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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

29
Mai18

Diário político 226

d'oliveira

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É com certeza uma casa espanhola (e modesta...) 

 

O senhor Pablo Iglésias é, como se sabe, secretário geral da organização “Podemos”, força política radicada na extrema Esquerda espanhola e herdeira, pelo menos em avultado número de militantes, da fantasmática IU e de diversas pequenas, e praticamente desaparecidas, formações de Esquerda. Também recebeu o apoio (e integrou) avultado número de antigos militantes do PSOE. Neste momento é a quarta força política de Espanha depois de durante algum tempo ter ameaçado os socialistas. Desde a fundação até hoje, o Podemos já misturou muita água no seu vinho o que, justamente, lhe terá conseguido uma melhoria na quantidade de votos que tem obtido.

De todo o modo, não é fácil definir com exactidão o programa do novel partido justamente porque, como se sabe, é a prova do poder que finalmente traça as verdadeiras fronteiras da ideologia e da real intervenção política.

Todavia, não é a isto que vimos.

Há uns tempos atrás, em 2012 , o anterior ministro da Economia de Espanha (hoje no BCE) entendeu comprar uma casa por 600.000 euros. Tal facto originou um violento ataque de Pablo Iglésias que não só achava que quem gasta tal soma numa casa é “milionário” e por isso indigno de ser ministro, sobretudo da Economia, mesmo s Guindos tivesse tido excelentes lugares regiamente pagos antes de entrar na política. Iglésias, aliás, também declarava que uma casa de tal preço era um lixo disparatado e ofensivo.

Nas últimas semanas, Iglésias e a sua companheira, entenderam comprar exactamente pelo mesmo preço (ó ironia das ironias!...) uma casa situada numa zona privilegiada para aí viverem e educarem os filhos que estão prestes a nascer.

Estalou o escândalo entre a opinião pública espanhola. Iglésias pecava tanto ou mais que Guindos. Ainda por cima, recorria a uma hipoteca que representa exactamente 90% do preço da futura casa pagável em prestações mensais durante trinta anos, o que atira o fim da dívida do casal para os setenta e poucos anos. Fora o ordenado de deputados que ambos recebem, desconhecem-se outros meios de subsistência, mesmo se Iglésias tivesse sido professor e colaborado nuns simpáticos mas quase desconhecidos programas de televisão.

A militância “podemos” que aplaudira freneticamente a denúncia contra Guindos ficou entalada. A s críticas vieram de todo o lado e especialmente do presidente da câmara de Cadiz, o senhor “Kichi” que, pelos vistos, fez voto de pobreza e vive num apartamento minúsculo de 40 m2, situado numa zona popular e alugado.

Perante o arruído ensurdecedor e a geral gargalhada da restante classe política, Iglésias, sempre hábil recorreu a um estratagema: um referendo interno entre os apoiantes de “Podemos”. Dois terços votaram (como no?) no líder e casal hipotecado até às orelhas já pode dormir descansado na sua nova mansão que, por ser de revolucionários já não é nem uma vergonha nem um luxo.

(lembremos para os ex-amigos íntimos do Siriza grego que já o senhor Varufakis se deixara fotografar numa belíssima mansão com vista sobre a Acrópole: a revolução é sobretudo óptima e aconselhável para os outros, para os paisanos e demais patas ao léu que, embevecidos votam nos exemplares e humildes profetas do futuro radioso e dos amanhãs que cantam ((pelo menos para eles, acrescento eu)).

* na gravura a "casinha" em que questão. Fonte: internet

26
Mai18

O Congresso, Sócrates e os Jornalistas

JSC

É natural que Sócrates  seja, ainda, notícia por razões que se prendem com o andamento do processo judicial e com a gestão que a Justiça faz do mesmo.

 

Contudo, os jornalistas não abandonam o Sócrates na política. Nos últimos dias Sócrates é tema central para os jornalistas. Os jornalistas, sem qualquer mandato, insistem em dizer queos portugueses querem saber”.

 

Mas, querem saber o quê? Segundo eles, agora queremos saber se Sócrates vai ser o “elefante no meio da sala do congresso”; queremos saber se Sócrates vai ser o ”grande tabú”, e coisas igualmente importantes para a cabeça dos jornalistas, mas que nada acrescentam ao interesse dos portugueses sobre o assunto.

 

Depois de ouvir a resposta de vários congressistas, questionados sobre a presença do “caso” Sócrates, só se pode concluir que Sócrates só é tema com interesse para os jornalistas. E quando todos responderam que “não há tabu”, que não há elefante”, que “a justiça dará a resposta”, mesmo assim, uma jornalista, no caso da RTP, conclui: o elefante está lá mesmo que muitos não o queiram ver. Ou seja, só a grande visão da jornalista vê o elefante onde todos dizem que não há elefante.

 

Sempre que ouvirmos os jornalistas, à falta de melhor argumento, dizerem “os portugueses querem saber”, só podemos concluir que eles estão a enviesar a conversa, a forçar o entrevistado a dizer o que eles querem que ele diga. E se o entrevistado não cai na esparrela, então, não têm pejo em transformar parcelas das respostas ou até das perguntas para forçarem o sentido do que disseram. E a Entidade Reguladora, qual o seu papel?

 

Os últimos Congressos do PS têm sido marcados por “casos”. Casos que aparecem aos trambolhões e, por coincidência, caiem na véspera do Congresso. O mais recente é o “caso” do Ministro Siza Vieira.

