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Incursões

Instância de Retemperação.

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Instância de Retemperação.

au bonheur des dames 408

d'oliveira, 23.12.14

É Natal os mortos espreitam

 

 

 

Leio de uma rajada o “testamento de Vasco Graça Moura”, aliás de vgm tudo em letra pequena e relembro o amigo com quem tantas vezes discuti asperamente, o “bom cavaquista” que me punha em fúria mas que, honra lhe seja, o foi sempre de cara lavada e inteiro.

O Vasco era um sacana: tudo lhe saía bem, versos, fados, mulheres... E filhos que os teve vário(a)s de vária mães, claro.

Morreu de botas calçadas, como no velho oeste ou mais loginquamente na época de Villon que ele tão bem tratou. Diz quem o viu nos últimos dias, que, mesmo com dois cancros às costas, ele queria e conseguia ir trabalhar  aflito de dores e com a certeza da morte.

Relembro-o agora, tardiamente, talvez porque o Natal, e o seu cortejo de ausências, é já amanhã e ele será mais uma à mesa de filhos, mulheres, amigos e leitores.

E mesmo que, para tantos, pelo menos para os cristãos, o Natal –tanto quanto a Páscoa, ou mais ainda - seja uma festa da vida mais viva ainda por ocorrer num dos dias mais pequenos, ou numa das noites mais compridas, possa parecer de mau gosto esta chamada dos mortos, eu julgo que esta é a altura de relembrar os que já não são, as cadeiras vazias à volta da mesa do bacalhau da consoada e da pequenada que aguarda em ânsias a hora das prendas.

E já que estamos nesta maré vasante, hoje mesmo acordei com mais dois mortos de ontem: o António Montez e o Joe Cooker.

O primeiro, meu amigo desde que arribou a Coimbra, expulso da universidade de Lisboa em 1962, foi meu companheiro de mesa de café e, mais do que isso, iniciou-me a mim e mais um par de rapazolas nos segredos da função teatral pois já tinha algum ofício da arte e fora mesmo vago colaborador num filme. Para nós, provinciais de Coimbra, aquilo era muito mundo. Depois, nesses anos de vinho e rosas, rapidamente se meteu no CITAC e por lá mostrou o talento inato com que algum deus generoso o contemplara.

Era um actor e um profissional a sério. A vida separou-nos, cada um para o seu lado, mas ainda participei numa mesa redonda televisiva em que ele defendia (contra mim) as virtudes da dobragem cinematográfica. Os anos passaram, vinte ou mais, e felizmente os filmes ainda por aí passam legendados.

Agora que morreu, chovem encómios e boas palavras que nem sempre acompanharam a sua longa carreira. A vida é assim e a morte esconde amigos e inimigos no mesmo silêncio amargo.

De Joe Cooker não posso dizer que tenha sido amigo. Admirador, claro, fui e sou, mas amigo não. Vi-o pela primeira vez no filme sobre Woodstock e comoveu-me indelevelmente, definitivamente, a sua espantosa interpretação do “with a little help of my friends”. Atrevo-me a dizer que a interpretação dele é melhor do quee a dos Beatles e juro que estes (com muitos, imensos, outros) estão no meu panteão musical, nas estantes dos discos, no Ipod, na pen que trago no carro, em disco, em cd e em dvd. Diria até que ele, The Band, Credence Clearwater Revival, Richie Havens, Canned Heat, The Who e Jimmy Hendrix foram os momentos mais altos de um concerto absolutamente excepcional. Deixo de fora outros grandes músicos mas foram estes aqui citados os que mais me empolgaram. Porventura porque os conhecia pior do que a Joan Baez, a Janis Joplin ou os eternos Crosby, Steels, Nash and Young Deus os abençoe a todos!) ou por qualquer outra desrazoável razão. Mesmo se, a gravação do concerto não dá a melhor versão de qualquer uma das músicas apresentadas. Mesmo, disse, ponto e vírgula: o with a little help foi absolutamente estarrecedor. Glorioso! A história com letra grande ou pequena, tanto faz, passou por ali enquanto Cooker cantava.

Não sei se o Montez ( como o Vasco, aliás) que era da minha idade gostava do Joe Cooker. Se o vgm sentiu essa intensa comoção. Sei, todavia, que os três foram para mim a little help of friends e se há coisa que eu não sou é ingrato. Eu como diz um outro bom amigo sou cão que conhece dono. Leal, fiel, e reoconhecido. Com a ajuda deles tentei ser um pouco melhor, acho que fui um pouco melhor, espero que quando me for, e já não deve faltar muito, que os anos pesam, alguém me recorde da mesma maneira. Ou quase...

Leitoras e leitores que me lêem, obrigado por isso, pela vossa generosa paciência. Tenham um bom dia, um bom mês, um melhor ano que este foi para esquecer. Mas não esqueçam os amigos, estes amigos meus e seguramente vossos.

Boas festas, bom ano.

 

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