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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Diário Político 181

mcr, 20.09.12

A catástrofe iminente e os meios  de a conjurar

 

 

 

O título obviamente pertence ao senhor Vladimir Ilicht Ulianov que nov século usou Leninv (o homem do Lena, local onde esteve convenientemente deportado pelas autoridades tzaristas ).

 

E lembrei-me destye título, por in illo tempore, ter feito forte gasto da literatura deste autor, por ter consumido uns fartos 80%  dos três grossos tomos das “obras escolhidas” (na versão francesa, editions du progrés,  Moscovo). Em meu abono apenas refiro que os livros me foram oferecidos por um sogro generoso e sabedor que mos trouxe directos da “librairie du globe” ali da rue de Buci se não erro.

 

Em 1965 li aquilo de rajada, saltando apenas uns relatórios e umas arengas que considerei desnecessárias para a minha formação “leninista” Tinha vinte e poucos anos, eram os anos sessenta e entre o círculo de amigos e companheiros que frequentava ler Lenin era “fundamental”. E Marx, Lukacs, Konstantinov e mais um par de cavalheiros entre os quais Plekanov, Preobajensky e Bukarine, já agora. Naquele tempo (primeira metade dos sessenta) os “clássicos” eram considerados como o sine qua non de uma carreira de esquerdista.

 

Confesso, também em meu abono que fiquei a metade do “Materialismo e empirocriticismo”, uma absoluta estopada filosofante do mesmo Lenin que deveria querer mostrar que era igual a Marx. Não era e a dolorosa história da URSS bem o exemplifica.

 

Todavia, voltemos à “Catástrofe iminente...”. O texto começa com uma dramática descrição da situação do país mergulado em greves, falta de géneros essenciais, manifestações e tumultos e ineficácia governamental. E é a partir daí que Lenin, fino político, propõe uma série de medidas de salvação.  Vale a pena, mesmo hoje, passar uma vista de olhos por este texto (julgo que anda pelos alfarrabistas uma tradução editada pela saudosa “Centelha” a preço mais ou menos vil. Para quem atura a rapaziada do Bloco ou o estertor do PC esta literatura até pode ser saudável...

 

E porque é que falo em “catástrofe iminente...” Pela pequena e forte razão de que, por cá, anda tudo em polvorosa. Em breves palavras: desde o mergulho mortal de costas de Coelho para a piscina quase vazia, vai por aí uma vozearia desconforme.

 

Poder-se-ia pensar que nas combalidas hostes da esquerda, revigoradas pela tonta entrevista de Coelho, reinaria não só uma animaçãqo mas, mais do que isso, um princípio de consenso quanto à política a defender e às medidas a tomar. Medidas claras, simples, enérgicas que nos tirassem deste atoleiro wm que a pátria se debate.

 

Lamento dizer que se oiço gritos e condenações em quantidade nem um sussurro me chega de soluções.

 

Melhor, aliás pior: começa a ouvir-se com crescente intensidade que este Governo não presta mas que deve ser ele ou outro da mesma cor e som a enfrentar os tormentosos tempos que se avizinham. Da parte do P.S., a coisa chega a roçar a mais descarada obscenidade: O P.S. parece ter adquirido uma brande virgindade política (nada disto é com eles, a troika também não, os acordos que a trouxeram a estas ridentes paragens ainda menos e a desastrada governação de anos não tem nada a ver com isto que ora se vive). Há semanas Seguro jurava, de voz embargada, que estava pronto para governar. Passou-lhe depressa a vontade, como declarações recentes fartamente sugerem. Socialistas (ou gente que se assume como tal) começam a apelar ao Presidente da República para que este, numa espécie de golpe de Estado institucional, demita o Governo e nomeie outro vinda da mesma banda ou constituído por independentes e técnicos. Não foi outra a sugestão do dr. Mário Soares que, repentinamente começou a renegar de tudo o que no passado recente o tornava uma referência.

 

Claro que me dirão que o PC e o Bloco não dizem a mesma coisa (mesmo se altos quadros sindicais, por exemplo, façam também eles o discurso da intervenção presidencial). Dizer, não dizem. Mas também não dizem o contrário. Se nos lembrarmos que só com muito boa vontade estes dois partidos (e os Verdes, claro, os Verdes, como é que eu me esquecia dessa sucursal do partidão? Então poder-se-á lá passar sem o arrebatamento pasionário da dr.ª Heloísa Apolónia que curiosamente sempre me pareceu mais vermelha do que os seus colegas de coligação que desde sempre dão boleia a esta infíma fração dos ecologistas portugueses?) reúnem 20% dos votos expressos nas eleições o que os torna dispensáveis para qualquer cálculo político e governamental.  Aliás, nem sequer se entendem entre eles, como ainda há bem pouco se verificou quando, perante uma imprensa arrebatada e entusiasta tiveram de adiar para as calendas gregas um encontro a sério.

 

Depois, o P.S. foge desta gente como o diabo da cruz. E eles, pese embora uma mimosa entrevista duma gentil senhorinha do BE , fogem do P.S. com igual velocidade mas mais repugnância.

 

Ninguém quer pegar na batata quente. Ninguém. Aventam-se as mais loucas hipóteses de sair desta engreguilho medonho, reconduzindo-se todas a uma intervenção de Cavaco ou a um governo de tecnocratas.

 

A cereja no bolo disto tudo, a triste cereja, é a extraordinária afirmação do “herói de Abril”, do “cérebro da revolução” do ex-Castro português, o senhor coronel Otelo Saraiva de Carvalho.

 

Diz esta luminária militar que o “que precisamos é de um homem honesto como o dr. Salazar”, de um homem que salvou o pais da bancarrota, que criou emprego e deixou o Banco de Portugal abarrotado de oiro que deu muito geito no período a seguir ao 25 de Abril!” (a citação é bastante livre mas podem estar certos que é isto mesmo que a criatura assevera).

 

Se o dr. Soares parodia, sem o perceber, o senhor Cunha Leal nos prolegómenos do 28 de Maio de 26, Otelo parece inspirar-se em Filomeno da Câmara um dos heróis da revolução dos “fifis”, que aliás não teve sucesso.

 

(e ainda anda por aí um grupo de historiadores a criticar Rui Ramos por este, alegadamente e aos seus inquisitoriais olhos, “desculpabilizar” Salazar? Já agora, e marginalmente, um vago doutor por extenso de Coimbra e historiador parcamente lido entende que um estilo limpo e uma escrita agradável são pecados capitais num historiador! Quousque tamdem abutere... etc,etc.?)

