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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

26
Out17

Au bonheur des dames 433

mcr

A remoção da moção

 

Por mais que uma pessoa não queira espantar-se, as circunstâncias não a deixam em paz. Desta vez, temos a moção de censura do CDS.

Ora atente-se: esta moção como duas dúzias de outras anteriores no actual regime, estava condenada ao fracasso. Politicamente, este fenómeno não passava de um anunciado nado-morto.

Não havendo maioria para a votar, a moção ia morrer de morte macaca. O CDS sabia disso perfeitamente e, supõe-se que a geringonça não o ignorava.

Isto dito, pergunta-se: então, supondo que a professora doutora Cristas não é tonta (e pelo que se sabe e vê, não o é) que efeito pretendia o CDS?

A princípio, tinha um conjunto de propostas sobre o modo de combater os fogos, a situação decorrente dos mesmos e o reordenamento de todo o interior. É facto que boa parte das propostas do CDS estavam, ou iriam estar, abrangidas pelas medidas propostas pela Comissão Independente. Sobravam algumas que ou não foram ainda acolhidas ou poderão ser desnecessárias para já. De todo o modo, na altura do anúncio da moção ainda não se sabia com segurança que medidas exactas iria o Governo tomar num Conselho de Ministros extraordinário. Claro que o bom senso parecia apontar no sentido de serem acolhidas todas as propostas da CI mas uma coisa é o bom senso e outra a política quotidiana.

Uma vez anunciada a moção, começou a berrata. Que aquilo era uma vileza, uma canalhice, que o país estava de luto, que havia aproveitamento político...

Lembremos que quando se apresenta uma moção de censura é porque, para além da sua eventual justeza, alguém quer tirar dividendos políticos. Por isso mesmo, houve já um quarteirão de moções perdidas. A maior parte delas, aliás, vinha da Esquerda que, agora, se disfarçava de virgem pura e incapaz de querer dividendos políticos de uma acção normal em qualquer Parlamento democrático.

Se quisermos verificar a cronologia, decerto notaremos que entre a decisão de um Conselho de Ministros (ao sábado) e a discussão da moção (uma terça imediatamente a seguir) pouco espaço resta para eventualmente modificar a agenda da Assembleia.

Mas há mais: o CDS nunca terá sequer sonhado com uma vitória. Aquela gente terá defeitos mas ainda deve conhecer a aritmética.

Resta, pois, tentar perceber o que é que o partido “centrista” (convenhamos conservador com uns laivos de Democracia Cristã) queria. Será que apenas (e já não é nada pouco) queriam mostrar ao país alarmado e em estado de choque, quem estava com um Governo que, não há volta a dar-lhe, falhou clamorosamente (uma Ministra incompetente, uma Direcção da Protecção Civil sem preparação, sem qualidade, nomeada as mais das vezes com base em critérios políticos, uma tibieza generalizada por parte dos poderes públicos, um Primeiro Ministro incapaz de mostrar uma réstea de comoção) e mortes, muitas mortes. ).

O CDS pretendeu, e conseguiu, mostrar aos portugueses, ou a alguns portugueses que BE e PCP, falam muito, exigem muito mas que, quando a coisa é a sério, não tiram da sua vozearia as consequências que poderiam parecer impor-se. Que o PS, claramente fragilizado, como aliás afirmou um dos novos ministros, só se aguentava graças à muleta da geringonça.

Poder-se-á retorquir que isso é coisa por demais sabida. Desde o dia em que um Costa, derrotado nas urnas, ressuscita da tumba eleitoral, para formar um governo que não tem paralelo na UE e que só durará enquanto este instável equilíbrio se mantiver. Até há meses, futurava-se que Costa, mal se apanhasse com as costas quentes e a popularidade em alta, tentaria novas eleições e a maioria absoluta. E, por isso mesmo, durante, longo tempo, PC e BE nem se mexiam. Não havia greves, manifestações, protestos públicos, mas tão só umas mansas admoestações, uma espécie de pedidos a medo, ora deem lá qualquer coisinha para isto e para aquilo.

Com os fogos, esta idílica paz estoirou. Primeiro, porque o que se passou foi medonho. Depois, porque os muletas do PS fugiam a sete pés de qualquer responsabilidade na actual situação, finalmente porque o próprio PS ficou atordoado e incapaz de se mobilizar a tempo e horas. Tudo isto, notem, depois de uma eleições autárquicas que confortaram o PS, nada deram ao BE e mostraram um cartão vermelho vivo ao PC que perdeu de uma assentada dez municípios. Entretanto, o PPD afundava-se e o CDS registava um score a todos os títulos notável. Claro que as perdas do PSD são eventualmente reversíveis e a vitória do CDS é, tão só a vitória de um pequeno partido. Não faz mossa a ninguém. É bom para o ego de Cristas mas ainda não foi desta que se fez História com H grande.

A discussão da moção foi um espectáculo pungente. Primeiro, a moção estava esvaziada pela assumpção das medidas propostas pela Comissão Independente. Depois, porque já tudo fora dito antes, quer pelos adversários, sobretudo, mas também pelos defensores da moção. Finalmente, porque daquele delirante gargarejo de tenores áfonos pouco ou nada saiu de novo.

É bom lembrar que, entre nós, apenas uma moção de censura teve um imerecido êxito. Aquela suscitada por um partido nascido do nada e a ele, feliz e rapidamente, regressado, contra um governo minoritário de Cavaco Silva. Com uma confrangedora miopia política, o PS apoiou o PRD (um ajuntamento sebastianista, eanista e populista) e, apesar dos avisos de Mário Soares (na altura Presidente da República), Cavaco tombou para depois se levantar com duas esmagadoras maiorias absolutas.

Só que, enquanto o PS pouco tinha a perder e o PRD corria o risco de quase desaparecer, Cavaco tinha tudo a ganhar. E o PC, por seu lado, olhava para aquilo e sentia que, fosse qual fosse o resultado, alguma migalha lhe cairia no regaço.

Desta vez, Cristas nada tinha a perder. Queria, e conseguiu, colar o PS ao BE e ao PC (não vale a pena falar nos inexistentes verdes e no PAN. Uns, porque são um pseudónimo pouco original do PC e outros porque nunca conseguiram explicar ao que vinham, como, porquê e para quê. Além do mais são um puro produto urbano, uma espécie de escoteiros laicos e pouco imaginativos. Eventualmente, devem o seu solitário deputado ao voto de protesto mas nem isso merecem.

Não vou referir o PSD. Cumpriram a sua parte mas estão metidos numa eleição interna que, até à data apresenta dois candidatos piores um que o outro, envelhecidos e sem imaginação. De todo o modo, quem ganhar vai ter de atravessar o deserto da oposição e pode mesmo acontecer que, se as coisas melhorarem, apareçam outros candidatos mais credíveis, mais novos e menos cansados.

Em último lugar: a derrota da moção fortalece ou fragiliza o Governo. Costa tentou dizer que a derrota da moção fortalecia o Governo. Não é verdade a menos que o seu resultado fosse imprevisível. Não o era. Sabia-se, sem dúvida alguma, que a hipótese da moção vencer era inimaginável. E tê-lo-á fragilizado? Também não parece garantido. O Governo vive do apoio do BE e do PC mas isso já não é um mistério para ninguém. De todo o modo, PC e BE tiveram algum trabalho par explicar o seu apoio. Foi por isso, e só por isso, que repartiram a resposta em dois planos. Criticaram, sem especial convicção, o PS e atiraram-se que nem gatos a bofe ao CDS. Mas se a primeira acção não resultou convincente, a segunda por estridência demasiada também não teve especial êxito.

E se bem repararem ninguém discutiu efectivamente a essência da moção. Uns tentaram fazer um processo de intenções e o acusado tentou defender-se. Nada mais.  

24
Out17

Estes dias que passam 344

mcr

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jurista não praticante

 

Formei-me em Direito na Universidade de Coimbra no fim dos anos 60. Frequentei, até ser preso, o então chamado 6º ano, ou seja o Curso de Ciências Jurídicas, privilégio apenas acessível a quem tivesse uma média de 14 valores. A coisa seria, na época, uma antecipação do actual Mestrado, talvez um pouco mais, não sei dizê-lo ao certo. Nos anos que se seguiram, já advogado (a função pública estava-me vedada por razões políticas) frequentei e concluí o “Cours Superieur de Droit Comparé”, bem como duas outras variantes do mesmo dedicadas respectivamente ao Direito de Trabalho Comparado e ao Direito das Instituições Europeias. Depois da severa brutalidade das aulas conimbricenses era fácil obter notas bastante agradáveis nesses cursos e, por isso, obter bolsas de estudo que permitiam frequentar as universidades europeias onde esses estudos tinham lugar.

Entretanto, veio o 25 de Abril e alguns amáveis cavalheiros da “oposicrática” entenderam que eu poderia utilmente salvar a pátria dos egrégios avós, servindo a causa pública, primeiro na Segurança Social e depois na Cultura. Acabou-se o exercício do Direito e a eventual abastança que, na altura, ele prometia.

