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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

15
Mar18

O leitor (im)penitente 207

mcr

O deserto cresce.

Ai de quem abriga desertos.

 mcr 15-03-2018

 

Os dois versos que titulam este folhetim andam comigo à cerca de cinquenta anos. São de Nietzsche, o admirável, e fazem parte dos “Ditirambos dionisíacos”. Quem se interessar pela grande poesia alemã encontrará a tradução da poesia de Nietzsche nalgum alfarrabista mais atento (ou feliz). Caso contrário, a Gulbenkian publicou as “Obras de Paulo Quintela” (ou um título do mesmo género). Nesse conjunto há três volumes de traduções de poesia e num deles vem a obra poética do filósofo. Imperdível! A ler com extrema urgência!

Vem isto a propósito de alguns nacionais e recentes óbitos de livrarias. Sem ir mais longe desapareceram, numa penada desde o início do ano, a “Leitura” no Porto, a “Miguel de Carvalho” em Coimbra e a “Pó dos Livros” em Lisboa.

Sabe-se, igualmente, que um senhorio insaciável já terá dado ordem de marcha (e de despejo) a mais três alfarrabistas da rua do Alecrim em Lisboa (a Campos Trindade, a António Trindade e o Centro Antiquário do Alecrim).

Conheço muitas cidades por via das suas livrarias ou oriento-me nelas seguindo caprichosos itinerários nem sempre planeados entre uma e outra.

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6) Continua na Praça Nova, Fig.Foz....JPG

 

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(a este respeito vale a pena contar que na última estadia em Veneza, andando eu ocupado em mostrá-la à CG, metendo sempre por ruas novas e inesperadas, calhou que, vindo do Rialto para o Campo di San Fermin, oiço a minha mulher soltar o medonho rugido da leoa esfomeada que vê um antílope apetitoso e descuidado. Era, à nossa direita, uma loja de lãs. Fiquei aterrado: a CG é uma temível tricotadeira e anda sempre em busca de algum mirífico fio. “Ai, Jesus, que isto é para uma hora pelo menos”, suspirei in imo pectore. Já me resignava ao inevitável quando, ao olhar para esquerda me deparei com uma livraria. Enquanto a CG avançava para as lãs, precipitava-me eu, em voo picado, para a salvadora loja. Era um verdadeira livraria dedicada a Veneza e história veneziana com extensões ao Veneto. Uma maravilha! Depois de visitar com detalhe um par de títulos, conversei com o livreiro sobre a sua excepcional, e cara!, mercadoria e à saída, ajoujado de compras e aliviado de mais euros do que devia, pedi-lhe um cartão da livraria para poder lá voltar. Espantado, descobri que tinha entrado na “Linea d’Acqua”, um livraria recomendada por um grande amigo e vizinho. E disse-o ao livreiro. Este perguntou-me de onde vinha e quando o informei que do Porto, retorquiu-me seguríssimo: “Ah, então foi o António Abreu! “

E, de facto era. O AA era um ávido leitor e um verdadeiro veneziano. Todos os anos, passava lá quinze dias, hospedado numa casa alugada no Cannaregio, o último sestiere acessível ao turista português. )

 

 

Voltemos, porém, às livrarias que desparecem. Não é de hoje esta doença mortal dos negócios que envolvem a venda de livros. Lembro-me, pesaroso, da excelente “Havanesa” na Figueira, poiso de livros e de tertúlias fieis. Em chegando à terra, o meu primeiro destino era a Havanesa, mesmo antes de ir vera família ou pousar a mala. Em Coimbra, desapareceram várias livrarias, entre elas a enorme “Atlântida” que enchia dois pisos, a “Luso-Espanhola” onde comprei os primeiros poetas de língua espanhola ou a “Cunha”, uma pequena loja cheia de títulos antigos e difíceis de encontrar. Em Lisboa vi morrer a “Opinião” (lugar de encontros inesquecíveis), a “Bucholz”, e a “Sá da Costa” (construída de raiz para ser livraria)bem como as alfarrabistas “Camões”, “Burnay”, “Barateira” e outras de que nunca soube o nome embora nelas tenha encontrado e comprado livros. E ainda, já há alguns anos as vizinhas “Portugal” e “Aillaud & Lello”. A Galiza passou é menos interessante depois do desaparecimento da “Michelena” em Pontevedra onde havia um cão que dormia junto das estantes (no plural!) de poesia. De Paris, então, nem consigo saber quantas foram encerradas. Tenho um vago pressentimento que, só nos 5º (Quartier Latin) e 6º (St Germain des Prés/Montparnasse) bairros creio que já contabilizei vinte desaparecimentos entre 1970 e 2000. Desde “La joie de lire” até à “Librairie du Globe” com obrigatória passagem pela opulenta “PUF” que de horas perdidas e encontradas na felicidade de folhear, cheirar, ler e comprar livro após livro. Outras, mais pequenas mas, por vezes, mais curiosas não conseguiram defender-se dos abutres do turismo e do luxo que contaminaram ruas inteiras com restaurantes de baixa, baixíssima, qualidade, de “hostels” quando não de boutiques de luxo onde se não vê viva alma. Neste capítulo Saint Germain bate tudo o resto.

Eu sou um leitor inveterado, viciado, possuído pelo demónio dos livros. Gastei, ao longo de uma vida que já vai longa, uma fortuna (no verdadeiro sentido da palavra) a encher esta casa de livros. Vai para cima de 24000 o que mais do que um exagero é uma tolice arrogante. Nunca conseguirei lê-los todos mesmo se neste grupo haja, à vontade, mais de 4000 títulos de obras de consulta que obviamente podem passar anos sem que lhes toque.