 

Estamos, caros leitores, a caminho de reencontrar todos os velhos demónios da nossa saga sebastianista e milenária. As vozes que clamam por um salvador, por um técnico, independente dos partidos (como se não fossem estes, mesmo maus ou até péssimos como é o triste caso actual, um elemento central e definitvo da Democracia), justificam o elogio de Salazar feito por OSC (ou Óscar?)e podem prenunciar um triunfal regresso de um Estado já não Novo mas semi-velho que,. com um par de safanões a tempo, resolva o problema de algumas criaturas incómodas.

 

As multidões na rua reclamando-se de apartidarismo podem facilmente ser engodadas por uma promessa de resolução radical dos actuais problemas em troca dessa coisa de somenos que é a liberdade (a liberdade que seguramente não está a passar por aqui...).

 

d’Oliveira fecit -20.09.12

 

(a pedido de mcr vai esta para dois antigos subversivos coimbrãos chamados António Noronha e Carlos Granés. Parece que fazem o favor de me ler, coisa que cada vez mais é de agradecer)

 

 

 

Diário Político 182

mcr, 13.09.12

Perguntas de um leitor que não é operário*

 

Balão de ensaio? 

Gaspar igual a Borges? 

O que faz correr Coelho?

Então agora recorrem a Cavaco?

Que é que a troika disse ao Governo?

A situação económica e financeira é a que dizem?

Relvas ainda é licenciado?

Portas bate com a porta?

 

Respostas nos próximos capítulos 

 

* nem o quereria ser, sobretudo agora

Diário Político 180

mcr, 11.09.12

 

 

 

 

A caça às bruxas em versão nacional-bolchevique

 

 

 

Um Jdanov(zinho) de algibeira metido a Vichinsky doméstico entendeu expender em dois longos artigos no “Público” uma caricata “crítica” de uma História de Portugal coordenada por Rui Ramos e oferecida aos fascículos no “Espresso”. 

 

Quando li aquela vil sandice, esfreguei os olhos: não me recordava de RR exaltar Salazar, branquear o colonialismo etc... etc...

 

Entendia até, e isso mesmo terá aqui sido salientado, que esta "História de Portugal" vinha preencher um enorme vazio pois nada havia no género desde a congénere tentativa de Oliveira Marques, ha muito esgotada e desactualizada. Aliás, a crítica -especializada ou não - saudara entusiasticamente esta edição e, se bem me lembro, RR e os seus dois parceiros neste intento tinham mesmo recebido um importante prémio. 

 

Que RR não é um "revolucionário" (queira isso significar o que se quiser) não é novidade nenhuma.  Todavia, comparando a sua démarche (para já não falar nos seus estilo e escrita) com a de alguns representantes dessa outra tendência historiográfica, facilmente se detecta que em questão de "empapamento ideológico" (para usar uma expressão sinistra e infeliz de Fernando Rosas) está bem abaixo dos seus detractores (Rosas incluído). Ou de um jovem Avelãs Nunes que agora também saiu a terreiro na defesa de um excelso historiador do "fascismo" nacional. 

 

 

 

Este debate, que tem ocupado as páginas do "Público" caracteriza-se por algo de extraordinário. Por um lado RR foi acusado de uma extravagante defesa de Salazar  que nenhum leitor sério e honrado pode partilhar. Não há tal defesa, bem pelo contrário, não há branqueamento, ocultamento, olvido, desculpa, sequer simpatia pelo cavalheiro de Santa Comba. 

 

Num primeiro momento RR veio a terreiro e desfez as tolas acusações (e difamatórias) de que fora alvo. 

 

Esqueceu-se de referir que não tem culpa do sucesso absolutamente invulgar da venda do seu livro. Só isso dava para muito rapazola se sentir agravado. "Ai o mariola vai já na 5ª edição? Deixa estar que já tas canto…"

 

Entretanto, várias pessoas saíram a terreiro em defesa do bom nome de Ramos. 

 

Num segundo momento, Fernando Rosas entendeu dever pontificar. Pontificar, repito, pois FR, depois da sua assinalada entrada como comentador nas televisões, assumiu uma postura bizarra de pequeno oráculo político. 

 

Começando por declarar que todos têm direito a opinar (olha a novidade!…) FR recorre ao habitual truque de pôr em igualdade ofensor e ofendido, agressor e agredido. É a sua(dele) ideia de democracia. 

 

Faltando-lhe seguidamente argumentos para provar que RR branqueava o salazarismo, eis que Rosas desvia o tiro para a "1ª república". E vá de  atacar a ferocidade de RR quanto aos desastrosos (o adjectivo é meu e de uma esmagadora maioria de historiadores de todas as tendências que se debruçaram sobre o período) dezasseis anos de "República". 

 

Mas nem sequer aí Rosas atinge o alvo. Mais uma vez, assaca a RR  intenções e opiniões que qualquer vulgar estudioso do período 1910-1926   sabe reconhecer. Não vou aqui fazer o processo desses anos tumultuosos, carregados de intentonas, revoluções, golpes e contragolpes. Não vale a pena lembrar a severa condenação do regime e dos governos que levaram a cabo uma política tão anti-operária que a CGT qualificou de "racha sindicatos" e que está descrita, por exemplo, por César Oliveira ou Pacheco Pereira. Não é necessário lembrar as milícias partidárias à solta, a "formiga branca", os espancamentos na via pública, os ataques aos jornais adversários do partido democrático, os empastelamentos, a ofensiva gratuita contra o clero, os assassínios (e nem sequer refiro a "camioneta fantasma" cujos tripulantes abateram altas figuras da Revolução de 1910) de dezenas de pessoas, os atentados, a contínua dança de governos, as crises endémicas política e financeira.  

 

Não serve RR? Leiam-se António José Telo, Douglas Wheeler ou mais uma boa dúzia. Não servem? Leiam-se Raul Brandão, José Relvas ou João Chagas. 

 

E se nada disso chegar, atente-se que o 28 de Maio tem a assinatura de muitos e prestigiados republicanos (Gomes da Costa, Cabeçadas, por exemplo) de maçons (Carmona) de ex-ministros da República (por todos Cunha Leal), para já não falar da benigna expectativa de sectores da Esquerda (Seara Nova incluída) para com o movimento, melhor dizendo o "passeio" entre Braga e Lisboa. 