Confesso que a desistência da perseguição da riqueza não me causou especial engulho. A função pública, mesmo se levada a sério e rigorosamente, permite ao funcionário consciencioso fazer o que tem a fazer bem e dentro, muito dentro do horário convencionado. Ficavam-me, pois, livres os fins de tarde, as noites e os fins de semana. E as férias todas, tudo coisas impossíveis para um advogado que não tenha padrinhos. aproveitei conscienciosamente esse tempo imenso para ler, ver exposições, viajar, ir a festivais de cinema, de teatro e de jazz bem como a jogar bridge uma paixão que herdei de meu pai.

O mundo solene do Direito foi-se afastando de mim e eu dele sem remorso, saudade ou desgosto. Apenas um par de velhos amigos e colegas me ia dando notícia dos tribunais. E assim sobrevivi sem grande abalo até hoje.

Todavia, hoje, este meu adormecido mundo antigo, digno e austero, devotado à causa das pessoas e dos seus direitos começou a cambalear.

De facto a notícia de uma sentença que, além de insensível e insensata, cheira a beatério jihadista e a preconceito rançoso e canalha, sobressalta mesmo quem, desde há muito, anda longe dos subterrâneos da Justiça.

Ora vejamos: uma mulher casada teve uma relação adúltera com outro caalheiro. Resolveu, porém, terminar tal relação. Inconformado o amante preterido doravante chamado “corneador” solicitou ao marido “ultrajado” (doravante referido como “cornudo”, “chifrudo” ou “pirilau mole”) ajuda para a difícil tarefa de pôr a relapsa na renovada via do adultério.

Este, sempre prestável (resta saber se não terá ele mesmo empurrado a amantíssima esposa para os braços do galã repudiado) muniu-se de uma moca convenientemente reforçada por pregos e, juntamente com o outro (ou, pelo menos, às suas ordens), espancou fortemente a grevista aos actos de cama.

A criatura espancada pediu justiça, o que não é para menos. Afinal, como parece verificar-se, recusara as solicitações amorosas do seu antigo amante pelo que, força-la a reactivá-las sob ameaça de agressão a dois e com moca configura, para o senso comum, uma tentativa de violação.

O cornudo que, pelos vistos, usa uma moca com pregos para substituir um pénis inerme e inerte ajudou claramente o corneador na sua tarefa de obrigar uma mulher a deitar-se com ele. Provavelmente, o “pirilau mole” teria direito a deleitar-se com o espectáculo da legítima sob o resfolegar acintoso do corneador.

O caso foi julgado e da decisão de primeira instância (eventual condenação do(s) agressor(es) houve recurso para a Relação.

Ora. é aqui que entra em cena um Senhor Desembargador (e uma Senhora Desembargadora, já agora) que numa sentença de que entre espantado, envergonhado e enojado li na íntegra.

Já os jornais, várias associações e, mesmo que de forma pouco clara, para não dizer absolutamente obscura, o Conselho Superior de Magistratura, tiveram oportunidade de questionar as extraordinárias e aviltantes considerações do juiz desembargador sobre a medonha situação das mulheres adúlteras.

Até a Bíblia é chamada à colação! E mal chamada, ou viciosamente chamada, porquanto o meritíssimo Desembargador e a não menos excelentíssima Desembargadora, não recordam -ou ocultam a resposta de Cristo quando observa que à mulher adúltera só podem atirar pedras os ue não pecaram anteriormente.

Portanto, os dois desembargadores deveriam reflectir (e bastante) antes de citar o que não conhecem, ou conhecem mal, muito mal.

Seguidamente, e aqui que o meu ponto assume alguma relevância, é que foram dois homens conluiados e armados que exerceram uma indescritível violência contra uma mulher (normalmente mais fraca, mais frágil e com menos capacidade para se defender) . Um deles, o amante preterido chamou como ficou provado o marido de quem a mulher estava separada havia meses- Depois, não colhe o miserável argumento da indignação do marido quando também ficou provado que havia meses que sabia da “infidelidade” da mulher que dele se separara chegando ao ponto de a acusar de puta e de não se deixar sodomizar por ele quando, no dizer do triste cornúpeto o fazia com “todos os homens” (sic).

A simples ideia de que uma relação conhecida há meses, seguida de separação, é capaz de suscitar uma depressão é uma barbaridade para não dizer algo mais forte e provavelmente mais verdadeiro acerca do bom senso e inteligência de quem aceita esta esfarrapada desculpa.

A cobardia manifesta ainda não é alvo de censura jurídica. Mas os actos violentos que ela genera já o são. O adultério pode ter sido considerado uma coisa horrenda durante séculos. Ainda é punido com a lapidação em países bárbaros como alguns do Médio Oriente. No Ocidente, o adultério, há muito, praticamente sempre, foi desculpado ao homem. No que toca à mulher a coisa fiou mais fino mas, mesmo assim, no século XIX era mais um argumento de grandes romances (Madame Bovary ou Ana Karenina, ou mesmo “O amante de Lady Chaterley)) do que um crime tão grave como a insuportável adjectivação utilizada pelo distinto magistrado.

Entre nós, há muito que a coisa perdeu boa parte do significado que alguma vez teve.

“ O tempora, o mores”: que de crimes se cometem em nome da modernidade. Felizmente alguém vela. Pelo menos, um homem e uma mulher no Relação do Porto. Com ele as desavergonhadas, as desonestas, as traidoras do lar estão sob cuidada e piedosa suspeita. Pena já não haver o depósito da mulher (extinto em 1967) e, pelos vistos não citado pelos abnegados servidores da justiça que, porém, não se coíbem de citar um Código Penal há muito revogado.

Já não bastavam os fogos, o BES, a corrupção de vários uitos próceres da Pátria Imortal e eis que agora, insidiosamente, uma sentença dada em pleno século XXI nos faça regredir enquanto, nação, país, povo para as brumas da memória.

E mesmo aí, há que reflectir: um bastardo de D Pedro I , o Cru, João de seu nome, apunhalou a sua mulher (D Maria Teles, irmã da Rainha) sob o falso pretexto de que ela o traía. De facto, pretendia casar com a sobrinha Beatriz, herdeira do trono. Teve de se homiziar para escapar ao castigo, acabou como renegado ao serviço de Castela, invadiu Portugal sem glória nem proveito e acabou prisioneiro do rei castelhano, morrendo na prisão e na infâmia.

Ou seja, nem sempre o castigo da adúltera foi passado sob silêncio ou compreensão. E à medida que os costumes se humanizavam, mais e mais, diminuiu a condenação da sociedade, equiparando cada vez mais o adultério feminino ao masculino.

Conviria dar conhecimento disto aos senhores desembargadoras, ora em causa. Mesmo se não se esperem grandes resultados. A intolerância entranha-se e é coo uma nódoa de azeite: expande-se e não desaparece sequer com lavagens sucessivas.

*os leitores verificarão que não se nomeiam as personagens desta novela de faca e alguidar. É por mero decoro, por imerecida piedade e por sentido de vergonha.

 

**na gravura lapidação de adúltera (pilhado na internet)  

 

 

23
Out17

Au bonheur des dames 432

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Ay flores do verde pino

(mcr 23.Out. 2017)

 

Saberão as leitoras (e os leitores, espero) que andam por aí (ou pelo menos em países mais civilizados e mais amigos da floresta) um par de livros que asseguram que a floresta, enquanto tal, age como um ser vivo ou seja as plantas (no caso as árvores) tem estratégias de desenvolvimento, de crescimento e de defesa comuns. Há, pelos vistos, uma actuação solidária perante as ameaças sejam elas um fungo, malévolo ou até a acção de animais. Fiquei fascinado com esta tese e encomendei já o livro mais recente sobre o tema que mereceu, de resto, artigos nas mais sérias revistas científicas do mundo.

A ser verdade, e tudo o indica, à floresta portuguesa calhou o mais temível ataque possível. O fogo. Não que as florestas (e em particular a floresta mediterrânica) não ardam. Ardem e há mesmo nesse fogo “normal” aspectos positivos. Existem mesmo árvores que necessitam do fogo para libertar as sementes.

Todavia, em Portugal, sempre em Portugal, a floresta é vítima de fogo a mais, de Governo a menos, de descuido, de descaso, de ignorância.

Desta feita, foi com o seu dramático cortejo de vítimas humanas e de milhares de animais domésticos ( gado, aves de capoeira, cães e gatos...) mais uma forte porção do pinhal interior que desapareceu. E, com ele desapareceram, casas, campos lavrados, apetrechos agrícolas, cabos eléctricos, condutas de água, fábricas e toda a sorte de veículos de trabalho, de transporte ou de recreio.

No meio dessa medonha devastação, perdeu-se oitenta por cento do Pinhal do Rei. Do pinhal dito de Leiria que em boa verdade chega até à minha terra (Figueira) e continua para lá do Cabo Mondego até Mira.