 

Compreende-se que seja noticia, que já tivesse sido noticia. O que já não me parece certo é que as noticias não digam que a tal empresa não teve nem tem qualquer actividade, não facturou. Os jornalistas tratam isto como se fosse a burla do século, negócio de milhões e com isso estão a “lavar”, a pôr no mesmo saco as fraudes, os crimes efectivos muitos dos quais passam pela Justiça e terminam com brandas condenações cobertas com o manto da “pena suspensa”.

 

Os jornalistas deveriam definir melhor os alvos. Dar relevo ao que merece ter relevo e não tratar por igual o que não é igual. Acima de tudo, os jornalistas deveriam cobrir acontecimentos, dar notícias e não quererem transmitir o que pensam dos acontecimentos, das noticias. Por sua vez, a Entidade Reguladora não pode ouvir, ler e calar como se nada se passasse.

 

Não precisamos da opinião do jornalista para formar opinião.

23
Mai18

au bonheur des dames 453

d'oliveira

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Todos os dias alguém morre.

Todavia, há mortos e mortos.

mcr, 23.05.2018

 

Júlio Pomar, 92 anos, muito (e bem) vividos, é já uma imensa saudade. Eu, admirador confesso seu, passei anos, décadas, à espera de uma oportunidade para comprar uma peça que me agradasse e que estivesse ao alcance da minha minguada bolsa. Mesmo fazendo sacrifícios, claro, que foi o que fiz para quase todos os objectos de arte que me enchem a casa.

Porém, nunca lhe cheguei. Se fosse um desses colecionadores do costume, desses que só querem ter o artista lá em casa sem cuidarem do seu gosto pessoal mas apenas da perversa fama de amadores de pintura, poderia eventualmente ter comprado alguma peça, quanto mais não fosse um múltiplo. Mas nem isso. Devo ter gostos caros, pelo menos caros para os meus rendimentos. Vi muitos, óptimos quadros de Pomar mas, logo que os lobrigava, a dúvida instalava-se: será desta? Não era. Nunca foi.

Talvez por atávico horror a comprar a crédito, a prestações, nunca tive qualquer hipótese!

Certa vez, num regresso de Paris, tive como companheiro de viajem um “marchand” vagamente conhecido. A criatura trazia na mão um rolo enorme. Sabendo que eu, na época, trabalhava para o Secretaria de Estado da Cultura, confidenciou-me que vinha ali, cautelosamente enrolado um magote de “Pomares”. “E o preço?”, perguntei-lhe, prometendo com tal pergunta calar-me perante a alfândega que nos aguardava. “Ai vai ter de ser compatível com o risco que corro... mas a si, por consideração posso fazer um desconto...”

Não sei porquê, ou aliás sei, a coisa não me cheirou bem e nunca fui pelo negócio. Ou pela negociata. Trinta anos depois, não me arrependo. Ou arrependo-me durante cinco minutos e deixo de me arrepender por mais uma longa temporada. Trabalhar na SEC tinha, para mim, algumas limitações. Por exemplo, nunca comprei pintura no “atelier” do artista mas só na galeria que o expunha. Isso significava um acréscimo de preço na ordem dos 30% (Hoje é o dobro!!!). Custa muito manter a fama de honradez. Ou de estupidez, como várias vezes me disseram. Que querem? Burro velho não aprende línguas nem enriquece.

Com a morte, anunciada aliás, de Júlio Pomar fecha-se o último ciclo de alguma pintura aparentada, mesmo que só por um escasso período de tempo, com o neo-realismo. Pomar nunca se deixou aprisionar por escolas e menos ainda por ideologias. Reinventou-se constantemente mesmo se, com o tempo e com paciência, possamos descortinar um caminho claro na sua pintura. E uma enorme alegria, um amor pela vida e um conhecimento profundo pela história da pintura. Nunca envelheceu. Ou melhor: envelheceu como os bons vinhos.

 

* Na gravura: Pomar no "metro" de Lisboa. Ou a grande arte pública para todo o público. 

19
Mai18

Abandonados por todos

JSC

Israel é um Estado abençoado pelos poderes ocidentais. Israel faz o que faz porque o ocidente resguarda-lhe as costas, permite-lhe todos os atropelos às leis internacionais, às dezenas e dezenas de condenações na ONU, os governos de Israel reagem com desdém e fazem o que sempre fazem, alargam a ocupação nos territórios palestinianos, encurralam as populações, condenam todo aquele povo ao degredo, ao exílio, à morte em crescendo.  A ONU vê-se desautorizada e só tem a dizer ou a pedir para que sejam mais brandos, não tão desproporcionados no uso da violência, violência que cresce, como cresce a hipocrisia que acumula com as palavras do Papa.

O Governo de Israel tem um enorme manto negro que cobre a sua acção. Chama-se Hamas. Matam e matam gente desarmada? É porque são do Hamas. Colocam drones a gasear populações que estão no seu território? É porque são do Hamas. Quem quer que discorde da acção do Sr. Netanyahu? É porque é apoiante do Hamas. Veja-se os seguintes casos:

 

« Natalie Portman recusa 'Nobel judaico' e prémio de dois milhões de dólares»

 

Recusou-se a receber o prémio para que não confundissem com o seu eventual apoio às políticas do governo de Netanyhau.

