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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

09
Jul18

O leitor (im)penitente 207

d'oliveira

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Um regresso em grande

mcr 8.7.18

 

Regressa Maria Judite de Carvalho, a autora de (entre outros milagres) “Tanta gente, Mariana”. È pela mão de uma nova editora (Minotauro) que volta ao convívio dos leitores e logo com livro duplo (A “Tanta gente...” juntaram “As palavras poupadas”). Força amigos que já tem que ler em férias. Ler e surpreender-se; surpreender-se e maravilhar-se; maravilhar-se e perguntar como é que foi possível tanto e tão longo silêncio à volta desta mulher.

Quem esforçadamente me acompanha sabe que o feminismo não é o meu peditório, mesmo se, também talvez tenham reparado, abomine o “machismo” e outras singularidades que tornam o mundo mais triste e mais cruel. Melhor dizendo: irrita-me soberanamente algum feminismo estridente que entende que para dar à Mulher o seu justo no lugar há que rebaixar a macharia sem olhar a diferenças ou distinguos.

No entanto, e no capítulo literatura moderna portuguesa, o lugar das mulheres tem aparecido sempre em letra minúscula. É verdade que, em seu tempo, se falou das 3 Marias graças ao perfume de escândalo da “Novas Cartas Portuguesas”. Também é verdade que Agustina Bessa Luís e Sofia de Melo Breyner Andresen foram presenças importantes nos meios de comunicação social. O mesmo se passou, ainda que em períodos muito curtos, com Maria Velho da Costa. Porém, pouco ou nada resta da passagem de muitas outras –e, com a única excepção de Isabel da Nóbrega (“Viver com os outros”) só vou citar autores já desaparecidas: Irene Lisboa, Fiama Hasse Pais Brandão, Luísa Neto Jorge, Fernanda Botelho, só para exemplo. Medem-se, sem favor, com os melhores escritores seus contemporâneos mas, mesmo num país onde a maioria dos leitores é feminina, a sua recepção crítica, o volume de vendas e o eco público foram sempre menores. Como se vê, não são só os homens os maus da fita aqui.

O fenómeno não é estrictamente nacional e, em todos os domínios, mormente no político, o ocultamento das mulheres foi regra. E nisto incluo alguns estandartes do movimento comunista internacional. À excepção de Rosa Luxemburgo, as mulheres russas, chinesas ou cubanas aparecem fugazmente, na sombra dos homens, mesmo os mais medíocres. Da revolução russa, conhecem-se de viés, Clara Zetkin ou Inessa Armand (esta última reduzida praticamente a amante de Lenin). De Cuba nada, o mesmo se pode dizer do Vietnam ou da China, onde, entretanto, Mao Ze Dong afirmava que “as mulheres eram metade do céu”. Até a anarquista (ou socialista revolucionaria?) Fanya Kaplan, autora do atentado contra Lenin foi, mais tarde, quase ilibada atribuindo a um tal Protopokov (não garanto o nome) a autoria do atentado.

Não irei cair no exagero (se é que o é...) de afirmar que MJC foi ofuscada pelo marido, o também escritor Urbano Tavares Rodrigues. Porém se quisermos saber deles, MJC aparece sempre como mulher daquele, enquanto Urbano tem direito a referencias sólidas sem o peso da companhia da escritora que, a meus olhos insensatos, lhe é claramente superior.

Assim vai o mundo.

 

08
Jul18

A CLARA FALOU CLARINHO, PASSOU-SE…

JSC

Estou farto de ouvir falar da Madona. Não pela Madona, antes pelo prol de comentadores/jornalistas/políticos populistas que se servem da Madona para criticar e até insultar os portugueses.

 

Clara Ferreira Alves, escritora/jornalista/comentadora, no Eixo do Mal, até lembrou Byron e Eça para mostrar quanto os portugueses bajulam os estrangeiros. É de mais!

 

As Câmaras Municipais, todas as Câmaras, têm uma tabela de taxas e licenças ou de taxas e preços. As condições de ocupação do domínio público ou do domínio privado da autarquia estão lá definidas, incluindo as condições financeiras. Aprovadas pelo executivo e até pela Assembleia Municipal, cabe aos serviços aplicar a tabela de taxas e preços. Onde está o problema da ocupação precária em causa?