O pinhal do Rei tinha setecentos anos! Setecentos anos! Quase a idade deste desgraçado país, longe de Deus e perto, demasiado perto, de homens sem fé nem lei, de um Governo (aliás, de vários governos sucessivos) para quem o país é um longa praia de Setúbal até Viana, da rebentação até trinta, quarenta, vá lá cinquenta quilómetros para dentro. Um país onde cabem Braga, Guimarães, Aveiro, Coimbra, Leiria, eventualmente Santarém e, mais longe uma faixa costeira do Algarve onde o verde da vegetação se deve apenas aos campos de golf criados para os estrangeiros que eventualmente apreciam mais o nosso país do que os instalados no Terreiro do Paço. No próprio e nos que sobram em mais meia dúzia de cidades que do campo só sabem que é very tipical e que é de lá que vem o vinho, o presunto, as alheiras e o queijo da Serra. E as azeitonas, se para o ano houver que cheguem depois de milhares de oliveiras (que dura(va)m centenas de anos) terem ficado carbonizadas.

O pinhal de Leiria, as “matas nacionais”, o pinhal do Rei (e era assim que todos quantos nos importamos com a nossa herança, a nossa história, a nossa diferença, a nossa cultura) o chamavam, ardeu. Corre o risco de desaparecer. Era um monumento nacional vivo, “resiliente” como algum imbecil governamental diz, era tão nosso quanto a Batalha, os Jerónimos ou o castelo de Montemor. Respirava, era um imenso pulmão, uma defesa contra as areias, dava pinhas e acolhia centenas de animais. E dava, deu sempre, madeira para construção civil, soalhos, móveis, barcos sei lá que mais.

Este pinhal tinha menos guardas do que o museu dos coches (cuja nova sede custou milhões que faltarem dramaticamente nas terras abandonadas da “selva” interior). E dois solitários técnicos.

Não é por acaso que boa parte da mancha ardida elege um pequeníssimo número de deputados. O interior forneceu criadas, operários, emigrantes para a cidade, para os Brasis, para a Europa e para o mundo. Nada de importante, só gente que, com as pobres e honradas mãos, ainda tentava dar vida a um extenso território, a mais de 70% do território nacional. Só gente que combateu as chamas com ramos de árvore, com baldes de água, com mangueiras antigas e pouco eficazes. E, todavia, sabe-se de muitos casos de homens e mulheres que salvaram outros, muitos, homens e mulheres. E animais. Há a história de um morto a tentar salvar os cães. A outro, sucedeu-lhe o mesmo quando tentava libertar um par e vacas que nem dele eram. Mas pelos vistos, ou segundo aquela execrável criatura que passava por governante, não eram “resilientes”. Ou segundo uma outra, ainda mais cavilosa, só sabiam pedir ajuda, aviões e bombeiros. Note-se que toda esta gente paga impostos. Os mais idosos andaram numa guerra em terras desconhecidas para defender interesses duma burguesia nacional, o ventre que pariu boa parte das cliques dirigentes.

Vejo-os na televisão com o Presidente da República. Há lágrimas, como não? As lágrimas são próprias do homem. Ou de alguns, quase todos, mas não de um Primeiro Ministro a quem não se pedia choro mas tão só algum consolo, alguma piedade, uma palavra, uma simples palavra. que surgiu tarde, depois do discurso, do grande discurso, e eu não fui, não sou e não me parece que alguma vez seja, um fã de Marcelo Rebelo de Sousa. Critiquei-o aqui, várias vezes, antes e depois de ser Presidente, mas, neste momento tremendo, confesso a minha admiração pelo seu discurso e mais ainda, muito mais, pela sua incansável peregrinação pelas terras devastadas. Aqueles portugueses tiveram, provavelmente, pela primeira vez, uma imagem decente do Estado. Desta feita, ninguém lhes vem cobrar impostos, taxas, dar ordens, transmitir proibições, olhá-los como bichos. É caso para dizer: ainda bem que nenhum governante lá apareceu. Ao ver-lhes as caras de pau, a verborreia tecnocrática, política (baixa política), a confissão de impotência sobe-me uma raiva que só é compensada pela imensa dignidade das vítimas que nem na desgraça foram poupadas à absoluta imbecilidade das declarações que todos conhecemos.

E o pinhal do Rei... um pinhal que estava à responsabilidade do Estado! Onde, nos tempos do antigamente, havia mais de duzentos guardas florestais e trabalhadores diversos, sobravam dez e dois técnicos. Será o Estado “resiliente”?

Os investimentos que faziam falta há anos, ou mais prosaicamente há quatro meses, aparecem agora de supetão!

E o pinhal? Duvido que em minha vida, no que me resta viver, o volte a ver, vivo e sano (como o amigo no poema que dá título a este folhetim) A vê-lo como o via, quando todos os meses, à passagem pela A17 e A8 na minha ida mensal a Lisboa para visitar a minha Mãe. Apesar de tudo, a esperança (e eu sou um optimista) é teimosa. Há uns anos vi arder o parque da Serra da Boa Viajem, na Figueira. Um parque onde brinquei, namorei, vivi. Está de novo em pé, vivo, verde, pujante. E era também uma floresta do Rei (no caso, porque quem incansavelmente o criou, quase do nada, se chamava Rei).

Só por isso, sonho com voltar a ver o pinhal de Leiria, restituído à sua verde grandeza e ao nome que, durante séculos, os povos lhe davam. Tanto mais que aquilo de “matas nacionais” afinal nada significava. O Estado, neste caso, portou-se como o pior dos proprietários.

.......

Era por aqui que eu terminaria o meu texto. Porém, ao ouvir o dr Miguel Sousa Tavares e umas criaturinhas do BE, numa fúria apocalíptica e anti-eucaliptica, deu-me para perguntar a estas robustas mentes citadinas: o que é que um camponês do interior, dono de pequenas parcelas de floresta, pelas quais paga imposto, há-de ter para poder assegurar um pequeno, pequeníssimo rendimento? Pinheiros que demoram a crescer o dobro do tempo? Carvalhos ou castanheiros que demoram seis a oito vezes mais? De que vive nessas décadas de intervalo? A senhora Martins quererá propor a funcionalização dos habitantes do interior? Dar-lhes umas fardas verde-azeitona e pô-los todos na carreira administrativa da restante funçanata pública, que de resto logo em começo de carreira ganha o dobro de um agricultor do interior?

Será que o dr Tavares que, dizem-me, é proprietário de um monte alentejano, já por lá plantou alguma árvore que eventualmente nunca verá adulta? Ao menos um par de oliveiras, meia dúzia de sobreiros ou, vá lá uma azinheira das que acabam por não saber a idade?

Quanto à senhora Martins não peço tanto. Não me atrevo a perguntar-lhe nada sobre botânica. Apenas me temo que sobre isso não vá mais longe do que vai na política.

 

* as duas ilustrações são um antes e um depois do pinhal do Rei As imagens tem tamanhos diferentes porque eu sou um desastrado que não sabe fazer melhor. Mas acho que se percebe bem o que me vai na alma e,sobretudo, o que vai por lá. 

18
Out17

diário político 224

mcr

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A moção e os seus adversários

(d'Oliveira fecit 18.10.17)

 

Na directa sequência dos incêndios do fim de semana, o CDS entendeu propor uma moção de censura ao Governo.

Como disse o Sr. Primeiro Ministro, trata-se de algo normal e constitucional. Não podia dizer outra coisa. como é evidente. Todavia, o Sr. Carlos César, que exerce –parece – de presidente do PS veio a terreiro com a sua notória inabilidade oratória e política (e, pelos vistos, um escasso conhecimento da Constituição e das normais práticas políticas) afirmar que esta moção é, meço as minhas palavras, um “despropósito” e não passa de uma mesquinha tentativa de fazer baixa política.

No mesmo surpreendente sentido, o senhor comentador Rui Tavares (última página do “Público” hoje, 18 de Outubro) fala de “inqualificável sentido da moção” por lhe parecer a ele Tavares, e provavelmente a uns poucos mais, que a moção só tem o fito de derrubar a Ministra. Tavares, se fosse menos ingénuo, mais cauteloso, mais sabedor dos meandros da política, poderia ter aguardado um dia. Verificaria, assim, que a Ministra “já era”. que o Presidente da República anunciara a mesma coisa, ou seja a demissão dela (voluntária ou forçada. Claro que foi forçada, forçadíssima, à ultima da hora quando já só tinha a cabecinha pensadora fora de água).

Tavares não percebeu (ou percebeu mas esconde a mão) que a moção do CDS só por mero acaso, oportuno acaso, visava a Ministra. Sei que isso, provavelmente, é muita areia para a camionete de Tavares, fundador de um ajuntamento chamado “Livre” sem expressão eleitoral sequer nas cidades e muito menos no país.

Tavares, dissidente notório do BE (mesmo se apenas fosse deputado europeu independente nas listas deste) tem andado por aí a pregar a unidade das esquerdas. Obviamente, não foi por ele que essa (entre nós insólita) unidade se afirmou. De facto, quem quiser lembrar-se sabe que a coisa começou quando, depois de Costa ter lacrimejado pela sua derrota, Jerónimo, num passe de mestre acenou-lhe com o poder apoiando-o quando dois dias antes o atacava com tudo o que podia.