 

Tudo isto, porém, deve ser faits-divers para Rosas e para o seu defendido afilhado. No fundo, a História é para ser exercida por gente que pense pela mesma estreita cartilha embebida, mas não empapada, em progresso, amor pelo povo e muito materialismo histórico.  E outro tanto, senão mais,  de materialismo dialéctico. (Mal usados, um e outro, acrescente-se, mas isso deriva de outros factores e de uma deformada e exígua formação marxista: quem contra todas as evidências, tapou os olhos e os ouvidos a Praga 68, aos gulags, à degenerescência dos estados de democracia popular e ao abalo da Revolução Cultural, pode dar-se ao luxo de confundir agressores e vítimas, fascismo mau e fascismo bom (o que se se personificou nos infames pactos Ribentrop-Molotov, na entrega de refugiados alemães aos nazis, no apoio em bens e géneros de toda a ordem ao Reich quando este atacava as democracias ocidentais).

 

Em Portugal, as discussões têm sempre este lado escabroso. À falta de argumentos utiliza-se a cacetada e a confusão. Ao fim e ao cabo, daqui a dias já ninguém se lembra.

 

 

 

A latere: que este modesto caso não nos faça esquecer o excelso cavalheiro Relvas, subitamente tão discreto e silencioso.

 

ainda a latere: alguém viu por aí o tão prometido esclarecimento completo dos métodos usados pela universidade lusófona para atribuir créditos a quem não segue o percurso vulgar de estudos necessários à obtenção de licenciatura? 

 

 

 

 

 

nota final: os leitores terão reparado que não se identifica a criatura que em duas peças de má prosa e pior ética (?) atacou Rui Ramos. Esta gente não merece que sujemos metaforicamente o dedo dactilográfico com o seu nome. 

 

d'Oliveira fecit

 

 

Diário Político 179

mcr, 04.07.12

Mais um cadáver esquisito

 

 

 

Éramos um grupo espantado e sonolento, hoje na esplanada do costume. Com a sua particular gravidade, Y repetia: “É enorme!”. X, sempre ele, retorquia “É lindo.”

 

“Lindo, o tanas e o badanas", repontávamos os outros. Eu citava um velho amigo e murmurava, “O Tanhäuser e o Badanäuser!”

 

Alguém ( o grande W?) sentenciou: “Isto é surrealista”.

 

K barafustou. K, já em Coimbra, ou até antes, tinha a mania dos surrealistas. E da Patafísica, acrescente-se. Não sendo uma religião, o surrealismo foi para ele sempre uma coisa séria. Mais do que um movimento artístico, menos do que uma fé, sempre uma atitude.

 

"Isto não tem nada a ver com surrealismo mas merece que se organize um cadáver esquisito".

E foi ao quiosque dos jornais por papel e duas esferográficas.

 

Ao assumir o comando, K preveniu: "Vamos fazer umas quadras mas não esforcem as meninges que o Ministro e a tal Lusófona não merecem esforços de maior. Quadras de pé quebrado e basta que aquela gentinha não merece sequer a redondilha maior. Ao trabalho. Começa o “Tripé”.

 

E foi assim, animados por um café razoável, sob um guarda-sol amigo, que se pariu a versalhada que se segue. A malta ria-se mas, no fundo, a qualidade da poesia produzida lembrava mais que não aguentávamos o fardo de ser portugueses. Isto ás vezes mói. E dói. Muito.

 

 

 

 

 

Com quatro cadeirinhas

 

se faz um senhor doutor

 

acendam-se velinhas

 

em honra deste valor

 

 

 

trinta era o número final

 

mas os méritos eram tais

 

que dos créditos no total

 

sobram vinte e cinco ou mais

 

 

 

Com um dez solitário

 

Numa faculdade de direito

 

Cumpre-se o necessário

 

Para lhe rendermos preito

 

 

 

São versos de pé quebrado

 

Indignos dum ministro.

 

Que querem? É o fado

 

de viver num pais sinistro!

 

 

 

Convenhamos que já é azar

 

Só agora se saber desta pista

 

Algum dia quem roubar

 

Tira um diploma de economista.

 

 

 

Fosse isto no velho Brasil

 

E só durante o Carnaval

 

As gargalhadas seriam mil

 

Mas, porra, isto é Portugal.

 

 

 

Por um largo par de dias

 

Vai haver  alto falatório

 

Mas depois as arrelias

 

tiram o gajo do purgatório.

 

 

 

Que ele vai voltar lampeiro

 

Ungido pela “sua” universidade

 

Com fama de gajo porreiro

 

Pode ser triste mas é verdade.

 

 

 

O futuro a Deus pertence

 

E o presente aos espertalhões

 

E quem sempre vence

 

Ri-se de nós, os paspalhões!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 * na gravura: cadavre exquis com a participação de Yves Tanguy, Miró, Man Ray e Max Morise 

 

 

 

 

 

 

 

Diário Político 172

mcr, 19.12.11

 

 

Lembro-me como se fosse hoje. Era Coimbra e  o meu ano de caloiro e subitamente numa noite caiu a notícia do ataque indiano a Goa. Circulavam, ainda que muito clandestinamente, notícias sobre uma eventual invasão do “Estado Português  da Índia” mesmo se também se propalava que tal ameaça era de incerta realização.

 

Aliás a guarnição da Índia tinha caído para pouco mais de três mil e quinhentos homens, sabendo-se até que as tropas que tinham ficado lá estavam praticamente desarmadas. Não havia força aérea, os meios navais eram ridículos, não havia artilharia digna desse nome, não havia defesa anti-aérea ou anti-tanque.

 

Há quem afirme que o Governo Português (ou melhor Salazar) desarmara deliberadamente as tropas portuguesas de Goa Damão e Diu para evitar uma investida dos indianos. Não evitou.

 

Salazar  portou-se neste capítulo como um facínora. Exigiu a defesa a outrance e o sacrifício inútil a tropas que se viram invadidas por uma força dez vezes superior. Mas esta desproporção aumentava caso se tenha em conta que as tropas que entraram pela “Índia Portuguesa” eram todas de elite. Do mesmo modo a frota que atacou os dois ou três pequenos barcos de guerra portugueses (um aviso do tempo dos afonsinos e duas lanchas!!!....) era de tal modo superior em poder de fogo, tonelagem, numero de soldados e marinheiros que só por brincadeira se poderia falar em combate. Foi um massacre!