 

Mas a escritora/jornalista/comentadora vê problema. E o problema, segundo ela, está logo na cara de menino do presidente. Diz ela: “Medina tem um lado qualquer infantil, ele tem uma cara infantil”.   Com esta tirada, a comentadora Clara está ao nível daquele Senhor que disse que lhe bastava olhar para a cara… para ver que era pedófilo… e, por consequência, condenar…

 

Bom, também poderíamos dizer que bastar olhar para a cara e para os trejeitos da senhora para se ver quanto esganiçada é e toda a carga de pedantismo que transporta para o pedestal em que se põe.

 

A afirmação mais estapafúrdia que saiu daquela desenfreada corrente verbal foi quando acusou, disse: “foram buscar o contrato logo a seguir, fizeram o contrato no fim de semana para o apresentar”.

 

Estamos perante uma afirmação grave, feita por alguém que tem uma intervenção pública de largo alcance. Não pode ser mais uma afirmação. Deve ter consequências. O Presidente da Câmara deve pedir um inquérito à Procuradoria ou, em alternativa, a Procuradoria tomar a iniciativa de o realizar. Têm duas pessoas para ouvir, desde já. A Comentadora Clara e o Coordenador do programa, que parece ter informação sobre o caso porque afirmou que o facto de dizerem que o documento “tem data de janeiro não garante… que tenha sido feito em Janeiro.

03
Jul18

Há dias e dias 1

d'oliveira

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Há dias e dias 1

 

3.Jul.18 

 

mcr 

 

Éramos pouco mais de um quarteirão no enterro da Fernanda da Bernarda. Alguns não puderam vir por questões de saúde: nenhum de nós está a ir para novo. Muitos não souberam ou souberam tarde de mais para ir de longada até Setúbal. Todavia, lá estávamos, um punhado de relíquias ou de sobreviventes, como queiram descrever-nos. Mais cabelos brancos, ou nem isso que as calvas não eram poucas. Como de costume, as mulheres (as raparigas do nosso tempo...Ah! Como isso vai longe...) mostravam-se mais bem conservadas. Elas defendem-se melhor dos infortúnios da idade, sabem fintar o tempo e a solidão bem melhor do que os homens. No meio do desgosto, mesmo se isto era uma morte anunciada e, porque não dizê-lo, de certo modo desejada (uma esclerose múltipla rebenta com o melhor e o mais corajoso e não é boa de ver para as testemunhas compadecidas e impotentes), foi bom rever velhos, velhíssimos amigos e camaradas de outros tempos, quiçá de outro lugar tais as mudanças a que assistimos nestes bons cinquenta anos que nos separam da nossa “juventud, divino tesoro” (Ruben Dario, leiam-no por favor que ele é um dos maiores, dos melhores, dos mais modernos poetas latino americanos –que digo? – universais).

Há um par de semanas, encontrei uma velha conhecida (bem mais nova do que eu, aliás) que depois de um par de beijos repenicados, várias perguntas e outras tantas respostas, me disse “estamos vivos”. Lá estar estamos mas já aproximamo-nos do tempo de viver por empréstimo, já há quem nos olhe de soslaio, somos um peso no Orçamento da CGA ou da Segurança Social. As criaturas idosos são caras em termos de saúde, ocupam demasiado espaço nos hospitais quando não se tornam um custo insuportável por lá terem sido abandonadas.

 

O jornal de hoje menciona um livro de Steibeck (prémio Nobel nos inícios de 60) em que ele descreve uma viajem pela Rússia na companhia de Robert Capa, extraordinário fotografo. Comprei-o há dias mas ainda não o abri. Prometi a mim mesmo começar ainda este mês. Steinbeck venceu o Nobel depois do júri se ter dividido entre Lawrence Durrel (o autor do “Quarteto de Alexandria”, do “Quinteto de Avignon” e de mais uma série de belos livros onde não faltam dois ou três bem humorados sobre s suas aventuras como diplomata) e Graham Greene, o grande escritor “católico” (porque raio se apõe sempre a religião no caso dos católicos? Já Bernanos, outro grande, sofreu a mesma “capitis diminutio...) que deixou meia dúzia de grandes romances com destaque para “O terceiro Homem”, “O fim da Aventura, “O Poder e a Glória” ou “O nosso agente em Havana”.

