono do interior, as heranças divididas e redivididas ou meramente indivisas ninguém se entende. Ninguém se posiciona para pagar a factura do fogo que se ateou no seu domínio mesmo que dele haja vítimas e prejuízos avultados.
É bom lembrar que quem combate os fogos é pago por todos nós que pagamos impostos para defender a propriedade alheia cujo dono se está nas tintas para quem adianta o dinheiro mas não para algum eventual subsídio a que moralmente não tem o mínimo direito.
O país litoralizou-se. O interior foi abandonado não apenas pelos seus habitantes mas também pelo Estado que reduz continuamente os serviços essenciais nessas zonas (com a excepção da cobrança de impostos!...). As aldeias têm entre 5 e 50, às vezes quase 100 habitantes. Destes uma elevada percentagem é preenchida por gente idosa e abandonada à sua triste sorte. Ficaram ali porque já não tinham para onde ir ou sequer possibilidades de trabalhar e competir com os pobres imigrantes que chegaram em catadupas.
Pode sempre criar-se uma linha, uma fronteira, uma cortina de ferro ou de caniço que separe o litoral vitorioso e enturistado do resto, da pobreza, do abandono. Ou entregar à Espanha... que provavelmente o recusará pois fogos e desastre já tem que chegue que lá como cá a ideia é a mesma e a cidadania corre o mesmo triste destino.
Ouvir os antigos companheiros de Costa e do PS, ouvir o sr. José Luís Carneiro guinchar acusações, logo ele que ex-ministro da Administração Interna bem devia saber a quantas aquilo no seu tempo andou. Ouvir um ex-medíocre comentador de futebol convertido em líder político ou um par ridículo de radicais de segunda ordem a bramir vai ser a nossa sina nos próximos dias. Se não houver mais fogos.
E a propósito desta última e desagradável e inoportuna hipótese, conviria meditar mesmo que ligeiramente no tratamento televisivo das desgraças. As televisões competiram com toda a espécie de narizes de cera nas notícias. Tudo para ganhar audiências. Passaram vezes sem conta as mesmas trágicas imagens do fogo. Os seus enviados repetem à saciedade toda a mesma toada de tropos dizendo em dez minutos o que poderia ser dito em um. Uma das televisões juntava ao uivo desconsolado de repórteres sem imaginação nem contenção uma tira de legendas eivada de adjectivos que pela repetição e mau gosto retirava à catástrofe toda a dignidade e e se dirigia aos mais baixos instintos dos espectadores leitores que no sofá se indignavam contra tudo e todos. As televisões deram voz a toda a espécie de acusações de autarcas sem nunca se lembrarem de lhes perguntar se eles tinham nos meses anteriores levado a cabo alguma acção útil para prevenir o verão quente que lhes iria tombar sobre a cabeça. Ou sobre as trombas ou sobre o focinho matreiro. Foi uma disparatada manobra eleitoral desses cavalheiros que descaradamente uivavam amor e devoção ilimitada a aldeias perdidas onde provavelmente nunca teriam posto o pé. Ei-los a fingir de bombeiros mas sem se arriscarem a segurar numa mangueira frente ao mais pequeno fogacho, dedo apontado aos de cima que de resto, há que reconhecê-lo mostraram toda a sua extensa mediocridade comunicativa. Outro desastre.
E outra vergonha...