Costa aceitou, Passos Coelho amuou, o BE alinhou e eis que estamos em plena “geringonça” como Portas, rapidamente retirado para outras mais proveitosas batalhas, baptizou.

Não vou agora fazer o processo desta unidade para a qual Tavares não foi convidado (e porque é que o seria?) mesmo se ele tente, a todo o custo, apanhar o comboio.

Tavares ainda não percebeu (ou se percebeu finge que não) que o CDS apenas quer mostrar à evidência que o PS está refém da votação do PC e do BE. Se, porventura, se abstivessem ou a votassem, o PS caía. Redondo! Catrapus!

Há dias, isto não prejudicaria o PS. As sondagens, pouco fiáveis, como. por experiência sabemos, davam-lhe uma claríssima vitória senão a maioria absoluta. E por mais que Costa jurasse que nem assim abandonaria as suas duas (entretanto inúteis) muletas, é evidente que ficaria com total liberdade para governar como habitualmente o PS governa e que sempre suscitou ásperas críticas do PC (e do BE, mesmo se com estas possa o PS muito bem).

Todavia, tudo mudou nestes tempos de luto e de cólera. À uma Costa não percebeu que o país espera um sentido, choroso, pedido de desculpas. E que não tendo sido feito, as coisas, bem exploradas, mudam muitas vontades. Depois, a derrota do PC, as dez Câmaras “roubadas” indignam e mobilizam (ainda mais) o PC e os sectores a quem a política vagamente conciliatória de Jerónimo irrita ou enfurece.

O país descobriu que nada ou pouco se fez contra as catástrofes. que a insensibilidade de uma Ministra, de um Secretário de Estado não tiveram, por parte de Costa, qualquer censura. que este, numa crucial conferencia de imprensa, chutou para canto todas as perguntas incómodas e não se preocupou em parecer triste ou responsável. Ele que anda nestes governos desde sempre, que já esteve na Administração Interna (sob a agora negregada batuta de José Sócrates) está, neste momento, numa posição incómoda sobretudo porque Marcello Rebelo de sousa lhe retirou o guarda chuva de cima.

Nada disto prenuncia uma vitória do centro-direita tanto mais que o PPD entrou em convulsão. Mas, como dizem os nossos vizinhos mesmo sem se acreditar em bruxas “que las hay, las hay!” Ou seja uma moção de censura incomoda e muito. Mesmo perdedora, como tudo indica. Ficará evidente, para muitos, senão para todos os que abandonaram o voto PPD pelo PS (ou até, e isso não foi tão bizarro como alguém pensou) pelo BE.

Poderão estar agravados com os anos duros. Poderão estar agradados com este orçamento bodo à esquerda mas cujos efeitos poderão ser contestados se subirem o preço do petróleo ou dos juros da dívida, se mudar a política do Banco Europeu, se a situação espanhola se reflectir nas nossas exportações para lá, se o novo ministro das finanças alemão vier, como tudo indica, do partido liberal (já aqui afirmei que iríamos ter saudades de Schauble), etc., etc.

Todavia, e os resultados das autárquicas, valendo o que valem, mostram que nem o PC nem o BE (um mais severamente derrotado que o outro, também perdedor) ganharam com a geringonça. Se o PS der sinais de erosão depois da tragédia do fim de semana e da leitura diferida dos relatórios sobre os fogos, para já não falar do ultimato do Presidente da República, então o CDS, mesmo perdendo a moção marca pontos e não poucos junto da opinião pública. E o PPD pelo menos não perde nada.

Esta é a razão do mau humor de César. O homem não será um luminar mas também já aprendeu qualquer coisa. Tavares pode não ser um estrela política (não o é de todo em todo) mas como rapazinho aplicado também não lhe escapou este efeito da moção “inqualificável”.

A política, como tudo o resto debaixo da roda do sol, tem sempre dois tempos. No caso em apreço, não é esta, para o PS, a boa altura de estar a desvendar qual deles prevalece.

Conceição Cristas tem tudo a favor dela. Arriscou, ganhou e o partido do táxi já se sente o partido dos comboios especiais. E age como tal. E, em política, por vezes, o que parece é. Goste-se ou não.

Isto ainda vai ser divertido.

18
Out17

Estes dias que passam 343

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Já devia ter ido há muito, desde sempre!

(mcr 18.Out.2017) 

A Sr.ª Ministra Da Administração Interna pediu finalmente a demissão. Na carta que os meios de comunicação reproduzem afirma que esta demissão fora pedida logo a seguir a Pedrogão. E que só não fora publicitada porquanto o Sr. Primeiro Ministro lhe pediu para permanecer.

Todavia, agora, depois do que aconteceu, depois dos acabrunhantes relatórios sobre os fogos onde pereceram mais de sessenta pessoas (que o Estado não protegeu e que, até à data não obtiveram deste qualquer pedido de desculpas...) , eis que a sr.ª Ministra renova terminantemente o seu pedido não deixando margem a qualquer outra solução.

Por acaso, só por um inefável acaso, morreram mais quarenta portugueses, dos mais pobres, dos mais desprotegidos, dos com menos possibilidades de se defenderem quer pela idade, quer pelo isolamento, quer pela violência da catástrofe. Por acaso, começaram a surgir por todo o lado críticas violentas à Sr.ª Ministra, manifestações, artigos condenatórios na Imprensa e um discurso do Sr. Presidente da República onde a Sr.ª Ministra é claramente um dos alvos.

Não por acaso, mas por canhestra insensibilidade, a mesma Sr.ª Ministra veio para as televisões dizer que para ela “o mais fácil seria pedir a demissão (coisa que nesse momento se recusava a fazer) e que nem férias tinha gozado. No meio destas deploráveis palavras, entendia ainda a Sr:ª Ministra que no repartir de culpas (não dela, claro) havia algumas a apontar às comunidades vítimas, eventualmente aos mortos e feridos, a necessidade de se tornarem mais resilientes às catástrofes. Que esta absurda demonstração de falta de sensatez e de absoluta falta de piedade, de desgosto, não foi obra do acaso prova-o o facto de um seu Secretário de Estado ter abundado no mesmo sentido clamando que tem de ser os povos perdidos nas serranias quem se deve defender sem esperar aviões ou bombeiros.

Isto, esta sintonia miserável e insultuosa entre dois altos responsáveis governamentais não pode ser mera coincidência. Há aqui uma sintonia planificada de declarações que, cumpre dizê-lo, foram passadas em silêncio (concordante?) pelo Sr. Primeiro Ministro.

Foi preciso que o Sr. Presidente da República viesse a terreiro, foi preciso uma ameaça de “moção de censura”, seguida de uma manifestação e precedida de um coro de críticas e de anúncios de mais manifestações, para que, subitamente, a Sr.ª Ministra se tentasse retratar com a carta de demissão e com a “narrativa” de uma outra e anterior atitude idêntica.

Mais uma vez, não se descortina uma palavra de conforto às vítimas (mal de que também enferma o Sr. Primeiro Ministro que, eventualmente, pensará que isso incumbe aos milhares de cidadãos que se solidarizaram enviando contributos pessoais, e ao Presidente da República que (honra Lhe seja) tem constantemente acorrido aos locais das desgraças com uma palavra, as invitáveis selfies e os beijinhos. Mesmo criticando, muitas vezes, a “pro-actividade” (raio de palavra!) presidencial, sou obrigado – e não me custa nada! – a reconhecer que foi o Doutor Rebelo de Sousa quem encarnou os deveres próprios e os do Governo. O que lhe dá o direito (e nunca as mãos lhe doam) de fazer o discurso que fez.

Eu não conheço a Sr.ª Dr.ª Urbano de Sousa. Nem tenho qualquer vontade pois o que dela adivinho é apenas uma absoluta falta de comiseração por quem sofre, por quem está em baixo, pelos cidadãos deste pobre país, por todos quantos a criticámos desde Pedrogão. E a este pecado primário e definitivo junta-se o da falta de ética republicana, queira isto dizer o que quiser. Esta senhora não deve, não pode fazer política. Não se pode depender dela para nada.

Vai fazer as merecidas férias a que tem direito. Que durem anos, décadas! E que leve com ela aquele Secretário de Estado tão repelentemente “pro-activo”. Num país que no dizer do “Jornal de Leiria” perdeu, com o incêndio do pinhal de Leiria, setecentos anos de história, podemos sem qualquer problema perder de vista duas criaturas incompetentes e arrogantes.

17
Out17

Diário político 223

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quantos mortos mais serão precisos?

(d'Oliveira fecit  17.10.2017)

 

A sr.ª Ministra da Administração Interna não teve férias. Ao contrário de cem mortos deste Verão que as vão ter e eternas. E quentinhas. A sr.ª Ministra faz jus ao nome: é constante na sua imparável teimosia, no autismo que parece habitá-la, na absoluta miopia política, ética (para já não falar da profissional) e pessoal.

Pior, bem pior, é a sua vertiginosa corrida par o abismo da tolice. Bastou ouvi-la um par de segundos ao afirmar que as comunidades tem de se tornar mais resilientes às catástrofes.