Steinbeck foi, posteriormente, muito injustiçado pela crítica pretensiosa que achava que era preciso diminuí-lo para exaltar Hemingway ou Faulkner como se não bastassem a estes dois últimos a enorme qualidade que tinham. Eu, comecei Steinbeck muito cedo, era autor lá de casa e muito adolescente já tinha “aviado” “A leste do Paraíso” e “As vinhas da Ira”. Um pouco mais tarde foi a vez do emocionantes “Noite sem lua” e “Batalha duvidosa”. Mais tarde ainda li divertidíssimo “Tortilla Flat” e “Cannery Row” e o belo “Viagem com o Charley” e devo ter visto três ou quatro diferentes encenações de “Ratos e Homens”, uma peça que não pode falhar num repertório teatral digno desse nome.

Será que Steinbeck vai ressuscitar em Portugl como já acontece com Somerset Maugham, outro injustiçado?

 

À selecção nacional sucedeu o que há muito se previa. Arrastou-se, deprimente e deprimida, pelos relvados do Mundial, sem nunca ter dado um ar da sua graça. O eficiente Uruguai exectou-a sem piedade. Os jornais juram que no campo teve mais domínio de bola, mais isto e mais aquilo. Mas o Uruguai teve os dois golos. Por mero acaso, o treinador português, Fernando Santos, sempre disse que num jogo a única coisa que vale é vencer. Bonito ou feio, artístico ou peado, o que vale á a vitória. Bom seria que os órfãos da selecção do “melhor do mundo e mais dez” se lembrassem disso e do que isso significa em termos de espectáculo desportivo. Ter sido campão da Europa (aliás um bambúrrio...) tem tanta importância como “os sinos da velha Goa e os canhões de Diu” expressão muito em voga no tempo da glórias e desventuras coloniais.

 

O senhor Primeiro Ministro e mais alguns ajudantes foi prometer iniciar as obras de requalificação do IP 3 (Coimbra Viseu). A ver vamos.

Entretanto, o que se viu foi a imagem das bordas da via atafulhadas de mato. Perguntado por isso, por esse convite ao fogo, o senhor presidente das Estradas de Portugal, escafedeu-se sem vergonha sem dizer água vai. Não percebo como é que ao menos um jornalista não o tenha perseguido sem descanso até a criatura reagir. Fica-nos da televisão a sua postura patética e pateta. Este cavalheiro é pago com os nossos impostos. Tem obrigatoriamente de responder.

 

A Dívida Pública (com letra grande e tudo) aumentou. É a mais alta de sempre. Aumentou tanto ou mais do que os protestos dos senhores professores, dos corpos constituídos da funçanata pública, dos avisos do BE e do PCP que mesmo perante esta evidência teimam em exigir mais dinheiro e para já, ao mesmo tempo que, inconstitucionalmente (repito, inconstitucionalmente) votam sobre o imposto sobre combustíveis sem perceberem que isso, aliás as consequências disso, é ”diminuir a receita do Estado” consagrada no Orçamento. É para isto que aquela gentinha se reúne no Parlamento?

 

* a gravura: máscara Fang  tipo "jano" 

29
Jun18

au bonheur des dames 455

d'oliveira

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Morreu a Fernanda

mcr 28.06.18

 

Maria Fernanda Vieira da Bernarda, anos 60. Alta e desembaraçada, uma “moçoila que respira saúde”, na expressão do meu primo Mário Leão, num dia em que foi a Coimbra manifestar a sua solidariedade à malta já em greve.

Conhecia-a uns anos antes da “crise”, da nossa crise, como me lembraram vários amigos que me foram telefonando e enviando mensagens desde a manhã de quarta feira, vinha eu para Lisboa fazer a minha visita mensal à velha, velhíssima Mãe e aos restantes cada vez menos familiares.