Quando me apaixono por um tema (e eu sou, nesse campo, um incurável pinga-amor) desato a comprar tudo o que lhe diz respeito, sabendo perfeitamente que esse excesso denota mais falta de critério do que razão e bom senso. Sou um biblio-adicto, isto deve ser semelhante ao que se passa com os cocainomanos, só que mais caro.

Todavia, a morte das livrarias, e de uma só vezada apontei seis mais acima, não desconsola apenas os viciados. Mostra, também, e com que crueza, o estado da chamada “cultura” no “torrãozinho de açúcar”. Cresceu muitíssimo o número de editoras mas baixou torrencialmente o número de exemplares editados de um mesmo título. Vendem-se, ou estão à venda, centos de títulos assinados por personalidades do jet set, da televisão ou da política que nos atormentam quotidianamente. Quase desapareceu a edição de poesia e a de teatro – se existe – vive na mais pura clandestinidade. Só de autores portugueses há uma boa centena desaparecida das estantes e das montras. Quem quer, vai por eles aos alfarrabistas. E esses mesmos vão sendo paulatinamente escorraçados da cidade. É o caso, gritante, da “Miguel de Carvalho” em Coimbra. Esta livraria estava na “baixinha”, muito perto das escadas dos gatos e da portagem num sítio que poeticamente se chamava “Adro de Baixo”. A livraria, quase paredes meias com outra (“Minerva”) era muito bonita, confortável e tinha no andar de cima um espaço para o comprador se sentar confortavelmente e folhear o que lhe apetecesse. O espólio era bom e o atendimento impecável. Miguel de Carvalho, o proprietário, pequeníssimo editor de obras surrealizantes, tinha a paixão da livralhada. Abandonara a engenharia pelo incerto comércio das espécies bibliográficas e mensalmente fornecia, por mail, um catálogo das últimas novidades adquiridas e postas em venda. Numa cidade universitária com mais de vinte mil estudantes não encontrou público que garantisse a sobrevivência da livraria. Assim vai a nossa universidade, assim vão os nossos intelectuais e as nossas futuras elites.

A “Leitura”, então é um caso medonho. Começada na década de cinquenta com o nome de “Divulgação” rapidamente se tornou um sério caso de sucesso. Comprei nela, com as primeiras e modestas mesadas, os primeiros livros. Lembro-me mesmo dos títulos de dois deles: “Alguém Mora na outra margem” (Carlos Gabriel) e “Sete poemas para Egéria e notícia para mim” (Helder Grilo Gonçalves -ou Gouveia?). Era obra de um grupo de amigos que, de facto, eram liderados por Fernando Fernandes, um livreiro de mão cheia mesmo numa cidade onde competia com Domingos Lima (Lello) e com três gerações Perdigão (Latina). O Fernando levava a profissão a sério, importava livros de todo o lado, fornecia (oh truque malévolo!...) o “bulletin du livre” a uma série de clientes que retorquam com encomendas volumosas. Outro dos seus hábitos era o de anotar vendas e pedidos de clientes que ele considerava “seminais”. O pedido vinha sempre em duplicado ou triplicado e o livro era proposto a clientes cujos hábitos de leitura parecessem semelhantes ao do primitivo encomendador. Convém lembrar que a “Leitura” começou por se designar “Divulgação” até, na sequência de uma crise de crescimento, se abrir a mais um sócio e se baptizar definitivamente. Morre, agora, anos depois de FF a deixar, sob o nome tolo de Leitura books and living, parvoiçada saloia que denunciava já um morte a prazo.

Agora, e eu pecador me confesso, as tradicionais livrarias começam a ser ultrapassadas pelos circuitos na internet, mormente pela amazon. A razão é simples: através desses gigantescos circuitos conseguem-se livros praticamente esgotados ou há muito desaparecidos das estantes. A Amazon, a Alapage, a Chapitre, a Decitre ou a Abebooks, respondem com qualidade desigual a essa necessidade. Em Portugal a Wook traz-nos a casa com desconto e sem portes de correio livros recentes ou até menos recentes. Todavia, nestes mundos da internet algo se perde e se arrisca: compram-se os livros às cegassem a possibilidade de com vagar os folhear e consultar. Só leitores empedernidos e sabedores do que pretendem se podem arriscar. E mesmo assim...

Depois, as livrarias foram (e algumas ainda são) centros de convívio para já não falar na descoberta sempre entusiasmante de livros de que nunca se ouviu falar. Basta correr as estantes mesmo com um olhar distraído.

(a este propósito recordo que na Figueira, sob o adro da Igreja de S Julião –a principal – havia uma livraria devota animada por duas senhoras mais católicas do que o monsenhor Palrinhas de saudosa (?) memória. Certo dia, nos idos de 60 descobri na montra entre missais e hagiografias piedosas “A semana santa” de Aragon! Todos os meus amigos foram visitar essa montra e ver o lugar de honra obtido pelo romance do comunista Aragon. O que nos divertimos!)

Em Portugal coabitam as mais extravagantes manias. Há anos foram os bancos que, numa ansia de abrir balcões (que agora fecham sem dar cavaco a clientes e trabalhadores), desalojavam veneráveis cafés e pastelarias e desertificavam ruas e praças. Agora, sob a ilusória luz de um turismo que durará enquanto durarem as guerras no Mediterrâneo e os baixos preços do alojamento e da restauração por cá, fecham-se livraria e outras lojas tradicionais. Há ruas que já ó tem prontos a comer de mais do que duvidosa qualidade. O seu tempo será limitado pela concorrência crescente, pelo fim do voyeurismo turístico e pela impreparação profissional dos seus novéis exploradores. As bolhas rebentam sempre mas o que foi destruído já não volta. E o deserto cresce...

