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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

Estes dias que passam 93

d'oliveira, 26.02.08

Tempos baços, gentes baças

Ao longo destes três anos escrevi aqui muita coisa sobre Portugal. A maior parte das vezes fui pessimista. Não que o seja, normalmente, mas apenas porque o que via e referia não era de molde a alegrar o mais estouvado dos optimistas.
Alguns dos meus escassos leitores criticaram (benevolamente mas criticaram) o que lhes parecia ser uma rabujice de estrangeirado. Curiosamente, sabendo disso ou não, repetiram argumentos ouvidos noutras épocas mas nestes mesmos lugares contra textos e críticas de portugueses bem melhores do que eu.
Há no “torrãozinho de açúcar” (a imagem é de Eça, diga-se en passant) a ideia firme que o progresso do país só não é visto por quem o não quer. Que as críticas são injustas, denotam falta de patriotismo e mera vontade de dizer mal.
Será assim?
Antes fosse, respondo, antes fosse. Mas não é! A mediocridade campeia, as elites no poder parecem esgotadas, dessangradas, mortiças, cadáveres adiados à espera de uma certidão de óbito que tarda.
A passividade perante os pequenos e os grandes escândalos já não surpreende ninguém, já não incomoda quase ninguém e é genericamente tolerada. Sirvamo-nos de pequenos exemplos, colhidos, sem esforço algum nos últimos dias.
Dezenas ou centenas de milhares de multas de trânsito caminham alegremente para a prescrição por não haver quem as trate. Extinguiram uma entidade e a nova que foi criada não tem gente, nem método, nem escola, nem tradição, nem conhecimento, nem rotinas que a consigam pôr em andamento. Dos antigos funcionários há umas largas dezenas que estão na calha para a “mobilidade especial” sendo o seu trabalho feito com recurso a contratados que não sabem nem podem saber como se processa uma multa. O Estado perde uns milhões, os trabalhadores perdem parte do salário, o incumprimento das regras de trânsito cresce porque os seus fautores sabem que não há quem os puna.
Uma triste criatura que secretariou ou subsecretariou um ministério é acusada de ter assinado no último dia (aliás noite) de funções um número gordo de despachos, trezentos, murmura-se aqui e ali.
Comentemos: Em primeiro lugar não vale a pena fingirmo-nos virgens ofendidas. É do conhecimento geral que nos últimos dias de um governo há um desusado movimento despachante. Ele é louvores, algumas contratações, enfim tentativas diversas de cobrir alguns colaboradores, deixando-os no quentinho de uma qualquer sinecura governamental.
Aqui o que surpreende é a quantidade. Ou melhor, o que surpreende não será tanto a quantidade mas a desfaçatez. Trezentos despachos avulsos! Arre que isto é chamar burro a qualquer cidadão. E já não falo do facto de a mãozinha despachante dever ter ficado derreada com tanta assinatura.
Juntemos a esta fartura aquela história do Casino de Lisboa. Desse casino que subitamente aparece defendido pelo ex-ministro Jorge Coelho que vem de espontâneo para a liça dizer que conhece e estima o director do Casino, que é uma pessoa de bem e retautau, bem-bem já está. O eminente Coelho poderia ter metido a viola no saco porquanto factos são factos. O Casino ganha ou não com o despacho de não reversibilidade das instalações para Estado? Se ganha, como tudo indica, é porque alguém pediu alguma coisa que dantes era impensável. Não foi o amigo do defensor Coelho? Então foi alguém por ele. Algum admirador secreto que achou que deveria premiar-se a patriótica actividade do Casino juntando-lhe mais esta benesse aos fartos ganhos que obtém com o vício alheio.
Um grupo de professores auto-mobilizou-se e foi de jornada até ao local de umas jornadas do PS sobre educação. O eminente Sócrates resolveu desta vez dizer em português técnico o que pensava da “arruaça”. E dos arruaceiros. Gente ao serviço de Moscovo, de Pequim, de Pyong-Yang ou de Alguidares de Baixo. Os “do costume”. Os anti-patriotas. Os malandrins. Os pedreiros livres (bem, pedreiros livres talvez não: ao fim e ao cabo eles abundam sobretudo nas fileiras do centrão), em suma os que são contra a “modernidade”, o “progresso”, as “reformas” e o exaltante socialismo dos senhores Silva e Silva ministros agora muito em foco.
Circulam neste abençoado “jardim à beira mar plantado” uns larguíssimos milhares de carros vendidos pelos anteriores donos mas nunca registados no nome do actual proprietário. O Estado resolveu fazer os primeiros pagarem o imposto que em boa verdade deveria ser da conta do actual proprietário. Alarme geral. Prevenido desse absurdo, o Estado não cedeu. O Automóvel Clube de Portugal, uma das poucas organizações que funciona decentemente neste bananal propõe aos ex-proprietários um expediente: mandar apreender a viatura. Isto às claras e às vistas do Estado inclemente que sabe que isto é um artifício.
A Câmara de Lisboa caiu nas malhas da legislação aprovada pelo seu actual presidente quando este era ministro. O Tribunal de Contas entendeu que o pedido de empréstimo que a CML propunha não estava dentro dos parâmetros legais. A CML protesta. E recruta de uma só vezada três constitucionalistas que, supõe-se, não trabalham para aquecer. À cautela, espero que eles se paguem à cabeça, toma lá parecer, chega-te aqui com o cacauzinho. Em cheque visado, se faz favor! Não, não é desconfiar, nada disso, é só por causa das moscas...
Não tenho dúvidas que os três sábios dirão que a CML está no resplendente caminho da Verdade e o TC atolado no pântano infeccioso da ignorância. Prevejo até que outras câmaras recorrerão aos mesmos (ou a outros) juristas logo que a lei as comece a incomodar. E o mesmo decerto poderá ocorrer na Madeira se o soba de lá entender que tem de responder aos continentais colonialistas.
Terminemos esta procissão dos passos com uma nota galhofeira: o dr Meneses, aclamado líder do maior partido da oposição, não sabe se assina ou não os acordos de regime que livremente estabeleceu. Ou melhor, hoje assina, amanhã não. Malmequer, bem-me-quer. E entretanto o seu respeitável partido vai ter de devolver uma respeitável maquia recebida à má fila de uma empresa qualquer. As empresas são generosas e atiram assim, sem mais nem menos, o seu dinheiro, à rua. Não se pense que isto era uma tentativa de corrupção. Era o que faltava. Todos sabemos que empresas e partidos odeiam essas más práticas e anseiam pelo bem público.

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