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Incursões

Instância de Retemperação.

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16
Abr05

NO AL DESAFUERO!

ex Kamikaze
Image hosted by Photobucket.com Assim que, no meu primeiro dia na cidade do México, cedo pela manhã, me dirigi a pé para o centro histórico, com a boa disposição e energia que sempre me invadem nestas ocasiões, não foi só a surpreendente beleza dos edifícios, das ruas, das igrejas (muitos me haviam dito que a cidade do México era feia e tinha pouco que ver), a profusão de cores, a diversidade das gentes ou os seguranças armados até aos dentes à porta das inúmeras ourivesarias que atraíram o meu olhar ávido.
Por todo o lado – pendurados em edifícios, nos carros ou sustentados em paus nas praças – se viam cartazes, escritos à mão em letras toscas e garrafais:


NO AL DESAFUERO!

As massas agitavam-se, era o dia da grande decisão por comissão do Parlamento.

É claro que não descansei enquanto não percebi do que se tratava. Minimamente, claro, que para uma turista que não fizera o trabalho de casa antes de iniciar viagem e estava a contas com as estrelas do guia Michelin, Lonely Planet e outros, as oportunidades de aprofundar a questão eram escassas – a opinião dos meus amigos da classe alta mexicana, em confronto com breves conversas com taxistas, empregados de mesa e, já no estado de Chiapas, com guias e com o que fui lendo em jornais.

Na vox populi e mesmo naquela imprensa que não morre de amores por Obrador, a coisa resume-se assim:

O PRI (partido que esteve décadas no poder) e o PAN (partido no poder, que derrotou aquele, para surpresa de muitos dos seus próprios apoiantes, nas eleições de 2000), cientes dos pelo menos 60% de popularidade de Andrés Manuel Lopez Obrador, presidente do governo do distrito federal do México (grosso modo, da cidade do México, cerca de 20 milhões de habitantes), líder do PRD (Partido da Revolução Democrática), anunciado candidato às eleições presidenciais de 2006, uniram-se para o impedir de concorrer.
E muitos acusam a PGR de ter estado, neste particular (e não só) ao serviço do PRI e do PAN, destacando entre outros episódios antecedentes, a “sanha” do vice-procurador geral Carlos Veja Memije contra Obrador - declarou aquele que, na hipótese de este não ser desafuerado, apresentaria o caso perante um juiz federal para que o prendesse quando solicitasse licença do cargo que exerce para se candidatar à presidência da República.

Obrador não é suspeito de corrupção mas de ter desobedecido, em tempos, a uma ordem judicial relacionada com a construção ou localização de uma obra. Com a perda de imunidade (desafuero) Obrador poderia ser levado a julgamento e perderia, ipso facto, os seus direitos políticos, ficando impedido de concorrer às presidenciais (é o que pretenderá o "PRIAN", mas aqui a situação tem muitas nuances jurídicas e Obrador já declarou que o desafuero não o irá tolher).

Curiosamente, nem aos meus privilegiados amigos mexicanos, apoiantes do PAN e que estavam manifestamente apreensivos com o clima de agitação que se vivia, ouvi dizer que Obrador devia ser desafuerado. Apenas que não gostavam dele, por não passar de um político populista que ganhava a simpatia das classes mais desfavorecidas com a distribuição de benesses, como as pensões que - com os impostos deles – atribuíra aos velhinhos. Aqui, o meu sorriso, ainda que exteriormente discreto, foi inevitável…
Na imprensa não afecta a Obrador, que pude ver “em diagonal”, também não se defendia o desafuero, antes se alertava para a desgraça que seria para o México ter como presidente Obrador, pela “simplicidad de su psicologia y la pobreza de su lenguage”, e porque traria seguramente mais e maiores problemas de relacionamento com a América de Bush, especialmente no que respeita ao assassinato de mexicanos que continua a ocorrer na fronteira (segundo me disseram, foi por via da oposição de Obrador que o governo mexicano não apoiou expressivamente/não enviou tropas quando da invasão do Iraque).

A decisão definitiva não foi, afinal, tomada naquele dia. Passou para outra entidade…

Image hosted by Photobucket.com Já em Chiapas – estado campesino do sul, com forte presença indigena, onde o movimento zapatista tem grande influência, por supusesto, a tensão era ainda mais manifesta. Barragens na estrada por dezenas de campesinos, deitados uns à sombra na berma da estrada, enquanto outros rodeavam os carros, exigindo o pagamento de “imposto” para passagem e distribuindo panfletos, 1 km adiante barragem dos militares, mostrando a sua presença e as suas armas e "pedindo" para ficar com o panfleto…(*) Image hosted by Photobucket.com
Foi com surpresa que o nosso motorista e o nosso guia receberam, a 7 de Abril, a notícia que mais um passo havia sido dado no inelutável caminho da aliança política da maioria pelo desafuero. Eles acreditavam que a inteligência (sic) política preveleceria…
Agora, apesar da continuação da polémica jurídica ao mais alto nível, a PGR anuncia que está pronta a avançar contra Obrador.

Que Viva Mejico!

(*) Image hosted by Photobucket.com apontava já eu a minha minúscula câmara digital aos que, ali ao lado, observavam deitados na berma e uma companheira de viagem gritou-me: - "Tem juízo!" Não tive, ou seja, escondi a máquina e não tirei a foto. Mais adiante, na barragem militar, bem quis emendar a mão, mas faltou-me a ousadia para registar mais que um militar a olhar para a janela de um carro (o nosso) e um papel (o panfleto) na mão de alguém fora do carro (a mão de outro militar).

PS - aposto que o "nosso" mcr vai desenvolver os temas... :) Ilumine-nos, meu caro, ilumine-me!

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