 

As gravuras: a preto e branco o interior da ainda Divulgação mais tarde Leitura

Também a preto e branco "La joie de Lire" (Paris)

A cores -se estou certo, o interior da Havanesa (Figueira da Foz)

 

 

 

07
Mar18

O futuro dos ex-primeiros-ministros

José Carlos Pereira

notícia de que Pedro Passos Coelho vai ser professor catedrático convidado do ISCSP na área da administração pública mereceu os mais variados comentários, sobre as suas competências, as qualificações académicas, o privilégio concedido, a qualidade do ensino universitário, as suas ideias políticas, a sua governação, etc. Nada de estranhar nestes tempos que correm, em que tudo é aceleradamente comentado nas redes sociais e nas páginas de comentários dos jornais.

O que é certo é que a lei dá cobertura a situações destas, permitindo os convites a personalidades que não tenham efectuado o percurso académico normal, mas que disponham de experiência profissional ou outros atributos relevantes para a respectiva área de ensino. Foi isso, certamente, que foi ponderado e avaliado pelos órgãos próprios deste conceituado instituto da Universidade de Lisboa, curiosamente hoje em dia liderado por um professor que Passos Coelho escolheu para deputado em 2011.

Contudo, este caso que envolve Pedro Passos Coelho levanta uma questão recorrente: o que devemos esperar que suceda aos primeiros-ministros que cessam funções? Com efeito, se por acaso esses governantes não têm uma carreira académica ou outra integrada na administração pública, o seu futuro depois de passarem pela política não está acautelado, ao contrário do que sucede com os presidentes da República, que ficam com direito a um gabinete e a uma pequena estrutura de apoio. Deveria o país estabelecer um regime especial para os primeiros-ministros que cessem funções, salvaguardada a condição, por exemplo, de terem cumprido uma legislatura inteira? Preferiremos que um ex-primeiro-ministro se envolva em negócios potencialmente conflituantes com a sua anterior acção governativa ou se dedique ao lobby empresarial?

Se olharmos para trás, para os primeiros-ministros que cumpriram pelo menos um mandato completo, vemos que Cavaco Silva retomou a carreira académica até se candidatar a presidente da República, António Guterres recuperou o seu vínculo laboral com a holding estatal IPE – Investimentos e Participações Empresariais até tomar em mãos o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e José Sócrates enveredou por uma carreira de consultor num grupo internacional da área da saúde. Pedro Passos Coelho prepara-se para encetar agora uma carreira no ensino superior, mas o que se diria se fosse servir um qualquer grupo empresarial?

É natural que quando alguém deixa o exercício do poder em idade activa tenha de continuar a trabalhar e a fazer pela vida. No entanto, se queremos ser rigorosos no regime de incompatibilidades, se não pretendemos ver os nossos ex-governantes na teia dos lobbies empresariais, talvez seja preferível encarar seriamente a possibilidade de estabelecer um regime de retaguarda para os antigos primeiros-ministros que dele necessitem do que ficar a perorar contra aqueles que se dedicam a lobbies ou outros interesses espúrios ou que beneficiam de tratamento privilegiado desta ou daquela instituição.

07
Mar18

Estes dias que passam 367

d'oliveira

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28 anos já...

 

Ou: mais de 9000 exemplares lidos com alegria, com sofreguidão com interesse ou com indignação. Numa palavra: o “Público” o jornal que, sem falhas, leio desde o número 1.

Quando digo sem falhas, não refiro todos os dias porquanto as férias de muitos desses anos passeia-as fora de Portugal e, sempre que, pude estive fora do país, às vezes por períodos que duraram meses. Todavia, em estando cá, nunca deixei de comprar o jornal, hábito e vício diários.

Esta fidelidade ao mesmo periódico tem, em mim, antecedentes fortíssimos. Em pequeno, muito pequeno, fui um fã do “Mundo de Aventuras” em detrimento do posterior “Cavaleiro Andante”. Durante esses anos, felizes e inocentes, o meu irmão e eu, batíamo-nos à compita para, cada terça feira, ir à loja do senhor Bracourt comprar a “Modas e Bordados” que a minha Mãe, que lia tudo e mais alguma coisa, aplicadamente comprava. O nosso alvo era o suplemento infantil “Joaninha” que no regresso até casa íamos lendo impacientes. Oh que saudades de duas longuíssimas séries “Aninhas e Ró-ró” (uma menina e o seu cão) e “Sem Família” uma banda desenhada baseada no romance de Hector Mallot (1830-1907, escritor comprometido com causa da liberdade, amigo de Jules Vallés que ele ajudou financeiramente durante o exílio, defensor do divórcio e uma nova política de saúde psiquiátrica, autor de mais de cinquenta romances).

Nos poucos anos que passei em Moçambique (e sobretudo nas férias grandes) lia “A Tribuna” um dos grandes títulos moçambicanos e o mais livre da imprensa africana.

Logo que entrei para Universidade, tornei-me um devoto de “Le Monde” e de “L’Éxpress” uma notável revista semanal que foi uma das publicações que mais defendeu a causa dos argelinos . Anda hoje os leio, mesmo se diferentes. Da banda de Espanha, sou, desde o primeiro dia, leitor de El País e, no que toca à Itália, confesso que abandonei “Paese Sera” por “La Republica” logo que este apareceu.

Sou, portanto, um leitor (e comprador) de jornais e não consigo começar o dia sem eles. No fim de semana as coisas complicam-se por via do “Expresso” (sempre desde o primeiro dia) e das edições mais volumosas dos jornais estrangeiros.

Mas voltemos ao “Público” que hoje festeja o seu 28º aniversário. Que bela aventura. Que zangas tremendas tive ao longo destes anos por via de artigos, comentários, omissões. Que falta me faz no dia de Natal e no de Ano Novo!...

Com todos os seus imensos defeitos, o “Público” é, de longe, o melhor quotidiano português, o mais imparcial, o menos populista e, de certo modo, o mais eclético em colaboração de todos os quadrantes políticos.

