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Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

Au bonheur des dames 487

d'oliveira, 09.06.19

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Fazer dos outros parvos

mcr 9-06-2019

 

1) Eu não queria falar do dr Victor Constâncio. E não queria por uma velha velhíssima razão. Há muitos, sei lá quantos, anos, um velho amigo meu ao saber que eu não estava inscrito num partido, entendeu insistir durante semanas para que entrasse no PS. Na altura o PS andava na mó de baixo, o meu amigo dava-me cabo do pouco juízo que tinha de modo que lá me inscrevi. Descobri, estupefacto, que tendo saído de um agrupamento em que fervilhava a discussãoo ideológica, o PS era um remansoso local onde ninguém se dava a tais práticas. Na secção que me foi destinada, o mais político que ouvi da boca de uma senhora que fazia de responsável foi que os militantes machos fumavam que nem carvoeiros e que ela tinha de varrer a sala das cinzas e até de uma que outra beata deixada cair por algum camarada menos cuidadoso. Não vou contar a minha vida partidária mas sempre acrescento que subi de vento em popa e um mês depois de entrar já era delegado a um congresso federativo, candidato sem o saber a um lugar no respectivo secretariado e mais não sei o quê.

tudo isto porque na campanha que opunha Constâncio a Jaime Gama, escolhi como de costume o lado errado e defendi Constâncio um par de vezes ( “minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”). Constâncio ganhou e na direcção do PS cometeu o erro trágico de se deixar seduzir por uma iniciativa do PRD (Partido Renovador Democrático, criado à sombra quarteleira do senhor general Eanes e organização estrafalária e populista até dizer chega que fundamentalmente se apresentava como redentora.

Na altura o Senhor professor Cavaco Silva era primeiro ministro e estava à frente de um Governo minoritário . O PRD (18% ds votos) entendeu propor uma moção de desconfiança e o PS (21 ou 22%) apoiou a ideia. Cavaco caiu. Convém lembrar que até o dr Mário Soares mandava recados ao partido advertindo que em caso de vitória da moção haveria eleições e que as perspectivas não eram as melhores para o PS.

O PS e Constâncio não acreditaram pois pensavam que no último momento seriam chamados a formar Governo. Não foram. A partirdaí Cavaco ganhou com maioria absoluta dois mandatos sucessivose o PS andou pelos corredores esconsos de S Bento a falar sozinho. Entretanto o PRD, essa fantasia pretensiosa, desapareceu sem deixar rasto nem saudades. Vitor Constâncio lá se resignou a abandonar o lugar no PS e o cargo de deputado. Pode dizer-se que nesta fase sombria não se distinguiu nem pelo génio político, nem pelo talento oratório.

Entretanto, este cronista, depois de ter tentado por todos os meios convencer os seus camaradas da loucura de votar com o PRD, desandou do PS, explicando numa cartinha tudo o que pensava daquela aventura. Todavia, poupava Constâncio que “teria sido mal aconselhado”! Ingenuidade minha, claro.

Mesmo assim, custa ver alguém por quem demos a cara a fazer-se de sonso, de desmemoriado, de ignorante, de inocente útil e parvo. Constâncio, pelo que afirmou na Comissão da AR, não se lembrava, não tinha de saber, não sabia enfim, o Governador do Banco de Portugal que ele era andava por lá como na política: às cegas, aos baldões, aos tropeções a apanhar calduços ou cachaços dos malandrins que gozavam o gordinho que passava.

Uma tristeza!

 

2 A digna sucessora dos senhores João Soares, o “esbofeteador” e de Castro Mendes o “fantasma desconhecido”, Doutora Graça Fonseca, a propósito da lista de obras desaparecidas do acervo do Ministério, afirmou, sem tentar ser irónica, que tais obras apenas estavam por localizar. Patético! Ou ridículo, se preferirem...

Conviria lembrar à distinta senhora que qualquer desaparecido está por localizar, É assim nos comunicados de guerra ou sobre desastres: "há mortos, feridos e desaparecidos." Infelizmente, muitos destes últimos nunca parecem ou aparecem já cadáveres. Os americanos até tem uma sigla:MIA (missing in action”).