As comunidades de que ela fala são constituídas maioritariamente por idosos, camponeses abandonados, pobres, provavelmente pouco ou nada instruídos. Gente, digamo-lo, adoptando eventualmente o mesmo olhar gélido da sr.ª Ministra: gente descartável.

Vê-la ao lado de Costa, ausente, sem um esgar, sem um frémito, sem corar (ninguém lhe pede para chorar, obviamente) é um exercício penoso e faz-nos sentir vergonha por ela, por nós, por Portugal. E uma imensa revolta tintada por outra imensa piedade pelos que tudo perderam neste fim de semana alucinante que, pudicamente, ela afirmou ser de centenas de “ignições”. Ignições, disse a criatura. Faltou-lhe língua, coragem, português de lei para dizer incêndios, fogos mortais.

Olha-se para esta mulher e damos com um fácies liso, impenetrável, insensível e com um vago lamento pela falta de férias. Que vá já de férias. Para a Venezuela, para a Somália, para a Líbia, para a Coreia do Norte, para o raio que a parta. que desapareça e por muitos e bons.

Este fantasma que percorre de longe o país calcinado e os corredores do Governo poderia, por mera precaução perfeitamente justificável por um Verão violento (haja quem se lembre desse filme magnífico de Zurlini), quentíssimo, sequíssimo ter adiado os prazos do fim da fase “Charlie”. As datas que a definem são meramente indicativas e, ontem mesmo, todos os especialistas o disseram e repetiram. A fase “Charlie” só chega ao fim por decisão política. Política, repete-se. Ou seja por decisão governamental, apoiada em proposta da sr.ª Ministra responsável.

Este Orçamento que nos cairá em cima, aproveita uma folga de mais de mil milhões de euros. Com isso vão chover subsídios, progressões nas carreiras, diminuição de IRS, aumentos normais e extraordinários de pensões, sei lá que mais. E vai mesmo haver um pequeno desconto nos encargos com os cidadãos que morreram. Por uma ínfima parcela desses milhões ter-se-iam mantido cá aviões e helicópteros enquanto durasse este insuportável calor e enquanto permanecesse a seca tremenda, “extrema” que afecta todo o pais e que é trágica para as Beiras, Trás-os-Montes, e o interior do Ribatejo, da Estremadura e da Beira Litoral. E de boa parte do Minho, donde o fogo galgou para a Galiza. Sexta feira, se não erro, vi um pungente documentário sobre o distrito de Bragança onde as terras se esboroam de secas, as oliveiras estiolam, os gados perecem de fome e sede e os homens, os poucos que ainda restam, os “resilientes” na expressão canalha da sr.ª Ministra já não sabem o que fazer.

Domingo, nos distritos de Viseu, Guarda Castelo Branco e Coimbra, outros gados, centenas senão milhares de animais morriam queimados. E queimadas ficavam casas, fábricas, pequenas lojas, hortas e plantações variadas.

E a sr.º Ministra sem o aconchego de umas férias, sem um mergulho no mar das Caraíbas, no mar Vermelho, no mar do Japão mas permitindo que um mar de fogo lavasse (levasse) de vez mais trinta e tal inúteis cidadãos portugueses culpados de não serem urbanos e de serem constantes na terra amaldiçoada que os viu nascer, crescer (e morrer).

Quantos mortos mais serão necessários para enterrar a sr.ª Ministra?

E já agora, quantos serão também necessários para mandar o sr. Jorge Gomes, digno Secretário de Estado da sr.ª Ministra, “ser proactivo” quando um fogo justiceiro se cevar em sua casa, enquanto ele estoico não chama bombeiros nem aviões carregados de água. A insensibilidade ministerial tem um eco fiel na inexistente inteligência da frase do seu fiel Secretário de Estado. Estão bem um para o outro.

Há uns tempos, na Assembleia da República, alguém citou uma frase vinda dos tempos tremendos da “Propaganda Republicana”: Disse-a Afonso Costa: “por muito menos crimes do que os de D Carlos ...rolou, pelo cadafalso a cabeça de Luís XVI” e repetiu-a já não sei quem.

Por muito menos (imperícia, descaso, falta de zelo, incompetência) o sr. Jorge Coelho, Ministro de um Governo igualmente socialista se demitiu devido à queda da ponte de Entre-os-Rios. O homem não tinha de nenhum modo responsabilidade no sucedido e nem sequer a ponte parecia correr um risco especial. Mas demitiu-se. Por vergonha, por honra pessoal, por ética republicana, por decência.

Este sinistro par que assombra o Ministério parece inamovível. Nada os empurra, os demove, os comove.

Só um oportuno incêndio nos gabinetes a que se agarram como lapas. Ou, como noutros tempos, o tiro de algum Buiça armado em justiceiro ou em vingador daqueles povos abandonados. Não apelo ao homicídio, fique bem claro, mas não seria o filho do meu pai que iria em socorro deles se os visse cercados pelo fogo ou acidentados na estrada: os indiferentes morrem cercados de indiferença. “Bon débarras!, como dizem os franceses.

Os ministros e restantes governamentais mesmo em estado cadaveroso são daninhos

16
Out17

Au bonheur des dames 430

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Algumas perguntas inocentes

 

As leitoras e os leitores recordarão, espero-o bem, que nunca me pronunciei pela culpabilidade do sr. José sócrates. Apenas, e de raspão, referi que até ao fim do julgamento, qualquer acusado se presume inocente.

Claro que isto, esta pública posição, não me retira o direito de pensar dele o que muito bem entenda. Jurista de formação e democrata desde sempre ou, pelo menos há cerca de 60 anos (presumindo que, depois dos 15/16, já saberia o que queria (coisa que não era difícil nos ásperos tempos em que vivi a adolescência e os primeiros anos de adulto) e, sobretudo o que não queria.

Também recordarão que pouco, quase nada, me durou a ilusão de que o sr. José Sócrates era um estadista. Pareceu sê-lo quando o comparávamos com o dr. Santana Lopes (que agora, reciclado e com menos cabelo, regressa às lides amparado pela amnésia colectiva nacional – de que Sócrates também largamente beneficia.

Aqui mesmo, poucos meses, um ano talvez, após a sua tomada de posse, já eu começava a duvidar da razoabilidade da sua governação. Essa crescente dúvida transformou-se em inexorável certeza durante o segundo e medonho mandato da criatura. A arrogância, a incultura, o autoritarismo e, sobretudo, o autismo político ultrapassaram tudo o que se poderia esperar.

Todavia, mesmo depois de ter sido varrido do poder, mantive o mesmo propósito: não julgar senão politicamente um homem que já não estava (bem pelo contrário!) acima de qualquer suspeita. Os “casos” já eram mais que muitos desde o “Freeport” até aos exames ao domingo, à licenciatura, ao seu teor de vida. Depois foi Paris. Aí este cavalheiro pretendia tirar um qualquer curso e estudar imenso não se sabe bem o quê. Dessa passagem ficámos a conhecer – de fora – a casa onde vivia. No XVI bairro, se faz favor. Na zona mais cara de Paris, para quem não saiba. E os restaurantes onde iria. Restaurantes, digo, nada de bistrots, nada de baratezas. E por aí fora. Maravilhavam-se os portugueses com aquele trem de vida que, por baixo, bem por baixo, rondaria os 10.000 euros mês. É que se sabia, graças a declarações do próprio que ele “apenas” auferia uma pensão que não chegava a sequer um terço do que obrigatoriamente gastava só em alojamento e alimentação.

Depois soube-se, para ainda maior surpresa (os milagres nunca aparecem sós), que havia um amigo que lhe emprestara um forte soma, ao mesmo tempo, que lhe cedia gratuitamente o belíssimo apartamento onde vivia.

E que esse amigo havia de repetir o magnânimo gesto vezes sem conta, chegando mesmo a comprar imóveis à mãe dele. Mesmo assim, os maldosos incrédulos não acreditavam. Amigos destes, que entregam (como depois foi confirmado pelo próprio) somas muito importantes sempre em dinheiro, sem um papel (o sr. José Sócrates não sabe, como confirmou publicamente, quanto dinheiro ainda deve. As contas certas serão com o generoso Silva.

Depois de regressar e ser preso, o sr. José Sócrates vendeu um caríssimo apartamento onde vivia em Lisboa e com esse dinheiro terá pago parte da dívida ao tal Silva. E alugou outro apartamento, desta feita no Parque das Nações, cuja renda não será (ou será pouco) inferior à sua pensão.

Como é que sobrevive ´um mistério. Será que como as tribos de Israel, o Senhor Deus dos Exércitos, lhe manda diariamente o maná dos céus. E passes para os transportes? E um anjo para guarda de corpo? Terá sido a Senhora dos Aflitos quem comprou os milhares de exemplares do livrinho que se lhe atribui e que ele, a bomba y a platillo, diz duas larachas vagamente sarapintadas de filosofia política?