Noutros tempos teria reagido com mais emoção à notícia mas sabia, com vergonha o confesso, que a “Bernarda” (era assim que a Isabel Pinto, eu e mais alguns a chamávamos) estava mal, muito mal. Uma esclerose múltipla contra a qual combateu com serenidade, coragem e teimosia, tinha-a atirado para uma cama há vários (dez?) anos já. Eu ainda a vi, já em cadeira de rodas mas toda sorriso e alegria pelo reencontro com velhos amigos. Terá sido na última vez em que participei nas comemorações do 17 de Abril. Depois, o peso dos entretanto mortos começou a minar-me a alegria do reencontro e decidi não mais participar no que se ia transformando num velório de gente prometida à morte.

Todavia, a Bernarda era outra história. Não só fomos colegas (ter-nos-emos formado no mesmo ano, julgo) na faculdade mas, durante muito tempo, convivemos fora da “Alta” especialmente nos cafés conspirativos da praça da República (a “praça vermelha” como dizia um comum amigo que depois chamava ao café Mandarim, o “kremlin”). Pois foi nesse “kremlin” que muitas vezes nos juntámos, um alegre grupo que ia preparando a reconquista da Associação Académica ocupada por uma infame “comissão administrativa”, durante três longos anos.

Não vou fazer a história desses dias de vinho e rosas, de chumbo e desgosto, que isso está feito e detesto as memórias de antigo combatente.

Logo nos inícios de 70 estávamos, muitos dessa fornada, no Porto e, juntamente com o António Lopes Dias, a Isabel Pinto, o José Afonso e a “Bernarda”, formámos uma espécie de sociedade de advogados partilhando um escritório de cujo aluguer me encarregaram. (Em boa hora o decidimos que a senhoria ao saber o meu nome me perguntou por um tio avô e perante a minha resposta positiva logo nos fez um desconto de 500$00 mensais. O velho tio Alfredo Corrêa Ribeiro morrera entretanto e deixara ao pai da senhora uma espingarda. Agradecida, fazia-nos aquele enorme desconto...)

No Porto, o grupo vindo de Coimbra, ou melhor, o grupo que já era de amigos em Coimbra prosseguiu uma louca continuação da “crise” de 69, com o apoio de mais outra gente que ficara em Coimbra. Reuníamo-nos gravemente, várias vezes na casa que eu e a Maria João partilhávamos, outras na casa da Bernarda e do Zé Ferraz e tentávamos pôr de pé uma teoria conspirativa e revolucionária fora dos esquemas do PC e do recém nascido PS. Éramos todos sócios da “Centelha”, editora nascida em Coimbra e divulgadora de todos os heterodoxos marxistas bem como de muita e da melhor poesia portuguesa do momento. Quando um dos nossos, o Zé Afonso, então na tropa, nos avisou da iminência do 25 de Abril, foi o delírio. Distribuiram-se tarefas de apoio à intentona que nem foram necessárias pois, como se sabe, tudo correu bem. A mais louca ideia, proposta pelo Zé Ferraz ou pela Bernarda, consistia, caso fosse necessário, em fornecer uma cela para o general comandante da região militar em casa deles pois uma das casas de banho era interior e tinha tudo o que fosse necessário a um preso!

Éramos aliás vizinhos, no bairro onde ainda hoje vivo e lembro-me que quando me instalei no meu primeiro apartamento, logo a Bernarda apareceu com prendas várias desde uns copos e chávenas desemparelhados até um cobertor (eu entretanto divorciara-me). Não tive coragem para lhe dizer que tinha um enxoval completo... No nosso comum escritório prosseguíamos a nossa actividade de advogados de sindicatos e do que mais viesse à rede pois estávamos todos no começo. O pouco dinheiro que ganhávamos era rigorosamente dividido por todos fosse qual fosse o apport de cada um. Ao mesmo tempo íamos dividindo uma peculiar espécie de clientes gratuitos: a estudantada em revolta e o resto da oposicrática que ia aparecendo à procura de um advogado para o caso da polícia se interessar pelas actividades de alguém.