Tem falhas? Claro que as tem, a começar pela frágil cobertura de notícias sobe livros e literatura. Nada que se compare com, por exemplo, “El País” (ou até o “ABC”, também espanhol, conservador e monárquico que tem uma revista semanal de cultural de alta qualidade). O suplemento “babélia” deste jornal com mais de uma dúzia de páginas e que já vai na edição 1371, é um acontecimento e supera largamente o “Monde des livres” que aparece às sextas e é mais pequeno e menos variado.

Porém, em Portugal (e isto desde a morte de “O jornal”) a causa cultural tem perdido espaço. Sobrevive, com dificuldade, o “Jornal de Letras” (outra obrigatória e quinzenal leitura) e há por aí, tentativas dispersas e irregulares de imprensa cultural que morrem às duas por três por falta de leitores e de anunciantes. Por todos refiro o extraordinário “& etc.” suplemento e depois edição autónoma do Jornal do Fundão. A colecção completa (25 números) vale hoje uma pequena fortuna e as escassas dezenas de colecções encadernadas pelo editor praticamente não tem preço. (se algum leitor tiver uma e ma queira vender avise-me)

 

Ora o Público, jornal generalista, pertence, por vocação e tradição, a esta espécie de meteoritos jornalísticos que não chamam as grandes massas mas estão indissoluvelmente ligados ao melhor e ao mais puro espírito da democracia. Nasceu na 3ª República, orientado pelo Vicente Jorge Silva, alma do “Comércio do Funchal”, o jornal cor de rosa onde deixei alguns poucos artigos embora tivesse enviado para a Redacção muitos mais. A Censura foi implacável comigo e durante um interrogatório durante a minha última prisão o inspector que me coube insistia muito no carácter “subversivo e trocista” das minhas tentativas cronísticas. Fiquei orgulhoso por ter um leitor tão atento... e desanimado porque a atenção dele e de mais um par de funcionários me cortasse as asas para a glória literária...

Voltemos, porém, ao Público e aos seus escassos trinta ou quarenta mil leitores (em papel): há naquelas páginas, que o dia a dia tritura, uma alegria, um profissionalismo, uma teimosia que merecem um olhar. E, ao mesmo tempo, todos os dias lá aparecem a crónica de Miguel Esteves Cardoso e os desenhos irónicos e certeiros de Luís Afonso. Todos os dias! É obra!

No que toca ao jornalismo dito de investigação destaquemos o seu cuidadoso carácter sóbrio, a recusa do sensacionalismo que contamina quando não destrói outros exemplos noutros jornais. Raras, muito raras vezes, vi o jornal ser desmentido.

Finalmente (e porque este texto comemorativo já vai aparecer com alguns dias de atraso) gostaria de destacar o que me parece ser uma característica quase única na débil imprensa diária portuguesa: a tenção à divulgação de notícias científicas (da arqueologia à biologia, da química à medicina) que conseguem entusiasmar o leitor mais preguiçoso.

Tudo isto pelo preço de duas bicas na esplanada do costume!

Que bom!

Que muitos anos se sucedam, iguais ou melhores. Se algum de nós há de morrer espero ir eu em primeiro lugar não só porque tenho mais do dobro da idade do jornal mas sobretudo porque amanhecer sem o jornal tornaria ainda mais tristonhos os dias. Ou mais vazios...

01
Mar18

Estes dias que passam 366

d'oliveira

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Viva o Esportingue!

mcr 1-3-18

 

Não tenho clube de futebol. Nunca tive, mesmo se confessasse uma certa ternura pela “Associação Naval 1º de Maio”, modesta equipa que andou décadas pela 2ª divisão, subiu surpreendentemente à 1ª onde se entreteve uns parcos anos e depois desapareceu do panorama futebolístico nacional. Acho que, actualmente, disputa alguma coisinha regional de somenos importância.

A minha ligação ao clube figueirense advém do facto de, entre meados de quarenta e de cinquenta, meu pai ter presidido aos destinos da Naval onde também exercia de médico gratuito e, se me lembro bem, uma que outra vez de chauffeur de um carro enorme e desengonçado onde se transportava toda a liderança do clube. Fora isso, só recordo ter penosamente assistido a uns jogos no “campo da Mata” levado, sem alegria nem prazer, pela pátria potestas. O mesmo, aliás, me sucedeu quando andava no 3º ano do liceu em Coimbra. De quinze em quinze dias era-me negado o prazer do fim de semana na Figueira porque a Académica jogava em Coimbra e o meu pai, sempre ele!, fervoroso adepto, vinha à bola e leva-me ao estádio. Um horror!

Feita esta necessária introdução, apenas com o fito de explicar o meu nulo apreço pelos clubes de futebol nacionais e internacionais, pela “bola” e por boa parte do que por aí corre disfarçado sob o nome de desporto, eis que me vejo perante o extraordinário (no pior sentido de eminentemente ordinário) caso do Sporting e da estrondosa carreira do seu presidente.

Comecemos pelo mais óbvio, a história. O Sporting (Clube de Portugal) é um produto lisboeta puro e duro e, mais do que isso, uma criação da chamada elite social e financeira da capital. Um clube de senhoritos, de meninos bem, chiques até dizer basta.

Ainda me lembro de ouvir um cavalheiro respeitável acusar um amigo de ser um “talassa” logo que soube que o segundo era sportinguista. Talassas eram a princípio os monárquicos mais conservadores e depois os ricos e os bem pensantes. “Poucos mas bons”, como se dizia, senhores do seu nariz e desprezando ostensivamente o “povo”, a “gentinha”, o “pé descalço” que, obviamente havia de engrossar os fãs do Benfica o outro clube de Lisboa (Não se referem o Belenenses, o Oriental ou o Atlético também lisboetas mas confinados a bairros e sem historial que mereça mais do que modestos titulares, mesmo se o Belenenses tivesse tido nos anos 50 e 60 honras de “grande”).

