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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

09
Mar06

Eu sei, Mafalda

Incursões

Eu sei, Mafalda, que a culpa foi toda minha. Não soube ler os sinais, não os quis ler, de tão precisado que andava de alimentar o ego com todos aqueles desvarios, enganos que eu sabia que eram enganos, mas que me faziam bem, como se eu precisasse de viver a vida toda numa noite da semana que era aquela em que eu podia dizer ao mundo que estava vivo. Era também aquela noite em que tu saías, com o teu olhar de águia, e me vias, e, sem nunca termos trocado palavras, censuravas com o olhar - esse olhar negro e fundo - a facilidade com que eu alimentava os tais amores vadios de que ontem falava, aqui, num sítio onde nunca me lerás, porque não sabes que eu ando por aqui.

Fiz contigo aquilo que fiz tantas vezes com a minha vida, coloquei-te no pousio, certo de que, cansado de horas tolas e de egos desanimados, eu caminharia para ti e tu para mim, as mãos cheias de promessas, de todas as promessas do mundo, e eu diria que as horas do diabo tinham morrido e tu dirias que o importante é que ambos estavamos vivos e eu pediria desculpa das vezes em que tu me olhaste, com esse olhar de censura, e eu diria que a culpa não era minha, que a culpa era do desvario e do maldito ego magoado e da necessidade de cumprir objectivos que os que me rodeavam exigiam, porque achavam piada e, vá lá, reconhece que tudo aquilo tinha piada.

Já não sei quem se cansou primeiro, se foste tu se fui eu, talvez os dois. Eu deixei de andar pelos mesmos sítios, os sítios que me perdiam. Quando comecei a voltar, tu já lá não estavas com as tuas amigas e os teus amigos e com o teu olhar de censura e os olhos escuros que diziam poemas e que tu sublinhavas com um risco que os faziam luminosos. Fui uma vez, e outras e outras e percebi que há coisas que não se fazem e que era a hora do meu pousio para voltar e começar tudo de novo, como se as coisas fossem assim, um recuo e um avanço até à vitória final.

Ontem à noite, quando te vi, poucos metros depois da minha mesa, com o teu passo largo que só as mulheres altas têm e essa presença imensa que enche o mundo, quis correr para ti e olhar-te de uma vez nos olhos de que fugia envergonhado da tua censura. Tu viste-me, que eu sei que viste e vi a tua hesitação ligeira e outra vez o teu passo firme e eu perguntei-me quem era o tipo que estava contigo e vim para casa e não tinha Tv nem internet e percebi que não se é jovem para sempre e que o tempo passa, fugaz, e que arde como fósforos e, afinal, quem era o gajo que estava contigo?

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