Eu, oficialmente, não sei nada da corrupção das três dezenas de crimes de que o acusam, das dezenas de milhões que lhe terão caído no bolso distraído, das traficâncias com duas dezenas de criaturas que constam do mesmo processo. Nada. O Tribunal há-de decidir mesmo se, como prevejo, com algum desapontado realismo, eu já não assista ao desenlace. Tal processo durará presumivelmente uma boa dezena de anos e mesmo gozando eu de razoável saúde a coisa atira-me para lá dos oitenta e cinco anos.

Portanto, mesmo sem julgar a criatura, tenho sobre ele esta tremenda primeira opinião: donde lhe vêm os meios, o cacau, o pilim, a massaroca, para viver como vive?

Não sei onde é que há fogo, mas o fumo, ai o fumo, é intenso. Espesso, contínuo, intoxicante.  

Quando um jornalista (TV1) lhe perguntou qualquer coisa relacionada com isto, o sr. José Sócrates explodiu. enfim, enfureceu-se, zangou-se, amuou. Que não admitia aquele género de jornalismo! que aquilo parecia encomendado pelo “correio da manhã” (coisa que não pude comprovar porque, como aliás faço com o mesureiro “diário de notícias”, não frequento o dito jornal.

Lembremos que aquilo era uma entrevista, não uma missa de casamento, um te deum à glória do ex-primeiro ministro. Ele não era obrigado a ir.

Se queria aplausos, guardava-se para o lançamento do seu segundo best-seller que ocorreu no Porto, numa sala cheia de amigos do peito (reconheci entre divertido e espantado, alguns daqueles que daqui a dias, meses, anos irão antecipar-se ao terceiro canto do galo) e de uma berrata que uivava qualquer coisa como Sócrates amigo o povo está contigo.

Daqui, desta esplanada onde escrevo, há um quarteirão de criaturas que, pelo que ouço, ou não são povo ou não estão com ele. Noutros lugares (sempre detestáveis e maldosos) por onde tenho passado repete-se este mesmo feio cenário: Povo ausente, público maledicente. Decididamente há dois Portugais...  

11
Out17

Au bonheur des dames 429

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uma farsa ou

um passo em frente, dois atrás

 

(lembrando e abraçando Montse, Margarita, Ferran, Eugeni e Xavier, amigos inolvidáveis)

 

Nunca dei nada pelo senhor Carles Puigdemont. Se fosse vendedor de automóveis nem uma trotineta lhe compraria. fosse por que preço fosse!

O homenzinho tem o ar, a postura e o discurso de alguém profundamente perturbado. E só um perturbado (a menos que seja um imbecil) é que proclama a independência e logo, de seguida, a suspende.  Suspende o quê? A proclamação? A independência? No primeiro caso escusava de vir ao Parlamente. No segundo, inventou uma nova ideia de independência, uma coisa que hoje há e que amanhã não ou vice versa e assim sucessivamente.

Saberá este pobre diabo o que é que significa independência? Saberão os que o ouviram e bateram palminhas? Anda toda esta gente a jogar ao chinquilho, à macaca ou aos quatro cantinhos?

Mas há mais e mais surpreendente. Tomando, uma vez sem exemplo, a sério a declaração e sabendo-se o que toda a gente sabe, que valor se pode dar à ideia de tentar um diálogo através da suspensão (se é que tal coisa tem significado, valor jurídico, efeitos políticos)?

O pateta (e estou a medir as minhas palavras por consideração pelos meus velhos amigos catalães) pensa que convence alguém? Sobretudo, que convence o Governo espanhol, sequer os membros menos estouvados do Parlament, os cidadãos catalães (incluindo os independentistas) ?

Não se dá conta da tontaria, melhor, da estupidez, da improbabilidade da sua proposta?

Então, depois de duas leis contrárias à Constituição, votadas por uma unha negra (o bloco constitucional tem praticamente os mesmos deputados mesmo se, como se sabe tenha tido mais votos -52 contra 48%) vem agora com este artifício de pé quebrado, esta tentativa de fuga à responsabilidade, tentar encurralar um Governo que já tinha obtido várias vitórias (apoio da Europa, apoio de uma fortíssima – e provavelmente maioritária- opinião pública catalã, apoio de bancos e empresas que rapidamente se transferiram para locais menos perigosos do que a Catalunha (o mesmo sucedendo a clientes que, aos milhares, abrem contas fora do território. em menos de uma semana, a Catalunha pode já contabilizar uma forte descida nos impostos a cobrar, uma perda clara de riqueza que tornará a vida mais difícil para os catalães e para quem os governar seja uma restaurada Generalitat da autonomia, seja um governo republicano.

A única explicação (que ultrapasse o diagnóstico de idiotia profunda e incurável) estará, como já se vai dizendo, na procura de confrontos violentos, de mártires para a causa, de mortos, até. Todavia, a propalada violência policial traduziu-se em quatro feridos ligeiros e nem todos oriundos da causa independentista.

Estamos perante uma farsa que só não é absolutamente ridícula porque poderá ter algumas consequências trágicas. A população “constitucional” que andava calada e cozida às paredes no temor de represálias (e as ameaças tinham sido constantes nos últimos tempos) resolveu sair para a rua. Encheu-a tanto quanto os partidários de Puigdemont, percebeu, ela também, a sua força e é duvidoso que doravante se cale.

Os independentistas desejavam o confronto com “Madrid”, agora parece que terão de enfrentar outra Barcelona, outra Catalunha, para não falar no resto de Espanha. Os independentistas (radicais, anarquistas. direita xenófoba, bem pensantes e outros inocentes úteis) apostavam na estratégia da tensão (coisa que de resto não é nova na Europa e que já deu maus resultados noutros países e noutras alturas), não perceberam que, mesmo em Euzkadi, onde a ETA e os seus satélites tinham colonizado a sociedade (colonizado no sentido mais duro e abrangente do termo) tinham reduzido ao silêncio os seus adversários que se viram obrigados a fugir para não morrerem com a famosa bala na nuca (e foram muitos como se lembrarão os mais interessados), tal estratégia tinha falhado redondamente, Demorou trinta e muitos anos, quase mil mortos, outros tantos presos, milhares de emigrados (por todos Fernando Savater) até chegar ao ponto actual. Não é por acaso que os independentistas bascos não se mexeram ou mexeram-se tão pouco que vem a dar no mesmo.

A Europa, com tudo o que tem de imperfeito, é o melhor que se fez depois da guerra. A Europa de cá, a que se foi pacientemente construindo desde a Comunidade do Carvão e do Aço até hoje. É essa Europa um dos alvos da CUP e de várias organizações satélites que, todavia pretendem os seus benefícios sem as suas condições. Sabem, demasiadamente o sabem, que fora disso, é a pobreza que espreita. Seriam as indústrias que desertariam, o desemprego que cresceria exponencialmente, falto de investimento. Até o turismo (e mesmo aí Barcelona não dá grandes sinais de perceber o fenómeno) sofreria e não pouco. Quem é que vai passear-se para zonas de incerteza?

 

Outros amigos meus, desta feita galegos, caracterizavam Rajoy: é como muitos galegos um tipo que mesmo dentro de um elevador não diz se está a subir ou a descer.

Porém, neste conflito, mesmo que se possa apontar-lhe erros (e não foram poucos, sobretudo os derivados de uma total intransigência que, entretanto, também era de antemão conhecida e esperada) como é que Puigdemont o vem desafiar (independência e república) e acto contínuo exigir um diálogo? Com prazo e tudo (poucas semanas)!

Eu estaria para aqui a rir-me que nem um cabinda não fosse gostar da Catalunha, dos seus poetas, dos seus artistas (mas não de Gaudi!...), ter lá amigos, uma antiga namorada, das praias (ai as praias...) da comida e, vejam lá, da língua que compreendo bem (até já traduzi dois livros do catalão) que falo patrioticamente muito mal mas que tem sons belíssimos e me fazem pensar no que deveria ser o provençal, idioma de trovadores (e de heréticos...).

Mas isto, esta palhaçada, esta vergonha parece-me demais. Quando, por cá, um político se demitiu irrevogavelmente, saindo por uma porta para entrar pela janela, eu, que nada tenho a ver com ele, com o partido dele, com o governo dele, senti vergonha. Por Portugal. Bem sei que temos cá de tudo mas mesmo assim não me conformo com as aberrações. Neste momento, peninsular, ibérico, europeu, que sou volto a estar envergonhado. A Europa, alguma Europa nortista e altaneira lá estará a dizer baixinho e escarninhamente: Estão a ver como aquela gente é? São do Sul, está tudo dito. Bebem vinho, consomem azeite, gostam de peixe, são maioritariamente católicos, igualmente pecadores (ai o jeito que a Confissão dá...), gozam a vida e à falta de disciplina são, pelo menos inventivos”.

Envergonho-me pela vergonha dos meus amigos acima citados. E dói-me esta triste maneira de dar razão a um famoso prócere da Direita espanhola, assassinado pela polícia da República nas vésperas da Guerra Civil, Calvo Sotelo que afirmava: España antes roja que rota.

E não me conformo.