Durante as décadas da minha infância, adolescência e primeira juventude, o Sporting e o Benfica (ocasionalmente o Porto) eram quem todo lo mandava. Do primeiro ficou famoso o grupo dos “cinco violinos” (2ª metade dos anos 40: Jesus Correia, Peyroteu, Travassos, Vasques e Albano) prodigiosos jogadores. O Benfica é o que se sabe. Durante anos a fio, décadas mesmo, foi o clube do regime e a joia da coroa. Ganhava em todos os palcos desde Portugal até à Europa. Suponho que ainda é o clube com mais títulos e taças logo seguido pelo Porto que sempre foi sólido mas só começou a brilhar verdadeiramente depois dos anos 60.

Data dessa época o progressivo eclipse do Sporting. Não me vou dar ao trabalho de procurar mas aposto que desde os anos 60 até hoje não terá ganho mais de meia dúzia, o que em 58 épocas sabe a pouco. O resto distribuiu-se quase sempre entre o Benfica e o Porto com ligeira vantagem para o primeiro.

As direcções do clube foram sendo progressivamente ocupadas por uma nova classe social cada vez mais distante da conservadora e tradicional elite anterior. O que não tem nada de mal mas que, no caso em apreço, reveste uma peculiar característica. Os novos dirigentes tentam macaquear os antigos ou, pior ainda, os dos clubes líderes dos últimos cinquenta anos. Os associados, que sempre riscaram pouco, ficam deliciados quando os “chefes” farroncam, esbracejam, ameaçam, uivam e se desfazem em impropérios e acusações.

O delírio atingiu o auge (?) com o actual presidente do clube, um a criatura que dá por Bruno de Carvalho e se gaba de ser sobrinho neto de um antigo e fugaz primeiro ministro. Sempre me espantou esta necessidade de recorrer a eventuais antepassados que, de resto, nunca se identificam como “carnais” ou por afinidade, caso em que a reivindicação familiar além de obnóxia é parva.

A criatura Carvalho apareceu no universo televisivo mais vezes do que o decoro permitiria mas com sobrados motivos: o homenzinho excede-se em patacoadas violentas contra adversários internos e externos (mais, até, os primeiros) e numa última e triunfante alocução aconselhou os associados a não ler jornais (falo dos associados que serão alfabetizados e tenham algum escasso hábito de leitura) desportivos –todos inimigos do clube- a não ouvir os comentadores desportivos nos media (medida que até poderia ser salutar atenta a quantidade de horas que aquelas cabecinhas pensadoras ocupam os melhores horários televisivos, mas que no caso é apenas um protesto contra algumas observações “menos respeitosas” dos palestrantes sobre o Sporting) e mais quatro fatwas do mesmo teor. Em boa verdade, o cavalheiro Carvalho elaborou um programa informativo par os associados digno da Coreia do Norte: não vejam, não ouçam, não leiam, não comentem (e não pensem?) o que vai nas bocas do mundo. Fora de Alvalade (de um Alvalade expurgado de conspiradores, detratores, críticos ou meramente neutros) não há salvação. O sindicato dos Jornalistas ofendeu-se e protestou como se esta estúpida proposta valesse sequer um comentário. Como se uma boa parte do sportinguismo militante se fechasse ao mundo. Alguns benévolos comentadores gerais viram em Carvalho um novo fascismo como se ele soubesse o que isso é. Aquilo não é coisa alguma excepto arrogância de uma galinha pedrês que gostaria de ser águia um de uma lagartixa que se tomasse por um dragão. Mais do que irritar, Carvalho faz rir mesmo se a gargalhada seja penosa. Saber que num país pacato e civilizado ainda há destes abencerragens deixa muita gente perplexa e a perguntar onde é que a Educação Nacional falhou. Já se sabia que, no fim da escolaridade média, a escrita é um mistério, as contas um sacrifício sobre-humano e a capacidade de conhecer o mundo em que se vive algo de escasso e contingente.

É habito dizer-se que “no melhor pano cai a nódoa”. Convenhamos que aqui nem o pano é mais do que sofrível nem a nódoa assusta. Nada que lixívia e bom senso e alguma educação não limpe e desinfecte.

O Clube de Carvalho vai corajosamente na terceira e habitual posição. Nada prenuncia que possa, facilmente, ultrapassar os dois que o antecedem mesmo se, em futebol, haja horas que duram mais alguns minutos do que os usuais.

Todavia, numa coisa o Sporting é indubitavelmente já campeão: no terrorismo verbal, na tolice ameaçadora, na impotência acusatória. À falta de melhores razões, este título também serve.

(Em memória de João Taveira da Gama, sportinguista sofrido, amigo desde os sessenta que a Parca já arrebanhou. Felizmente não assistiu a isto. Para azar basta a morte, é inútil acrescentar-lhe a vergonha.)

26
Fev18

A OUTRA LUTA DA ORDEM DOS MÉDICOS

JSC

A Ordem dos Médicos acusa o Governo de ameaçar a saúde dos portugueses porque o Governo pretende criar um curso que vai conferir o grau de licenciado em medicina tradicional chinesa.

 

É contra isto que o bastonário Miguel Guimarães se propõe mobilizar os médicos, com "formas de inéditas de luta" porque entende que as práticas da medicina tradicional chinesa não têm base cientí­fica, constituem um perigo para a saúde e para as finanças dos portugueses.

 

Por tudo isto, o Bastonário acusa o Governo de "irresponsável", de "estar a contribuir para um retrocesso sem precedentes", de agravar o desconforto e descontentamento dos médicos. Em claro confronto, garante que a Ordem se propõe "liderar um processo de oposição firme de todos os médicos.