A reação oficial não se fez esperar. Foi acusada de estar a apoiar o Hamas…

 

«Tiago Rodrigues, actor, encenador, dramaturgo e director do Teatro Nacional Dona Maria II, cancelou esta quinta-feira a sua participação no Israel Festival, em Jerusalém, que deveria acontecer nos próximos dias 4 e 5 de Junho

 

De imediato, o Embaixador israelita em Lisboa acusouTiago Rodrigues de ser apoiante do Hamas…

  

Com bem escreve Alexandra Lucas Coelho,

«Israel não tem a menor intenção de aceitar um estado palestiniano, a menor intenção de fazer a paz, a menor intenção de descolonizar, ao contrário. Se não pressionar Israel, o mundo é co-autor deste inferno. Israel tem de ser boicotado.

Poupem-se entretanto os desconversadores, e poupem-me, às acusações de anti-semitismo. Isto não tem nada a ver com anti-semitismo, e nada a ver com o Holocausto, aliás, só na medida em que o Holocausto tem sido vergonhosamente instrumentalizado pelo Estado de Israel para os seus desmandos, a sua imunidade, o seu estatuto especial entre as nações.»

 

Enfim, O mundo, as Nações Unidas, estão dependentes das opções dos Estados Unidos e estes estão dependentes dos ditames do governantes de Israel. Tudo o que mexe é para ser abatido. O Hamas justifica todos os crimes e o encarceramento de um povo. A Europa finge que intervém mas não mexe no quer que seja. Para a Europa Israel é Europa. Eis a explicação para a tolerância!

16
Mai18

Estes dias que passam 371

d'oliveira

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  1. Alguém acredita?

 

Alguém acredita que cinquenta malfeitores de cara tapada, urrando como possessos. Entrem portas adentro do Centro de Estágios do Sportinge comecem a desancar toda a gente com que se cruzam, sobretudo jogadores (“meninos mimados” segundo o execrável presidente do clube), treinador, restante equipa técnica e mais uns avulsos pertencentes ao pessoal?

Alguém acredita que, depois terem severamente espancado as suas vítimas e rebentado com o mobiliário, se retiraram em autêntica ordem militar, como um gang bem organizado mesmo se a GNR tenha já encontrado uma vintena de canalhas?

Alguém acredita que tudo isto, esta autêntica conspirata que faz ir de vários sítios para Alcochete os gloriosos cruzados da invencibilidade do clube o tivessem feito espontânea e livremente, inspirados tão só pela indignação gerada por uma derrota (ainda por cima justa) no Funchal, frenta a um clube que raramente permite que os adversários ganhem no seu terreno?

Alguém acredita que a campanha contínua (nas redes sociais) do senhor Bruno de Carvalho é apenas uma mera coincidência? Que as ameaças explícitas ou implícitas a jogadores e treinador (alegadamente ameaçado, ontem mesmo, de “processo disciplinar) não produziram na cabeça esparvoada e façanhuda dos trauliteiros sportinguistas, o efeito perverso que conduziu ao raid às instalações?

Alguém acredita que os disparates e tolices avançadas no “Expresso”, neste último fim de semana pelo presidente do Sporting não tiveram efeito nestes perigosos pobres diabos que em alcateia entenderam fazer justiça?

Será que ninguém tem acompanhado a campanha tonitruante e em crescendo do dito Carvalho que dispara em todas as direcções, desafia tudo e todos e ameaça meio mundo jactando-se de ser um vago familiar do almirante que mandou à merda os manifestantes da construção civil nos tempos nada gloriosos do PREC?

Ninguém viu como os estádios e as suas redondezas são cada vez mais palco de violência entre adeptos, contra adeptos (o caso famoso do polícia que espancou miserável e cobardemente um pai indefeso à frente do filho)? Ninguém viu o que as televisões mostraram há escassos dias em Guimarães quando quatro imbecis atacaram um cidadão que mesmo derrubado no chão continuou a ser alvo de pontapés?

Ninguém viu o que se passou nas garagens do estádio quando outros inflamados sportinguistas entenderam insultar, ameaçar e agredir várias pessoas?

Será que ninguém se recorda já do adepto assassinado por atropelamento junto de um estádio? Ou daquele outro assassinado dentro do estádio por um engenho lançada da bancada adversária?

Ou das dezenas e dezenas de agressões praticadas em campeonatos inferiores por adeptos que atacam árbitros, ferem árbitros, ameaçam-nos e às famílias? Tudo isto e muito mais tem sido mostrado até à exaustão e ao vómito pelas televisões.

E nestas, é ou não verdade que num desses programas de discussão de futebol longos, maçudos e gritados, houve já quem em plena emissão resolvesse passar às vias de facto. Volta que não volta, e apenas para recarregar as minhas baterias de indignação e anti-futebolísticas, passo por essas medonhas exibições de parvoíce, de auto-suficiência, de gritaria e imbecilidade. Domingo passado, num delas havia uns vociferantes que uivavam e se interrompiam, vermelhos como tomates fora do prazo: ninguém percebia o que queriam pela simples razão de que a tremenda gritaria não permitia perceber fosse o que fosse.

E o moderador que fazia?

Assistia encantado. Provavelmente, a direcção da emissora gosta de escândalo de vitupério de briga. Aquilo sim, aquilo dá mais visibilidade à casa desgovernada que paga a estes maus actores e piores comentadores para que o chinfrim atinja o seu máximo esplendor.

É o futebol. O futebol à portuguesa, traduçãoo em calão de um outro também violento e inglês que pelos seus excessos condenou as equipas britânicas a uma longa ausência das competições europeias.