* na gravura: uma composição de Jordi Cuixart 

10
Out17

Estes dias que passam 342

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As/Os padeirinhas/os de S Bento

 

Na curiosa “Assembleia da República” portuguesa passa-se um pouco de tudo. Desta feita, apareceu um voto de condenação da actuação policial no dia do “referendo” (ilegal, seja de que que ponto de vista for) na Catalunha.

Parece que a polícia não foi meiga (e não o foi, é evidente) contra os manifestantes que insistiam em votar. que insistiam, relembre-se, numa actuação ilegal considere-se o “Estatut”, a Constituição de Espanha, a lei geral ou, sequer, o parecer do Tribunal Constitucional.

Convirá recordar que neste género de situações a polícia é sempre violenta. Nem que se trate de simples empurrões aos cidadãos. Por um lado há sempre uma desproporção de forças: de um lado um grupo de polícias, doutro uma multidão. Se é verdade que uns estarão armados (seja de pistolas ou de bastões) não menos verdade é que do outro lado há sempre um número muito maior de pessoas que, e também isso se viu (ou só não foi visto pelas criaturas bloquistas) começando por normais protestos, rapidamente se excitam e começam também elas a mostrar não só violência verbal (e essa a polícia ainda aguenta) mas cara disposiçãoo de romper os cordões policiais à força o que obviamente não se faz com meiguice.

Quem sai para a rua para se manifestar, sabe para o que vai. Ou, pelo menos, no meu tempo (e que tempo: anos cinquenta finais, todos os sessenta e os setenta que se lhe sucederam e não apenas os antes do 25A) sabíamos. Tenho dessa época uma memorável experiência nacional e internacional. De facto, não só não perdi uma única oportunidade de sair e apanhar chanfalhada nos juvenis lombos, mas em terras alheias comi pela medida grande. em França nos anos 68 e seguintes, em Itália durante uma “estate violenta”(1972), em Espanha na época do fim do franquismo et j’en passe. Manifestei-me pelas causas mais diversas (e nem sempre as mais justas: cheguei a ir para rua pela Cinemateca Francesa, contra a construção da “tour de Montparnasse”, entre outras miudezas surpreendentes.)

De todo o modo, eu sabia o que arriscava. E, já agora, percebia o que os meus adversários defendiam e o modo como pensavam defender-se.

Há, além do mais, uma segunda observação a fazer. E ela é a seguinte. Nenhum poder, fáctivo ou legítimo quer afirmar-se pela violência. todos os poderes visam consolidar-se com o sufrágio dos cidadãos. Ou, pelo menos, com a indiferença destes. O dr Salazar usava a terna expressão “safanões dados a tempo”. “Safanões”, vejam bem!

Isto justifica a “violência” venha ela de onde vier? De modo algum. A violência é sempre injustificada. Os fins nunca justificam os meios. E estejam nesses fins a sociedade ideal ou o poder de meia dúzia. Aliás, nisto de sociedades ideais há sempre o poder de um escasso número de iluminados que se sentem os arautos e os salvadores da imensa maioria.

Mas voltemos ao nosso parlamento. Umas padeirinhas e respectivos émulos masculinos (não os esqueçamos) tomaram dores pelos lombos de catalães independentistas como antes já tinham tomado pelos do venezuelanos maduristas. Curiosamente, nem uns nem os outros cheiram, de perto ou de longe, a esquerda, pelo menos a esquerda clássica. Aquilo a que assistimos é populismo histérico, nacionalismo feroz e xenofobia. Desde a Esquerra (e já aqui o notamos) até à CUP aí os temos impantes. E depreciativos para com o resto da comunidade espanhola. Como se a palavra Espanha fosse um insulto. Recordemos que Espanha é o nome, desde os primórdios da construção do império romano, que a península teve. A actual Catalunha estava na chamada “Tarraconense” (de Tarragona) enquanto por aqui a norte estávamos na Galécia e os de Castela na Lusitânia...

(“Arriba, arriba gajeiro, arriba ao mastro real, vê se avistas terras de Espanha, areias de Portugal”) Espanha impôs-se interna e externamente mesmo antes de ser um país unido e unificado com a notável excepção portuguesa, fruto muito do acaso tanto quanto da História e do jogo de interesses europeus (justamente uma das mais tremendas derrotas catalãs tem a ver connosco que com eles e com outros –os que de facto eram influentes- interviemos na guerra da sucessão de Espanha, tendo um exército português ocupado Madrid por um breve período de tempo).

Portugal construiu-se primeiro contra Leão (Afonso Henriques tentou baldadamente apoderar-se de vários territórios galegos, o que nunca conseguiu) depois, e sempre, contra Castela. A monarquia dual filipina foi um mero intervalo, tanto mais que, do ponto de vista legal e político o reino de Portugal continuava a existir. Todavia, esta situação não perdurou muito por culpa de grandes validos espanhóis, da incapacidade de Filipe IV (III de Portugal), dos desastres da guerra entre Espanha e Inglaterra e Holanda. Portugal viu ocupados o Brasil e Angola (ou seja Luanda e cercanias), perdido o Ceilão e outras possessões asiáticas e arruinado boa parte do comércio. Entretida com as guerras e com a manutenção da Catalunha, a Espanha já não teve exércitos suficientes para vencer D João IV. De todo o modo, a guerra da Restauração durou praticamente 30 anos e teve o resultado que teve graças a oportunas alianças com a Inglaterra.

No entanto, a sombra espanhola persistiu sobre Portugal e mais ainda sobre o nosso imaginário pelo que o chamado complexo de Aljubarrota persistiu. Ainda hoje, são evidentes e repetidos, certos traços de anti-espanholismo entre elites portuguesas. O iberismo foi sempre excepcional e a duvidosa aliança entre Salazar e Franco (que aliás chegou a ter um plano para invadir Portugal depois de por este ter sido – e de que maneira! – ajudado durante a “Cruzada” anti República).

Daí um entranhado entusiasmo por bascos (que durante muito tempo por cá andaram sem grandes cautelas), por galegos (A UPG chegou a ter bases em Portugal) ou pelos distantes catalães cuja língua, história e cultura são olimpicamente desconhecidas dos nossos padeirinhos e padeirinhas.

Daí que no Parlamento tivesse aparecido um voto tonto e pueril contra a violência da polícia. Eu até admitiria que tivesse havido alguma discussão, que se tivessem pesado argumentos, que os inocentes deputados tivessem podido esclarecer-se sobre o problema catalão. Mas nada disso sucedeu. como, de resto, se previa.

O voto é tolo, provavelmente uma imbecilidade, não contribui para ajudar uns ou outros ou melhor, ajuda os inflamados que nestes últimos dias terão visto (mesmo se a miopia política seja de regra) que na Catalunha há tantos ou mais anti-independentistas que nacionalistas.

Assistimos a uma fuga para a frente de Puigdemont e companheiros. Sabem que se declararem a independência correm o risco de serem presos o que só lhes convém. Faça Rajov, de resto galego, o que fizer está sempre em dificuldades. Políticas, obviamente, porque na frente económica as coisas correm-lhe de feição. As grandes empresas, os bancos, a indústria estão em debandada da Catalunha. só isso constitui um rombo nas finanças regionais. As pessoas começam a transferir contas para bancos que estejam protegidos pelo BCE. A enorme minoria emigrante na Catalunha inquieta-se. A Europa avisa. Toda a propaganda independentista baseou-se num argumento falso: a permanência na União Europeia. Nem a Espanha, nem a União podem consenti-lo sob pena de despedaçarem a já frágil estrutura de nações nomeadamente no caso da Bélgica, da Itália onde há tentações identitárias de certas regiões, sempre as mais ricas, claro e, identicamente, as mais conservadoras o que também não espanta especialmente.

Claro que o BE, o PC e alguns irridentes do PS não só não se entusiasmam com a ideia europeia como até sonham com uma espécie de fim apocalíptico da História em nome de um cada vez mis longínquo proletariado que a riqueza gerada pela Europa afastou do sonho revolucionário.

Até ao momento, e basta ver como se comportam os países anteriormente “socialistas”, o resultado é claramente de sinal contrário. Os “órfãos do comunismo e da finada e pouco chorada URSS, aproximam-se velozmente da Direita autoritária e xenófoba. como se a frase “morra Sansão e quantos aqui estão” fosse preferível a esta morna mas real prosperidade (que também, e já se viu, estraga os cálculos e vida da Esquerda dita (com algum exagero e inverdade) extrema.

30
Set17

Diário político 213

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Felizmente, amanhã é sábado

 

d' Oliveira fecit 29-9-17

 

Estamos no fim da mais pobre e abjecta campanha eleitoral de sempre. Quem esperou algum esclarecimento, alguma proposta, alguma discussão, cedo e tristemente se apercebeu desta desgraçada realidade: “No está el horno para bolos”, dizem os nossos vizinhos.

Não está cá mas também não está lá.

Na pátria dos heróis do mar nobre povo, soluções para as autarquias houve poucas sobretudo por parte dos (4+1) partidos tradicionais. O auge do autismo foi para o BE. Desprovido de voz autárquica e de eleitos em número sequer medíocre, eis que os seus principais oradores se desdobraram numa espécie de campanha nacional onde eram mais as indirectas ao PS e ao PC do que à Direita. De todo o modo, nem no capítulo da novidade a campanha deste partido merece referência . Narizes de cera, lugares comuns e, um carregar no acelerador das exigências de carácter económico e social que fazem tábua rasa da real situação do país.

