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Incursões

Instância de Retemperação.

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18
Abr05

Farmácia de serviço nº 8

d'oliveira
Uhuru!

Mulher negra, mulher nua
Vestida com a tua cor que é vida, com a tua forma que é beleza!
Cresci à tua sombra; a doçura das tuas mãos envolvia-me os olhos.
E eis que no coração do Estio e do Meio Dia, te descubro Terra
prometida, do alto de um colo calcinado
E a tua beleza fulmina-me em pleno coração, como o relâmpago de uma águia.

Mulher nua, mulher sombria
Fruto maduro de carne firme, escuros êxtases de vinho negro, boca
que faz lírica a minha boca
Savana de horizontes puros, savana que fremes sob as carícias ferventes
do vento leste
Tamtam esculpido, tamtam esticado que murmuras sob os dedos do Vencedor
Tua voz grave de contralto é o canto espiritual da Amada.

Mulher nua, mulher sombria
Óleo que nenhum sopro enruga, óleo calmo nos flancos do atleta,
nos flancos dos príncipes de Mali
Gazela com ataduras celestes, as pérolas são estrelas na noite da tua pele
Delicias nos jogos de espírito, os reflexos de ouro vermelho nos sóis próximos
dos teus olhos.

Mulher nua, mulher negra
Canto a tua beleza que passa, formas que fixo no eterno
Antes que o destino ciumento te reduza a cinzas para alimentar as
raízes da Vida.


(Léopold Sedar Senghor, tradução de A.M. ( Alfredo Margarido ?) in “Dialogo” 10.Jan.1959 [dialogo era o suplemento semanal de artes, letras e espectáculos do Diário Ilustrado, jornal vespertino que acabou já nos anos 60])

A farmácia de hoje chama-se Uhuru, palavra que significa “liberdade”. E começa com Senghor esse grandíssimo poeta que, com Aimé Cesaire, inventou a palavra-conceito negritude. Era uma homenagem que lhe devia desde esse longínquo ano de 1959, o ano dos meus 18 anos e duma tuberculose canalha que me ia levando desta para melhor, com os médicos a pensarem que era uma simples pneumonia. Quatro meses de cama, cuidado por uma velha criada (era o que havia nesse tempo) que me contava coisas extraordinárias e pilhava os livros do casarão dos meus avós para eu ler. Li e tresli: até Corin Tellado, em doses industriais, aviei. Jesus, Maria, José, que seca!
Mas eu ia falar-vos de África, de alguns africanos escritores, recomendar-vos largos passeios entre as estantes dos alfarrabistas onde ainda jazem muitas pepitas, a questão é saber procurar. Mas a voz embarga-se-me à simples recordação dos cheiros e das cores duma África que eu ainda conheci, sem guerra, colonial até à medula, combativa na Casa dos Estudantes do Império, alegre e grave na “república dos 1000-Y-Onarius” em Coimbra. De facto fiz o 2º ciclo do liceu em Lourenço Marques, e até fui colega de turma de um dos dois únicos negros do liceu Salazar: chamava-se Joaquim Chissano, não sei se o nome vos diz alguma coisa...
África, pois. Uma África mestiça de muito indiano e árabe nessas costas que sobem de Lourenço Marques até Zanzibar, Kílwa, Malinde etc... Sem esquecer Muipiti, a ilha de Moçambique, manos, ah a ilha, um pedaço do Portugal aventureiro e refilão do século XVII...( e, pimba, salta aqui a 1ª referência: Rui Knopfli: A ilha de Próspero).
Voltemos a Lourenço Marques. E como já vejo por aí um ar refilão a esta menção que tresanda a colonialismo, sempre me defendo com a vera história desse nome: um tal Lourenço Marques, comerciante azougado, porventura já mestiço, vá lá saber-se, obteve o privilégio de vir desde a ilha de Moçambique (ou de Sofala) até à baía dita da Lagoa, fazer o resgate, isto é trocar mercadorias com os habitantes do lugar. Terá sido essa a origem da feitoria que depois daria nome à baía e finalmente à cidade que ali se ergueu. Claro que não há literatura moçambicana sem LM: a cidade cosmopolita com os seus estabelecimentos de ensino permitiu, via escola comercial, o acesso de alguns mulatos à educação média: Noémia de Sousa ou José Craveirinha. Não quero dizer que não houvesse quem antes poetasse. Mas estes dois são absolutamente fundamentais. O problema está em apanhar qualquer coisa da Noémia. Em vida nunca publicou um livro e o que existe, foi editado no Maputo e eu consegui-o graças a uma desconhecida amiga da minha prima Helena. A Leninha tanto azucrinou a pobre com a história de um primo que tinha sido amigo da Noémia (um exagero pois só falei com ela duas vezes) que essa dadivosa criatura abriu mão do livro e ali está na estante rodeado do máximo carinho. Ora escutem este fragmento:

Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimbas chegam até mim
- certos e constantes –
vindos não sei eu donde.
Em minha casa de madeira e zinco,
Abro e deixo-me embalar...
Mas vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Marian cantam para mim
Spirituals negros de Harlém.
“Let my people go”
- oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo! –
dizem.
E eu abro os olhos e já não posso dormir.
Dentro de mim, soam-me Anderson e Paul
E não são doces vozes de embalo.
“Let my people go!”