Num país civilizado, onde os Direitos, Liberdades e Garantias são respeitados e defendidos, todos estes casos teriam resposta pronta e imediata mesmo antes dos morosos processos na Justiça. Os órgãos federativos deveriam, mesmo em fase de inquérito, interditar o estádio ou pelo menos não permitir espectadores nele e, muito menos, transmissão televisiva integral do jogo.

Num país civilizado as imagens degradantes de um presidente a atirar fumo (ou a cuspir) para cara de outro deveria ter imediatas e duras consequências. Não tem. Pelo contrário, os órgãos de informação precipitam-se, avidos e alucinados, sobre qualquer desbragdo que diz o que quer sob pretexto de que assim, como maluco, pode ser ouvido e, pasme-se!, respeitado. Onde é que esta criatura tem a cabeça? Que ética, que moral, que decência o movem?

A infâmia de ontem irá ter alguma consequência? Ou, amanhã, tudo continuará na mesma mansa, resignada, vil e apagada tristeza?

E já agora: um senhor advogado que adora o Sporting mas não a violência, garante que na pátria triste há três milhões e meio de adeptos sportinguistas! Só. Como o Benfica se gaba de ser o maior clube português e o Porto o representante do populoso norte a população nacional há de rondar uma farta dúzia de milhões de habitantes pois há que ter em conta os adeptos dos mil clubes desde o Braga ou os Vitórias até à minha pobre e esforçada Naval 1º de Maio. Anda tudo maluco ou isto é apenas o efeito da primavera que tarda mas incendeia o cérebro de comentadores e jurisconsultos? Antes isso que fogos propriamente ditos que virão inexoráveis atacar populações indefesas que votam pouco e mal e vivem mal e pouco, quase nada. 

15
Mai18

diário Político 226

mcr

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A criatura Bruno de Carvalho devido às suas conferencias de imprensa e aos seus escritos é claramente responsável e cúmplice do gang que atacou o centro de estágio.

Ninguém acredita que os cinquenta cobardes de cara tapada tenham agido sem terem as costas quentes e sem uma palavra de ordem. De onde poderia ela vir senão de quem desde há meses atiça o fogo e o ódio aos jogadores?

A minha proposta é simples: imediata passagem do clube a um escalão inferior, se possível bem inferior. Ninguém pode aceitar que o “fecundo ventre” de onde saíram os agressores apareça nos estádios rodeado dos gangues organizados que vivem por ele, para ele e com ele. Se até o principal e festejado goleador Bas Dost está ferido e impossibilitado de jogar na final da Taça, que é que se pode esperar desta súcia que anda por aí à solta?

(estava eu a escrever este folhetim e eis que a SIC fornece o registo de uma conversa de um responsável (e intermediário) sportinguista que, sem papas na língua, se alarga (e confessa) sobre a tentativa (dele) de corrupção de árbitros de andebol. Estamos num mundo nauseabundo.

15
Mai18

Estes dias que passam 370

d'oliveira

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Força, força, camarada Sócrates

Nós seremos a muralha de aço

 

mcr 15

 

Algum(a) leitor(a) mais idoso recordará um patético slogan do Verão violento de 75 em que as “massas populares” (melhor: um punhado de criaturas que pensava que o era) aclamavam incessantemente o Sr. coronel Vasco Gonçalves durante o que se pensou ser um prelúdio ao assalto ao Palácio de Inverno.

A algazarra foi orquestrada pelos minoritários adeptos de uma cubanização da política portuguesa que pareciam entrincheirados numa nova linha de Torres com o epicentro na margem sul. E juravam que eram fortes, que representavam o país, ou os trabalhadores (ou os trabalhadores “conscientes”), ou qualquer outra coisa.

Poucos meses bastaram para se ver que nem sempre “uma centelha incendeia toda a pradaria” e o pouco que ardia era fogo de palha.

A muralha de aço era de barro e os muitos milhares que presumivelmente a constituíam desapareceram sem deixar rasto notável pese embora a mitologia neo-sebastianista que, ainda hoje, suspira por aqueles dias incandescentes.

O país real (bom ou mau, mas real) veio ao de cima e vive pacatamente 363 dias por ano, As excepções são as efemérides do 25 de Abril e 1º de Maio em que, no meio de uma indiferença bastante generalizada, há em algumas cidades marchas de cidadãos que reivindicam (contra quem? Contra o quê?) a “herança de Abril” e manifestam uma e outra vez o seu horror à “longa noite fascista”. E, no primeiro caso, o parlamento é engalanado, há discursos comovedores mesmo se repetitivos de ano para ano, e uma parte significativa dos deputados estreia um cravo vermelho na lapela ou a espreitar pelo decote.

Nada tenho contra este quadro tanto mais que, como as pessoas, sou de opinião que as sociedades necessitam de rotinas estabelecidas. Não deixo, porém de sublinhar que as festividades tem menor ou maior “quadro humano” consoante o tempo é ou não estival. Em havendo sol q.b. e calor o povo deserta as festas e ruma às praias para aproveitar o feriado. Nada mais natural nem mais lógico. Nem mais humano.

 

Tudo isto me veio ao pensamento com a actual vaga de comentários acerbos sobre o sr. Pinho e o sr. José Sócrates. De repente, o partido que representaram no Governo, desatou numa jeremiada patética, num tilintar de cilícios, num discurso de desculpas e indignações que nos apontam cruelmente a proximidade d eleições.