Com o 25 de Abril, demorámos algum tempo a decidirmo-nos onde cair partidariamente mas praticamente todos acabámos no MES e quase todos saímos de lá ao fim de um ano. Mais tarde, muitos, reencontraram-se no PS mesmo se nem todos tenham ficado por lá. Entretanto a Centelha faleceu de morte macaca afogada pelas dívidas de distribuidores que faliam com singular rapidez. Alguns, mas já menos, ainda criámos um livraria no Porto, a “Erva Daninha” que não obstante o nome durou apenas um par de estações. Nada disso, porém, quebrou a boa disposição ou afectou a amizade. Vínhamos de tempos duros, não queríamos (pelo menos a maioria de nós) galões de evolucionário nem prebendas do novo regime. Se nos aguentámos à tona e, de certo modo, prosperámos foi à custa de muito trabalho. Hoje está tudo na reforma ou quase porque há ainda alguns que acham melhor entreter-se a trabalhar do que calçar as pantufas. A Bernarda, essa, cedo teve de as calçar que a esclerose múltipla não é para graças nem dá tréguas. Houve casamentos e divórcios, claro mas singularmente todos os ex-cônjuges de que consigo lembra-me mantem as boas relações e a cumplicidade de antanho.

Dizem-me que no facebook, instituição que não frequento se vão multiplicando notícias e quiçá comentários. Todavia, faltaria a uma amizade de quase sessenta anos se não a recordasse aqui, neste pequeno canto tanto mais que alguns dos meus sacrificados leitores vem desses tempos bárbaros. Como alguém dizia, hoje, no velório, já nos podemos considerar relíquias senão sobreviventes. Ao encontrar esse quarteirão de amigos e conhecidos dezenas de outros me vieram à memória. Não estavam lá, nem poderiam estar. Subsiste a memória terna e frágil deles, caras e sorrisos de rapazes e raparigas que num momento único e irrepetível, num país naufragado e silencioso gritaram sem raiva mas com alegria e desafio a sua vontade de estar vivos e de viver.

E foi disso que falámos hoje na sala ao lado daquela onde jazia o cadáver da Fernanda, digo da Bernarda, digo da nossa boa, especial e querida amiga.

E nessa sala soturna pareceu-me ver, se é que não vi mesmo, o Osvaldo (Vává) Sarmento e Castro, o António Mendes de Abreu , o Zé Salvador, os dois Alfredos (Soveral Martins e Fernandes Martins, o João Bilhau. E outros, muitos outros, nomes delidos pelo tempo, pela minha incúria ou, mais provavelmente pela memória que já me vai traindo. Riam-se dos vivos envelhecidos que, de todo o modo, pareciam estar contentes por se reverem ao fim de tantos anos, tanta oportunidade perdida, tanto mar, tanto mar...

Vai esta dedicada ao João da Bernarda, com um forte abraço. Ele, mais velho e sem ligação ao meio académico, esteve connosco sempre, valente e bem humorado. A ajudar em tudo o que fosse preciso. Vinha da mesma cepa, é o que é. 

* a gravura: esta imagem está mais que vista mas onde estou não tenho acesso a nenhuma fotografia e na internet esta imagem era a única que podia usar-se. O resto era de gente que não conheço. Para quem, por milagre não saiba, esta é a fotografia das escadas monumentais tirada logo a seguir à inauguração do edificio das Matemáticas e ao "sacrilégio" dos insultos ao "venerando" Presidente da República. O que nós nos divertimos. 

