Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Incursões

Instância de Retemperação.

Incursões

Instância de Retemperação.

17
Abr14

au bonheur des Dames 358

d'oliveira

 

 

17 Abril de 1969

 

Foi já há muito tempo. Numa cidade pequena mesmo se naquele tempo todas as outras fossem igualmente pequenas, mermadas no silêncio imposto, na desconfiança generalizada, no medo, na falta de horizontes.

Como de costume, tudo nasceu de um acaso, mesmo se, como se sabe, os acasos dão imenso trabalho a fazer.

Inaugurava-se, com um atraso de anos, mais um (feio) edifício académico e a “Academia” propunha-se dizer de sua justiça no evento. As “autoridades”, essas, tinham da rapaziada moça uma ideia certeira: fora o serem carne para canhão ou canhangulo (os rapazes) e criaturinhas influenciáveis (as raparigas) nada de bom viria daquela mocidade.

Durante três (quase quatro) anos a Associação Académica tinha sido (des)governada pro comissões administrativas saídas da minoria de extrema direita que se passeava na cidade habilmente (ou nem tanto) pastoreada por um senhor professor de Letras de seu nome Miranda Barbosa. Conselheiro oculto mas activíssimo da pequena franja nacionalista, tinha conseguido reduzir a forte Associação auma casa vazia sem alma e sem gente. De fora, a “Academia” multiplicava-se em iniciativas, conquistava gerações de estudantes e, quando foi altura, ganhou as eleições para a AAC sem esforço e por uma margem gigantesca.

Fechava-se mais um dos muitos parágrafos da historia estudantil de Coimbra e a Direita era enxotada para um pequeno recanto, mais frágil do que nunca, sem discurso, sem prática política que se visse e sem autoridade moral, ética ou cidadã.

Isto que era patente na altura, pareceu inacreditável aos olhos dos senhores reitores, diretores, ministros & demais comandita. Aquelas criaturas além de sonsas, não tinham qualquer pitada de bom senso. Ou então, estavam dispostas não só a não evitar algum conflito mas, mais do que isso, a provoca-lo.

Os “incidentes” do 17 de Abril em Coimbra foram única e exclusivamente provocados pelas pomposas “autoridades” (académicas e políticas) que nem sequer souberam refrear a burrice a auto suficiência depois de ver no exterior duma compacta multidão de estudantes que já não conseguira lugar no salão onde decorreriam as cerimónias. 

Depois, foi o que se viu. Uma barafunda, uma cerimónia interrompida, uma quase fuga do Presidente da República e da comitiva, e uma gargalhada fresca e alegre da estudantada.

Como aquela gente (e esta, a de hoje, identicamente) não sabia nem queria aprender, a coisa degenerou em repressão, inicialmente pouca e depois, mas sempre a reboque dos acontecimentos, crescente. Processos disciplinares, greves, prisões, polícia, manifestações, chanfalhada nos lombos juvenis, discursatas ao país, notas oficiosas, incorporação dos “mais rebeldes” na tropa, ameaças de expulsão da universidade, ocupaçãoo quase militar da cidade, enfim um processo político tão torpe quanto ineficaz que acabou num Reitor apeado, num Ministro demitido, numa mais que generosa época especial de exames para os grevistas, no regresso dos incorporados em Mafra e na anulação dos processos disciplinares em curso.

Não quero, longe disso, negar a inteligência táctica dos estudantes, a visão política dos dirigentes estudantis, a coragem de milhares de raparigas e rapazes, a compreensão solidária dos habitantes de Coimbra, o  bom senso de muitas famílias, a ajuda de alguns professores. Tudo isso, contribuiu para fazer da Greve Académica de 1969 em Coimbra, o único exemplo de luta académica vitoriosa que conheço. Vitoriosa logo, e não muitos anos depois. Outros movimentos estudantis (1908, 1962) deixaram semente constituíram exemplos mas, no imediato, traduziram-se em demasiado sacrifício e forte desmobilização sequente e prolongada.

Honro-me de ter estado lá, de ter feito parte, de ter sofrido algumas consequências das minhas acções, de ter com Orlando Leonardo e João Bilhau, andado fugido dois largos meses, de termos os três sido os últimos presos da crise e os que mais tempo estiveram privados de liberdade. Praticamente, só nos soltaram quando o prazo para conclusão do inquérito policial chegou ao fim e a brigada da PJ foi mandada para o Porto de onde viera. Tivemos a duvidosa honra de ter sido interrogados pela mesmíssima brigada que desmantelara a L.U.A.R.  e prendera muitos, quase todos, dos seus dirigentes e militantes.

(De facto, o Governo, num único e solitário arroubo de inteligência persecutória, entendeu confiar as investigações à Polícia Judiciária, deixando na sombra a pide-dgs.  Não só a primeira destas polícias era mais eficaz, mas sobretudo, com aquela mascarada, tentava-se evitar dar conteúdo político evidente à repressão. Claro que esse objetivo não foi atingido ou foi-o em dose extremamente reduzida que os tempos já não permitiam grandes distinções.)

Os jornais de hoje não parecem muito interessados na efeméride e não os culpo especialmente. A imprensa, mesmo a melhor, ocupa-se muito da espuma dos dias e pouco do que se passou há tanto tempo. Todavia, agora que a idade vai pesando, que a morte já ceifou muitos dos nossos amigos, colegas e companheiros, que as perspectivas são o que são, convém, mesmo nesta áspera solidão, lembrar esse dia, esses dias que se foram se medo, violência e chumbo também não deixaram de ser de vinho e de rosas.

 

 

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.