(in Sangue Negro
ed: Associação dos Escritores Moçambicanos)

Gostaram? Então aí vai um disco da Marian Anderson: “Negro spirituals 1924-1949”, Fremeaux & Associés: são dezoito tema arrebatadores! Vejam só que o disco começa com “nobody knows the trouble I’ve seen” e acaba com “sometimes I feel like a motherless child”!!!
E do Robeson, Paul de seu nome? Pois amanhem-se com este título e tratem de dar à perninha que isto esgota mal chega às discotecas: “Ol’ man river: his 25 greatest (AsV/Living era B000007N70).

De José Craveirinha, Prémio Camões, decano e emblema dos poetas de Moçambique, não me parece necessário fornecer bibliografia. A Caminho publicou-o e não consta que se tenha esgotado.
De Rui Knopfli a Imprensa Nacional publicou uma obra (quase) completa com o título de Memoria Consentida.
E o Senghor? Há uma edição boa e barata na colecção Points da Seuil: “Oeuvre Poétique”. O leitor que agradeça esta procura constante do melhor preço!

Com tudo isto ainda vou no princípio e já aviei quatro páginas: isto já não é uma receita mas um vademecum inteiro. Mas não resisto a falar-vos dum curioso “Ao ritmo da memoria” de Glória de Sant’Ana, que fala de dezenas de escritores africanos. E de dois petiscos que, todavia têm de tudo: bom, muito bom, medíocre e fraquinho: as “Antologias de Poesia” da Casa dos Estudantes do Império. São edições ACEI e temo que não sejam de fácil acesso. Em Lisboa é provável que o livreiro Almarjão as tenha.

Fiquei-me por Moçambique, um Moçambique pré independência que conheci e amei. Muitos anos depois, em Caxias, reduto norte, alguns destes poetas animaram-me com a sua voz, com os seus poemas e o seu exemplo. Gostaria de pensar que este leitor foi digno das leituras. E sobretudo de dois livrinhos, melhor uma novela e um livro de contos, de que vos dou constância:”3 x 9 = 21” de Fernando Magalhães (Atlântida, Coimbra, 1959) e “nós matámos o cão tinhoso” de Luis Bernardo Honwana, ed. Autor com desenhos de Bertina (Lopes) e arranjo gráfico de Pancho (Miranda Guedes?), Lourenço Marques, 1964. Foram ambos meus contemporâneos no liceu, o primeiro foi até da minha turma no 3º, 4º e 5º anos. O que é curioso é que são eles quem praticamente inaugura a prosa ficcional moçambicana.
Nesta altura do campeonato pergunto-me porque é que comecei com um poema de Senghor se acabei em Moçambique? Isto deve-se tão só a que eu escrevo anarquicamente e que “en cours de route” me perdi. Pensando melhor, não foi isso. Celebrei, sem o querer, o “sweet bird of youth”, ou como mais perto e mais sentidamente dizia o grande Ruben Dario a “Juventud, divino tesoro”; entre 54 e 59, mudei de terra, de continente e vivi toda a adolescência. Boa razão, pois, para, sobre música negra e urbana sul africana desses anos (kwela, malta, kwela forte, de arrasar) acabar com um poema de Rui Nogar:

Xicuembo

Eu bebeu suruma
Dos teus olho Ana Maria.
Eu bebeu suruma
E ficou mesmo maluco.

Agora eu quer dormir quer comer
Mas não pode mais dormir
Mas não pode mais comer

Suruma dos teus olho Ana Maria
Matou sossego no meu coração
Oh matou sossego no meu coração.

Eu bebeu suruma oh suruma suruma
Dos teu olho Ana Maria
Com meu todo vontade
Com meu todo coração.

E agora Ana Maria minhamor
Eu não pode mais viver
Eu não pode mais saber
Que meu Ana Maria minhamor
É mulher de todo gente
É mulher de todo gente
todo gente todo gente

menos meu minhamor

sobre a musica Donald Kachamba: “Simange-Manje & Kwela” (PAM ASIN B000003GPQG)

Não pensem todavia que a África se fica por esta perninha. Lá voltarei e bastas vezes às músicas, aos poemas, à épica, à arte (ai, manos & amigas, a ARTE!!!...). Só que, isto requer calma “maningue”, alguma volta às estantes (e aí é o que se sabe: agarro num livro e fico a lê-lo empoleirado no escadote, vou por outro, outro mais e por aí fora...) e sucede como hoje, estava muito sossegado no Senegal e vejo o Knopfli no consultório do meu pai. Um, o meu ancestro, fala de sonetos e outro replica-lhe com msahos. No fim, ambos bebem uma cervejola com muitos camarões para fazer lastro e assistem ao milagre dum fulminante pôr do sol.

Vai esta receita para o Magalhães, o Aires Totó e o Humberto Gordo. E em memoria do Faria.
Os poemas vão para a Sílvia Chueire, a Amelia e a Kamikaze, cujos textos me têm dado imensa alegria. Kanimambo, manas!


mcr

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