 

Não disponho de conhecimentos que me permitam contrariar as teses da Ordem dos Médicos. Contudo, disponho da experiência, na perspetiva do utente, de algumas destas práticas que a Ordem e o seu Bastonário contestam, em nome da saúde dos portugueses.

 

Conheço médicos, licenciados por Universidades de Medicina portuguesas, que tiraram cursos de medicinas alternativas e que praticam as duas medicinas, com excelentes resultados para os doentes.

 

Os grânulos homeopáticos, se bem administrados e tomados, revelam-se mais eficientes no combate a alergias e a encefalias do que remédios habitualmente receitados pelos médicos dos SNS.

 

Sei de médicos que, em crises agudas, recorrem a osteopatas e que louvam os resultados obtidos com a intervenção.

 

A defesa corporativa que a Ordem se propõe travar talvez fosse melhor assegurada com a integração da designada medicina tradicional chinesa nos cursos de medicina, abrindo aos jovens médicos outras perspectivas de carreira e garantindo aos doentes opções diferenciadas no seu tratamento.

 

Provavelmente, a Ordem dos Médicos está a enveredar por um caminho cada vez mais estreito, corporativo, do que julga ser a salvaguarda dos interesses especí­ficos dos médicos. A defesa da saúde dos portugueses seria melhor garantida se as duas medicinas dialogassem entre si e se complementassem.

 

Ao invés do que mobiliza a Direcção da Ordem dos Médicos, o perigo para a saúde pública advem mais ou pode advir da situação actual que permite que qualquer pessoa se autoproclame e exerça a profissão de "osteopata", "acupuntura", "homeopata", etc.

 

A criação de regras, de cursos especí­ficos validados pelo Ministério da Saúde e a constituição de um organismo, tipo INFARMED, que controle e valide a produção e comercialização dos remédios homeopáticos e outros actos clí­nicos próprios da medicina tradicional, só pode ajudar e melhorar as boas práticas do sistema de saúde.

 

Não será por a Ordem dos Médicos estar contra a legitimação da medicina tradicional chinesa que esta vai deixar de existir, de haver oferta e utentes. Então, parece-me bem mais racional e inteligente defender a sua legitimação, enquadramento e controlo pelas entidades que gerem o sistema de saúde.

20
Fev18

Vida nova no PSD

José Carlos Pereira

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O congresso do PSD entronizou Rio Rio sem grande entusiasmo. O novo líder bem se esforçou em criar a unidade com os apoiantes de Pedro Santana Lopes, beneficiando da abertura manifestada por este, mas o núcleo duro de Passos Coelho, liderado por Luís Montenegro, foi deixando bem vincadas as suas divergências. Rio teve uma votação aquém do que esperaria nas listas que promoveu para os órgãos nacionais, registando a segunda pior votação de sempre na lista para a Comissão Política Nacional apresentada por um líder eleito em eleições directas – só Luís Filipe Menezes conseguira fazer pior. As opções que fez, nomeadamente para a Comissão Permanente, com algumas figuras pouco reconhecidas e outras demasiado polémicas, contribuíram muito para tal resultado. A escolha de Elina Fraga para vice-presidente, quando a maior parte dos militantes desconhecia a sua ligação ao partido e só se recordava das notícias sobre a alegada má gestão na Ordem dos Advogados e das diatribes que protagonizou contra o executivo PSD/CDS, foi a cereja em cima do bolo.

Rui Rio promete um novo ciclo de oposição ao Governo e ao PS, com maior disponibilidade para negociar reformas e assumir compromissos estruturantes. Ver-se-á a abertura efectiva de todas as partes para essa negociação e a forma como isso vai ser recebido nos órgãos do PSD e designadamente no seu grupo parlamentar, onde Rio encontrará muitos opositores às suas políticas e a essa manifesta vontade de articular compromissos com o PS. Já esta semana, os números alcançados por Fernando Negrão na eleição para a presidência do grupo parlamentar serão reveladores da forma como se vão comportar os deputados do PSD perante a nova direcção.

20
Fev18

diário político 224

d'oliveira

Notícias fúnebres só depois da pessoa estar morta

d'Oliveira fecit, 20/2/18diário 

 

Assisti, sem entusiasmo nem pesar, aos momentos relevantes do congresso do PSD. Azares de quem vê o telejornal das oito. Também sem qualquer arroubo e escasso, muito escasso, interesse ouvi (e li) os comentadores encartados que pululam nas televisões e nos jornais que compro.

Também não me espantei, macaco velho que sou, com as predições das habituais Cassandras indígenas. Pelos vistos, para a maioria, Rui Rio (RR, como o Rols Royce) está feito. Está morto e não sabe. Herdeiros presumíveis e presumidos disputam os sapatos do defunto.

Este tipo de profecias catastróficas e catastrofistas não é novidade. Ocorreu o mesmo com os inícios da “geringonça” e ela aí está para lavar e durar. Falou-se d tremendas dificuldades com os incorruptíveis PC e BE mas estes rosnam ms não mordem e Costa segue imperturbável. Estará tudo bem? Não, mas enquanto o pau for e vier folgam os lombos.

Voltemos, porém a RR.

Para quem, por sorte ou azar, for do Porto, Rio é um velho conhecido. Três consecutivos e imbatíveis mandatos na Câmara que só abandonou por imposição legal. Uma teimosa resistência a Luís Filipe Meneses, candidato do seu partido que de algum modo ajudou Rui Moreira.

Que história de sucesso foi esta e como começou?

Pois da maneira mais simples e chã. Rio, personalidade importante e incómoda do PSD onde granjeou inimizades de todo o tipo, resolveu num “impulso” longamente pensado, e estudado candidatar-se à Câmara do Porto. Um velho amigo meu dos tempos de Coimbra, imperturbável jogador de bridge e indefectível social democrata, explicou-me a coisa entre duas partidas: a malta lá do partido está contentíssima. Livram-se do Rio que é um chato do catorze e o gajo perde estrondosamente contra o Fernando Gomes. Morre aí e nunca mais chateia a rapaziada.