Portanto as obras “por localizar” estão desaparecidas. É aliás provável que continuem “inlocalizaveis” perdoe-se a palavrinha inventada e abstrusa. São quase 200 as vítimas deste inexplicável nevoeiro. Ou melhor: quem conhece os labirínticos corredores dessa coisa pomposa chamada Ministério da Cultura, desconfia mesmo da veracidade da lista. Estará completa?

Em tempos que lá vão, aquilo era uma balbúrdia. As peças circulavam livremente por todo o lado, não havia um registo seguro do comprado, do recebido como oferta, sequer do eventualmente deteriorado.

Ainda recordo, uma excursão feita à garagem do Ministério, estava este ainda na Avenida da República. Em vez de carros, havia pilhas enormes de livros. Tratava-se de obras editadas com o apoio do Instituto do Livro e que numa certa percentagem eram entregues ao MC. Ali chegavam e ali estadeavam sem préstimo nem destino. Semanas, meses, anos. Recordo igualmente, uma gigantesca partida de livros  adquiridos a uma(s)editora(s) em risco que o ME, na sua versão Secretaria de Estado tentava impingir às instituições que os quisessem.  E foram raras as que, depois de prevenidas, acorreram a levantar os livros...

Recordo também, um livro sobre Camilo Castelo Branco, publicado a expensas do Ministério pela comissão das comemorações do centenário de CCB em 1991, chamado “Imagens Camilianas” Tratava-se de um belíssimo álbum, com caixa própria que reproduzia em mais de 60 páginas, imagens do escritor. Uma vez publicado, foi enviado para a Delegação Regional do MC no Porto e mais uma vez os montes de livros ficaram por lá sem serventia. Que se saiba nunca foram distribuídos sequer vendidos. Uma pequena pesquiza revela alguns exemplares à venda no OLX, e em dois alfarrabistas do Porto. Recordo que no local onde estavam depositados houve uma inundação que destruiu alguns exemplares. Os restantes bem como uma série de obras de pintura transitaram para Vila Real, destino escolhido pelo dr Santana Lopes (outra luminária cultural feita Secretário de Estado!) para a DRN . Nesse lote ia o original de “A liberdade está na rua” (Vieira da Silva) e um belíssimo desenho de Fernando Lanhas. Ao todo seriam duas ou três dúzias de peças, incluindo algumas esculturas. Nem quero pensar no que lhes terá sucedido. Pela parte que me toca (bem como aos dois anteriores Delegados Regionais) tive o cuidado de ao deixar o cargo, pedir quitação e inventário do que passava para a criatura que me substituiu(dinheiros e obras de arte. Cautelas e caldos de galinha nunca são de mais, tanto mais que eu saía daquela casa depois de me demitir  do cargo e em claro enfrentamento com o inglório fundador desse partido largamente derrotado nas últimas eleições ).

Voltando à doutora Fonseca, especialista gorada em eufemismos e desastrada responsável da Cultura nacional, a sua reacção à notícia do Expresso diz muito do estado a que chegou cultura democrática e a ideia de responsabilidade que deveria presidir aos actos e às palavras de quem momentaneamente (e mal, pelo que se vê) governa a pobre pátria. Ainda por cima, o desaparecimento ou, pelo menos, notícias dele, tem anos. De facto há muito tempo telefonou-me alguém que já na altura andaria na peugada das peças. E já havia várias (pelo menos das que estavam na DRN) que estariam em Alcácer Quibir prontas a regressar com o rei D Sebastião numa eventual manhã de nevoeiro.

Na origem deste mistério “doloroso” ou “gozoso” (é só escolher) está o estranho facto de as peças artísticas andarem sempre a mudar de poiso e de não haver um registo claro dessa deambulação ou sequer haver uma ficha decente da peça (com fotografia, preço, data de aquisição. medidas, e demais dados pertinentes. Recordo que na DRN (mais uma vez!) isso foi feito com enorme rigor por Manuel Matos Fernandes, um grande funcionário entretanto falecido. E que tal inventário foi, devidamente enviado, para “conhecimento” ao Ministério. Não me lembro entretanto se alguém de lá se deu ao trabalho de acusar a recepção. E uso o “não me lembro” apenas porque me custaria dizer que pura e simplesmente se estiveram nas tintas. Como já nesses anos do fim do século, ocorria com frequência, displicência e falta de consciência...

na gravura: “A poesia está na rua” (Vieira da Silva)