Quem me lê, nunca aqui viu escrita qualquer condenação do ex-primeiro ministro socialista. Não que eu o considerasse inocente e limpo de toda a suspeita. Nada disso. Mesmo tendo votado, uma única e irrepetível vez, na criatura, só o fiz para esconjurar um outro fantasma chamado Santana Lopes. Que sucedia a um outro agoirento governante chamado Durão Barroso, escafedido a meio mandato para a Europa e para um posto que só lhe caiu em cima por os que mandavam terem achado que que ele, no leme, não estragava nenhum arranjinho a ninguém. E não estragou.

Todavia, uma vez desaparecido Santana do panorama, logo se começou a ver quem era o governante Sócrates. Autocrático, vaidoso, incapaz de permitir qualquer escrutínio à sua vida pública, aos seus diplomas (ai os diplomas, os exames ao domingo, o inglês técnico, a barafunda, a licenciatura que de repente deixou de o ser pelo não reconhecimento da Ordem dos Engenheiros), a vida acima das possibilidades, o despesismo em obras públicas de duvidosa utilidade e pesadíssimos encargos, a gestão danosa, a ideia de que para ultrapassar as contas públicas deficitárias se poderia continuamente recorrer a empréstimos, o alastramento descomedido das PPP, os sinais iminentes da crise que nos iria seguramente cair em cima, o inacreditável aumento da funçanata pública em vésperas de eleições, a tentativa de controlo dos media, os processos milagrosamente parados pela cumplicidade de certas instâncias ligadas à Justiça, tudo indiciava que no reino da Dinamarca lusitana havia algo de podre para não falar de esqueletos no armário. Mesmo quando, se demitiu forçado por um seu ministro das Finanças e derrotado sem apelo nem agravo na eleição seguinte, o sr. Sócrates não percebeu que se impunha, para salvação própria, um período de nojo, muito comedimento, cautela e caldos de galinha.

Nada disso sucedeu.

A criatura foi para Paris “estudar”. Com um empréstimo junto de uma instituição bancária que, à partida, o obriga a uma vida simples, frugal e serena. Nada disso ocorreu.

O homenzinho instalou-se no XVI bairro, o mais caro de Paris. Numa casa que, pelos vistos, agora se aluga a 1000 euros por noite, frequentando (segundo a imprensa da época) restaurantes caros (mesmo se os há bem mais caros em Paris) e uma prestigiada Escola.

De Paris, ao fim de um curto período, trouxe um livrinho parido segundo agora consta por uma mãe de aluguer, no caso um cavalheiro que é professor universitário numa faculdade portuguesa. A obrinha, modesta e inócua, foi alvo de uma campanha publicitária extraordinária e pareceu vender mais do que o finado Saramago. De repente, descobre-se que até isso, esses milhares de exemplares se compravam ao alqueire, ao quintal, à tonelada eram fruto de uma manipulação do mercado. E sempre por um pequeno grupo de criaturas que nem sequer disfarçavam o rasto. Tudo para satisfazer a ensandecida vaidade de alguém que alegadamente era o seu autor.

Durante o processo, descobriu-se que o famoso milagre da Rainha Santa tinha uma espantosa réplica nos nossos tempos. Um “amigo” (e que amigo!) financiara tudo desse as estravagâncias parisienses até à compra dos livros. E comprara bens da mãezinha de Sócrates. Casas e casinhas.

Não sei quem é esse benfeitor Santos Silva. De onde lhe vem o dinheiro. Quanto exactamente investiu nessa amizade à prova de bala, à prova de tudo.

Sócrates, entretanto, é preso à saída do aeroporto. Comoção geral! Condenação enérgica de amigos, companheiros e camaradas. E de muito povo, sempre ele. O dr. Soares visita-o na cadeia. Formam-se caravanas por todo o país socialista para o ir venerar a Évora. Cantam-se à porta da cadeia, cantigas revolucionarias ou quase. Senhoras choram comovidas. Sócrates amigo, o povo está contigo.

Os mais prudentes, de todo o modo uma minoria, refugiam-se no segredo de justiça e juram que são os procuradores e mais perseguidores que trazem cá para fora, gota a gota, pormenores cada vez mais escabrosos dos interrogatórios. E o mundo, aquele mundo, vai-se desmoronando: os processos contra outras pessoas –sempre bem colocadas – acumula-se. O escândalo cresce. O “deserto” à volta de Sócrates, “cresce”, se me permitem citar Nietzsche.

As boas almas indignam-se não tanto com os eventuais espantosos e inauditos crimes mas com o que escorre cá para fora em cascata. O cúmulo foi a longa reportagem da SIC (da SIC e não do “correio da manhã”). Os jornalistas da estação falam em interesse público. Vicente Jorge Silva e Jorge Wemans – dois jornalista que muito prezo – falam, pelo contrário em jornalismo de sargeta. Será? Melhor: sem esta reportagem saber-se-ia hoje alguma coisa desta sórdida história?

Dizem-me: esta reportagem colocou o julgamento de Sócrates na praça pública. É verdade em parte. Todavia, uma coisa é a discussão política e ética e moral deste caso a todos os títulos escabroso, outra será o julgamento em tribunal. Se entretanto ocorrer no nosso tempo. Não há quem aposte o começo em data próxima e, muito menos, quem duvide que tal processo durará anos e ano. Por mim, que provavelmente já cá não estarei, a coisa nunca terá fim antes de 2030. E estou a ser optimista.