28
Jun18

Ambiente pesado

José Carlos Pereira

Há cerca de um ano, foi notícia a investigação, de desfecho ainda desconhecido, em torno de negócios na área do ambiente com autarquias envolvendo um ex-deputado do PSD, que depois presidiu à CCDRN e foi candidato à presidência da Câmara de Matosinhos, que tem como sócio um outro antigo dirigente nacional do mesmo partido. Ontem foi conhecida outra investigação envolvendo um deputado e um dos primeiros membros eleitos do Conselho Nacional do PSD, igualmente centrada em negócios no domínio do ambiente e em adjudicações de várias autarquias. O ambiente anda pesado…

21
Jun18

A fraude dele é melhor que a dos outros

José Carlos Pereira

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No dia em que Portugal iniciava a sua prestação no campeonato do mundo de futebol, precisamente contra a Espanha, era noticiado que Cristiano Ronaldo tinha chegado a um acordo com o fisco espanhol para colocar um ponto final nas acusações de fraude fiscal de que era alvo há algum tempo, na sequência da divulgação do dossier “Football Leaks”.

Para tanto, Ronaldo assumia a culpa pelos actos praticados, aceitava uma pena de prisão suspensa por dois anos e pagava ao fisco um valor na ordem dos 18,8 milhões de euros. Este acordo ainda não foi publicamente reconhecido pelo fisco espanhol, mas não anda muito longe do que já sucedeu a outros jogadores de futebol no país vizinho, pelo que é verosímil que venha a ser concretizado.

Não sei se o acordo teve muita ou pouca influência na excelente campanha de Ronaldo no Mundial, que marcou até ao momento todos os golos da selecção nacional e já bateu vários recordes, mas o que gostava aqui de relevar é que os portugueses olharam para aquele facto com um encolher de ombros e um sorriso nos lábios.

A reacção seria totalmente diferente se um acordo destes com o fisco português ou de qualquer outro país, ainda que por valores bem inferiores, envolvesse outra figura pública, fosse ele um empresário, um profissional liberal de topo, um artista, isto para já não falar de um político.

A comunicação social seguiria exaustivamente as práticas criminosas de fuga ao fisco e a turbamulta das redes sociais trataria de crucificar os envolvidos, quem sabe se chegando a reclamar a devolução de eventuais condecorações nacionais, como já aconteceu em casos anteriores.

Como se trata de Cristiano Ronaldo, um jogador que enche o país de contentamento com as suas conquistas e recordes, já pouco importa a crítica ao seu relacionamento com o fisco e às alegadas práticas abusivas de “eficiência fiscal”. Que os populares assim reajam ainda se pode entender, afinal o futebol é a alegria do povo e tudo se perdoa aos artistas da bola, mas que a comunicação social alinhe pela mesma bitola já me parece totalmente incompreensível.

Nos dias de hoje, contudo, vai faltando a coragem (e a liberdade?) para exercer a crítica aos ídolos, aos mais populares, àqueles que concentram as atenções e proporcionam audiências. Mesmo quando está em causa uma fraude de quase 15 milhões de euros.

 

Declaração de interesses: tenho os impostos em dia, sou amante do futebol e do FC Porto em particular, vibro com os golos de Ronaldo na selecção nacional e…ainda hoje não esqueço o grande golo que marcou no Dragão pelo Manchester United.

21
Jun18

Estes dias que passam 374

d'oliveira

Direitos humanos...

mcr 21 Jun 2018

 

Parece que a razão avançada pela administração Trump para abandonar a comissão de Direitos Humanos da ONU residiria na solidariedade com Israel. Ou seja, em vez de nesse fórum defender com clareza e denodo o Estado israelita, os americanos desistiram, reconheceram a derrota perante uma súcia de Estados párias que só querem fogar os judeus no Mediterrâneo...

Tudo isto no exacto momento em que o presidente americano aperta a mão do norte coreano inimigo (agora milagreiramente descrito como homem inteligente e de bom senso)! É obra!

Vejamos, então, com mais pormenor o imenso respeito da administração Trump pelos direitos humanos.

Deixemos de lado o discurso sobre o muro que Trump (à imagem dos soviéticos em Berlim) pretende construir na fronteira com o México. Por enquanto essa bizarra construção só existe na mente paradoxal (ia dizer paranoica) do Presidente que pretende obrigar o vizinho do Sul a pagá-la integralmente.