 

Em Coimbra, um bando de esgrouviados direitistas e nacionalistas organizou um cortejo nocturno com rezas e bandeiras à mistura que passou diante do pequeno grupo onde eu estava olhando-nos como se fossemos satiagrás (desculpem a grafia mas era isto o que se chamava aos pacifistas indianos que anos antes tinham entrado por Goa dentro para exigir a libertação da colónia). As forças vivas locais, a legião e a carneiragem (ou seja uma imensa maioria) desfilavam atrás dessa gentuça a quem de repente dera o béri-béri patriótico. O espectáculo alem de grotesco era repelente. Sabia-se que as nossas tropas praticamente desarmadas pela canalhice governamental não poderiam resistir. Que se resistissem, teriam armas e munições antiquadas para apenas um par de horas, que o alcance das suas armas era inferior ao dos assaltantes e que do banho de sangue nada resultaria porquanto nenhum país amigo (?) tinha tropas na região para evitar o colapso da “nossa” Índia.  E que Nehru tinha o apoio dos afro-asiáticos, da Rússia e eventualmente de mais uma boa dúzia de países ocidentais para já não falar na indiferença de muitos outros para os quais a presença portuguesa na Índia era uma anomalia.

 

Nada disto comoveu o Governo e as elites portuguesas que, pura e simplesmente, exigiram a impossível vitória e a mais que certa morte do pequeno grupo militar português.

 

Em trinta ou quarenta horas tudo estava resolvido no meio da apatia ou da indiferença dos cidadãos goeses que não só não apoiaram os portugueses como pouco ou nada vitoriaram os seus libertadores. Seguiram-me meses penosos e infames de campos de concentração para os soldados feitos prisioneiros sem que nada justificasse a demora em os repatriar. E à chegada foi o que se viu. Entraram como réus de alta traição e passaram anos a ser acusados de cobardia por quem na comodidade das suas casas queria saber de sangue de heróis mortos e de gestos desesperados.

 

Cinquenta anos depois, custa-me ver alguns títulos de jornais que falam deste desastre como de um fait divers, como se o sofrimento de alguns milhares de homens, a morte de alguns raros soldados e marinheiros que tentaram resistir, fosse algo de gracioso. Não foi. Esta história, a de Goa e do seu fim  e do destino dos seus soldados regressados, é um exemplo de tudo o que de miserável e infame caracterizava o Estado Novo. E do engano que corria por cá quando se falava de combates rua a rua, de resistência, de glória, das bombardas de Diu e dos sinos da velha Goa. Nada disso era verdade, claro, mas não obstou a que uma onda histérica de patriotismo corresse o país de lés a lés ao mesmo tempo que se incomodavam os cidadãos que mantiveram a cabeça fria. Um dos meus amigos, que já foi deste blog, sofreu mesmo uma detenção pela policia por não se ter levantado á passagem da manifestação de desagravo promovida em Coimbra. Outros, como eu, puseram-se a salvo, e viram semi-escondidos a patrioteiraça  caminhada entre espanto e indignação. Foi há cinquenta anos mas a vergonha ainda hoje a sinto. 

d'Oliveira fecit 17/18 Dezembro

* na gravura: planta de Goa, circa 1750

 

Diário Político 169

mcr, 22.10.11

879 mortos,  milhares de feridos nenhuma desculpa!

 

De Espanha vem a notícia do “fim da guerra” declarada pela ETA. Três criaturas heroicamente escondidas atrás de uns sinistros capuzes, declararam gravemente que acabavam a “campanha”. Depois, acrescentaram uma ininteligível e pouco inteligente declaração politica sobre os seus objectivos, o passado e o futuro.

Poderiam, já agora, ter dito que a bancarrota ideológica, o desastre continuado das prisões, a delação, a contínua torrente de confissões perante as policias francesa e espanhola, o descalabro político que isso, essa imensa cobardia, essa pressa em “falar”, essa incapacidade de resistir, essa desmemoria ideológica, eram motivos suficientes e cada vez mais prementes para acabar com o que já não era mais do que gangsterismo pusilânime.

Não o quiseram fazer. Também não quiseram referir as suas vítimas, muitas das quais sem qualquer importância politica (por exemplo as quase trinta crianças mortas nos atentados cegos) a cobardia demonstrada no sistema de execuções (os famosos tiros pelas costas). Devem achar que quem vai á guerra dá e leva. No caso,  os seus desgraçados adversários desconheciam as mais das vezes que estavam em guerra, que eram alvos, que as suas vidas constituiam um insuperável obstáculo à liberdade do país basco. Liberdade que nunca nenhuma urna democrática confirmou. Basta ler os resultados de todas as eleições. De resto, mesmo que se ponha o velho partido nacionalista basco na mesma barricada da ETA (o que seria milagre!) convirá recordar que nunca a população conseguiu esquecer que na hora do voto, atrás das costas, além das pistolas estava o olhar dos “liberados” dos seus amigos, dos seus homens de palha. E o medo! O medo que fazia os eleitores desertarem dos locais de voto. E, outra vez, o medo. O medo que levou milhares de bascos ao exílio noutras zonas de Espanha. Intelectuais e artistas, políticos e empresários, sindicalistas  e profissionais liberais escolheram sair das terras onde nasceram e onde teriam um mais que duvidoso direito a viver.

A ETA que sempre usou uma linguagem vagamente esquerdista, que sempre proclamou um racismo exacerbado (basta lembrar como chama aos não bascos que trabalham em Euzkadi: “metecos”! Basta recordar as obsoletas e desvairadas teorias de Sabino Araña, o pai espiritual. Basta finalmente lembrar a extraordinária teoria que baseava a singularidade basca no RH negativo que seria, entre os bascos, superior ao verificado no resto da Península. Ao que parece Portugal teria ainda uma quantidade de portadores de RH negativo superior! Somos superbascos, carago!!) quer, com uma declaração vaga e inerme, passar uma esponja sobre um passado injustificável e injustificado, olhe-se de onde se olhar.

A sua acção nunca pôs em causa o regime franquista, mesmo se num espectacular atentado tenham dado conta do general Muñoz Grandes (que, aqui para nós, ou para mim que sou pouco dado à piedade cristã e a oferecer a outra face, não causou tristeza a nenhum democrata). Provavelmente até contribuiu para um acréscimo de violência do regime ditatorial. Todavia, uma vez recuperada a liberdade, estabelecida a democracia, nada justificava a escalada terrorista, o redobrar de violência dos seus comandos e o terror espalhado nos quatro cantos do país.   