Conviria, porém, analisar melhor esta cambalhota dos amigos de Sócrates. Ao contrário da outra muralha de aço (que ainda hoje recorda melancólica o fim da “revolução”) esta nova espécie de arrependidos defensores do “animal feroz” (Sócrates dixit) vem agora a terreiro manifestar indignação, fúria, desolação. Arece que foram enganados! Não viram, não ouviram, não souberam ler os sinais evidentes e estridentes do que homenzinho era. Há mesmo uma ex-namorada, jornalista de profissão que num inenarrável vómito auto-punitivo se despe em público e conta a desventura de uma vaga coabitação entre luxos estrafalários de que nunca desconfiou. O amor é cego! Ou parvo.

Com amigos destes, Sócrates não precisa de inimigos. Mesmo se, como se sabe, foi ele o seu principal inimigo e carrasco. Foi petulante, imprudente, impudente e, a l alongue, néscio até dizer chega. Estou a vê-lo a olhar para a populaça que o aclama(va) e a pensar quão tonta ela era. E, finalmente, a desprezá-la. Terá dito para os seus botões: “todo o burro come palha, a questão é saber dá-la.”

O seu consulado foi uma septénio de hipóteses perdidas, uma navegação à deriva, um exercício de despudor que, entretanto, ainda não foi posto em causa sequer pelos recentíssimos “arrependidos” e pela sofredora Madalena atraiçoada.

A ex-novel “muralha de aço nem sequer tem a dignidade da antecessora que, mesmo vencida, conseguiu debandar com certa ordem e recordar entre choro e ranger de dentes o ano ardente em que parecia poder conquistar o mundo.

E a procissão, podem estr certos, ainda só vai no adro. Como nas telenovelas os próximos capítulos hão de ser escaldantes.

(nota à margem: entre os indignados e ofendidos há gente que graças a um buraco na lei tem viajado de e para as Ilhas com dois subsídios que não se complementam mas antes se deviam anular.

* na gravira: Roque Gameiro "Naufrágio de Sepúlvreda"

14
Mai18

O Porto

José Carlos Pereira

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Com a devida vénia, transcrevo parte do texto que hoje escreve no "Expresso Curto" o director do jornal, Pedro Santos Guerreiro, que mostra compreender bem a simbiose entre o Porto cidade e o Porto clube:

 

"O FC Porto é o campeão desta época, Sérgio Conceição é o homem do ano, Pinto da Costa é a personalidade de uma era.
A era do presidente do clube não tinha afinal terminado, ao contrário do que se escreveu nos últimos quatro anos: se tivesse terminado, o Benfica era hoje penta e Pinto da Costa estaria a receber prémios-carreira. Quando recebeu este sábado a medalha de honra da cidade do Porto, "o Porto que eu amo", tinha a taça de campeão ao lado. Foi o momento mais bonito da noite nos Aliados, entre os cânticos na avenida e os foguetes no céu, "o céu mais azul". Os dois discursos da noite, ambos curtos e não lidos, de Rui Moreira e Pinto da Costa, foram sobretudo sobre o Porto. Não o clube, mas a cidade. Porque o clube faz maior a cidade que é maior do que o clube. "Tornar maior esta cidade" é o desejo inscrito no poema de Pedro Homem de Mello que Pinto da Costa citou. Não por acaso, o poema chama-se "Aleluia".
Benfiquistas, sportinguistas e outros istas desligam a televisão nestes momentos, porque a euforia dos vencedores contrasta com os seus insucessos. Na noite em que os atletas voltaram 19 anos depois à câmara de onde foram desalojados por Rui Rio, e em que nos Aliados se montou uma festa como não havia memória, o batimento cardíaco depende da cor do coração, mas a forma como uma cidade vive é nítida aos olhos de todas as cores. Não se trata de identificação de uma cidade com o seu maior clube, mas da identidade da própria cidade, que celebra como quem vive em família e faz de uma vitória no futebol uma festa da sua própria existência comunitária e cidadania. O Porto só se conhece por dentro e a sorte dos de fora é que a mesa tem sempre um lugar vago para quem queira entrar com autenticidade. "Porto - palavra exacta, nunca ilude", escreve Pedro Homem de Mello.

(…)Pinto da Costa é campeão. O Porto é campeão.

08
Mai18

Diário político 225

d'oliveira

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Um atestado de óbito tardio

d'Oliveira fecit, 8.5.18

 

A ETA (uma vez mais) anunciou a sua dissolução. E digo uma vez mais porque já por duas vezes em anos passados o anunciara sem que daí decorressem efeitos práticos ou, pelo menos, todos (e os principais) os efeitos práticos.

Agora, reduzida a um escombro vergonhoso e destroçado, a ETA proclama a extinção definitiva de algo que nada mais era do que um pobre mas perigoso bando de malfeitores sem alma nem causa vivendo de e pelo o terror cego que espalhava à sua volta. As polícias espanhola, autonómica (Ertzaintza) e francesa cercaram-na, prenderam os principais cabecilhas e, sobretudo, desvendaram a complicada máquina do terror. Aprisionando cada vez com maior facilidade os militantes (cada vez mais jovens, cada vez mais impreparados militar e politicamente) as polícias obtiveram moradas, nomes, pseudónimos, dados de toda a espécie que, uma vez trabalhados, desmontavam zonas inteiras da clandestinidade.