Deixemos, também, as descrições e, sobretudo, as reportagens televisivas da actual fronteira onde, à falta de muro, há milhares de polícias rurais, de voluntários (!!!) de sensores luminosos e de som e batidas diárias em profundidade para apanhar os desgraçados que conseguem passar a fronteira. Às vezes, penso que a tenebrosa caça à raposa em Inglaterra tem mais fair play do que esta perseguição, este acosso, esta volúpia dos energúmenos caçadores todos, sem excepção, descendentes de outros desgraçados emigrantes que, ao cabo de inumeráveis sacrifícios, aportaram ao Novo Mundo.

Fixemo-nos, tão só nas jaulas onde estão encerradas milhares de crianças de todas as idades, assustadas, sozinhas, longe de pais e mãe, sem saber falar a língua dos carcereiros. Como crescerão estes meninos e meninas? Que traumas os atormentarão vida fora? Que segurança terão nestas jaulas pouco, ou nada, diferentes daqueloutras no Iraque onde a soldadesca enfiava suspeitos que, depois, humilhava, maltratava, violava ou, simples mas misericordiosamente, assassinava?

Dir-me-ão que, agora, perante a onde fortíssima de protestos na América, a administração Trump promete rever o seu procedimento. Em boa verdade, até isso parece surpreendente: então as justificações entretanto avançadas, incluindo excertos descontextualizados da Bíblia, deixam de ser ditas? São renegadas? Foi tudo uma infeliz má interpretação do que realmente se diz? Serão, sabe-se lá, “fake news” ou, apenas, uma versão “alternativa” dos factos como aquela das fotografias das multidões que celebraram a tomada de posse de Trump e de Obama?

A mim, já com largos anos às costas, poucas coisas ainda conseguem surpreender-me. Nasci durante a grande guerra, soube do gulag, do “grande salto em frente, fui testemunha ocular do que era o muro de Berlin que, com dificuldade, passei muitas vezes perante o olhar desconfiado do “Vopos” que multiplicavam os processos de busca e detecção nos carros raros que demandavam Berlin Leste. Vi demasiadas coisas, vivi outras tantas (e entre elas a prisão neste jardim à beira mar plantado) e permaneci em permanente estado de indignaçãoo até esta se tornar tão rotineira e me impregnar de pessimismo em relação ao futuro. Perdi a fé, recuei na esperança e creio pouco na caridade mesmo se, à falta de melhor, de Estado, de solidariedade activa e constante, esta me pareça uma forma, quase a única de tentar combater a desigualdade e a infelicidade de outros.

Todavia, crianças em jaulas é uma imagem idêntica à do menino judeu de braços no ar e estrla de David na aba do casaquinho, do outro menino árabe, esse, morto pelos soldados israelitas (vítimas como se sabe da sanha persecutória da comissão de direitos humanos da ONU...), do pequenino refugiado afogado que jazia numa praia do Mediterrâneo oriental, das crianças rohingya, de meninos africanos uns mortos outros armados com armas maiores do que eles. E por aí fora...

Dirão que confundo planos, realidades, situações, que misturo alhos com bugalhos. É provável. Porém, seja que imagem for, isto é inaguentável, indigna-me, faz-me chorar e envergonha-me. Profundamente!

Começa hoje o Verão. Começa exactamente daqui a minutos quando acabar de publicar este post. Apetece citar Shakespeare: Now is winter of our discontent (Richard III.)

Na peça este inverno é transformado em verão glorioso graças ao filho (ou ao sol) de York. Não ha, todavia, nada de glorioso neste início de estação. Nada!

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20
Jun18

Não é só os direitos humanos que estão em causa

JSC

Numa altura em que os EUA não respeitam, minimamente, os direitos das crianças, eis que decidem sair da Comissão dos Direitos Humanos da ONU. A grande razão que apresentam é a dessintonia entre as decisões desta Comissão e as políticas dos Governos de Israel, que, como está à vista de todos, não atira e mata pessoas desarmadas, sobre crianças nem mantém ocupados territórios que não lhe pertencem nem amplia a sua ocupação territorial na Palestina, contra tudo e contra todos excepto os grandes defensores dos direitos humanos, os EUA, que, entretanto, deixam morrer dezenas ou centenas de jovens em Escolas, baleados por colegas…

 

A decisão de Trump de deixar a Comissão dos Direitos Humanos da ONU – e um dia destes a própria ONU – não nos deveria espantar, à luz do que tem sido a sua opção pelos aliados internos e externos. Desde aquele senhor Presidente que se gaba de ter matado, com as suas próprias mãos, centenas de pessoas, do que designa por marginais, até ao seu recente e louvado, por todos, encontro com o todo poderoso Presidente da Coreia do Norte, para não falar de alguns governos europeus que em matéria de refugiados e emigração estão colados a Trump e vice-versa. Nada a surpreender.