Mas não acabam aqui os crimes desta mafia nacionalista. Executaram com a mesma sanha, todos quantos tentavam sair da organização mesmo se, como quase sempre ocorreu, nunca delataram outros militantes. Por todos, relembremos a sinistra execução de Yoyes, que regressara do exílio mexicano à terra natal depois de ter obtido garantias dos dirigentes máximos da ETA (de “Txomin” para ser mais exacto). Foi assassinada quando passeava com o filho de três anos pela mão. Por ordens directas do sinistro “Pakito” Garmendia, provável assassino de Pertur, dirigente da ETA politico-militar, preso anos depois, condenado e que recentementye escreveu á direcção da organização propondo o fim das actividades da organização. A cadeia, é uma chatice e Pakito aposta agora na democracia e numa rápida libertação.

O fim da ETA, ora anunciado, apressa a inevitável certidão de óbito de uma organização que estava já em coma profundo e irreversível. Politico, militar e sociológico.

A ETA aprendeu com a História: de modo semelhante saíram de cena as Brigadas Vermelhas ou o IRA. Esgotamento puro e simples, perda de apoio popular, aumento da condenação social.

Pena é que essa lucidez final não a tenha iluminado durante os quase quarenta anos de democracia em Espanha.   

d'Oliveira fecit 22.10.2011

Diário Político 179

mcr, 13.10.11

La Cina é vicina

 

 

 

Noticiam os jornais, quase em manchete, que o homem mais rico da China (cerca de dez mil milhões de dólares !!!), de seu nome Liang Wengen é candidato ao Comité Central do Partido Comunista Chinês (CC do PCC). É candidato já aprovado pela Comissão de controle e pelo Departamento de Organização do PCC, ou seja, já lá está, mesmo se só para o ano que vem se formalize (no XVIII Congresso) a sua ascenção ao núcleo duro do organismo político que dirige a China.

 

É obra!, dirão alguns que desconhecem as subtilezas do marxismo-leninismo-maoísmo.

 

Nada disso, retorquirei eu, admirador relapso e ex-simpatizante infiel e hesitante do finado grande Timoneiro.

 

O sistema comunista, para usar uma expressão imprecisa mas fácil de entender, está hoje confinado a parte da Ásia (China, Coreia do Norte, Vietnam, e anexos e a Cuba, mesmo se nesta a coisa esteja em dificuldades tais que não parece arriscado prever um atribulado fim. Em morrendo Fidel, as probabilidades do regime poder manter-se diminuem extraordinariamente. O bunker castrista está envelhecido, a população ingrata dá crescentes sinais de desafeição e as notícias do desastre económico, social e cultural em que o sistema tropeça diariamente são inquietantes. Pelos vistos, nessas terras abençoadas pelos milagres de Castro ninguém percebe os prodigiosos passos que se deram em direcção à felicidade material e ao aperfeiçoamento ideológico.

 

Todavia, por muito que uma imaginação delirasse quanto aos caminhos desta buliçosa (mesmo se  leninisticamente desviada) herança de Marx, nunca por nunca alguém fora capaz de prever esta entrada do capital no círculo todo poderoso de um partido que se reclama do anti-revisionismo, do maoísmo, do verdadeiro leninismo e sei lá de que mais coisas!

 

A China, perdão a Republica Popular da China, oferece desde há anos, uma fotografia exaltante de salada revolucionária temperada pelo capitalismo mais selvagem. Por um lado, os guardiões do templo usam e abusam do receituário marxista-leninista-maoísta e do uso exemplar da autoridade que daí decorre. Na RPC, a regra é a probição e a excepção é a permissão. Permite-se enriquecer, mas não criticar. Permite-se a exploração desenfreada dos formidáveis excedentes humanos expulsos do campo, mas não a sindicalização desses mesmos trabalhadores. Permite-se o luxo asiático (nunca uma palavra foi tão bem usada) dos novos ricos e dos parvenus e o seu espantoso conúbio com os políticos mas  não a denúncia dos abusos. Os tribunais são uma paródia de mau gosto e o ingresso nas fileiras do partido “do proletariado” uma condição sine qua non para melhorar a vida. Na RPC o que menos surpreende é o facto dos justiciados por fusilamento serem obrigados a pagar a bala redentora que os suprime.

 

Desconheço – e francamente pouco se me dá – qual a opinião do “nosso” “partido” sobre esta súbita ascenção do principal capitalista chinês ao sanctus santorum chinês e revolucionário. Se por lá houvesse uma crise ainda perceberia que o senhor Liang, perdão, o camarada Liang viesse de corda ao peito, pagá-la com os seus formidáveis milhares de milhões. Mas, exceptuando os deserdados do costume, e são muitos, a crise chinesa não existe. O pais cresce a taxas altíssimas e, dentro de dez anos, será mais rico que o Japão e a América juntos. Claro que ninguém pensou nesta simples verdade: Liang é apenas, mesmo se capitalista, um exemplo mais do stakanovismo económico e financeiro. Ou seja, está claramente dentro dos mais rígidos e puros parâmetros do pensamento stalinista e da glorificação de que foram alvo alguns demiurgos trabalhadores da desaparecida União Soviética.

 

E a quem pense que a fortuna amassada está em contradição com os princípios contidos no exacerbado e célebre Pequeno Livro Vermelho, sempre lhe responderei que entre um ricaço e o povo não há nenhuma contradição antagónica mas simplesmente uma “contradição no seio do povo”. De facto a acção do eminente futuro membro do comité Central poderá “ter favorecido a união do povo de todas as nacionalidades do nosso país”..., seguramente favoreceu “o reforço da ditadura democrática popular” poderá ter favorecido “a transformação e a edificação socialistas”..., “o reforço do centralismo democrático...”, o reforço da direcção do Partido comunista”... e mesmo “a solidariedade internacional socialista e a solidariedade de todos os povos pacíficos do mundo”...como aliás decorre de uma leitura atenta e desapaixonada do texto “da justa solução das contradições no seio do povo” de Fevereiro de 1957 (cfr “Citations do President Mao Tse Toung”, editions en langues etrangeres, Pekin, 1966, pp. 54 e 55).

 

Temo, porém, que dessa banda, as notícias sejam tão escassas quanto as que eventualmente comentam o progresso da República Popular da Coreia, vulgo Coreia do Norte, onde se inaugurou a hereditariedade no principal cargo político da Nação. Depois do ditirâmbico Kium Il Sung, “o grande líder” e “presidente eterno”, temos o actual Kim jong Il, filho do anterior e “líder querido”. Por sua vez este último já promoveu o seu abencerragem a sucessor. Trata-se, fixem o nome, do inefável Kim Jong-Un que apesar de só ter 26 anos já é general de quatro estrelas! Singularidades do marxismo-leninismo...