A cada novo preso, agora sem qualquer dificuldade, seguiam-se confissões pormenorizadas de operações, descrição de refúgios, de casa clandestinas, de cumplicidades de toda a ordem. A “kale borroka” (versão selvagem e infame da luta de ruas) foi o começo do fim de uma estratégia que semeava mortes quase indiscriminadas e um terror absoluto mesmo entre os nacionalistas mais ferrenhos. A ETA, através do “imposto revolucionário” já só tentava manter-se à tona, custear a enorme despesa de se manter fora do alcance dos radares policiais e políticos.

É bom relembrar para as alminhas mais suaves, amigáveis e ignorantes, que, apesar de nascida durante o “franquismo”, a ETA matou mais de noventa por cento dos seus alegados “inimigos” durante a democracia, precisamente quando os direitos civis eram já reconhecidos, as liberdades respeitadas e as polícias controladas. A Democracia é sempre frágil quando se fala de segurança pública.

A ETA, durante o franquismo e depois do espetacular atentado contra Carrero Blanco, manteve uma atitude discretíssima que a polícia do momento era desalmada. Foi contra o Estado Democráico que ela evidenciou todo o seu potwncial de atque. Estava segura que ,mesmo com os GAL e outros escassos e pouco duradouros grupos “anti-terroristas”, os famosos Direitos, Liberdades e Garantias lhe asseguravam uma extrema impunidade. Por outro lado, e a talho de foice, granjeara à sua volta um círculo virtuoso de admiradores babados que ainda viviam (e vivem) à sombra da lenda da “Espanha negra”. E eficaz. E matava, torturava, prendia, invadia casas e esconderijos dia e noite.

Nesse grupo de “cretinos úteis” avultavam os bispos bascos. A bispalhada do lugar além de fascistóide, medieval descendente de inquisidores benzia dos altares a nova “cruzada” que pouco se distinguiu daqueloutra que no tempo da guerra civil iluminava a Falange e os seus guardas mouros exemplo último do ultra-catolicismo triunfante. Na verdade, o País Basco não era republicano e tampouco democrático. Era um cocktail de beatério, e conservadorismo aldeão alentado pelas elites de Bilbau e S Sebastian. Ideologicamente estavam do lado do “caudillo” e a liberdade porque ocasionalmente lutavam fundava-se nas teorias raciais de Sabino Araña, o fundador da causa basca. Nem mais, nem menos.

A ETA que, quinze/vinte anos mais tarde, nasceria argumentava com o massacre infame de Gernika mesmo se isso tivesse ocorrido uma geração antes.

Como (não) é suficientemente sabido, a ETA, sobretudo, após a morte de Franco, dividiu-se em tendências, a mis famosa das quais se crismou a si própria ETA P-M (politico-militar). Foi este a fracção mais consistente ideológica e politicamente da organização. Foi também, o grupo que mais depressa cindiu, se desfez e desapareceu depois de ter percebido que a acção terrorista só era eficaz no semear do medo mas não convertia os cidadãos em apoiantes da independência. Também foi neste grupo, mas não só, que a ETA remanescente matou gente. É bom relembrar que ao lado das centenas de vítimas (polícia, políticos, e – esmagadoramente - gente comum) foram assassinados ex-militantes mesmo se contra eles não pendesse qualquer suspeita de identificação com a polícia, com o “Estado Espanhol” ou contra a causa basca. Invoque-se apenas Yoyes a militante assassinada anos depois de ter saído da organização. E, também de novo talho de foice, recordemos a intensa campanha contra a elite intelectual basca que se viu obrigada a exilar-se sob pena do misericordioso tiro na nuca (por todos, Fernando Savater, o filósofo e escritor de dezenas de títulos sobre ética e política).

Todavia, repontar-me-ão que a ETA sobreviveu, em democracia, cerca de quarenta anos. Em primeiro lugar, cedo se percebeu que a ETA deslocara para lá da fronteira, grande parte do seu aparelho político e logístico mesmo se no pais basco francês nunca tivessem tido especial êxito as teses independentistas que uniam esta região a Euzkadi e à Navarra.

Depois, há que referir o sistema de terror imposto à população em geral. Qualquer cidadão poderia não concordar mas, seguramente, guardava para si essa convicção sob pena de se ver apontado como traidor e/ou serventuário da Espanha. Desde cartas de ameaça a “pintadas” nas paredes ou na porta da casa tudo serviu para pelo exemplo avisar os mal-pensantes dos riscos que corriam. Os não bascos, os “metecos”, sabiam quão perigoso era para eles expressar uma opinião mas mesmo assim a expressão política da fracção mais radical nunca foi relevante. O espaço independentista moderado estava ocupado pelo PNV, Partido Nacionalista Vasco, formação conservadora q.b. e que muitas vezes serviu (e serviu-se) de apoio da Direita espanhola.

A ETA extingue-se de “motu próprio”, afirmam os do último quadrado numa cerimónia ridícula e tonta em território francês testemunhada pelos de sempre. Nem isso é verdade. A ETA já não existia senão como fantasma. Mesmo assim na sua declaração final ainda houve o arrojo de tentar distinguir entre as vítimas. Uma, coitadas, foram o resultado de fortuito erro , aliás desculpável dado o “estado de guerra”. Outras, polícias do Estado, ertainztas ou militares, para já não falar de políticos eleitos, mereciam morrer. Dos ex-militantes assassinados nem uma palavra.