Eu, que não conhecia Rio de parte nenhuma (aliás nunca lhe falei nem sequer estive com ele em algum sítio) achei a tese interessante e dotada de alguma verdade. Rio fizera a vida negra aos caciques e barões do partido, disciplinara o cadastro interno, em suma esvaziara alguns poderes aparentes que viviam de um clientelismo que se gerava nos momentos prévios a eleições e congressos.

Quando se propôs contra o “vice-rei” socialista do Norte (Fernando Gomes, ex-presidente da Câmara e desafortunado ex-ministro de Guterres) o comentário geral foi que aquilo, aquela candidatura era uma fogachada e um desastre anunciado. Que Gomes ganharia a Câmara quase sem mover o dedo mindinho. Que nem os do PSD votariam em Rio.

Na noite da eleição os foguetes socialistas foram de lágrimas. O “bom povo” tripeiro dera a maioria relativa a RR e Gomes via a sua soberba e a sua desastrada saída do Porto para ocupar uma pasta ridícula sob Guterres premiada rotundamente. Se bem me lembro, nunca mais tentou a vida autárquica. Rio surpreendia amigos e inimigos, desiludia os seus detratores o partido e começava uma carreira bem sucedida na CMP. A “inteligentsia” local odiou-o desde o primeiro momento. Os do futebol, com Pinto da Costa à frente, disseram dele o que Mafoma não disse do toucinho. A população entretanto deu-lhe outros dois mandatos com crescentes votações relegando o PS para uma pobre e vil tristeza. Rio deixou a Câmara com as finanças em ordem, enfrentou o lobby da construção civil que queria parcelas do Parque da Cidade e uma frente edificada do mesmo diante do mar e livrou os portuenses daquele homenzinho ridículo de Gaia que odiava sulista, elitistas e não sei que mais.

Ou, traduzindo para quem não saiba português: RR é muito mais do que um sobrevivente. É um político frio, ambicioso, capaz de pensar no longo termo, pouco dado a palmadinhas nas costas ou a salamaleques à Imprensa que, aliás, o detesta cordialmente.

Não sei, e pouco se me dá, se isto faz um líder ou sequer assusta Costa. Pelo que vou vendo PC e BE reagem com mais nervosismo. Dentro do PSD, fala-se num “saco de gatos” e alguns mais assanhados como um tolo e presunçoso vereador de Cascais, exigem este mundo e outro como se não soubessem que os ventos actuais sopram a favor do PS. Rio tem pouco tempo, muito pouco tempo, para arrumar a casa, restituir a fé e a esperança aos militantes que, nesta questão de virtudes teologais não são propensos à caridade. Rio não tem um “estado de graça”. É um impertinente a quem se exige, de uma só vez, tudo e mais alguma coisa. Santana Lopes que pode ser tudo mas que é político preferiu a segurança de um acordo, António Capucho quer regressar e há sinais de tentativa de reocupar o “centro”.Os mais entusiastas falam no regresso à matriz social democrata.

Pessoalmente, RR nunca terá o meu pobre e risível voto. Todavia, não faço parte dos que já lhe encomendam missa de requiem. Para os mais melómanos, diria que RR está mais próximo da “missa do homem armado”. É tenaz, talvez teimoso, mas tem a cabecinha pensadora arrumada e joga num tabuleiro onde parece difícil ter piores resultados dos que Passos Coelho teve nestes últimos tempos. Mesmo se a drª Elina Fraga não pareça ser peão que se use, muito menos torre ou rainha. Mas, para erros de casting, aí estão múltiplos exemplos vindos de toda a parte. Daqui a dias já toda a gente se esqueceu da criatura. A política é assim.

Vai uma apostinha que RR está aí para durar?

16
Fev18

Au bonheur des dames 446

d'oliveira

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 Pagar dívidas antigas 

 

 mcr 16.2.18

Fui aluno do antigo Liceu D João III (Coimbra) por duas vezes mesmo se por pouco tempo: no 3º e no 6º anos.

Nesse tempo, tratava-se de um liceu “Normal”, isto é de um liceu onde os jovens professores, sob a orientação de exigentes professores “metodólogos”, faziam o “estágio”.

Uma vez aprovados poderiam ir ensinar em qualquer outro estabelecimento similar, integrados na função pública.

As aulas nem sempre eram pacíficas sobretudo se dadas por um metodólogo e respectivos estagiários: estilos de ensino diferentes podiam perturbar a rapaziada. Todavia, é justo realçar a alta qualidade do ensino e a exigência.

Naquele tempo, as instalações eram boas mesmo se, por exemplo, a piscina nunca funcionasse!...

Hoje, diz o jornal, aquele excelente edifício está num estado desolador. Esperam-se (e desespera-se) obras de enorme importância e correspondente custo. A desvairada gestão da ministra Rodrigues e a loucura gastadora da empresa Parque Escolar não deram para restituir a actual “escola José Falcão” (é o seu nome, hoje) à devida dignidade que uma escola, o seu corpo docente e os seus alunos merecem.

Todavia, não é do estado calamitoso do prédio que pretendo tratar.

É do seu nome actual. O “D João III” passou a José Falcão com os ventos de Abril. Ou as ventosidades como já se explicará.

José Falcão foi licenciado e depois doutorado em Matemática e lente da Universidade de Coimbra. Porém, a escassa fama que obteve em vida advém-lhe sobretudo, e apenas, do facto de ter sido propagandista e militante republicano, mesmo que de segunda linha. Aliás, morreu cedo pelo que não se podem, sem eventual injustiça, verificar-se os seus méritos políticos e propagandísticos. Escreveu uma “cartilha do Povo” que se não é uma inutilidade absoluta também não merece destaque na escrita política da época. Escassa novidade e estilo pobre.