 

Regressando à vaca fria, pratiquemos mais um pouco sobre este prodígio da dialéctica que vem desmentir o velho adágio cristão (é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no céu) mesmo se o céu laico  seja menos metafísico do que o prometido nas Escrituras. Também é verdade que nesses tempos longínquos, ainda não tinha sido descoberto o materialismo histórico.

 

A China, onde ainda vale a luta de classes e a ditadura do proletariado, não quis dar o passo que a actual Rússia deu, quando abandonadas as bandeiras vermelhas e a restante parafernália bolchevique, converteu os mais altos quadros do Partido e da Polícia política nos novos e democráticos dirigentes do Estado e das empresas mais rentáveis. Ou por outras palavras, se a resistente múmia de Lenin o permite, capitalismo estádio supremo do comunismo. 

 

Na RPC, mais apegada à história pregressa da Revolução, os capitalistas são tigres de papel que podem tomar assento no Comité Central sem prejuízo da causa das mais amplas camadas populares, dos amanhãs que cantam e do poder do povo.

 

Nos idos de sessenta, correu por vários sítios, mas não cá, um filme chamado “la Cina è vicina”. Convenhamos que, mesmo se interessante, hoje seria quase incompreensível. Provavelmente, na época, também o era, para todos os que andassem distraídos ou menos embrenhados na formidável discussão que grassava nos meios revolucionários.  A última grande utopia do século XX desfazia-se entre o choque da realidade, o fracasso das sociedades organizadas pelos partidos comunistas, a ascenção das nomenklaturas locais e a ausência de quaisquer liberdades públicas nesses mesmos países.

 

Entretanto na China verdadeira, massas informes de rapazinhos e rapariguinhas, invadiam a rua, as casas, as empresas, queimavam Confúcio e Shakespeare, brandindo um livrinho vermelho carregado de frases fora do contexto e provocavam com a sua acção, comandada por outros e mais inteligentes actores, dezenas de milhões de vítimas enquanto cantavam loas a um homem envelhecido que tal qual os vampitros da lenda parecia sobreviver alimentando-se do sangue dos seus mais fieis companheiros, chamassem-se eles Lin Piao, Liu Xao Xi ou Xu En Lai.

 

A historieta do filme, o massacre moral de quatro ou cinco personagens era, eventualmente sem o querer, a fotografia singela e ocidentalmente possível desses anos de fim de época absurda.

 

Mas, para quem os viveu, a ascenção de Liang Wengen só espanta por tardia.  

 

(durante os anos 64-67 interessei-me vivamente pelo que se passava na China. Li com admirável constância grande parte dos três primeiros tomos das “Oeuvres Choisies” de Mao, e igualmente alguns outros teóricos chineses, de que destaco “pour etre un bon communiste” do malogrado Liu Chao Chi bem como uma espessa obra de Kuo Mo Jo: “K’iu yuan”. Quando em 1967 comecei a aventura de ler as já citadas “citations” e os textos apologéticos de um punhado de intelectuais, sinófilos a outrance ( Daubier, Mavrakis, Michelle Loi. Bettelheim, Ballestrini, Macciocchi, Collotti-Pischel, Schram, Bouc e a revista Tel Quel), comecei a ceder ao inefável pecado da dúvida. Aquilo era paraíso a mais, genialidade a mais, cenário a mais. Quando soube que nenhuma destas criaturas sabia uma palavra de chinês, que tinham sido passeadas pelas imensidões asiáticas sempre cercadas de intérpretes e outros “oficiais” do regime, percebi que a coisa não funcionava  E depois de passar os olhos por sinologos eminentes e respeitados  perdi a fé. Total e definitivamente!)

 

E mansamente fui tentar perceber o que leva um intelectual ocidental a cair sistematicamente nos mesmos erros em que a geração anterior se perdeu, imitando nisso outra que a precedera. É tal o desejo de utopia, a nec essidade de se demarcar do quotidiano morno e pouco exaltante que nos cerca que, a todo o momento, julgamos ver a luz ao virar da esquina. E fazer aquilo que Lenin, o embalsamado, recomendava: a análise concreta da situação concreta. Ver com olhos de ver o que estava à vista, sem o manto da fantasia, nem os óculos da ideologia. E tentar perceber....sempre.

 

Sei que esta maneira de avaliar o que se passa é demasiado fria, sem exaltação, sem alegria. Mas é para isso que temos um cérebro ou, como dizia a personagem histórica a quem devo o meu nick name, “é preciso dar força à razão para que o acaso não governe as nossas vidas”!

 

E não ter receio da verdade mesmo se, ao contrario de Gramsci, ela não seja “sempre revolucionária”.

 

Assim sendo, não me surpreende a entrada do senhor Liang no Comité Central. E, pressinto, que será apenas o primeiro de uma longa teoria de capitalistas patriotas a vir dar o seu contributo à causa da felicidade eterna que o fim da história e do capitalismo anunciam.    

 

d'Oliveira fecit 14.10.11 

 

 

 

 

 

Diário Político 172

mcr, 24.08.11

O Verão, sempre ele

 

Pois é, queridas paroquianas, o Verão chama para o mar, para o dolce far niente, que é uma boa perífrase da mais cruel realidade da preguiça, para as notícias de contrabando, enfim, para tudo quanto cabe na noção de silly season.

 

Claro que a “estação calmosa” é também o momento oportuno para o Governo, todos os governos, indígenas e estrangeiros, nos ferrar com um par de bandarilhas. Enquanto a maralha está na praia a ver passar as/os atletas do bronze, os cavalheiros lá de cima arregaçam as mangas e sangram-nos mais uns tostões.

 

Não é de hoje, nem de ontem e, desta vez, estávamos avisados. Não que o aviso minore a dor ou sirva de desculpa mas estávamos avisados. Aliás, este Governo não tem feito outra coisa senão avisar a malta que o cacau faz falta.

 

Portanto, desse lado, nem novas nem mandados: cá, ou no resto do mundo, as coisas não vão de feição (ou melhor vão razoáveis para os chineses e outros BRIC mas basta deixá-los pousar: quando começarem a pagar salários decentes e toda a gente quiser o. até agora para eles, impensável cá estaremos – se vivermos – na primeira fila a assistir.)

