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Incursões

Instância de Retemperação.

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24
Mai06

O que não bate certo?

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Quando entrei para a faculdade, a moda era: eu quero ir para a carreira diplomática! E eu olhava, de viés, aquela malta tão decidida, eu, o miúdo que, após passagem de dois anos pelo Porto, vinha de Soalhães, a terra-do-mata-e-queima, onde a diplomacia, carregada de carrascão, tinha mais a ver com cenas monumentais de pancadaria entre clãs. Diplomacia! Que é que eu tinha a ver com aquilo?

Presumo que nenhum dos que assim diziam chegou lá. Aliás, eu também nunca percebi a fixação que eles tinham pela carreira, mas isso são coisas minhas que, como já disse atrás, não tinha sido propriamente preparado para perceber o que a diplomacia significava.

Nos últimos anos, os colegas jovens que têm passado pelo meu escritório a tentar aprender alguma coisa que eu lhes possa ensinar, eles e os amigos deles, que eu tenho um escritório de portas abertas, dizem-me, quase todos, com olhar grave: eu tenciono ir para a magistratura.

E eu olho-os com o mesmo olhar com que olhava os antigos colegas que queriam ir para a carreira diplomática. Mas desta vez percebo-os melhor. Há um sobredosagem de gente a tentar ser advogado. E, então, a escolha já não é feita pela vocação: escolhe-se aquilo que parece mais seguro.

Nada disto que conto é surpreendente. O que me surpreendeu esta semana foi ouvir um conceituado magistrado de um tribunal superior perguntar-me se eu achava se ele ainda estaria com idade para ingressar na advocacia. No princípio, pensei que ele estava a brincar. Não estava. Fiquei sem saber o que lhe dizer. Mesmo depois de ele se justificar com a ideia de que, hoje, a magistratura já não compensa. Ainda assim, pensei que fosse caso único e um desavario. Comentei, genericamente, o assunto com outras pessoas que me desenganaram: há muitos magistrados a pensar o mesmo. Continuo sem saber o que diga. Mas acho que anda por aqui qualquer coisa que não bate certo. Que acham?

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