Ao descalabro moral, ético e político junta-se esta outra qualidade: a hipocrisia. E a mentira, evidentemente, base da “narrativa” há dias apresentada.

A herança destes anos de chumbo é pesada: Quase mil vítimas mortais. Centenas de presos, milhares de auto-exilados, uma sociedade dividida que levará o seu tempo a recompor-se.

Esquecia-me: umas dúzias de cavalheiros com um passado de sangue mas livres como passarinhos. Ainda os veremos, como por cá, a escrever livros de memórias onde a morte de outros e a mão encoberta desaparecem como por encanto. Talvez nem valha a pena referir os escassos, tristes, primos portugueses da ETA. Também levam com eles no consciência o peso de alguns mortos, de umas bombas, de uns assaltos a bancos (para onde foi o dinheiro?) que uma justiça morosa, medrosa e uma sociedade generosa deixaram sem solução.

 

04
Mai18

O elefante no meio da sala

José Carlos Pereira

decisão de José Sócrates de sair do PS acaba por não surpreender. O antigo primeiro-ministro sempre deu a entender que gostava que o partido que liderou fizesse a sua defesa perante o que classifica como abusos do Ministério Público e da investigação. António Costa, pelo contrário, decidiu que o melhor era separar águas entre a justiça e a política, procurando dessa forma encontrar um caminho que permitisse ao PS não ficar permanentemente – durante quantos anos? – sob o flagelo dos efeitos da investigação, da acusação e do futuro julgamento de José Sócrates. António Costa tomou a opção certa.

O que se passou entretanto para que os dirigentes socialistas, com Carlos César e António Costa à cabeça, se tenham afastado dessa abstinência na discussão em torno dos crimes imputados a José Sócrates para virem agora verbalizar evidências “lapalissianas”, isto é, que será muitíssimo negativo, que será uma desonra e uma ofensa aos princípios éticos que devem guiar qualquer democrata se os crimes de que o antigo primeiro-ministro está acusado vierem a ser dados como provados? Foram só os indícios veiculados pela comunicação social quanto ao ex-ministro Manuel Pinho que serviram de detonador? Ou foi o cálculo táctico de que os temas relacionados com a Operação Marquês estão de tal modo consolidados na opinião pública que o melhor seria vincar já esse distanciamento face a José Sócrates? Desta feita, não creio que o PS tenha seguido o melhor caminho e arrisca-se a fazer deste um dos assuntos centrais do próximo congresso.

Apoiei e votei em José Sócrates, que não conheço pessoalmente para além de uma breve conversa nos bastidores de um comício no Porto nas autárquicas de 2005, quando liderei, como independente, a lista do PS à Assembleia Municipal de Marco de Canaveses. Reconheço muitos méritos aos seus governos, assim como vários erros de percurso e de casting. Quero confiar no Estado de Direito e, por isso, aguardo pela lenta evolução do processo, não me deixando impressionar em demasia pelos folhetins que vão surgindo a público. Como sempre tenho defendido, um processo destes exige provas concludentes e não pode ficar apenas pelas convicções de quem investiga e julga. O que não impede que possa fazer já uma apreciação muito negativa do estilo de vida e do carácter já revelado por José Sócrates. Mas isso é do domínio da moral e não da justiça.

Tal como Manuel Alegre, entendo que o PS se precipitou, talvez empurrado pela força do caso Manuel Pinho, que terá direito à sua defesa, naturalmente, mas já deveria ter vindo a público esclarecer prontamente a natureza dos seus rendimentos, pelo menos nos anos em que exerceu funções governativas. Quem não deve não teme. Contra Manuel Pinho, recorde-se, há apenas suspeitas que chegaram aos jornais, sem que o próprio tenha sido ainda ouvido pelos investigadores, muito menos acusado. Não aposto um fio de cabelo por Manuel Pinho, mas a realidade é esta. E não deixa de ser curioso que os partidos se tenham abespinhado justamente com a situação de alguém que não é do meio político, que veio da área financeira e em particular do (agora) desacreditado BES. Se fosse alguém do redil partidário a reacção seria a mesma?

O que é facto é que todos os partidos de governo já albergaram dirigentes de relevo que se viram a braços com a justiça e foram condenados por crimes praticados durante, antes ou após o exercício de funções públicas. Assim de repente, vêm-me à memória nomes como os de Armando Vara (PS, ex-ministro e ex-deputado), Narciso Miranda (PS, ex-autarca de Matosinhos e ex-presidente da distrital do Porto), Isaltino Morais (PSD, ex-ministro, ex-presidente da distrital de Lisboa e autarca de Oeiras), Duarte Lima (PSD, ex-líder parlamentar e ex-presidente da distrital de Lisboa), Oliveira e Costa (PSD, ex-secretário de Estado e ex-presidente da distrital de Aveiro), Valentim Loureiro (PSD, ex-autarca de Gondomar e ex-presidente da distrital do Porto), Avelino Ferreira Torres (CDS, ex-autarca de Marco de Canaveses e ex-senador do partido) e Lino Abreu (CDS, deputado no parlamento regional e ex-secretário-geral do CDS/Madeira).

Por isso, não basta Assunção Cristas vir dizer que o PS tem de fazer uma reflexão interna. Todos os partidos têm de ser mais criteriosos e exigentes na prevenção e no combate a práticas criminosas. E todos os eleitores devem ser mais exigentes e atentos, separando o trigo do joio. Só assim caminharemos para uma democracia melhor.