 

Não pensem que estou a apelar à REVOLUÇÃO ão, ão porque não estou. Eu, mais modestamente, lembro verdades antigas e evidentes quais sejam a de que ninguém consegue viver acima dos seus meios indefinidamente. Mas isso, sendo muito um apelo a uma outra maneira de viver, cai seguramente em saco roto. Não importa, eu venho dos anos sessenta – mas sem faca nos dentes nem Stalin, Mao ou Lenin como viático – e mesmo a alguns passos da cova, continuo convencido que o capitalismo selvagem é amamentado pelo consumismo sem freio, pela falta de (est)ética pela incapacidade de conceber a sociedade de cidadãos (e não de súbditos) bem como pelos ópios intelectuais quer os que pariram o século XX quer os anteriores  que já Voltaire acusava. O socialismo burocrático com os seus epigonais profetas que imitam (quando não superam) os das igrejas estabelecidas não apresentou propostas libertadoras. O facilitismo actual é filho dessa tropa fandanga que atormenta os espíritos e perturba a liberdade dos que ainda querem pensar o mundo.

 

Portanto não vou sequer rever o Papa em Madrid porque ele não disse sequer mais meia linha do que estava dito. Nem a festa multitudinária esconde a falta de projecto para os anos que se anunciam.

 

Também não me apetece explorar os gatunos de Londres e arredores: aquilo não é só (nem sequer principalmente) produto da pobreza, do racismo, da exclusão. Aquilo é o espelho em que se podem mirar todos quantos paternalisticamente se têm debruçado sobre estas sociedades feitas de nada e de coisa nenhuma. Aqueles bandos não têm moral porque até ontem os deixaram não a ter. De repente, a polícia e o estado descobrem que é preciso mão dura quando durante anos, assobiavam para o lado por que aquilo se continha dentro de limites, digamos, razoáveis.

 

Também não me apetece falar do frio, calmo e sanguinário norueguês que veio apenas provar que a extrema direita dorme no mais pacífico dos ovos mas que, a todo o momento, como os vulcões, acorda e causa estragos. E já agora, que se está com a mão na massa, talvez seja interessante, começar a falar a sério nessa extraordinária invenção ou moda que é o multiculturalismo.

 

Multiculturalismo, a secas, é apenas ignorância. Importação acéfala e acrítica de restos de culturas não compreendidas de que aliás os seus portadores fogem. Na ânsia de se fazerem perdoar pelo euro-centrismo, pelo colonialismo e pela exploração de outros mundos e povos, alguns basbaques europeus olham comovidos e em estado de gozoso deleite para a “máscara” de um par de costumes que urge proibir. A saber, a desigualdade das mulheres, e todos os seus efeitos, da burka à ablação do clítoris, a ideia da religião ser totalizante e totalitária, com o seu cortejo de sharias e lapidações, os vudus e todas as crendices que suprem a pobre e utilitária religião de cada dia nos dai hoje.

 

E sobretudo conviria indagar se o nosso “multiculturalismo”, tão politica como imbecilmente correcto, é aceite nos outros sítios do vasto mundo. Ou apenas se deve usar no mundo ocidental? Isto, senhoras e cavalheiros, é racismo tonto e incultura geral. Demorámos demasiados anos, demasiadas gerações a criar um mundo tolerante mas respeitoso da lei, da liberdade, da igualdade e da democracia. Aceitar o outro não é aceitar tudo o que ele traz sobretudo se isso implica abrir excepções aquilo que livremente entendemos dever caracterizar as nossas sociedades. A não ser assim, só estamos a criar os breiviks de outros e reaccionários descontentamentos.

 

E daqui passamos às boas novas da frente líbia. Pelos vistos, é desta que Kadafi se vai. Ou melhor, esperemos que não vá. Que seja julgado pela sua gente, pelos que ele governou despoticamente durante quarenta dramáticos anos. Seia fácil deixá-lo partir para a delirante Venezuela de Chavez ou para a desastrosa Nicarágua que deixa morrer gente à fome mas persiste em estender a mão a tiranos e ao auxílio do mundo dito rico. Os manda-chuvas destas duas singulares e desgraçadas nações já se ofereceram para acolher o homem que matou centenas de pessoas em Lockerbie.

 

E não deixemos de fora a síria, onde semanalmente se vão acrescentando umas dezenas de vítimas mortais ao rol já impressionante de assassinados por Assad.

 

O mundo árabe fervilha, pouco me importa se no meio há ou não islamistas –morrem e combatem como os outros – por alguma liberdade e outro tanto de democracia. Eppure si muove! Ainda bem. Ainda bem mesmo se isso ao modificar os dados da produção e venda do petróleo nos vier mexer na alma, quero dizer, no bolso. Já era tempo!

 

Com tanta parlapatice, esqueci-me do magno problema dos árbitros e do Sporting. Arranjem um apitador que finalmente permita que o raio do clube marque –seja de que maneira for! -  uns golos. Ou aumentem as balizas dos adversários para o dobro! E diminuam o número de jogadores da equipa contraria em duas ou mesmo três unidades. A ver se os “verdes” ganham, que diabo!

 

*a gravura de mau gosto representa o modo pouco civilizado de estar no mundo de d'Oliveira que não se importa de coisificar a mulher apenas para ilustrar os seus baixos instintos e o seu conservadorismo filisteu

d'Oliveira fecit 24-08.11

 

 

 

Diário Político 171

mcr, 08.08.11

A menina dos 14 segundos

 

 

 

Novidades da pátria madrasta chegam a conta gotas via uma coisa chamada “Correio da Manhã” que eu nunca tinha folheado, ou pelo mais razoável “JN”

 

Fiquei avisado quanto ao primeiro depois de uma rápida olhadela. A coisa pareceu-me tão extraordinária que, por pouco, o comprava. Só para ver se a primeira página correspondia ao resto. Felizmente a senhora do quiosque deu-me licença para o folhear. Livra! E é aquilo o jornal que mais se vende no torrãozinho. Começo a perceber porque é que a “moody’s” nos quer mal.

 

Deixemos, todavia, esta amostra eloquente do espírito luso e passemos às novidades.

 

 Uma jovem deputada, noviça nestas coisas do Parlamento mas desejosa de mostrar serviço, entendeu testar a velocidade de atendimento do 112 ou do INEM, não se percebe bem. 14 segundos demorou o outro lado a atender. A prometedora parlamentar encheu o peito de ar e, zás, catrapás!, arreou a giga numa dessas excelsas comissões onde, pelos vistos, qualquer um tem assento.

 

Deixando de lado a legalidade do gesto, a legitimidade da amostragem, a utilidade do telefonema, temos que a criatura observou que duns propagandeados cinco segundos de resposta (verificados em média em 60% dos casos) se passava para catorze! Um escândalo, bramiu! Uma vergonha!