 

De Trump só se pode esperar o pior. E o pior ainda está para vir. O que surpreende é a atitude dos líderes Europeus, que estão a tratar estas matérias como se fossem coisas a contornar, a não olhar de frente. Ora, Trump e a sua política é hoje, seguramente, a maior ameaça à paz mundial e à Europa.

 

Neste quadro, o que seria esperar dos líderes Europeus? No mínimo, que ousassem falar mais alto, que reformulassem alianças de modo minimizar e combater as políticas agressivas de Trump – no plano social, económico e do que ele designa de defesa -  que apoiassem aqueles que nos EUA se opõem à política de cãos universal, a que Trump dá o rosto.

 

A saída dos EUA da Comissão dos Direitos Humanos da ONU é mais um sinal que a Europa deverá reter, um alerta para que a Europa faça o que deve fazer, retomar a sua autonomia e liderança política face aos EUA.

16
Jun18

O leitor (im)penitente 209

mcr

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Uma obra mítica

mcr 15.Jun.2018

 

Reedita-se, graças ao jornal “Público” o livro de Victor Palla e Costa Martins  “”Lisboa “cidade triste e alegre””. Trata-se de uma obra há muito desaparecida da circulação e que atingia preços elevadíssimos nos raríssimos leilões de alfarrabistas em que algum exemplar era licitado. Pessoalmente, nunca a tinha visto, mesmo se acompanhara uma que outra almoeda em que constava.

Trata-se de uma obra compósita recheada de excelentes fotografias (a preto e branco) comentadas por grandes autores contemporâneos da 1ª edição (Alexandre O Neil, Armindo Rodrigues, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira precedida por um belíssimo texto de Rodrigues Miguéis) e é mais uma mostra do invulgar talento de Victor Palla e de Costa Martins.

Sairá em fascículos  semanais (sábado) até fins de Julho e apresenta-se como um fac-simile da 1ª (e única até hoje) edição. Celebremos a ideia, a oportunidade, a possibilidade de muita gente se poder deliciar mas levante-se desde já uma objecção pouco meiga:

A “maioria dos herdeiros” (sic) exigiu contratualmente uma redução de 15% lineares nas dimensões da edição original, conforme consta do que, eventualmente será a última folha da obra.

Portanto, quanto a fac-simile, estamos conversados. Mas, independentemente disso, esta exigência da referida e famigerada “maioria dos herdeiros” (que em nada contribuíram para a edição orginal e se limitam a perceber os direitos desta), fere gravemente a edição. Alguém acredita que Victor Palla (logo ele!) e provavelmente Costa Martins não tiveram o cuidado de fixar com rigor as dimensões daquele livro-objecto?

Terá a esforçada “maioria dos herdeiros” sequer uma vaga consciência do que significa esta amputação da obra dos dois autores?

Será que essas mal inspiradas criaturas temeram que esta edição pudesse concorrer com a desaparecida e valiosa anterior que, de resta está toda na mão de colecionadores e leitores?

Ou presumirão estes surpreendentes herdeiros (“maioria”) que com esta alteração melhoraram a obra dos autores?

Deixemos este pequeno atentado na consciência (se a têm) da tal “maioria” de herdeiros. De certo modo, esta posição ridícula, estúpida e presunçosa, demonstra claramente que o talento, a criatividade e a inteligência não se herdam.

E compremos, mesmo assim, este belo livro. Será, de todo o modo, uma homenagem aos seus autores que não são culpados de terem os herdeiros que lhes caíram na rifa.