Nos restantes quadrantes, exceptuando, eventualmente, o PC que tenta resistir ao cerco do PS no Alentejo e ao canto das sereias do BE, foi notória falta de empenho local nas propostas. O PPD está, também ele, na defensiva. Passos sente o cerco interno e externo e a contagem de espingardas dentro do partido dá já sinais de turbulência crescente. O PS aponta os êxitos governamentais como se em cada autarquia os pudesse replicar. Nem estupidez do “aeroporto internacional em Coimbra” inventada pelo candidato Machado parece fazer mossa. É obra. O CDS tenta melhorar o seu modesto score autárquico à sombra da campanha de Cristas em Lisboa. Porém dos restantes círculos onde quer manter ou melhorar posições quase nada se ouviu.

Lembraria, se valesse a pena, que, na Europa há dados novos, sobretudo no que diz respeito às eventuais soluções governativas na Alemanha. Iremos, todos, chorar a saída de Schauble pois o sucessor, tudo o indica, virá dos liberais, gente pouco sensível aos europeus do Sul e muito menos “europeístas” do que o anterior ministro das finanças alemão. Os desvelos com que fomos tratados são para estes futuros parceiros de Merkel inadequados e imerecidos.

E da Espanha que notícias nos chegam? Uma porção, claramente minoritária, da população catalã (mesmo se a geometria eleitoral converta os seus eleitos numa pequeníssima maioria) descobriu que poderia, contra a Constituição (largamente votada pelos catalães) e contra o Estatuto de Autonomia, levar a cabo um referendo sobre a independência. E apresentam essa independência sob um cor celestialmente rosa como se fosse possível à Catalunha permanecer na Europa. A União Europeia já preveniu outros vagos autonomistas da impossibilidade de se manterem dentro da Europa política. Isso, só isso, traduzir-se-ia num violento empobrecimento da região quer por estabelecimento de fronteiras reais com o continente quer com a Espanha. Sabe-se, até os independentistas sabem (mas escondem) que uma separação traria incalculáveis consequências para a fortíssima comunidade “espanhola” (galega, aragonesa, castelhana e andaluz) instalada na Catalunha e que forma boa parte do operariado da região. Por seu lado, a Banca, a grande indústria e, genericamente todos quantos na Catalunha trabalham para o mundo peninsular, não querem sequer ouvir falar de um regime que os corte da sua clientela. Um amigo meu, catalão e naquele tempo vagamente autonomista, confidenciava-me maravilhado que “a Catalunha é a única metrópole que se quer separar das suas rendosas colónias”. Nada mais certo e cada vez mais certo. Sem o resto da Espanha a Catalunha passará um mau bocado e terá de reconverter dramaticamente a sua economia. Correm por cá, nos meios “anti-castelhanos” alguns mitos urbanos de pele dura: que a língua é perseguida; que a Catalunha foi em tempos independente; que nos séculos XVII e XVIII houve tentativas independentistas afogadas no sangue; finalmente que durante a conturbada 2ª República e sequente guerra civil, a Catalunha estava do lado republicano. Ora bem e por pontos. O catalão é falado na Catalunha a par do castelhano ou seja do espanhol. Se problemas há, sobretudo entre as camadas não originariamente catalãs, são eles derivados de um ensino e de uma burocracia que fazem o possível por negar a legitimidade do idioma comum. De resto, se é verdade que aparecem revistas e livros em catalão (e cá em casa há vários volumes de poesia catalã, por exemplo) não menos verdade é que se um autor pretende reconhecimento a primeira coisa que faz é traduzir a sua obra em espanhol para poder ser lido por mais de uns centos de leitores. No que toca às famosas “guerras da Catalunha” bom seria lembrar que nunca elas tiveram a independência por objectivo para foram continuadamente suscitadas por conflitos europeus sobre a Espanha, mormente dinásticos (Austrias contra Bourbons, etc) No capítulo da guerra civil, é verdade que a Catalunha ficou no lado republicano. Fundamentalmente o que ocorreu foi que a intentona dos generais falhou em Barcelona graças à acção de comunistas e anarquistas mas à medida que o fim da guerra se aproximava mais e mais se verificava que se havia região dotada de uma poderosa “quinta coluna” essa era a Catalunha. Há, hoje em dia, documentação mais suficiente para o comprovar e a entrada de Franco em Barcelona foi muito mais aplaudida do que a entrada em Madrid. A Catalunha, pura e simplesmente esteve durante boa parte da guerra demasiado afastada das frentes de combate. Só isso. O franquismo floresceu na Catalunha e especialmente em Barcelona com a mesma ou talvez maior intensidade do que no resto da Espanha. E até a língua, hostilizada pelo regime (como hostilizado era o galego, língua de “labregos e marinheiros” e o vasco quase só falado no campo e por pouca gente) se manteve com algum vigor entre algumas elites. E digo elites porquanto foi depois da guerra que acorreram à Catalunha multidões de emigrantes de outras e mais pobres regiões espanholas que contribuíram para uma desigual distribuição da riqueza e para o cada vez mais comum uso do castelhano. O catalão era-lhes desconhecido e assim continuou até ao fim do franquismo.

Portanto, os mitos piedosos sobre os infelizes catalães que correm por alguma direita portuguesa e idêntica esquerda assentam na ignorância da história da península, de como se constituiu o “Estado” espanhol cuja raiz está no casamento dos reis católicos respectivamente Isabel de Castela e Fernando de Aragão (reino de que a Catalunha e as Baleares faziam parte). A Espanha foi-se lentamente construindo desde a “Reconquista” e devorando efémeros reinos (Leão ou Navarra) e aumentando o território graças à continuada conquista das regiões sob controle muçulmano (digo muçulmano e não árabe por duas razões: a primeira é que boa parte dos vencedores dos visigodos eram berberes e berberes continuaram a ser muitos dos componentes dos sucessivos exércitos que atravessaram o Estreito em direcção à Península. Depois porque muitos dos habitantes do Califado e dos reinos de taifa eram hispânicos convertidos. Alguns permaneceram depois da conquista de Granada, outros, os “moriscos” foram expulsos graças às leis sangue editadas. Não foram apenas os judeus a serem varridos do território, como se vê.)

Há na ditosa pátria bem amada, um forte sentimento anti-espanhol como se ainda vivêssemos antes de Aljubarrota ou durante os Filipes (que aliás governaram um reino independente dos restantes territórios da coroa espanhola). Que o aclamado patriotismo primeiro dezembrista faça tábua rasa da multidão portuguesa que aceitou Filipe II (1º de Portugal) e lembre comovida o inglório esforço do Prior do Crato (que nunca teve apoio real que se visse, mesmo e contra Manuel Alegre, do povo miúdo) é apenas mais um pundonoroso véu patrioteiro que dá jeito. E bastaria lembrar que, mesmo depois de 1640, permaneceram em Espanha muitos portugueses (Faria e Sousa o grande autor da “Ásia Portuguesa” ou Pedro Teixeira, o brilhante cartógrafo autor do extraordinário “atlas do Rei Planeta”).

Há nestes portugueses dos cinco ou seis costados a mesma ideia de alguns franceses do século passado quanto à Alemanha (gostavam tanto dela que a preferiam dividida em duas, três ou mais partes...) Complexos de pequenez que ainda não passaram com o tempo.

Há uns anos escrevi aqui sobre o mesmo tema, mesmo se tivesse por alvo essa coisa fascistóide chamada “Esquerra Republicana”. Lembrava que a Europa não aceita Padânias, Córsegas ou Escócias ou outras eventuais contaminações nacionalistas. Como não aceita o facto consumado da Crimeia e outros na zona ou no Cáucaso onde a Rússia cerceia os vizinhos criando e protegendo umas republiquetas que nada têm de autónomo e mais não são do que chantagem sobre os vizinhos.

Finalmente, há países europeus onde coexistem harmoniosamente regiões dotadas de grande autonomia. É o caso da Alemanha de longe o mais avançado e bem sucedido estado federal- E recorda-se a criação da Itália (nação muito mais recente do que a Espanha, com diferenças muito mais acentuadas, uma história comum de guerras contínuas, de repúblicas, ducados, principados, reinos de toda a ordem usando uma língua comum (o toscano) mas mantendo-se bem vivas línguas e dialectos variados (basta ir a Veneza ou a Bari ou a Nápoles para não falar na Sicília) onde até se nota profundamente algum espanhol herdado do antigo reino de Napoles e das duas Sicílias. E tudo isto num país onde por vezes nem se verifica a continuidade territorial (Sicília ou Sardenha). Contudo, a cegueira nacionalista, mãe da xenofobia e de todos os autoritarismos incluindo o fascismo, recebe numa pequena fracção da elite portuguesa (ou presumida como tal) um aplauso indisfarçado e um apoio que roça o grotesco e fossa na mais pura ignorância histórica.