 

Tivesse ela meditado 15 segundos, quinze minutos, vá lá, e teria percebido que mesmo 15 miseráveis segundos é um bom tempo de resposta sobretudo se for o máximo possível. É que os famosos cinco segundos de média num total de 60& de casos analisados, são isso mesmo: uma média. E uma média notabilíssima, deve dizer-se, duvidosamente alcançável a todo o tempo e em todos os casos.

 

Mas isto de pensar no essencial, nem que seja só por um escasso quarto de hora, parece não estar ao alcance da jovem estreante do PPD. Eu não sei onde é que vão buscar os candidatos ao Parlamento, ou, pior ainda, atrevo-me a supor que sei...

 

E o que sei é mau, desagradável, pouco recomendável. O parlamento não atrai os mais inteligentes, os mais talentosos, os mais brilhantes. Nem sequer os que mais se distinguiram nos estudos ou na profissão que abraçaram.

 

A jovem heroína deste pequeno arruído no início da silly season deverá vir das juventudes partidárias ou de algo da mesma substância e do mesmo teor. Ou seja, de pouco, quase nada: Muito boa vontade, muita ambição, muito tarefismo, fidelidade q. b. a quem controla o aparelho, a secção, a distrital, ou lá o que seja. 

 

Dir-me-ão daí que faço, de um pequeno episódio, demasiado caso. Desculpem, mas não. A intervenção extemporânea e insensata da criaturinha, numa comissão que tem graves e importantes afazeres e responsabilidades redobradas nos tempos que correm (e já não falo nos que se aproximam), o à-vontade com que tripudiou sobre serviços em que os portugueses acreditam, em que confiam e de que esperam êxito no eventual caso de a eles terem de recorrer, exigiriam da deputada, estudo, cuidado, reflexão e atenção. Nada disso ocorreu. Mesmo se, depois veio uma esfarrapada comunicação a tentar desfazer o mal entendido.

 

Esta jovem deputada deveria, no mínimo sair da comissão onde se pavoneia e para a qual provavelmente não serve. Quais são os seus conhecimentos profissionais, as qualidades, a experiência que a atiraram para esta comissão? Urge sabê-lo para não corrermos o risco de, mais dia menos dia, apanharmos com algum projecto de legislação saído de tão turbilhonante cabecinha.

 

Ou, pior, de alguém com responsabilidades e passado, se sentir ofendido pelas injunções da criatura e achar que não vale a pena levar a cabo funções sujeitas a uma tutela deste género e qualidade. As pessoas têm o direito de ser defendidas de deputados/as ansiosos/as e desejosos/as de fama rápida.

 

Por favor ofereçam à criatura quinze meses de estudo sério, fora do parlamento. Com exame no fim. Para bem dela e, sobretudo, nosso. 

 

*d'Oliveira, algures no vasto mundo e sem saudades da pátria ingrata

 

Diário Político 168

mcr, 17.07.11

Não estão na moda

 

 

 

Não, já não estão na moda. Mesmo se, ritualmente, todas as sextas-feiras, no noticiário da noite se faça menção de mais umas dezenas de mortos já não estão na moda.

 

Ao fim e ao cabo, são árabes, mouros, inimigos da fé e do falecido império. Ainda por cima, são sírios, ou seja, gente que desconhecemos em absoluto. Se, ao menos, fossem palestinianos, sempre haveria uma boa alma de esquerda (e não de Setchuan...) a lamentar o desperdício. Mas são só sírios. E depois, aquilo é complicado. Há por lá drusos, chiitas, alauitas, sunitas, curdos e sei lá mais quê. E um par de cristãos sem importância de maior. E, cereja no bolo, o rapazola Assad, filho e herdeiro de um outro Assad, que muita e boa esquerda venerava como se fora um dos seus (e outra tanta direita igualmente louvava porque o homem combatia os “sionistas”), cavalheiros vindos de uma, mais uma!, conspirata militar, politica (partido Baath) e religiosa,  alauita. Ou seja não é sunita nem exactamente chiita, mesmo se a generalidade dos comentadores, dê a seita como uma heterodoxia do chiismo. 

 

Na prática, para quem, de facto, move os peões neste xadrez médio-oriental, o facto da dinastia Assad (que governa ininterruptamente o pais desde há quarenta e tal anos) pertencer à minoria alauita dá imenso jeito pois não desequilibra a balança a favor do mais numeroso grupo sunita e mantém em respeito curdos, cristãos e drusos e restantes chiitas ortodoxos. Depois, desde a perda dos montes Golam, a sua verborreica oposição a Israel é exactamente isso: verborreia! Muito barulho para nada. E ainda tem uma vantagem suplementar: quando é preciso, a Síria faz de policia no irrequieto Líbano.

 

Tudo, portanto, correria bem, não fora a chamada “primavera árabe” continuar teimosamente o seu percurso, carregado de mortos, sempre os mesmos, os que reclamam liberdade e democracia, por entre a indiferenças de muitos e o descuido de quase todos. Nem a guerra civil declarada (Líbia), a larvar (Iémen), a mudança mais ou menos tranquila (Marrocos, que todavia, oh espanto, chega às luzes da ribalta porque há ainda quem pareça querer mais, sem curar de parar para reflectir que estas actuais importantes reformas fornecem pano para mangas para um bom par de anos de tranquila mas decidida evolução democrática, atalhando caminho aos pequenos grupos radicais e messiânicos existentes no reino), gozam agora de lugar nos noticiários.

 

De facto, convenhamos, não convém esta evolução do outro lado do mare nostrum. O árabe dramático e radical dava imenso jeito aos xenófobos que pululam na Europa, aos saudosos da revolução final (que pululam pouco) e a todos quantos se obstinam em manter um status quo, seja em Israel, seja nos poços do petróleo.

 

De modo que, para abreviar, aqui fica uma chamada de atenção para uns e uma garantia para outros. Este cronista está atento, indignado, incomodado e solidário com a rua árabe. E irá dando notícia dos mortos sem sepultura, das vozes dissonantes e de tudo o que vai acontecendo.

 

Para já, notícia é não haver notícia diferente e só isso deveria incomodar muita consciência tranquila: na Síria (e não só) continua a morrer gente, porventura a melhor, porventura a mais interessante e, indubitavelmente, aquela que, mais depressa e melhor, poderia estabelecer pontes estáveis com esta Europa á beira Verão e à beira abismo.   

d'Oliveira, 17.07.11