D João III foi, provavelmente, o soberano português que mais fez pelo ensino e pela Universidade que dotou de meios e de professores de altíssima qualidade. A actual Rª da Sofia em Coimbra está pejada de “Colégios Universitários” mandados fazer por ele e pagos pela Coroa. Em qualquer país civilizado isto poria o último grande rei da dinastia de Avis na História. Se é verdade que outros soberanos e príncipes dotaram a Universidade (D Dinis, Infante D Henrique, Filipe II e D José a conselho do inteligente e maléfico Marquês) deve considerar-se a intervenção de D João III como a mais completa.

Da sua memória resta hoje uma feia estátua no pátio da Universidade e durante algumas décadas do sec. XX o nome do liceu (que começara por se denominar Liceu de Cimbra e Liceu Central de Coimbra até ao tempo da 1ª República que o crismou José Falcão).

Aliás, e para maior rigor o D João III nasceu da fusão dos liceus José Falcão e Júlio Henriques (licenciado em Direito e catedrático de Filosofia mais tarde consagrado como um dos grandes botânicos portugueses, ao lado de Brotero que ele muito admirava. Fundador do Instituto Botânico, dirigiu o Jardim Botânico durante décadas podendo dizer-se sem mentir que a sua obra à frente desta instituição é comparável à de Vandeli ou Luís Carriço).

Ignoro se há em Coimbra, além da Brotero e D Maria, mais escolas secundárias. Se sim, aí estaria para os saudosos da propaganda republicana uma hipótese de homenagear J Falcão.

Agora, que eventualmente se farão obras, seria de toda a justiça restituir à velha escola o nome do rei que mereceria mais, muito mais, da cidade.

A latere: os velhos colégios da Rª da Sofia estão em mau estado e sobretudo afectados a usos desinteressantes. Suponho que estarão incluídos no domínio do Património da Humanidade que contempla Coimbra. Valia a pena começar a pensar-se em restituí-los à sua primitiva e gloriosa função universitária (residências de estudantes, centros de estudos, etc). Para o efeito bastaria voltar a consultar o valioso número XXV da Revista Monumentos onde se pode perceber toda a importância arquitectónica, urbanística destes edifícios. Antes isso que andar a construir “barracos” feios, maus e caros como é timbre do Ministério da Educação.

 

Por mcr, nº 23/3º/A e nº 38/6º/ A  (anos 50)

15
Fev18

Diário Político 223

d'oliveira

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Humores cardinalícios

d'Oliveira fecit 15.2.18

Passado que foi o Carnaval, aguardava com evangélica paciência que o Sr. Cardeal Patriarca comunicasse, urbi et orbe, (enfim, quase, que ele não é papa e, com sorte, nunca será) que a sua declaração sobre a forçosa castidade entre recasados até se resolverem alguns problemas de direito canónico, fosse retificada.

Não foi. Todavia, vários bispos e outros tantos teólogos vieram já a terreiro explicar a sua discordância. A comunicação social tem-se divertido e explorado as declarações de Sª Eminência Reverendíssima. O pópulo católico parece completamente dessintonizado da paternal e surpreendente recomendação de alguém que, para o pecado e para as relações sexuais, parece ser inclemente.

Eu estou fora do rebanho pastoreado pelo Senhor D Manuel. As recomendações do prelado não me afectam. Não só porque já vou adiantado em anos mas, sobretudo, porque tenho por certo que S.ª Em.ia Rev.ima não faz a menor ideia do que é a vida de casado. Nem do que os casais, até os católicos, esperam desse viver em comum. As pessoas casam-se e, no caso em apreço, recasam-se para algo mais do rezar juntos o terço. Para permanecer teoricamente virgens (ou revirgens!) não precisam dessa maçada de ir ao padre e ao registo declarar que querem fazer vida em comum.

O Papa percebeu isso. Todas as Igrejas cristãs o perceberam e só esta “católica, apostólica e romana” ainda insiste no celibato sacerdotal, na castidade a outrance, na exclusão da mulher. Aliás, a perturbante devoção à Virgem em oposição à pecadora Eva (e lembremos o que dizia um famoso doutor da Igreja: a Virgem foi virgem antes, durante e depois do parto. Outro não menos surpreendente descobriu que se “o homem precisava de companhia no Éden, Deus poderia ter criado outro homem” espera-se que para conversar.

Há um par de anos, num irreflectido entusiasmo, o júri do Prémio Pessoa, entendeu distinguir este prelado. Nunca descortinei qual a razão mesmo se o senhor fosse licenciado, quiçá doutorado. Não havia ainda, e não há hoje, obra suficientemente relevante para o chamar a tão alto prémio. A menos que o galardão servisse de base para futura obra que ainda está por levar a cabo.

Esta declaração, totalmente fora da realidade, do século e, provavelmente de qualquer hipóteses de “aggiornamento” eclesial não foi uma graçola de mau gosto mas, eventualmente uma profissão de fé no que a Igreja tem de mais conservador e reaccionário. Que lhe preste.

 

Para ilustrar servi-me de uma máscara de carnaval de Trás os Montes. Convenhamos que além de belíssima contrasta fortemente com a deslavada carnavalice de várias terras nacionais - que as televisões mostraram ad nauseam. Não se entende este entusiasmo por aquele desbarato de toleima e falta de imaginação. Outras televisões, desta feita estrangeiras, insistiram em Veneza. Para que se saiba: o actual carnaval veneziano, além de moribundo é animado a 70% por estrangeiros que pagam fortunas por uma semana com fantasias a rigor mas desoladoramente copiadas das antigas: uma dor de alma ver a cidade lagunar perecer sepultada pelo turismo barato, pela sonolência da razão e pelo mau gosto da cópia. Parece portuguesa!...